21 novembro 2006

Sobre a morte... (diz Séneca...)

A caríssima Claras em Castelo fala de Eutanásia... ou «suicídio assitido»... tema complicado, este...
Deixo-vos hoje e nos próximos dias algumas reflexões de Séneca ...

Quando um factor externo faz impender sobre nós a morte, não é possível decidir, de uma forma geral, se a atitude correcta consiste em antecipar ou em aguardar essa morte: muitas são as circunstâncias que podem fazer pender para uma ou outra solução. Se, por exemplo, a alternativa for entre uma morte no meio de torturas e uma morte directa e rápida, como não escolher sem hesitação esta última? Se eu escolho o navio em que vou navegar ou a casa em que vou habitar, também, ao deixar esta vida, posso escolher a forma como morrer. Além disso, se a vida não se torna melhor por ser mais longa, a morte, pelo contrário, quanto mais prolongada for, pior. Mais do que em qualquer outra situação, devemos obedecer, na atitude perante a morte, aos ditames da nossa alma (...)
Não, tu não deves deixar em outras mãos uma decisão sobre a qual é irrelevante a opinião alheia. (...)
De um modo ou de outro, haverá sempre quem pense mal do teu acto. (...)
Porque hei-de eu esperar que sobre mim se abata a crueldade das doenças ou dos homens se posso escapar-me por entre os tormentos e assim iludir a adversidade? Aqui está o único ponto em que não podemos queixar-nos da vida: ela não retém ninguém! A condição humana assenta numa base excelente: ninguém é desgraçado senão por sua própria culpa. A vida agrada-te? Então, vive! Não te agrada? És livre de regressar ao lugar donde vieste!...

Séneca, Cartas a Lucílio, Carta 70. Sempre na tradução de Segurado e Campos, para a Gulbenkian, que já foi citada também aqui e aqui.

20 novembro 2006

Gente útil... Organize a sua biblioteca pessoal!

Pois é... sei de quem me vai ser muito útil...

Já vi uma biblioteca pessoal organizada por ela e está excelente!
Há gente que sabe fazer coisas muito úteis!

E a Joana Rito é uma delas: trata das nossas papeladas, dos livros, dos artigos das revistas (sim, aqueles inencontráveis!), dos CD's...
Pode-se pedir orçamentos pelo Tlm 96 78 69 749.

(imagem de um gabinete de uma pessoa que eu cá sei mas não digo ...)

Cinco filmes... olha! São oito...

Estive a trocar cromos com o Miguel e nesta onda de 5 (foram as manias...) ficámos de dizer 5 filmes de que tivéssemos gostado. Ou 10. Ou 20.
Cinco já lá deixei no seu
blogue .
E disse-lhe que não explicava porquê.
Aqui também não o vou fazer.


Então, cá vão cinco filmes (olha! São oito!) de que gostei:

- Delicatessen, de Caro e Jeunet (este último realizou também o da Amélie Poulain).
-
The Man of the Century, de Adam Abraham, escrito e representado por Gibson Frazier, no papel do delicioso Johnny Twennies.
-
L'Année Dernière à Marienbad, de Alain Resnais (no blogue do Miguel falei no Hiroshima, meu amor, mas destaquei o Smoking, No Smoking...) .
-
Denise Telefona, de Hal Salway. Tão actual...
-
Magnolia, de Paul Thomas Anderson. Vi o filme durante a minha estada nos EUA, em 2000, e li por lá, numa entrevista, uma carta que o realizador escrevera aos sete anos e que me impressionou. Andei agora à procura e encontrei:
«My name is Paul Anderson. I want to be a writer, producer, director, special effects man. I know how to do everything and I know everything. Please hire me

- Citizen Kane, de Orson Welles. Não me canso de ver!
- A Dupla Vida de Verónica, de Kieslowski. Confesso a paixão pela música. Confesso que me impressionam as histórias de outras vidas... arrepiei-me toda com este filme...
- Sexo Mentiras e Vídeo, de Steven Soderbergh. Foi por causa deste filme que passei a andar atrás do que fazia o James Spader ...

A ordem não representa nada, a não ser a minha memória... e foram muitos mais! A escolha não foi intelectual nem pedagógica...
(Uma nota de elogio ao Cineclube de Faro, pois se não fosse ele muitos dos que aqui mencionei não teria podido ver! Um beijinho especial à sua Presidente, Anabela Moutinho)

19 novembro 2006

Para onde olham eles?


Escultura inacabada de Michelangelo, «rapaz dobrado», no Museu Hermitage de São Petersburgo.
(Foto tirada por uma maravilhosa fotógrafa desconhecida, em Julho deste ano).

Continuo a ouvir Lhasa...

Small Song

Quem pode julgar acções de guerra?

Li no Retórica um post que comentava as afirmações de um capitão americano que escrevera:
«A minha intenção foi dizer que esta é a realidade da guerra. Isto é o que a guerra faz a jovens normais. Isto é a tragédia da guerra. As pessoas apressam-se a criticar os fuzileiros e a demonizar estes jovens. Eu tenho pena deles. As suas vidas foram arruinadas pelas suas acções, que são julgadas por homens que nunca estiveram nessas situações».
Como não posso deixar lá o meu comentário, faço-o aqui.
Apenas um breve comentário ao seu post onde o amigo realça :«As suas vidas foram arruinadas pelas suas acções, que são julgadas por homens que nunca estiveram nessas situações».
Como concordo com as considerações que tece, atenho-me à frase do americano, que me parece falaciosa.
Se as acções só pudessem ser julgadas por quem já esteve nas mesmas situações, então teríamos de ter juízes «quase» assassinos, «quase» ladrões, «quase» violadores (digo «quase», porque teriam de ter estado quase a fazer, mas teriam «resistido»), para poderem compreender como é o impulso de matar (por raiva, ódio, desespero, etc.), de roubar (por fome, inveja, etc.), de violar (por , desrespeito, traumas, desejo, etc.) ...
Como seres humanos, estamos todos sujeitos a praticar estas acções, numa altura ou outra da nossa vida.
A guerra é um momento muito violento, é verdade. Tucídides conta-nos como, durante a praga que vitimou tantos atenienses na Guerra do Peloponeso, muitos se aproveitaram do facto de saberem que iam morrer para desrespeitarem as leis e cometerem atrocidades.
Durante as guerras que o séc. XX viveu, sabemos como se portaram alguns, que reagiram a deixar-se levar pela «loucura» que a situação lhes proporcionava.
O que quero dizer (para que este comentário não seja pouco breve) é que, apesar da guerra (e aceitando-a como legítima) tem de haver limites e saber-se distinguir uma acção fundamentada de uma acção criminosa.
Se agora me responde que estes jovens não têm formação para saber fazer essa distinção, que são lançados «às feras» sem orientação, que os chefes são os responsáveis pelas ordens que dão e os soldados apenas cumprem, etc, etc, então teremos outra conversa e eu, mais uma vez, concordarei consigo, de certeza.

18 novembro 2006

O que ando a ouvir: Lhasa de Sela




E já andei a pegar o bichinho por aí...

