22 outubro 2006

A minha opinião??

Queres saber a minha opinião? Não acho que interesse muito, mas não foste o único a perguntar.
Vou contar-te uma história.
Um dia, ouvi um conversa entre a minha mãe e a minha avó que não era suposto ter ouvido.

Quando eu estava presente, nunca falavam dos seus assuntos nem de outras pessoas. Quando, por acaso, estavam a meio de uma conversa e eu entrava, logo as pessoas passavam a ser chamadas de «criaturas» («aquela criatura do outro dia, sabes?») e eu não percebia nada, cumprido assim o objectivo.
Nesse dia ouvi-as falar de uma «criatura» que eu conhecia. Pensavam que eu não estava ali e deram-lhe um nome... Tinhas duas filhas. Pouca instrução (uma pessoa humilde, dizia-se na altura). Não sei que idade teria... nem 30 anos... não me lembro. Para mim era uma mulher «crescida». O marido, que lhe batia com frequência, tê-la-ia ameaçado de que, se tivesse outro filho, a matava. Ela terá sabido que, se pusesse umas ervas «lá dentro» e depois puxasse com agulhas de crochet, o feto sairia...
O resultado imagina-se.
Morreu, com os intestinos perfurados.
Nunca mais me esqueci disto. Fiquei profundamente chocada.

Quando, pouco depois (teria eu os meus 14 ou 15 anos), me lembro de se ter discutido a despenalização do aborto pela primeira vez, esta história pairava na minha cabeça.
Se esta mulher tivesse ido a um centro de saúde, como era jovem, como o filho não era resultado de uma violação, será que poderia argumentar que a sua vida estava em perigo, caso fosse para a frente? Perigo de vida da mãe também seria quando uma mulher era ameaçada pelo marido??
Nessa época eu era católica apostólica, romana, praticante. Mas nunca cedi. Prisão para esta mulher?? Nunca.
Não acredito que alguém escolha o aborto como método contraceptivo.

Se sou contra o aborto? Sou. Como sou contra muitas práticas legalizadas neste país. Não é por ser permitido que as faço.
Se sou contra a penalização do aborto (ou do eufemisno «interrupção voluntária da gravidez»), completamente? Sou. Completamente.

Aqui tens a minha opinião.

(agradeço às «Claras em Castelo» a chamada de atenção para o meu erro!! Tinha ali um prefixo negativo a mais! Sou a favor da despenalização do aborto, como não poderia deixar de ser...)

21 outubro 2006

O aborto (2)

Ao discutirmos actualmente, a despenalização do aborto (confundindo, muitas vezes, a despenalização com a aprovação desta prática como meio contraceptivo), estamos a admitir a diferença entre a moral, as opiniões e a lei por que nos regemos. Estamos também a dar razão aos primeiros que filosofaram e a outros que lhes seguiram que defendiam que as leis mudam e têm origem no «acordo voluntário dos indivíduos, preparados para concessões recíprocas», como diz uma investigadora italiana, Decleva Caizzi.
Por exemplo, Crítias afirmava que os deuses foram inventados pelos homens e Cálicles, no Górgias de Platão, reforça a ideia: «Quanto às leis, estou convencido de que são feitas pelos fracos e pela grande massa, que agem exclusivamente no seu próprio interesse, fixando o que é digno de louvor e o que é digno de censura» (483b).
Teria a mulher autonomia para pôr e dispor do seu corpo? A liberdade que as mulheres revelam na literatura (independentemente da sua condição social ser ou não de escravas) com o seu corpo será uma manifestação da vivência da época ou será simplesmente poética? Até que ponto a liberdade de fazer greve aos deveres conjugais era possível, como faz Lisístrata?
Efectivamente, a condição que Calírroe nos apresenta seria mais frequente do que se possa imaginar. Na Grécia antiga, o aborto, a par do infanticídio (geralmente sob a forma de exposição, isto é, abandono à morte), acontecia como forma de controlo de natalidade e, tal como em Roma, não era considerado crime. Dado que até a criança ser aceite pelo pai não tinha existência jurídica, esbatiam-se assim as diferenças entre abortar e expor. Apesar de os médicos não o deverem praticar, não havia uma condenação ética absoluta do aborto. Platão mostra-se favorável a ele como modo de controlo demográfico e por razões económicas, e Aristóteles concorda que se pratique por razões génicas, estabelecendo mesmo uma data a partir da qual é censurável (Política, 1335b19-25. Veja-se a nota 170 à tradução de António Capelo do Amaral e Carlos de Carvalho Gomes, 1998, Lisboa, Vega).
No romance de Cáriton, referido no postal anterior, o aborto é referido com naturalidade como a solução imediata para uma gravidez não desejada (ou melhor, desejada, mas noutras circunstâncias), não querendo com isto dizer que seja visto como uma acção louvável. Calírroe hesita variadas vezes, pois, apesar de estar apenas grávida de dois meses, já sente o amor de mãe a pesar na decisão e não quer seguir «as pisadas de Medeia»...

20 outubro 2006

O aborto

Um excerto de Quéreas e Calírroe, romance de Cáriton de Afrodísias, onde uma mulher grávida, raptada por piratas, feita escrava, julgando-se abandonada pelo marido, se encontra dividida entre a possibilidade de voltar a casar ou abortar o filho do casamento desfeito:

«Pois bem, agora passámos a ser três, marido, mulher e filho. Vamos decidir sobre os nossos interesses em comum. Para começar, vou eu dar a minha opinião. É como mulher de Quéreas, e só dele, que quero acabar os meus dias. Porque mais importante para mim do que pais, pátria ou o meu filho, é não conhecer outro homem. E tu, meu filho, o que preferes, no que te toca a ti? Um veneno que te mate antes de teu pai. Ou melhor, ele até já falou, quando me apareceu em sonhos: "Confio-te o nosso filho". Sê minha testemunha, Quéreas, és tu que me empurras para um casamento com Dionísio.»

Excerto de Quéreas e Calírroe, romance de Cáriton de Afrodísias, do século I d.C.
Tradução de Maria de Fátima Sousa e Silva (1996) Lisboa, Ed. Cosmos

18 outubro 2006

Filoctetes

Neoptólemo: E não te parece vergonhoso mentir?
Ulisses: Não, se a mentira nos traz a salvação.
Neoptólemo: Com que cara ousa alguém proclamar tal doutrina?
Ulisses: Quando se age para o nosso interesse, não se deve hesitar.

Sófocles, Filoctetes, 1987, JNICT. Em tradução de José Ribeiro Ferreira.


Um destes dias vou ver a versão (recriação poética) que Frederico Lourenço preparou para o Teatro da Cornucópia. Em cena até 26 de Novembro.



17 outubro 2006

O que diz Hesíodo

Nada deixes para amanhã ou depois de amanhã,
pois o homem negligente no trabalho não enche o celeiro,
nem aquele que o adia; a canseira ajuda o teu trabalho,
mas o homem que adia as coisas sempre luta com a ruína.

Trabalhos e Dias, 410-413. Tradução de José Ribeiro Ferreira, para a INCM.

16 outubro 2006

De Coena/ Sobre o jantar

De vez em quando, para variar, ponho-me a tentar traduzir as regras da escola de medicina de Salerno.
Aqui fica uma, pós-prandial:

Ex magna coena stomacho fit maxima pena.
Vt sis nocte leuis, sit tibi coena breuis.


Por um grande jantar, faz o estômago muito penar.
Para que à noite te sintas leve, que o jantar te seja breve.


Regimen Sanitatis Salernitanum, V.

