30 dezembro 2006

Heterossexualidade e adultério - Banquete (6)

(continuação)

Em consequência, todos os homens que resultam do corte de um ser misto (o mesmo que em tempos era chamado andrógino) só gostam de mulheres. É deste género que descende a maior parte dos adúlteros, bem como todas as mulheres que gostam de homens - sem esquecer as adúlteras!
(191d-e)

«Um cego»...

... é a minha resposta ao post do querido Miguel, que insiste (e muito bem) em relembrar os seus concidadãos de língua inglesa destas coisas da minha pólis.
E cá estarei eu para fazer a respectiva apresentação das edições portuguesas!
Esta é de Maria do Céu Fialho, editada em Coimbra, pela Minerva, em 1996.
Deixo, então, o início do Édipo em Colono, de Sófocles:

Édipo
Filha de um velho privado de vista, Antígona, a que terras somos chegados? A que povo pertence esta cidade? Quem me dará a magra esmola para o dia de hoje, a mim, Édipo, o vagabundo, que tão pouco pede, menos ainda recebe - e isso lhe basta, contudo!
A resignação ensinaram-ma as minhas penas, o tempo, meu velho companheiro, e também a minha natural disposição.
Mas, minha filha, se enxergas um lugar que possa servir de repouso, em terra profana ou recinto divino, ampara-me e ajuda-me a sentar, para nos informarmos onde estamos afinal. Como estrangeiros que somos, precisamos consultar os cidadãos desta terra e cumprir os seus preceitos depois de os ter ouvido

29 dezembro 2006

O amor entre os homens - Banquete (5)

(continuação)

Compadecendo-se, por fim, Zeus lança mão de outro artifício e muda-lhes para diante os órgãos genitais. (...)
Ao mudar-lhes, pois, os órgãos genitais para diante, Zeus determinou que a geração humana passasse também a efectuar-se de uns para outros, mediante tais órgãos - na fêmea por intermédio do macho. E eis o que tinha em vista: se acaso o acoplamento se desse entre homem e mulher, o resultado seria procriarem e perpetuarem a espécie; se entre dois varões, haveria pelo menos a plenitude da união e, uma vez apaziguado o desejo, poderiam voltar às suas tarefas e interessar-se por outros aspectos da vida.
Dessa época longínqua data, sem dúvida alguma, a implantação do amor entre os homens - o amor que restabelece o nosso estado original e procura fazer de dois um só, curando assim a natureza humana.
(191b-d)

28 dezembro 2006

Cá a Xantipa anda com alguma dificuldade em visitar os amigos na blogosfera, não por falta de vontade (não! Não!), mas por razões que a razão bem conhece, se bem que não tenha tempo para aqui explicar.
Fica apenas um abraço a todos os que me desejaram boas festas e eu não respondi (inclusive a oferta de umas belas férias) e um obrigada pela compreensão!
No entanto, sempre que possível, o Senhora Sócrates vai sendo actualizado!

27 dezembro 2006

Seta de Fogo

«Dorme dentro de mim»
E o teu corpo é um barco
E o que quiseres serei
O alvo, a flecha ou o arco.

§§§§§§§§§§§§
§§§§§§§§§§§§

Amei muito
Mas amei muito
Mal. É triste, é
Mas não é mortal

Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

23 dezembro 2006

O Império das Luzes

(L' Empire des lumières - O império das luzes [The empire of lights] 1954. 146x114cm coleção particular [private collection] cortesia Musée royaux des Beaux-Arts de Belgique, Bruxelas)

O IMPÉRIO DAS LUZES
(Segundo Magritte)


O que num objecto se vê
É um outro objecto
Oculto. Busco na noite
A luz, na brancura
A escondida escuridão.
No fim, meu amor, teremos a casa
E o seu reflexo nas águas
Será a nossa habitação.

Do Pedro.

Saudades

Tenho saudades do Pedro!
Muitas!