Diógenes e Alexandre (take 2 and last)

(continuação)

Diógenes: Mas diz-me cá, onde é que os Macedónios te sepultaram?
Alexandre: Ainda jazo em Babilónia, há trinta dias, mas Ptolomeu, o meu escudeiro pessoal, promete que, se conseguir o sossego das perturbações que o afligem, me levará para o Egipto e lá me enterrará, para que eu me torne um dos deuses egípcios.
Diógenes: Não queres, então, que eu me ria, ó Alexandre, ao ver que no Hades ainda és insensato e tens esperanças de te tornar Anúbis ou Osíris? Todavia, não tenhas essa esperança, ó diviníssimo! É que não é permitido que volte à superfície nenhum dos que uma vez atravessaram o pântano e chegaram ao lado de dentro da entrada. Éaco, de facto, não é negligente, nem Cérbero desprezível. Mas há uma coisa que eu gostaria de saber de ti, como te sentes quando pensas em quanta felicidade deixaste sobre a terra, ao chegar aqui: os guardas do teu corpo e escudeiros e os sátrapas e tanto ouro e os povos que se prostraram diante de ti e a Babilónia e Bactras e as grandes feras e a honra e a glória e o espectáculo que davas quando saías a cavalo com a cabeça rodeada de uma fira branca, vestido de um manto de púrpura. Não te fazem sofrer estas coisas, quando te vêm à memória? Porque choras, ó palerma? Não foi isto que o sábio Aristóteles te ensinou, a saber, não acreditar que são estáveis as coisas dependentes da sorte?
Alexandre: Um sábio, esse indivíduo, ele que foi o mais safado de todos os aduladores? Deixa que só eu conheça os ensinamentos de Aristóteles, quantas coisas me pedia e quais as que me encomendou, e como ele abusou do meu entusiasmo pela cultura, adulando-me elogiando-me ora a beleza, como se ela fosse uma parte do bem, ora as minhas acções e a minha riqueza. E, de facto, pela sua parte, ele considerava que a riqueza era igualmente um bem, por forma tal que se não envergonhava de também ele a aceitar. Um charlatão, ó Diógenes, e um comediante! Todavia, uma coisa aproveitei da sua filosofia, ao afligir-me, como se se tratasse dos maiores bens, com aquelas coisas que tu enumeravas há pouco.
Diógenes: Mas sabes o que hás-de fazer? Vou dar-te um remédio para a tua tristeza. Visto que o heléboro não cresce aqui, ao menos procura a água do Letes e bebe à boca cheia e volta a beber e faz isso muitas vezes. Assim, cessarás de aborrecer-te com os bens de Aristóteles.
Eis que vejo além Clito e Calístenes e muitos outros que se precipitam contra ti, para te fazerem em pedaços e se vingarem do que lhes fizeste. Por isso, vai pelo caminho oposto e bebe muitas vezes, como eu te disse.

O encontro entre Diógenes e Alexandre (em vida, não depois da morte como em Luciano) é mencionado neste artigo «Diógenes, Foucault e a prática da parrhesiae» (e foi daqui que tirei a imagem...)

Notas: Lete era uma fonte dos Infernos, a fonte do esquecimento (de onde vem a palavra portuguesa «letargia».
O heléboro é uma planta venenosa. Diz Houaiss que são «algumas cultivadas por suas flores e folhas vistosas, outras para produção de raticidas e, esp. outrora, para uso em veterinária e como catárticas».

«Colóquio Lexicografia e Semântica Lexical...

... Caminhos a seguir na feitura de um Dicionário de Grego»,
é o nome do Colóquio onde vou estar para a semana.
Leia-se na introdução:
O Projecto Lexicon – Dicionário de Grego-Português está a organizar um colóquio, no âmbito do Centro de Estudos Clássicos, que se realizará nos dias 24 e 25 de Novembro de 2006 (Sexta-feira 9:30-18:30 e Sábado 9:30-12:30), na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Pretende-se, com este colóquio, reunir a colaboração de estudiosos com ciência e experiência lexicográfica especializada, reflectir sobre as exigências de um dicionário adequado aos enormes progressos que o estudo da língua e da literatura têm vindo a proporcionar tanto no âmbito dos conhecimentos lexicais e gramaticais como no do seu aprofundamento pela exegese e interpretação de novos testemunhos escritos, novas edições críticas e a descoberta constante de novos dados; estimular também a produção de trabalhos de investigação em áreas do saber que não só concorram para a cabal formação da equipa de investigadores ligados ao projecto, mas também contribuam para o aprofundamento da actividade lexicográfica em curso.

17 novembro 2006

O nosso CSI...

Hoje tive uma «experiência» com os agentes do «CSI» português.
Há uns tempos que alguma correspondência aqui de casa é levada, da caixa do correio, não se sabe por quem. Ontem, para minha fortuna, ao entrar no prédio, deparo-me com o papel que contém o endereço do assinante que acompanha uma das nossas revistas. Pego nele e digo cá para mim: «Como pode estar isto aqui?». Um lanço de escadas depois, vejo o plástico que a envolvia: «Ah! Roubaram-me, mais uma vez, a revista!». Arrependida por ter tocado no papel que trazia na mão, deixei o plástico ali, subi as escadas, fui a casa buscar uma luva de cozinha, desci as escadas e apanhei o invólucro. Senti-me uma verdadeira investigadora.
Liguei para a polícia e informaram-me que só durante o dia podiam tratar das provas. Fui lá esta tarde. E vi.
Vi a nossa polícia técnica a trabalhar. Vi as condições que têm (e que não têm...) e posso afirmar que os nossos homens são uns heróis! O agente que acompanhei conseguiu encontrar impressões digitais e eu fiquei muito orgulhosa por ele!
Pode ser que não se identifique ninguém, mas não será por falta de negligência ou empenho, de certeza! Senti-me reconfortada ao sair da esquadra...

16 novembro 2006

Provocações anacreônticas... (2)

A esfera do Amor (fr. 358)

De novo com a sua esfera purpúrea
o Amor de dourados cabelos me atinge,
e com a rapariga de coloridas sandálias
me convida a brincar.
Mas ela (pois vem lá da bem fundada
Lesbos) os meus cabelos
já brancos censura com desdém,
e olha embasbacada para - outra rapariga.

Provocações anacreônticas...

Provocando o Miguel, aqui vão dois fragmentos de Anacreonte, em tradução de Frederico Lourenço, no seu livro Poesia Grega, editado pela Cotovia em 2006, e já aqui referido.

Hino a Dioniso (fr.357)
Soberano, com quem o Amor subjugador
e as ninfas de olhos azuis
e a purpúrea Afrodite
brincam, quando estás
nos altos píncaros das montanhas!
Suplico-te; e tu de espírito compassivo
vem até mim, para ouvires
a minha grata prece.
Sê bom conselheiro de Cleobulo,
para que o meu amor,
Ó Dioniso, ele aceite.

Diógenes e Alexandre (take one)

Diógenes: Que é isso, Alexandre? Também tu morreste como nós todos?
Alexandre: Tu vês, ó Diógenes! Não é surpreendente, se, sendo eu um homem, morri.
Diógenes: Então, Ámon mentiu, quando disse que eras filho dele, e tu eras, portanto, filho de Filipe?

Alexandre: De Filipe, está bem de ver, porque eu não teria morrido, se fosse filho de Ámon.
Diógenes: E mentiras semelhantes diziam-se a respeito de Olímpias: que uma serpente tinha relações com ela e era vista na sua cama; que, em consequência, foste tu gerado e F
ilipe enganado, ao julgar que era teu pai.
Alexandre: Também eu ouvi o mesmo que tu, mas agora vejo que não havia nada de verdade naquilo que minha mãe e os profetas de Ámon diziam.
Diógenes: Mas a mentira deles não te foi sem proveito, ó Alexandre, no que toca às tuas actividade, porque a massa anónima encolhia-se, na convicção de que tu eras um deus. A propósito, diz-me cá: a quem deixaste esse teu enorme império?
Alexandre: Não sei, ó Diógenes, não tive tempo para me preocupar com isso, a não ser que, ao morrer, entreguei o meu anel a Perdicas. Entretanto, porque te ris, ó Diógenes?
Diógenes: Apenas me lembrava de quanto fazia a Hélade, (esses gregos) que, bajulando-te, pouco depois de receberes o poder, não só te escolhiam como protector mas também como general contra os bárbaros, e alguns te juntavam até aos doze deuses e te construíam templos e sacrificavam em tua honra como ao filho da serpente.

Diálogos dos Mortos (2)


Vou voltar ao Diálogo dos Mortos.