15 outubro 2006

Fora de casa (2)

Vimos agora aqui junto de vós para dizer qualquer coisa em nosso abono. É que não há quem não diga o pior possível do sexo fraco: que somos a ruína completa da humanidade, as culpadas de tudo, das discórdias, das questões, de divergências terríveis, do sofrimento, da guerra.
Ora bem: se somos uma peste, porque é que vocês se casam connosco, se de facto somos mesmo uma peste? Porque é que nos proíbem de sair, de pôr o nariz de fora e em vez disso se empenham em guardar a peste com tanto cuidado?
Mal a pobre mulher sai, e vocês descobrem que ela está fora de portas, ficam completamente doidos; quando deviam mas era dar graças e esfregar as mãos de contentes por saberem que realmente a peste se tinha ido embora e já não a encontrarem lá dentro.
Se passamos a noite em casa de alguém, cansadas de uma festa, não há quem não venha rondar os leitos, à procura dessa peste. Se nos debruçamos à janela, lá andam vocês a tentar ver a peste; e, se, por vergonha, nos metemos para dentro, ainda mais desejosos ficam todos de verem a peste debruçar-se outra vez.
Aristófanes, As Mulheres que Celebram as Tesmofórias. Tradução de Maria de Fátima Sousa e Silva para as Edições 70.

14 outubro 2006

O meu «café»...

Quando era miúda (e até já graúda) gostava muito de ver o Festival da Canção. E durante o resto do ano cantávamos lá por casa as cantigas vencedoras e as outras.
Com o tempo fui perdendo ligação à coisa e hoje não sei nada do que se passa.

O facto de, no fim da infância e princípio da adolescência, ter convivido com imãos mais velhos 4, 7 e 9 anos, fez com que, apesar de não ter ainda nascido quando o Festival começou, conhecesse as letras das canções. O meu irmão C. dizia que eu e a minha irmã nos completávamos, pois eu sabia as letras, mas não acertava uma nota, de tão desafinada que era (e sou...), a minha irmã cantava (e canta...) muito bem, mas nunca sabia as letras!

Há uns anos, esse irmão ofereceu-me um CD com as canções do Festival. Como não bebo café e tenho hipnose da estrada, estas músicas são a minha salvação. Mal me apercebo de que as pálpebras se querem fechar, ponho o CD e começo a cantar em altos berros :«Senhor, a teus pés eu confesso...»
... e termino a viagem sem incidentes.

Fora de casa

A partir de hoje vou estar pelo Bombarral e por Lisboa, mas vou tentar vir aqui actualizar o blogue.
Isto está a torna-se um (bom) hábito...

De quarta a sábado decorre, na Univ. Nova de Lisboa, o VI Congresso da APEC e eu vou andar por lá:

Identidade e Cidadania - da Antiguidade aos Nossos Dias
(a imagem é a do cartaz de divulgação)

13 outubro 2006

Parabéns à minha Mãe

A minha mãe faz hoje 83 anos.
Sete partos... restamos três filhos.
Filha do segundo casamento do meu avô, que se divorciara em 1912...
Filha de uma brasileira (a minha avó Stella) culta, linda!
Neta de farmacêutico, numa família de homens licenciados e mulheres... licenciadas.
Orgulhosa da cultura dos «seus».
A descrição da discrição.

A minha Mãe é uma mulher moderna.
Gosta muito de usar calças compridas.
Nunca lhe furaram as orelhas.

Grande defensora da liberdade individual, sempre me apoiou nas minhas escolhas.
«A vida é tua. Tu saberás. Eu estou aqui...»
Terei beneficiado por ter chegado tarde?
Não sei. Mas sei que ali continua, sempre, sempre, a apoiar-nos.
Sem exigências. Sozinha. Como diz que gosta de estar.
Uma verdadeira Stella Augusta, que melhor nome não lhe poderiam ter dado.

Se um dia for mãe... quero ser como ela!

O que diz Teógnis

Muita gente estúpida tem óptima fortuna,
e o aparente descalabro se lhes transforma em êxito.
Depois há aqueles cujo esforço bem intencionado
tem o pior azar; e a bom termo nunca chegam os seus actos.

(161-164. Tradução de Frederico Lourenço)

12 outubro 2006

Citar poesia grega e latina

Aos meus amigos que se manifestaram contristados e solidários com o que seria o meu penar, imaginando o que devia passar por ter de ler livros enormes, como a Arte de Amar, aqui citada, devo sossegá-los:
Não, 701-702 não são as páginas mas os versos.
A edição da Cotovia até só tem 122 páginas, nas quais se incluem as notas e a introdução!
Tal como a filosofia grega tem uma forma própria de ser citada (variando de autor, sendo diferente entre Platão e Aristóteles), também a poesia antiga tem o seu modo próprio: cita-se, indicando, além do nome do autor e título, os versos. Quando a obra tem mais do que um livro (ou partes), também deve constar essa indicação. O número do verso encontra-se na parte lateral da folha
Assim, Arte de Amar, II, 701-702, significa que se está a citar os versos 701 e 702 do Livro II. Pode-se fazerfazer preceder os números de v. (verso) ou vv. (versos).
A indicação da página da edição portuguesa, (76, para os curiosos) ou de outra qualquer edição, serve para uma conversa informal, mas o passo não será situável nem citável.
A literatura grega tem mais de 2500 anos de tradição de estudo, no mundo inteiro. Estas «coisas» que podem parecer «picuinhices de ratos de biblioteca» são fundamentais para que qualquer estudioso se possa entender com outro e para que qualquer curioso possa encontrar «aquele verso tão bonito...»

11 outubro 2006

10 outubro 2006

Zéfiro? Não... Zéfira!

Zéfiro é o nome do vento oeste, o vento da Primavera...
Homero, na Odisseia (tradução de Frederico Lourenço para Livros Cotovia, em 2003), chama-lhe «pernicioso»...
Em XII, 408 e seguintes, conta como chegou
o Zéfiro guinchante com grande rajada de tempestade.
A força do vento quebrou as cordas do mastro,
ambas: o mastro caiu para trás, e todo o equipamento
caiu no porão; na proa da nau, o mastro atingiu a cabeça
do timoneiro e partiram-se-lhe os ossos do crânio.

Ora, não tendo nada contra o pobre do homem do leme, rachou-lhe a cabeça, imagine-se o que podia fazer despeitado!
Dizem alguns que, por esse sentimento (ou inveja, ciúme, que vai dar ao mesmo na história), foi ele o culpado pela morte de um mancebo por quem estava enamorado.
Conta-se que o rapaz preferia os favores de Apolo e um dia, quando estes dois jogavam ao lançamento do disco, Zéfiro soprou com mais força, fazendo com que o jovem fosse atingido mortalmente na cabeça.
Jacinto era o seu nome e, do sangue que derramou, Apolo fez nascer uma flor assim chamada em sua memória.

(Não sei por que razão este vento não tem uma entrada própria no Dicionário de Mitologia Grega e Romana do Pierre Grimal, na minha edição - 1992, Difel, tradução portuguesa)

E Zéfira é o nome da loba que acabei de adoptar. Vejam a foto dela. Está magrinha...

A Zéfira e outros lobos esperam mais pais adoptivos. Quem estiver interessado, pode contactar o Grupo Lobo, clicando aqui.

09 outubro 2006

O Moinho do Reboliço

Os Soares proporcionaram-me uma bela tarde de Sábado! Obrigada!
À chegada, o senhor Soares marcava a zona em que as velas iriam rodar, para proteger as cabeças que por lá iriam andar ao vento! Eu ainda não sabia que aquelas «bolinhas» que dali se viam eram pequenos cântaros, as «cantarinhas», que serviam para o moleiro perceber que as velas giravam e de que lado soprava o vento.


Tive, em seguida, uma visita guiada ao interior do moinho, onde conheci a equipa que pôs tudo aquilo a andar. Mas quem conta bem é o Reboliço, aqui e nos postais subsequentes.
Tirei uma fotografia ao tecto...


