28 maio 2007

Quanto custa um acento agudo numa palavra grave?

Mais de 5300 euros!
É verdade!
E merece, pois então!
Foi neste semana, penso que na quinta-feira, no «Um contra todos», um programa no canal 1 da RTP, em que se pedia para identificar, quanto à acentuação, a palavras «automóvel».

Não me lembro quantos erraram, mas lembro-me que o jogador principal comprou a resposta, pois sentia-se inseguro. Se não o tivesse feito, escolheria «agudo». Como comprou, reduziu em cinquenta por cento o valor que já tinha, que ultrapassava os 10600 euros.
Estes valores são virtuais, portanto não o incomodaram. Nem os incomodou (a ele e ao apresentador) o facto de não saberem o nome dos acentos. Ainda comentaram que era difícil.
Difícil?
Se pedissem para acentuar, ainda vá: há muitas dúvidas sobre onde colocar o acento.
Mas identificar uma palavra já acentuada?
Bem, como não quero parecer presunçosa e como os acentos estão bem cotados no mercado (5300 euros é bom dinheiro por um tracinho), segue-se uma pequena explicação.

O acento de uma palavra não tem de ser gráfico. Todas as palavras têm uma sílaba tónica (aquela sobre a qual recai o tom, aprendíamos nós), mas muitas não precisam de a grafar.
E qual é a sílaba tónica? Costumo ensinar que é aquela que prolongamos quando temos de a chamar. Imaginamos que temos de chamar a palavra... palavra: palaaaaaaaaaaavra.
Pronto. Esta é a tónica! E é grave (ou paroxítona), porque é a penúltima (ou a segunda a contar do fim): pa-la-vra.
Não leva acento gráfico, porque os vocábulos portugueses são tendencialmente graves.
Já a palavra que estava em causa no jogo televisivo, «automóvel», sendo também grave , precisa de um acento (agudo - aquele que inclinamos para a direita), pois termina em -l.
Isto porque as palavras que terminam em l, n, r, x, bem como em a, e, o (abertos), i, u (com ou sem s), são naturalmente agudas.
Assim, não precisam de acento palavras como caril, cantar, funil, porque são agudas, mas já é necessário em fácil, éden ou carácter, que são graves.

Fico por aqui. 5300 euros já me dão um jeitão!

26 maio 2007

Meme

As últimas atribulações não me têm dado muito tempo para navergar nos blogues que gosto e, por isso, só hoje vi o convite da Teresa C. para deixar aqui um meme.

Na verdade, acho que costumo deixar aqui muitos, e por isso, é com todo o prazer que acrescento mais um:

Aquele qua nada conhece, nada ama.
Aquele que não é capaz de nada, nada compreende.
Aquele que nada compreende é inútil.
Mas aquele que compreende também ama, repara e vê. (...)
Quanto mais conhecimento existe de uma coisa, maior é o amor...
Quem imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo que os morangos não percebe nada de uvas.

Paracelso
(em epígrafe ao livro de Eric Fromm, de 1956, A Arte de Amar, publicado pela Pergaminho em 2002)

Como é suposto pedir «memes» a mais seis bloguistas, aqui vão uns amigos que sei que têm memes bons para nos dar:

Marta, do
Claras em Castelo
Miguel, do
Heart of Saturday Night
Sara, do Apenas Eu
Mirian, do
A Mulher do Lado
Teresa, do Pedra sobre Pedra
Damularussa (Desculpa, mas não sei o teu nome, amiga!)

«Um "meme" é um "gene ou gene cultural" que envolve um conhecimento que é passado a outros contemporâneos ou aos descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma. Simplificando: é um comentário, uma frase, uma ideia que rapidamente é propagada pela Web, usualmente por meio de blogues. O neologismo "memes" foi criado por Richard Dawkins pela semelhança fonética com o termo "genes”. »

25 maio 2007

Herança Mediterrânica

Eu devia estar aqui...... mas uma indisposição impediu-me.
Se está perto de Cacela, vá até lá e diga que fica com a minha vaga, dado que as inscrições eram limitadas.

24 maio 2007

A virtude

A virtude não virá, nem por dom da natureza, nem será matéria passível de ser ensinada. Chegará, antes, por fado dos deuses, àqueles em que ela existe, sem saberem.

Platão, Ménon, 99e
(Tradução de Ernesto Rodrigues Gomes, para GEC Publicações, em 1986)

22 maio 2007

E ela celebrava o dia dos meus anos

(nós as duas, no dia dos seus anos, em Outubro de 2006)