Como gostaríamos de ter sido a metade um do outro!
Fomos quase, quase a metade um do outro...
Um dia escreveu-me:

«No fundo, a minha mãe é que tem razão... O melhor homem para ti seria eu. Na verdade, a minha mãe nunca disse isso, disse exactamente o oposto: A melhor mulher para mim serias tu. Big, Big, Big difference...»
Eu acho que seríamos o melhor um para o outro, mas não éramos a metade arrancada... para nossa tristeza!
Poemas do Pedro aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Saudades - Banquete (4)

(continuação)

Ora, quando a forma natural se encontrou dividida em duas, cada metade, com saudades da sua própria metade, se lhe reunia; e estendendo as mãos em volta, enlaçadas uma na outra, não mais aspiravam do que a fundir-se num só ser!
Começaram, então, a sucumbir à fome e à inacção geral, porque se recusavam a fazer fosse o que fosse uma sem a outra; e sempre que uma das metades morria, a que ficava procurava ao acaso outra sobrevivente a que juntar-se, fosse metade de um ser completamente feminino (o que agora chamamos mulher) fosse a de um ser masculino. Deste modo, a raça ia desaparecendo...
(191a-b)
Cada um de nós não passa, pois, de uma téssera humana, divididos, como estamos, em metades, à semelhança dos linguados; e é a sua própria metade, ou téssera, que cada um infatigavelmente procura.
(191d)
Nota da tradutora: téssera era «a metade de um dado que o dono da casa repartia com o seu hóspede para que mais tarde eles dois ou os seus descendentes pudessem reconhecer o laço de hospitalidade que os unia.»

22 dezembro 2006

«Oh, metade amputada de mim!» - Banquete (3)

(continuação)
(receando a força e ambição destes seres, Zeus decide)

«Parece-me», anunciou, «que arranjei processo de continuar a haver homens e acabar de vez com a sua arrogância: é enfraquecê-los. Agora mesmo vou dividi-los ao meio um por um; deste modo, não só hão-de ficar mais fracos como também sairemos beneficiados, graças ao aumento de número. Por enquanto, podem caminhar erectos sobre as suas duas pernas; porém se virmos que mesmo assim persistem na arrogância e se recusarem a dar-nos tréguas, então», declarou, «volto a dividi-los ao meio e passam a andar só sobre uma perna… ao pé-coxinho!»
Dito e feito. Pôs-se a cortar os homens às metades, exactamente como se cortam sorvas para as pôr em conserva [ou como se faz aos ovos com um cabelo]. À medida que os ia cortando, encarregava Apolo de lhes virar o rosto e a metade do pescoço para a superfície amputada, na ideia de que os homens se tornariam mais humildes com o espectáculo da sua própria amputação diante dos olhos.

Platão, Banquete, 190c-e. Edições 70, 1991. Tradução, introdução e notas de Teresa Schiappa de Azevedo.
Oiça «Pedaço de mim» - Chico Buarque e Zizi Possi

20 dezembro 2006

Ritornello

Recebi esta petição que aqui vos deixo...

Apoio ao Ritornello

O programa Ritornello da Radiodifusão Portuguesa, da autoria de Jorge Rodrigues, é provavelmente o programa de maior audiência de toda a Antena 2. O Ritornello é produzido há mais de 10 anos com uma imaginação, diversidade, inteligência, sentido formativo e informativo tais que se tornou, na prática, uma referência incontornável para todos os amantes da música dita erudita em Portugal.

Mas não só da música. A poesia, o teatro, a literatura, a dança e a cultura portuguesa, em geral, circulam no Ritornello como numa grande coreografia, cruzando-se através da temática de cada programa – criteriosamente escolhida pelo seu autor – e por meio dos convidados que nele têm tido voz. Ao longo dos últimos 10 anos, mais de 2000 individualidades, nacionais e estrangeiras, foram entrevistadas por Jorge Rodrigues, permanecendo o testemunho de muitos gravado na memória dos portugueses.

Recentemente, alegadamente por conduzir entrevistas desinteressantes (!), a direcção da Antena 2 proibiu Jorge Rodrigues de continuar a entrevistar convidados portugueses. Ficam assim excluidos do programa as vozes de José Saramago, de Agustina Bessa Luís, de Paula Rego, de Maria João Pires, etc.,etc... Sob qualquer ângulo que se observe, a medida é insólita e obtusa, fazendo lembrar tempos dos quais Portugal se libertou com dificuldade.

