03 julho 2007

Fastidientis stomachi est multa degustare

Demasiada abundância de livros é fonte de dispersão; assim, como não poderás ler tudo quanti possuis, contenta-te em possuir apenas o que possas ler.
Dirás tu: «Mas sinto vontade de folhear ora este livro, ora aquele.»
Provar muita coisa é sintoma de estômago embotado; quando são muitos e variados os pratos, só fazem mal em vez de alimentar.
Lê, portanto, constantemente autores de confiança e quando sentires vontade de passar a outros, regressa aos primeiros.
Séneca, Cartas a Lucílio, 2, 3-4. Sempre a mesma tradução.

Compreendo a sabedoria destas palavras, mas eu sou mais como o Lucílio: gosto de ter livros que posso não vir a ler na totalidade, mas que gosto de folhear. Naquela altura, folhear devia ser desenrolar um papiro e não se devia poder tê-los abertos sobre a mesa ou empilhados, como eu os tenho...
Que ando a ler?
Leio vários ao mesmo tempo.

Séneca não conta, pois não? Nem Ovídio, imagino... nem Platão... nem os policiais (adoro policiais, confesso. Ando sempre com um atrás. Estou na fase egípcia, acompanhando Amelia Peabody Emerson nas suas aventuras).

Fui ali à sala ver o que está na pilha dos «pego neles mais vezes a ver se acabo algum», porque esta época do calendário escolar não é muito dada a coisas recreativas. A pilha dos «quero mesmo ler, devem ser giros, estão aqui há mais de um mês e ainda não os abri» envergonha-me. Principalmente com o raspanete que Séneca me pregou no início deste postal.

Cá vão, então, os «a ver se acabo, porque até estou a gostar, só que não tenho tempo» (em próximos postais falarei de cada um deles, pois acho que merecem uma explicação):
- Alimentação e Sociedade na Antiguidade Clássica: aspectos simbólicos dos alimentos, de Peter Garnsey. Ed. Replicação, Lisboa, 2002;
- Religions de L'Antiquité, org. por Yves Lehmann, PUF, 1999;
- O longo caminho das mulheres, organizado por Lígia Amâncio et al., Publ. Dom Quixote, 2007;
- Everyday Things in Archaic Greece, de Marjorie e C.H.B. Quennell, Ed. B.T.Batsford, 1931;
- A Natural History of Latin, de Tore Janson, Oxford University Press, 2007 (a minha edição em paperback, que a outra é de 2004).

Agradeço ao Legendas & Etcaetera o pedido, que vou completar com comentários, como referi;
E também eu estou curiosa por saber o que lêem algumas pessoas. O Miguel tem uma lista no blogue, portanto, basta passar por lá para ver.

Ficam aqui cinco provocações:

Carneiro, do Oxiclista
José Bandeira, do Bandeira ao Vento
JS e Gregório Salvaterra, do Contador de Gaivotas

Marta, do Claras em Castelo
Tomás Vasques, do Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos

(desculpem, porque imagino que estejam fartos de coisas destas, mas não resisti).

01 julho 2007

As Mulheres no Parlamento (2)

CREMES: Bem, depois um rapazola bem parecido, claro de pele, do tipo do Nícias, saltou do lugar para usar da palavra. E pôs-se a dizer que se devia confiar às mulheres o governo da cidade. (...) O tipo armou um berreiro desgraçado, a passar os maiores elogios às mulheres. A ti, deixou-te sem concerto.
BLÉFIRO: Mas, que é que ele disse, afinal?
CREMES: Logo para começar, qu és um cretino.
BLÉFIRO: E tu?
CREMES: Guarda essa pergunta para depois. E um ladrão.
BLÉFIRO: Só eu?
CREMES: Mais ainda, poça! E um bufo.
BLÉFIRO: Só eu?
CREMES: Tu, pois, (aponta para o público) e essa cambada toda que aí está!
BLÉFIRO: E quem diz o contrário?
CREMES: Que a mulher - dizia ele - é um modelo de bom-senso, que só traz fortuna. Que não anda por aí a badalar aos quatro ventos os mistérios das Tesmofórias, enquanto tu e eu, quando estamos no conselho, não fazemos outra coisa.
BLÉFIRO: Quanto a isso, verdade seja dita, não mentiu.
CREMES: Depois pôs-se a dizer que elas emprestam umas às outras roupa, jóias, louças, só lá entre elas, sem testemunhas; que devolvem tudo, ninguém fica defraudado como - eram palavras ele - é costume cá entre nós.
BLÉFIRO: Lá isso é, e com testemunhas e tudo!
CREMES: Nem se metem em denúncias, nem em processos, para derrubarem a democracia. Pelo contrário, foi um nunca acabar de elogios às virtudes femininas.