Para terminar, a última foto do dia, já o sol dourava as velas, enquanto as cantarinhas assobiavam, assobiavam...

O que ando a ouvir: «Stabat Mater» de Marco Rosano


Cantado pelo «celestial» Andreas Scholl.
E o CD que ainda não saíu!

Peço desculpa pelo lugar-comum, mas só me vêm à cabeça anjos...
Acreditasse eu em querubins, aqueles que não estivessem a tocar as cornetas

(ou outros instrumentos, porque os anjos são muito versáteis!) estariam a cantar... com a voz do Andreas Scholl!
Num outro post autocritiquei-me por ter a mania do Andreas Scholl.
Pois tenho. E de outros. Sou assim... de manias!
Noutro dia falarei de outra voz que me apaixona: Angelo Manzotti.



















Imagens: http://yeti.gardena.net/ e http://www.geocities.com/magnificat_zespol/angels.jpg

08 outubro 2006

Para as mulheres com mais de sete lustros...

Mas sempre que quiseres chegar a uma Vénus já madura,
ainda que pouco tempo insistas, hás-de alcançar um justo prémio.
Arte de Amar, II,701-702

E correm para aí umas anedotas sobre o facto de os homens não se importarem com o nosso prazer!

Pois...
Alguns não...
Mas há 2000 anos, escrevia-se assim:

Elas sentem o prazer sem artifício;
para dar gozo, devem senti-lo igualmente a mulher e o homem.
Odeio o acto de amor que não faz soltar ambos os parceiros
(eis porque me apraz menos o amor com rapazes);
odeio aquela que se entrega por ser preciso entregar-se
e que, na sua secura, só pensa na sua lã;
prazer cedido por dever não é prazer que me dê gozo;
um dever, que nenhuma mulher o pratique comigo.
A mim, apraz-me ouvir gemidos que façam sentir o gozo dela,
e que me suplique que me demore, que me aguente;
quero ver os olhos rendidos da mulher, já fora de si,
e que ali fique desfalecida e largo tempo não queira que lhe toque.
Tais bens não os concedeu a natureza nos alvores da juventude;
é logo depois de sete lustros que costumam aparecer.
Quem tem pressa beba vinho novo; para mim, que faça escorrer um velho
vinho a ânfora arrecadada desde o tempo dos antigos cônsules.
Arte de Amar, II, 681-696

Belíssima tradução de Carlos Ascenso André, para a Livros Cotovia, em 2006.



(a capa original é rosa-choque e não este roxo senhor-dos-passos!!)

Os Infernos - «Metamorfoses» de Ovídio

Há um caminho em declive, ensombrado pelo teixo funesto,
que, por inominados silêncios, leva às moradas infernais.
Por aí exala o inerte Estígio seus vapores, e descem as últimas sombras

e os espectros dos que foram dados à sepultura.
A Palidez e o Frio dominam esses hediondos lugares em toda

a extensão, e os novos manes não sabem onde é o caminho que leva
à cidade Estígia, onde está o terrífico palácio do negro Plutão.
A espaçosa cidade tem mil amplas entradas e portas abertas
por todo lado.
E assim como o mar recebe os rios de toda a terra, assim recebe

aquele lugar todas as almas. E não é apertado para povo nenhum,
nem se ressente com a chegada da multidão.
As sombras, sem carne e sem ossos, erram exangues.
Apinham-se umas no foro, outras no palácio do Senhor dos Infernos.
Cumprem outras algumas tarefas, imagem
da vida passada. O merecido castigo reprime a outra parte.

Ovídio, Metamorfoses, Livro IV, 432-446. Tradução de Domingos Lucas para a Vega.
Segue o convite para o lançamento, já na próxima terça-feira.




«Plagius Maximus» (2)

Agora sim, o comunicado já está disponível no Caderno de Corda e n' A Sombra (bem como o pedido de desculpas do Provedor da RTP) para todos os que se quiserem associar.

07 outubro 2006

A filha do Moleiro


Hoje vou à festa de (re) inauguração do velho moinho do Reboliço, mesmo ali na rotunda, à entrada de Beja.
Gosto mesmo de moinhos, habituada que estou, desde criança, a mirá-los. Em alguns, cheguei mesmo a entrar e a vê-los trabalhar. E até conheci o senhor moleiro...
As histórias para crianças também ajudavam, pois a filha do moleiro era sempre muito inteligente e dava a volta aos príncipes e reis cá com uma pinta!
E o «meu» Oeste escolheu o moinho como imagem de marca... para o turismo.

Recuperado a rigor, vou adorar rever este moinho!
Obrigada aos Soares!

06 outubro 2006

Xantipa, a gata

A todos quanto perguntaram pela gata Xantipa, informo que a operação correu bem e que está a descansar...

Correcção - «Plagius Maximus»

A Sombra pediu-me para esclarecer que o comunicado a que se refere o link que coloquei não é o comunicado final a ser enviado para o Provedor do Telespectador no dia 8, o próximo Domingo. «Esse será publicado n'A Sombra e no Caderno de Corda às zero horas de Domingo, junto com as instruções sobre como agir em conjunto».
Aqui fica a correcção!

Sofistas: Testemunhos e Fragmentos

Andei anos atrás do Diels-Kranz (DK), Die Fragmente der Vorsokratiker. A AbeBooks mandava-me mensagens a dizer que o tinha encontrado, mas quando eu ia ver, um tipo qualquer americano já o tinha comprado umas horas antes... isto dos fusos horários!
Numa noite de insónia tive sorte e lá me chegaram os volumes, por 100 dólares, com aquele cheirinho de livro em segunda mão e o nome, em letra (quase) gótica, do seu dono anterior.
Mas o que aqui trago é uma versão portuguesa, já de 2005. Sabia há uns tempos que a Ana Alexandra Alves de Sousa e a Maria José Vaz Pinto tinham publicado a tradução, mas «ainda não tinha tido oportunidade» (eufemismo para «desleixo») de a comprar.
Cá estão eles, os fragmentos todos, com um bónus: o tratado anónimo Do Não Ente, De Melisso Xenophane Gorgia.

05 outubro 2006

«Plagius Maximus»

Solidarizo-me com a iniciativa que li aqui e aqui sobre o plágio de que o Caderno de Corda foi vítima por parte da... RTP!
Estes espaços são da autoria dos seus criadores, para o bem e para o mal, citando e sendo citados.
Convido todos a lerem o comunicado que se vai enviar para a RTP, no Domingo, dia 8 de Outubro e, em nome de todos os que não querem ver os seus textos plagiados, a associarem-se à «manifestação».

O que é legal (justo?) versus o que é natural (1)

Os debates sobre o tema acima indicado são inúmeros e infindáveis, mas como ainda é actual, aqui vai «mais uma achega para a fogueira».
Esta motivação surgiu de conversas com amigos, firmando cada vez mais o meu gosto pelos antigos: quanto mais leio os clássicos, mais próximos os percebo da nossa realidade. No outro dia, numa discussão sobre reformas e leis que o Governo quer fazer aprovar – e vai conseguir, pois tem a maioria absoluta – lembrei que as leis são feitas pelos homens e que «cá se fazem, cá se… mudam».
E se as leis foram passadas a escrito, conscientemente elaboradas por homens, tempos houve em que a sua base era apenas divina. No entanto, aqueles que pensavam discutiam quer a autoridade das leis não escritas, quer a das escritas – quando estas não respeitavam a natureza humana.
Vou cingir-me a esta última disputa, a que opunha a lei (nomos) à natureza (physis), dada a impossibilidade de compatibilizar a evidente contradição de duas fontes de valor: por um lado a ordem cósmica (a natureza das coisas), por outro a vontade dos homens (sendo as leis o fruto da acção humana).