Que serviço público é este que proíbe a voz dos artistas e intelectuais portugueses no programa de maior prestígio de toda a Antena 2 ? Logo aquele que mais dinamicamente tem contribuido para manter os ouvintes, directa ou indirectamente interessados, ao corrente das causas culturais portuguesas! O mérito de Jorge Rodrigues deveria ser premiado por ser do interesse cultural nacional e não obstruido desta forma ridícula.
Se discorda desta proibição e se acha que os artistas e intelectuais portugueses merecem continuar a ser entrevistados no Ritornello, por favor dê o seu apoio a este protesto assinando em
http://www.PetitionOnline.com/r1tornel/petition.html e divulgando esta informação.

Muito obrigado,
António Chagas Rosa

Sol, Terra e Lua - Banquete (2)

Quanto à origem destes três géneros, com tais características, ei-la: o macho foi inicialmente um rebento do Sol; a fêmea, da Terra; e da Lua, a espécie que reunia as características dos dois, dado que também a Lua partilha da natureza do Sol e da Terra. Daí o facto de serem globulares, tanto eles como a sua marcha – devido à semelhança com os seus progenitores.

Platão, Banquete, 189e-190a. Edições 70, 1991. Tradução, introdução e notas de Teresa Schiappa de Azevedo.

19 dezembro 2006

«Espécies do Ecossistema Transportal» - escreveram outros (4)

Tenho andado um pouco arredada nestes dias (ranhosa, fanhosa, tosseca, espirritos) com múltiplas actividades (boas, excelentes!) que me têm afastado da blogosfera.
Regressada, aqui fica o meu obrigada a todos os amigos que se preocuparam com a minha ausência!
E como nestas deambulações passei pela capital, este surripianço vem mesmo a calhar! Com autorização do autor!
Obrigada, Xêroso!

Já o escrevi anteriormente, e continuarei a escrevê-lo até me apetecer ou os dedos me doerem, que os transportes públicos são para mim uma grande fonte de inspiração e, nas viagens mais longas, quase de expiração.

A quantidade de situações presenciadas dava bem uma série televisiva, que certamente rivalizaria com os Morangos com Açúcar ou com a Floribela, só faltando saber se a série seria do género dramático ou comédia.

Neste contexto, gostaria de publicar um estudo que venho fazendo nos últimos tempos sobre as diferentes espécies que habitam no Ecossistema Transportal, espécies essas tão distintas como as regras que ditam o seu comportamento.

Não foi fácil, passar tanto tempo neste ambiente, tendo muitas vezes de adoptar os seus comportamentos de forma a perturbar ao mínimo os seus hábitos. Houve uma ou outra situação em que a espécie em estudo desconfiou da câmara de vídeo e da rede, mas o que seria duma reportagem sobre o mundo animal sem uma dose de perigo e adrenalina?
Este trabalho nunca estará completo, tal a dinâmica apresentada neste habitat, que todos os dias revela ao mundo novas e espantosas espécies, pelo que se seguem apenas as que já estão totalmente estudadas e catalogadas.

Cavalo de Corrida - Este animal posiciona-se sempre encostado à porta de saída, independentemente do seu destino. Quando esta abre, seja qual for a hora ou o transporte, desata numa correria desenfreada, como se levasse às costas um jockey imaginário. Tentei por diversas vezes acompanhar um, mas foi um esforço inglório. Desconfio que tentam apanhar outros transportes, mas é uma mera suposição. Aguardo os resultados dos colares sinalizadores para ter certezas

Diabo da Tasmânia - Cuidado, este é bastante agressivo! Passa despercebido, como se estivesse num estado de letargia, mas basta vagar um lugar sentado e saiam da frente do bicho! Cotoveladas, rosnadelas, arranhões, mordeduras, beliscões, tudo vale para conseguir chegar primeiro ao seu objectivo.

Stripper - Esta espécie gosta de se encostar nos postes existentes no meio dos transportes, desde o início das nádegas até à nuca, borrifando-se para o facto de haver outros animais agarrados a esse apoio. Ainda não perdi a esperança de ver alguém meter-lhe uma nota no cinto e ele começar a esfregar-se no poste para cima e para baixo, enquanto lambe o dedo indicador.