A 22 de Maio de 1952 morria a Adrianinha, minha irmã mais velha, a primeira filha que a minha mãe teve, em Outubro de 1946, um ano após o casamento (pós-guerra, Setembro de 1945).
Durante anos ela ia ao cemitério por flores.
Mais dois filhos. Mais dois mortos, à nascença.
Depois, chegámos «nós, os quatro macacos», como ela dizia a rir (os naturais do Bombarral são macacos, assim como os de Lisboa alfacinhas). O meu irmão João já partiu, vai fazer 5 anos. Restamos três.
Já tinha ela três filhos (seis partos), quando aos 42 anos engravida de novo. Foi o resultado das saudades de uma viagem a Itália com uma tia, opinava eu (para implicar com ela), durante a qual o meu pai e minha avó ficaram a tomar conta das crianças.
O fim do tempo era em Junho.
Maio aproxima-se.
Ela enerva-se: «E se nasce antes do tempo? E se nasce a 22 de Maio?»
22 de Maio era o dia da ida ao cemitério, de limpar e de pôr flores na campa da Adrianinha.
Nervos acumulados, preces «que ela não nasça a 22 de Maio, que ela não nasça a 22 de Maio», mas de nada serviu.
A 22 de Maio, mal o sol despontava, eu nascia!
Igual à outra.
Quanto ao nome, muitas indecisões. Está bem, que fique com o mesmo nome.
A grande diferença foram as idas ao cemitério que nunca mais se fizeram a 22 de Maio.
Nesse dia havia festa, prendinhas, amigos pela casa, muita alegria.
Conseguiu sempre esconder qualquer tristeza que lhe pudesse toldar os olhos, ocupada como estava a fazer os bolos e a assegurar-se de que a festa era sempre um sucesso.
Nesse dia ela celebrava o dia dos meus anos.
Parabéns à minha mãe!

(sim, é verdade, o título é inspirado em A. Campos)

Taberna

Hoje há bolo na Taberna!

21 maio 2007

Como citar a Bíblia

Nunca pensei um dia ter de ensinar como consultar e citar a Bíblia.
Contudo, nas aulas de Matrizes Culturais Europeias, onde a Bíblia não pode deixar de ser um dos livros a ler (ou, pelo menos, a ir lendo) e a saber consultar, verifiquei que alguns alunos nunca tinham sequer aberto uma bíblia (não vou falar das implicações que isto tem no entendimento do mundo actual) nem, naturalmente, a sabiam consultar.
Ora bem, aqui já se disse
como citar Platão, como citar poesia grega e latina (numa próxima segue-se «como citar Aristóteles») e agora temos «como citar a Bíblia».
A Bíblia é composta por vários livros que, por sua vez, estão divididos em capítulos e estes em versículos.
A numeração da página que cada edição tem não serve de referência, mas sim a indicação do nome do livro e o número do capítulo e do(s) versículo(s).
O nome dos livros tem uma forma abreviada por que é conhecido e que se encontra numa lista no início da Bíblia. Podem ter numeração romana, quando se dividem em mais do que um.
Os capítulos têm nomes que ajudam a reconhecer o assunto.
Os versículos são marcados por numeração árabe que surge antes de cada um deles. Cada versículo conter uma ou mais frases, ou apenas frases e períodos parciais, dado que foram divisões introduzidas com alguma arbitrariedade.
A edição que uso é a dos Missionários Capuchinhos, da Difusora Bíblica. Algumas destas indicações que se seguem são comuns à maioria das bíblias:

No cabeçalho de cada página surge o nome do livro, bem como o número do capítulo, ajudando assim a situar o que se procura.
No corpo do texto, o capítulo (tanto o número como o nome) aparece em negrito e os versículos em tamanho muito mais reduzido (como tentei reproduzir aqui, sem muito sucesso).

Assim, se eu escrever Cant.I. 1, 2-3, é suposto que se leia «Primeiro Cântico dos Cânticos, capítulo 1, versículos 2 e 3» e que, em qualquer parte do mundo e em qualquer língua, se reconheçam estas palavras:

2 Ah! Beija-me com ósculos da tua boca!
Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho,
3 e suave é a fragância dos teus perfumes;
o teu nome é como perfume derramado:
Por isso te amam as donzelas.

Boas leituras!

20 maio 2007

Blogue do Cineclube de Faro


Não costumo escrever postais sobre blogues (se bem que o deveria fazer. Qualquer dia comento alguns de que gosto especialmente), mas este merece destaque.
Falo do novo blogue do Cineclube de Faro, apresentado na passada sexta-feira, no Teatro das Figuras, em Faro.
Este cineclube é mesmo especial!
Fez no ano passado 50 anos de existência ininterrupta e, pelo menos desde que me fiz sócia, com uma programação excelente e actividades cativantes.

Na sexta-feira encerrou o ciclo das comemorações do aniversário com a exibição do filme Dom Roberto, de Ernesto de Sousa, produzido pela Companhia do Espectador, isto é, um grupo formado por sócios de cineclubes.
Na mesma linha, o cineclube de Faro conduziu uma subscrição junto dos seus sócios para que custeassem a obra.
E assim foi. Devido à contribuição de de 41 sócios a encomenda foi feita e pudemos ver e ouvir a belíssima Suite para Dom Roberto de Bernardo Sassetti Trio. Um magnífico espectáculo!

O filme é lindo! A preto e branco, de uma ternura infinita!
Cheio de nomes conhecidos hoje por todos, bem jovenzinhos naquela altura, dei por mim a fazer uma coisa a que acho graça: tentar reconhecê-los ali e ver nestes as mudanças que a idade trouxe.
Raul Solnado estava igual, bem como Adelaide João e Nicolau Breyner. Glicínia Quartim era linda em jovem e aquele que eu mais procurava, Rui Mendes, cujo nome vira nos créditos, nada de aparecer. Até que um grande plano me satisfez a curiosidade: fazia o papel de um rufia de bairro, cabelo à Elvis, gola da camisa levantada e mangas arregaçadas! Irreconhecível! Só mesmo um plano do rosto me fez ver como era! Lindo!