30 junho 2007

As Mulheres no Parlamento (1)

Esta peça de Aristófanes inicia-se com as mulheres a conspirarem para irem ao Parlamento (que se localizava na Pnix, uma pequena colina de Atenas), vestidas com as roupas dos maridos e levando barbas postiças.
Objectivo? Fazer com que eles decidam entregar o governo da cidade a elas, por serem as mais sensatas.
Este passo é interessante, porque, entre outras coisas, mostra muitas das actividades exercidas na vida caseira e a visão que os homens tinham das mulheres (o que justifica que se descrevam, por vezes, de forma pouco elogiosa. Não nos esqueçamos, porém, que este texto foi escrito por um homem, há cerca de 2500 anos) Neste trecho estão sozinhas, ainda a tentar decidir quem, de entre elas, as vai representar como oradora. Por isso divertem-se com algumas das graças mais comuns sobre si próprias. A escolhida foi Praxágora, com este discurso:

Que os hábitos delas são melhores que os nossos é o que passo agora a demonstrar. Para começar, mergulham a lã em água quente, à moda antiga, todas elas, e não se vê que estejam dispostas a mudar. Ao passo que a cidade de Atenas, mesmo se uma coisa dá resultado, não se julga a salvo se não engendrar qualquer inovação.
Fazem os seus grelhados sentadas, como dantes; trazem fardos à cabeça, como dantes; celebram as Tesmofórias, como dantes; cozem bolos, como dantes; estafam os maridos, como dantes, metem amantes em casa, como dantes; compram gulodices, como dantes; gostam de uma boa pinga, como dantes.
Por isso é a elas, meus senhores, que temos de confiar a cidade, sem mais discussão, sem sequer nos preocuparmos com o que pensam fazer. Dêmos-lhes carta branca para governarem. Consideremos apenas estes pontos: primeiro, que, se são mães, vão dar tudo pot tudo para salvarem os soldados; segundo, no que respeita à comida, quem mais solícito que uma mãe para reforçar uma ração?
Ninguém mais furão que uma mulher para arranjar umas massas; no poder, não há quem lhe faça o ninho atrás da orelha, porque a fazer o ninho atrás da orelha quem é que lhes leva a palma?!
Bom, adiante! Vão pelo que vos digo, que hão-de levar uma vidinha regalada.

Na verdade, o que efectivamente dizem na assembleia excluiu as partes que as podiam denegrir, ficando só as virtudes. E isso fica para o próximo postal.

28 junho 2007

«Igualdade e desigualdade da participação dos cidadãos nas magistraturas»

O problema de retirar citações do contexto é sabido: perde-se o seu verdadeiro significado.
Andando às voltas com a leitura da Política (como se percebe), encontro tanta coisa que gostaria de aqui apresentar, mas ficava com postais enormes de, apenas, citações de Aristóteles.
As suas análises dos diferentes regimes políticos, as suas subdivisões, as vantagens e desvantagens de cada um... enfim, interessante, muito interessante. Fica um cheirinho:

O maior bem é o fim visado pela ciência suprema entre todas, e a mais suprema de todas as ciências é o saber político. E o bem, em política, é a justiça que consiste no interesse comum. A opinião geral é de que a justiça consiste numa certa igualdade (...). Mas uma questão que não pode ser ignorada é saber em que consiste a igualdade e a desigualdade. Isto levanta uma dificuldade e implica uma filosofia política.
(...)
entre tocadores de flauta igualmente hábeis na sua arte, não seriam, de preferência os bem nascidos a ser dotados de flautas, pois não é o mais bem nascido que toca melhor; a quem desempenhar melhor o seu trabalho, deve ser dado o melhor instrumento.
(...)
a superioridade de riqueza e o bom nascimento deveriam contribuir para o desempenho dessa função, mas o facto é que não contribuem.
(...)
Sendo esta comensurabilidade impossível [comparar bens, como estatura e virtude, por exemplo], é evidente que, em questões políticas, torna-se razoável que a aspiração às magistraturas não se funde numa desigualdade qualquer. (...) a pretensão de magistraturas deve fundar-se nos elementos que compõem a cidade. É com razão que os bem nascidos, os livres e os ricos disputam as honras. Os que ocupam uma magistratura devem ser necessariamente livres e pagar impostos (uma cidade, com efeito, nunca poderia ser composta apenas por pobres e escravos). Mas se a riqueza e nascimento livre são elementos necessários, é evidente que também o são a justiça e o valor guerreiro sem os quais não é possível o governo da cidade.
Sem os dois primeiros elementos é impossível a existência da cidade, e sem os dois últimos é impossível a boa administração.
1282b15-1283a20

27 junho 2007

Tabernices III - Provocações: regimes políticos e sociedade

(esqueci-me ontem de relembrar que foi dia de Taberna. Este é o postal ali publicado)

Gosto muito de ler os Antigos.
Porém, quando transcrevo passos dos clássicos, não está em causa a concordância com o que dizem, mas a minha constante admiração pelas questões que já então colocavam. Gosto das provocações que nos fazem, mas não os podemos encarar como regra nem lei!


Aqui vai uma provocação extraída da Política, de Aristóteles, em edição bilingue, traduzido por António Capelo Amaral e Carlos de Carvalho Gomes , editado pela Vega em 1998, com prefácio e revisão literária de R.M. Rosado Fernandes.