Nos outros posts (neste, neste e neste) Alexandre é escolhido como o mais importante dos mortos que ali estavam.
Neste diálogo encontra Diógenes...

15 novembro 2006

A poesia de Gedeão no Solar

Falei ontem do momento tão agradável que o filho do poeta nos proporcionou, mas não falei da sessão de poesia dita por Paulo Moreira (foto ao lado) e Afonso Dias.

Muito bom! Dois excelentes... intérpretes, posso dizer. É a palavra que me vem à cabeça.

Paulo Moreira, com a sua formação teatral, conseguiu, sem os exageros muitas vezes comuns nestas situações (e que a palavra «intérpretes», por mim usada, poderia levar a pensar), passar-nos a força das palavras, o humor, a revolta, dos poemas menos conhecidos de Gedeão. E teve a humildade e a coragem de iniciar o serão passando uma gravação de uma poesia dita pelo próprio Gedeão. E como a dizia bem...

Afonso dias cantou acompanhado da sua guitarra e, claro, terminou com aquela que todos esperávamos e que com ele cantámos, a Pedra Filosofal.

Pelo meio disse vários poemas, pois também ele é um excelente diseur. E brevemente até irá sair um CD precisamente com poemas de Gedeão ditos por si. O Contador de Gaivotas, que estava ao meu lado, confidenciou-me que também ele entrava a dizer um poema... eu já tenho um outro, da mesma série (chama-se Selecta), intitulado Poetas da Lusofonia (deve haver na Fnac, que esteve presente a apoiar este evento) e quero ouvir este!

14 novembro 2006

«A Escolha de Rómulo» - 2

Que belo serão no solar!
Estava presente a viúva de Rómulo de Carvalho (que Gedeão não morreu) e o filho, Frederico, investigador em física, e que nos contou algumas belas histórias retiradas das memórias que o pai deixou (mais de mil páginas manuscritas) dedicadas aos seus tetranetos.
Falou das raízes algarvias (avós de Tavira) e da casa onde viveu em Faro (ao jardim da Palmeira), da mãe (a Rosinha, do poema...), do pi, dos avós e bisavós.
E contou como Rómulo escolheu ser professor do liceu.
Belas histórias, repletas de humor muito, muito subtil.
A organização incluía, na parceria criada para o efeito, a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade do Algarve, pois, como o poeta fora professor de Físico-Química, quiseram que os alunos estagiários, também eles aspirantes a professores, pudessem ouvir um testemulho de quem podia ter sido tanta coisa e preferiu o ensino.
Os tempos são outros...
Não sei se hoje teria sido essa a escolha de Rómulo de Carvalho...

13 novembro 2006

«A Escolha de Rómulo»

Hoje, às 21.30, na Casa das Figuras (ou Solar do Capitão-Mor), ali ao pé do Teatro Municipal, vou ouvir poesia de António Gedeão dita por Paulo Moreira e cantada por Afonso Dias.
Desta vez tenho garantia de qualidade!

Crítica Literária...

_Creio eu, Sócrates, que para um homem a parte mais importante da educação consiste em ser perito em matéria de poesia, e essa perícia significa poder entender e saber distinguir, na obra dos poetas, o que está feito de modo correcto e o que não está e justificar-se perante qualquer dúvida.

Diz Protágoras, no diálogo de Platão com o mesmo nome, 338e-339a.
Tradução de Ana Elias Pinheiro para a Relógio d'Água, em 1999.

12 novembro 2006

Dominguices...

A inclinação de sua letra mostra que você parece ser uma pessoa equilibrada, educada. Mas é um pouco “fria” com quem acaba de conhecer. A ligação de sua letra revela organização, raciocínio lógico e razoável capacidade de adaptação. A direção de sua letra indica controle, constância e organização, especialmente nas tarefas cotidianas. A pressão que usa ao escrever sinaliza estabilidade e equilíbrio. As áreas valorizadas na sua escrita destacam controle emocional, tolerância, um certo imediatismo e tendência ao comodismo. A forma de sua letra demonstra amabilidade em seus relacionamentos (amorosos ou não) e cooperação.

Consultoria do grafologista José Bosco Tel. (11) 3112-8036 grafotecnica@hotmail.com
Li no Corta-Fitas e também quis fazer este teste!

11 novembro 2006

Cinco manias...

Chegou um desafio da Damularussa e eu achei que não tinha manias... que eram apenas «hábitos», dizia-me... Bem, uma das manias já aqui a tinha admitido... e aí até admiti que era de manias... (hoje, já ouvi 4 vezes a Turandot ... o trauma de ontem foi grande... vou continuar!)

Tenho a mania de arrumar a loiça na máquina com ordem: por tamanhos, cores, função (pratos rasos não se intercalam com os de sopa ou os de sobremesa);
Tenho a mania que não gosto de dormir (mesmo quando sou a primeira a adormecer em qualquer lado);
Tenho a mania que estou magra (mesmo quando já um 44 me está apertado);
Tenho a mania que estou gorda (mesmo quando já um 38 me está largo);
Tenho a mania que não conheço ninguém nem ninguém me conhece (mesmo que cumprimente 30 pessoas numa tarde, ao passar na ágora cá da pólis, ou encontre 4 pessoas conhecidas em Olissipo, numa única tarde, em sítios diferentes - se fossem todas na FLL não contaria - depois de não viver lá durante 15 anos);

Agora acho que tenho de nomer 5 blogues para continuarem este stiptease maniento ... como não conheço a maioria dos que tenho lincados, aqui vão as vítimas «conhecidas»:
Puro Instinto, A Mulher do Lado, Cartas do Meu Moinho, Não Compreendo as Mulheres, Claras em Castelo.
E que os deuses me perdoem por vos ter metido nisto...
Eu pronuncio o «t» final de Turandot.
A polémica é infindável, mas os argumentos do «t» convencem-me.

Hoje (não ontem), a Turandot...


Estou a ouvir a minha Turandot!
Ai que dor senti ontem! Tanta tristeza! Senti-me envergonhada pelo que via e ouvia e cheguei a sentir pena...
Os cantores olhavam o tempo todo, ostensivamente, para o maestro... Pong olhava ainda para a sua «cábula» escondida (??) no leque... Numa das cenas canta sentado, com os papéis escondidos (??) em cima de um banquinho... O Imperador também os esconde (??) no leque...
Ai que tristeza! Os atropelos nas entradas... ai que tristeza! O coro... ai que tristeza! Ping e Pang... tristes...
E primeiro que eu percebesse que cantavam mesmo em italiano?
A pobre da Liù... não se ouvia! Turandot, Calef e Timur faziam ouvir-se.
E mais não digo.
Enquanto a casa dorme, oiço (nos auscultadores) a belíssima voz do meu Jussi (Calef) a gritar, zangado:
«Tu nom sai nulla, schiava!»
e a Tabaldi (Liù) a insistir:
«Io so il tuo nome... M' è suprema delizia tenerlo segreto e possoderlo io sola!»
.......
Turandot, grandiosa Nilsson, quer saber:
«Chi pose forza nel tuo cuore?»
Liù:«Principessa, l' amore!»
Turandot: «L' amore?»

10 novembro 2006

Turandot

E agora estou a correr para estar no Conservatório, para ver a Turandot, do Puccini, às 21.30!
Em casa tenho andado a ouvir a versão que por cá tenho, cantada pelas «gigantes» Birgit Nilsson (Turandot) e Renata Tebaldi (Liù)...
Aqui, vou ver uma versão do Teatro Académico de Ópera e Ballet de Jarkov, «uma das mais antigas companhias da Ucrânia, que no inicio do século XX era equiparada ao Teatro de Bolshoi e ao de Kirov em S. Petersburgo», diz no site.
Depois conto...

