17 abril 2007

A propósito da (não) lavagem do bule do chá...

Eu tinha-te dito que o bule não se lavava... aliás, eu nem a minha chávena lavo. Explico melhor: claro que lavo, mas sem detergente. Explico ainda melhor: tenho um bule e uma caneca aos quais dou este tratamento. Isto porque tomo sempre o mesmo tipo de chá por lá.
Quando vario, uso outro bule e outras chávenas...
Boa técnica, não é?
No outro dia não acreditaste em mim e, como não tinha argumento de autoridade para te convencer, andei à procura num livro...
Olha, vai ver a Taberna dos Inconformados!

15 abril 2007

Só?? Eles lá me conhecem...



You Are 52% Impulsive



You're quite impulsive, but you never are reckless.

You qualify as a very spontaneous person, but you still know how to honor your commitments.

And while responsibility doesn't come easy to you, having fun does!

13 abril 2007

Ai de quem estragar algum livro meu!

Estou a ler um livro interessante do Lionel Casson (que já conhecia do velho Ships and Seamanship in the Ancient World), de 2001, editado pela Yale University Press, intitulado Libraries in the Ancient World.
Na primeira parte, sobre a Mesopotâmia, Casson explica como estava organizada a biblioteca de Assurbanípal. E deu-me mais umas ideias para pragas a rogar a quem não devolve ou estraga livros emprestados!

Entre várias mais curtinhas e menos amedrontadoras, como
Aquele que receia Anu e Antu cuidará e respeitará estas tabuinhas
encontrei esta grande maldição (que, à falta de conhecimento de assírio, vai em inglês), na qual se percebe algumas técnicas dos ladrões de bibliotecas da época e a vantagem do politeísmo:


He who breaks this tablet or puts it in water or rubs it until you cannot recognize it [and] cannot make it be understood, may Ashur, Sin, Shamash, Adad and Ishtar, Bel, Nergal, Ishtar of Nineveh, Ishtar of Arbela, Ishtar of Bit Kidmurri, the gods of heaven and earth and the gods of Assyria, may all these curse him with a curse which cannot be relieved, terrible and merciless, as long as he lives, may they let his name, his seed, be carried off from the land, may they put his flesh in a dog's mouth!

E, mesmo assim, eles lá roubavam...

12 abril 2007

Tu dizes: voltarei...

Comprei em Nova Iorque um livro de postais intitulado «Poetry in Motion», editados por uma cooperação entre o New York City Transit e a Poetry Society of America, em 1996, numa iniciativa que decorou os autocarros daquela cidade com as palavras dos poetas.
Como cada poema não podia ser enviado para ser lido ao acaso por qualquer pessoa, uns ainda aqui estão, à espera do destinatário, outros já seguiram o seu caminho...

Komo to yu mo
Konu toki aru wo
Koji to yu wo
Komu to wa mataji
Koji to yu mono wo

You Say, "I Will Come"
And you do not come.
Now you say, "I will not come."
So I shall expect you.
Have I learned to understand you?


Lady Otomo No Sakanoe (séc. VIII).
Traduzido do Japonês por Kenneth Rexroth.

11 abril 2007

Finalmente! Um teste que não mente!

Destes testes é que eu gosto! Eh!Eh!Eh! Estou a ficar viciada! Principalmente quando (e porque) os resultados me agradam...



Your Dominant Intelligence is Linguistic Intelligence



You are excellent with words and language. You explain yourself well.
An elegant speaker, you can converse well with anyone on the fly.
You are also good at remembering information and convicing someone of your point of view.
A master of creative phrasing and unique words, you enjoy expanding your vocabulary.

You would make a fantastic poet, journalist, writer, teacher, lawyer, politician, or translator.

07 abril 2007

Eu bem sabia!




You Are a Realist



You don't see the glass as half empty or half full. You see what's exactly in the glass.
You never try to make a bad situation seem better than it is...
But you also never sabotage any good things you have going on.
You are brutally honest in your assessments of situations - and this always seems to help you cope.

04 abril 2007

Amizade...

(...) sem amizade não há vida, pelo menos se quiserem uma vida de algum modo digna de homens livres.
Cícero, A Amizade, XXIII.86

03 abril 2007

01 abril 2007

Perfeccionista?? Eu?

Com a falta de tempo e ausência do espaço normal... deixo aqui mais um teste porque é fácil de publicar... Eh! Eh!



You Are 41% Perfectionist



No one would call you a perfectionist, but you definitely have a side of you that strives to be perfect.

Try to see your mistakes as learning experiences, and don't be so hard on yourself when you screw up!

29 março 2007

Não sou...

... mas ainda posso vir a ser!
É bom vermos que temos perfil para muitas coisas!

Your Career Personality: Brainy, Logical, and Efficient

Your Ideal Careers:

Archeologist
Astronomer
Book editor
Business manager
Civil engineer
Designer
Economist
Inventor
Judge
Scientist

28 março 2007

Liberdade de expressão


Fiquei profundamente chocada com o post do Miguel Castel-Branco, do Combustões. Quatro ameaças de morte! Inadmissível!
Se algo conquistámos com a democracia foi a liberdade de expressão e o não sermos presos, torturados ou mortos pelas ideias que defendemos.
O Miguel é autor de um dos blogues mais interessantes. Apesar de não concordar com muito do que defende, aprecio a sua prosa clara, a coerência das suas ideias, o apuro da sua cultura e, acima de tudo, a sua liberdade, como afirma no blogue.
Sei que sabe defender-se, mas quero, ainda assim, manifestar aqui a minha solidariedade para com ele.

Intuitiva, eu?

You Are 44% Intuitive

Your intuition is often right, and you use it more than you may realize.
Your gut feelings are usually a good guide, but you need more to go on when making a decision.
You'll often check to see if the facts back up your feelings.
And when your intuition is wrong, you work to improve it for the future.

27 março 2007

Não tenham medo do particípio passado!

O postal com este nome está publicado na Taberna dos Inconformados, o blogue onde sirvo à mesa à terça-feira. Vão até lá e bebam um copo!

