31 outubro 2006

Alexandre, Aníbal, Minos e Cipião (take one)

(Aníbal Barca: 247-183 a.C.)

Alexandre: eu devo ficar à tua frente, ó Líbio, porque sou melhor.
Aníbal: De forma nenhuma, eu é que devo ser preferido.
Alexandre: Portanto, Minos que julgue.
Minos: Quem são vocês?
Alexandre: Este é Aníbal o Cartaginês, e eu sou Alexandre, o filho de Filipe.
Minos: Por Zeus, sois ambos célebres. Mas qual é motivo da vossa disputa?
Alexandre: A respeito da precedência, porque ele afirma ser melhor general do que eu, ao passo que eu, como toda gente sabe, sou superior não só a ele, mas de modo geral a todos os anteriores em mim, na arte militar.
Minos: Ora fale cada um, por sua vez. E tu, ó Líbio, fala em primeiro lugar.
Aníbal: Uma coisa ganhei, ó Minos, a saber, aqui e aprendi também a língua grega, por forma tal que nem mesmo nela este me levará vantagem. E eu afirmo que são principalmente dignos de louvor aqueles que nada sendo, de começo, avançaram por si próprios para uma grande situação não só revestindo-se de força mas também mostrando-se dignos do poder. Eu, ao menos, com pouca gente, lancei-me à conquista da Ibéria, a princípio como lugar-tenente de meu irmão, fui considerado digno das maiores honras e julgado o melhor. (…) E fiz isto tudo, sem me chamar filho de Amon nem me fingir deus, nem descrevendo os sonhos da minha mãe; mas admitindo que era um homem, não só fiz frente aos generais mais inteligentes mas também com um batia com os soldados mais guerreiros. (…) Ao passo que Alexandre, tendo recebido o poder paterno, o aumentou e o estendeu largamente, aproveitando o impulso vigoroso da fortuna. Ora, quando vencera aquela peste do Dario (…), considerando-se digno de ser adorado, passou-se para os hábitos dos Medos e matou nos banquetes os amigos e fê-los prender para os matar.
Quanto a mim, por um lado, governei numa altura em que na minha pátria as leis eram iguais para todos, por outro, quando ela me mandou chamar (…), rapidamente obedeci e apresentei-me como um cidadão comum e, quando fui julgado, sofri resignadamente a condenação. E procedi assim, apesar de ser um bárbaro, sem os benefícios da cultura grega, sem recitar Homero como ele, sem ter sido educado pelo sofista do Aristóteles, só com os recursos da minha natureza que é boa.
É por tudo isto que eu digo que sou melhor do que Alexandre. E se ele é mais belo porque cinge a cabeça de um diadema, talvez também isso seja nobre para os Macedónios, todavia não é por esse motivo que ele parecerá melhor do que um homem da raça e vocação do general que fez mais uso da sua inteligência que da sua sorte.

Diálogos dos Mortos

O semita Licinos de Samósata (actual Turquia), depois de romanizar o seu nome para Lucianus, é conhecido entre nós como Luciano.
Viveu em Atenas, no Egipto, e viajou pelo mundo conhecido como conferencista itinerante. Chegaram até nós cerca de oitenta obras, em grego, que revelam o seu carácter jocoso e satírico, e títulos como Lúcio ou o Burro, a História Verdadeira ou este Diálogo dos Mortos tiveram influência no Humanismo e mesmo nas literturas modernas.
Na época de Luciano (o séc. II d.C.), o tema de Alexandre estava na moda, e o olhar de alguém oriundo de uma outra cultura que não a grega nem dela herdeira torna-se sempre interessante. Escolhi, assim, três diálogos que remetem para este jovem (morreu com 33 anos...)
A edição usada é das «velhinhas» do INIC/CECHUC, Coimbra, 1989 (comercializadas agora pela Gulbenkian), com introdução, notas e versão do grego de Américo da Costa Ramalho.

30 outubro 2006

Non latine loquor...

... sed saepe lego.