O filme foi às 18, o concerto às 21.30 (bem... às 22, pois a nossa querida Anabela Moutinho fez uma emocionada e emocionante introdução) e, no fim, tivemos um «rebuçado»: uma pequena rábula de teatro de fantoches, por um bonecreiro à antiga, que não quer deixar morrer Dom Roberto!

Lindo, lindo!

19 maio 2007

A beleza é um bem frágil...

Apesar de Ovídio achar que todas as mulheres podem ser apanhadas nas redes dos homens (e que estão cheias de vontade que tal aconteça - ideia que me repugna aceitar), também diz coisas como estas:

A beleza é um bem frágil; à medida que vão avançando os anos,
Vai diminuindo e, por força da idade, vai murchando;
Não ficam todo o tempo em flor as violetas nem os lírios de pétalas abertas,
E a roseira, depois de cair a flor, enrijece os espinhos, que é o que lhe resta.
Também a ti, ó jovem esbelto, te hão-de chegar os cabelos brancos,
E logo virão as rugas sulcar-te o corpo.


Ovídio, Arte de Amar, II, 113-118 - espero que os meus alunos de Latim estejam a reconhecer o teste da passada quinta-feira)

17 maio 2007

Amizade bretã

Acabei de receber este poema, enviado por uma amiga «bretonne».
Pour toi aussi, Gwen!

«Paul Eluard pour toi ce soir ... »

La Courbe de tes yeux

La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
Et si je ne sais plus tout ce que j'ai vécu
C'est que tes yeux ne m'ont pas toujours vu.
Feuilles de jour et mousse de rosée,

Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs,
Parfums éclos d'une couvée d'aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards.

15 maio 2007

Convencido, este Ovídio!

Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas
podem ser conquistadas; e vais conquistá-las; basta que estendas as redes.
(Ovídio, Arte de Amar, I, 269-270)

Só está perdoado porque também escreveu isto...

14 maio 2007

Ícaro

(The lament for Icarus - H.J. Draper - 1989)


Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segregado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.

(Sebastião Alba, A Noite Dividida, Lisboa, Assírio & Alvim, 1996)

10 maio 2007

Regras gramaticais...


Na terça-feira, dia 8, ouvi Ivo de Castro no canal 2, num programa da Universidade Aberta. A propósito das regras gramaticais, este Professor Catedrático de Linguística referiu o largo espectro que medeia entre o erro e a forma mais elevada de expressão na Língua Portuguesa, referindo que essa forma é a usada pelos escritores. Mas logo, matreiro, contou uma anedota que nos põe a pensar...

Encontrando um dia o já clássico Augusto Abelaira, este confessou-lhe ter produzido um texto que, depois, ao ser relido, lhe levantou dúvidas quanto a uma determinada construção. Para sanar a questão, Abelaira fora consultar a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Sintra. Procurara e encontrara: a construção que estava a usar e da qual duvidara estava atestada na gramática, tendo como base o uso literário de um autor consagrado. Era esse autor... Augusto Abelaira!
Ivo de Castro relatou esta conversa a Celso Cunha que terá dito: «Se eu soubesse, não o tinha usado para aquele exemplo».
Quem faz as normas? As regras? As excepções?
Vou ter muito em que pensar nos próximos tempos...

09 maio 2007

Valor próprio

Se quiseres saber quanto vales não atendas aos teus rendimentos, à tua casa ou à tua posição social, olha sim para dentro de ti, em vez de, como agora, acreditares no valor que os outros te atribuem!

Séneca, Cartas a Lucílio, 80, 10.

08 maio 2007

(foi hoje)

Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certezade que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.


(Eugénio de Andrade)

Na Taberna...

Hoje é dia de fazer um postal na Taberna dos Inconformados.
Convido-vos para um leite-creme!

07 maio 2007

Fecho da «Biblioteca Apostolica Vaticana» por três anos

(imagem do site da Vaticana)
Esta notícia que corre entre os classicistas (através de uma mailing list de paleógrafos) pode interessar àqueles que pensavam consultar, em breve, alguma obra nesta biblioteca:

«A brief email in order to spread the announcement put up at the Biblioteca Apostolica Vaticana last Friday.
In June 2007, the Biblioteca will close its doors for a period of three years.
However, this closing does not concern the Archivio Segreto Vaticano.
Please pass this announcement on to the persons who could be affected.»

Fui ao site da Vaticana, mas o botão «Information» da barra de ferramentas não funcionou, não podendo assim confirmar a notícia.
Passo, à confiança.

06 maio 2007

Ute Lemper: um espectáculo!


(imagem daqui)
Ontem fui ver Ute Lemper.
Ver... que verbo mais apropriado!
Quando vamos «ouvir» um músico ao vivo, costumamos dizer «fui ver». É verdade que vemos, mas em muitos casos isso acontece apenas porque estamos ali de olhos aberto, pois se os fechássemos pouco ou nada perderíamos.
Ontem não.
A Ute Lemper é um espectáculo!
Tinha-a visto num Festival de Edimburgo há muitos anos atrás, quando o seu repertório era mais... «clássico», digamos assim: mais Kurt Weil, menos Jazz.
Ontem adorei vê-la e ouvi-la! O modo como transita entre canções, o modo como muda a língua em que canta (ora francês, ora inglês, ora alemão... e até iídiche!), o modo como nos envolve na sua viagem, como ela define o espectáculo!
Durante hora e meia estive de olhos pregados naqueles músicos, a mexer-me na cadeira, balançando o corpo ao som dos ritmos que se produziam no palco, encolhendo-me nos momentos mais íntimos, rindo nas alturas de humor, assobiando «Die Moritar Von Mackin Messer», e batendo palmas desalmadamente!
Ela falava em viagem... será que é a isto que se chama uma «trip»?

04 maio 2007

Filosofia de iogurte

(surripiei a imagem daqui)
Li recentemente na tampa de um iogurte pendurada num frigorífico (não, não era colada nem tinha íman. Era mesmo pendurada! Com molas e tudo! E um dia destes ainda falo, precisamente, da filosofia de frigorífico...) uma frase assim parecida:
«É feliz aquele que se julga feliz»
Grande verdade. Ouve-se: «Não me amas. Apenas julgas que me amas». E eu pergunto: «Qual é a diferença?»
Em relação a muitas coisas, aquilo que achamos, a nossa opinião, não equivale à realidade: se eu achar que estou macérrima e o meu peso, segundo as tabelas da organização mundial de saúde, indicar que estou obesa, aquilo que eu acho não é a realidade. Mas, em muitos casos, principalmente no que respeita a sentimentos, a opinião equivale ao ser.
Deste modo, se acho que amo, então amo.
Faz-me lembrar Protágoras, quando diz que «cada coisa é para mim do modo que a mim me parece; por outro lado, é para ti do modo que a ti te parece»*.

É assim a filosofia do iogurte.

*(Platão, Teeteto, 152a, Fundação Calouste Gulbenkian, 2005. Tradução minha)

03 maio 2007

Relendo Heródoto...

Adimanto, filho de Ócito, o comandante de Corinto, exclamou:
«Temístocles, nos concursos, os que partem antes do sinal ser dado são penalizados».
Ao que, em sua defesa, lhe respondeu o general ateniense:
«Mas os que ficam para trás não recebem a coroa da vitória».

Heródoto, 8. 59
(tradução de José Ribeiro Ferreira e Carmen Leal Soares para as edições 70)

27 abril 2007

Agora em Faro...

(tirei a foto daqui)
... podem ver O Amor dos Outros!
No Clube Farense, ali na rua de Santo António, até amanhã. Estejam lá às 21.30 e levem uma bebida para a mesa.
Fui ontem assitir pela segunda vez! Já
tinha visto em Olhão, mas a expectativa (estúpida, é verdade) de ver algo chocante (como me disseram que talvez fosse) não me deixou apreciar devidamente o espectáculo.
Desta vez «curti-o» de fio a pavio e reitero a belíssima interpretação do João Evaristo, na encenação de Paulo Moreira.
Um espectáculo que, de uma forma divertida, aborda sem preconceitos o amor... dos outros!

25 de Abril

Não me esqueci do 25 de Abril, claro! Apenas passei o dia em liberdade!

24 abril 2007

ensino/aprendizagem

Refugia-te em ti próprio quanto puderes; dá-te com aqueles que te possam tornar melhor, convive com aqueles que tu possas tornar melhores.
Há que usar de reciprocidade: enquanto se ensina aprende-se também.
Séneca, p.16

18 abril 2007

Estaremos embriagados?

Os corações mortais são mais rápidos a preferir um
ganho habilidoso do que um acto justo,
mesmo que depois fiquem
sóbrios.

Píndaro, Odes Píticas, Prime Books, Lisboa 2006. Tradução do grego e notas de António de Castro Caeiro.

17 abril 2007

A propósito da (não) lavagem do bule do chá...

Eu tinha-te dito que o bule não se lavava... aliás, eu nem a minha chávena lavo. Explico melhor: claro que lavo, mas sem detergente. Explico ainda melhor: tenho um bule e uma caneca aos quais dou este tratamento. Isto porque tomo sempre o mesmo tipo de chá por lá.
Quando vario, uso outro bule e outras chávenas...
Boa técnica, não é?
No outro dia não acreditaste em mim e, como não tinha argumento de autoridade para te convencer, andei à procura num livro...
Olha, vai ver a Taberna dos Inconformados!

15 abril 2007

Só?? Eles lá me conhecem...



You Are 52% Impulsive



You're quite impulsive, but you never are reckless.

You qualify as a very spontaneous person, but you still know how to honor your commitments.

And while responsibility doesn't come easy to you, having fun does!

13 abril 2007

Ai de quem estragar algum livro meu!

Estou a ler um livro interessante do Lionel Casson (que já conhecia do velho Ships and Seamanship in the Ancient World), de 2001, editado pela Yale University Press, intitulado Libraries in the Ancient World.
Na primeira parte, sobre a Mesopotâmia, Casson explica como estava organizada a biblioteca de Assurbanípal. E deu-me mais umas ideias para pragas a rogar a quem não devolve ou estraga livros emprestados!