A Lógica da Batata volta à escola

Já estou a correr para não me atrasar: vou fazer a palestra «A Lógica da Batata» à Escola Secundária Poeta António Aleixo, em Portimão, e tenho de lá estar às 10h!

09 novembro 2006

Sempre Filoctetes...

E sempre Neoptólemo...

Os homens têm de aguentar as desventuras
impostas pelos deuses. Mas as desventuras
que um homem impõe a si próprio,
dessas ninguém deve sentir compaixão.

Ainda Filoctetes...

Diz Neoptólemo:

Tudo é repugnante, quando um homem trai a sua verdadeira natureza e faz o que não deve.

Filoctetes

Regressada à minha Atenas, reencontro, finalmente, o Tempo! Garanto que os dias aqui são maiores!

Tenho à minha frente a tradução de Filoctetes de Frederico Lourenço, a que ele chamou «recriação poética», «um pouco à semelhança do que fez Sophia de Mello Breyner Andresen na Medeia», adianta, no Posfácio. As diferenças entre o texto de Sófocles e o seu? Responde, no mesmo Posfácio:
«Alguns pequenos cortes (sobremaneira oportunos, do meu ponto de vista) talvez lhe causassem perplexidade. A colocação de um verso de Píndaro na boca de Neopólemo também («como os deuses fazem que o incrível se torne crível tantas vezes»). A desconstrução e «pós-moderna» remontagem do prólogo certamente.
Mas na essência, é a sua peça, o Filoctetes sofocliano, que ele reconheceria

Antes de ir para Olissipo estive a reler a peça e ao ver a actuação reconheci as palavras de Sófocles. Se a preocupação de Frederico Lourenço era tornar o texto representável na nossa língua, conseguiu-o! Éramos 40. Alunos e professores. E gostámos muito!
Luís Miguel Cintra estava irrepreensível. Não se via ali um actor, não se via ali um bom actor. Quem ali estava era Filoctetes, velho, cansado, revoltado, desconfiado, esperançoso, doente...
E que dizer de António Fonseca? Não era António Fonseca, era Ulisses!
O despojamento do cenário, o azul dos marinheiros, o espelho que nos tornava participantes na peça, tudo isso contribuiu para uma entrega total às palavras de Sófocles. E as palavras criaram sentimentos...
Diz Aristóteles, na Poética, 1453b1-7:
O temor e a compaixão podem, realmente, ser despertados pelo espectáculo e também pela própria estruturação os acontecimentos, o que é preferível e próprio de um poeta superior. É necessário que o enredo seja estruturado de tal maneira que quem ouvir a sequência dos acontecimentos, mesmo sem os ver, se arrepie de temor e sinta compaixão pelo que aconteceu;
(tradução de Ana Maria Valente, em edição da Fundação Calouste Gulbenkian)
Ficámos todos com vontade de mais...

(Sim, Sales, vale a pena!)

07 novembro 2006

Para logo...

Esse malvado e filho de malvados, Ulisses. Contudo não o culpo tanto a ele como aos que se encontram no poder, pois uma cidade e todo o exército dependem de quem governa. Os mortais que praticam actos injustos, é devido às lições dos mestres que se tornaram perversos.
Diz Filoctetes, entre os versos 383-388, da tradução antes mencionada.

De passagem pela cidade de Ulisses

De visita a esta cidade, perdi a noção do tempo que se vive na minha pólis. O Tempo, aqui, é mesmo outro... perde-se por aí... e não se sabe para onde foi quando dele se precisa...
Como já tinha referido, vou ver o Filoctetes. Vou hoje à noite à Cornucópia, com os alunos de Matrizes Culturais Europeias e um grupo de colegas.
Li no Expresso de sábado uma crítica e estou curiosa para ver como será a representação desta noite. O Teatro tem isso de bom: cada noite é única!

05 novembro 2006

Agora é que é: os nomes... Calírroe

Isto dos nomes próprios em Grego… que ideia tivemos!
É muito mais interessante ver os nomes – comuns – em Português e ir «beber» ao Latim e ao Grego.
Como deves imaginar, os nomes próprios, como acontece entre nós, já não tinham, naquela época, a força de significado que lhes é atribuído ainda na mitologia. Não digo que um filho muito desejado não se pudesse chamar Teodoro (theos: deus + doron, dorou: presente, prenda), mas eu hoje conheço ateus que deram ao filho o nome de Teófilo (theos: deus + philos: amigo) …
Por falar em dorondorou:, lembrei-me da conhecida Pandora (a da caixa, sim), a quem todos (pan, pantos) os deuses dotaram com uma qualidade ( dorondorou)...

Bem, falo-te então do nome Calírroe, a heroína do romance helenístico de um autor chamado Cáriton de Afrodísias (uma cidade da Cária. Tal como o famoso Leonardo, que ficou conhecido por ser da cidade de Vinci).
Kallirroe provém do adjectivo kallirroos, que significa «de belo curso», «de belas águas»: kallos (belo) + rhoos (corrente, fluxo).
Encontras kalos na palavra portuguesa caligrafia, e encontras rhoos em catarro (kata – preposição que significa «para baixo»). Quando estás com catarro, tens um fluxo, um muco, que escorre…
Este rhoos é da família do verbo rheo (escorrer) e de um outro substantivo que também significa «fluxo, corrente», que é rheuma, rheumatos. Os franceses ficaram com «rhume» e nós com o reumatismo
E reumatismo é hoje considerado não uma doença, mas o nome genérico de um grupo de doenças articulares, como a artrite, por exemplo.
Pensavam os gregos que a artrite era devido a humores, ou fluxos (rheumata), que escorriam…
Ai! As palavras são como as cerejas!

Não foi um grande tema para um postal de Domingo, eu sei, mas ficamos com o assunto resolvido, não é verdade?
(nota: tinha umas imagens para pôr, mas não consigo...)

04 novembro 2006

A beleza masculina (Ovídio)

Uma beleza desarranjada é o que fica bem aos homens (...).
É a limpeza que deve dar prazer; (...)
esteja a toga apresentável e sem nódoas;

não deve usar-se calçado ressequido e não haja ferrugem nas fivelas,
nem ande o pé a nadar, desengonçado, em pele largueirona,

nem dê mau aspecto a cabelos enrijecidos um corte mal feito;
sejam cabelo e barba aparados por mão firme;

as unhas não devem dar nas vistas de compridas e devem estar limpas,
e no nariz não deve haver qualquer pelo;
não saia mau hálito de uma boca mal cheirosa,
nem atinja o nariz dos outros o fedor do macho e do pai do rebanho.
Quanto ao resto, deixa-o por conta das mulheres dadas ao prazer ou de qualquer homem que tenha o vício de possuir outro homem.

Arte de Amar, I, 507-522. Sempre a mesma tradução.

Porque hoje é sábado...

... «roubo» umas estrofes a Vinicius de Moraes, antes de me dedicar à Arte de Amar, de Ovídio. Porque hoje é Sábado. Não me apetece Teógnis. Porque hoje é Sábado.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

Excerto de O dia da Criação.

03 novembro 2006

Este é o pré-próximo post... lição de Grego... Ops!

Antes de passar para o significado daqueles nomes, vou ter de te dar uma pequena «ensaboadela» e explicar-te como funciona isto do Grego… os teus conhecimentos de Português (sim, de Português), de Latim, ou mesmo de Alemão, vão ajudar-te a perceber (não me lembro se sabes Alemão…).

