Quando era miúda (e até já graúda) gostava muito de ver o Festival da Canção. E durante o resto do ano cantávamos lá por casa as cantigas vencedoras e as outras.
Com o tempo fui perdendo ligação à coisa e hoje não sei nada do que se passa.
O facto de, no fim da infância e princípio da adolescência, ter convivido com imãos mais velhos 4, 7 e 9 anos, fez com que, apesar de não ter ainda nascido quando o Festival começou, conhecesse as letras das canções. O meu irmão C. dizia que eu e a minha irmã nos completávamos, pois eu sabia as letras, mas não acertava uma nota, de tão desafinada que era (e sou...), a minha irmã cantava (e canta...) muito bem, mas nunca sabia as letras!
Há uns anos, esse irmão ofereceu-me um CD com as canções do Festival. Como não bebo café e tenho hipnose da estrada, estas músicas são a minha salvação. Mal me apercebo de que as pálpebras se querem fechar, ponho o CD e começo a cantar em altos berros :«Senhor, a teus pés eu confesso...»
... e termino a viagem sem incidentes.
14 outubro 2006
Fora de casa
A partir de hoje vou estar pelo Bombarral e por Lisboa, mas vou tentar vir aqui actualizar o blogue.Isto está a torna-se um (bom) hábito...
De quarta a sábado decorre, na Univ. Nova de Lisboa, o VI Congresso da APEC e eu vou andar por lá:
Identidade e Cidadania - da Antiguidade aos Nossos Dias
(a imagem é a do cartaz de divulgação)
13 outubro 2006
Parabéns à minha Mãe
A minha mãe faz hoje 83 anos.Sete partos... restamos três filhos.
Filha do segundo casamento do meu avô, que se divorciara em 1912...
Filha de uma brasileira (a minha avó Stella) culta, linda!
Neta de farmacêutico, numa família de homens licenciados e mulheres... licenciadas.
Orgulhosa da cultura dos «seus».
A descrição da discrição.
A minha Mãe é uma mulher moderna.
Gosta muito de usar calças compridas.
Nunca lhe furaram as orelhas.
Grande defensora da liberdade individual, sempre me apoiou nas minhas escolhas.
«A vida é tua. Tu saberás. Eu estou aqui...»
Terei beneficiado por ter chegado tarde?
Não sei. Mas sei que ali continua, sempre, sempre, a apoiar-nos.
Sem exigências. Sozinha. Como diz que gosta de estar.
Uma verdadeira Stella Augusta, que melhor nome não lhe poderiam ter dado.
Se um dia for mãe... quero ser como ela!
O que diz Teógnis
Muita gente estúpida tem óptima fortuna,
e o aparente descalabro se lhes transforma em êxito.
Depois há aqueles cujo esforço bem intencionado
tem o pior azar; e a bom termo nunca chegam os seus actos.
(161-164. Tradução de Frederico Lourenço)
e o aparente descalabro se lhes transforma em êxito.
Depois há aqueles cujo esforço bem intencionado
tem o pior azar; e a bom termo nunca chegam os seus actos.
(161-164. Tradução de Frederico Lourenço)
12 outubro 2006
Citar poesia grega e latina
Aos meus amigos que se manifestaram contristados e solidários com o que seria o meu penar, imaginando o que devia passar por ter de ler livros enormes, como a Arte de Amar, aqui citada, devo sossegá-los:
Não, 701-702 não são as páginas mas os versos.
A edição da Cotovia até só tem 122 páginas, nas quais se incluem as notas e a introdução!
Tal como a filosofia grega tem uma forma própria de ser citada (variando de autor, sendo diferente entre Platão e Aristóteles), também a poesia antiga tem o seu modo próprio: cita-se, indicando, além do nome do autor e título, os versos. Quando a obra tem mais do que um livro (ou partes), também deve constar essa indicação. O número do verso encontra-se na parte lateral da folha
Assim, Arte de Amar, II, 701-702, significa que se está a citar os versos 701 e 702 do Livro II. Pode-se fazerfazer preceder os números de v. (verso) ou vv. (versos).
A indicação da página da edição portuguesa, (76, para os curiosos) ou de outra qualquer edição, serve para uma conversa informal, mas o passo não será situável nem citável.