Deve-se primeiro definir o que constitui a disposição para a realeza, para a aristocracia, e para o regime constitucional.
Assim, destina-se a ser governado por um rei o povo que, por natureza, produz uma família que, graças à sua virtude, dirige os assuntos políticos.
Destina-se ao regime aristocrático o povo que produz naturalmente um corpo de cidadãos capazes de serem governados como homens livres por chefes aptos, graças à sua virtude, para dirigir os negócios da cidade.
O povo destinado ao regime constitucional é aquele em que existe um corpo de indivíduos com capacidade militar, e que podem governar e serem governados conforme a lei que reparte as magistraturas entre cidadãos abastados e segundo as suas virtudes.
1288a6-15
E a democracia? interroguei-me. Respondeu-me:

Aquando da primeira investigação sobre os regimes, sublinhámos que existiam três regimes rectos, a saber: realeza, aristocracia e regime constitucional, e que eram igualmente três os desvios em que podiam incorrer, a saber: a tirania como desvio da realeza, a oligarquia como perversão da aristocracia, e a democracia como perversão do regime constitucional.
1289a25-30
Bem, isto não se fica por aqui. Para a semana conto o que entendia Aristóteles por democracia. E, para desanuviar, aqui fica uma salada grega, a horiatiki:

26 junho 2007

Amigo

(foto daqui)

E posto que a amizade encerre muitos e muito grandes proveitos, aquele que mais sobressai acima de todos é o facto de ela fazer nascer a luz de uma boa esperança no futuro e não consentir que os ânimos caiam em desalento e prostração.

Com efeito, quem olha para um amigo verdadeiro vê nele, por assim dizer, uma imagem de si mesmo. É por isso que os amigos, ainda que ausentes, estão presentes; ainda que pobres, têm abundância; ainda que fracos, são fortes.

Cícero, A Amizade, INIC/CECUC, Coimbra, 1993. Tradução de Sebastião Tavares de Pinho.
Parabéns, Amigo!

25 junho 2007

Blogue com Grelos


«O Prémio "Blogue com grelos" premeia mulheres que, na sua escrita, para além de mostrarem uma preocupação pelo mundo à sua volta, ainda conseguem dar um pouco de si, dos seus sentires e com isso tornar mais leve a vida dos outros. Mulheres, mães, profissionais que espalham a palavra de uma forma emotiva e cativante. Que nos falam da guerra mas também do amor. A escrita no feminino, em toda a net lusófona tem que ser distinguida»

E com esta descrição enviada pela Marta do Claras em Castelo fui nomeada. Tenho de agradecer-lhe o lembrar-se sempre de mim! Por isso não quebro a cadeia.

Agora tenho de nomear 5 mulheres, de blogues não colectivos, e enviar para o Blogue com Grelos, que reúne as nomeações.

Maria do Rosário, do Divas e Contrabaixos
Miriam, do A Mulher do Lado

23 junho 2007

Educação (Platão)

- Que queres dizer?
- Que quem é livre não deve aprender ciência alguma como uma escravatura. E que os esforços físicos, praticados à força, não causam mal algum ao corpo, ao passo que na alma não permanece nada que tenha entrado pela violência.


República, 536e

22 junho 2007

«Elas sou eu»

(imagem daqui)
Ontem fui ver uma comédia que me deixou muito bem disposta! Fui com uma amiga que estava com um espírito mais trágico e a quem não apetecia rir. Dizia ela. Mas rimos, rimos, rimos!
Eduardo Gaspar fez vários papéis divertidos, interagindo com o público e demonstrando uma extraordinária capacidade de improvisação!
One show man!
Como só está em cena à quinta-feira e termina a 5 de Julho, têm mais três oportunidade para o ver no Teatro-Estúdio Mário Viegas, ali coladinho ao S. Luís, na rua de baixo.
Vão ao site da Companhia Teatral do Chiado, registem-se como espectadores (gratuito) e pagarão 10 euros em vez de 15, podendo comprar os bilhetes que quiserem!
Aliás, não se compram logo: reservam-se e pagam-se à entrada.
Rir aliviou-me o espírito!

21 junho 2007

ginástica e alma - Séneca

Cultiva, portanto, em primeiro lugar a saúde da alma, e só em segundo lugar a do corpo; esta última, aliás, não te dará grande trabalho se o teu objectivo apenas for gozar de boa saúde.

(...) Pensa também que quanto mais volumoso for o corpo mais entravada e menos ágil se torna a alma. Por isso mesmo, limita quanto puderes o volume do teu corpo e dá o máximo espaço à tua alma!


Cartas a Lucílio, 15, 2.

19 junho 2007

ginástica e alma - Platão

- Então, que educação há-de ser? Será difícil achar uma que seja melhor do que a encontrada ao longo de anos - a ginástica para o corpo e a música para a alma?
- Será, efectivamente.

(República*, 376e. E depois de umas refutações, em 527b)

(...) a geometria é o conhecimento do que existe sempre.
-Portanto, meu caro, serviria para atrair a alma para a verdade e produzir o pensamento filosófico, que leva a começar a voltar o espírito para as alturas e não cá para baixo, como fazemos agora, sem dever.

*tradução de M.H. Rocha Pereira, para a Gulbenkian.

18 junho 2007

Prazer da velhice

(continuação)


Se a soubermos usar, a velhice é uma fonte de prazer.
Os frutos tornam-se mais agradáveis quando estão a ficar passados; é no seu termo que mais brilha a graça da infância; aos bebedores, o último copo é que dá mais prazer, aquele que culmina e dá o último impulso à embriaguez; aquilo que cada prazer tem de mais saboroso é guardado para o fim.


Séneca, Cartas a Lucílio, 12, 4-5.