Vou começar por falar daquilo a que se chamam os casos.
Em Grego, os nomes (e os adjectivos… e os pronomes...), vão mudando um pouco a sua forma consoante a função que exercem na frase, estando assim morfologia e sintaxe bem juntinhas…
Em Português, numa frase simples, quando colocas um nome antes de um verbo transitivo e outro depois, aprendeste a chamar sujeito ao primeiro e complemento directo ao outro, dizendo que o sujeito pratica a acção.
Depois dão-te uma frase passiva. Aí já não podes dizer que o nome antes do verbo pratica a acção… mas continuas a chamar-lhe sujeito. Sujeito passivo, mas sujeito.
Daqui se conclui que é a posição que as palavras ocupam nas frases que revela a sua função sintáctica, não é a sua forma, pois esta mantém-se inalterada (bem, um dia hei-de falar-te dos pronomes…)

Em Grego é essa «alteração» morfológica que indica o caso e, portanto, a função.

Daí que, quando enunciamos uma palavra – vou dar exemplos em Latim, língua que conheces melhor – nunca dizemos apenas dominus (senhor), mas dizemos também domini, ou apenas caput (cabeça), mas também dizemos capitis.
Isto porquê? Porque é mais fácil saber todas as formas que a palavra assume se tivermos estas duas!
Dizendo (enunciando) a forma que a palavra assume quando é sujeito (caso nominativo) e a forma que a palavra assume quando é complemento determinativo (caso genitivo), ficamos na posse da chave para todas as formas possíveis (ou funções possíveis) que a palavra pode assumir (portanto, ficamos na posse de toda a declinação).
Declinar (declinare, em Latim) significa «inclinar-se, dobrar-se».
Vem do Grego klino, «dobrar-se», palavra da família de kline (cama) e de klinokós (clínico, o médico que visita pessoas acamadas). Como o klinikós se dobrava sobre a cama… temos então o dito verbo…
E isto não tem de fazer confusão nenhuma, pois se tivermos a gramática da nossa língua presente, veremos que as nossas famílias de palavras funcionam exactamente assim!


Ora bem, declinar uma palavra é ir «dobrando-a» e «desdobrando-a» em várias, não deixando esta de ser a mesma! E casus é o particípio do verbo cair… Declinas as palavras («dobras» as palavras) e elas «caem» numa determinada forma!

Se em dominus não se percebe imediatamente a importância da enunciação (isso seria uma explicação para uma outra ocasião! Não posso fazer disto aqui um curso bloguítico de Latim e Grego!), se eu te disser que «capital» (a cidade que está à cabeça) vem de caput, não associas imediatamente. Mas se te disser que vem de caput, capitis, vês logo a semelhança de radical…

Tudo isto vinha a propósito de Teógnis
Bem… lá terá de ficar para o próximo post!


02 novembro 2006

A razão do próximo post...

Por uma questão de decência (já basta a indecência de reproduzir uma conversa…) não vou identificar a minha interlocutora. Substituí os nossos nicknames por Eu e Ela e mudei o «diz» que aparece por defeito no msn por simples «dois pontos».
Fica, então, aqui, a razão do próximo post (mais logo...)

Ela
Diz-me, minha caríssima amiga, por que é que os teus entusiasmantes escritos têm SEMPRE nomes tão esquisitos, tão estranhos, tão difíceis de decorar, para uma cinquentona, como eu?
Eu :
Lol! Nomes esquisitos?
Eu :
Aníbal??
Eu :
Alexandre?
Ela :
Não brinques comigo!!! Já estava à espera dessa, mas ... um momento...

Ela :
Agora colecciono-os: Neoptólemo, Quéreas e Calírroe, Cáriton, Crítias, Hesíodo, Tesmofórias, Teógnis, Regimen Sanitatis Salernitanum...

Eu :
Ahhh… esses nomes...
Eu :
Pois... era assim que se chamavam...
Eu :
Mas há piores! Num romance helenístico há um tipo que se chama... Perilau...
Eu :
com «e»

Ela :
Para ti pode ser (e é!) fácil, mas para mim, ... é dificílimo. E depois, como leio, por vezes em voz alta, chego a estes termos e rogo algumas pragas aos classicistas!
Ela :
lol

Eu :
lol
Eu :
Mas nós não podemos renomear as pessoas!
Ele :
Claro, mas já tive vontade de te perguntar por que razão os gregos tinham nomes tão difíceis de dizer ... Ah! Difícil, para mim, claro!
Eu :
Os grupos consonânticos e vocálicos são diferentes dos nossos... e por isso os nomes deles parecem difíceis em relação dos nossos, que são mais simples... para nós…
Eu :
É como os nomes das doenças ou dos medicamentos... Nunca se decoram... são difíceis!
Ela :
Tem piada! Os nomes das doenças parecem-me mais lógicos

Eu :
«Contém fonte de fenilalanina». O que eu me rio ao ler isto nos iogurtes!
Eu :
Falo dos nomes «técnicos» das doenças. Quando os médicos falam, eu tenho estar sempre a «activar» o meu dicionário etimológico mental!
Eu :
Por isso percebo-te...

Ela :
Ah! Ainda bem...
Ela :
fenilalanina...

Eu :
Parece lã num funil... ou funil de lã… (até podia fazer uma «etimologia da batata»!)

Ela :
Há um que me irrita... espera!
Ela :
Neoptólemo
Eu :
É o filho do Aquiles

Ela :
prefiro o pai...

Eu :
lol
Eu :
Quer dizer nova (neo) guerra (ptólemos)
Eu :
«Guerra» é pólemos, mas ptólemos é uma forma poética de dizer «guerra»
Ela :
assim gosto mais

Eu :
Ptolomeu quer dizer belicoso…

Eu :
Acho que vou fazer um post a explicar os nomes...
Eu :
Em tua homenagem!

Ela :
Que bom! UF! Que alívio!
Não tens um bonequinho daqueles que tira o suor da testa?

Cipião e a decisão de Minos (Take three and last)

(Cipião, o Africano - 235-183 a.C.)

Cipião: Não julgues, sem me ouvires também.
Minos: Quem és tu, meu caro? Ou, donde és tu, para falar?
Cipião: De Itália, Cipião, o general que tomou Cartago e conquistou a Líbia, com grandes batalhas.
Minos: Que é que tens para dizer, também?
Cipião: Que sou inferior a Alexandre, todavia melhor do que Aníbal, eu que eu venci, o persegui, tendo-o obrigado até a pôr-se em fuga, vergonhosamente. Ora, como é que não é desvergonhado, quem disputa a primazia a Alexandre, com o qual nem eu, Cipião, que venci Aníbal, ouso comparar-me?
Minos: Por Zeus, é razoável o que dizes, Cipião. Por isso, fique Alexandre julgado o primeiro, e depois dele, tu. A seguir, se estás de acordo, Aníbal em terceiro lugar, visto que também ele não é para desprezar.

01 novembro 2006

Alexandre, Aníbal, Minos e Cipião (take two)

(Alexandre III, o Grande - 356-323 a.C.)
Minos: Ele pronunciou em sua defesa um discurso não sem nobreza, como não seria de esperar de um líbio. Tu, Alexandre, que respondes às suas palavras?
Alexandre: Eu não precisava de dizer nada em resposta a este homem audacioso, ó Minos! Basta a fama para te esclarecer sobre o rei que eu fui e o salteador que ele foi.
Todavia, vê se fui pouco superior a ele, eu que, sendo ainda novo quando cheguei aos negócios de estado, e tendo entrado na posse de um poder em dificuldades, persegui os assassinos de meu pai e, depois de aterrar os gregos com a destruição de Tebas, fui por eles eleito.
(…)
E o que sucedeu depois disso, ó Minos, vós sabeis: quantos mortos vos enviei num só dia. O banqueiro, pelo menos, diz que o barco não foi então suficiente para eles, mas que construíram uma jangada e fizeram passar nela a maior parte para o outro lado. E esse foi um feito que eu pratiquei pessoalmente, correndo perigo não me recusando a ser ferido. (…) E favoreci os amigos e puni os inimigos.
E se os homens até me consideravam um deus, há que desculpá-los, perante a grandeza dos feitos, de que eles acreditassem também uma coisa tal coisa a meu respeito. Para terminar, eu morri, enquanto reinava, ao passo que este indivíduo, enquanto estava exilado (…).
Os meios com que dominou os Itálicos deixo de referi-los: não foram a inteligência nem a força, mas a maldade e a má-fé e os enganos, e nada de legal nem de franco. E já que insultou o meu gosto dos prazeres, a mim parece-me preferível esquecer o que ele fazia em Cápua no convívio com prostitutas, esse general admirável, enquanto perdia no gozo os momentos oportunos da guerra.
(…)
Tenho dito. E tu, ó Minos, faze o teu julgamento, porque de entre muita coisa basta o que acabo de dizer.