O sofista Antifonte afirma que «a maior parte das coisas que são justas segundo a lei entram em conflito com a natureza». Hipócrates, num contexto médico, também opõe estes termos: «Pois a lei é o contrário de natureza no que diz respeito a estas coisas». Crítias, membro do governo dos «Trinta Tiranos» de Atenas, defende que os deuses não passavam de uma criação dos homens:

Também Crítias, um dos tiranos de Atenas, parece que era do grupo dos ateus, dizendo que os antigos legisladores formaram um deus como um inspector das acções dos homens, boas e más, para que ninguém injuriasse o seu próximo secretamente mas que o honrasse com receio da vingança dos deuses.

E, mais adiante, acrescenta-se que o tragediógrafo Eurípides teria defendido estas ideias, pondo na boca de uma personagem que um homem sábio «inventou para os mortais o temor [pelos deuses], de maneira que os maus tivessem medo até do que fizessem, dissessem ou pensassem em segredo».
Esta subversiva visão das divindades e das leis morais, por um lado, reduz os deuses a uma mera ficção, por outro, desacredita completamente as intenções dos legisladores.
No Górgias, de Platão, aparece-nos o orador Cálicles, uma figura relevante no debate entre nomos e physis, cujas teses só não ganham maior proeminência pelo simples facto de não ser possível asseverar a sua historicidade:

Dir-te-ei francamente o que é belo e justo segundo a natureza: aquele que quiser viver bem deverá deixar crescer à vontade as suas paixões, sem as reprimir, e, por maiores que elas sejam, deverá ser capaz de as satisfazer graças à sua coragem e inteligência, dando-lhes tudo aquilo que elas desejarem.
Claro que isto não é acessível à maioria, que censura estes homens por vergonha, para ocultar a sua própria fraqueza. Por isso ela declara, como há pouco observei, que a intemperança é vergonhosa, com o objectivo de escravizar os mais bem dotados pela natureza, e como não pode dar às suas paixões satisfação completa louva por cobardia a temperança e a justiça.
[...] A verdade que tu dizes perseguir, Sócrates, é, na realidade, a seguinte: a vida de delícias, a intemperança e a liberdade sem freio, quando favorecidas, são a virtude e a felicidade. O resto são palavras bonitas e convenções sociais contrárias à natureza, que não passam de tagarelice estúpida sem qualquer espécie de
valor
.(491e-492c).
(Tradução de Manuel de Oliveira Pulquério, Edições 70, Lisboa, 1992)

Esta tese tinha sido já apresentada no início da intervenção do orador no debate que opõe os três retóricos a Sócrates (482e-484c). São aí avançados dois pontos de vista importantes para qualquer abordagem da questão nomos/physis. O primeiro, a que me referirei adiante (se hoje não tiver tempo, amanhã continuo), seguindo uma referência de Aristóteles ao Górgias, é a de que nomos e physis eram dois conhecidos topoi nos debates sofísticos. O segunda é a que acabei de referir e que Cálicles reprova. No passo que reproduzo a seguir, com a sua enérgica condenação do nomos, Cálicles manifesta total solidariedade de pontos de vista com a defesa do ateísmo de Crítias:

Quanto às leis, estou convencido de que são feitas pelos fracos e pela grande massa, que agem exclusivamente no seu próprio interesse, fixando o que é digno de louvor e o que é digno de censura. Para assustarem os mais fortes, aqueles que têm possibilidade de se superiorizarem, e para não se deixarem ultrapassar por eles, dizem que toda a superioridade é vergonhosa e injusta e que a injustiça não é mais que querer estar acima dos outros. Como não têm valor, sentem-se felizes, creio eu, por colocar todos ao seu nível.
É por isso que a lei considera injusto e vergonhoso o desejo de ser superior à maioria, e é a isto que chamam injustiça. Mas a própria natureza, em minha opinião, demonstra que é justo que o melhor esteja acima do pior e o mais forte acima do mais fraco.
Id. Ibid., 483b-d

Caracterizar esta posição – tal como a de Crítias – como «imoralista», confinando-a ao domínio da ética, constitui apenas uma condenação. Parece-me mais interessante a tentativa de as encarar como um sintoma do clima dos debates sofísticos na Atenas do pós-Péricles, compreendendo claramente que a relevância destas posições é muito mais política do que ética (ou que a segunda decorre da primeira). No fundo, o que os dois oradores querem tornar claro é que se consideram acima das leis e dos valores que regem o comportamento dos outros homens, encarando como legítima qualquer tentativa de manifestarem a sua superioridade pela tomada do poder pela força. O facto é, de resto, confirmado pela história, no caso de Crítias.
Nota: as traduções não identificadas são da minha responsabilidade.

04 outubro 2006

paralisia/paralesia/paralepsia

Chamou-me um leitor a atenção para o facto da palavra «paralesia» estar mal escrita. Agradeço o alerta. A boa forma, a querida pelo autor do poema, depois de boa conversa, era «paralepsia». Falhou-me o «p». Fiz um copy/paste de um original que tinha no computador, posterior à referida conversa. Sei que o Pedro me perdoaria...
Recorrendo à memória, a dita resume-se a isto:
«- Vê lá se me corriges isso aí.»
«- Começo pelo título: «paralisia», não «paralesia.»
«- Paralisia vem de onde? Do grego?»
«- Sim, do grego parálysis. »
«- Não existe uma coisa parecida na retórica? Não há a prolepse e outras figuras do género? Aquela em se diz que não se vai dizer…»
«- Sim… Há a paralepse. Em grego, paráleipsis é, precisamente, a acção de omitir… E…?»
«- E eu quero omitir, quero que se leia o que escrevo e que se perceba aí o que não escrevo. Se há parálysis que deu «paralisia», havendo essa paráleipsis, devia ser «paralepsia» e não «paralepse»… Aliás, devia ser «paralesia», que esse «p» não está aí para nada.»
«- Deixa lá ficar o «p», pá! Não inventes de mais!»
E rimo-nos muito. Paralepsia fique.

Pedro Vieira 25 de Janeiro de 1967 - 4 de Outubro de 2005

Então senti-me verdadeiramente um exilado e senti que o meu
nervosismo me iria tornar permeável àquilo que - à falta de
melhor palavra - devo chamar poesia. Jean Genet

Uma verdade mais verdadeira
Verdade verdadinha
Ou uma verdade menos verdadeira
Mas ao menos uma verdade mesmo minha

§§§§§§§§§§§§§§§

Quando eu morrer
O transporte pouco me importa
Mas não batam em latas por favor...
Façam antes com minha pele morta
Belas batidas de tambor.
Que sonho ser dançado!!!
E finalmente dirão: Eis um homem
Realmente aproveitado.

__________________________________________
Fazer-se poema. Escrever-se a lápis e depois apagar-se.
Colocar num envelope as aparas resultantes do acto e
enviar isso, anonimamente, ao amor maior.

O último post...

No dia 3, ao fim do dia,
o Pedro deixou um post-it ao Bart:

«Vou até ao bairro
Procuro-te
Se não hoje, amanhã
Um abraço»


Foi encontrado na manhã de dia 4, sem vida, na praia de Algés.

Pedro Luís Baltazar Vieira, 25 de Janeiro de 1967 - 4 de Outubro de 2005
Foi a sepultar no Bombarral, onde viveu grande parte da sua vida.

03 outubro 2006

De uma carta com 2000 anos...

