10 outubro 2006

Zéfiro? Não... Zéfira!

Zéfiro é o nome do vento oeste, o vento da Primavera...
Homero, na Odisseia (tradução de Frederico Lourenço para Livros Cotovia, em 2003), chama-lhe «pernicioso»...
Em XII, 408 e seguintes, conta como chegou
o Zéfiro guinchante com grande rajada de tempestade.
A força do vento quebrou as cordas do mastro,
ambas: o mastro caiu para trás, e todo o equipamento
caiu no porão; na proa da nau, o mastro atingiu a cabeça
do timoneiro e partiram-se-lhe os ossos do crânio.

Ora, não tendo nada contra o pobre do homem do leme, rachou-lhe a cabeça, imagine-se o que podia fazer despeitado!
Dizem alguns que, por esse sentimento (ou inveja, ciúme, que vai dar ao mesmo na história), foi ele o culpado pela morte de um mancebo por quem estava enamorado.
Conta-se que o rapaz preferia os favores de Apolo e um dia, quando estes dois jogavam ao lançamento do disco, Zéfiro soprou com mais força, fazendo com que o jovem fosse atingido mortalmente na cabeça.
Jacinto era o seu nome e, do sangue que derramou, Apolo fez nascer uma flor assim chamada em sua memória.

(Não sei por que razão este vento não tem uma entrada própria no Dicionário de Mitologia Grega e Romana do Pierre Grimal, na minha edição - 1992, Difel, tradução portuguesa)

E Zéfira é o nome da loba que acabei de adoptar. Vejam a foto dela. Está magrinha...

A Zéfira e outros lobos esperam mais pais adoptivos. Quem estiver interessado, pode contactar o Grupo Lobo, clicando aqui.

09 outubro 2006

O Moinho do Reboliço

Os Soares proporcionaram-me uma bela tarde de Sábado! Obrigada!
À chegada, o senhor Soares marcava a zona em que as velas iriam rodar, para proteger as cabeças que por lá iriam andar ao vento! Eu ainda não sabia que aquelas «bolinhas» que dali se viam eram pequenos cântaros, as «cantarinhas», que serviam para o moleiro perceber que as velas giravam e de que lado soprava o vento.


Tive, em seguida, uma visita guiada ao interior do moinho, onde conheci a equipa que pôs tudo aquilo a andar. Mas quem conta bem é o Reboliço, aqui e nos postais subsequentes.
Tirei uma fotografia ao tecto...


Para terminar, a última foto do dia, já o sol dourava as velas, enquanto as cantarinhas assobiavam, assobiavam...

O que ando a ouvir: «Stabat Mater» de Marco Rosano


Cantado pelo «celestial» Andreas Scholl.
E o CD que ainda não saíu!

Peço desculpa pelo lugar-comum, mas só me vêm à cabeça anjos...
Acreditasse eu em querubins, aqueles que não estivessem a tocar as cornetas

(ou outros instrumentos, porque os anjos são muito versáteis!) estariam a cantar... com a voz do Andreas Scholl!
Num outro post autocritiquei-me por ter a mania do Andreas Scholl.
Pois tenho. E de outros. Sou assim... de manias!
Noutro dia falarei de outra voz que me apaixona: Angelo Manzotti.



















Imagens: http://yeti.gardena.net/ e http://www.geocities.com/magnificat_zespol/angels.jpg

08 outubro 2006

Para as mulheres com mais de sete lustros...

Mas sempre que quiseres chegar a uma Vénus já madura,
ainda que pouco tempo insistas, hás-de alcançar um justo prémio.
Arte de Amar, II,701-702

E correm para aí umas anedotas sobre o facto de os homens não se importarem com o nosso prazer!

Pois...
Alguns não...
Mas há 2000 anos, escrevia-se assim:

Elas sentem o prazer sem artifício;
para dar gozo, devem senti-lo igualmente a mulher e o homem.
Odeio o acto de amor que não faz soltar ambos os parceiros
(eis porque me apraz menos o amor com rapazes);
odeio aquela que se entrega por ser preciso entregar-se
e que, na sua secura, só pensa na sua lã;
prazer cedido por dever não é prazer que me dê gozo;
um dever, que nenhuma mulher o pratique comigo.
A mim, apraz-me ouvir gemidos que façam sentir o gozo dela,
e que me suplique que me demore, que me aguente;
quero ver os olhos rendidos da mulher, já fora de si,
e que ali fique desfalecida e largo tempo não queira que lhe toque.
Tais bens não os concedeu a natureza nos alvores da juventude;
é logo depois de sete lustros que costumam aparecer.
Quem tem pressa beba vinho novo; para mim, que faça escorrer um velho
vinho a ânfora arrecadada desde o tempo dos antigos cônsules.
Arte de Amar, II, 681-696

Belíssima tradução de Carlos Ascenso André, para a Livros Cotovia, em 2006.