Porto

Caros amigos,
Estou de visita rápida, rápida ao Porto. Vim matar saudades. Mas saio sempre daqui ainda mais saudosa...

15 junho 2007

Língua amarga...

A rectidão e a bondade, eis o que, em especial, cativa os corações;
A aspereza suscita o ódio e guerras cruéis.
Odiamos o falcão, pois vive sempre metido em guerras,
E os lobos, acostumados a atacar rebanhos amedrontados;
Mas vive livre das armadilhas dos homens, por ser mansa, a andorinha,
E a ave da Caónia* habita livremente as terras onde mora.
Longe daqui as contendas e os combates de uma língua amarga!

É de doces palavras que tem de sustentar-se a brandura do amor

* A pomba.

(Ovídio, Arte de Amar, II, 145-152)

14 junho 2007

Ovídio: exílio e poesia

Não sabe como ocupar a sua próxima quinta-feira?
Vá até à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e assista a este colóquio!
Inscrições gratuitas em centro.classicos@fl.ul.pt.

Ovídio: exílio e poesia no bimilenário da “relegatio”
2007. JUNHO. 21
Sala de sessões: Anfiteatro III / Fac. Letras / Lisboa

Programa:
09.30 - Abertura / Director do CEC - Ovídio: exílio, soledade e criação poética
10.00 - Aldo Luisi - La culpa silenda di Ovidio nel bimillenario dell’esilio.
10.45 - Nuno Júdice - Ovídio em português: exílios sem culpa
11.15 - Pausa / Café
11.45 - Carlos A. André - Ovídio no exílio: o poeta à defesa e a defesa do poeta
12.15 - Eduardo Vera Cruz - A pena de exílio no Direito Romano: a “relegatio”
12.45 - Discussão
13.00 - Almoço
15.30 - Paolo Fedeli - Ovídio leitor de Propércio: Amores
16.15 - Inês de Ornelas e Castro / Vanda Anastácio - Leitura de Ovídio na clausura: a Marquesa de Alorna
16.45 - Pausa / Café
17.15 - Ana Paula Correia - Episódios das Metamorfoses de Ovídio na azulejaria
18.00 - Cristina Santos Pinheiro - O paradigma da “orba mater” nas Metamorfoses
18.30 - Raul Rosado Fernandes - Ovídio, o poder imperial e as suas consequências
19.00 - Discussão
19.15 - Cristina Pimentel - Ovídio, em bimilenário: Síntese da Jornada Ovidiana

13 junho 2007

Da beleza

Como as folhas descoloridas dos lírios secam
e as pétalas das rosas com que se entretecem grinaldas murcham,
assim também o brilho que irradia da frescura do rosto
é arrebatado num momento e nenhum dia há que não
leve consigo um despojo do esbelto corpo.
A beleza é vantagem fugaz. Que sábio confia
num bem perecível? Enquanto podes, desfruta-o.

Séneca, Fedra, trad. de Ana Alexandra Alves de Sousa, para as Ed. 70.

11 junho 2007

Ir à terra... «indícios da minha velhice»

Esta era a expressão que usávamos, lá em casa, quando íamos a Talhadas, a terra do meu pai, ali para os lados de Sever do Vouga.
Como a minha mãe é de Lisboa, não dava muito jeito falar assim, até porque se via ( e vê) pouca terra por lá (mesmo indo de comboio, já este anunciava: pouca-terra, pouco-chão, pouca-terra, pouco-chão).
Fui à terra estes dias e lembrei-me de Séneca (que coisa! Sempre Séneca!):

Para onde quer que me vire, vejo indícios da minha velhice. Tinha ido à minha quinta nos arredores e queixava-me das despesas a fazer com uma casa em ruínas. O feitor diz-me que o mal não está em falta de cuidados seus, simplesmente a casa é velha.
Ora esta casa cresceu entre as minhas mãos: como não estarei eu, se tão podres estão estas pedras da minha idade? Irritado, a proveito a primeira ocasião para me zangar com o homem. «Parece» - digo-lhe eu - «que estes plátanos não estão cuidados. Não têm folhas nenhumas! Olha como os ramos estão nodosos e ressequidos, como os troncos estão macilentos e sujos! Isso não aconteceria se as árvores fossem escavadas e regadas!».
O homem jura pelo meu Génio que faz tudo o que é preciso, que toma todos os cuidados necessários: elas é que já são velhotas! Aqui entre nós, fora eu que as plantara, eu que vira brotar as suas primeiras folhas.

Virei-me para a porta. «Quem é este?» - perguntei. «Este velho decrépito que, com toda a razão, puseram junto da porta? Onde foste desencantar este indivíduo? Que ideia foi essa de ir buscar um morto que não é nosso?»
Diz-me o velho: «Então não me conheces? Eu sou Felicião, a quem tu costumavas oferecer bonecos, sou o filho do teu feitor Filosito, o teu companheiro preferido».
«Belo» - digo eu - «este está doido; catraio, e ainda por cima armado em meu companheiro preferido! Até está correcto: já lhe estão caindo todos os dentes!...»
Fico em dívida com a minha quinta: para onde quer que me virava fazia-me dar conta da minha velhice.
Pois abracemo-la, apreciemo-la: se a soubermos usar, a velhice é uma fonte de prazer.

(a continuar)


Séneca, Cartas a Lucílio, 12, 1-4. Tradução de J.A. Segurado Campos, em edição da Fundação Calouste Gulbenkian.