Há 6 anos que o meu mundo anda a dar voltas.
«Sou nova de mais para ter tantos amigos a desaparecerem», lamentava-me.
Neste 6 anos foram muitos, demasiados, aqueles que eu amava e partiram... pai, irmão, sogros, amigas, amigos...
Fui buscar ao computador uma carta a que tenho, infelizmente, tido necessidade de recorrer com demasiada frequência. Foi a primeira (Dezembro de 2000) de muitas que enviei com o texto de Séneca.
Como explica o contexto e alguns comentários, reproduzo-a. A Teresa não se vai importar, eu sei.

«Cheguei a casa e os meus olhos pousaram em Séneca, nas minhas (dele) eternas Cartas a Lucílio. Fui abrindo ao acaso e tudo fazia sentido. Ora me imaginava Séneca , ora me imaginava Lucílio. E é assim que te envio alguns bocadinhos dos pensamentos com os quais me deitei. Claro que estamos perante um mundo de homens, onde os sentimentos femininos nem sequer são tidos em consideração, muito menos a sua dor... no entanto, parecia que era para mim que Séneca estava a escrever. Incluo os meus pensamentos que foram atravessando a leitura...

Lamento profundamente o falecimento do teu amigo Flaco, no entanto a tua dor não deve ultrapassar os limites do razoável. Não ousaria exigir de ti que não sentisses o mínimo abalo perante o facto, embora isso fosse o ideal.

(aqui irritei-me, saltei parágrafos, mas ele continuou, imaginando uma pergunta por parte de Lucílio:)

«Como dizes? Então eu hei-de esquecer o meu amigo?!»

(voltei a saltar... não gostei da frase que vinha a seguir... e fui para a página seguinte:)

Age com equidade, caro Lucílio, e não interpretes mal os benefícios que a fortuna te concedeu: ela roubou-te um amigo, mas fora ela quem to tinha dado. Gozemos intensamente a companhia dos nossos amigos, até porque não podemos saber por quanto tempo o faremos. Pensemos também quantas vezes os deixámos para partir em longas viagens, quantas vezes estivemos sem os ver embora morando na mesma terra: compreendemos deste modo que, mesmo estando eles vivos, não aproveitámos a sua companhia a maior parte do tempo.

(tem razão...voltei a saltar uma página e li umas linhas soltas)

O que vou dizer-te agora é uma verdade mais do que rebatida, mas nem por andar em todas as bocas eu deixarei de a repetir: quando deliberadamente não pomos nós um termo à nossa dor, o tempo o fará por nós.

(pode ser verdade, mas a frieza dele está a irritar-me. Salto uma página. Não sei porque continuo.)

Sou eu quem te escrevo estas palavras, eu, que tão imoderadamente chorei o meu grande amigo Aneu Sereno, eu, que com grande vergonha minha me vejo forçado a incluir-me no número daqueles que se deixaram vencer pela dor!

(vá lá... está a mostrar-se mais «humano». Continuo a leitura)

Hoje, no entanto, condeno a minha atitude passada, e compreendo que a principal causa do meu excessivo pranto foi o nunca me ter passado pela ideia que ele pudesse morrer antes de mim. Ocorria-me apenas que ele era mais novo, muito mais novo do que eu – como se o destino se preocupasse em respeitar a ordem de idades! Mais uma razão para continuamente meditarmos na nossa condição de mortais, nossa e daqueles a quem amamos. O que eu deveria ter feiro era dizer: «Sereno é mais novo do que eu, mas isso que tem? Deverá morrer depois de mim, mas também pode morrer antes.» Não o fiz, e assim o súbito golpe da fortuna encontrou-me desprevenido! Neste momento medito em que tudo é mortal e que a mortalidade não obedece a qualquer lei; o que é possível, tanto é possível hoje como em outro dia qualquer. Pensemos, caro Lucílio, que em breve também nós iremos para onde foi agora, para tristeza nossa, esse nosso amigo; até pode suceder que tenham razão os sábios e haja um lugar onde todos iremos residir após a morte: se assim for, esse amigo que julgamos ter morrido, limitou-se a partir para lá à nossa frente!

Assim termina a 63ª carta de Séneca a Lucílio e é por isto que eu continuo a ler Séneca... passados cerca de 2000 anos...

Sobre uma pequena parelesia

Mão morta, mão morta
Vai bater àquela porta.
Experimenta por dentro a morte
A criança que canta
E a sua voz segue a arquitectura do movimento
Curva-se como o pulso que bate
E quando uns braços se estendem para si
Há uns braços dentro de si que se estendem sempre
Mesmo diante de uma árvore ferida.
Se eu soubesse de novo essa inocência
Com o que no corpo ainda resta do bailado
Só à volta das árvores rodaria
Quase sem palavras, apenas cantando
Mão morta, mão morta
Vai bater àquela porta.

Inédito de Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

02 outubro 2006

E o negrume fosforescente?
E o cabelo na língua?
E a ferida que ri?

Sou um arquitecto de ruínas e
De qualquer forma sempre andei à procura
De um problema para a minha solução.

Inédito de Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

01 outubro 2006

Sauromaquia

Negro e rosa na carne
Narciso
Pier Paolo Pasolini
Tinha no seu quarto
O rapaz com mar ao fundo sempre
Um sagrado coração no bolso interior
Do casaco e o temor
Da visão do alto lugar
Privilégio dos mortos familiares.
Acenderemos muitos fogos
Veneraremos todos os Lares
Hão-de gostar. Não te preocupes.

§§§§§§§§§§§§§§§§§§

A quem ao espelho a fio
Noites e noites passava
Narciso injustamente chamaram
Ao que só uma incoincidência esperava.

_________________________
Diz-me quem eu sou
Murmura-me ao Olvido
Parece que já nos desconhecemos
De qualquer outro lado


Inédito de Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

«Conversão ao Islão»

Ultimamente tenho lido muitas coisas aqui me que me incomodam... ou melhor, que me desacomodam...
Esta leitura, para onde este blogue me reenviou, incomodou-me.
Incomodou-me que a autora achasse que a pele escura fosse sinal de sangue muçulmano a correr-lhe nas veias…
Incomodou-me a sua surpresa: «This made no sense whatsoever to me – could you be a prostitute and still go to heaven just because you were Catholic, like those flashy French actresses?»
??????
E incomodou-me por muitas outras razões.

Porém, por deficiência profissional, fui ainda sensível ao revisionismo subjacente à associação de nomes como Faro ou Lisboa aos árabes. Todos sabemos que existem arabismos em português, quase todos substantivos… isso não faz de nós falantes da língua árabe pelos pouco mais de mil vocábulos que herdámos (falar por falar…falamos Latim!).
Como se o nome de uma coisa determinasse a sua pertença. As razões porque um nome permanece imiscuem-se na sua história, à qual não se pode retirar um pedaço e dizer «este é que conta!»
Faro, antes dos muçulmanos, teve cá os romanos, por exemplo... e antes, os cartagineses... os gregos… os fenícios… Pela leitura do depoimento até parece que foram os árabes que fundaram a cidade!
E Lisboa! Reclama que o nome vem de al-Ushbuna. Ora, antes disso, Lisboa foi chamada Olissipo pelos romanos e Alis Ubbo, pelos Fenícios (cerca de 2000 anos antes da conquista pelos árabes). Provavelmente al-Ushbuna é a forma arabizada de Alis Ubbo, nome fenício, depois de os romanos a terem «entendido» como Olissipo (não é preciso saber fonética para perceber as parecenças…)
Devido à influência que os árabes tiveram na toponomástica durante o domínio da Península, acho normalíssimo que o nome que tenha sobrevivido seja aquele que a sua administração organizada lhes deu.
Só não percebo o que é que isso prova.
Prova tanto como achar que é morena por ter sangue árabe nas veias: «I was darker than most northern Portuguese, and this was a sign of Muslim blood running through my veins».
Os sinais, vemo-los onde queremos. Mas não podemos reescrever a História. Ou deveremos todos falar fenício… e adorar El, Baal, Moloc, Tanit…