Entre várias mais curtinhas e menos amedrontadoras, como
Aquele que receia Anu e Antu cuidará e respeitará estas tabuinhas
encontrei esta grande maldição (que, à falta de conhecimento de assírio, vai em inglês), na qual se percebe algumas técnicas dos ladrões de bibliotecas da época e a vantagem do politeísmo:


He who breaks this tablet or puts it in water or rubs it until you cannot recognize it [and] cannot make it be understood, may Ashur, Sin, Shamash, Adad and Ishtar, Bel, Nergal, Ishtar of Nineveh, Ishtar of Arbela, Ishtar of Bit Kidmurri, the gods of heaven and earth and the gods of Assyria, may all these curse him with a curse which cannot be relieved, terrible and merciless, as long as he lives, may they let his name, his seed, be carried off from the land, may they put his flesh in a dog's mouth!

E, mesmo assim, eles lá roubavam...

12 abril 2007

Tu dizes: voltarei...

Comprei em Nova Iorque um livro de postais intitulado «Poetry in Motion», editados por uma cooperação entre o New York City Transit e a Poetry Society of America, em 1996, numa iniciativa que decorou os autocarros daquela cidade com as palavras dos poetas.
Como cada poema não podia ser enviado para ser lido ao acaso por qualquer pessoa, uns ainda aqui estão, à espera do destinatário, outros já seguiram o seu caminho...

Komo to yu mo
Konu toki aru wo
Koji to yu wo
Komu to wa mataji
Koji to yu mono wo

You Say, "I Will Come"
And you do not come.
Now you say, "I will not come."
So I shall expect you.
Have I learned to understand you?


Lady Otomo No Sakanoe (séc. VIII).
Traduzido do Japonês por Kenneth Rexroth.

11 abril 2007

Finalmente! Um teste que não mente!

Destes testes é que eu gosto! Eh!Eh!Eh! Estou a ficar viciada! Principalmente quando (e porque) os resultados me agradam...



Your Dominant Intelligence is Linguistic Intelligence



You are excellent with words and language. You explain yourself well.
An elegant speaker, you can converse well with anyone on the fly.
You are also good at remembering information and convicing someone of your point of view.
A master of creative phrasing and unique words, you enjoy expanding your vocabulary.

You would make a fantastic poet, journalist, writer, teacher, lawyer, politician, or translator.

07 abril 2007

Eu bem sabia!




You Are a Realist



You don't see the glass as half empty or half full. You see what's exactly in the glass.
You never try to make a bad situation seem better than it is...
But you also never sabotage any good things you have going on.
You are brutally honest in your assessments of situations - and this always seems to help you cope.

04 abril 2007

Amizade...

(...) sem amizade não há vida, pelo menos se quiserem uma vida de algum modo digna de homens livres.
Cícero, A Amizade, XXIII.86

03 abril 2007

01 abril 2007

Perfeccionista?? Eu?

Com a falta de tempo e ausência do espaço normal... deixo aqui mais um teste porque é fácil de publicar... Eh! Eh!



You Are 41% Perfectionist



No one would call you a perfectionist, but you definitely have a side of you that strives to be perfect.

Try to see your mistakes as learning experiences, and don't be so hard on yourself when you screw up!

29 março 2007

Não sou...

... mas ainda posso vir a ser!
É bom vermos que temos perfil para muitas coisas!

Your Career Personality: Brainy, Logical, and Efficient

Your Ideal Careers:

Archeologist
Astronomer
Book editor
Business manager
Civil engineer
Designer
Economist
Inventor
Judge
Scientist

28 março 2007

Liberdade de expressão


Fiquei profundamente chocada com o post do Miguel Castel-Branco, do Combustões. Quatro ameaças de morte! Inadmissível!
Se algo conquistámos com a democracia foi a liberdade de expressão e o não sermos presos, torturados ou mortos pelas ideias que defendemos.
O Miguel é autor de um dos blogues mais interessantes. Apesar de não concordar com muito do que defende, aprecio a sua prosa clara, a coerência das suas ideias, o apuro da sua cultura e, acima de tudo, a sua liberdade, como afirma no blogue.
Sei que sabe defender-se, mas quero, ainda assim, manifestar aqui a minha solidariedade para com ele.

Intuitiva, eu?

You Are 44% Intuitive

Your intuition is often right, and you use it more than you may realize.
Your gut feelings are usually a good guide, but you need more to go on when making a decision.
You'll often check to see if the facts back up your feelings.
And when your intuition is wrong, you work to improve it for the future.

27 março 2007

Não tenham medo do particípio passado!

O postal com este nome está publicado na Taberna dos Inconformados, o blogue onde sirvo à mesa à terça-feira. Vão até lá e bebam um copo!

26 março 2007

Felizes os que acreditam...

Your Personality is Somewhat Rare (ISFP)

Your personality type is caring, peaceful, artistic, and calm.

Only about 7% of all people have your personality, including 8% of all women and 6% of all men
You are Introverted, Sensing, Feeling, and Perceiving.
(Fui buscar ao Miguel, que tem uma personalidade rara... ai que inveja!)

25 março 2007

A brevidade da vida...

A existência humana é um ponto, é menos de um ponto.
(...)
Por isso mesmo me causa indignação ver como as pessoas gastam em futilidades a maior parte de uma vida que, mesmo dispendida com a maior parcimónia, não seria bastante para as coisas essenciais.