06 junho 2007

Eros

Eros, o mais belo entre os deuses imortais,
que amolece os membros, e a todos os deuses e a todos os homens
sujeita no peito o entendimento e a vontade consciente.

Hesíodo, Teogonia, tradução de Ana Elias Pinheiro, na INCM.

04 junho 2007

Filosofia Antiga

António Pedro Mesquita, coordenador do Projecto da Tradução Anotada das Obras de Aristóteles, publicou em Dezembro de 2006 um livro de que só agora tive conhecimento, por gentil oferta do seu autor (obrigada).
Pela estrutura, poderia ser usado em provas académicas para Professor Associado, pois segue os trâmites aí exigidos.
Mas, independente de qualquer uso que possa fazer deste excelente trabalho, ele não se fecha no seu autor. Antes pelo contrário.
Introdução ao Estudo da Filosofia Antiga (das Edições Colibri) é um livro muito prático para todos aqueles que pretendam ficar com os conteúdos da disciplina de Filosofia Antiga bem organizados: para quem a fez há muitos anos é bom; quem nunca a fez, pode partir dali para orientar o seu estudo individual, pois além dos conteúdos (não muito desenvolvidos, como é evidente, mas bem sistematizados), tem mapas, glossário de autores, quadros, algumas traduções de fragmentos, indicações úteis de ordem formal e uma excelente bibliografia.

01 junho 2007

de António Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.

29 maio 2007

Taberna

Hoje é dia de postal na Taberna. E está tão chique, tão chique, que a receita até está em francês!

28 maio 2007

Quanto custa um acento agudo numa palavra grave?

Mais de 5300 euros!
É verdade!
E merece, pois então!
Foi neste semana, penso que na quinta-feira, no «Um contra todos», um programa no canal 1 da RTP, em que se pedia para identificar, quanto à acentuação, a palavras «automóvel».

Não me lembro quantos erraram, mas lembro-me que o jogador principal comprou a resposta, pois sentia-se inseguro. Se não o tivesse feito, escolheria «agudo». Como comprou, reduziu em cinquenta por cento o valor que já tinha, que ultrapassava os 10600 euros.
Estes valores são virtuais, portanto não o incomodaram. Nem os incomodou (a ele e ao apresentador) o facto de não saberem o nome dos acentos. Ainda comentaram que era difícil.
Difícil?
Se pedissem para acentuar, ainda vá: há muitas dúvidas sobre onde colocar o acento.
Mas identificar uma palavra já acentuada?
Bem, como não quero parecer presunçosa e como os acentos estão bem cotados no mercado (5300 euros é bom dinheiro por um tracinho), segue-se uma pequena explicação.

O acento de uma palavra não tem de ser gráfico. Todas as palavras têm uma sílaba tónica (aquela sobre a qual recai o tom, aprendíamos nós), mas muitas não precisam de a grafar.
E qual é a sílaba tónica? Costumo ensinar que é aquela que prolongamos quando temos de a chamar. Imaginamos que temos de chamar a palavra... palavra: palaaaaaaaaaaavra.
Pronto. Esta é a tónica! E é grave (ou paroxítona), porque é a penúltima (ou a segunda a contar do fim): pa-la-vra.
Não leva acento gráfico, porque os vocábulos portugueses são tendencialmente graves.
Já a palavra que estava em causa no jogo televisivo, «automóvel», sendo também grave , precisa de um acento (agudo - aquele que inclinamos para a direita), pois termina em -l.
Isto porque as palavras que terminam em l, n, r, x, bem como em a, e, o (abertos), i, u (com ou sem s), são naturalmente agudas.
Assim, não precisam de acento palavras como caril, cantar, funil, porque são agudas, mas já é necessário em fácil, éden ou carácter, que são graves.

Fico por aqui. 5300 euros já me dão um jeitão!

26 maio 2007

Meme

As últimas atribulações não me têm dado muito tempo para navergar nos blogues que gosto e, por isso, só hoje vi o convite da Teresa C. para deixar aqui um meme.

Na verdade, acho que costumo deixar aqui muitos, e por isso, é com todo o prazer que acrescento mais um:

Aquele qua nada conhece, nada ama.
Aquele que não é capaz de nada, nada compreende.
Aquele que nada compreende é inútil.
Mas aquele que compreende também ama, repara e vê. (...)
Quanto mais conhecimento existe de uma coisa, maior é o amor...
Quem imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo que os morangos não percebe nada de uvas.

Paracelso
(em epígrafe ao livro de Eric Fromm, de 1956, A Arte de Amar, publicado pela Pergaminho em 2002)

Como é suposto pedir «memes» a mais seis bloguistas, aqui vão uns amigos que sei que têm memes bons para nos dar:

Marta, do
Claras em Castelo
Miguel, do
Heart of Saturday Night
Sara, do Apenas Eu
Mirian, do
A Mulher do Lado
Teresa, do Pedra sobre Pedra
Damularussa (Desculpa, mas não sei o teu nome, amiga!)

«Um "meme" é um "gene ou gene cultural" que envolve um conhecimento que é passado a outros contemporâneos ou aos descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma. Simplificando: é um comentário, uma frase, uma ideia que rapidamente é propagada pela Web, usualmente por meio de blogues. O neologismo "memes" foi criado por Richard Dawkins pela semelhança fonética com o termo "genes”. »

25 maio 2007

Herança Mediterrânica

Eu devia estar aqui...... mas uma indisposição impediu-me.
Se está perto de Cacela, vá até lá e diga que fica com a minha vaga, dado que as inscrições eram limitadas.

24 maio 2007

A virtude

A virtude não virá, nem por dom da natureza, nem será matéria passível de ser ensinada. Chegará, antes, por fado dos deuses, àqueles em que ela existe, sem saberem.

Platão, Ménon, 99e
(Tradução de Ernesto Rodrigues Gomes, para GEC Publicações, em 1986)

22 maio 2007

E ela celebrava o dia dos meus anos

(nós as duas, no dia dos seus anos, em Outubro de 2006)

A 22 de Maio de 1952 morria a Adrianinha, minha irmã mais velha, a primeira filha que a minha mãe teve, em Outubro de 1946, um ano após o casamento (pós-guerra, Setembro de 1945).
Durante anos ela ia ao cemitério por flores.
Mais dois filhos. Mais dois mortos, à nascença.
Depois, chegámos «nós, os quatro macacos», como ela dizia a rir (os naturais do Bombarral são macacos, assim como os de Lisboa alfacinhas). O meu irmão João já partiu, vai fazer 5 anos. Restamos três.
Já tinha ela três filhos (seis partos), quando aos 42 anos engravida de novo. Foi o resultado das saudades de uma viagem a Itália com uma tia, opinava eu (para implicar com ela), durante a qual o meu pai e minha avó ficaram a tomar conta das crianças.
O fim do tempo era em Junho.
Maio aproxima-se.
Ela enerva-se: «E se nasce antes do tempo? E se nasce a 22 de Maio?»
22 de Maio era o dia da ida ao cemitério, de limpar e de pôr flores na campa da Adrianinha.
Nervos acumulados, preces «que ela não nasça a 22 de Maio, que ela não nasça a 22 de Maio», mas de nada serviu.
A 22 de Maio, mal o sol despontava, eu nascia!
Igual à outra.
Quanto ao nome, muitas indecisões. Está bem, que fique com o mesmo nome.
A grande diferença foram as idas ao cemitério que nunca mais se fizeram a 22 de Maio.
Nesse dia havia festa, prendinhas, amigos pela casa, muita alegria.
Conseguiu sempre esconder qualquer tristeza que lhe pudesse toldar os olhos, ocupada como estava a fazer os bolos e a assegurar-se de que a festa era sempre um sucesso.
Nesse dia ela celebrava o dia dos meus anos.
Parabéns à minha mãe!

(sim, é verdade, o título é inspirado em A. Campos)

Taberna

Hoje há bolo na Taberna!

21 maio 2007

Como citar a Bíblia

Nunca pensei um dia ter de ensinar como consultar e citar a Bíblia.
Contudo, nas aulas de Matrizes Culturais Europeias, onde a Bíblia não pode deixar de ser um dos livros a ler (ou, pelo menos, a ir lendo) e a saber consultar, verifiquei que alguns alunos nunca tinham sequer aberto uma bíblia (não vou falar das implicações que isto tem no entendimento do mundo actual) nem, naturalmente, a sabiam consultar.
Ora bem, aqui já se disse
como citar Platão, como citar poesia grega e latina (numa próxima segue-se «como citar Aristóteles») e agora temos «como citar a Bíblia».
A Bíblia é composta por vários livros que, por sua vez, estão divididos em capítulos e estes em versículos.
A numeração da página que cada edição tem não serve de referência, mas sim a indicação do nome do livro e o número do capítulo e do(s) versículo(s).
O nome dos livros tem uma forma abreviada por que é conhecido e que se encontra numa lista no início da Bíblia. Podem ter numeração romana, quando se dividem em mais do que um.
Os capítulos têm nomes que ajudam a reconhecer o assunto.
Os versículos são marcados por numeração árabe que surge antes de cada um deles. Cada versículo conter uma ou mais frases, ou apenas frases e períodos parciais, dado que foram divisões introduzidas com alguma arbitrariedade.
A edição que uso é a dos Missionários Capuchinhos, da Difusora Bíblica. Algumas destas indicações que se seguem são comuns à maioria das bíblias:

No cabeçalho de cada página surge o nome do livro, bem como o número do capítulo, ajudando assim a situar o que se procura.
No corpo do texto, o capítulo (tanto o número como o nome) aparece em negrito e os versículos em tamanho muito mais reduzido (como tentei reproduzir aqui, sem muito sucesso).

Assim, se eu escrever Cant.I. 1, 2-3, é suposto que se leia «Primeiro Cântico dos Cânticos, capítulo 1, versículos 2 e 3» e que, em qualquer parte do mundo e em qualquer língua, se reconheçam estas palavras:

2 Ah! Beija-me com ósculos da tua boca!
Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho,
3 e suave é a fragância dos teus perfumes;
o teu nome é como perfume derramado:
Por isso te amam as donzelas.

Boas leituras!