(a capa original é rosa-choque e não este roxo senhor-dos-passos!!)

Os Infernos - «Metamorfoses» de Ovídio

Há um caminho em declive, ensombrado pelo teixo funesto,
que, por inominados silêncios, leva às moradas infernais.
Por aí exala o inerte Estígio seus vapores, e descem as últimas sombras

e os espectros dos que foram dados à sepultura.
A Palidez e o Frio dominam esses hediondos lugares em toda

a extensão, e os novos manes não sabem onde é o caminho que leva
à cidade Estígia, onde está o terrífico palácio do negro Plutão.
A espaçosa cidade tem mil amplas entradas e portas abertas
por todo lado.
E assim como o mar recebe os rios de toda a terra, assim recebe

aquele lugar todas as almas. E não é apertado para povo nenhum,
nem se ressente com a chegada da multidão.
As sombras, sem carne e sem ossos, erram exangues.
Apinham-se umas no foro, outras no palácio do Senhor dos Infernos.
Cumprem outras algumas tarefas, imagem
da vida passada. O merecido castigo reprime a outra parte.

Ovídio, Metamorfoses, Livro IV, 432-446. Tradução de Domingos Lucas para a Vega.
Segue o convite para o lançamento, já na próxima terça-feira.




«Plagius Maximus» (2)

Agora sim, o comunicado já está disponível no Caderno de Corda e n' A Sombra (bem como o pedido de desculpas do Provedor da RTP) para todos os que se quiserem associar.

07 outubro 2006

A filha do Moleiro


Hoje vou à festa de (re) inauguração do velho moinho do Reboliço, mesmo ali na rotunda, à entrada de Beja.
Gosto mesmo de moinhos, habituada que estou, desde criança, a mirá-los. Em alguns, cheguei mesmo a entrar e a vê-los trabalhar. E até conheci o senhor moleiro...
As histórias para crianças também ajudavam, pois a filha do moleiro era sempre muito inteligente e dava a volta aos príncipes e reis cá com uma pinta!
E o «meu» Oeste escolheu o moinho como imagem de marca... para o turismo.

Recuperado a rigor, vou adorar rever este moinho!
Obrigada aos Soares!

06 outubro 2006

Xantipa, a gata

A todos quanto perguntaram pela gata Xantipa, informo que a operação correu bem e que está a descansar...

Correcção - «Plagius Maximus»

A Sombra pediu-me para esclarecer que o comunicado a que se refere o link que coloquei não é o comunicado final a ser enviado para o Provedor do Telespectador no dia 8, o próximo Domingo. «Esse será publicado n'A Sombra e no Caderno de Corda às zero horas de Domingo, junto com as instruções sobre como agir em conjunto».
Aqui fica a correcção!

Sofistas: Testemunhos e Fragmentos

Andei anos atrás do Diels-Kranz (DK), Die Fragmente der Vorsokratiker. A AbeBooks mandava-me mensagens a dizer que o tinha encontrado, mas quando eu ia ver, um tipo qualquer americano já o tinha comprado umas horas antes... isto dos fusos horários!
Numa noite de insónia tive sorte e lá me chegaram os volumes, por 100 dólares, com aquele cheirinho de livro em segunda mão e o nome, em letra (quase) gótica, do seu dono anterior.
Mas o que aqui trago é uma versão portuguesa, já de 2005. Sabia há uns tempos que a Ana Alexandra Alves de Sousa e a Maria José Vaz Pinto tinham publicado a tradução, mas «ainda não tinha tido oportunidade» (eufemismo para «desleixo») de a comprar.
Cá estão eles, os fragmentos todos, com um bónus: o tratado anónimo Do Não Ente, De Melisso Xenophane Gorgia.