24 março 2007

Diz Séneca... sobre o tempo

O tempo ilude quem se aplica ao momento presente, de tal modo é insensível a passagem do seu curso vertiginoso. Queres saber porquê? Porque todo o tempo passado se acumula num mesmo lugar; todo o passado é contemplado em bloco, forma uma totalidade; todo ele se precipita no mesmo abismo.

Cartas a Lucílio, 49.2-3.

21 março 2007

VER SACRUM

Evelyn De Morgan (1855-1919) - Flora, the Godess of Blossoms and Flowers (1880) De Morgan Foundation Collection
Neste início de Primavera, trago algumas histórias.
A Flora era uma força da natureza, venerada na península itálica e festejada no mês de Abril.
Ovídio terá inventado um mito em que o vento Zéfiro se teria apaixonado por ela e a teria raptado. Ao casarem, ele ofereceu-lhe o reino de todas flores.
Flora, por sua vez, dava aos homens o mel e as sementes das plantas.
Também Ovídio está na origem da versão do mito em que teria sido Flora a dar a Juno a semente com que esta se fecundou para dar à luz, sozinha, o deus Marte (de onde vem o nome deste mês de Março).

Marte também era uma antiga divindade itálica, posteriormente associada ao deus grego Ares. Mas é na sua ligação a este vetusto culto que ele personifica o novo ano (sendo Março o primeiro mês do calendário, já faz sentido que Setembro seja o sétimo mês e daí por diante, até Dezembro, o décimo...), celebrando-se em Março, na cidade de Roma, uma festa na qual um velho era fustigado com varas brancas e expulso da cidade, simbolizando o ano velho que devia partir para dar lugar ao novo.
Além de deus da guerra, é também o deus da Primavera (época em que recomeçavam as guerras interrompidas pelo Inverno) e da juventude (por a guerra ser actividade dos jovens).
E chamava-se Ver Sacrum (Primavera Sagrada) ao momento em que um grupo específico de jovens sabinos (que tinham sido consagrados a Marte) devia emigrar para encontrar novas colónias para povoar, guiados por um animal sagrado do deus, como seja o lobo.

(Imagem: Marte, de Diego Velasquez)

Fonte principal: Pierre Grimal, Dicionário de Mitologia Grega e Romana (1992), Lisboa, Difel.

20 março 2007

Postal publicado em simultâneo aqui e em A Taberna dos Inconformados.

Esta é a minha primeira rodada n' A Taberna dos Inconformados. Devido à pouca experiência a servir à mesa, poderei tropeçar e entornar algumas coisas, mas espero a vossa compreensão... É suposto comentar uma actualidade, coisa para mim algo difícil, pois como não tenho televisão, apenas sei o que a Antena 2 ou a Antena 1 me têm para dizer quando as sintonizo no carro, entre uma deslocação e outra. E com tão breve (e ocasional) informação, não é mesmo nada fácil.
Fui ao Público para ver se me inspirava! E, juntamente com uma notícia que ouvi esta tarde*, inspirei-me (uma pequenina inspiração, confesso...)!
Li: «Listas excedentes do Ministério da Agricultura prontas até sexta-feira». Listas excedentes? Quer dizer que o Ministério faz listas de qualquer coisa de que não precisa? Sempre me fez um pouco confusão esta forma de dar notícias...
Será que a preposição «de» entre «Listas» e «excedentes» («Listas de excedentes») ocuparia assim tanto espaço no título? Pela mesma lógica, então o título poderia ser: «Listas excedentes Ministério Agricultura prontas até sexta-feira»...
Também na Antena 1 ouvi (estou a dizer de cor, mas o que está a negrito é ipsis verbis): «Maria José Nogueira Pinto diz que Paulo Portas trouxe o PREC para o PP». Depois, passou a referida senhora a dizer: «O Dr. Paulo Portas trouxe o pior da nossa memória do PREC».
Trazer as piores memórias de uma coisa não é trazer a coisa. Até porque pode haver quem tenha boas memórias do PREC e a notícia não estaria a ser perfeitamente entendida (sendo esse o objectivo da cominicação, não é verdade? Entendermo-nos).
São coisas pequeninas, eu sei, mas são maus tratos da língua portuguesa por parte de quem tem responsabilidade de a acarinhar.
...................
E sai uma rodada por conta da casa!
E sai um Xarém!
(Pois é. Também é suposto contribuir com uma receita ou uma sugestão vinho)
Segue hoje uma receita.
Não moro (ainda) em Olhão, mas é uma das terras de que mais gosto no Algarve, onde vive gente «a sério», onde o turismo não deu (ainda) cabo de tudo, onde o mercado vende (ainda) o melhor peixe da Região.


Com um prato de xarém
E uma batatinha doce



Trago, então, para fazer jus à quadra popular, um dos pratos tradicionais do Algarve:
Xarém
Ingredientes:
1 kg de amêijoas
100 g de bacon
100 g de chouriço
150 g de presunto
1 dl de vinho bramco
150 g de farinha de milho
Sal e pimenta q.b.

