13 março 2007
12 março 2007
O Amor dos Outros
Fui no Sábado ver uma peça de teatro a Olhão. Encenada por Paulo Moreira e interpretada por João Evaristo, é um monólogo inspirado em textos do brasileiro Alexandre Ribondi.
O cartaz do espectáculo mostra um homem nu, o que nos remete para um tipo de história que nem todos irão ver. Ou irão enganados!
Porque a nudez aqui é a da alma... dos outros.
Veronete conta a descoberta do amor entre dois homens. Trabalhando como empregada doméstica na casa de um engenheiro, vai acompanhando a descoberta do amor entre este e o seu jardineiro. Ambos muito homens, ambos muito masculinos, bonitos... uma história muito bem contada, sem cair na vulgaridade ou na afirmação de uma qualquer sexualidade. Na verdade, a sexualidade das personagens contadas nem importa muito na história...
A sexualidade da contadora... essa tem a sua graça, pois é um travesti. Veronete chamava-se Jair e é uma mulher num corpo (que mantém) de homem. Mas gosta de se vestir de mulher e sente como tal. Aliás, o texto faz referências ao corpo da mulher como só uma se lembraria de o fazer...
A interpretação de João Evaristo é genial. Na sua modéstia, disse que tudo se devia ao Paulo Moreira: «Eu sou só o boneco. Isto é tudo ideia do Paulo».
Não querendo minorar o trabalho do encenador (antes pelo contrário: excelente!), estar uma hora em cena, interpretando um monólogo, falado com pronúncia brasileira (o que dificulta a improvisação quando há uma «branca») e não se tornando ridículo, interagindo com o público, do alto de uns tacões, ... é obra de grande actor!
Estou com vontade de voltar à Sociedade Recreativa Olhanense no próximo fim-de-semana, só para ver tudo outra vez!
11 março 2007
Anacreonte - Frag. 395
Aqui vai um mimo, com cheiro a Alsbo Vanilla...
As minhas fontes já estão grisalhas
e a minha cabeça branca;
A fresca juventude já não está comigo,
Os meus dentes estão velhos
E já não me resta muito
tempo da doce vida ;
Por isso lamento-me com frequência,
receando o Tártaro: pois
as profundezas do Hades
são terríveis, e a descida para lá
é difícil; e também é certo que
quem desce não volta a subir.
10 março 2007
Construtores...
09 março 2007
Vistas para o mar...
Apesar dos Planos Directores Municipais, dos de Ordenamentos de Território, de regras para isto, regras para aquilo, o que mais se vê é o caos nas construções urbanas.08 março 2007
Dia Internacional da Mulher
Mas decidi que não, que iria dizer alguma coisa.
07 março 2007
A dor dos outros...
Não posso. Sofro com a minha perna partida e, nos intervalos do meu egoismo, sofro com a dor do outro.
«Não se desperdiça comida, porque há quem passe fome», dizia o meu Pai.
Não percebia a ligação entre as coisas... aliás, até quanto mais comida eu deixasse, mais gente a podia comer...
Mas não. Como posso, moralmente, desperdiçar comida, não valorizar o que tenho, quando há quem não tenha e precise?
É como a dor dos que amamos: quando a deles é maior, de facto, a nossa perna partida torna-se um problema menor, porque se cura e vamos poder voltar a andar. E eles... quem sabe quanto mais vão poder viver? Rio-me da minha perna partida e valorizo o outro. Mas, no fundo, sei que estou limitada a ficar a ler dores que não sinto...
E os que lêem o que escreve
Na dor lida sentem bem
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
Fernando Pessoa, «Autopsicografia»
06 março 2007
Delícias...
Prosodie Latine ou Méthode pour apprendre les principes de la quantité et de la versification latines; par Le Chevalier.
Esta edição, de 1855, é uma nova e foi revista e aumentada por L. Dumas, «professeur au Lycée de Montpellier».
Mas a graça está mais no anterior dono do livro...
Diz-me a minha amiga Petra, que deve ter comprado o livro em Berlim, numa cartinha que acompanhava esta prendinha:
«You once told me you like books that had an interesting previous owner who left his mark by note in the margin or on the fly-leaf».
E é assim que me envia este livrinho de 82 páginas, que pertenceu a Louis Montand, datado de «15 février 1882»...
125 anos depois veio ter à minha mão...
Mas qual é a graça?
As notas de M. Montand!
O livro intercala uma página escrita com outra em branco, permitindo assim que se anotem impressões.
O que fez o senhor Montand? Escreveu, em rimas, as regras gramaticais que ia lendo na página impressa!
Uma delícia!
Deixo dois exemplos:
Diz a regra que os supinos em -utum, que têm mais de duas sílabas, tornam a penúltima longa, tal como os particípios que daí se formaram, como indutum, indutus, tributum, tributus, etc.
Delícia (com uma belíssima letra):
Utum au supin long sera
Plus de deux syllabes s'il a
Diz a regra que -us é breve no final das palavras, como unus, facinus, etc. Exceptuam-se os nomes da quarta declinação no nomitativo e genitivo singular, e no nominativo e acusativo do plural, como fructus, domus.
Delícia:
Us sera bref: mais pour les noms
ceux qui retiennent u sont longs
De fructus bref les quatre cas
avec tripus, long tu feras.
Irregularidade...
Mais uma vez, obrigada pela paciência...
26 fevereiro 2007
Da lógica da batata...
«Os homens vêem primeiro as coisas que podem ver ou as que não podem ?»
«As que podem»
Mesmo que o jovem Ctesipo tivesse dito as que não podem, seria refutado...