05 outubro 2006

«Plagius Maximus»

Solidarizo-me com a iniciativa que li aqui e aqui sobre o plágio de que o Caderno de Corda foi vítima por parte da... RTP!
Estes espaços são da autoria dos seus criadores, para o bem e para o mal, citando e sendo citados.
Convido todos a lerem o comunicado que se vai enviar para a RTP, no Domingo, dia 8 de Outubro e, em nome de todos os que não querem ver os seus textos plagiados, a associarem-se à «manifestação».

O que é legal (justo?) versus o que é natural (1)

Os debates sobre o tema acima indicado são inúmeros e infindáveis, mas como ainda é actual, aqui vai «mais uma achega para a fogueira».
Esta motivação surgiu de conversas com amigos, firmando cada vez mais o meu gosto pelos antigos: quanto mais leio os clássicos, mais próximos os percebo da nossa realidade. No outro dia, numa discussão sobre reformas e leis que o Governo quer fazer aprovar – e vai conseguir, pois tem a maioria absoluta – lembrei que as leis são feitas pelos homens e que «cá se fazem, cá se… mudam».
E se as leis foram passadas a escrito, conscientemente elaboradas por homens, tempos houve em que a sua base era apenas divina. No entanto, aqueles que pensavam discutiam quer a autoridade das leis não escritas, quer a das escritas – quando estas não respeitavam a natureza humana.
Vou cingir-me a esta última disputa, a que opunha a lei (nomos) à natureza (physis), dada a impossibilidade de compatibilizar a evidente contradição de duas fontes de valor: por um lado a ordem cósmica (a natureza das coisas), por outro a vontade dos homens (sendo as leis o fruto da acção humana).

O sofista Antifonte afirma que «a maior parte das coisas que são justas segundo a lei entram em conflito com a natureza». Hipócrates, num contexto médico, também opõe estes termos: «Pois a lei é o contrário de natureza no que diz respeito a estas coisas». Crítias, membro do governo dos «Trinta Tiranos» de Atenas, defende que os deuses não passavam de uma criação dos homens:

Também Crítias, um dos tiranos de Atenas, parece que era do grupo dos ateus, dizendo que os antigos legisladores formaram um deus como um inspector das acções dos homens, boas e más, para que ninguém injuriasse o seu próximo secretamente mas que o honrasse com receio da vingança dos deuses.

E, mais adiante, acrescenta-se que o tragediógrafo Eurípides teria defendido estas ideias, pondo na boca de uma personagem que um homem sábio «inventou para os mortais o temor [pelos deuses], de maneira que os maus tivessem medo até do que fizessem, dissessem ou pensassem em segredo».
Esta subversiva visão das divindades e das leis morais, por um lado, reduz os deuses a uma mera ficção, por outro, desacredita completamente as intenções dos legisladores.
No Górgias, de Platão, aparece-nos o orador Cálicles, uma figura relevante no debate entre nomos e physis, cujas teses só não ganham maior proeminência pelo simples facto de não ser possível asseverar a sua historicidade:

Dir-te-ei francamente o que é belo e justo segundo a natureza: aquele que quiser viver bem deverá deixar crescer à vontade as suas paixões, sem as reprimir, e, por maiores que elas sejam, deverá ser capaz de as satisfazer graças à sua coragem e inteligência, dando-lhes tudo aquilo que elas desejarem.
Claro que isto não é acessível à maioria, que censura estes homens por vergonha, para ocultar a sua própria fraqueza. Por isso ela declara, como há pouco observei, que a intemperança é vergonhosa, com o objectivo de escravizar os mais bem dotados pela natureza, e como não pode dar às suas paixões satisfação completa louva por cobardia a temperança e a justiça.
[...] A verdade que tu dizes perseguir, Sócrates, é, na realidade, a seguinte: a vida de delícias, a intemperança e a liberdade sem freio, quando favorecidas, são a virtude e a felicidade. O resto são palavras bonitas e convenções sociais contrárias à natureza, que não passam de tagarelice estúpida sem qualquer espécie de
valor
.(491e-492c).
(Tradução de Manuel de Oliveira Pulquério, Edições 70, Lisboa, 1992)