A literatura grega tem mais de 2500 anos de tradição de estudo, no mundo inteiro. Estas «coisas» que podem parecer «picuinhices de ratos de biblioteca» são fundamentais para que qualquer estudioso se possa entender com outro e para que qualquer curioso possa encontrar «aquele verso tão bonito...»
11 outubro 2006
10 outubro 2006
Zéfiro? Não... Zéfira!
Zéfiro é o nome do vento oeste, o vento da Primavera...
Homero, na Odisseia (tradução de Frederico Lourenço para Livros Cotovia, em 2003), chama-lhe «pernicioso»...
Em XII, 408 e seguintes, conta como chegou
o Zéfiro guinchante com grande rajada de tempestade.
A força do vento quebrou as cordas do mastro,
ambas: o mastro caiu para trás, e todo o equipamento
caiu no porão; na proa da nau, o mastro atingiu a cabeça
do timoneiro e partiram-se-lhe os ossos do crânio.
(Não sei por que razão este vento não tem uma entrada própria no Dicionário de Mitologia Grega e Romana do Pierre Grimal, na minha edição - 1992, Difel, tradução portuguesa)
E Zéfira é o nome da loba que acabei de adoptar. Vejam a foto dela. Está magrinha...
A Zéfira e outros lobos esperam mais pais adoptivos. Quem estiver interessado, pode contactar o Grupo Lobo, clicando aqui.
Homero, na Odisseia (tradução de Frederico Lourenço para Livros Cotovia, em 2003), chama-lhe «pernicioso»...
Em XII, 408 e seguintes, conta como chegou
o Zéfiro guinchante com grande rajada de tempestade.
A força do vento quebrou as cordas do mastro,
ambas: o mastro caiu para trás, e todo o equipamento
caiu no porão; na proa da nau, o mastro atingiu a cabeça
do timoneiro e partiram-se-lhe os ossos do crânio.
Ora, não tendo nada contra o pobre do homem do leme, rachou-lhe a cabeça, imagine-se o que podia fazer despeitado!
Dizem alguns que, por esse sentimento (ou inveja, ciúme, que vai dar ao mesmo na história), foi ele o culpado pela morte de um mancebo por quem estava enamorado.
Conta-se que o rapaz preferia os favores de Apolo e um dia, quando estes dois jogavam ao lançamento do disco, Zéfiro soprou com mais força, fazendo com que o jovem fosse atingido mortalmente na cabeça.
Jacinto era o seu nome e, do sangue que derramou, Apolo fez nascer uma flor assim chamada em sua memória.
(Não sei por que razão este vento não tem uma entrada própria no Dicionário de Mitologia Grega e Romana do Pierre Grimal, na minha edição - 1992, Difel, tradução portuguesa)
E Zéfira é o nome da loba que acabei de adoptar. Vejam a foto dela. Está magrinha...
A Zéfira e outros lobos esperam mais pais adoptivos. Quem estiver interessado, pode contactar o Grupo Lobo, clicando aqui. 09 outubro 2006
O Moinho do Reboliço
Os Soares proporcionaram-me uma bela tarde de Sábado! Obrigada!
À chegada, o senhor Soares marcava a zona em que as velas iriam rodar, para proteger as cabeças que por lá iriam andar ao vento! Eu ainda não sabia que aquelas «bolinhas» que dali se viam eram pequenos cântaros, as «cantarinhas», que serviam para o moleiro perceber que as velas giravam e de que lado soprava o vento.

Tive, em seguida, uma visita guiada ao interior do moinho, onde conheci a equipa que pôs tudo aquilo a andar. Mas quem conta bem é o Reboliço, aqui e nos postais subsequentes.
Tirei uma fotografia ao tecto...

Para terminar, a última foto do dia, já o sol dourava as velas, enquanto as cantarinhas assobiavam, assobiavam...
O que ando a ouvir: «Stabat Mater» de Marco Rosano

Cantado pelo «celestial» Andreas Scholl.
E o CD que ainda não saíu!
Peço desculpa pelo lugar-comum, mas só me vêm à cabeça anjos...
Acreditasse eu em querubins, aqueles que não estivessem a tocar as cornetas
(ou outros instrumentos, porque os anjos são muito versáteis!) estariam a cantar... com a voz do Andreas Scholl!