O sofisma que se segue baseia-se numa ambiguidade sintáctica (anfibologia) permitida pela frase acima:
- sentido passivo (e imediatamente apreendido por qualquer um de nós) - Os homens vêem primeiro as coisas que [eles, homens,] podem ver - isto é, as coisas que podem ser vistas (pelos homens).
- sentido activo - Os homens vêem primeiro as coisas que podem ver - isto é, as coisas que têm a capacidade de ver - isto é, as coisas com olhos.
Nota interna
Obrigada e um abraço a todos os amigos!
19 fevereiro 2007
Romance Antigo
14 fevereiro 2007
Gerir a ausência e a saudade
se bem o souberes alimentar, com o tempo ficará firme.
(...)
Faz com que se acostume a ti; nada tem mais força que a habituação;
até a alcançares, não fujas a nenhum dissabor;
(...)
Quando tiveres mais funda certeza de que pode ter saudades tuas (...)
dá-lhe descanso; o campo em pousio devolve com lucro o que lhe foi confiado,
e a terra árida absorve melhor a chuva que cai do céu.
(...)
Mas a demora sem risco tem de ser curta; amolecem com o tempo os cuidados,
o amor ausente desvanece-se, e um outro novo se vai insinuando.
13 fevereiro 2007
Minister
Eu acho que percebo a falta de empenhamento político.
Vejo-o no nos meus alunos, que são cidadãos votantes, vejo-o nos miúdos das escolas secundárias, à beira de o ser.
Quando vou fazer as palestras «A Magia das Palavras», «Lógica da Batata» ou «Tragédia Grega», tenho oportunidade de conversar com eles. E uma palavra que meto no discurso, quer venha a propósito (vem sempre n' «A Magia das Palavras»), quer não venha, é «ministro».
-O que é um ministro?
- Aldrabão! Mentiroso! - respondem invariavelmente.
E claro, explico que «ministro» vem do latim minister que significa «escravo, servo», palavra que, por sua vez, vem de minus, que significa «menos, muito pouco». O ministerium era o serviço atribuído a esses escravos.
Pois.
* Este postal foi escrito ontem, às 8.57, e não publicado por distracção!
09 fevereiro 2007
Figo, fruta secreta...
A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-lo em quatro, pegando pelo pedúnculo,
E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida, desabrochada em quatro espessas pétalas.
Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.
Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.
Cada fruta tem o seu segredo.
O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é uma fruta feminina.
(...)
Foi sempre segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre secreta.
(...)
Os figos maduros não se ocultam.
Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas escarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na sua afirmação?
Quando os figos abertos se não ocultarem?
outra barroca
O bem passado que é? é mal presente,
O mal presente que é? é dor esquiva,
A dor esquiva que é? é morte viva,
A morte viva que é? inferno ardente,
Com mal quem poderá viver contente,
Com dor quem haverá que alegre viva,
Com morte quem não tem pena excessiva,
Com inferno quem vive alegremente?
Por bem passado mal vou padecendo,
Por alegri dor, por vida morte,
Com glória o mesmo inferno estou sofrendo:
Mas ah, peito cruel, que ainda é mais forte
A dura condição, que em ti estou vendo,
Que bem, e mal, e dor, inferno, e morte.
Fénix Renascida, v.II, pg.104, 1717
in Antologia da poesia do período barroco, organizada pela Natália Correia para a Moraes Editores, editada em 1982.
08 fevereiro 2007
poesia barroca
Bizarra em cadeira ela,
Bizarro em cavalo ele,
Ele com muito ar nela,
Ela com muito ar nele.
Fidalgos ele e ela,
Não há para que dizê-lo,
Ele Mello, é ramelo,
Ela Mella, é ramela.
Poesia Inédita de D. Tomás de Noronha, Mendes dos Remédios, pág. 36
06 fevereiro 2007
Amália / Jocasta
Ai, cosam-me a boca! Ceguem-me os olhos! Quebrem-me os braços e pernas!... Cubram-me de cinza! Escondam-me de toda a gente! Enterrem-me viva!... (A bater com ambos os punhos na parede.) Matem-me!... Ai, matem-me! matem-me!...
Mas, mais tarde, reaje.
AMÁLIA (torturada): Não sei... não sei?!... (Outra vez dura, de pedra negra) Não tenho culpa. Hei-de viver!...
(...)
HOMENS E MULHERES (no auge do ódio, avançando para Amália): Morra! Morra! Morra!...
AMÁLIA (fúria negra, medonha; subindo, em defesa, para cima da mesa): Quero viver!... Hei-de viver!... Hei-de viver!...
(...)
(estas quatro personagens param por momentos e, logo a seguir, voltam-se odientas para Amália.)
3ª MULHER: Que Deus me beba os olhos, antes que eu te veja viva! Mata-te!...
1º HOMEM: Que Deus me cosa ouvidos e boca, que Deus me quebre mãos e braços... antes que eu te oiça, que eu te fale, que eu te sinta viva! Mata-te!...
1º e 2º HOMENS, 1º e 3ª MULHERES: Mata-te! Mata-te! Mata-te!...
(...)
AMÁLIA: Quero viver!... quero... quero!...(...) Hei-de viver! Hei-de ser feliz!... Quero viver!...
Bernardo Santareno,«António Marinheiro (o Édipo de Alfama)», in Obras Completas - 2º Volume, Editorial Caminho, 1985.
02 fevereiro 2007
oboístas
Ao mexer em papéis (mudanças, é no que dão...), encontrei um com a seguinte frase, transcrita, à mão (coisa rara), por mim há muitos anos, tirada não sei de onde:

