12 março 2007

O Amor dos Outros

O Amor dos Outros
(foto roubada daqui. Aproveitem e leiam o texto da Ana Cristina Oliveira)

Fui no Sábado ver uma peça de teatro a Olhão. Encenada por Paulo Moreira e interpretada por João Evaristo, é um monólogo inspirado em textos do brasileiro Alexandre Ribondi.

O cartaz do espectáculo mostra um homem nu, o que nos remete para um tipo de história que nem todos irão ver. Ou irão enganados!

Porque a nudez aqui é a da alma... dos outros.

Veronete conta a descoberta do amor entre dois homens. Trabalhando como empregada doméstica na casa de um engenheiro, vai acompanhando a descoberta do amor entre este e o seu jardineiro. Ambos muito homens, ambos muito masculinos, bonitos... uma história muito bem contada, sem cair na vulgaridade ou na afirmação de uma qualquer sexualidade. Na verdade, a sexualidade das personagens contadas nem importa muito na história...

A sexualidade da contadora... essa tem a sua graça, pois é um travesti. Veronete chamava-se Jair e é uma mulher num corpo (que mantém) de homem. Mas gosta de se vestir de mulher e sente como tal. Aliás, o texto faz referências ao corpo da mulher como só uma se lembraria de o fazer...

A interpretação de João Evaristo é genial. Na sua modéstia, disse que tudo se devia ao Paulo Moreira: «Eu sou só o boneco. Isto é tudo ideia do Paulo».

Não querendo minorar o trabalho do encenador (antes pelo contrário: excelente!), estar uma hora em cena, interpretando um monólogo, falado com pronúncia brasileira (o que dificulta a improvisação quando há uma «branca») e não se tornando ridículo, interagindo com o público, do alto de uns tacões, ... é obra de grande actor!

Estou com vontade de voltar à Sociedade Recreativa Olhanense no próximo fim-de-semana, só para ver tudo outra vez!

11 março 2007

Anacreonte - Frag. 395

Prometi ao Miguel e agora, finalmente, cumpro!
Aqui vai um mimo, com cheiro a Alsbo Vanilla...

As minhas fontes já estão grisalhas
e a minha cabeça branca;
A fresca juventude já não está comigo,
Os meus dentes estão velhos
E já não me resta muito

tempo da doce vida ;
Por isso lamento-me com frequência,

receando o Tártaro: pois
as profundezas do Hades
são terríveis, e a descida para lá
é difícil; e também é certo que
quem desce não volta a subir.

10 março 2007

Construtores...

Diz ainda a Constituição de Zenão, que tem muito para nos ensinar:

[9] A tua magnificência que tome providências para que nenhum empreiteiro ou técnico deixe inacabada a obra começada, mas aquele que começou recebendo um pagamento seja forçado a cumprir o trabalho ou a pagar ao que está a construir o dano daquilo que aconteceu em consequência e todo o mal que advenha por causa de uma obra não acabada; se acontecer que o culpado é pobre, que seja açoitado e expulso da cidade.
[9a] Que não se proíba alguém do mesmo ofício de acabar o que foi começado por um outro, precisamente porque sabemos de que são capazes os empreiteiros e os técnicos contra os que querem construir a sua casa, que não se aplicam a acabar aquilo que eles próprios começaram nem concordam que outros terminem os seus trabalhos, mas levavam a causar um dano intolerável aos que construíam as suas casas.
[9b] Pois o que recusar terminar o que foi começado por outro por causa disto mesmo, isto é, que foi outro que começou, que também ele sofra uma pena semelhante àquele que abandonou a obra.

09 março 2007

Vistas para o mar...

Apesar dos Planos Directores Municipais, dos de Ordenamentos de Território, de regras para isto, regras para aquilo, o que mais se vê é o caos nas construções urbanas.