20 maio 2007

Blogue do Cineclube de Faro


Não costumo escrever postais sobre blogues (se bem que o deveria fazer. Qualquer dia comento alguns de que gosto especialmente), mas este merece destaque.
Falo do novo blogue do Cineclube de Faro, apresentado na passada sexta-feira, no Teatro das Figuras, em Faro.
Este cineclube é mesmo especial!
Fez no ano passado 50 anos de existência ininterrupta e, pelo menos desde que me fiz sócia, com uma programação excelente e actividades cativantes.

Na sexta-feira encerrou o ciclo das comemorações do aniversário com a exibição do filme Dom Roberto, de Ernesto de Sousa, produzido pela Companhia do Espectador, isto é, um grupo formado por sócios de cineclubes.
Na mesma linha, o cineclube de Faro conduziu uma subscrição junto dos seus sócios para que custeassem a obra.
E assim foi. Devido à contribuição de de 41 sócios a encomenda foi feita e pudemos ver e ouvir a belíssima Suite para Dom Roberto de Bernardo Sassetti Trio. Um magnífico espectáculo!

O filme é lindo! A preto e branco, de uma ternura infinita!
Cheio de nomes conhecidos hoje por todos, bem jovenzinhos naquela altura, dei por mim a fazer uma coisa a que acho graça: tentar reconhecê-los ali e ver nestes as mudanças que a idade trouxe.
Raul Solnado estava igual, bem como Adelaide João e Nicolau Breyner. Glicínia Quartim era linda em jovem e aquele que eu mais procurava, Rui Mendes, cujo nome vira nos créditos, nada de aparecer. Até que um grande plano me satisfez a curiosidade: fazia o papel de um rufia de bairro, cabelo à Elvis, gola da camisa levantada e mangas arregaçadas! Irreconhecível! Só mesmo um plano do rosto me fez ver como era! Lindo!

O filme foi às 18, o concerto às 21.30 (bem... às 22, pois a nossa querida Anabela Moutinho fez uma emocionada e emocionante introdução) e, no fim, tivemos um «rebuçado»: uma pequena rábula de teatro de fantoches, por um bonecreiro à antiga, que não quer deixar morrer Dom Roberto!

Lindo, lindo!

19 maio 2007

A beleza é um bem frágil...

Apesar de Ovídio achar que todas as mulheres podem ser apanhadas nas redes dos homens (e que estão cheias de vontade que tal aconteça - ideia que me repugna aceitar), também diz coisas como estas:

A beleza é um bem frágil; à medida que vão avançando os anos,
Vai diminuindo e, por força da idade, vai murchando;
Não ficam todo o tempo em flor as violetas nem os lírios de pétalas abertas,
E a roseira, depois de cair a flor, enrijece os espinhos, que é o que lhe resta.
Também a ti, ó jovem esbelto, te hão-de chegar os cabelos brancos,
E logo virão as rugas sulcar-te o corpo.


Ovídio, Arte de Amar, II, 113-118 - espero que os meus alunos de Latim estejam a reconhecer o teste da passada quinta-feira)

17 maio 2007

Amizade bretã

Acabei de receber este poema, enviado por uma amiga «bretonne».
Pour toi aussi, Gwen!

«Paul Eluard pour toi ce soir ... »

La Courbe de tes yeux

La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
Et si je ne sais plus tout ce que j'ai vécu
C'est que tes yeux ne m'ont pas toujours vu.
Feuilles de jour et mousse de rosée,

Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs,
Parfums éclos d'une couvée d'aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards.

15 maio 2007

Convencido, este Ovídio!

Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas
podem ser conquistadas; e vais conquistá-las; basta que estendas as redes.
(Ovídio, Arte de Amar, I, 269-270)

Só está perdoado porque também escreveu isto...

14 maio 2007

Ícaro

(The lament for Icarus - H.J. Draper - 1989)


Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segregado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.

(Sebastião Alba, A Noite Dividida, Lisboa, Assírio & Alvim, 1996)

10 maio 2007

Regras gramaticais...


Na terça-feira, dia 8, ouvi Ivo de Castro no canal 2, num programa da Universidade Aberta. A propósito das regras gramaticais, este Professor Catedrático de Linguística referiu o largo espectro que medeia entre o erro e a forma mais elevada de expressão na Língua Portuguesa, referindo que essa forma é a usada pelos escritores. Mas logo, matreiro, contou uma anedota que nos põe a pensar...

Encontrando um dia o já clássico Augusto Abelaira, este confessou-lhe ter produzido um texto que, depois, ao ser relido, lhe levantou dúvidas quanto a uma determinada construção. Para sanar a questão, Abelaira fora consultar a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Sintra. Procurara e encontrara: a construção que estava a usar e da qual duvidara estava atestada na gramática, tendo como base o uso literário de um autor consagrado. Era esse autor... Augusto Abelaira!
Ivo de Castro relatou esta conversa a Celso Cunha que terá dito: «Se eu soubesse, não o tinha usado para aquele exemplo».
Quem faz as normas? As regras? As excepções?
Vou ter muito em que pensar nos próximos tempos...

09 maio 2007

Valor próprio

Se quiseres saber quanto vales não atendas aos teus rendimentos, à tua casa ou à tua posição social, olha sim para dentro de ti, em vez de, como agora, acreditares no valor que os outros te atribuem!

Séneca, Cartas a Lucílio, 80, 10.

08 maio 2007

(foi hoje)

Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certezade que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.


(Eugénio de Andrade)

Na Taberna...