Isto foi só uma gracinha, a propósito da notícia da Visão desta última quinta-feira (p.69):

Fazendo gala da sua tradição do estudo do Latim e num sinal de respeito por minorias eruditas, o sítio da Presidência Finlandesa da União Europeia insere, regularmente, um Conspectus rerum latinus, que é como quem diz, em tradução livre, um «Olhar em latim sobre os assuntos a tratar». Nesse conspectus, lá estão indicações sobre a actividade de Matti Vanhanen, «primus minister Finnorum» e de José Manuel Barroso, «praeses Commissionis Europaeae».
(Nota: na Visão, a última palavra está mal escrita. No site está « Europaeae» - assim mesmo, «aeae» - genitivo de «Europaea», e a revista retira-lhe a última sílaba. Corrigi...)

Também na Finlândia há uma rádio que emite em Latim (Nuntii Latini) e o seu site tem chats (colloquia latina) onde se pode conversar sobre temas diversos com pessoas com nicks como Mucius Scaeuola, Furius Camillus, Beatus Bernardus ou Regiomontanus...

Não falo Latim. Ensino (ensinava...) e estudo esta língua há muitos anos de um modo passivo. Mas elogio a Finlândia, que não sendo herdeira da língua latina (nem indo-europeia!) entende a sua importância e gabo aqueles que se dedicam ao Latim com o empenho necessário para verter Fernando Pessoa («Puerulus matris suae») ou Carlos Drummond de Andrade. É o caso de Silva Bélkior, que passou estes dois poetas para a língua do Lácio (ai, como nós gostamos destas coisas!).

Deixo aqui outra gracinha, tirada do Jornal de Poesia
Carlos Drummond de Andrade
(Tradução: Silva Bélkior )

Bis gemina chorea
lohannes ardebat Theresiam quae ardebat Raymundum
qui ardebat Mariam quae ardebat loachim qui ardebat Lilim
quae ardebat neminem.
lohannes ad Status Foederatos fecit iter, Theresia ad claustrum,
Raymundus fatali obiit casu, Maria vitam vixit virgo,
loachim propria se interfecit manu atque Lilim sibi iunxit J. Pinto Fernandes
qui fabellam non ingressus fuerat.
Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. PintoFernandes
que não tinha entrado na história.

29 outubro 2006

A Lógica da Batata (3) vai à escola

A professora Ana Cristina Oliveira convidou-me a ir à sua escola com A Lógica da Batata.
A Lógica da Batata é uma pequena palestra pensada para encaixar no programa de Filosofia do 11º ano. Chegando às falácias informais, especificamente às falácias de ambiguidade, em vez de ser o professor a leccionar aquela matéria, faço-o eu, usando apenas exemplos retirados do diálogo de Platão Eutidemo. Aproveito o conhecimento que adquiri ao traduzi-lo e realço os exemplos de equivocação, anfibologia, composição, divisão e falsa dicotomia aí encontrados. E como o Eutidemo é muito divertido, consegue-se adesão da parte dos alunos.
Na Escola Secundária de Pinheiro e Rosa tinha 47 alunos à minha espera. Correu muito bem. Respeitadores… participativos… gostei mesmo muito!
Já tinha estado naquela escola anteriormente, a convite de outra Ana, professora de Filosofia, a Ana Bela Guita. A Ana Guita tem um clube chamado «Trilhos da Arte» e toda a escola está decorada com telas pintadas pelos alunos. O projecto deste ano baseia-se na obra de José de Guimarães. E como não havia dinheiro para telas, pintam em… pedras! Já estão mesmo a começar um jardim de pedra num dos espaços do pátio.

Eu recebi esta («serve-te de pisa-papéis», sugeriu-me a Ana)!
A Ana Cristina tem um clube de teatro. Mestre em Educação artística e actriz, ensaia com os alunos mesmo ao fim de semana. E foi uma «escandaleira» quando se soube que até dava o número do telemóvel aos alunos, para que a pudessem contactar.

Tenho muita sorte em ter destas amigas! E a ESPR em ter estas professoras!

