31 janeiro 2009

Como disse?

(a imagem do Escher fui buscar aqui)
Oiço mal.
Isto é, oiço o que me dizem mas compreendo mal. Deve haver uns circuitos na linha interpretativa que me fazem não perceber o óbvio.
Esta minha incapacidade (aqui não é mania, é mesmo uma incapacidade), quando não detecto a tempo que está a acontecer, leva a alguns diálogos absurdos. Felizmente consigo disfarçar na maioria das vezes.
A razão é sempre a fonética. As regras da nossa língua fazem com que, por exemplo, um 's' em final de palavra quando junto a uma vogal que inicia outra palavra soe como 'z'. O exemplo que se dava na faculdade era o das «janelazamarelas». Como não sei usar aqui o alfabeto fonético, vou ligar as palavras, tal como as ouço, para mostrar como funciona:

Ela - Arranjei-te «umachpinhas» para comeres.
Eu - Umas espinhas?

Ela - Sim, «umachpinhas». Não gostas?

Eu - De espinhas?

Ela - LOL. Não.
Sopinhas!
Eu - Ahhhh!


Ele - Tens aí «umapinha»?

Eu - Uma pinha?

Ele - Sim. «Umapinha».

Eu - E para que queres tu uma pinha?

Ele - Para ver qual o melhor caminho para chegarmos lá.

Eu - Ahhhh! Um
mapinha!
Ele - E não foi o que eu disse?


Isto vem de longe, muito longe.
Nos meus tempos de escuteira, adolescente, fomos a um festival da canção escutista e concorremos com uma letra escrita pelo nosso chefe da altura, um digníssimo bloguista que visita este espaço (não sei se quer que o identifique). Uma das palavras que ele lá pôs intrigou-me: «praicidade». Ele há tantas palavras terminadas assim: a unicidade, a duplicidade, a simplicidade... o que seria praicidade?
Só quando vi escrito percebi. Dizia a frase «para isso idade».

Recuando mais, criança pequena, quando me benzia «pelo sinal da santa cruz...», ficava intrigada, pois bem me esforçava para encontrar nas cruzes que via onde estava o pêlo e o sinal, como aqueles que algumas velhas tinham na cara.

Cataloguei isto como o faz o Bagaço Amarelo no seu blogue: coisas tão estúpidas que até tenho vergonha.

23 janeiro 2009

O meu Padre

Quando eu era criança, raros eram as que não andavam na catequese ou não escolhiam a disciplina de Moral e Religião.

Em relação a esta última, esperávamos ansiosamente chegar ao 8º ano para sermos alunos do Padre Guerra (P.e Fernando Guerra Ferreira, que já referi neste outro post). Ali líamos livros que nos faziam pensar em realidades até então completamente desconhecidas. Lembro-me do Perguntem à Alice ou de Viagem ao Mundo da Droga. Naquelas aulas discutíamos todos os assuntos de que os jovens de 13, 14 e 15 anos gostam, sem preconceitos.

O Padre Guerra marcou, definitivamente, a nossa geração. Até teve a ousadia de abrir os escuteiros às raparigas! Até então, no agrupamento da minha terra só havia Akelás, as que tomavam conta dos Lobitos, mas ele fez com que se constituísse uma primeira patrulha feminina (da qual fiz parte).
A mim, marcou também a minha carreira profissional. Quando tinha de escrever algum conceito relativo à antiguidade clássica, usava caracteres gregos, o que me deliciava. Como eu gostava muito de história daquela época, a aprendizagem das línguas antigas foi a consequência natural.

Costumo referir-me a ele como «O meu Padre» (começo a perceber uma atracção pelo possessivo nos meus - outra vez! - escritos), pois foi dos educadores que mais me marcou na adolescência e que me fez sentir parte daquilo que, então, explicou que era a Igreja.

Mas a Igreja não era bem como ele dizia eu segui outro rumo, mas isso são outros quinhentos.

18 janeiro 2009

Afinal não era literatura oral...

O meu pai contava-me histórias de terror, mas eu não tinha medo nenhum!
Devia ser porque ele era muito expressivo e eu ria-me.
Ouvi esta tantas vezes que a aprendi de cor.
Um dia, em conversa com o meu digníssimo colega Dias Marques ( JJ para os amigos), o homem da literatura oral (e agora das lendas urbanas - ops! lendas vivas é que é!), contei-lhe e ele conseguiu identificar o autor (tenho de lhe voltar a pedir a informação, pois não me lembro de quem era, apenas que era do séc. XIX).
Para mim era literatura oral. Cá vai:

Vem cá, meu Paulo, escuta: és amigo de tua mãe?
- Oh, minha mãe, que pergunta!
- Basta, meu Paulo, pois bem. Faz 20 anos – e dizendo, tira do seio um punhal - que teu pai morreu a golpe deste ferro, para meu mal, e eu, para vingá-lo, fiz uma jura fatal...
- Uma jura? Mãe santíssima! Oh, minha mãe, o que jurou?
- Jurei por este sangue, que em ferrugem se tornou, que tu matarias aquele que teu pai matou. Matas?
- Mato.
- Matas, seja quem for?
- Mato.
- Ainda que a vingança te tire ao seio o amor?
– Mato.
- Toma este ferro, é Ricardo o matador.
- Ricardo, o pai de Maria? Oh, minha mãe, perdoai...
- Pela amante o pai esqueces, filho ingrato? Parte, vai! Cumpre a jura ou sê maldito se não vingas teu pai.
Nessa noite, tinto em sangue e com os cabelos no ar, o assassino de Ricardo vai aos pés da mãe lançar o punhal com que jurara a morte do pai vingar.
Ri-se a velha de contente e abraça o vingador, mas eis senão quando aparece na porta uma estátua de dor:
- Paulo, meu Paulo, perdi meu pai, não vês? As lágrimas que aqui derramo assistiram ao seu fim. Quis falar-me e já não pode, com os olhos fixos em mim. Tu vingas-me, meu Paulo, sim?
- Vingo, Maria, sossega, eu sei quem teu pai matou, vai morrer com o mesmo ferro que ainda há pouco o transpassou.
E pegando no punahl no próprio peito o cravou...
Foge a triste espavorida, deixa Albano sem parar, chega a Roma ao outro dia, por toda parte a gritar:
- "Quem me mata por piedade, quem me acaba de matar?"
E assim vagueou três dias e ao quarto enlouqueceu.

Por isso o viajante, quando passa ao Coliseu, ouve a triste às gargalhadas, vingança pedindo ao céu!

14 janeiro 2009

Amor sem idade

As tuas rugas, Filina, valem mais do que a seiva
de toda a juventude. E eu prefiro ter nas mãos
os teus pomos de pontas caídas
que o seio direito duma jovem na força da idade.
O teu fim de Outono é superior à primavera de qualquer outra
e o teu inverno mais quente que o seu estio.

Paulo Silenciário (Antologia Palatina, 258)
em tradução de Albano Martins, Do Mundo Grego Outro Sol, Lisboa, Asa, 2002.
Mais sobre amor em idade madura aqui.

10 janeiro 2009

Confissões de uma «juke-box» ambulante salva por uma correnteza

Hoje ganhei coragem e vim actualizar o blogue.
Isto de se estar muito tempo sem escrever é um problema: tendo deixado passar datas como o Natal e o Ano Novo sem agradecer os votos e as gentilezas que me enviaram, a vergonha de não o ter feito foi crescendo e cada dia que passava a necessidade de dizer algo que realmente merecesse a pena impunha-se com mais premência.
E o tempo a passar-se e eu cada vez com mais problemas em encontrar um assunto que me levasse a sair deste estado de falta de... nem sei bem o quê.
Pronto.
É hoje. Não é tarde nem é cedo.
E começo com uma confissão de um defeito que tenho: sou, praticamente, uma juke-box ambulante. Mas não uma juke-box com aqueles temas de que mais gosto, cantados afinadamente, postos a tocar quando nos encontramos num determinado ambiente (um daqueles em que há uma juke-box, bem entendido).
Não.
O meu defeito é muito incomodativo. Para os outros, porque, pode denotar falta de atenção ao que me dizem (o que não é verdade) e pelo desafinanço; para mim, porque me sinto ridícula. É verdade. Completamente.
O que se passa é o seguinte: uma pessoa está a falar comigo e, de vez em quando (não é sempre, vá lá), há uma palavra que diz e que funciona como a ficha que se introduz na juke-box e faz sair a canção.
Os exemplos são os mais absurdos, pois a canção que sai normalmente não tem nada a ver com o assunto de que se fala, mas acontece apenas porque uma palavra ou expressão também aí se encontra contida.
É absurdo, eu sei. E ridículo.
O que vale é que, na maior parte dos casos não verbalizo (ou seja, poupo o interlocutor ao meu canto) e isto passa despercebido.
Um exemplo:
Alguém: Bem, então adeus. Vou-me embora.
Eu (em pensamento, surge o Sérgio Godinho): «E agora eu vou-me embora, e embora a dor não queira ir já embora, agora eu vou-me embora e parto sem dor. E parto dentro de momentos, apesar de haver momentos em que a dor não parte sem dor.»

Pois é. Eu sei. Não é preciso dizer nada.

Mas então não é que recebo um desafio da Ana para fazer parte de uma corrente que apela, de algum modo, a esta minha mania? Pertence pôr aqui uma foto, mas como não estou em casa, não tenho aqui arquivos (ponho depois). O que interessa é que tenho de responder às perguntas que me fizeram com títulos de canções! Eheheheh! O sonho que realiza a minha mania! Deixou de ser um defeito e passou a ser adequado para esta corrente!
Aqui vão as respostas. Escolhi os Beatles (têm de ser de uma única banda ou cantor). E passo à minha querida sobrinha Rita, à Sara, ao Zé Bandeira e à Gi.
  1. És homem ou mulher? Girl
  2. Descreve-te. Free as a bird
  3. O que as pessoas acham de ti? "She's a Woman" e "To Know Her is to Love Her"
  4. Como descreves o teu último relacionamento? "The End"
  5. Descreve o estado actual da tua relação. "Real Love"
  6. Onde querias estar agora? "Memphis, Tennessee"
  7. O que pensas a respeito do amor? "I Want to Tell You"
  8. Como é a tua vida? "It's Only Love"
  9. O que pedirias se pudesses ter só um desejo? "Every Little Thing"
  10. Escreve uma frase sábia. "Think for Yourself"