26 março 2007

Felizes os que acreditam...

Your Personality is Somewhat Rare (ISFP)

Your personality type is caring, peaceful, artistic, and calm.

Only about 7% of all people have your personality, including 8% of all women and 6% of all men
You are Introverted, Sensing, Feeling, and Perceiving.
(Fui buscar ao Miguel, que tem uma personalidade rara... ai que inveja!)

25 março 2007

A brevidade da vida...

A existência humana é um ponto, é menos de um ponto.
(...)
Por isso mesmo me causa indignação ver como as pessoas gastam em futilidades a maior parte de uma vida que, mesmo dispendida com a maior parcimónia, não seria bastante para as coisas essenciais.

24 março 2007

Diz Séneca... sobre o tempo

O tempo ilude quem se aplica ao momento presente, de tal modo é insensível a passagem do seu curso vertiginoso. Queres saber porquê? Porque todo o tempo passado se acumula num mesmo lugar; todo o passado é contemplado em bloco, forma uma totalidade; todo ele se precipita no mesmo abismo.

Cartas a Lucílio, 49.2-3.

21 março 2007

VER SACRUM

Evelyn De Morgan (1855-1919) - Flora, the Godess of Blossoms and Flowers (1880) De Morgan Foundation Collection
Neste início de Primavera, trago algumas histórias.
A Flora era uma força da natureza, venerada na península itálica e festejada no mês de Abril.
Ovídio terá inventado um mito em que o vento Zéfiro se teria apaixonado por ela e a teria raptado. Ao casarem, ele ofereceu-lhe o reino de todas flores.
Flora, por sua vez, dava aos homens o mel e as sementes das plantas.
Também Ovídio está na origem da versão do mito em que teria sido Flora a dar a Juno a semente com que esta se fecundou para dar à luz, sozinha, o deus Marte (de onde vem o nome deste mês de Março).

Marte também era uma antiga divindade itálica, posteriormente associada ao deus grego Ares. Mas é na sua ligação a este vetusto culto que ele personifica o novo ano (sendo Março o primeiro mês do calendário, já faz sentido que Setembro seja o sétimo mês e daí por diante, até Dezembro, o décimo...), celebrando-se em Março, na cidade de Roma, uma festa na qual um velho era fustigado com varas brancas e expulso da cidade, simbolizando o ano velho que devia partir para dar lugar ao novo.
Além de deus da guerra, é também o deus da Primavera (época em que recomeçavam as guerras interrompidas pelo Inverno) e da juventude (por a guerra ser actividade dos jovens).
E chamava-se Ver Sacrum (Primavera Sagrada) ao momento em que um grupo específico de jovens sabinos (que tinham sido consagrados a Marte) devia emigrar para encontrar novas colónias para povoar, guiados por um animal sagrado do deus, como seja o lobo.

(Imagem: Marte, de Diego Velasquez)

Fonte principal: Pierre Grimal, Dicionário de Mitologia Grega e Romana (1992), Lisboa, Difel.

20 março 2007

Postal publicado em simultâneo aqui e em A Taberna dos Inconformados.

Esta é a minha primeira rodada n' A Taberna dos Inconformados. Devido à pouca experiência a servir à mesa, poderei tropeçar e entornar algumas coisas, mas espero a vossa compreensão... É suposto comentar uma actualidade, coisa para mim algo difícil, pois como não tenho televisão, apenas sei o que a Antena 2 ou a Antena 1 me têm para dizer quando as sintonizo no carro, entre uma deslocação e outra. E com tão breve (e ocasional) informação, não é mesmo nada fácil.
Fui ao Público para ver se me inspirava! E, juntamente com uma notícia que ouvi esta tarde*, inspirei-me (uma pequenina inspiração, confesso...)!
Li: «Listas excedentes do Ministério da Agricultura prontas até sexta-feira». Listas excedentes? Quer dizer que o Ministério faz listas de qualquer coisa de que não precisa? Sempre me fez um pouco confusão esta forma de dar notícias...
Será que a preposição «de» entre «Listas» e «excedentes» («Listas de excedentes») ocuparia assim tanto espaço no título? Pela mesma lógica, então o título poderia ser: «Listas excedentes Ministério Agricultura prontas até sexta-feira»...
Também na Antena 1 ouvi (estou a dizer de cor, mas o que está a negrito é ipsis verbis): «Maria José Nogueira Pinto diz que Paulo Portas trouxe o PREC para o PP». Depois, passou a referida senhora a dizer: «O Dr. Paulo Portas trouxe o pior da nossa memória do PREC».
Trazer as piores memórias de uma coisa não é trazer a coisa. Até porque pode haver quem tenha boas memórias do PREC e a notícia não estaria a ser perfeitamente entendida (sendo esse o objectivo da cominicação, não é verdade? Entendermo-nos).
São coisas pequeninas, eu sei, mas são maus tratos da língua portuguesa por parte de quem tem responsabilidade de a acarinhar.
...................
E sai uma rodada por conta da casa!
E sai um Xarém!
(Pois é. Também é suposto contribuir com uma receita ou uma sugestão vinho)
Segue hoje uma receita.
Não moro (ainda) em Olhão, mas é uma das terras de que mais gosto no Algarve, onde vive gente «a sério», onde o turismo não deu (ainda) cabo de tudo, onde o mercado vende (ainda) o melhor peixe da Região.


Com um prato de xarém
E uma batatinha doce



Trago, então, para fazer jus à quadra popular, um dos pratos tradicionais do Algarve:
Xarém
Ingredientes:
1 kg de amêijoas
100 g de bacon
100 g de chouriço
150 g de presunto
1 dl de vinho bramco
150 g de farinha de milho
Sal e pimenta q.b.