Num outro post autocritiquei-me por ter a mania do Andreas Scholl.
Pois tenho. E de outros. Sou assim... de manias!
Noutro dia falarei de outra voz que me apaixona: Angelo Manzotti.

Imagens: http://yeti.gardena.net/ e http://www.geocities.com/magnificat_zespol/angels.jpg
08 outubro 2006
Para as mulheres com mais de sete lustros...
Mas sempre que quiseres chegar a uma Vénus já madura,
ainda que pouco tempo insistas, hás-de alcançar um justo prémio.
Arte de Amar, II,701-702
Pois...
Alguns não...
Mas há 2000 anos, escrevia-se assim:
Elas sentem o prazer sem artifício;
para dar gozo, devem senti-lo igualmente a mulher e o homem.
Odeio o acto de amor que não faz soltar ambos os parceiros
(eis porque me apraz menos o amor com rapazes);
odeio aquela que se entrega por ser preciso entregar-se
e que, na sua secura, só pensa na sua lã;
prazer cedido por dever não é prazer que me dê gozo;
um dever, que nenhuma mulher o pratique comigo.
A mim, apraz-me ouvir gemidos que façam sentir o gozo dela,
e que me suplique que me demore, que me aguente;
quero ver os olhos rendidos da mulher, já fora de si,
e que ali fique desfalecida e largo tempo não queira que lhe toque.
Tais bens não os concedeu a natureza nos alvores da juventude;
é logo depois de sete lustros que costumam aparecer.
Quem tem pressa beba vinho novo; para mim, que faça escorrer um velho
vinho a ânfora arrecadada desde o tempo dos antigos cônsules.
Arte de Amar, II, 681-696
Belíssima tradução de Carlos Ascenso André, para a Livros Cotovia, em 2006.

(a capa original é rosa-choque e não este roxo senhor-dos-passos!!)
Os Infernos - «Metamorfoses» de Ovídio
Há um caminho em declive, ensombrado pelo teixo funesto,
que, por inominados silêncios, leva às moradas infernais.
Por aí exala o inerte Estígio seus vapores, e descem as últimas sombras
e os espectros dos que foram dados à sepultura.
A Palidez e o Frio dominam esses hediondos lugares em toda
a extensão, e os novos manes não sabem onde é o caminho que leva
à cidade Estígia, onde está o terrífico palácio do negro Plutão.
A espaçosa cidade tem mil amplas entradas e portas abertas
por todo lado.
E assim como o mar recebe os rios de toda a terra, assim recebe
aquele lugar todas as almas. E não é apertado para povo nenhum,
nem se ressente com a chegada da multidão.
As sombras, sem carne e sem ossos, erram exangues.
Apinham-se umas no foro, outras no palácio do Senhor dos Infernos.
Cumprem outras algumas tarefas, imagem
da vida passada. O merecido castigo reprime a outra parte.
Ovídio, Metamorfoses, Livro IV, 432-446. Tradução de Domingos Lucas para a Vega.
Segue o convite para o lançamento, já na próxima terça-feira.
que, por inominados silêncios, leva às moradas infernais.
Por aí exala o inerte Estígio seus vapores, e descem as últimas sombras
e os espectros dos que foram dados à sepultura.
A Palidez e o Frio dominam esses hediondos lugares em toda
a extensão, e os novos manes não sabem onde é o caminho que leva
à cidade Estígia, onde está o terrífico palácio do negro Plutão.
A espaçosa cidade tem mil amplas entradas e portas abertas
por todo lado.
E assim como o mar recebe os rios de toda a terra, assim recebe
aquele lugar todas as almas. E não é apertado para povo nenhum,
nem se ressente com a chegada da multidão.
As sombras, sem carne e sem ossos, erram exangues.
Apinham-se umas no foro, outras no palácio do Senhor dos Infernos.
Cumprem outras algumas tarefas, imagem
da vida passada. O merecido castigo reprime a outra parte.
Ovídio, Metamorfoses, Livro IV, 432-446. Tradução de Domingos Lucas para a Vega.
Segue o convite para o lançamento, já na próxima terça-feira.