Esta tese tinha sido já apresentada no início da intervenção do orador no debate que opõe os três retóricos a Sócrates (482e-484c). São aí avançados dois pontos de vista importantes para qualquer abordagem da questão nomos/physis. O primeiro, a que me referirei adiante (se hoje não tiver tempo, amanhã continuo), seguindo uma referência de Aristóteles ao Górgias, é a de que nomos e physis eram dois conhecidos topoi nos debates sofísticos. O segunda é a que acabei de referir e que Cálicles reprova. No passo que reproduzo a seguir, com a sua enérgica condenação do nomos, Cálicles manifesta total solidariedade de pontos de vista com a defesa do ateísmo de Crítias:

Quanto às leis, estou convencido de que são feitas pelos fracos e pela grande massa, que agem exclusivamente no seu próprio interesse, fixando o que é digno de louvor e o que é digno de censura. Para assustarem os mais fortes, aqueles que têm possibilidade de se superiorizarem, e para não se deixarem ultrapassar por eles, dizem que toda a superioridade é vergonhosa e injusta e que a injustiça não é mais que querer estar acima dos outros. Como não têm valor, sentem-se felizes, creio eu, por colocar todos ao seu nível.
É por isso que a lei considera injusto e vergonhoso o desejo de ser superior à maioria, e é a isto que chamam injustiça. Mas a própria natureza, em minha opinião, demonstra que é justo que o melhor esteja acima do pior e o mais forte acima do mais fraco.
Id. Ibid., 483b-d

Caracterizar esta posição – tal como a de Crítias – como «imoralista», confinando-a ao domínio da ética, constitui apenas uma condenação. Parece-me mais interessante a tentativa de as encarar como um sintoma do clima dos debates sofísticos na Atenas do pós-Péricles, compreendendo claramente que a relevância destas posições é muito mais política do que ética (ou que a segunda decorre da primeira). No fundo, o que os dois oradores querem tornar claro é que se consideram acima das leis e dos valores que regem o comportamento dos outros homens, encarando como legítima qualquer tentativa de manifestarem a sua superioridade pela tomada do poder pela força. O facto é, de resto, confirmado pela história, no caso de Crítias.
Nota: as traduções não identificadas são da minha responsabilidade.

04 outubro 2006

paralisia/paralesia/paralepsia

Chamou-me um leitor a atenção para o facto da palavra «paralesia» estar mal escrita. Agradeço o alerta. A boa forma, a querida pelo autor do poema, depois de boa conversa, era «paralepsia». Falhou-me o «p». Fiz um copy/paste de um original que tinha no computador, posterior à referida conversa. Sei que o Pedro me perdoaria...
Recorrendo à memória, a dita resume-se a isto:
«- Vê lá se me corriges isso aí.»
«- Começo pelo título: «paralisia», não «paralesia.»
«- Paralisia vem de onde? Do grego?»
«- Sim, do grego parálysis. »
«- Não existe uma coisa parecida na retórica? Não há a prolepse e outras figuras do género? Aquela em se diz que não se vai dizer…»
«- Sim… Há a paralepse. Em grego, paráleipsis é, precisamente, a acção de omitir… E…?»
«- E eu quero omitir, quero que se leia o que escrevo e que se perceba aí o que não escrevo. Se há parálysis que deu «paralisia», havendo essa paráleipsis, devia ser «paralepsia» e não «paralepse»… Aliás, devia ser «paralesia», que esse «p» não está aí para nada.»
«- Deixa lá ficar o «p», pá! Não inventes de mais!»
E rimo-nos muito. Paralepsia fique.

Pedro Vieira 25 de Janeiro de 1967 - 4 de Outubro de 2005

Então senti-me verdadeiramente um exilado e senti que o meu
nervosismo me iria tornar permeável àquilo que - à falta de
melhor palavra - devo chamar poesia. Jean Genet

Uma verdade mais verdadeira
Verdade verdadinha
Ou uma verdade menos verdadeira
Mas ao menos uma verdade mesmo minha

§§§§§§§§§§§§§§§

Quando eu morrer
O transporte pouco me importa
Mas não batam em latas por favor...
Façam antes com minha pele morta
Belas batidas de tambor.
Que sonho ser dançado!!!
E finalmente dirão: Eis um homem
Realmente aproveitado.

__________________________________________
Fazer-se poema. Escrever-se a lápis e depois apagar-se.
Colocar num envelope as aparas resultantes do acto e
enviar isso, anonimamente, ao amor maior.

O último post...