Lucky Luke - Talvez o ser mais rápido deste ambiente. Quando o poste não está ocupado pelo Stripper, e estão trinta mãos a agarrar o dito (poste), basta retirar a mão por 2 segundos para coçar o nariz ou ajeitar os óculos e eis que o Lucky Luke ataca não se sabe vindo de onde, ocupando o nosso lugar! Um autêntico filho dum... que ainda por cima nos olha de lado por lhe tocarmos na mão.

O Cerejeiro - Apenas existem machos, caracterizando-se por gostarem de fazer descansar o seu sistema reprodutor, mais concretamente os seus tomates, nos ombros dos bichos que vão sentados, como se fossem umas cerejas enfeitando uma orelha. A melhor solução para nos livrarmos do “ornamento” é com um súbito e repentino levantar, causando normalmente a fuga do cerejeiro, urrando de dor.

Carneiro - Especialmente numeroso nas horas de ponta, limitam-se a ir na corrente, balindo para aqui e para acolá. É uma espécie patética, que aparenta ir para onde os outros vão.

Salmão - Gosta de enfrentar a corrente formada pelo rebanho dos carneiros. Torna-se particularmente agressivo quando nota que o seu transporte está prestes a partir.

Hipopótamo - Movendo-se com a graciosidade muito própria desta espécie, ao chegar a qualquer lado provoca estragos num raio de 7 metros até se sentir totalmente confortável. Atinge um maior potencial de destruição quando a carruagem está apinhada e resolve tirar o sobretudo, o casaco, três camisolas e qualquer coisa de dentro da mala.

Preguiça - Assim que se senta, adormece. Algumas subespécies tendem a babar-se, roncar e inclinar-se perigosamente para o lado onde não têm apoio, especialmente se aí estiver uma fêmea jeitosa. A sua sonolência atinge um ponto de quase não retorno quando se sentam em lugares reservados a grávidas e aparece uma.

Nómada - Espécie irritante que vagueia entre carruagens, buscando não se sabe muito bem o quê. Por muito cheio que esteja o transporte, ei-lo a vaguear por entre os outros animais, procurando assentos, companhia, um jornal abandonado, etc. Este animal é uma besta.

Headphones - São uns chatos do catano. Está um tipo sentadinho, quando se sentam em cada um dos nossos lados os headphones esquerdo e direito. Iniciam então uma conversa frenética que se processa quase integralmente através das nossas orelhas.

Stressado - Este animal julga ter um papel importante no ecossistema, mas é o único a ter esta opinião. Quando por algum motivo o transporte se demora um bocadinho mais na paragem, o stressado imediatamente mete a cabeça de fora, ou mesmo o corpo todo, como se dessa acção dependesse o reiniciar da viagem. Ocasionalmente ainda perturbam mais a partida pelo facto de ficarem entalados na porta ao voltarem para dentro.

Menir - O mais misterioso. Não se sabe muito bem para que servem, nem porque foram colocados em determinado sítio. Estes animais são assim, abancam num ponto (normalmente nas zonas de passagem) e ali ficam, imóveis, tendo toda a circulação de ser feita contornando os mesmos.

Calhau com Olhos - Este animal desenvolveu uma estranha aversão a segurar-se nos apoios. Assim, e sempre que há um solavanco, é vê-lo a ser projectado contra tudo e todos, qual mala frágil num porão de avião!

E pronto, estas são as espécies já estudadas. Outras, como o “Mete Nojo”, o “Gafanhoto”, o “A cabeça já está, falta o resto!”, a “Sardinha”, o “Mãozinhas”, os “Aparadores de Livros”, o “Martim Moniz” ou o “Carente” necessitam de mais dados e serão discutidas noutra ocasião.
Espero ter contribuído para aumentar o vosso conhecimento sobre o Ecossistema Transportal. Aos defensores dos direitos dos animais, posso garantir que quase nenhum foi magoado no decurso da investigação, os próprios dardos tranquilizantes eram muito fraquinhos. Realmente houve um ou outro que gritou quando foi espetado nos expositores e alguns que se recusavam a ir para o frasco com formol mas porra, em prol da ciência acho que são aceitáveis uns sacrificiozinhos!
Até sempre,
Rafeiro Perfumado

17 dezembro 2006

Metal na Senhora Sócrates!