31 outubro 2006

Alexandre, Aníbal, Minos e Cipião (take one)

(Aníbal Barca: 247-183 a.C.)

Alexandre: eu devo ficar à tua frente, ó Líbio, porque sou melhor.
Aníbal: De forma nenhuma, eu é que devo ser preferido.
Alexandre: Portanto, Minos que julgue.
Minos: Quem são vocês?
Alexandre: Este é Aníbal o Cartaginês, e eu sou Alexandre, o filho de Filipe.
Minos: Por Zeus, sois ambos célebres. Mas qual é motivo da vossa disputa?
Alexandre: A respeito da precedência, porque ele afirma ser melhor general do que eu, ao passo que eu, como toda gente sabe, sou superior não só a ele, mas de modo geral a todos os anteriores em mim, na arte militar.
Minos: Ora fale cada um, por sua vez. E tu, ó Líbio, fala em primeiro lugar.
Aníbal: Uma coisa ganhei, ó Minos, a saber, aqui e aprendi também a língua grega, por forma tal que nem mesmo nela este me levará vantagem. E eu afirmo que são principalmente dignos de louvor aqueles que nada sendo, de começo, avançaram por si próprios para uma grande situação não só revestindo-se de força mas também mostrando-se dignos do poder. Eu, ao menos, com pouca gente, lancei-me à conquista da Ibéria, a princípio como lugar-tenente de meu irmão, fui considerado digno das maiores honras e julgado o melhor. (…) E fiz isto tudo, sem me chamar filho de Amon nem me fingir deus, nem descrevendo os sonhos da minha mãe; mas admitindo que era um homem, não só fiz frente aos generais mais inteligentes mas também com um batia com os soldados mais guerreiros. (…) Ao passo que Alexandre, tendo recebido o poder paterno, o aumentou e o estendeu largamente, aproveitando o impulso vigoroso da fortuna. Ora, quando vencera aquela peste do Dario (…), considerando-se digno de ser adorado, passou-se para os hábitos dos Medos e matou nos banquetes os amigos e fê-los prender para os matar.
Quanto a mim, por um lado, governei numa altura em que na minha pátria as leis eram iguais para todos, por outro, quando ela me mandou chamar (…), rapidamente obedeci e apresentei-me como um cidadão comum e, quando fui julgado, sofri resignadamente a condenação. E procedi assim, apesar de ser um bárbaro, sem os benefícios da cultura grega, sem recitar Homero como ele, sem ter sido educado pelo sofista do Aristóteles, só com os recursos da minha natureza que é boa.
É por tudo isto que eu digo que sou melhor do que Alexandre. E se ele é mais belo porque cinge a cabeça de um diadema, talvez também isso seja nobre para os Macedónios, todavia não é por esse motivo que ele parecerá melhor do que um homem da raça e vocação do general que fez mais uso da sua inteligência que da sua sorte.

Diálogos dos Mortos

O semita Licinos de Samósata (actual Turquia), depois de romanizar o seu nome para Lucianus, é conhecido entre nós como Luciano.
Viveu em Atenas, no Egipto, e viajou pelo mundo conhecido como conferencista itinerante. Chegaram até nós cerca de oitenta obras, em grego, que revelam o seu carácter jocoso e satírico, e títulos como Lúcio ou o Burro, a História Verdadeira ou este Diálogo dos Mortos tiveram influência no Humanismo e mesmo nas literturas modernas.
Na época de Luciano (o séc. II d.C.), o tema de Alexandre estava na moda, e o olhar de alguém oriundo de uma outra cultura que não a grega nem dela herdeira torna-se sempre interessante. Escolhi, assim, três diálogos que remetem para este jovem (morreu com 33 anos...)
A edição usada é das «velhinhas» do INIC/CECHUC, Coimbra, 1989 (comercializadas agora pela Gulbenkian), com introdução, notas e versão do grego de Américo da Costa Ramalho.

30 outubro 2006

Non latine loquor...

... sed saepe lego.

Isto foi só uma gracinha, a propósito da notícia da Visão desta última quinta-feira (p.69):

Fazendo gala da sua tradição do estudo do Latim e num sinal de respeito por minorias eruditas, o sítio da Presidência Finlandesa da União Europeia insere, regularmente, um Conspectus rerum latinus, que é como quem diz, em tradução livre, um «Olhar em latim sobre os assuntos a tratar». Nesse conspectus, lá estão indicações sobre a actividade de Matti Vanhanen, «primus minister Finnorum» e de José Manuel Barroso, «praeses Commissionis Europaeae».
(Nota: na Visão, a última palavra está mal escrita. No site está « Europaeae» - assim mesmo, «aeae» - genitivo de «Europaea», e a revista retira-lhe a última sílaba. Corrigi...)

Também na Finlândia há uma rádio que emite em Latim (Nuntii Latini) e o seu site tem chats (colloquia latina) onde se pode conversar sobre temas diversos com pessoas com nicks como Mucius Scaeuola, Furius Camillus, Beatus Bernardus ou Regiomontanus...

Não falo Latim. Ensino (ensinava...) e estudo esta língua há muitos anos de um modo passivo. Mas elogio a Finlândia, que não sendo herdeira da língua latina (nem indo-europeia!) entende a sua importância e gabo aqueles que se dedicam ao Latim com o empenho necessário para verter Fernando Pessoa («Puerulus matris suae») ou Carlos Drummond de Andrade. É o caso de Silva Bélkior, que passou estes dois poetas para a língua do Lácio (ai, como nós gostamos destas coisas!).

Deixo aqui outra gracinha, tirada do Jornal de Poesia
Carlos Drummond de Andrade
(Tradução: Silva Bélkior )

Bis gemina chorea
lohannes ardebat Theresiam quae ardebat Raymundum
qui ardebat Mariam quae ardebat loachim qui ardebat Lilim
quae ardebat neminem.
lohannes ad Status Foederatos fecit iter, Theresia ad claustrum,
Raymundus fatali obiit casu, Maria vitam vixit virgo,
loachim propria se interfecit manu atque Lilim sibi iunxit J. Pinto Fernandes
qui fabellam non ingressus fuerat.
Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. PintoFernandes
que não tinha entrado na história.

29 outubro 2006

A Lógica da Batata (3) vai à escola

A professora Ana Cristina Oliveira convidou-me a ir à sua escola com A Lógica da Batata.
A Lógica da Batata é uma pequena palestra pensada para encaixar no programa de Filosofia do 11º ano. Chegando às falácias informais, especificamente às falácias de ambiguidade, em vez de ser o professor a leccionar aquela matéria, faço-o eu, usando apenas exemplos retirados do diálogo de Platão Eutidemo. Aproveito o conhecimento que adquiri ao traduzi-lo e realço os exemplos de equivocação, anfibologia, composição, divisão e falsa dicotomia aí encontrados. E como o Eutidemo é muito divertido, consegue-se adesão da parte dos alunos.
Na Escola Secundária de Pinheiro e Rosa tinha 47 alunos à minha espera. Correu muito bem. Respeitadores… participativos… gostei mesmo muito!
Já tinha estado naquela escola anteriormente, a convite de outra Ana, professora de Filosofia, a Ana Bela Guita. A Ana Guita tem um clube chamado «Trilhos da Arte» e toda a escola está decorada com telas pintadas pelos alunos. O projecto deste ano baseia-se na obra de José de Guimarães. E como não havia dinheiro para telas, pintam em… pedras! Já estão mesmo a começar um jardim de pedra num dos espaços do pátio.