28 outubro 2006

«Rituais do amor e do prazer» (Ovídio)

Eis que um leito acolheu, cúmplice, dois amantes;
diante das portas fechadas da alcova, ó Musa, sustém o passo!
Espontaneamente, sem a tua ajuda, palavras mil hão-de ser ditas,
e não se quedará inerte no leito a mão esquerda;
a hão-de os dedos inventar que fazer naqueles sítios
em que, às escondidas, mergulha as suas setas o Amor.
(…)
Acredita no que te digo: não deve apressar-se o prazer de Vénus,
mas sim, discretamente, fazer por retardá-lo e demorá-lo.
Quando descobrires o ponto onde a mulher se excita ao ser tocada,
não seja o pudor a impedir-te de o tocar;
verás os seus olhos a brilhar de fogo cintilante,
como, tantas vezes, o sol reflecte a luz na superfície da água;
far-se-ão ouvir queixumes, far-se-á ouvir um encantador sussurro
e doces gemidos e palavras apropriadas ao prazer.
Mas não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,
nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu;
avançai para a meta ao mesmo tempo; então será pleno prazer,
quando, par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.


(Públio Ovídio Nasão, Arte de Amar, II. 703-708, 717-728. A referência é a mesma desta aqui)

Este Ovídio sabia muito! Homens e mulheres, dêem-lhe ouvidos! E exclamem, como ele prório queria e pedia: «Nasão foi o meu Mestre!»

27 outubro 2006

Estar próxima... A Lógica da Batata (2)

Daqui a pouco vou fazer uma coisa de que gosto muito: ir a uma escola secundária falar da lógica da batata.
Gosto por várias razões:
- para estar próxima da realidade das escolas. Mesmo a assustadora indisciplina não me amedronta. Quando acontece, não é agradável, claro... quando o 1º quarto de hora é para os sossegar... cansa. E acho que os colegas do ensino secundário são uns heróis! E que quando mais baixo é o ciclo de ensino, mais heróis são!
Tenho de confessar que tenho dificuldade em aceitar idas a algumas escolas... Aceito por solidariedade, mas sem vontade nenhuma... Felizmente, o resultado tem sido positivo, mesmo nessas situações. Os miúdos acabam por se sentir cativados e participar nos encontros. Se isso lhes valeu de alguma coisa, valeu certamente a pena para mim!
- porque esse conhecimento adquirido com a ida à escolas ajuda-me, pois daí a um ano ou dois alguns daqueles alunos virão para as minhas mãos (vou sonhando, eu sei...).
- porque me obriga a simplificar as ideias e a linguagem.
- porque aproxima os diversos níveis de ensino. E isso é produtivo para os alunos e para os colegas, que percebem que a Universidade procura estar próxima, colaborando nas actividades.
Há muitos anos que faço isto, tal como outros colegas. No entanto, a própria Universidade do Algarve percebeu a importância destas actividades e montou uma estrutura chamada Equipa UAlg, com oferta de palestras para (quase) todos os níveis de ensino e para (quase) todas as disciplinas, onde me integrei.
Hoje vou, às 10.20, à ES Pinheiro de Rosa (uma das duas escolas do Algarve de entre as 24 que no país vão ter autonomia).

26 outubro 2006

Traduções...

Hoy en día, un cierto hálito de cultura ensimesmada, no dialéctica, aureola el cuadro lingüístico anglosajón, que, basado en el prestigio político de su lengua - y como antaño los griegos, que desde luego no rindieran ese servicio de mediación a una posteridad que tanto les admiró - deprecia lo otro, «lo no ellos». El hecho de que la mayor potencia lingüística del mundo - la antigua Commonwealth (exceptuda Canadá, obligada politicamente al bilingüismo) más Estados Unidos - tenga uno de los menores índices traductográficos del conjunto de naciones cultas alude a su escasa curiosidad cultural y explica, también, más de un comportamiento político con su entorno humano.
(...)
la traducción (...) siempre será la visión de lo otro desde lo propio, desde la propia idiosincrasia y desde el propio idioma. Por eso, la tradución son las machadianas gafas con las que vemos lo otro; es el color que tiñe las realidades a las que lingüísticamente no podemos llegar de una manera directa.

Da Introdução (pp.16-18) de Miguel Ángel Vega à colectânea de que foi editor, em 2004, para a Ed. Cátedra (Linguística), intitulada Textos Clásicos de Teoría da la Traducción.