Pois é...
Esta mania do violoncelo!
Um dia deu-me para aqui... e comprei este disco, dos Apocalyptica...
Aqui vai um devaneio... Apocalyptica plays metallica by four cellos.

15 dezembro 2006

«Tous les Matins du Monde»

Sempre gostei do som do violoncelo. Mas foi ao ver o filme «Tout les Matins du Monde» e ao ouvir o Jordi Savall que me apaixonei perdidamente pela sonoridade barroca e pela viola da gamba...
Fica aqui o primeiro tema, de Jean-Baptiste Lully, e a memória (já lá vão 15 anos...) de um Depardieu a bater o ritmo...
01 Marche Pour la Ceremonie des Turcs.wma

14 dezembro 2006

Os três géneros - Banquete (1)

(O Banquete para ser ouvido em inglês...)

Diz Aristófanes, no discurso que faz sobre o Amor, no Banquete, de Platão:

Para começar, a nossa antiga natureza não era tal como hoje e sim diversa. Para começar, os seres humanos encontravam-se repartidos em três géneros e não apenas em dois – macho e fêmea – como agora: além destes, havia um terceiro que partilhava das características de ambos, género hoje desaparecido, mas de que conservamos ainda o nome. Era ele o andrógino, que constituía então um género distinto, embora reunisse, tanto na forma como no nome, as características do macho e da fêmea; hoje, contudo, não passa de um nome lançado ao descrédito…

Em segundo lugar, a forma de cada ser humano era inteira e globular, com as costas e os flancos arredondados. Tinham quatro mãos e igual número de pernas; sobre o pescoço redondo, duas faces, iguaizinhas uma à outra; uma única cabeça onde assentavam as faces, colocadas em sentido oposto; quatro orelhas; órgãos genitais em número de dois; e tudo o mais que a partir daqui possa imaginar-se. Caminhavam erectos, como agora, mas nos dois sentidos em que o desejassem. Porém, quando os assaltava o desejo de correr a toda a brida, faziam-no às cambalhotas, projectando as pernas para o ar, como os equilibristas, até regressarem à posição vertical. E assim, apoiados nos seus membros, que eram oito, se deslocavam velozmente em círculo.

Platão, Banquete, 189e-190a. Edições 70, 1991. Tradução, introdução e notas de Teresa Schiappa de Azevedo.

13 dezembro 2006

«Acho-os... uns chatos»... escreveram outros (3):

Leio o Miguel todos os dias. Mesmo não concordando, na maior parte das vezes, com as ideias dele, fascinam-me a sua lucidez e clareza. Gosto muito de o ler. É um homem coerente, que se define como «Livre, sem lóbi, seita, loja, templo e partido». Espero, que também ele, não se zangue com o seu surripianço (foto e tudo!)...

«Acho-os... uns chatos»

«Pergunta-me um caro leitor por que motivo, sendo eu de direita, dedico tanto tempo a debicar "a minha família" política. Respondo com pesar: a direita que temos é insípida, arrogante, atrasada, provinciana, fechada, supersticiosa, maledicente, semi-analfabeta, repetitiva, antiquada, estéril, moralona, afectada, cinzenta e geriátrica. Metade da direita nativa assemelha-se às célebres "irmãs perliquitetes" e a outra metade aos bandidos da serra da Gardunha. Quero lá, tenho lá paciência para ouvir as novas da ofensiva de verão da Wehrmacht, do último grito do pack "75 mm feld howitzer", dos últimos discursos de Armindo Monteiro e Mário de Figueiredo, das minudências do "projecto global" por detrás do 25 da Silva, se havia chouriços ou munições nas palettes que Costa Gomes enviou para Vacila e Salva - perdão, Vassalo e Silva - se Delgado vinha ou não para Portugal para se entregar e se foi morto ou não pela PIDE em associação com o PC, se a censura, a pena de morte, as touradas e a caça são nobres instituições, se o país está perdido, se os esmaltes, arminhos e veiros do escudo dos Nogueiras, dos Silvas ou dos Pereiras devem ser gironados, terciados ou esquartelados, se António Sardinha era ou não melhor poeta que historiador, se a Mocidade Portuguesa usava calções até aos 14 anos e calças até aos 18, se a Legião tivera como influência directa os camisas castanhas ou os camisas negras, se António Ferro foi ou não foi um bom propagandista, se devíamos ou não ter emprestado os Açores aos EUA, se os ciganos são ou não descendentes dos hunos, se a porca de Murça é ou não uma deusa... sei lá, uma floresta de magnas preocupações que não me despertam a mínima atenção.»