29 setembro 2006

«Crónica de uma exclusão anunciada»

Texto de Paula Barata Dias (neste artigo faz-se ainda uma análise da situação das humanidades no ensino secundário em Portugal) in Boletim de Estudos Clássicos, nº 39 (Junho 2006), pp.117-129

Há cerca de dois anos, passavam duas telenovelas à mesma hora, nas televisões nacionais de maior audiência, os Morangos com Açúcar, na TVI, série de produção nacional ainda hoje popular entre jovens, e a Malhação, novela brasileira da Globo, na SIC. As duas concorrendo no mesmo segmento de mercado, tinham um enredo semelhante: a vida familiar, afectiva e escolar de jovens de classe média, na maioria em ambiente urbano, bem vestido e saudável. Nas duas, pela mesma altura, um apontamento de conteúdo semelhante ficou-me gravado na memória: em Morangos com Açúcar, surgia uma família a tomar uma refeição à mesa. Era uma família crise, pela diferença de personalidades dos pais. O pai, um tecnocrata com a mania da perfeição e os complexos do status, levemente antiquado, e a mãe, próxima e amistosa com os filhos, atenta à actualidade e flexível, mas infeliz e submetida à tirania do marido. O pai, com um livro na mão, declama um soneto de Camões para as suas duas filhas adolescentes “Um mover dia olhos, brando e piedoso”. As suas filhas, enfadadas mas submissas, são salvas pela intervenção da mãe que acusa o pai de estar a massacrar as meninas com coisas que não interessam nada. O pai afirma a sua autoridade, dizendo que no seu tempo todos conheciam de cor alguns poemas de Camões, e que assim devia ser hoje. A mãe permite às meninas que saiam da mesa, e que vão para os seus colégios aprender o que na verdade interessava.
O poema de Camões prestou-se à caracterização de um vilão. Ora, a popularidade das novelas promove-se pela adesão à cultura e às expectativas do receptor, e este acharia natural colar a imagem meu pai execrável e de comportamento duvidoso a um poema de Camões, também ele serôdio, emergindo de Portugal que não está na moda.
Em Malhação, um jovem morre de acidente de mota ao sair de uma festa, e seus colegas e familiares homenageiam-no com cerimónias fúnebres sentidas. Um deles recita em voz alta e silêncio absoluto dos ouvintes, o poema de Pessoa “No dia em celebravam o dia dos meus anos”. Todos, respeitosamente e comovidamente, compreendem a evocação do poema na sua toada nostálgica de uma juventude inocente que, de uma maneira natural ou abrupta, como era o caso jovem acidentado, morre. A série tinha um grande sucesso entre o público juvenil brasileiro, os milhões que o compõem, mas em Portugal não resistiu à concorrência de Morangos com Açúcar.
(…)
Estes retalhos da vida dos nossos jovens ficaram-nos na memória por mostrarem o modo deplorável como, no geral, os portugueses convivem com a sua história e com a sua cultura. Todos nos comovemos quando um não português e um não lusófono dão mostras de se interessar ou apreciar algo da nossa cultura, mas constantemente desconsideramos e remetemos o nosso património cultural, histórico e literário para um conveniente silêncio.
(…)
Passaram dois anos desde a reforma curricular do ensino secundário. Muitos de nós intuíram que a mesma poderia trazer por decreto a morte de uma área de saber, associada à cumplicidade e ao silêncio de um país que, orgulhoso dos seus centos de história e fronteiras fixas, bule ao primeiro vento, julga que avança quando apenas dá saltos, adere ao superficial e recusa viver em paz com o seu património cultural.

28 setembro 2006

Citar Platão...

Para todos quantos me perguntaram «Que números são aqueles no texto de Platão?», aqui vai a resposta.

Os textos da antiguidade clássica não se citam como os contemporâneos, indicando autor, título, editor, ano, página... em ordens variadas, consoante as «escolas»...

No séc. XVI, Henri Estienne, conhecido por Stephanus (forma latinizada do seu nome), organiza e edita a obra completa de Platão, em três volumes. Cada página estava dividida em colunas, por sua vez divididas por secções, de «a» a «e». Assim, as obras de Platão são sempre citadas tendo como referência estas páginas de Stephanus e não as páginas de uma qualquer edição numa dada língua.

Se bem que a numeração portuguesa (ou noutro idioma...) possa não corresponder exactamente à grega, as edições em que podemos «confiar» são as que a apresentam, quer lateralmente, quer no meio do texto.

Há traduções portuguesas feitas a partir, principalmente, do francês, facilmente reconhecidas por não serem citáveis: sem páginas de Stephanus não se consegue situar a referência!

27 setembro 2006

A Lógica da Batata

298c
«-Atenção, Eutidemo!» - continuou Ctesipo. «'Não estás a atar um fio ao fio' refere o provérbio. É que estás a dizer coisas estranhas, se o teu pai é pai de todos.»
«-Mas é» - afirmou.
«-Apenas dos homens?» - perguntou Ctesipo - «Ou também dos cavalos e de todos os outros animais?»
298 d «-De todos» - respondeu.
«-E será que a mãe também é mãe?»
«-A mãe também.»
«-Por conseguinte, a tua mãe é também mãe dos ouriços do mar.»
«-E também a tua» - disse.
«-E tu, portanto, és irmão dos vitelinhos, dos cãezinhos e dos leitõezinhos.»
«-Sim, e tu também» - disse.
«-Então tens um pai cão.»
«-E tu também.»
«-Em breve irás concordar com isto, Ctesipo, se me responderes» - disse Dionisodoro. - «Diz-me pois: tens um cão?»
«-E muito feroz» -respondeu Ctesipo.
298 e «-E sem dúvida tem cachorrinhos?»
«-Que também são outros que tais.»
«-Portanto, o cão é pai deles?»
«-De certeza. Eu próprio o vi a cobrir a cadela.»
«-Ai sim? E o cão não é teu?»
«-Absolutamente.»
«-Então, ele é teu, sendo pai, de modo que o cão passa a ser teu pai e tu irmão dos cachorrinhos?»
E de novo Dionisodoro tomou rapidamente a palavra, para que Ctesipo não dissesse alguma coisa primeiro:
«-Dá-me ainda mais uma pequena resposta: bates nesse cão?»
Ctesipo riu-se e disse:
«-Sim, pelos deuses! Já que não posso bater em ti.»

«-Então bates no teu próprio pai?»

Platão, Eutidemo, Lisboa, INCM, 1999


Feliz compleaños

O meu desejo é que a alegria habite sempre em tua casa; e fa-lo-á, se começar a habitar dentro de ti. (…)
A alegria de que estou falando e à qual me esforço por fazer-te aceder, essa é de natureza constante, e tanto mais dilatada, quanto mais íntima. (…)
Faz do verdadeiro bem o teu alvo, busca a alegria dentro de ti. Que significa «dentro de ti»? Significa que a felicidade se origina em ti mesmo, na melhor parte de ti mesmo.

Séneca, Cartas a Lucílio, 23

26 setembro 2006

Rossio

O rapaz coloca uma moeda na máquina
De fotografar automática e
Entra e sai,
Entra e sai velozmente
do pequeno cubículo.
Depois espera que as fotografias estejam prontas
Olha-as longamente separa-as rasga-as
Guardando apenas uma que mostra em casa
Gritando muito excitado: Mãe, vê

Vê como eu não estou aqui!!!!!

Inédito de Pedro Vieira (1967-2005)

Sem ponto

Muitas vezes escrevo e sou esse actor
O que chega sempre um pouco atrasado à sua própria fala.