Eu recebi esta («serve-te de pisa-papéis», sugeriu-me a Ana)!
A Ana Cristina tem um clube de teatro. Mestre em Educação artística e actriz, ensaia com os alunos mesmo ao fim de semana. E foi uma «escandaleira» quando se soube que até dava o número do telemóvel aos alunos, para que a pudessem contactar.

Tenho muita sorte em ter destas amigas! E a ESPR em ter estas professoras!

28 outubro 2006

«Rituais do amor e do prazer» (Ovídio)

Eis que um leito acolheu, cúmplice, dois amantes;
diante das portas fechadas da alcova, ó Musa, sustém o passo!
Espontaneamente, sem a tua ajuda, palavras mil hão-de ser ditas,
e não se quedará inerte no leito a mão esquerda;
a hão-de os dedos inventar que fazer naqueles sítios
em que, às escondidas, mergulha as suas setas o Amor.
(…)
Acredita no que te digo: não deve apressar-se o prazer de Vénus,
mas sim, discretamente, fazer por retardá-lo e demorá-lo.
Quando descobrires o ponto onde a mulher se excita ao ser tocada,
não seja o pudor a impedir-te de o tocar;
verás os seus olhos a brilhar de fogo cintilante,
como, tantas vezes, o sol reflecte a luz na superfície da água;
far-se-ão ouvir queixumes, far-se-á ouvir um encantador sussurro
e doces gemidos e palavras apropriadas ao prazer.
Mas não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,
nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu;
avançai para a meta ao mesmo tempo; então será pleno prazer,
quando, par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.


(Públio Ovídio Nasão, Arte de Amar, II. 703-708, 717-728. A referência é a mesma desta aqui)

Este Ovídio sabia muito! Homens e mulheres, dêem-lhe ouvidos! E exclamem, como ele prório queria e pedia: «Nasão foi o meu Mestre!»

27 outubro 2006

Estar próxima... A Lógica da Batata (2)

Daqui a pouco vou fazer uma coisa de que gosto muito: ir a uma escola secundária falar da lógica da batata.
Gosto por várias razões:
- para estar próxima da realidade das escolas. Mesmo a assustadora indisciplina não me amedronta. Quando acontece, não é agradável, claro... quando o 1º quarto de hora é para os sossegar... cansa. E acho que os colegas do ensino secundário são uns heróis! E que quando mais baixo é o ciclo de ensino, mais heróis são!
Tenho de confessar que tenho dificuldade em aceitar idas a algumas escolas... Aceito por solidariedade, mas sem vontade nenhuma... Felizmente, o resultado tem sido positivo, mesmo nessas situações. Os miúdos acabam por se sentir cativados e participar nos encontros. Se isso lhes valeu de alguma coisa, valeu certamente a pena para mim!
- porque esse conhecimento adquirido com a ida à escolas ajuda-me, pois daí a um ano ou dois alguns daqueles alunos virão para as minhas mãos (vou sonhando, eu sei...).
- porque me obriga a simplificar as ideias e a linguagem.
- porque aproxima os diversos níveis de ensino. E isso é produtivo para os alunos e para os colegas, que percebem que a Universidade procura estar próxima, colaborando nas actividades.
Há muitos anos que faço isto, tal como outros colegas. No entanto, a própria Universidade do Algarve percebeu a importância destas actividades e montou uma estrutura chamada Equipa UAlg, com oferta de palestras para (quase) todos os níveis de ensino e para (quase) todas as disciplinas, onde me integrei.
Hoje vou, às 10.20, à ES Pinheiro de Rosa (uma das duas escolas do Algarve de entre as 24 que no país vão ter autonomia).

26 outubro 2006

Traduções...

Hoy en día, un cierto hálito de cultura ensimesmada, no dialéctica, aureola el cuadro lingüístico anglosajón, que, basado en el prestigio político de su lengua - y como antaño los griegos, que desde luego no rindieran ese servicio de mediación a una posteridad que tanto les admiró - deprecia lo otro, «lo no ellos». El hecho de que la mayor potencia lingüística del mundo - la antigua Commonwealth (exceptuda Canadá, obligada politicamente al bilingüismo) más Estados Unidos - tenga uno de los menores índices traductográficos del conjunto de naciones cultas alude a su escasa curiosidad cultural y explica, también, más de un comportamiento político con su entorno humano.
(...)
la traducción (...) siempre será la visión de lo otro desde lo propio, desde la propia idiosincrasia y desde el propio idioma. Por eso, la tradución son las machadianas gafas con las que vemos lo otro; es el color que tiñe las realidades a las que lingüísticamente no podemos llegar de una manera directa.

Da Introdução (pp.16-18) de Miguel Ángel Vega à colectânea de que foi editor, em 2004, para a Ed. Cátedra (Linguística), intitulada Textos Clásicos de Teoría da la Traducción.

25 outubro 2006

Desabafo desesperado! Ouvidos, acautelai-vos!

A minha professora de violoncelo quer juntar um quarteto para apresentar na festa de Natal do Conservatório cá da pólis. Eu bem lhe expliquei que a minha idade é outra, que estou ali para aprender a ser uma melhor ouvinte do instrumento, que não tenho interesse em fazer nenhum grau...
Mas ela fez-me ouvidos moucos.
Parece que alguém fará um pizzicato... espero que me calhe a mim...

24 outubro 2006

A Lume

Eu trabalho para uma Luz
Höderlin
Eu sei exactamente onde me tocaria
O deus em que não creio com os seus dedos
Ardentes: na língua
Abrindo-me com força a boca
Queima-me os lábios tocando
Os meus dentes doentes com a sua luz
Electrificando os pedaços de marfim enegrecido
Inundando-me de um silêncio luminoso.

Pedro Vieira, 1967-2005
- A vida ou a obra!
Grita-me o ladrão.
- Leva-me tudo
E faz tu a distinção.


Pedro Vieira, 1967-2005

O que diz Sócrates...

Ó bem amado Pã e quantas divindades habitais este lugar concedei-me a beleza interior.
Que tudo o que é exterior viva em mim em harmonia com o interior.
Que eu considere rico o sábio e que, quanto a ouro, possua quantidade que um homem moderado possa roubar e levar.

Platão, Fedro, 279b-c. Trad. de José Ribeiro Ferreira, Edições 70, 1997.

23 outubro 2006

Eu tenho dois amores...

(...) Afirmavas-me, lembro-me bem,
que não era possível alguém, ao mesmo tempo, amar duas mulheres.
Por tua causa, deixei-me surpreender, por tua causa, fui apanhado desprotegido;
eis que passo pela vergonha de duas mulheres, ao mesmo tempo, amar.
Uma e outra são formosas, esmeram-se ambas na elegância;
nas artes, tenho dúvidas se tem esta, se aquela a primazia;
aquela é mais formosa do que esta, esta é, também, mais formosa que aquela;
ora me agrada mais esta, ora mais me agrada aquela;
balançam, como uma barcaça sacudida por ventos desencontrados
e trazem-me partido ao meio um e outro amor.
(…)
Mas antes isto do que ficaram morto sem amor.
Que ao meus inimigos caia em sorte uma vida austera
(…)
a mim, que me caiba em sorte desfalecer nos movimentos de Vénus,
quando a morte chegar, e possa eu extinguir-me em meio da função;
e haja alguém que proclame, entre lágrimas, nos meus funerais:
“essa foi uma morte de acordo com a tua vida”.