Lave muito bem as amêijoas, de forma a retirar-lhes todas as impurezas que possam conter. Em seguida, coloque-as de molho em água salgada (de preferência em água do mar), durante 5 a 6 horas. Corte o bacon e o presunto em tiras finas e o chouriço em rodelas e frite-os em lume brando. Coza as amêijoas num tacho coberto de água, temperada de sal e pimenta, durante cerca de 10 minutos; escorra a água da cozedura e leve-a a um passador fino. Tire o miolo das amêijoas, coloque-as num tacho, junte o caldo da cozedura, adicione vinho e leve ao lume, deixando ferver um pouco. Retire do fogo e adicione a farinha, previamente peneirada. Leve novamente ao lume e deixe cozer, mexendo de vez em quando. Junte as carnes e sirva quente. Frequentemente o xarém (termo árabe que designa "papas de milho") é acompanhado por sardinhas assadas, torresmos e carne de porco.

in Olhão para o Cidadão.
* Comecei a escrever isto ontem à noite...

19 março 2007

Clair de Lune Théâtre

O meu amigo Paulo faz teatro de sombras chinesas.
Vive na Bélgica há muitos, muitos anos.
Andámos na escola juntos. Na altura ele era «Cenoura». Agora não tem cabelo. Mas continua com aquelas sardas que lhe dão um ar irreverente (o que conjuga bem com as suas gargalhadas características, mas contrasta com a tranquilidade que emanam)...
Uma memória muito forte de uma experiência que passei com ele é a que tenho do dia em que soubemos da morte de Sá Carneiro. Fomos os dois comprar muitos jornais para lermos as notícias de diferentes maneiras! Nem queríamos acreditar!

Lá em casa recebia-se gratuitamente (porque, desde o meu avô, que morreu em 1931, que a «família» era correspondente d') o Diário de Lisboa, que o sr. Feliz, o ardina, sempre vestido de azul e sacola a tiracolo ou ao ombro, punha debaixo da porta.

«Olh'ó Diário de Lisboa e Notícias! Rapazes, olh'ó dinheiro!»

As pessoas da minha idade (e mais velhas, claro!), lá do Bombarral, devem lembrar-se bem deste pregão...

Ora, dizia eu, naquele dia fui, pela primeira vez, comprar jornais. Fui com o Paulo e devorámos o que havia. Estávamos impressionados...
O Paulo tem agora este teatro de sombras. É muito bonito o que ele faz. Vão até ao Clair de Lune e espreitem...

18 março 2007

A minha nova capelinha...

«capelinha» vem do grego kapeleion, que significa pequena loja onde se vende e consome vinho. Isto é, uma taberna.
«percorrer todas as capelinhas» usa-se quando queremos dizer que se andou de bar em bar...
Bem, tudo isto porque fui convidada a fazer parte d' A Taberna dos Inconformados.
Assim, às terças-feiras poderão ver-me por lá a discorrer sobre alguma actualidade e provar uma delícia gastronómica que levarei da minha pólis...

17 março 2007

Notícias da Psicanálise

Correu muito bem o Colóquio!
O Anfiteatro estava cheio!
Os nomes sonantes que se deslocaram ao Algarve devem ter ajudado...
A verdade é que foi um dia muito preenchido, com os horários a serem cumpridos e as comunicações muito interessantes!
Parabéns à organização!

16 março 2007

Famafest

A Senhora Sócrates descobriu que está entre os nomeados para os Melhores Blogues de Cultura 2006, a entregar (porque já está decidido) no 1ºEncontro de Blogues de Cinema e Cultura (que se decorre em Famalicão neste fim-de-semana), incluído no Famafest (16 a 24 de Março). Só a nomeação honra-me! Muito obrigada!


Nomeados
Melhores Blogues de Cultura 2006



Nomeados
Melhores Blogues de Cinema 2006

(Agradeço ao Kontraste (quase) todos os links!)

Atenção!

Para os mais distraídos, a Psicanálise Hoje não é hoje... é amanhã...

15 março 2007

Psicanálise Hoje

(Lucien Freud, Large Interior, tirada daqui. Escolhida por ser um quadro do neto do dito cujo, pela composição... e por ser um mimo...)

Se estiverem por Faro no sábado, vão ao Colóquio «Psicanálise Hoje», realizado na Universidade do Algarve, no Campus de Gambelas, numa organização do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais.
Com início às 9.30, poderão ouvir personalidades como António Coimbra de Matos, Carlos Amaral Dias ou Emílio Salgueiro, entre outros.
Também será lançado o livro da Fenda, com a presença de Vasco Santos, editor e, também ele, psicanalista, Sigmund Freud: 150 anos depois.
E eu só lá estou porque a Catarina Rebelo Neves me arrastou para este «divã»...

14 março 2007

Amizade (1)

Que coisa é mais doce do que ter alguém com quem ouses falar de tudo como se fosse contigo próprio? [...]
A amizade encerra muitísimos bens. Para onde quer que te voltes, ela está à tua disposição, não está excluída de nenhum lugar, nunca é intempestiva, nunca molesta.[...]
E não me refiro agora à amizade vulgar e mediana, embora ela própria cause também prazer e proveito, mas falo da verdadeira e perfeita amizade. [...]
Com efeito, a amizade torna não só a prosperidade mais esplendorosa, como também, ao partilhar e comungar da adversidade, faz com que esta se torne mais leve.
Cícero, A Amizade, 1993, INIC, Lisboa. Tradução de Sebastião Tavares de Pinho.
Este postal foi inspirado neste, do Corta-Fitas...

12 março 2007

O Amor dos Outros

O Amor dos Outros
(foto roubada daqui. Aproveitem e leiam o texto da Ana Cristina Oliveira)

Fui no Sábado ver uma peça de teatro a Olhão. Encenada por Paulo Moreira e interpretada por João Evaristo, é um monólogo inspirado em textos do brasileiro Alexandre Ribondi.

O cartaz do espectáculo mostra um homem nu, o que nos remete para um tipo de história que nem todos irão ver. Ou irão enganados!

Porque a nudez aqui é a da alma... dos outros.

Veronete conta a descoberta do amor entre dois homens. Trabalhando como empregada doméstica na casa de um engenheiro, vai acompanhando a descoberta do amor entre este e o seu jardineiro. Ambos muito homens, ambos muito masculinos, bonitos... uma história muito bem contada, sem cair na vulgaridade ou na afirmação de uma qualquer sexualidade. Na verdade, a sexualidade das personagens contadas nem importa muito na história...