Inédito de Pedro Vieira, 1967-2005

25 setembro 2006

O meu Pedro

O Pedro faz parte da minha vida.
O Pedro faz parte da vida de muitos dos seus amigos.
O Pedro foi a vida da sua Mãe.

Há três dias que tenho vindo a publicar aqui poemas do Pedro.
Vou continuar a fazê-lo.
Escreveu-me ele um dia (sobre o envio de originais para editoras):

«Tudo junto faz 150 páginas, mais ou menos. Acho que chega como obra poética... Rimbaud morreu aos 38. E não penso que tenha desistido da poesia.»

Ao Pedro Luís Baltazar Vieira
Ao meu Pedro
1967-2005

24 setembro 2006

Quase Apócrifo

Eu sou apenas Pedro
Um pobre pescador
Não sei o que viu em mim aquele rapaz
Com os cabelos tão longos
E a barba tão por fazer
Foi talvez uma ilusão que lhe deu
O entardecer a fazer-se em escombros
E a minha rede, de trazer luz aos ombros.

Inédito de Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

23 setembro 2006

(foi ontem, eu sei...)

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!... (Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, 15-10-1929

S. Sebastião

A sand storm surging across the street
a rainbow at night
Mishima

A minha morte anda cega
A minha dor é tão surda
- nem a si mesma se ouve -
mas se me trespassasses
eu seria
Até uma loja de pássaros
Ou qualquer coisa assim absurda.

Inédito de Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

22 setembro 2006

Este

Este queria ser um verso à janela
Entre folhas para ler muito depressa
Com um olho na poesia e outro em quem passa.

Inédito de Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

18 setembro 2006

Soluções dos enigmas e oráculos

Eis as esperadas respostas!

a) o homem. Tem duas pernas, gatinha em bebé e usa bengala na velhice. Foi este o enigma apresentado a Édipo pela Esfinge.

b) o fumo.

c) o sonho

d) o clister. Sobre os dois últimos versos, Albano Martins explica que «a cabeça do clister era de pele de cabra; a cânula, de marfim».

Enigmas...

Pensando melhor... vou dar mais um dia...
Amanhã publico a resposta...

17 setembro 2006

Enigmas e oráculos

É sabido que os gregos gostavam de enigmas e, em situações muito concretas, foram eles a origem de grandes males. No oráculo de Delfos, a Pitonisa (ou Pítia) expressava-se de um modo ambíguo, de maneira a que raramente falhasse. Creso, rei da Lídia, terá perguntado o que aconteceria se atacasse a Pérsia. A resposta foi que um império seria destruído. Creso avançou, perdeu, e o seu império foi destruído.
Proponho aqui alguns enigmas da Antologia Palatina. A tradução é de Albano Martins.

a) - (O enigma mais famoso...)
Há no mundo um ser com dois, quatro, três pés
e que tem sempre a mesma voz. Ele é o único, de quantos
se arrastam na terra, sobem no ar e mergulham
no abismo, cuja postura muda.
b)
Sou filho branco dum pai preto. Pássaro
sem asas, voo até às nuvens do céu.
Aos bonitos olhos que encontro faço brotar lágrimas,
sem dor. Uma vez nascido, dissipo-me no ar.
c)
Quem me vê não me vê e, não me vendo, contempla-me.
Não falando, faço falar; não correndo, faço correr.
Não passo duma mentira, e digo sempre a verdade.

d) - (para nós, os dois últimos versos podem servir para distrair, mas as outras pistas ainda são válidas hoje me dia!)
Só a mim é permitido o amor com as mulheres
às claras, e a pedido dos maridos.
Só eu possuo os rapazes, os homens, os velhos,
as raparigas, diante dos parentes aflitos.
Detesto o impudor. A mão do médico
gosta que eu execute um dos trabalhos de Hércules.
Sempre pronto a salvar aqueles a quem me uno,
lutaria até com Plutão, pelos meus amantes.
Associando à cabra o elefante, o engenho dos homens
produziu um filho de couro de dente branco.

A resposta virá amanhã...
Para quem estiver com muita pressa, pode ir a antologia de Albano Martins, do mundo grego outro sol, Lisboa, Edições Asa, 2002.

16 setembro 2006

Birthday wishes

O que eu te desejo é o domínio sobre ti mesmo, é que o teu espírito, atormentado por pensamentos inconstantes, acabe por se afirmar e ganhar convicções sólidas, e se sinta contente de si mesmo; (...) O homem que consegue realizar a sua vida está, de uma vez por todas, acima de todas as contingências, está desmobilizado, é um homem livre!
Séneca, Cartas a Lucílio, 32.5.

Séneca, Cartas a Lucílio, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991.
Tradução de José António Segurado e Campos

15 setembro 2006

Lisístratas colombianas

Notícia da Agência Reuters:

The ‘crossed legs’ strike
Wives of Colombia gang members call sex strike against crime


BOGOTA, Colombia - They are calling it the “crossed legs” strike.
Fretting over crime and violence, girlfriends and wives of gang members in the Colombian city of Pereira have called a ban on sex to persuade their menfolk to give up the gun.

After meeting with the mayor’s office to discuss a disarmament program, a group of women decided to deny their partners their conjugal rights and recorded a song for local radio to urge others to follow their example.

“We met with the wives and girlfriends of gang members and they were worried some were not handing over their guns and that is where they came up with the idea of a vigil or a sex strike,” mayor’s office representative Julio Cesar Gomez said.

“The message they are giving them is disarm or if not then they will decide how, when, where and at what time,” he told Reuters by telephone.

(Leia aqui o resto da notícia)

«Quem sai aos seus (não) degenera»

De 19 a 22 vou andar por aqui.

14 setembro 2006

As primeiras críticas

Já recebi as primeiras críticas

Com «mas...»:
- Gosto, mas... devias pôr mais coisas tuas.
- Gosto, mas... está muito sério. Não se nota a tua irreverência.
- Gosto, mas... a foto não te favorece.

Sem «mas...»:
- Gosto. Está coerente.
- Gosto de blogues temáticos.
- Gosto. Fazia falta uma coisa de clássicas.
- Não percebo nada desses assuntos. Não escreves sobre outras coisas?

E agora? Mantenho um blogue temático? Ou um mais disperso, vagueante, assim mais... como eu?
Já se está mesmo a ver o que vou fazer...
... aquilo que me apetecer no momento.
Este blogue estará em permanente edição...
Foi esta liberdade que percebi na blogosfera e dela quero usufruir.
Agradeço a todos o incentivo e... fiquem por aqui!


13 setembro 2006

Os «antigos-ricos»


Quaisquer semelhanças com a realidade não são pura coincidência

«Os empréstimos assentavam na hipoteca da liberdade pessoal - como já foi dito - e a terra encontrava-se nas mãos de uma minoria.
5. Uma vez que a constituição tinha esta estrutura e a maioria das pessoas era escrava de um pequeno número, o povo sublevou-se contra os poderosos. 2. A luta foi acesa e as duas facções mantiveram-se frente a frente durante muito tempo, até que, de comum acordo, escolheram Sólon como árbitro e arconte, confiando-lhe a direcção da cidade;
(...)
6. Depois de se haver tornado senhor da situação, Sólon libertou o povo tanto no presente como para o futuro, ao proibir os empréstimos sob garantia pessoal. Além disso, promulgou leis e procedeu a um cancelamento das dívidas, fossem privadas ou públicas, medida que os Atenienses designam por seisachtheia, porque vieram a desfazer-se de um fardo.

(Aproveitadores e espertalhaços... houve sempre!)