25 outubro 2006

Desabafo desesperado! Ouvidos, acautelai-vos!

A minha professora de violoncelo quer juntar um quarteto para apresentar na festa de Natal do Conservatório cá da pólis. Eu bem lhe expliquei que a minha idade é outra, que estou ali para aprender a ser uma melhor ouvinte do instrumento, que não tenho interesse em fazer nenhum grau...
Mas ela fez-me ouvidos moucos.
Parece que alguém fará um pizzicato... espero que me calhe a mim...

24 outubro 2006

A Lume

Eu trabalho para uma Luz
Höderlin
Eu sei exactamente onde me tocaria
O deus em que não creio com os seus dedos
Ardentes: na língua
Abrindo-me com força a boca
Queima-me os lábios tocando
Os meus dentes doentes com a sua luz
Electrificando os pedaços de marfim enegrecido
Inundando-me de um silêncio luminoso.

Pedro Vieira, 1967-2005
- A vida ou a obra!
Grita-me o ladrão.
- Leva-me tudo
E faz tu a distinção.


Pedro Vieira, 1967-2005

O que diz Sócrates...

Ó bem amado Pã e quantas divindades habitais este lugar concedei-me a beleza interior.
Que tudo o que é exterior viva em mim em harmonia com o interior.
Que eu considere rico o sábio e que, quanto a ouro, possua quantidade que um homem moderado possa roubar e levar.

Platão, Fedro, 279b-c. Trad. de José Ribeiro Ferreira, Edições 70, 1997.

23 outubro 2006

Eu tenho dois amores...

(...) Afirmavas-me, lembro-me bem,
que não era possível alguém, ao mesmo tempo, amar duas mulheres.
Por tua causa, deixei-me surpreender, por tua causa, fui apanhado desprotegido;
eis que passo pela vergonha de duas mulheres, ao mesmo tempo, amar.
Uma e outra são formosas, esmeram-se ambas na elegância;
nas artes, tenho dúvidas se tem esta, se aquela a primazia;
aquela é mais formosa do que esta, esta é, também, mais formosa que aquela;
ora me agrada mais esta, ora mais me agrada aquela;
balançam, como uma barcaça sacudida por ventos desencontrados
e trazem-me partido ao meio um e outro amor.
(…)
Mas antes isto do que ficaram morto sem amor.
Que ao meus inimigos caia em sorte uma vida austera
(…)
a mim, que me caiba em sorte desfalecer nos movimentos de Vénus,
quando a morte chegar, e possa eu extinguir-me em meio da função;
e haja alguém que proclame, entre lágrimas, nos meus funerais:
“essa foi uma morte de acordo com a tua vida”.


Mais Ovídio! Desta vez os Amores (II, 10.), também em tradução de Carlos Ascenso André para a Cotovia, em 2006.
Os Amores foram a sua primeira colectânea de poesia amorosa, escrita quando o poeta teria cerca de 20 anos. Diz-nos o tradutor na introdução: «Eram já poemas nascidos naquela sociedade frívola e faustosa que Roma começava a ser; e Ovídio havia-se transformado, rapidamente, no poeta dilecto dos salões mundanos, dos festins, da música, das beldades.

Ovídio, 43 a.C - 17 /18 d.C.

22 outubro 2006

Correcção

O post anterior foi corrigido.
Tu, que me perguntaste a minha opinião, deves ter ficado surpreendido.
Claro. Depois de uma história daquelas a conclusão não fazia sentido! Escrevi uma coisa e queria dizer outra!!
Lê de novo, por favor. E desta vez sem erros: sou a favor da despenalização.

A minha opinião??

Queres saber a minha opinião? Não acho que interesse muito, mas não foste o único a perguntar.
Vou contar-te uma história.
Um dia, ouvi um conversa entre a minha mãe e a minha avó que não era suposto ter ouvido.