Lave muito bem as amêijoas, de forma a retirar-lhes todas as impurezas que possam conter. Em seguida, coloque-as de molho em água salgada (de preferência em água do mar), durante 5 a 6 horas. Corte o bacon e o presunto em tiras finas e o chouriço em rodelas e frite-os em lume brando. Coza as amêijoas num tacho coberto de água, temperada de sal e pimenta, durante cerca de 10 minutos; escorra a água da cozedura e leve-a a um passador fino. Tire o miolo das amêijoas, coloque-as num tacho, junte o caldo da cozedura, adicione vinho e leve ao lume, deixando ferver um pouco. Retire do fogo e adicione a farinha, previamente peneirada. Leve novamente ao lume e deixe cozer, mexendo de vez em quando. Junte as carnes e sirva quente. Frequentemente o xarém (termo árabe que designa "papas de milho") é acompanhado por sardinhas assadas, torresmos e carne de porco.

in Olhão para o Cidadão.
* Comecei a escrever isto ontem à noite...

19 março 2007

Clair de Lune Théâtre

O meu amigo Paulo faz teatro de sombras chinesas.
Vive na Bélgica há muitos, muitos anos.
Andámos na escola juntos. Na altura ele era «Cenoura». Agora não tem cabelo. Mas continua com aquelas sardas que lhe dão um ar irreverente (o que conjuga bem com as suas gargalhadas características, mas contrasta com a tranquilidade que emanam)...
Uma memória muito forte de uma experiência que passei com ele é a que tenho do dia em que soubemos da morte de Sá Carneiro. Fomos os dois comprar muitos jornais para lermos as notícias de diferentes maneiras! Nem queríamos acreditar!

Lá em casa recebia-se gratuitamente (porque, desde o meu avô, que morreu em 1931, que a «família» era correspondente d') o Diário de Lisboa, que o sr. Feliz, o ardina, sempre vestido de azul e sacola a tiracolo ou ao ombro, punha debaixo da porta.

«Olh'ó Diário de Lisboa e Notícias! Rapazes, olh'ó dinheiro!»

As pessoas da minha idade (e mais velhas, claro!), lá do Bombarral, devem lembrar-se bem deste pregão...

Ora, dizia eu, naquele dia fui, pela primeira vez, comprar jornais. Fui com o Paulo e devorámos o que havia. Estávamos impressionados...
O Paulo tem agora este teatro de sombras. É muito bonito o que ele faz. Vão até ao Clair de Lune e espreitem...

18 março 2007

A minha nova capelinha...

«capelinha» vem do grego kapeleion, que significa pequena loja onde se vende e consome vinho. Isto é, uma taberna.
«percorrer todas as capelinhas» usa-se quando queremos dizer que se andou de bar em bar...
Bem, tudo isto porque fui convidada a fazer parte d' A Taberna dos Inconformados.
Assim, às terças-feiras poderão ver-me por lá a discorrer sobre alguma actualidade e provar uma delícia gastronómica que levarei da minha pólis...

17 março 2007

Notícias da Psicanálise

Correu muito bem o Colóquio!
O Anfiteatro estava cheio!
Os nomes sonantes que se deslocaram ao Algarve devem ter ajudado...
A verdade é que foi um dia muito preenchido, com os horários a serem cumpridos e as comunicações muito interessantes!
Parabéns à organização!

16 março 2007

Famafest

A Senhora Sócrates descobriu que está entre os nomeados para os Melhores Blogues de Cultura 2006, a entregar (porque já está decidido) no 1ºEncontro de Blogues de Cinema e Cultura (que se decorre em Famalicão neste fim-de-semana), incluído no Famafest (16 a 24 de Março). Só a nomeação honra-me! Muito obrigada!


Nomeados
Melhores Blogues de Cultura 2006



Nomeados
Melhores Blogues de Cinema 2006

(Agradeço ao Kontraste (quase) todos os links!)

Atenção!

Para os mais distraídos, a Psicanálise Hoje não é hoje... é amanhã...

15 março 2007

Psicanálise Hoje

(Lucien Freud, Large Interior, tirada daqui. Escolhida por ser um quadro do neto do dito cujo, pela composição... e por ser um mimo...)

Se estiverem por Faro no sábado, vão ao Colóquio «Psicanálise Hoje», realizado na Universidade do Algarve, no Campus de Gambelas, numa organização do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais.
Com início às 9.30, poderão ouvir personalidades como António Coimbra de Matos, Carlos Amaral Dias ou Emílio Salgueiro, entre outros.
Também será lançado o livro da Fenda, com a presença de Vasco Santos, editor e, também ele, psicanalista, Sigmund Freud: 150 anos depois.
E eu só lá estou porque a Catarina Rebelo Neves me arrastou para este «divã»...

14 março 2007

Amizade (1)

Que coisa é mais doce do que ter alguém com quem ouses falar de tudo como se fosse contigo próprio? [...]
A amizade encerra muitísimos bens. Para onde quer que te voltes, ela está à tua disposição, não está excluída de nenhum lugar, nunca é intempestiva, nunca molesta.[...]
E não me refiro agora à amizade vulgar e mediana, embora ela própria cause também prazer e proveito, mas falo da verdadeira e perfeita amizade. [...]
Com efeito, a amizade torna não só a prosperidade mais esplendorosa, como também, ao partilhar e comungar da adversidade, faz com que esta se torne mais leve.
Cícero, A Amizade, 1993, INIC, Lisboa. Tradução de Sebastião Tavares de Pinho.
Este postal foi inspirado neste, do Corta-Fitas...