«Plagius Maximus» (2)
Agora sim, o comunicado já está disponível no Caderno de Corda e n' A Sombra (bem como o pedido de desculpas do Provedor da RTP) para todos os que se quiserem associar.
07 outubro 2006
A filha do Moleiro

Hoje vou à festa de (re) inauguração do velho moinho do Reboliço, mesmo ali na rotunda, à entrada de Beja.
Gosto mesmo de moinhos, habituada que estou, desde criança, a mirá-los. Em alguns, cheguei mesmo a entrar e a vê-los trabalhar. E até conheci o senhor moleiro...
As histórias para crianças também ajudavam, pois a filha do moleiro era sempre muito inteligente e dava a volta aos príncipes e reis cá com uma pinta!
E o «meu» Oeste escolheu o moinho como imagem de marca... para o turismo.
Recuperado a rigor, vou adorar rever este moinho!
Obrigada aos Soares!
06 outubro 2006
Xantipa, a gata
Correcção - «Plagius Maximus»
A Sombra pediu-me para esclarecer que o comunicado a que se refere o link que coloquei não é o comunicado final a ser enviado para o Provedor do Telespectador no dia 8, o próximo Domingo. «Esse será publicado n'A Sombra e no Caderno de Corda às zero horas de Domingo, junto com as instruções sobre como agir em conjunto».
Aqui fica a correcção!
Sofistas: Testemunhos e Fragmentos
Andei anos atrás do Diels-Kranz (DK), Die Fragmente der Vorsokratiker. A AbeBooks mandava-me mensagens a dizer que o tinha encontrado, mas quando eu ia ver, um tipo qualquer americano já o tinha comprado umas horas antes... isto dos fusos horários!Numa noite de insónia tive sorte e lá me chegaram os volumes, por 100 dólares, com aquele cheirinho de livro em segunda mão e o nome, em letra (quase) gótica, do seu dono anterior.
Mas o que aqui trago é uma versão portuguesa, já de 2005. Sabia há uns tempos que a Ana Alexandra Alves de Sousa e a Maria José Vaz Pinto tinham publicado a tradução, mas «ainda não tinha tido oportunidade» (eufemismo para «desleixo») de a comprar.
Cá estão eles, os fragmentos todos, com um bónus: o tratado anónimo Do Não Ente, De Melisso Xenophane Gorgia.
05 outubro 2006
«Plagius Maximus»
Solidarizo-me com a iniciativa que li aqui e aqui sobre o plágio de que o Caderno de Corda foi vítima por parte da... RTP!
Estes espaços são da autoria dos seus criadores, para o bem e para o mal, citando e sendo citados.
Convido todos a lerem o comunicado que se vai enviar para a RTP, no Domingo, dia 8 de Outubro e, em nome de todos os que não querem ver os seus textos plagiados, a associarem-se à «manifestação».
O que é legal (justo?) versus o que é natural (1)
Os debates sobre o tema acima indicado são inúmeros e infindáveis, mas como ainda é actual, aqui vai «mais uma achega para a fogueira».
Esta motivação surgiu de conversas com amigos, firmando cada vez mais o meu gosto pelos antigos: quanto mais leio os clássicos, mais próximos os percebo da nossa realidade. No outro dia, numa discussão sobre reformas e leis que o Governo quer fazer aprovar – e vai conseguir, pois tem a maioria absoluta – lembrei que as leis são feitas pelos homens e que «cá se fazem, cá se… mudam».
E se as leis foram passadas a escrito, conscientemente elaboradas por homens, tempos houve em que a sua base era apenas divina. No entanto, aqueles que pensavam discutiam quer a autoridade das leis não escritas, quer a das escritas – quando estas não respeitavam a natureza humana.
Vou cingir-me a esta última disputa, a que opunha a lei (nomos) à natureza (physis), dada a impossibilidade de compatibilizar a evidente contradição de duas fontes de valor: por um lado a ordem cósmica (a natureza das coisas), por outro a vontade dos homens (sendo as leis o fruto da acção humana).
