13 novembro 2006

«A Escolha de Rómulo»

Hoje, às 21.30, na Casa das Figuras (ou Solar do Capitão-Mor), ali ao pé do Teatro Municipal, vou ouvir poesia de António Gedeão dita por Paulo Moreira e cantada por Afonso Dias.
Desta vez tenho garantia de qualidade!

Crítica Literária...

_Creio eu, Sócrates, que para um homem a parte mais importante da educação consiste em ser perito em matéria de poesia, e essa perícia significa poder entender e saber distinguir, na obra dos poetas, o que está feito de modo correcto e o que não está e justificar-se perante qualquer dúvida.

Diz Protágoras, no diálogo de Platão com o mesmo nome, 338e-339a.
Tradução de Ana Elias Pinheiro para a Relógio d'Água, em 1999.

12 novembro 2006

Dominguices...

A inclinação de sua letra mostra que você parece ser uma pessoa equilibrada, educada. Mas é um pouco “fria” com quem acaba de conhecer. A ligação de sua letra revela organização, raciocínio lógico e razoável capacidade de adaptação. A direção de sua letra indica controle, constância e organização, especialmente nas tarefas cotidianas. A pressão que usa ao escrever sinaliza estabilidade e equilíbrio. As áreas valorizadas na sua escrita destacam controle emocional, tolerância, um certo imediatismo e tendência ao comodismo. A forma de sua letra demonstra amabilidade em seus relacionamentos (amorosos ou não) e cooperação.

Consultoria do grafologista José Bosco Tel. (11) 3112-8036 grafotecnica@hotmail.com
Li no Corta-Fitas e também quis fazer este teste!

11 novembro 2006

Cinco manias...

Chegou um desafio da Damularussa e eu achei que não tinha manias... que eram apenas «hábitos», dizia-me... Bem, uma das manias já aqui a tinha admitido... e aí até admiti que era de manias... (hoje, já ouvi 4 vezes a Turandot ... o trauma de ontem foi grande... vou continuar!)

Tenho a mania de arrumar a loiça na máquina com ordem: por tamanhos, cores, função (pratos rasos não se intercalam com os de sopa ou os de sobremesa);
Tenho a mania que não gosto de dormir (mesmo quando sou a primeira a adormecer em qualquer lado);
Tenho a mania que estou magra (mesmo quando já um 44 me está apertado);
Tenho a mania que estou gorda (mesmo quando já um 38 me está largo);
Tenho a mania que não conheço ninguém nem ninguém me conhece (mesmo que cumprimente 30 pessoas numa tarde, ao passar na ágora cá da pólis, ou encontre 4 pessoas conhecidas em Olissipo, numa única tarde, em sítios diferentes - se fossem todas na FLL não contaria - depois de não viver lá durante 15 anos);

Agora acho que tenho de nomer 5 blogues para continuarem este stiptease maniento ... como não conheço a maioria dos que tenho lincados, aqui vão as vítimas «conhecidas»:
Puro Instinto, A Mulher do Lado, Cartas do Meu Moinho, Não Compreendo as Mulheres, Claras em Castelo.
E que os deuses me perdoem por vos ter metido nisto...
Eu pronuncio o «t» final de Turandot.
A polémica é infindável, mas os argumentos do «t» convencem-me.

Hoje (não ontem), a Turandot...


Estou a ouvir a minha Turandot!
Ai que dor senti ontem! Tanta tristeza! Senti-me envergonhada pelo que via e ouvia e cheguei a sentir pena...
Os cantores olhavam o tempo todo, ostensivamente, para o maestro... Pong olhava ainda para a sua «cábula» escondida (??) no leque... Numa das cenas canta sentado, com os papéis escondidos (??) em cima de um banquinho... O Imperador também os esconde (??) no leque...
Ai que tristeza! Os atropelos nas entradas... ai que tristeza! O coro... ai que tristeza! Ping e Pang... tristes...
E primeiro que eu percebesse que cantavam mesmo em italiano?
A pobre da Liù... não se ouvia! Turandot, Calef e Timur faziam ouvir-se.
E mais não digo.
Enquanto a casa dorme, oiço (nos auscultadores) a belíssima voz do meu Jussi (Calef) a gritar, zangado:
«Tu nom sai nulla, schiava!»
e a Tabaldi (Liù) a insistir:
«Io so il tuo nome... M' è suprema delizia tenerlo segreto e possoderlo io sola!»
.......
Turandot, grandiosa Nilsson, quer saber:
«Chi pose forza nel tuo cuore?»
Liù:«Principessa, l' amore!»
Turandot: «L' amore?»