Será que esses conhecem a Constituição de Zenão (de seu nome original Tarassicodissa, foi Imperador romano do Oriente entre 474-491), aplicada a Constantinopla?
Diz o texto (grego, tradução minha):
Ordenamos que os que querem renovar as suas próprias casas de modo algum ultrapassem a forma anterior, de maneira a que os que estão a construir uma casa não tirem a luz nem a vista dos vizinhos, violando o que estava estabelecido há muito tempo.
[...]
Posto que se diz na minha constituição também que o que vai construir deve deixar doze pés entre a sua própria casa e a do vizinho, e ainda se acrescenta «mais ou menos», o que provoca justamente uma grande incerteza (e o que levanta dúvida não é apropriado para resolver ambiguidades), ordenamos claramente que entre cada casa haja doze pés, começando efectivamente do chão do edifício e continuando até ao limite mais alto.
Àquele que obedecer a isto, que daqui em diante lhe seja autorizado a erigir a sua casa até ao limite que desejar, e rasgar tanto janelas chamadas próprias para se debruçar, como janelas para dar luz segundo a legislação sagrada, quer queira construir uma casa nova, quer renovar uma antiga, quer reconstruir uma que tenha sido destruída pelo fogo.
De modo algum será permitido que tire do vizinho a vista de mar que este tem directa e não forçada de qualquer lado da casa, quer esteja de pé nos seus aposentos ou sentado, sem que tenha de se virar em si ao debruçar-se torcido e forçado para ver o mar.

08 março 2007

Dia Internacional da Mulher

Tinha pensado deixar este dia em branco...
Mas decidi que não, que iria dizer alguma coisa.
Não acho muita graça ao dia disto e daquilo, com toda a parafernárlia comercial que se segue, mas tal como se comemoram datas importantes da história nacional ou mundial, o dia em que 130 mulheres morreram queimadas numa fábrica em Nova Iorque, em 1850, por defenderem os seus direitos, parece-me justo que se celebre, para que a memória não esqueça.
«Que parvoíce as flores, que parvoíce os jantares só de mulheres! Não quero essa rosa!», tenho ouvido as minhas colegas dizerem neste dia. Por ser este dia, porque noutro qualquer não acahariam mal.
Mas a verdade é que somos umas privilegiadas.
Por muito tempo fui assim: só convivia com mulheres como eu, com liberdade, independência económica e intelectual (bem... talvez...), que também eu não via com bons olhos fazer parte de uma minoria que tem de ser lembrada para que os seus direitos não conquistados sejam postos em destaque, pelo menos uma vez por ano...
Mas uma vez pude conviver com outras mulheres. Mulheres muito diferentes de mim. Mulheres com salários mínimos, filhos, maridos possessivos e até agressivos. Este dia é o único em que podem almoçar ou, as mais ditosas, jantar ou mesmo ir a um bar com amigas. Só mulheres, claro, que com um homem eles não deixariam.
Não deixariam.
É o único dia em que alguns deles lhe dão uma flor, em que os colegas de trabalho lhe dão um mimo, em que todos lhes sorriem quando passam e as tratam um pouco melhor.
É triste, mas um dia hoje... outro amanhã... não podemos fazer muito por estas mulheres...
Direitos, já têm. Prática... não prevejo que aconteça tão cedo...
É também altura de lembrar aos nosso alunos e alunas, filhos e filhas, que só em 1977 o Código Civil mudou, permitindo às mulheres serem chefes de família. Carolina Beatriz Ângelo fundou, em 1911, a Associação de Propaganda Feminista, a primeira portuguesa a votar, dado que era viúva e a lei permitia que os chefes de família exercessem esse direito. E é de lembrar que, para impedir que isto voltasse a acontecer, em 1913, a Lei 3, 3/7/1913 passou a especificar «chefes de família do sexo masculino».
E é de lembrar que em 1949 proibiu-se a co-educação.
E é de lembrar que só depois de 1969 as mulheres casadas puderam passar a deslocar-se ao estrangeiro sem autorização do marido.
E é de lembrar que, se o marido matasse a mulher era punido com três meses de desterro fora da sua comarca, enquanto que a mulher que matasse o marido só teria esta pena se ele tivesse outra mulher a viver lá em casa («concubina teúda e manteúda pelo marido na casa conjugal»)!
Bem...
Acho que chega para lamentar que isto seja recordado apenas num dia por ano.
Que comece com um dia...

07 março 2007

A dor dos outros...