O sofista Antifonte afirma que «a maior parte das coisas que são justas segundo a lei entram em conflito com a natureza». Hipócrates, num contexto médico, também opõe estes termos: «Pois a lei é o contrário de natureza no que diz respeito a estas coisas». Crítias, membro do governo dos «Trinta Tiranos» de Atenas, defende que os deuses não passavam de uma criação dos homens:
Também Crítias, um dos tiranos de Atenas, parece que era do grupo dos ateus, dizendo que os antigos legisladores formaram um deus como um inspector das acções dos homens, boas e más, para que ninguém injuriasse o seu próximo secretamente mas que o honrasse com receio da vingança dos deuses.
E, mais adiante, acrescenta-se que o tragediógrafo Eurípides teria defendido estas ideias, pondo na boca de uma personagem que um homem sábio «inventou para os mortais o temor [pelos deuses], de maneira que os maus tivessem medo até do que fizessem, dissessem ou pensassem em segredo».
Esta subversiva visão das divindades e das leis morais, por um lado, reduz os deuses a uma mera ficção, por outro, desacredita completamente as intenções dos legisladores.
No Górgias, de Platão, aparece-nos o orador Cálicles, uma figura relevante no debate entre nomos e physis, cujas teses só não ganham maior proeminência pelo simples facto de não ser possível asseverar a sua historicidade:
Dir-te-ei francamente o que é belo e justo segundo a natureza: aquele que quiser viver bem deverá deixar crescer à vontade as suas paixões, sem as reprimir, e, por maiores que elas sejam, deverá ser capaz de as satisfazer graças à sua coragem e inteligência, dando-lhes tudo aquilo que elas desejarem.
Claro que isto não é acessível à maioria, que censura estes homens por vergonha, para ocultar a sua própria fraqueza. Por isso ela declara, como há pouco observei, que a intemperança é vergonhosa, com o objectivo de escravizar os mais bem dotados pela natureza, e como não pode dar às suas paixões satisfação completa louva por cobardia a temperança e a justiça.
[...] A verdade que tu dizes perseguir, Sócrates, é, na realidade, a seguinte: a vida de delícias, a intemperança e a liberdade sem freio, quando favorecidas, são a virtude e a felicidade. O resto são palavras bonitas e convenções sociais contrárias à natureza, que não passam de tagarelice estúpida sem qualquer espécie de valor.(491e-492c). (Tradução de Manuel de Oliveira Pulquério, Edições 70, Lisboa, 1992)
Esta motivação surgiu de conversas com amigos, firmando cada vez mais o meu gosto pelos antigos: quanto mais leio os clássicos, mais próximos os percebo da nossa realidade. No outro dia, numa discussão sobre reformas e leis que o Governo quer fazer aprovar – e vai conseguir, pois tem a maioria absoluta – lembrei que as leis são feitas pelos homens e que «cá se fazem, cá se… mudam».
E se as leis foram passadas a escrito, conscientemente elaboradas por homens, tempos houve em que a sua base era apenas divina. No entanto, aqueles que pensavam discutiam quer a autoridade das leis não escritas, quer a das escritas – quando estas não respeitavam a natureza humana.
Vou cingir-me a esta última disputa, a que opunha a lei (nomos) à natureza (physis), dada a impossibilidade de compatibilizar a evidente contradição de duas fontes de valor: por um lado a ordem cósmica (a natureza das coisas), por outro a vontade dos homens (sendo as leis o fruto da acção humana).
O sofista Antifonte afirma que «a maior parte das coisas que são justas segundo a lei entram em conflito com a natureza». Hipócrates, num contexto médico, também opõe estes termos: «Pois a lei é o contrário de natureza no que diz respeito a estas coisas». Crítias, membro do governo dos «Trinta Tiranos» de Atenas, defende que os deuses não passavam de uma criação dos homens:
Também Crítias, um dos tiranos de Atenas, parece que era do grupo dos ateus, dizendo que os antigos legisladores formaram um deus como um inspector das acções dos homens, boas e más, para que ninguém injuriasse o seu próximo secretamente mas que o honrasse com receio da vingança dos deuses.
E, mais adiante, acrescenta-se que o tragediógrafo Eurípides teria defendido estas ideias, pondo na boca de uma personagem que um homem sábio «inventou para os mortais o temor [pelos deuses], de maneira que os maus tivessem medo até do que fizessem, dissessem ou pensassem em segredo».