10 novembro 2006

Turandot

E agora estou a correr para estar no Conservatório, para ver a Turandot, do Puccini, às 21.30!
Em casa tenho andado a ouvir a versão que por cá tenho, cantada pelas «gigantes» Birgit Nilsson (Turandot) e Renata Tebaldi (Liù)...
Aqui, vou ver uma versão do Teatro Académico de Ópera e Ballet de Jarkov, «uma das mais antigas companhias da Ucrânia, que no inicio do século XX era equiparada ao Teatro de Bolshoi e ao de Kirov em S. Petersburgo», diz no site.
Depois conto...

A Lógica da Batata volta à escola

Já estou a correr para não me atrasar: vou fazer a palestra «A Lógica da Batata» à Escola Secundária Poeta António Aleixo, em Portimão, e tenho de lá estar às 10h!

09 novembro 2006

Sempre Filoctetes...

E sempre Neoptólemo...

Os homens têm de aguentar as desventuras
impostas pelos deuses. Mas as desventuras
que um homem impõe a si próprio,
dessas ninguém deve sentir compaixão.

Ainda Filoctetes...

Diz Neoptólemo:

Tudo é repugnante, quando um homem trai a sua verdadeira natureza e faz o que não deve.

Filoctetes

Regressada à minha Atenas, reencontro, finalmente, o Tempo! Garanto que os dias aqui são maiores!

Tenho à minha frente a tradução de Filoctetes de Frederico Lourenço, a que ele chamou «recriação poética», «um pouco à semelhança do que fez Sophia de Mello Breyner Andresen na Medeia», adianta, no Posfácio. As diferenças entre o texto de Sófocles e o seu? Responde, no mesmo Posfácio:
«Alguns pequenos cortes (sobremaneira oportunos, do meu ponto de vista) talvez lhe causassem perplexidade. A colocação de um verso de Píndaro na boca de Neopólemo também («como os deuses fazem que o incrível se torne crível tantas vezes»). A desconstrução e «pós-moderna» remontagem do prólogo certamente.
Mas na essência, é a sua peça, o Filoctetes sofocliano, que ele reconheceria

Antes de ir para Olissipo estive a reler a peça e ao ver a actuação reconheci as palavras de Sófocles. Se a preocupação de Frederico Lourenço era tornar o texto representável na nossa língua, conseguiu-o! Éramos 40. Alunos e professores. E gostámos muito!
Luís Miguel Cintra estava irrepreensível. Não se via ali um actor, não se via ali um bom actor. Quem ali estava era Filoctetes, velho, cansado, revoltado, desconfiado, esperançoso, doente...
E que dizer de António Fonseca? Não era António Fonseca, era Ulisses!
O despojamento do cenário, o azul dos marinheiros, o espelho que nos tornava participantes na peça, tudo isso contribuiu para uma entrega total às palavras de Sófocles. E as palavras criaram sentimentos...
Diz Aristóteles, na Poética, 1453b1-7:
O temor e a compaixão podem, realmente, ser despertados pelo espectáculo e também pela própria estruturação os acontecimentos, o que é preferível e próprio de um poeta superior. É necessário que o enredo seja estruturado de tal maneira que quem ouvir a sequência dos acontecimentos, mesmo sem os ver, se arrepie de temor e sinta compaixão pelo que aconteceu;
(tradução de Ana Maria Valente, em edição da Fundação Calouste Gulbenkian)
Ficámos todos com vontade de mais...

(Sim, Sales, vale a pena!)

07 novembro 2006

Para logo...

Esse malvado e filho de malvados, Ulisses. Contudo não o culpo tanto a ele como aos que se encontram no poder, pois uma cidade e todo o exército dependem de quem governa. Os mortais que praticam actos injustos, é devido às lições dos mestres que se tornaram perversos.
Diz Filoctetes, entre os versos 383-388, da tradução antes mencionada.