No dia 3, ao fim do dia,
o Pedro deixou um post-it ao Bart:

«Vou até ao bairro
Procuro-te
Se não hoje, amanhã
Um abraço»


Foi encontrado na manhã de dia 4, sem vida, na praia de Algés.

Pedro Luís Baltazar Vieira, 25 de Janeiro de 1967 - 4 de Outubro de 2005
Foi a sepultar no Bombarral, onde viveu grande parte da sua vida.

03 outubro 2006

De uma carta com 2000 anos...

Há 6 anos que o meu mundo anda a dar voltas.
«Sou nova de mais para ter tantos amigos a desaparecerem», lamentava-me.
Neste 6 anos foram muitos, demasiados, aqueles que eu amava e partiram... pai, irmão, sogros, amigas, amigos...
Fui buscar ao computador uma carta a que tenho, infelizmente, tido necessidade de recorrer com demasiada frequência. Foi a primeira (Dezembro de 2000) de muitas que enviei com o texto de Séneca.
Como explica o contexto e alguns comentários, reproduzo-a. A Teresa não se vai importar, eu sei.

«Cheguei a casa e os meus olhos pousaram em Séneca, nas minhas (dele) eternas Cartas a Lucílio. Fui abrindo ao acaso e tudo fazia sentido. Ora me imaginava Séneca , ora me imaginava Lucílio. E é assim que te envio alguns bocadinhos dos pensamentos com os quais me deitei. Claro que estamos perante um mundo de homens, onde os sentimentos femininos nem sequer são tidos em consideração, muito menos a sua dor... no entanto, parecia que era para mim que Séneca estava a escrever. Incluo os meus pensamentos que foram atravessando a leitura...

Lamento profundamente o falecimento do teu amigo Flaco, no entanto a tua dor não deve ultrapassar os limites do razoável. Não ousaria exigir de ti que não sentisses o mínimo abalo perante o facto, embora isso fosse o ideal.

(aqui irritei-me, saltei parágrafos, mas ele continuou, imaginando uma pergunta por parte de Lucílio:)

«Como dizes? Então eu hei-de esquecer o meu amigo?!»

(voltei a saltar... não gostei da frase que vinha a seguir... e fui para a página seguinte:)

Age com equidade, caro Lucílio, e não interpretes mal os benefícios que a fortuna te concedeu: ela roubou-te um amigo, mas fora ela quem to tinha dado. Gozemos intensamente a companhia dos nossos amigos, até porque não podemos saber por quanto tempo o faremos. Pensemos também quantas vezes os deixámos para partir em longas viagens, quantas vezes estivemos sem os ver embora morando na mesma terra: compreendemos deste modo que, mesmo estando eles vivos, não aproveitámos a sua companhia a maior parte do tempo.

(tem razão...voltei a saltar uma página e li umas linhas soltas)

O que vou dizer-te agora é uma verdade mais do que rebatida, mas nem por andar em todas as bocas eu deixarei de a repetir: quando deliberadamente não pomos nós um termo à nossa dor, o tempo o fará por nós.

(pode ser verdade, mas a frieza dele está a irritar-me. Salto uma página. Não sei porque continuo.)

Sou eu quem te escrevo estas palavras, eu, que tão imoderadamente chorei o meu grande amigo Aneu Sereno, eu, que com grande vergonha minha me vejo forçado a incluir-me no número daqueles que se deixaram vencer pela dor!

(vá lá... está a mostrar-se mais «humano». Continuo a leitura)

Hoje, no entanto, condeno a minha atitude passada, e compreendo que a principal causa do meu excessivo pranto foi o nunca me ter passado pela ideia que ele pudesse morrer antes de mim. Ocorria-me apenas que ele era mais novo, muito mais novo do que eu – como se o destino se preocupasse em respeitar a ordem de idades! Mais uma razão para continuamente meditarmos na nossa condição de mortais, nossa e daqueles a quem amamos. O que eu deveria ter feiro era dizer: «Sereno é mais novo do que eu, mas isso que tem? Deverá morrer depois de mim, mas também pode morrer antes.» Não o fiz, e assim o súbito golpe da fortuna encontrou-me desprevenido! Neste momento medito em que tudo é mortal e que a mortalidade não obedece a qualquer lei; o que é possível, tanto é possível hoje como em outro dia qualquer. Pensemos, caro Lucílio, que em breve também nós iremos para onde foi agora, para tristeza nossa, esse nosso amigo; até pode suceder que tenham razão os sábios e haja um lugar onde todos iremos residir após a morte: se assim for, esse amigo que julgamos ter morrido, limitou-se a partir para lá à nossa frente!

