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15 setembro 2008

fragmentos...


Comprei este livro. Já saíu em Abril, numa edição da INCM e em tradução de Carlos Martins de Jesus, mas só agora veio parar à minha mão. Ao procurar a imagem do livro, encontrei-a aqui, acompanhada de uma grande crítica, o que me dispensa de o fazer.

Enquanto lia Arquíloco, lembrei-me da graça que acho a fragmentos. E admiro quem consegue, de breves linhas, por vezes muito truncadas, retirar algum sentido.

Há muitos anos, ao ler os Poemas e Fragmentos de Safo, por Eugénio de Andrade, encontrei um dístico lindíssimo:

Pudesse esta noite durar
não uma mas duas noites inteiras

Quando procurei o texto grego (fragmento 197, L.-P.) , encontrei o que se segue, escrito por Libânio:

Se ninguém impediu Safo, de Lesbos, de dirigir uma prece à noite para que, para si, durasse duas vezes, também a mim seja possível fazer um pedido semelhante.

Alguém, desavisado, ao ver um livro de fragmentos, pode imaginar que isso é o resultado da tradução de pedacinhos de manuscritos encontrados em qualquer extraordinária escavação. Como este exemplo mostra, Libânio é do séc. IV e o que temos dele é uma citação, de memória, provavelmente, de algo que lera ou que ouvira dizer que Safo, uns 900 anos antes, dissera...

Através de citações que outros nos trouxeram, vamos podendo recompor o que teria sido a obra de este ou de aquele poeta.
Ler fragmentos é, de facto, um trabalho que exige muito conhecimento do que se tem escrito ao longo dos séculos, mas, também, muita imaginação.

24 junho 2008

Poesia Arcaica???

O que acontece quando nos apaixonamos? Por que razão o amor não correspondido é um tormento? O que vemos exactamente quando olhamos para a pessoa amada? Estas perguntas são de todos os tempos. Mas também tiveram «o seu tempo». E nunca floriram em estação poética mais perfumada do que naquele dealbar de rouxinóis a que os especialistas chamam Lírica Grega Arcaica. A qual - pelas perguntas que lhe servem de temática (como já se viu) - é tudo menos «arcaica».
Na forma, é de uma sofisticação que ainda hoje nos deixa pasmados. Na expressão, é tão incomparavelmente subtil que, ao lado dela, a poesia subsequente arrisca-se a parecer-nos
kitsch e ordinária.
«Arcaica» é, portanto, uma designação meramente periodológica, referindo-se ao período, na Grécia, que compreende os séculos VI e VI antes de Cristo.

Arquíloco, Álcman, Mimnermo, Safo, Alceu, Íbico, Estesícoro, Anacreonte. Poetas absolutamente geniais.

Faço minhas as palavras do Frederico Lourenço (Grécia Revisitada, Livros Cotovia, 2004).
Neste blogue já foram publicados alguns poemas. Pode lê-los aqui, aqui, aqui e noutros lugares.
Deixo um, traduzido por mim, no ano passado:

As minhas fontes já estão grisalhas
e a minha cabeça branca;
A fresca juventude já não está comigo,
Os meus dentes estão velhos
E já não me resta muito

tempo da doce vida ;
Por isso lamento-me com frequência,

receando o Tártaro: pois
as profundezas do Hades
são terríveis, e a descida para lá
é difícil; e também é certo que
quem desce não volta a subir