Postado por Combustões em 2.10.06

12 dezembro 2006

«Dos Antigos»... escreveram outros (2)

Mais um surripianço, desta à Bomba Inteligente. Espero que a Carla Hilário Quevedo não leve a mal...

Dos Antigos: o trágico, na medida em que não depende da culpa, mas do momento em que o destino se cumpre, afasta-se da moral. Dificilmente podemos falar de moral quando há situações que não controlamos. Mas não deixam de ser trágicas, uma vez que são também irreversíveis, desequilibradas e injustas. A propósito de como acordei hoje.

Obrigada!

10 dezembro 2006

«Preservativos»... escreveram outros (1)

Ando em maré de surripianços, devido aos exemplos das (boas) companhias... Até já começo a numerá-los...
Aqui vai um, do Bagaço Amarelo, de 7.12.2006

«No Diário de Notícias soube-se que o Vaticano continua a não aceitar o uso do preservativo, Nada de estranho, acho eu, numa instituição que demorou quatrocentos anos a pedir desculpa a Galileu e mais de cem anos a fazer o mesmo a Darwin. Pode ser que daqui a uns séculos peça perdão a todas as vítimas de doenças sexualmente transmissíveis dos nossos dias. O que eu estranho mesmo nesta notícia do DN é os gajos terem estado dois dias numa conferência sobre “aspectos pastorais do cuidado das doenças infecciosas”. Eu não faço a mínima ideia do que é um aspecto pastoral do cuidado das doenças infecciosas, admito, mas... dois dias em conferência para não decidirem nada?!»
Leia tudo aqui. Obrigada, Ivar.

«E sem Latim?»

Surripiado, foto inclusive, com a autorização do meu amigo André, no Cultura Clássica:

«Transcrevo a crónica de Jorge Silva Melo que saiu hoje no suplemento Mil Folhas do jornal Público (página 5).


"E sem latim?
Ainda naquela Rua Anchieta que, ao sábado, se ornamenta de preciosos livros, abro o belo volume negro dos "4 Poètes Portugais", edição (1970) da Gulbenkian e das Presses Universitaires de França, que acabo de encontrar.

Os meus amigos estrangeiros pararam, estávamos na esquina da Bertrand. Ávido, eu procurava, em Cesário, para lhes ler em voz alta e no local certo, o que ele diz da jovem actriz que sobe o Chiado revendo o seu texto ao ir para um teatro, que eram, todos, ali por perto. Mas, ao abrir, encontrei foi "O Sentimento de um Ocidental", não resisti, e li, em francês, os versos das "Ave-Marias". Há décadas que o faço, mal encontro um exemplar desses que nunca tenho, sempre ofereci (com selecção, tradução e prefácio de Sophia).

Lembro-me, há já quase trinta anos, da dificuldade que tive, nesta mesma esquina, em explicar a René Allio e a Christine Laurent o significado de "taciturnité", a rara maneira que o tradutor teve para verter a sorumbática "soturnidade" do poema de Cesário.

Mas, hoje, vejo o olhar parado de um dos meus interlocutores, homem que seria, há anos, de meia-idade, e, agora, ainda será jovem, entre os 30 e os 40 anos. "E porque é que se chama 'Angelus' esse poema?", acaba por me perguntar. Explico-lhe que é a tradução de "ave-marias", explico-lhe o que são, maneira de as igrejas anunciarem o cair da noite, o regresso a casa, o fim do trabalho. Ele, que até é homem culto, só se lembra de Millet, dois camponeses dobrados sobre o campo lavrado. "Mas porque é que um poema tão urbano como esse recorre à imagem do campo?" Já não tive tempo para o esclarecer que a noite cai no campo e também na cidade e que a igreja, onde está, onde chegou, o assinala, convidando ao recolhimento, tentando superar (naquela mesma hora em que, para os laicos, desperta) o "absurdo desejo de sofrer": os sinos da Igreja dos Mártires desataram a repicar, enchendo a agitada rua de uma canção que parecia não mais ter fim.