2. Servindo-se destes factos, alguns procuram denegrir-lhe a imagem: na verdade, aconteceu que Sólon, quando se preparava para implementar a seisachtheia, referiu previamente essa intenção a alguns notáveis. Em consequência, pelo que afirmam os democratas, foi vítima de uma manobra preparada pelos amigos; segundo os que o querem caluniar, também ele tomou parte na fraude. Essas pessoas teriam contraído empréstimos a fim de adquirirem grandes extensões de terra, pelo que, pouco depois, quando se procedeu ao cancelamento das dívidas, haviam enriquecido. Segundo se diz, é daí que provêm os que, mais tarde, ficaram conhecidos por «antigos-ricos».

Aristóteles, A Constituição dos Atenienses, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003. Tradução de Delfim Ferreira Leão, que ganhou, com este trabalho, o Prémio de Tradução da União Latina 2004

«O retorno aos clássicos»

Ler o texto completo em A Grande Loja do Queijo Limiano.
É um post com quase dois meses, mas gostei de ver que nós, os dos estudos clássicos, que andamos escondidos (como aqui se diz) e espalhados por faculdades que ultrapassam as portas das mencionadas (como aqui não se diz), temos público, apesar da guerra que nos é feita pelas reformas do ensino...

«classicistas de Coimbra e deLisboa, mas também do Porto, Aveiro e Braga traduziram nos últimos 25 anos Ésquilo e Sófocles, quase todo o Eurípides, muito Aristófanes, todo o Terêncio, quase toda a obra plautina, muito Cìcero, quase todos os diálogos platónicos, Aristóteles, Plutarco (é verdade faltam as obras maiores), Heródoto (está bem, falta Tucídides), Homero, Virgílio, os líricos gregos, Horácio, Marcial, Petrónio, etc., etc.. Mas essa elite- sim é uma elite e por isso os beócios querem acabar com ela -, fez mais, muito mais. Estudou a historiografia, o teatro, a filosofia moral, a poética e a retórica, a épica grega e latina; revelou muitas obras da nossa Idade Média Latina; deu a conhecer a riquíssima literatura novilatina do Portugal de Quinhentos. Foram classicistas que trouxeram de novo à luz obras de Cataldo, André de Resende, AntónioPinheiro, Damião de Góis, Aquiles Estaço, Jerónimo Osório, Inácio deMorais, Luís da Cruz, Miguel Venegas, Aires Barbosa, Diogo Pires, LopoSerrão, etc., etc. A esses classicistas se deve a história do humanismo em Portugal feita a partir dos textos e não de conjecturas mais oumenos preconceituosas.”

Resposta do «Queijo»:

«Ora, meu caro “mabeco” ( o privilégio deste tratamento, como saberá, é aqui da Loja e tem o copywright assegurado por Vital Moreira), folgo muito em ler tudo o que conta, mas que conta pouco, no panorama mediático português.
Por isso mesmo, as referências de Maria Helena da Rocha Pereira a um grupo de classicistas de muito valor, formados pelas escolas de Coimbra e Lisboa, foram apontadas no texto em causa, embora circunscrito a uma espécie de seitas escondidas nas faculdades.
E também por isso mesmo, é que se estranha que nos jornais apareçam diletantes a escrever crónicas avulsas, quando poderíamos certamente com muito proveito e exemplo, ler artigos e textos de quem se esmerou a estudar labirintos.
Estranha-se, mas não se entranha porque a razão para tal fenómeno, foi também apontada a seguir, no meu modesto entender: quem dirige jornais, sabe de jornalismo e pouco mais. Logo, co-opta para a escrita quem lhes parece sábio…segundo a sua própria sabedoria, feita de valores e referências idiossincráticos e de mediocridade patenteada.

Como também já disse, uma das razões do nosso atraso geral pode muito bem residir nesse nicho de mercado de que ninguém fala. Aliás, quem é que nos media, levantaria essa voz?! Só um "maluco" , pela certa. Vamos lá a ver...»

Vamos lá ver...

12 setembro 2006

Catulo (poeta latino - séc. I a.C.) Carme 109

Amor feliz, vida minha, me prometes
que este nosso será entre nós e perpétuo.
Deuses poderosos, fazei que com verdade o possa prometer
e que o afirme de forma sincera e do fundo da alma,
para que possamos prolongar por toda a vida
este pacto eterno de sagrada amizade.

Odeio e Amo, Coimbra, Edições MinervaCoimbra, 2005.
Tradução de José Ribeiro Ferreira

Lírica grega arcaica, arte helenística

Elogio do prazer (fr. 1W)

O que é a vida? O que é o prazer, sem a dourada Afrodite?
Que eu morra, quando estas coisas já não me interessarem:
o amor secreto, as suaves ofertas e a cama,
que são flores da juventude sedutoras
para homens e mulheres.
Mas quando chega a dolorosa
velhice, que faz até do homem belo um homem repulsivo,
tristes preocupações sempre lhe moem os pensamentos
e já não sente prazer em contemplar a luz do sol,
mas é odiado pelos rapazes e desonrado pelas mulheres.
Assim áspera foi a velhice que o deus impôs.

Mimnermo (Séc. VII a.C.)
Tradução de Frederico Lourenço para os
livros Cotovia.





Mimnermo era de Esmirna e é também daí que, séculos mais tarde, quando os escultores já mostravam a velhice e as imperfeições, nos chega esta estátua da velha bêbada...

11 setembro 2006

A causa destas coisas...

A causa destas coisas... é dos caminhos por onde ando...
Más companhias, é o que é!
Estando eu à procura da Carla Quevedo (trato-a assim, não por conhecê-la pessoalmente, mas pela proximidade que se cria entre leitor e «objecto» lido), que deixara de escrever no Expresso as suas crónicas que tanto me divertiam (para além de serem um excelente material para discussão nas aulas de Matrizes Culturais Europeias), encontrei-a no blogue da Bomba Inteligente. Aí descobri que a Carla não é de clássicas, mas que anda muito bem informada. Tem um blogue muito bonito e muito inteligente. É dos poucos que visito diariamente.
Ora blogue puxa blogue e este mundo começou a abrir-se.
Não gosto de tudo o que vejo e leio, mas é inegável que se encontra por aqui muita e boa leitura. E temas que nos fazem parar e pensar um pouco mais na realidade.
Para isso estão cá esses blogues todos.
Este aqui... bem... este não será muito realista... se sair a mim, então, nem se fala!
Escolhi fazer um blogue também como suporte de informação que costuma estar em sites e fi-lo por isto ser muito mais fácil de construir e actualizar.
Por pura preguiça, pode mesmo dizer-se.
Espero que resulte.

Xantipa, a senhora Sócrates...

Xantipa foi a senhora Sócrates (469-399 a.C.), a escolhida pelo filósofo para mãe dos seus filhos.
A Antiguidade não nos dá uma boa imagem desta mulher, tendo ficado conhecida pelo seu mau feitio e irascibilidade.
No entanto, encaixa-se e faz sentido na vida do Sócrates, quando nos lembramos de que foi educado como qualquer outro cidadão de Atenas, exercendo os direitos e os deveres inerentes à cidadania.
Xantipa foi mal amada pela história, mas a verdade é que permaneceu com ele até ao fim.
A sua companheira de vida.


Para quem quiser ver uma Xantipa envolvida numa trama policial, acompanhando (ou adiantando-se a) Sócrates, percebendo desde logo a natureza de Alcibíades, pode divertir-se com esta A Senhora Sócrates. Em português ou no original francês .


O primeiro post

Aqui vai... é desta que começo um blog...
Já me vaticinaram que vai ser consultado por colegas e alunos...
Espero que sim. E não só.
Por amigos.
Por conhecidos.
Por interessados em algumas destas coisas que por aqui vão andar a navegar...

E sendo hoje o dia que é, não posso deixar colocar uma foto, um memento...