A dor dos outros, a dor dos que amamos, é terrível...
Não é catártica, se bem que nos purifique um pouco: começamos a olhar para a nossa vida e tomamos decisões (de que cedo nos esquecemos) de mudança de atitudes, de «carpe diem» e afins...
No final, continuamos com a nossa vidinha.
Sempre que alguém que amo está a sofrer, lembro-me de um conto do Yukio Mishima, «Patriotismo», penso. Faz parte de uma colectânea chamada Contos de Verão, acho. Falo de cor, porque é um dos livros que tenho encaixotados há anos...
Nesse conto, uma mulher assiste ao suicídio do marido, a pedido deste, e, enquanto ele enterra a lâmina no ventre, ela vê-o sofrer... mas não sente a dor.
Ai! As dores são individuais!
E isso dói-me.
Mas a nossa dor, a dor que sentimos pelo sofrimento dos que amamos não é a dor que eles sofrem.
Seria bom podermos hieraquizar o sofrimento: não vou sofrer agora pela minha perna que parti, porque alguém que amo está com um cancro.
Não posso. Sofro com a minha perna partida e, nos intervalos do meu egoismo, sofro com a dor do outro.
«Não se desperdiça comida, porque há quem passe fome», dizia o meu Pai.
Não percebia a ligação entre as coisas... aliás, até quanto mais comida eu deixasse, mais gente a podia comer...
Mas não. Como posso, moralmente, desperdiçar comida, não valorizar o que tenho, quando há quem não tenha e precise?
É como a dor dos que amamos: quando a deles é maior, de facto, a nossa perna partida torna-se um problema menor, porque se cura e vamos poder voltar a andar. E eles... quem sabe quanto mais vão poder viver? Rio-me da minha perna partida e valorizo o outro. Mas, no fundo, sei que estou limitada a ficar a ler dores que não sinto...

E os que lêem o que escreve
Na dor lida sentem bem
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

Fernando Pessoa, «Autopsicografia»

06 março 2007

Delícias...

Recebi hoje um livrinho delicioso:
Prosodie Latine ou Méthode pour apprendre les principes de la quantité et de la versification latines; par Le Chevalier.

Esta edição, de 1855, é uma nova e foi revista e aumentada por L. Dumas, «professeur au Lycée de Montpellier».

Mas a graça está mais no anterior dono do livro...
Diz-me a minha amiga Petra, que deve ter comprado o livro em Berlim, numa cartinha que acompanhava esta prendinha:
«You once told me you like books that had an interesting previous owner who left his mark by note in the margin or on the fly-leaf».
E é assim que me envia este livrinho de 82 páginas, que pertenceu a Louis Montand, datado de «15 février 1882»...
125 anos depois veio ter à minha mão...
Mas qual é a graça?
As notas de M. Montand!
O livro intercala uma página escrita com outra em branco, permitindo assim que se anotem impressões.
O que fez o senhor Montand? Escreveu, em rimas, as regras gramaticais que ia lendo na página impressa!
Uma delícia!

Deixo dois exemplos:
Diz a regra que os supinos em -utum, que têm mais de duas sílabas, tornam a penúltima longa, tal como os particípios que daí se formaram, como indutum, indutus, tributum, tributus, etc.

Delícia (com uma belíssima letra):

Utum au supin long sera
Plus de deux syllabes s'il a

Diz a regra que -us é breve no final das palavras, como unus, facinus, etc. Exceptuam-se os nomes da quarta declinação no nomitativo e genitivo singular, e no nominativo e acusativo do plural, como fructus, domus.

Delícia:

Us sera bref: mais pour les noms
ceux qui retiennent u sont longs
De fructus bref les quatre cas
avec tripus, long tu feras.

Irregularidade...

Estou mesmo com dificuldades em actualizar o blogue...
Mais uma vez, obrigada pela paciência...

26 fevereiro 2007

Da lógica da batata...

Platão, Eutidemo, 300a:
«Os homens vêem primeiro as coisas que podem ver ou as que não podem ?»
«As que podem»


Mesmo que o jovem Ctesipo tivesse dito as que não podem, seria refutado...
O sofisma que se segue baseia-se numa ambiguidade sintáctica (anfibologia) permitida pela frase acima:

  • sentido passivo (e imediatamente apreendido por qualquer um de nós) - Os homens vêem primeiro as coisas que [eles, homens,] podem ver - isto é, as coisas que podem ser vistas (pelos homens).
  • sentido activo - Os homens vêem primeiro as coisas que podem ver - isto é, as coisas que têm a capacidade de ver - isto é, as coisas com olhos.
Então, Eutidemo pergunta que coisas podem os mantos estar também a ver... já que Ctesipo pode ver os mantos...

Nota interna

Tenho andado sem computador, sem ligação à internet, sem casa muito fixa, em mudanças infindáveis, enfim... mas vou voltar!
Obrigada e um abraço a todos os amigos!

19 fevereiro 2007

Romance Antigo

A primeira vez que ouvi falar de Romance Antigo, da novela grega, das histórias de amor e de aventuras, com piratas e finais felizes, foi nas aulas de Literatura Grega, com Maria Helena Ureña Prieto. Grande senhora, grandes aulas. E fiquei fã! Foi a porta do mundo helenístico que se abriu, com os seus homens e mulheres muito mais perto de nós... ou melhor, mostrados muito mais perto...
Lisboa vai receber para o ano o ICAN (International Conference on the Ancient Novel) -Crossroads in the Ancient Novel: Spaces, Frontiers, Intersections, de 21 a 26 de Julho, na Gulbenkian. Na organização temos um grupo de portugueses presidido por Marília Futre.
Já estão abertas as inscrições para apresentação de comunicações. Assim é que é: com ano e meio de antecedência.
Promete!

14 fevereiro 2007

Gerir a ausência e a saudade

Enquanto dá passos incertos o novo amor, deve buscar no uso as suas forças;
se bem o souberes alimentar, com o tempo ficará firme.
(...)
Faz com que se acostume a ti; nada tem mais força que a habituação;
até a alcançares, não fujas a nenhum dissabor;
(...)
Quando tiveres mais funda certeza de que pode ter saudades tuas (...)
dá-lhe descanso; o campo em pousio devolve com lucro o que lhe foi confiado,
e a terra árida absorve melhor a chuva que cai do céu.
(...)
Mas a demora sem risco tem de ser curta; amolecem com o tempo os cuidados,
o amor ausente desvanece-se, e um outro novo se vai insinuando.

Ovídio, Arte de Amar, II, 339-358. Sempre a mesma tradução.

13 fevereiro 2007

Minister

Ouvia agora* na Antena 1 alguém dizer que não percebia a abstenção em Portugal, dado que é o terceiro referendo que se faz em que não se consegue menos de 50% de abstenções, nem percebia a falta de empenhamento político.
Eu acho que percebo a falta de empenhamento político.
Vejo-o no nos meus alunos, que são cidadãos votantes, vejo-o nos miúdos das escolas secundárias, à beira de o ser.
Quando vou fazer as palestras «A Magia das Palavras», «Lógica da Batata» ou «Tragédia Grega», tenho oportunidade de conversar com eles. E uma palavra que meto no discurso, quer venha a propósito (vem sempre n' «A Magia das Palavras»), quer não venha, é «ministro».
-O que é um ministro?
- Aldrabão! Mentiroso! - respondem invariavelmente.
Nessa altura preparo o discurso e digo que não. Que a prática que alguns ministros têm não pode ser generalizada para todos, que ser ministro, deputado, presidente da república, de câmara, de junta, etc., são cargos que todos nós poderemos um dia vir a ocupar. E que, para que eles, jovens, possam dizer que este ou aquele é mentiroso e aldrabão tem de estar informados, tem de conhecer a política do país, dos partidos, enfim, tem de aproveitar estes momentos únicos de aprendizagem que a escola lhes dá, de saberes que lhes vão ser úteis para toda a vida, desde a matemática ao português (os «monstros»), passando pela filosofia e a história, entre tantos outros, saberes que o vão tornar um melhor cidadão (e a ser menos «enganado»!)

E claro, explico que «ministro» vem do latim minister que significa «escravo, servo», palavra que, por sua vez, vem de minus, que significa «menos, muito pouco». O ministerium era o serviço atribuído a esses escravos.
Pois.

* Este postal foi escrito ontem, às 8.57, e não publicado por distracção!

09 fevereiro 2007

Figo, fruta secreta...

De «Figos», de Herberto Helder, roubei estas partes (in Poesia Toda, publicado pela Assírio e Alvim):


A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-lo em quatro, pegando pelo pedúnculo,
E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida, desabrochada em quatro espessas pétalas.

Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.

Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.

Cada fruta tem o seu segredo.

O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é uma fruta feminina.
(...)
Foi sempre segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre secreta.

(...)
Os figos maduros não se ocultam.

Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas escarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na sua afirmação?

Quando os figos abertos se não ocultarem?

outra barroca

A um peito cruel

O bem passado que é? é mal presente,
O mal presente que é? é dor esquiva,
A dor esquiva que é? é morte viva,
A morte viva que é? inferno ardente,

Com mal quem poderá viver contente,
Com dor quem haverá que alegre viva,
Com morte quem não tem pena excessiva,
Com inferno quem vive alegremente?

Por bem passado mal vou padecendo,
Por alegri dor, por vida morte,
Com glória o mesmo inferno estou sofrendo:

Mas ah, peito cruel, que ainda é mais forte
A dura condição, que em ti estou vendo,
Que bem, e mal, e dor, inferno, e morte.

Fénix Renascida, v.II, pg.104, 1717
in Antologia da poesia do período barroco, organizada pela Natália Correia para a Moraes Editores, editada em 1982.

08 fevereiro 2007

poesia barroca

Ao desencaixotar tenho encontrado livros de que já tinha sentido a falta, outros que nem por isso, outros de que já não me lembrava, enfim...
Encontrei um que me divertia e de que gostava e do qual já não me lembrava (às vezes não nos apercebemos de como gostamos das coisas...): Antologia da poesia do período barroco, organizada pela Natália Correia para a Moraes Editores, editada em 1982.

A um casamento que fez em Lisboa um fulano de Mello com uma fulana de Mello, ambos velhos

Bizarra em cadeira ela,
Bizarro em cavalo ele,
Ele com muito ar nela,
Ela com muito ar nele.

Fidalgos ele e ela,
Não há para que dizê-lo,
Ele Mello, é ramelo,
Ela Mella, é ramela.

Poesia Inédita de D. Tomás de Noronha, Mendes dos Remédios, pág. 36

06 fevereiro 2007

Amália / Jocasta

AMÁLIA, ao aperceber-se que o amante, ANTÓNIO, é seu filho, exclama:
Ai, cosam-me a boca! Ceguem-me os olhos! Quebrem-me os braços e pernas!... Cubram-me de cinza! Escondam-me de toda a gente! Enterrem-me viva!... (A bater com ambos os punhos na parede.) Matem-me!... Ai, matem-me! matem-me!...
Mas, mais tarde, reaje.
AMÁLIA (torturada): Não sei... não sei?!... (Outra vez dura, de pedra negra) Não tenho culpa. Hei-de viver!...
(...)
HOMENS E MULHERES (no auge do ódio, avançando para Amália): Morra! Morra! Morra!...
AMÁLIA (fúria negra, medonha; subindo, em defesa, para cima da mesa): Quero viver!... Hei-de viver!... Hei-de viver!...
(...)
(estas quatro personagens param por momentos e, logo a seguir, voltam-se odientas para Amália.)

3ª MULHER: Que Deus me beba os olhos, antes que eu te veja viva! Mata-te!...
1º HOMEM: Que Deus me cosa ouvidos e boca, que Deus me quebre mãos e braços... antes que eu te oiça, que eu te fale, que eu te sinta viva! Mata-te!...
1º e 2º HOMENS, 1º e 3ª MULHERES: Mata-te! Mata-te! Mata-te!...
(...)
AMÁLIA: Quero viver!... quero... quero!...(...) Hei-de viver! Hei-de ser feliz!... Quero viver!...

Bernardo Santareno,«António Marinheiro (o Édipo de Alfama)», in Obras Completas - 2º Volume, Editorial Caminho, 1985.

02 fevereiro 2007

oboístas

Ao mexer em papéis (mudanças, é no que dão...), encontrei um com a seguinte frase, transcrita, à mão (coisa rara), por mim há muitos anos, tirada não sei de onde:

Harry Ellis Dickson: «Todos os primeiros oboístas são gangsters. São duros e irascíveis galos de palheta dupla, temidos pelos colegas e pelos maestros.»

01 fevereiro 2007

A cidade (K. Kavafis)

Em época de mudanças, procuro não me esquecer das palavras de Konstandinos Kavafis (na tradução de Nikos Pratsinis e Joaquim Manuel de Magalhães, para a Relógio d'Água, em 2005).

A cidade

Disseste: «Vou partir para outra terra, vou partir para outro mar.
Uma outra cidade melhor do que esta encontrar-se-á.
Cada esforço meu um malogro escrito está;
e é - como morto - enterrado o meu coração.
A minha mente até quando irá ficar nesta estagnação.
Para onde quer que eu olhe, para onde quer que fite por aí
ruínas negras da minha vida vejo aqui,
onde tantos anos passei e dizimei e dei em estragar.»

Lugares novos não vais encontrar, não encontrarás outros mares.
A cidade seguir-te-á. De volta pelos caminhos errarás
os mesmos. E nos bairros os mesmos envelhecerás;
e dentro dessas mesmas casas cobrir-te-ás de cãs.
Sempre a esta cidade chegarás. Para os noutra parte - esperanças vãs -
não há barco para ti, não há partida.
Assim como dizimaste aqui a tua vida
neste pequeno recanto, em toda a terra a vi estragares.