De passagem pela cidade de Ulisses

De visita a esta cidade, perdi a noção do tempo que se vive na minha pólis. O Tempo, aqui, é mesmo outro... perde-se por aí... e não se sabe para onde foi quando dele se precisa...
Como já tinha referido, vou ver o Filoctetes. Vou hoje à noite à Cornucópia, com os alunos de Matrizes Culturais Europeias e um grupo de colegas.
Li no Expresso de sábado uma crítica e estou curiosa para ver como será a representação desta noite. O Teatro tem isso de bom: cada noite é única!

05 novembro 2006

Agora é que é: os nomes... Calírroe

Isto dos nomes próprios em Grego… que ideia tivemos!
É muito mais interessante ver os nomes – comuns – em Português e ir «beber» ao Latim e ao Grego.
Como deves imaginar, os nomes próprios, como acontece entre nós, já não tinham, naquela época, a força de significado que lhes é atribuído ainda na mitologia. Não digo que um filho muito desejado não se pudesse chamar Teodoro (theos: deus + doron, dorou: presente, prenda), mas eu hoje conheço ateus que deram ao filho o nome de Teófilo (theos: deus + philos: amigo) …
Por falar em dorondorou:, lembrei-me da conhecida Pandora (a da caixa, sim), a quem todos (pan, pantos) os deuses dotaram com uma qualidade ( dorondorou)...

Bem, falo-te então do nome Calírroe, a heroína do romance helenístico de um autor chamado Cáriton de Afrodísias (uma cidade da Cária. Tal como o famoso Leonardo, que ficou conhecido por ser da cidade de Vinci).
Kallirroe provém do adjectivo kallirroos, que significa «de belo curso», «de belas águas»: kallos (belo) + rhoos (corrente, fluxo).
Encontras kalos na palavra portuguesa caligrafia, e encontras rhoos em catarro (kata – preposição que significa «para baixo»). Quando estás com catarro, tens um fluxo, um muco, que escorre…
Este rhoos é da família do verbo rheo (escorrer) e de um outro substantivo que também significa «fluxo, corrente», que é rheuma, rheumatos. Os franceses ficaram com «rhume» e nós com o reumatismo
E reumatismo é hoje considerado não uma doença, mas o nome genérico de um grupo de doenças articulares, como a artrite, por exemplo.
Pensavam os gregos que a artrite era devido a humores, ou fluxos (rheumata), que escorriam…
Ai! As palavras são como as cerejas!

Não foi um grande tema para um postal de Domingo, eu sei, mas ficamos com o assunto resolvido, não é verdade?
(nota: tinha umas imagens para pôr, mas não consigo...)

04 novembro 2006

A beleza masculina (Ovídio)

Uma beleza desarranjada é o que fica bem aos homens (...).
É a limpeza que deve dar prazer; (...)
esteja a toga apresentável e sem nódoas;

não deve usar-se calçado ressequido e não haja ferrugem nas fivelas,
nem ande o pé a nadar, desengonçado, em pele largueirona,

nem dê mau aspecto a cabelos enrijecidos um corte mal feito;
sejam cabelo e barba aparados por mão firme;

as unhas não devem dar nas vistas de compridas e devem estar limpas,
e no nariz não deve haver qualquer pelo;
não saia mau hálito de uma boca mal cheirosa,
nem atinja o nariz dos outros o fedor do macho e do pai do rebanho.
Quanto ao resto, deixa-o por conta das mulheres dadas ao prazer ou de qualquer homem que tenha o vício de possuir outro homem.

Arte de Amar, I, 507-522. Sempre a mesma tradução.

Porque hoje é sábado...

... «roubo» umas estrofes a Vinicius de Moraes, antes de me dedicar à Arte de Amar, de Ovídio. Porque hoje é Sábado. Não me apetece Teógnis. Porque hoje é Sábado.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

Excerto de O dia da Criação.

03 novembro 2006

Este é o pré-próximo post... lição de Grego... Ops!

Antes de passar para o significado daqueles nomes, vou ter de te dar uma pequena «ensaboadela» e explicar-te como funciona isto do Grego… os teus conhecimentos de Português (sim, de Português), de Latim, ou mesmo de Alemão, vão ajudar-te a perceber (não me lembro se sabes Alemão…).