O meu interlocutor não tivera educação religiosa, para ele um sino é qualquer sino, não lhes entende a língua. E, mesmo no centro do Chiado, ignora para que tocam os carrilhões dividindo o dia nas suas tarefas e loas.

E ponho-me a pensar se haverá muitos portugueses (dos poucos que abrem livros) que, ao abrirem o Cesário, ainda sabem o que são estas "ave-marias" e porque assim se chama esta primeira parte do mais belo dos poemas. Já quase ninguém o sabe, aposto. Em próximas edições, haverá também para isso nota de rodapé, essa tremenda lápide que, em memória do sentido perdido, assinala as palavras mortas. Sim, que as palavras morrem e os livros vão-se enchendo de explicações que atestam o bom comportamento do defunto, os seus bons serviços.

Nunca pensei ter de explicar a alguém o que são, na divisão do dia, as "ave-marias", nem mesmo o "angelus" a franceses, muito menos pensei que teria de traduzir (como?) "Stabat Mater" (mas tanta gente me pergunta, que surpresa estranha, eis-me de outros tempos eu que me pensava tão de agora) e que, quando digo (e digo tantas vezes) "Ecce homo", o meu interlocutor talvez pense que estou a falar de alguma parada "gay".

Foi-se, com a vida, o latim da igreja, foi-se, das escolas, o latim. Até o de Virgílio, "lacrimae rerum". E como, na Assembleia, faria bem um pouco de Salústio ao falar-se das SCUT.
E nós, que "vivemos dos nomes" (estupenda sentença de Joyce que me recupera Antonio Tarantino), cá vamos falando, filhos de língua incógnita, vivendo ao lado de sinos que tocam sem sabermos porquê, deixando esvaírem-se as melhores das poesias, devolvendo-as aos fariseus que da vida nada sabem, prescindindo de saber.
Vem, agora, o Papa autorizar o regresso do latim ao eco sem nome das basílicas. Eu queria era que fosse nas escolas, onde a língua se molda, onde se deveria era buscar a forma para nomear esta ansiedade de se ser rapaz ou rapariga.

"Não se pode viver sem Rosselini!", berrava nas ruas o cineclubista apaixonado por Bertolucci. E sem latim, podemos?
Podemos ignorar o carrilhão que nos atropela a conversa, passar incólume ao lado dos fundamentos daquilo que pensamos, seguir o nosso caminho sem ver as pedras que os romanos (os escravos dos romanos, claro) transportaram, podemos ignorar tudo o que nos fez viver assim, bastardos, neste eterno presente nascido esta manhã na revista do dia? Podemos viver sem latim?

(E eu que nem bom aluno fui, ai como me arrependo.)"»

Colocado por André Simões, na sexta-feira, 17 de Setembro (a quem deixo um beijinho).

Se eu pudesse ter votado...

No decurso da eleição de melhor blogue 2006, promovido pelo Geração Rasca, que terminou dia 7, não pude votar, pois não me encontrava em condições (este blogue ainda não fez os 3 meses exigíveis para tal).
Agora já posso divulgar que blogues escolheria.

Uns porque me divertem, outros porque me seduzem com a sua inteligência, uns porque me obrigam a ficar incomodada, outros porque tenho pena de não serem meus, uns porque têm tudo isto conjugado, outros porque podiam ser bons mas não querem. Uns e outros só porque sim... De gustibus et coloribus non dispuntantur...
Melhor Blog Individual Feminino
Bomba Inteligente
Cartas do Meu Moinho

Melhor Blog Colectivo
corta-fitas

Melhor Blog
Berra-boi
Combustões
Escrito a Lápis
Misantropo Enjaulado

não compreendo as mulheres

Melhor Blogger