Assim termina a 63ª carta de Séneca a Lucílio e é por isto que eu continuo a ler Séneca... passados cerca de 2000 anos...

Sobre uma pequena parelesia

Mão morta, mão morta
Vai bater àquela porta.
Experimenta por dentro a morte
A criança que canta
E a sua voz segue a arquitectura do movimento
Curva-se como o pulso que bate
E quando uns braços se estendem para si
Há uns braços dentro de si que se estendem sempre
Mesmo diante de uma árvore ferida.
Se eu soubesse de novo essa inocência
Com o que no corpo ainda resta do bailado
Só à volta das árvores rodaria
Quase sem palavras, apenas cantando
Mão morta, mão morta
Vai bater àquela porta.

Inédito de Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

02 outubro 2006

E o negrume fosforescente?
E o cabelo na língua?
E a ferida que ri?

Sou um arquitecto de ruínas e
De qualquer forma sempre andei à procura
De um problema para a minha solução.

Inédito de Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

01 outubro 2006

Sauromaquia

Negro e rosa na carne
Narciso
Pier Paolo Pasolini
Tinha no seu quarto
O rapaz com mar ao fundo sempre
Um sagrado coração no bolso interior
Do casaco e o temor
Da visão do alto lugar
Privilégio dos mortos familiares.
Acenderemos muitos fogos
Veneraremos todos os Lares
Hão-de gostar. Não te preocupes.

§§§§§§§§§§§§§§§§§§

A quem ao espelho a fio
Noites e noites passava
Narciso injustamente chamaram
Ao que só uma incoincidência esperava.

_________________________
Diz-me quem eu sou
Murmura-me ao Olvido
Parece que já nos desconhecemos
De qualquer outro lado


Inédito de Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

«Conversão ao Islão»

Ultimamente tenho lido muitas coisas aqui me que me incomodam... ou melhor, que me desacomodam...
Esta leitura, para onde este blogue me reenviou, incomodou-me.
Incomodou-me que a autora achasse que a pele escura fosse sinal de sangue muçulmano a correr-lhe nas veias…
Incomodou-me a sua surpresa: «This made no sense whatsoever to me – could you be a prostitute and still go to heaven just because you were Catholic, like those flashy French actresses?»
??????
E incomodou-me por muitas outras razões.

Porém, por deficiência profissional, fui ainda sensível ao revisionismo subjacente à associação de nomes como Faro ou Lisboa aos árabes. Todos sabemos que existem arabismos em português, quase todos substantivos… isso não faz de nós falantes da língua árabe pelos pouco mais de mil vocábulos que herdámos (falar por falar…falamos Latim!).
Como se o nome de uma coisa determinasse a sua pertença. As razões porque um nome permanece imiscuem-se na sua história, à qual não se pode retirar um pedaço e dizer «este é que conta!»
Faro, antes dos muçulmanos, teve cá os romanos, por exemplo... e antes, os cartagineses... os gregos… os fenícios… Pela leitura do depoimento até parece que foram os árabes que fundaram a cidade!
E Lisboa! Reclama que o nome vem de al-Ushbuna. Ora, antes disso, Lisboa foi chamada Olissipo pelos romanos e Alis Ubbo, pelos Fenícios (cerca de 2000 anos antes da conquista pelos árabes). Provavelmente al-Ushbuna é a forma arabizada de Alis Ubbo, nome fenício, depois de os romanos a terem «entendido» como Olissipo (não é preciso saber fonética para perceber as parecenças…)
Devido à influência que os árabes tiveram na toponomástica durante o domínio da Península, acho normalíssimo que o nome que tenha sobrevivido seja aquele que a sua administração organizada lhes deu.
Só não percebo o que é que isso prova.
Prova tanto como achar que é morena por ter sangue árabe nas veias: «I was darker than most northern Portuguese, and this was a sign of Muslim blood running through my veins».
Os sinais, vemo-los onde queremos. Mas não podemos reescrever a História. Ou deveremos todos falar fenício… e adorar El, Baal, Moloc, Tanit…