Esta subversiva visão das divindades e das leis morais, por um lado, reduz os deuses a uma mera ficção, por outro, desacredita completamente as intenções dos legisladores.
No Górgias, de Platão, aparece-nos o orador Cálicles, uma figura relevante no debate entre nomos e physis, cujas teses só não ganham maior proeminência pelo simples facto de não ser possível asseverar a sua historicidade:
Dir-te-ei francamente o que é belo e justo segundo a natureza: aquele que quiser viver bem deverá deixar crescer à vontade as suas paixões, sem as reprimir, e, por maiores que elas sejam, deverá ser capaz de as satisfazer graças à sua coragem e inteligência, dando-lhes tudo aquilo que elas desejarem.
Claro que isto não é acessível à maioria, que censura estes homens por vergonha, para ocultar a sua própria fraqueza. Por isso ela declara, como há pouco observei, que a intemperança é vergonhosa, com o objectivo de escravizar os mais bem dotados pela natureza, e como não pode dar às suas paixões satisfação completa louva por cobardia a temperança e a justiça.
[...] A verdade que tu dizes perseguir, Sócrates, é, na realidade, a seguinte: a vida de delícias, a intemperança e a liberdade sem freio, quando favorecidas, são a virtude e a felicidade. O resto são palavras bonitas e convenções sociais contrárias à natureza, que não passam de tagarelice estúpida sem qualquer espécie de valor.(491e-492c). (Tradução de Manuel de Oliveira Pulquério, Edições 70, Lisboa, 1992)
Esta tese tinha sido já apresentada no início da intervenção do orador no debate que opõe os três retóricos a Sócrates (482e-484c). São aí avançados dois pontos de vista importantes para qualquer abordagem da questão nomos/physis. O primeiro, a que me referirei adiante (se hoje não tiver tempo, amanhã continuo), seguindo uma referência de Aristóteles ao Górgias, é a de que nomos e physis eram dois conhecidos topoi nos debates sofísticos. O segunda é a que acabei de referir e que Cálicles reprova. No passo que reproduzo a seguir, com a sua enérgica condenação do nomos, Cálicles manifesta total solidariedade de pontos de vista com a defesa do ateísmo de Crítias:
Quanto às leis, estou convencido de que são feitas pelos fracos e pela grande massa, que agem exclusivamente no seu próprio interesse, fixando o que é digno de louvor e o que é digno de censura. Para assustarem os mais fortes, aqueles que têm possibilidade de se superiorizarem, e para não se deixarem ultrapassar por eles, dizem que toda a superioridade é vergonhosa e injusta e que a injustiça não é mais que querer estar acima dos outros. Como não têm valor, sentem-se felizes, creio eu, por colocar todos ao seu nível.
É por isso que a lei considera injusto e vergonhoso o desejo de ser superior à maioria, e é a isto que chamam injustiça. Mas a própria natureza, em minha opinião, demonstra que é justo que o melhor esteja acima do pior e o mais forte acima do mais fraco.
Id. Ibid., 483b-d
Caracterizar esta posição – tal como a de Crítias – como «imoralista», confinando-a ao domínio da ética, constitui apenas uma condenação. Parece-me mais interessante a tentativa de as encarar como um sintoma do clima dos debates sofísticos na Atenas do pós-Péricles, compreendendo claramente que a relevância destas posições é muito mais política do que ética (ou que a segunda decorre da primeira). No fundo, o que os dois oradores querem tornar claro é que se consideram acima das leis e dos valores que regem o comportamento dos outros homens, encarando como legítima qualquer tentativa de manifestarem a sua superioridade pela tomada do poder pela força. O facto é, de resto, confirmado pela história, no caso de Crítias.
Quanto às leis, estou convencido de que são feitas pelos fracos e pela grande massa, que agem exclusivamente no seu próprio interesse, fixando o que é digno de louvor e o que é digno de censura. Para assustarem os mais fortes, aqueles que têm possibilidade de se superiorizarem, e para não se deixarem ultrapassar por eles, dizem que toda a superioridade é vergonhosa e injusta e que a injustiça não é mais que querer estar acima dos outros. Como não têm valor, sentem-se felizes, creio eu, por colocar todos ao seu nível.