Mais Ovídio! Desta vez os Amores (II, 10.), também em tradução de Carlos Ascenso André para a Cotovia, em 2006.
Os Amores foram a sua primeira colectânea de poesia amorosa, escrita quando o poeta teria cerca de 20 anos. Diz-nos o tradutor na introdução: «Eram já poemas nascidos naquela sociedade frívola e faustosa que Roma começava a ser; e Ovídio havia-se transformado, rapidamente, no poeta dilecto dos salões mundanos, dos festins, da música, das beldades.

Ovídio, 43 a.C - 17 /18 d.C.

22 outubro 2006

Correcção

O post anterior foi corrigido.
Tu, que me perguntaste a minha opinião, deves ter ficado surpreendido.
Claro. Depois de uma história daquelas a conclusão não fazia sentido! Escrevi uma coisa e queria dizer outra!!
Lê de novo, por favor. E desta vez sem erros: sou a favor da despenalização.

A minha opinião??

Queres saber a minha opinião? Não acho que interesse muito, mas não foste o único a perguntar.
Vou contar-te uma história.
Um dia, ouvi um conversa entre a minha mãe e a minha avó que não era suposto ter ouvido.

Quando eu estava presente, nunca falavam dos seus assuntos nem de outras pessoas. Quando, por acaso, estavam a meio de uma conversa e eu entrava, logo as pessoas passavam a ser chamadas de «criaturas» («aquela criatura do outro dia, sabes?») e eu não percebia nada, cumprido assim o objectivo.
Nesse dia ouvi-as falar de uma «criatura» que eu conhecia. Pensavam que eu não estava ali e deram-lhe um nome... Tinhas duas filhas. Pouca instrução (uma pessoa humilde, dizia-se na altura). Não sei que idade teria... nem 30 anos... não me lembro. Para mim era uma mulher «crescida». O marido, que lhe batia com frequência, tê-la-ia ameaçado de que, se tivesse outro filho, a matava. Ela terá sabido que, se pusesse umas ervas «lá dentro» e depois puxasse com agulhas de crochet, o feto sairia...
O resultado imagina-se.
Morreu, com os intestinos perfurados.
Nunca mais me esqueci disto. Fiquei profundamente chocada.

Quando, pouco depois (teria eu os meus 14 ou 15 anos), me lembro de se ter discutido a despenalização do aborto pela primeira vez, esta história pairava na minha cabeça.
Se esta mulher tivesse ido a um centro de saúde, como era jovem, como o filho não era resultado de uma violação, será que poderia argumentar que a sua vida estava em perigo, caso fosse para a frente? Perigo de vida da mãe também seria quando uma mulher era ameaçada pelo marido??
Nessa época eu era católica apostólica, romana, praticante. Mas nunca cedi. Prisão para esta mulher?? Nunca.
Não acredito que alguém escolha o aborto como método contraceptivo.

Se sou contra o aborto? Sou. Como sou contra muitas práticas legalizadas neste país. Não é por ser permitido que as faço.
Se sou contra a penalização do aborto (ou do eufemisno «interrupção voluntária da gravidez»), completamente? Sou. Completamente.

Aqui tens a minha opinião.

(agradeço às «Claras em Castelo» a chamada de atenção para o meu erro!! Tinha ali um prefixo negativo a mais! Sou a favor da despenalização do aborto, como não poderia deixar de ser...)

21 outubro 2006

O aborto (2)

Ao discutirmos actualmente, a despenalização do aborto (confundindo, muitas vezes, a despenalização com a aprovação desta prática como meio contraceptivo), estamos a admitir a diferença entre a moral, as opiniões e a lei por que nos regemos. Estamos também a dar razão aos primeiros que filosofaram e a outros que lhes seguiram que defendiam que as leis mudam e têm origem no «acordo voluntário dos indivíduos, preparados para concessões recíprocas», como diz uma investigadora italiana, Decleva Caizzi.
Por exemplo, Crítias afirmava que os deuses foram inventados pelos homens e Cálicles, no Górgias de Platão, reforça a ideia: «Quanto às leis, estou convencido de que são feitas pelos fracos e pela grande massa, que agem exclusivamente no seu próprio interesse, fixando o que é digno de louvor e o que é digno de censura» (483b).
Teria a mulher autonomia para pôr e dispor do seu corpo? A liberdade que as mulheres revelam na literatura (independentemente da sua condição social ser ou não de escravas) com o seu corpo será uma manifestação da vivência da época ou será simplesmente poética? Até que ponto a liberdade de fazer greve aos deveres conjugais era possível, como faz Lisístrata?
Efectivamente, a condição que Calírroe nos apresenta seria mais frequente do que se possa imaginar. Na Grécia antiga, o aborto, a par do infanticídio (geralmente sob a forma de exposição, isto é, abandono à morte), acontecia como forma de controlo de natalidade e, tal como em Roma, não era considerado crime. Dado que até a criança ser aceite pelo pai não tinha existência jurídica, esbatiam-se assim as diferenças entre abortar e expor. Apesar de os médicos não o deverem praticar, não havia uma condenação ética absoluta do aborto. Platão mostra-se favorável a ele como modo de controlo demográfico e por razões económicas, e Aristóteles concorda que se pratique por razões génicas, estabelecendo mesmo uma data a partir da qual é censurável (Política, 1335b19-25. Veja-se a nota 170 à tradução de António Capelo do Amaral e Carlos de Carvalho Gomes, 1998, Lisboa, Vega).
No romance de Cáriton, referido no postal anterior, o aborto é referido com naturalidade como a solução imediata para uma gravidez não desejada (ou melhor, desejada, mas noutras circunstâncias), não querendo com isto dizer que seja visto como uma acção louvável. Calírroe hesita variadas vezes, pois, apesar de estar apenas grávida de dois meses, já sente o amor de mãe a pesar na decisão e não quer seguir «as pisadas de Medeia»...

20 outubro 2006

O aborto

Um excerto de Quéreas e Calírroe, romance de Cáriton de Afrodísias, onde uma mulher grávida, raptada por piratas, feita escrava, julgando-se abandonada pelo marido, se encontra dividida entre a possibilidade de voltar a casar ou abortar o filho do casamento desfeito:

«Pois bem, agora passámos a ser três, marido, mulher e filho. Vamos decidir sobre os nossos interesses em comum. Para começar, vou eu dar a minha opinião. É como mulher de Quéreas, e só dele, que quero acabar os meus dias. Porque mais importante para mim do que pais, pátria ou o meu filho, é não conhecer outro homem. E tu, meu filho, o que preferes, no que te toca a ti? Um veneno que te mate antes de teu pai. Ou melhor, ele até já falou, quando me apareceu em sonhos: "Confio-te o nosso filho". Sê minha testemunha, Quéreas, és tu que me empurras para um casamento com Dionísio.»

Excerto de Quéreas e Calírroe, romance de Cáriton de Afrodísias, do século I d.C.
Tradução de Maria de Fátima Sousa e Silva (1996) Lisboa, Ed. Cosmos

18 outubro 2006

Filoctetes

Neoptólemo: E não te parece vergonhoso mentir?
Ulisses: Não, se a mentira nos traz a salvação.
Neoptólemo: Com que cara ousa alguém proclamar tal doutrina?
Ulisses: Quando se age para o nosso interesse, não se deve hesitar.

Sófocles, Filoctetes, 1987, JNICT. Em tradução de José Ribeiro Ferreira.


Um destes dias vou ver a versão (recriação poética) que Frederico Lourenço preparou para o Teatro da Cornucópia. Em cena até 26 de Novembro.



17 outubro 2006

O que diz Hesíodo

Nada deixes para amanhã ou depois de amanhã,
pois o homem negligente no trabalho não enche o celeiro,
nem aquele que o adia; a canseira ajuda o teu trabalho,
mas o homem que adia as coisas sempre luta com a ruína.

Trabalhos e Dias, 410-413. Tradução de José Ribeiro Ferreira, para a INCM.