Quando eu estava presente, nunca falavam dos seus assuntos nem de outras pessoas. Quando, por acaso, estavam a meio de uma conversa e eu entrava, logo as pessoas passavam a ser chamadas de «criaturas» («aquela criatura do outro dia, sabes?») e eu não percebia nada, cumprido assim o objectivo.
Nesse dia ouvi-as falar de uma «criatura» que eu conhecia. Pensavam que eu não estava ali e deram-lhe um nome... Tinhas duas filhas. Pouca instrução (uma pessoa humilde, dizia-se na altura). Não sei que idade teria... nem 30 anos... não me lembro. Para mim era uma mulher «crescida». O marido, que lhe batia com frequência, tê-la-ia ameaçado de que, se tivesse outro filho, a matava. Ela terá sabido que, se pusesse umas ervas «lá dentro» e depois puxasse com agulhas de crochet, o feto sairia...
O resultado imagina-se.
Morreu, com os intestinos perfurados.
Nunca mais me esqueci disto. Fiquei profundamente chocada.

Quando, pouco depois (teria eu os meus 14 ou 15 anos), me lembro de se ter discutido a despenalização do aborto pela primeira vez, esta história pairava na minha cabeça.
Se esta mulher tivesse ido a um centro de saúde, como era jovem, como o filho não era resultado de uma violação, será que poderia argumentar que a sua vida estava em perigo, caso fosse para a frente? Perigo de vida da mãe também seria quando uma mulher era ameaçada pelo marido??
Nessa época eu era católica apostólica, romana, praticante. Mas nunca cedi. Prisão para esta mulher?? Nunca.
Não acredito que alguém escolha o aborto como método contraceptivo.

Se sou contra o aborto? Sou. Como sou contra muitas práticas legalizadas neste país. Não é por ser permitido que as faço.
Se sou contra a penalização do aborto (ou do eufemisno «interrupção voluntária da gravidez»), completamente? Sou. Completamente.

Aqui tens a minha opinião.

(agradeço às «Claras em Castelo» a chamada de atenção para o meu erro!! Tinha ali um prefixo negativo a mais! Sou a favor da despenalização do aborto, como não poderia deixar de ser...)

21 outubro 2006

O aborto (2)

Ao discutirmos actualmente, a despenalização do aborto (confundindo, muitas vezes, a despenalização com a aprovação desta prática como meio contraceptivo), estamos a admitir a diferença entre a moral, as opiniões e a lei por que nos regemos. Estamos também a dar razão aos primeiros que filosofaram e a outros que lhes seguiram que defendiam que as leis mudam e têm origem no «acordo voluntário dos indivíduos, preparados para concessões recíprocas», como diz uma investigadora italiana, Decleva Caizzi.
Por exemplo, Crítias afirmava que os deuses foram inventados pelos homens e Cálicles, no Górgias de Platão, reforça a ideia: «Quanto às leis, estou convencido de que são feitas pelos fracos e pela grande massa, que agem exclusivamente no seu próprio interesse, fixando o que é digno de louvor e o que é digno de censura» (483b).
Teria a mulher autonomia para pôr e dispor do seu corpo? A liberdade que as mulheres revelam na literatura (independentemente da sua condição social ser ou não de escravas) com o seu corpo será uma manifestação da vivência da época ou será simplesmente poética? Até que ponto a liberdade de fazer greve aos deveres conjugais era possível, como faz Lisístrata?
Efectivamente, a condição que Calírroe nos apresenta seria mais frequente do que se possa imaginar. Na Grécia antiga, o aborto, a par do infanticídio (geralmente sob a forma de exposição, isto é, abandono à morte), acontecia como forma de controlo de natalidade e, tal como em Roma, não era considerado crime. Dado que até a criança ser aceite pelo pai não tinha existência jurídica, esbatiam-se assim as diferenças entre abortar e expor. Apesar de os médicos não o deverem praticar, não havia uma condenação ética absoluta do aborto. Platão mostra-se favorável a ele como modo de controlo demográfico e por razões económicas, e Aristóteles concorda que se pratique por razões génicas, estabelecendo mesmo uma data a partir da qual é censurável (Política, 1335b19-25. Veja-se a nota 170 à tradução de António Capelo do Amaral e Carlos de Carvalho Gomes, 1998, Lisboa, Vega).
No romance de Cáriton, referido no postal anterior, o aborto é referido com naturalidade como a solução imediata para uma gravidez não desejada (ou melhor, desejada, mas noutras circunstâncias), não querendo com isto dizer que seja visto como uma acção louvável. Calírroe hesita variadas vezes, pois, apesar de estar apenas grávida de dois meses, já sente o amor de mãe a pesar na decisão e não quer seguir «as pisadas de Medeia»...

