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08 setembro 2008

«Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto»

Às voltas com as arrumações, abriu-se esta dedicatória nas primeiras três páginas do livro que a minha sobrinha R., que eu adoro, me ofereceu num dia do meu aniversário, há muitos anos atrás:


Querida Tia (A Tia):

É a primeira prenda que te ofereço em dezanove anos, de modo que a responsabilidade que fulmina os meus frágeis ombros é demasiada!
De qualquer modo, momentos solenes (e felizes) nunca se desperdiçam, por isso vou dar o meu melhor na minha (também) primeira dedicatória que te escrevo.
Este livro é a condensação da desilusão do português suave. Senti o cinzento da melancolia de Lisboa que há tanto tempo esqueceu o que é ser a sede do V Império, a monotonia quer do cidadão comum que sabe que não consegue raiar a mediania, quer do pretenso revolucionário apenas acalentado pelos sonhos da revolta, mas sufocado pela realidade da rotina.
E há ainda a mediocridade arrogante da Elsa Galvão, a personificação de tantos e tantos compatriotas que manipulam subrepticiamente o nosso quotidiano.
Gostei do sarcasmo e da ironia, da auto-crítica despida do barroco que o constatar da decadência acarreta sempre.
Acima de tudo, gostei e espero que gostes.
Despeço-me, finalmente, porque já me alonguei demais. Nem devo ter dito nada do que ensejava, mas pelo menos, se fui eu que escrevi, alguma coisa esta dedicatória há-de ter de mim. Deve ter muito, considerando que a escrevo para ti.

P.S. É sempre bom trocarmos umas ideias sobre todos os assuntos! (Toda a gente se esquece disso!)

P.S.2: Desculpa ter utilizado tantos pontos de exclamação. Cada vez que uso um lembro-me sempre do insuperável Adrian Mole que, ao receber uma carta de amor de uma rapariga que não corresponde aos seus elevados parâmetros intelectuais, afirma peremptoriamente que não seria capaz de casar com alguém que recorresse tão frequentemente e indiscriminadamente às exclamações.
Apesar de tudo, tal afirmação permaneceu na minha memória e, inexplicavelmente, não posso deixar de pensar que ele tem alguma razão! (Ah! Ah!)