A sexualidade da contadora... essa tem a sua graça, pois é um travesti. Veronete chamava-se Jair e é uma mulher num corpo (que mantém) de homem. Mas gosta de se vestir de mulher e sente como tal. Aliás, o texto faz referências ao corpo da mulher como só uma se lembraria de o fazer...

A interpretação de João Evaristo é genial. Na sua modéstia, disse que tudo se devia ao Paulo Moreira: «Eu sou só o boneco. Isto é tudo ideia do Paulo».

Não querendo minorar o trabalho do encenador (antes pelo contrário: excelente!), estar uma hora em cena, interpretando um monólogo, falado com pronúncia brasileira (o que dificulta a improvisação quando há uma «branca») e não se tornando ridículo, interagindo com o público, do alto de uns tacões, ... é obra de grande actor!

Estou com vontade de voltar à Sociedade Recreativa Olhanense no próximo fim-de-semana, só para ver tudo outra vez!

11 março 2007

Anacreonte - Frag. 395

Prometi ao Miguel e agora, finalmente, cumpro!
Aqui vai um mimo, com cheiro a Alsbo Vanilla...

As minhas fontes já estão grisalhas
e a minha cabeça branca;
A fresca juventude já não está comigo,
Os meus dentes estão velhos
E já não me resta muito

tempo da doce vida ;
Por isso lamento-me com frequência,

receando o Tártaro: pois
as profundezas do Hades
são terríveis, e a descida para lá
é difícil; e também é certo que
quem desce não volta a subir.

10 março 2007

Construtores...

Diz ainda a Constituição de Zenão, que tem muito para nos ensinar:

[9] A tua magnificência que tome providências para que nenhum empreiteiro ou técnico deixe inacabada a obra começada, mas aquele que começou recebendo um pagamento seja forçado a cumprir o trabalho ou a pagar ao que está a construir o dano daquilo que aconteceu em consequência e todo o mal que advenha por causa de uma obra não acabada; se acontecer que o culpado é pobre, que seja açoitado e expulso da cidade.
[9a] Que não se proíba alguém do mesmo ofício de acabar o que foi começado por um outro, precisamente porque sabemos de que são capazes os empreiteiros e os técnicos contra os que querem construir a sua casa, que não se aplicam a acabar aquilo que eles próprios começaram nem concordam que outros terminem os seus trabalhos, mas levavam a causar um dano intolerável aos que construíam as suas casas.
[9b] Pois o que recusar terminar o que foi começado por outro por causa disto mesmo, isto é, que foi outro que começou, que também ele sofra uma pena semelhante àquele que abandonou a obra.

09 março 2007

Vistas para o mar...

Apesar dos Planos Directores Municipais, dos de Ordenamentos de Território, de regras para isto, regras para aquilo, o que mais se vê é o caos nas construções urbanas.

Será que esses conhecem a Constituição de Zenão (de seu nome original Tarassicodissa, foi Imperador romano do Oriente entre 474-491), aplicada a Constantinopla?
Diz o texto (grego, tradução minha):
Ordenamos que os que querem renovar as suas próprias casas de modo algum ultrapassem a forma anterior, de maneira a que os que estão a construir uma casa não tirem a luz nem a vista dos vizinhos, violando o que estava estabelecido há muito tempo.
[...]
Posto que se diz na minha constituição também que o que vai construir deve deixar doze pés entre a sua própria casa e a do vizinho, e ainda se acrescenta «mais ou menos», o que provoca justamente uma grande incerteza (e o que levanta dúvida não é apropriado para resolver ambiguidades), ordenamos claramente que entre cada casa haja doze pés, começando efectivamente do chão do edifício e continuando até ao limite mais alto.
Àquele que obedecer a isto, que daqui em diante lhe seja autorizado a erigir a sua casa até ao limite que desejar, e rasgar tanto janelas chamadas próprias para se debruçar, como janelas para dar luz segundo a legislação sagrada, quer queira construir uma casa nova, quer renovar uma antiga, quer reconstruir uma que tenha sido destruída pelo fogo.
De modo algum será permitido que tire do vizinho a vista de mar que este tem directa e não forçada de qualquer lado da casa, quer esteja de pé nos seus aposentos ou sentado, sem que tenha de se virar em si ao debruçar-se torcido e forçado para ver o mar.

08 março 2007

Dia Internacional da Mulher

Tinha pensado deixar este dia em branco...
Mas decidi que não, que iria dizer alguma coisa.
Não acho muita graça ao dia disto e daquilo, com toda a parafernárlia comercial que se segue, mas tal como se comemoram datas importantes da história nacional ou mundial, o dia em que 130 mulheres morreram queimadas numa fábrica em Nova Iorque, em 1850, por defenderem os seus direitos, parece-me justo que se celebre, para que a memória não esqueça.
«Que parvoíce as flores, que parvoíce os jantares só de mulheres! Não quero essa rosa!», tenho ouvido as minhas colegas dizerem neste dia. Por ser este dia, porque noutro qualquer não acahariam mal.
Mas a verdade é que somos umas privilegiadas.
Por muito tempo fui assim: só convivia com mulheres como eu, com liberdade, independência económica e intelectual (bem... talvez...), que também eu não via com bons olhos fazer parte de uma minoria que tem de ser lembrada para que os seus direitos não conquistados sejam postos em destaque, pelo menos uma vez por ano...
Mas uma vez pude conviver com outras mulheres. Mulheres muito diferentes de mim. Mulheres com salários mínimos, filhos, maridos possessivos e até agressivos. Este dia é o único em que podem almoçar ou, as mais ditosas, jantar ou mesmo ir a um bar com amigas. Só mulheres, claro, que com um homem eles não deixariam.
Não deixariam.
É o único dia em que alguns deles lhe dão uma flor, em que os colegas de trabalho lhe dão um mimo, em que todos lhes sorriem quando passam e as tratam um pouco melhor.
É triste, mas um dia hoje... outro amanhã... não podemos fazer muito por estas mulheres...
Direitos, já têm. Prática... não prevejo que aconteça tão cedo...
É também altura de lembrar aos nosso alunos e alunas, filhos e filhas, que só em 1977 o Código Civil mudou, permitindo às mulheres serem chefes de família. Carolina Beatriz Ângelo fundou, em 1911, a Associação de Propaganda Feminista, a primeira portuguesa a votar, dado que era viúva e a lei permitia que os chefes de família exercessem esse direito. E é de lembrar que, para impedir que isto voltasse a acontecer, em 1913, a Lei 3, 3/7/1913 passou a especificar «chefes de família do sexo masculino».
E é de lembrar que em 1949 proibiu-se a co-educação.
E é de lembrar que só depois de 1969 as mulheres casadas puderam passar a deslocar-se ao estrangeiro sem autorização do marido.
E é de lembrar que, se o marido matasse a mulher era punido com três meses de desterro fora da sua comarca, enquanto que a mulher que matasse o marido só teria esta pena se ele tivesse outra mulher a viver lá em casa («concubina teúda e manteúda pelo marido na casa conjugal»)!
Bem...
Acho que chega para lamentar que isto seja recordado apenas num dia por ano.
Que comece com um dia...