20 outubro 2006

O aborto

Um excerto de Quéreas e Calírroe, romance de Cáriton de Afrodísias, onde uma mulher grávida, raptada por piratas, feita escrava, julgando-se abandonada pelo marido, se encontra dividida entre a possibilidade de voltar a casar ou abortar o filho do casamento desfeito:

«Pois bem, agora passámos a ser três, marido, mulher e filho. Vamos decidir sobre os nossos interesses em comum. Para começar, vou eu dar a minha opinião. É como mulher de Quéreas, e só dele, que quero acabar os meus dias. Porque mais importante para mim do que pais, pátria ou o meu filho, é não conhecer outro homem. E tu, meu filho, o que preferes, no que te toca a ti? Um veneno que te mate antes de teu pai. Ou melhor, ele até já falou, quando me apareceu em sonhos: "Confio-te o nosso filho". Sê minha testemunha, Quéreas, és tu que me empurras para um casamento com Dionísio.»

Excerto de Quéreas e Calírroe, romance de Cáriton de Afrodísias, do século I d.C.
Tradução de Maria de Fátima Sousa e Silva (1996) Lisboa, Ed. Cosmos

18 outubro 2006

Filoctetes

Neoptólemo: E não te parece vergonhoso mentir?
Ulisses: Não, se a mentira nos traz a salvação.
Neoptólemo: Com que cara ousa alguém proclamar tal doutrina?
Ulisses: Quando se age para o nosso interesse, não se deve hesitar.

Sófocles, Filoctetes, 1987, JNICT. Em tradução de José Ribeiro Ferreira.


Um destes dias vou ver a versão (recriação poética) que Frederico Lourenço preparou para o Teatro da Cornucópia. Em cena até 26 de Novembro.



17 outubro 2006

O que diz Hesíodo

Nada deixes para amanhã ou depois de amanhã,
pois o homem negligente no trabalho não enche o celeiro,
nem aquele que o adia; a canseira ajuda o teu trabalho,
mas o homem que adia as coisas sempre luta com a ruína.

Trabalhos e Dias, 410-413. Tradução de José Ribeiro Ferreira, para a INCM.

16 outubro 2006

De Coena/ Sobre o jantar

De vez em quando, para variar, ponho-me a tentar traduzir as regras da escola de medicina de Salerno.
Aqui fica uma, pós-prandial:

Ex magna coena stomacho fit maxima pena.
Vt sis nocte leuis, sit tibi coena breuis.


Por um grande jantar, faz o estômago muito penar.
Para que à noite te sintas leve, que o jantar te seja breve.


Regimen Sanitatis Salernitanum, V.

15 outubro 2006

Fora de casa (2)

Vimos agora aqui junto de vós para dizer qualquer coisa em nosso abono. É que não há quem não diga o pior possível do sexo fraco: que somos a ruína completa da humanidade, as culpadas de tudo, das discórdias, das questões, de divergências terríveis, do sofrimento, da guerra.
Ora bem: se somos uma peste, porque é que vocês se casam connosco, se de facto somos mesmo uma peste? Porque é que nos proíbem de sair, de pôr o nariz de fora e em vez disso se empenham em guardar a peste com tanto cuidado?
Mal a pobre mulher sai, e vocês descobrem que ela está fora de portas, ficam completamente doidos; quando deviam mas era dar graças e esfregar as mãos de contentes por saberem que realmente a peste se tinha ido embora e já não a encontrarem lá dentro.
Se passamos a noite em casa de alguém, cansadas de uma festa, não há quem não venha rondar os leitos, à procura dessa peste. Se nos debruçamos à janela, lá andam vocês a tentar ver a peste; e, se, por vergonha, nos metemos para dentro, ainda mais desejosos ficam todos de verem a peste debruçar-se outra vez.
Aristófanes, As Mulheres que Celebram as Tesmofórias. Tradução de Maria de Fátima Sousa e Silva para as Edições 70.