Vou começar por falar daquilo a que se chamam os casos.
Em Grego, os nomes (e os adjectivos… e os pronomes...), vão mudando um pouco a sua forma consoante a função que exercem na frase, estando assim morfologia e sintaxe bem juntinhas…
Em Português, numa frase simples, quando colocas um nome antes de um verbo transitivo e outro depois, aprendeste a chamar sujeito ao primeiro e complemento directo ao outro, dizendo que o sujeito pratica a acção.
Depois dão-te uma frase passiva. Aí já não podes dizer que o nome antes do verbo pratica a acção… mas continuas a chamar-lhe sujeito. Sujeito passivo, mas sujeito.
Daqui se conclui que é a posição que as palavras ocupam nas frases que revela a sua função sintáctica, não é a sua forma, pois esta mantém-se inalterada (bem, um dia hei-de falar-te dos pronomes…)

Em Grego é essa «alteração» morfológica que indica o caso e, portanto, a função.

Daí que, quando enunciamos uma palavra – vou dar exemplos em Latim, língua que conheces melhor – nunca dizemos apenas dominus (senhor), mas dizemos também domini, ou apenas caput (cabeça), mas também dizemos capitis.
Isto porquê? Porque é mais fácil saber todas as formas que a palavra assume se tivermos estas duas!
Dizendo (enunciando) a forma que a palavra assume quando é sujeito (caso nominativo) e a forma que a palavra assume quando é complemento determinativo (caso genitivo), ficamos na posse da chave para todas as formas possíveis (ou funções possíveis) que a palavra pode assumir (portanto, ficamos na posse de toda a declinação).
Declinar (declinare, em Latim) significa «inclinar-se, dobrar-se».
Vem do Grego klino, «dobrar-se», palavra da família de kline (cama) e de klinokós (clínico, o médico que visita pessoas acamadas). Como o klinikós se dobrava sobre a cama… temos então o dito verbo…
E isto não tem de fazer confusão nenhuma, pois se tivermos a gramática da nossa língua presente, veremos que as nossas famílias de palavras funcionam exactamente assim!


Ora bem, declinar uma palavra é ir «dobrando-a» e «desdobrando-a» em várias, não deixando esta de ser a mesma! E casus é o particípio do verbo cair… Declinas as palavras («dobras» as palavras) e elas «caem» numa determinada forma!

Se em dominus não se percebe imediatamente a importância da enunciação (isso seria uma explicação para uma outra ocasião! Não posso fazer disto aqui um curso bloguítico de Latim e Grego!), se eu te disser que «capital» (a cidade que está à cabeça) vem de caput, não associas imediatamente. Mas se te disser que vem de caput, capitis, vês logo a semelhança de radical…

Tudo isto vinha a propósito de Teógnis
Bem… lá terá de ficar para o próximo post!


02 novembro 2006

A razão do próximo post...

Por uma questão de decência (já basta a indecência de reproduzir uma conversa…) não vou identificar a minha interlocutora. Substituí os nossos nicknames por Eu e Ela e mudei o «diz» que aparece por defeito no msn por simples «dois pontos».
Fica, então, aqui, a razão do próximo post (mais logo...)

Ela
Diz-me, minha caríssima amiga, por que é que os teus entusiasmantes escritos têm SEMPRE nomes tão esquisitos, tão estranhos, tão difíceis de decorar, para uma cinquentona, como eu?
Eu :
Lol! Nomes esquisitos?
Eu :
Aníbal??
Eu :
Alexandre?
Ela :
Não brinques comigo!!! Já estava à espera dessa, mas ... um momento...

Ela :
Agora colecciono-os: Neoptólemo, Quéreas e Calírroe, Cáriton, Crítias, Hesíodo, Tesmofórias, Teógnis, Regimen Sanitatis Salernitanum...

Eu :
Ahhh… esses nomes...
Eu :
Pois... era assim que se chamavam...
Eu :
Mas há piores! Num romance helenístico há um tipo que se chama... Perilau...
Eu :
com «e»

Ela :
Para ti pode ser (e é!) fácil, mas para mim, ... é dificílimo. E depois, como leio, por vezes em voz alta, chego a estes termos e rogo algumas pragas aos classicistas!
Ela :
lol

Eu :
lol
Eu :
Mas nós não podemos renomear as pessoas!
Ele :
Claro, mas já tive vontade de te perguntar por que razão os gregos tinham nomes tão difíceis de dizer ... Ah! Difícil, para mim, claro!
Eu :
Os grupos consonânticos e vocálicos são diferentes dos nossos... e por isso os nomes deles parecem difíceis em relação dos nossos, que são mais simples... para nós…
Eu :
É como os nomes das doenças ou dos medicamentos... Nunca se decoram... são difíceis!
Ela :
Tem piada! Os nomes das doenças parecem-me mais lógicos

Eu :
«Contém fonte de fenilalanina». O que eu me rio ao ler isto nos iogurtes!
Eu :
Falo dos nomes «técnicos» das doenças. Quando os médicos falam, eu tenho estar sempre a «activar» o meu dicionário etimológico mental!
Eu :
Por isso percebo-te...

Ela :
Ah! Ainda bem...
Ela :
fenilalanina...

Eu :
Parece lã num funil... ou funil de lã… (até podia fazer uma «etimologia da batata»!)

Ela :
Há um que me irrita... espera!
Ela :
Neoptólemo
Eu :
É o filho do Aquiles

Ela :
prefiro o pai...

Eu :
lol
Eu :
Quer dizer nova (neo) guerra (ptólemos)
Eu :
«Guerra» é pólemos, mas ptólemos é uma forma poética de dizer «guerra»
Ela :
assim gosto mais

Eu :
Ptolomeu quer dizer belicoso…

Eu :
Acho que vou fazer um post a explicar os nomes...
Eu :
Em tua homenagem!

Ela :
Que bom! UF! Que alívio!
Não tens um bonequinho daqueles que tira o suor da testa?

Cipião e a decisão de Minos (Take three and last)

(Cipião, o Africano - 235-183 a.C.)

Cipião: Não julgues, sem me ouvires também.
Minos: Quem és tu, meu caro? Ou, donde és tu, para falar?
Cipião: De Itália, Cipião, o general que tomou Cartago e conquistou a Líbia, com grandes batalhas.
Minos: Que é que tens para dizer, também?
Cipião: Que sou inferior a Alexandre, todavia melhor do que Aníbal, eu que eu venci, o persegui, tendo-o obrigado até a pôr-se em fuga, vergonhosamente. Ora, como é que não é desvergonhado, quem disputa a primazia a Alexandre, com o qual nem eu, Cipião, que venci Aníbal, ouso comparar-me?
Minos: Por Zeus, é razoável o que dizes, Cipião. Por isso, fique Alexandre julgado o primeiro, e depois dele, tu. A seguir, se estás de acordo, Aníbal em terceiro lugar, visto que também ele não é para desprezar.

01 novembro 2006

Alexandre, Aníbal, Minos e Cipião (take two)

(Alexandre III, o Grande - 356-323 a.C.)
Minos: Ele pronunciou em sua defesa um discurso não sem nobreza, como não seria de esperar de um líbio. Tu, Alexandre, que respondes às suas palavras?
Alexandre: Eu não precisava de dizer nada em resposta a este homem audacioso, ó Minos! Basta a fama para te esclarecer sobre o rei que eu fui e o salteador que ele foi.
Todavia, vê se fui pouco superior a ele, eu que, sendo ainda novo quando cheguei aos negócios de estado, e tendo entrado na posse de um poder em dificuldades, persegui os assassinos de meu pai e, depois de aterrar os gregos com a destruição de Tebas, fui por eles eleito.
(…)
E o que sucedeu depois disso, ó Minos, vós sabeis: quantos mortos vos enviei num só dia. O banqueiro, pelo menos, diz que o barco não foi então suficiente para eles, mas que construíram uma jangada e fizeram passar nela a maior parte para o outro lado. E esse foi um feito que eu pratiquei pessoalmente, correndo perigo não me recusando a ser ferido. (…) E favoreci os amigos e puni os inimigos.
E se os homens até me consideravam um deus, há que desculpá-los, perante a grandeza dos feitos, de que eles acreditassem também uma coisa tal coisa a meu respeito. Para terminar, eu morri, enquanto reinava, ao passo que este indivíduo, enquanto estava exilado (…).
Os meios com que dominou os Itálicos deixo de referi-los: não foram a inteligência nem a força, mas a maldade e a má-fé e os enganos, e nada de legal nem de franco. E já que insultou o meu gosto dos prazeres, a mim parece-me preferível esquecer o que ele fazia em Cápua no convívio com prostitutas, esse general admirável, enquanto perdia no gozo os momentos oportunos da guerra.
(…)
Tenho dito. E tu, ó Minos, faze o teu julgamento, porque de entre muita coisa basta o que acabo de dizer.