07 março 2007

A dor dos outros...

A dor dos outros, a dor dos que amamos, é terrível...
Não é catártica, se bem que nos purifique um pouco: começamos a olhar para a nossa vida e tomamos decisões (de que cedo nos esquecemos) de mudança de atitudes, de «carpe diem» e afins...
No final, continuamos com a nossa vidinha.
Sempre que alguém que amo está a sofrer, lembro-me de um conto do Yukio Mishima, «Patriotismo», penso. Faz parte de uma colectânea chamada Contos de Verão, acho. Falo de cor, porque é um dos livros que tenho encaixotados há anos...
Nesse conto, uma mulher assiste ao suicídio do marido, a pedido deste, e, enquanto ele enterra a lâmina no ventre, ela vê-o sofrer... mas não sente a dor.
Ai! As dores são individuais!
E isso dói-me.
Mas a nossa dor, a dor que sentimos pelo sofrimento dos que amamos não é a dor que eles sofrem.
Seria bom podermos hieraquizar o sofrimento: não vou sofrer agora pela minha perna que parti, porque alguém que amo está com um cancro.
Não posso. Sofro com a minha perna partida e, nos intervalos do meu egoismo, sofro com a dor do outro.
«Não se desperdiça comida, porque há quem passe fome», dizia o meu Pai.
Não percebia a ligação entre as coisas... aliás, até quanto mais comida eu deixasse, mais gente a podia comer...
Mas não. Como posso, moralmente, desperdiçar comida, não valorizar o que tenho, quando há quem não tenha e precise?
É como a dor dos que amamos: quando a deles é maior, de facto, a nossa perna partida torna-se um problema menor, porque se cura e vamos poder voltar a andar. E eles... quem sabe quanto mais vão poder viver? Rio-me da minha perna partida e valorizo o outro. Mas, no fundo, sei que estou limitada a ficar a ler dores que não sinto...

E os que lêem o que escreve
Na dor lida sentem bem
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

Fernando Pessoa, «Autopsicografia»

06 março 2007

Delícias...

Recebi hoje um livrinho delicioso:
Prosodie Latine ou Méthode pour apprendre les principes de la quantité et de la versification latines; par Le Chevalier.

Esta edição, de 1855, é uma nova e foi revista e aumentada por L. Dumas, «professeur au Lycée de Montpellier».

Mas a graça está mais no anterior dono do livro...
Diz-me a minha amiga Petra, que deve ter comprado o livro em Berlim, numa cartinha que acompanhava esta prendinha:
«You once told me you like books that had an interesting previous owner who left his mark by note in the margin or on the fly-leaf».
E é assim que me envia este livrinho de 82 páginas, que pertenceu a Louis Montand, datado de «15 février 1882»...
125 anos depois veio ter à minha mão...
Mas qual é a graça?
As notas de M. Montand!
O livro intercala uma página escrita com outra em branco, permitindo assim que se anotem impressões.
O que fez o senhor Montand? Escreveu, em rimas, as regras gramaticais que ia lendo na página impressa!
Uma delícia!

Deixo dois exemplos:
Diz a regra que os supinos em -utum, que têm mais de duas sílabas, tornam a penúltima longa, tal como os particípios que daí se formaram, como indutum, indutus, tributum, tributus, etc.

Delícia (com uma belíssima letra):

Utum au supin long sera
Plus de deux syllabes s'il a

Diz a regra que -us é breve no final das palavras, como unus, facinus, etc. Exceptuam-se os nomes da quarta declinação no nomitativo e genitivo singular, e no nominativo e acusativo do plural, como fructus, domus.

Delícia:

Us sera bref: mais pour les noms
ceux qui retiennent u sont longs
De fructus bref les quatre cas
avec tripus, long tu feras.

Irregularidade...

Estou mesmo com dificuldades em actualizar o blogue...
Mais uma vez, obrigada pela paciência...

26 fevereiro 2007

Da lógica da batata...

Platão, Eutidemo, 300a:
«Os homens vêem primeiro as coisas que podem ver ou as que não podem ?»
«As que podem»


Mesmo que o jovem Ctesipo tivesse dito as que não podem, seria refutado...
O sofisma que se segue baseia-se numa ambiguidade sintáctica (anfibologia) permitida pela frase acima:

  • sentido passivo (e imediatamente apreendido por qualquer um de nós) - Os homens vêem primeiro as coisas que [eles, homens,] podem ver - isto é, as coisas que podem ser vistas (pelos homens).
  • sentido activo - Os homens vêem primeiro as coisas que podem ver - isto é, as coisas que têm a capacidade de ver - isto é, as coisas com olhos.
Então, Eutidemo pergunta que coisas podem os mantos estar também a ver... já que Ctesipo pode ver os mantos...