É por isso que a lei considera injusto e vergonhoso o desejo de ser superior à maioria, e é a isto que chamam injustiça. Mas a própria natureza, em minha opinião, demonstra que é justo que o melhor esteja acima do pior e o mais forte acima do mais fraco.
Id. Ibid., 483b-d
Caracterizar esta posição – tal como a de Crítias – como «imoralista», confinando-a ao domínio da ética, constitui apenas uma condenação. Parece-me mais interessante a tentativa de as encarar como um sintoma do clima dos debates sofísticos na Atenas do pós-Péricles, compreendendo claramente que a relevância destas posições é muito mais política do que ética (ou que a segunda decorre da primeira). No fundo, o que os dois oradores querem tornar claro é que se consideram acima das leis e dos valores que regem o comportamento dos outros homens, encarando como legítima qualquer tentativa de manifestarem a sua superioridade pela tomada do poder pela força. O facto é, de resto, confirmado pela história, no caso de Crítias.
Nota: as traduções não identificadas são da minha responsabilidade.
04 outubro 2006
paralisia/paralesia/paralepsia
Chamou-me um leitor a atenção para o facto da palavra «paralesia» estar mal escrita. Agradeço o alerta. A boa forma, a querida pelo autor do poema, depois de boa conversa, era «paralepsia». Falhou-me o «p». Fiz um copy/paste de um original que tinha no computador, posterior à referida conversa. Sei que o Pedro me perdoaria...
Recorrendo à memória, a dita resume-se a isto:
«- Vê lá se me corriges isso aí.»
«- Começo pelo título: «paralisia», não «paralesia.»
«- Paralisia vem de onde? Do grego?»
«- Sim, do grego parálysis. »
«- Não existe uma coisa parecida na retórica? Não há a prolepse e outras figuras do género? Aquela em se diz que não se vai dizer…»
«- Sim… Há a paralepse. Em grego, paráleipsis é, precisamente, a acção de omitir… E…?»
«- E eu quero omitir, quero que se leia o que escrevo e que se perceba aí o que não escrevo. Se há parálysis que deu «paralisia», havendo essa paráleipsis, devia ser «paralepsia» e não «paralepse»… Aliás, devia ser «paralesia», que esse «p» não está aí para nada.»
«- Deixa lá ficar o «p», pá! Não inventes de mais!»
E rimo-nos muito. Paralepsia fique.
Recorrendo à memória, a dita resume-se a isto:
«- Vê lá se me corriges isso aí.»
«- Começo pelo título: «paralisia», não «paralesia.»
«- Paralisia vem de onde? Do grego?»
«- Sim, do grego parálysis. »
«- Não existe uma coisa parecida na retórica? Não há a prolepse e outras figuras do género? Aquela em se diz que não se vai dizer…»
«- Sim… Há a paralepse. Em grego, paráleipsis é, precisamente, a acção de omitir… E…?»
«- E eu quero omitir, quero que se leia o que escrevo e que se perceba aí o que não escrevo. Se há parálysis que deu «paralisia», havendo essa paráleipsis, devia ser «paralepsia» e não «paralepse»… Aliás, devia ser «paralesia», que esse «p» não está aí para nada.»
«- Deixa lá ficar o «p», pá! Não inventes de mais!»
E rimo-nos muito. Paralepsia fique.
Pedro Vieira 25 de Janeiro de 1967 - 4 de Outubro de 2005
Então senti-me verdadeiramente um exilado e senti que o meu
nervosismo me iria tornar permeável àquilo que - à falta de
melhor palavra - devo chamar poesia. Jean Genet
Uma verdade mais verdadeira
Verdade verdadinha
Ou uma verdade menos verdadeira
Mas ao menos uma verdade mesmo minha
§§§§§§§§§§§§§§§
Quando eu morrer
O transporte pouco me importa
Mas não batam em latas por favor...
Façam antes com minha pele morta
Belas batidas de tambor.
Que sonho ser dançado!!!
E finalmente dirão: Eis um homem
Realmente aproveitado.
__________________________________________
Fazer-se poema. Escrever-se a lápis e depois apagar-se.
Colocar num envelope as aparas resultantes do acto e
enviar isso, anonimamente, ao amor maior.
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