12 março 2007

O Amor dos Outros

O Amor dos Outros
(foto roubada daqui. Aproveitem e leiam o texto da Ana Cristina Oliveira)

Fui no Sábado ver uma peça de teatro a Olhão. Encenada por Paulo Moreira e interpretada por João Evaristo, é um monólogo inspirado em textos do brasileiro Alexandre Ribondi.

O cartaz do espectáculo mostra um homem nu, o que nos remete para um tipo de história que nem todos irão ver. Ou irão enganados!

Porque a nudez aqui é a da alma... dos outros.

Veronete conta a descoberta do amor entre dois homens. Trabalhando como empregada doméstica na casa de um engenheiro, vai acompanhando a descoberta do amor entre este e o seu jardineiro. Ambos muito homens, ambos muito masculinos, bonitos... uma história muito bem contada, sem cair na vulgaridade ou na afirmação de uma qualquer sexualidade. Na verdade, a sexualidade das personagens contadas nem importa muito na história...

A sexualidade da contadora... essa tem a sua graça, pois é um travesti. Veronete chamava-se Jair e é uma mulher num corpo (que mantém) de homem. Mas gosta de se vestir de mulher e sente como tal. Aliás, o texto faz referências ao corpo da mulher como só uma se lembraria de o fazer...

A interpretação de João Evaristo é genial. Na sua modéstia, disse que tudo se devia ao Paulo Moreira: «Eu sou só o boneco. Isto é tudo ideia do Paulo».

Não querendo minorar o trabalho do encenador (antes pelo contrário: excelente!), estar uma hora em cena, interpretando um monólogo, falado com pronúncia brasileira (o que dificulta a improvisação quando há uma «branca») e não se tornando ridículo, interagindo com o público, do alto de uns tacões, ... é obra de grande actor!

Estou com vontade de voltar à Sociedade Recreativa Olhanense no próximo fim-de-semana, só para ver tudo outra vez!

11 março 2007

Anacreonte - Frag. 395

Prometi ao Miguel e agora, finalmente, cumpro!
Aqui vai um mimo, com cheiro a Alsbo Vanilla...

As minhas fontes já estão grisalhas
e a minha cabeça branca;
A fresca juventude já não está comigo,
Os meus dentes estão velhos
E já não me resta muito

tempo da doce vida ;
Por isso lamento-me com frequência,

receando o Tártaro: pois
as profundezas do Hades
são terríveis, e a descida para lá
é difícil; e também é certo que
quem desce não volta a subir.

10 março 2007

Construtores...

Diz ainda a Constituição de Zenão, que tem muito para nos ensinar:

[9] A tua magnificência que tome providências para que nenhum empreiteiro ou técnico deixe inacabada a obra começada, mas aquele que começou recebendo um pagamento seja forçado a cumprir o trabalho ou a pagar ao que está a construir o dano daquilo que aconteceu em consequência e todo o mal que advenha por causa de uma obra não acabada; se acontecer que o culpado é pobre, que seja açoitado e expulso da cidade.
[9a] Que não se proíba alguém do mesmo ofício de acabar o que foi começado por um outro, precisamente porque sabemos de que são capazes os empreiteiros e os técnicos contra os que querem construir a sua casa, que não se aplicam a acabar aquilo que eles próprios começaram nem concordam que outros terminem os seus trabalhos, mas levavam a causar um dano intolerável aos que construíam as suas casas.
[9b] Pois o que recusar terminar o que foi começado por outro por causa disto mesmo, isto é, que foi outro que começou, que também ele sofra uma pena semelhante àquele que abandonou a obra.

09 março 2007

Vistas para o mar...

Apesar dos Planos Directores Municipais, dos de Ordenamentos de Território, de regras para isto, regras para aquilo, o que mais se vê é o caos nas construções urbanas.

Será que esses conhecem a Constituição de Zenão (de seu nome original Tarassicodissa, foi Imperador romano do Oriente entre 474-491), aplicada a Constantinopla?
Diz o texto (grego, tradução minha):
Ordenamos que os que querem renovar as suas próprias casas de modo algum ultrapassem a forma anterior, de maneira a que os que estão a construir uma casa não tirem a luz nem a vista dos vizinhos, violando o que estava estabelecido há muito tempo.
[...]
Posto que se diz na minha constituição também que o que vai construir deve deixar doze pés entre a sua própria casa e a do vizinho, e ainda se acrescenta «mais ou menos», o que provoca justamente uma grande incerteza (e o que levanta dúvida não é apropriado para resolver ambiguidades), ordenamos claramente que entre cada casa haja doze pés, começando efectivamente do chão do edifício e continuando até ao limite mais alto.
Àquele que obedecer a isto, que daqui em diante lhe seja autorizado a erigir a sua casa até ao limite que desejar, e rasgar tanto janelas chamadas próprias para se debruçar, como janelas para dar luz segundo a legislação sagrada, quer queira construir uma casa nova, quer renovar uma antiga, quer reconstruir uma que tenha sido destruída pelo fogo.
De modo algum será permitido que tire do vizinho a vista de mar que este tem directa e não forçada de qualquer lado da casa, quer esteja de pé nos seus aposentos ou sentado, sem que tenha de se virar em si ao debruçar-se torcido e forçado para ver o mar.