Nota interna

Tenho andado sem computador, sem ligação à internet, sem casa muito fixa, em mudanças infindáveis, enfim... mas vou voltar!
Obrigada e um abraço a todos os amigos!

19 fevereiro 2007

Romance Antigo

A primeira vez que ouvi falar de Romance Antigo, da novela grega, das histórias de amor e de aventuras, com piratas e finais felizes, foi nas aulas de Literatura Grega, com Maria Helena Ureña Prieto. Grande senhora, grandes aulas. E fiquei fã! Foi a porta do mundo helenístico que se abriu, com os seus homens e mulheres muito mais perto de nós... ou melhor, mostrados muito mais perto...
Lisboa vai receber para o ano o ICAN (International Conference on the Ancient Novel) -Crossroads in the Ancient Novel: Spaces, Frontiers, Intersections, de 21 a 26 de Julho, na Gulbenkian. Na organização temos um grupo de portugueses presidido por Marília Futre.
Já estão abertas as inscrições para apresentação de comunicações. Assim é que é: com ano e meio de antecedência.
Promete!

14 fevereiro 2007

Gerir a ausência e a saudade

Enquanto dá passos incertos o novo amor, deve buscar no uso as suas forças;
se bem o souberes alimentar, com o tempo ficará firme.
(...)
Faz com que se acostume a ti; nada tem mais força que a habituação;
até a alcançares, não fujas a nenhum dissabor;
(...)
Quando tiveres mais funda certeza de que pode ter saudades tuas (...)
dá-lhe descanso; o campo em pousio devolve com lucro o que lhe foi confiado,
e a terra árida absorve melhor a chuva que cai do céu.
(...)
Mas a demora sem risco tem de ser curta; amolecem com o tempo os cuidados,
o amor ausente desvanece-se, e um outro novo se vai insinuando.

Ovídio, Arte de Amar, II, 339-358. Sempre a mesma tradução.

13 fevereiro 2007

Minister

Ouvia agora* na Antena 1 alguém dizer que não percebia a abstenção em Portugal, dado que é o terceiro referendo que se faz em que não se consegue menos de 50% de abstenções, nem percebia a falta de empenhamento político.
Eu acho que percebo a falta de empenhamento político.
Vejo-o no nos meus alunos, que são cidadãos votantes, vejo-o nos miúdos das escolas secundárias, à beira de o ser.
Quando vou fazer as palestras «A Magia das Palavras», «Lógica da Batata» ou «Tragédia Grega», tenho oportunidade de conversar com eles. E uma palavra que meto no discurso, quer venha a propósito (vem sempre n' «A Magia das Palavras»), quer não venha, é «ministro».
-O que é um ministro?
- Aldrabão! Mentiroso! - respondem invariavelmente.
Nessa altura preparo o discurso e digo que não. Que a prática que alguns ministros têm não pode ser generalizada para todos, que ser ministro, deputado, presidente da república, de câmara, de junta, etc., são cargos que todos nós poderemos um dia vir a ocupar. E que, para que eles, jovens, possam dizer que este ou aquele é mentiroso e aldrabão tem de estar informados, tem de conhecer a política do país, dos partidos, enfim, tem de aproveitar estes momentos únicos de aprendizagem que a escola lhes dá, de saberes que lhes vão ser úteis para toda a vida, desde a matemática ao português (os «monstros»), passando pela filosofia e a história, entre tantos outros, saberes que o vão tornar um melhor cidadão (e a ser menos «enganado»!)

E claro, explico que «ministro» vem do latim minister que significa «escravo, servo», palavra que, por sua vez, vem de minus, que significa «menos, muito pouco». O ministerium era o serviço atribuído a esses escravos.
Pois.

* Este postal foi escrito ontem, às 8.57, e não publicado por distracção!

09 fevereiro 2007

Figo, fruta secreta...

De «Figos», de Herberto Helder, roubei estas partes (in Poesia Toda, publicado pela Assírio e Alvim):


A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-lo em quatro, pegando pelo pedúnculo,
E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida, desabrochada em quatro espessas pétalas.

Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.

Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.

Cada fruta tem o seu segredo.

O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é uma fruta feminina.
(...)
Foi sempre segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre secreta.

(...)
Os figos maduros não se ocultam.

Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas escarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na sua afirmação?

Quando os figos abertos se não ocultarem?

outra barroca

A um peito cruel

O bem passado que é? é mal presente,
O mal presente que é? é dor esquiva,
A dor esquiva que é? é morte viva,
A morte viva que é? inferno ardente,

Com mal quem poderá viver contente,
Com dor quem haverá que alegre viva,
Com morte quem não tem pena excessiva,
Com inferno quem vive alegremente?

Por bem passado mal vou padecendo,
Por alegri dor, por vida morte,
Com glória o mesmo inferno estou sofrendo:

Mas ah, peito cruel, que ainda é mais forte
A dura condição, que em ti estou vendo,
Que bem, e mal, e dor, inferno, e morte.

Fénix Renascida, v.II, pg.104, 1717
in Antologia da poesia do período barroco, organizada pela Natália Correia para a Moraes Editores, editada em 1982.

08 fevereiro 2007

poesia barroca

Ao desencaixotar tenho encontrado livros de que já tinha sentido a falta, outros que nem por isso, outros de que já não me lembrava, enfim...
Encontrei um que me divertia e de que gostava e do qual já não me lembrava (às vezes não nos apercebemos de como gostamos das coisas...): Antologia da poesia do período barroco, organizada pela Natália Correia para a Moraes Editores, editada em 1982.

A um casamento que fez em Lisboa um fulano de Mello com uma fulana de Mello, ambos velhos

Bizarra em cadeira ela,
Bizarro em cavalo ele,
Ele com muito ar nela,
Ela com muito ar nele.

Fidalgos ele e ela,
Não há para que dizê-lo,
Ele Mello, é ramelo,
Ela Mella, é ramela.

Poesia Inédita de D. Tomás de Noronha, Mendes dos Remédios, pág. 36

06 fevereiro 2007

Amália / Jocasta

AMÁLIA, ao aperceber-se que o amante, ANTÓNIO, é seu filho, exclama:
Ai, cosam-me a boca! Ceguem-me os olhos! Quebrem-me os braços e pernas!... Cubram-me de cinza! Escondam-me de toda a gente! Enterrem-me viva!... (A bater com ambos os punhos na parede.) Matem-me!... Ai, matem-me! matem-me!...
Mas, mais tarde, reaje.
AMÁLIA (torturada): Não sei... não sei?!... (Outra vez dura, de pedra negra) Não tenho culpa. Hei-de viver!...
(...)
HOMENS E MULHERES (no auge do ódio, avançando para Amália): Morra! Morra! Morra!...
AMÁLIA (fúria negra, medonha; subindo, em defesa, para cima da mesa): Quero viver!... Hei-de viver!... Hei-de viver!...
(...)
(estas quatro personagens param por momentos e, logo a seguir, voltam-se odientas para Amália.)

3ª MULHER: Que Deus me beba os olhos, antes que eu te veja viva! Mata-te!...
1º HOMEM: Que Deus me cosa ouvidos e boca, que Deus me quebre mãos e braços... antes que eu te oiça, que eu te fale, que eu te sinta viva! Mata-te!...
1º e 2º HOMENS, 1º e 3ª MULHERES: Mata-te! Mata-te! Mata-te!...
(...)
AMÁLIA: Quero viver!... quero... quero!...(...) Hei-de viver! Hei-de ser feliz!... Quero viver!...

Bernardo Santareno,«António Marinheiro (o Édipo de Alfama)», in Obras Completas - 2º Volume, Editorial Caminho, 1985.

02 fevereiro 2007

oboístas

Ao mexer em papéis (mudanças, é no que dão...), encontrei um com a seguinte frase, transcrita, à mão (coisa rara), por mim há muitos anos, tirada não sei de onde:

Harry Ellis Dickson: «Todos os primeiros oboístas são gangsters. São duros e irascíveis galos de palheta dupla, temidos pelos colegas e pelos maestros.»

01 fevereiro 2007

A cidade (K. Kavafis)

Em época de mudanças, procuro não me esquecer das palavras de Konstandinos Kavafis (na tradução de Nikos Pratsinis e Joaquim Manuel de Magalhães, para a Relógio d'Água, em 2005).

A cidade

Disseste: «Vou partir para outra terra, vou partir para outro mar.
Uma outra cidade melhor do que esta encontrar-se-á.
Cada esforço meu um malogro escrito está;
e é - como morto - enterrado o meu coração.
A minha mente até quando irá ficar nesta estagnação.
Para onde quer que eu olhe, para onde quer que fite por aí
ruínas negras da minha vida vejo aqui,
onde tantos anos passei e dizimei e dei em estragar.»

Lugares novos não vais encontrar, não encontrarás outros mares.
A cidade seguir-te-á. De volta pelos caminhos errarás
os mesmos. E nos bairros os mesmos envelhecerás;
e dentro dessas mesmas casas cobrir-te-ás de cãs.
Sempre a esta cidade chegarás. Para os noutra parte - esperanças vãs -
não há barco para ti, não há partida.
Assim como dizimaste aqui a tua vida
neste pequeno recanto, em toda a terra a vi estragares.

31 janeiro 2007

Mudanças...

Ando em mudanças e por isso estou com muita dificuldade em actualizar o blogue.
Agradeço a compreensão de todos os amigos!
Abraços a todos os que têm procurado saber de mim!

25 janeiro 2007

Retrato incompleto

RETRATO INCOMPLETO


Há um desarranjo
naquela cabeça
de quase negros
cabelos castanhos

Há um desarranjo
naquela cabeça
de quase negros
pensamentos estranhos.


Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

(diálogo celeste)




DIÁLOGO CELESTE


Uma alma remexe
nervosamente
nos bolsos do casaco.

- O que te falta? –
pergunta outra alma que passa.
A primeira responde
com um tom de pavor:

- Um corpo!


Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

(Poema de Natal em Janeiro)




PEQUENO POEMA DE NATAL


Era Natal! Era Natal!
Bêbado, sem cabeça
andava aos saltos
o peru no quintal
e eu
sem paciência para o festival.


Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

25 de Janeiro de 1967...

Faria hoje 40 anos.
Mato as saudades lendo-o, já que não lhe posso dar beijinhos nem fazer festinhas...
Nem dar-lhe mais um livro... hoje sou eu que tenho alguns dos seus livros...
Voltas tão estranhas...

24 janeiro 2007

Viva o Porto!

Estou no Porto!
Gosto do Porto, pronto!
Atravesso o país com muito prazer para vir aqui, por pouco tempo que seja!
Viva o Porto!

A coerência do meu Sócrates

(morte de Sócrates, por Jacques-Louis David (1748-1825) no Metropolitan Museum of Art em New York)

Há quem lhe possa chamar outra coisa, mas eu (e muitos mais) continuo a achar que a morte de Sócrates foi uma prova de coerência. Sócrates acreditava na democracia e foi nela que viveu, questionando sempre em busca da verdade. No final, foi confundido com aqueles que buscavam vencer as discussões, deixando a verdade para segundo plano. Quando, depois de condenado a beber cicuta, aguardava na prisão que se avistasse do cabo Sounio o barco que viria da ilha de Delos (enquanto o barco não voltasse, numa viagem sagrada, não poderia haver mortes judiciais em Atenas), para que a pena pudesse ser executada, recusou a fuga.
Antes ser vítima de uma injustiça que cometer uma injustiça. Era o seu modo. Sócrates
acreditava no sistema, foi julgado pelo sistema e aceitou a decisão do sistema. Fugir seria pôr em causa a democracia, a base da sua vida na cidade.
Foi justa a decisão dos juízes? Acreditando em Platão ou Xenofonte, acreditamos que não. Acreditando em Aristófanes... quem sabe?
Eu, sua esposa, acho que o meu Sócrates era um bom homem que quis ser coerente até na morte (se calhar também já andava farto de cá andar...).
As leis são feitas pelos homens e por isso podem sempre ser aperfeiçoadas. A democracia permite-nos essa participação. Acontece que estamos, muitas vezes, adormecidos e somos, na maior parte das vezes, ignorantes.
Ora bem, por que me lembrei disto agora?
Porque anteontem vi televisão e irritei-me com a apresentadora (eu bem sabia que havia uma razão para não ver, mas tinha-me esquecido). Falo do Prós e Contras. A apresentadora mostrou-se manipuladora e pouco hospitaleira. Quando recebemos alguém em nossa casa, não devemos agredir quem não concorda connosco. Um programa com aquele título deveria ter um/a apresentador/a um pouco mais isento e com um papel de verdadeiro/a moderador/a.
Não foi o caso.
Já não vi do princípio, mas vi o suficiente. Um juiz (bastante educado, como, aliás, os outros convidados, que até falavam com a senhora num tom paternalista, de quem tem de ter paciência para quem não entende...) tentava explicar que havia uma lei. E enquanto não houver outra, é esta que tem de ser cumprida. Não descurando o aspecto humano da questão, claro.
Um outro senhor, muito moderado e educado, tentou explicar que havia ali duas situações legais a não serem misturadas: o rapto da criança por parte do pai (ainda não) adoptivo (o sargento condenado a 6 anos de cadeia) é uma coisa. O tribunal ter decidido que esse mesmo senhor e sua esposa tinham condições para serem pais adoptivos era outra coisa.
Independentemente de se achar que o sargento deve ser libertado, há que olhar para os assuntos com alguma distância. Não se defende a falta de emoção, mas a importância de uma análise ponderada dos factos.
A senhora apresentadora parecia os meus sofistas, numa exibição de argumentos sem sentido, achando, provavelmente, que quem ali estava não estaria a usar as palavras com a devida propriedade, necessitando ela (e nós, portugueses ignorantes) de esclarecimento.
Foi um programa que só não se tornou feio pelo alto nível dos convidados presentes. A eles agradeço o modo como me esclareceram esta questão.

20 janeiro 2007

Trágôn ôdê

«O canto do bode
A meio de um noticiário ocorre-me que, se os actores gregos usavam máscaras distintas para a tragédia e para a comédia, era porque o público nem sempre conseguia distinguir uma da outra.»

Surripiado directamente do Bandeira ao Vento!

19 janeiro 2007

Sofistas sofisticados

O uso comum, em português, de sofisticado/a ou sofisticação não tem o sentido pejorativo que o seu étimo pressupõe.
A sofisticação tem como antónimos simplicidade, singeleza (v. Houaiss). Entendemos como sofisticado algo ou alguém que é requintado, elegante, fino. No entanto, a palavra também significa (sempre Houaiss):
1 enganado com sofismas
2 que foi alterado fraudulentamente; falsificado, adulterado
3 que tem subtileza ou utilidade sofística
4 que não é natural; postiço, artificial, afectado
5 falsamente intelectual ou rebuscado


Rocha Pereira diz que «a sophia designava a princípio uma forma qualquer de saber e acabou por tomar um sentido alheio a qualquer especialização».
Os sophistes eram, inicialmente, os detentores de sophia, tal como o sophos (ou o phronimos). Em Platão, esta palavra (sophistes) é usada para designar aquele que dá lições nas mais variadas matérias, mediante pagamento. Por isso, este filósofo quis distanciar-se, a si e a Sócrates, de uma identificação com os sofistas e, apesar de a palavra ser equivalente, Platão prefere o uso de philosophia ou dialéctica, para designar a sua actividade, afirmando que um sofista é «um imitador do sábio (sophos)» (Sofista, 268c).
Numa pólis em que o conhecimento era adquirido tradicionalmente através do convívio entre cidadãos da mesma classe, a possibilidade de gente de origens humildes, mas com dinheiro, aprender a artes da oratória, da gramática, etc, era um perigo para a estabilidade da sociedade.
As ideias dos sofistas da chamada «grande geração» (expressão de Popper para se referir, a Górgias, Hípias, Antifonte, entre outros): progresso, cosmopolitismo, humanismo e individualismo (como oposto de colectivismo e não sinónimo de egoísmo) e os debates em torno de questões como o fim da escravatura, a igualdade entre os homens ou a não superioridade de um nascimento nobre, agradaram a uma camada social, não oriunda da aristocracia, que terá visto no ensino dos sofistas a sua possibilidade de ascensão social. Foi dessa camada que, mais tarde, sairam os indivíduos que viriam a substituir Péricles ou instaurariam o processo contra Sócrates. Se, por um lado, as novas ideias e ensinamento dos sofistas lhes proporcionaram o acesso a cargos políticos, por outro esse ensino poderia levar a que outros, tal como eles próprios, tomassem o poder. E sabe-se que os chefes políticos que sucederam a Péricles foram sobretudo indivíduos ligados a profissões não consideradas «nobres», como comerciantes de cordoaria, de gado, de peles, de enchidos.
E assim temos descrições escarnecedoras dos sofistas, como esta de Aristófanes, n' As Nuvens, em que se afirma que o seu ensino levava um indivíduo a «aprender a safar-se duma condenação, a fazer uma citação em tribunal, ou a convencer com falinhas mansas», tudo isto por «um talento apenas» (o talento era uma moeda altíssima!), pois «eles têm lá, segundo se diz, duas teses ou raciocínios: o mais forte, ou lá o que é, e o mais fraco. Ora, um destes dois raciocínios, precisamente o mais fraco, garantem que tem cá uma lábia, que é capaz de vencer as causas mais injustas».
Quanto à aparência, riduculariza-os: «uma cor amarelenta, ombros estreitos, peito enfezado, língua comprida, cu pequeno, pixa grande».

(As citações deste texto seguem sempre a tradução de Custódio Magueijo (Pref., trad. e notas), Aristófanes, As Nuvens, Lisboa, Ed. Inquérito, 1984)