Hoje é dia de fazer um postal na Taberna dos Inconformados.
Convido-vos para um leite-creme!

07 maio 2007

Fecho da «Biblioteca Apostolica Vaticana» por três anos

(imagem do site da Vaticana)
Esta notícia que corre entre os classicistas (através de uma mailing list de paleógrafos) pode interessar àqueles que pensavam consultar, em breve, alguma obra nesta biblioteca:

«A brief email in order to spread the announcement put up at the Biblioteca Apostolica Vaticana last Friday.
In June 2007, the Biblioteca will close its doors for a period of three years.
However, this closing does not concern the Archivio Segreto Vaticano.
Please pass this announcement on to the persons who could be affected.»

Fui ao site da Vaticana, mas o botão «Information» da barra de ferramentas não funcionou, não podendo assim confirmar a notícia.
Passo, à confiança.

06 maio 2007

Ute Lemper: um espectáculo!


(imagem daqui)
Ontem fui ver Ute Lemper.
Ver... que verbo mais apropriado!
Quando vamos «ouvir» um músico ao vivo, costumamos dizer «fui ver». É verdade que vemos, mas em muitos casos isso acontece apenas porque estamos ali de olhos aberto, pois se os fechássemos pouco ou nada perderíamos.
Ontem não.
A Ute Lemper é um espectáculo!
Tinha-a visto num Festival de Edimburgo há muitos anos atrás, quando o seu repertório era mais... «clássico», digamos assim: mais Kurt Weil, menos Jazz.
Ontem adorei vê-la e ouvi-la! O modo como transita entre canções, o modo como muda a língua em que canta (ora francês, ora inglês, ora alemão... e até iídiche!), o modo como nos envolve na sua viagem, como ela define o espectáculo!
Durante hora e meia estive de olhos pregados naqueles músicos, a mexer-me na cadeira, balançando o corpo ao som dos ritmos que se produziam no palco, encolhendo-me nos momentos mais íntimos, rindo nas alturas de humor, assobiando «Die Moritar Von Mackin Messer», e batendo palmas desalmadamente!
Ela falava em viagem... será que é a isto que se chama uma «trip»?

04 maio 2007

Filosofia de iogurte

(surripiei a imagem daqui)
Li recentemente na tampa de um iogurte pendurada num frigorífico (não, não era colada nem tinha íman. Era mesmo pendurada! Com molas e tudo! E um dia destes ainda falo, precisamente, da filosofia de frigorífico...) uma frase assim parecida:
«É feliz aquele que se julga feliz»
Grande verdade. Ouve-se: «Não me amas. Apenas julgas que me amas». E eu pergunto: «Qual é a diferença?»
Em relação a muitas coisas, aquilo que achamos, a nossa opinião, não equivale à realidade: se eu achar que estou macérrima e o meu peso, segundo as tabelas da organização mundial de saúde, indicar que estou obesa, aquilo que eu acho não é a realidade. Mas, em muitos casos, principalmente no que respeita a sentimentos, a opinião equivale ao ser.
Deste modo, se acho que amo, então amo.
Faz-me lembrar Protágoras, quando diz que «cada coisa é para mim do modo que a mim me parece; por outro lado, é para ti do modo que a ti te parece»*.

É assim a filosofia do iogurte.

*(Platão, Teeteto, 152a, Fundação Calouste Gulbenkian, 2005. Tradução minha)

03 maio 2007

Relendo Heródoto...

Adimanto, filho de Ócito, o comandante de Corinto, exclamou:
«Temístocles, nos concursos, os que partem antes do sinal ser dado são penalizados».
Ao que, em sua defesa, lhe respondeu o general ateniense:
«Mas os que ficam para trás não recebem a coroa da vitória».

Heródoto, 8. 59
(tradução de José Ribeiro Ferreira e Carmen Leal Soares para as edições 70)

27 abril 2007

Agora em Faro...

(tirei a foto daqui)
... podem ver O Amor dos Outros!
No Clube Farense, ali na rua de Santo António, até amanhã. Estejam lá às 21.30 e levem uma bebida para a mesa.
Fui ontem assitir pela segunda vez! Já
tinha visto em Olhão, mas a expectativa (estúpida, é verdade) de ver algo chocante (como me disseram que talvez fosse) não me deixou apreciar devidamente o espectáculo.
Desta vez «curti-o» de fio a pavio e reitero a belíssima interpretação do João Evaristo, na encenação de Paulo Moreira.
Um espectáculo que, de uma forma divertida, aborda sem preconceitos o amor... dos outros!

25 de Abril

Não me esqueci do 25 de Abril, claro! Apenas passei o dia em liberdade!

24 abril 2007

ensino/aprendizagem

Refugia-te em ti próprio quanto puderes; dá-te com aqueles que te possam tornar melhor, convive com aqueles que tu possas tornar melhores.
Há que usar de reciprocidade: enquanto se ensina aprende-se também.
Séneca, p.16

18 abril 2007

Estaremos embriagados?

Os corações mortais são mais rápidos a preferir um
ganho habilidoso do que um acto justo,
mesmo que depois fiquem
sóbrios.

Píndaro, Odes Píticas, Prime Books, Lisboa 2006. Tradução do grego e notas de António de Castro Caeiro.

17 abril 2007

A propósito da (não) lavagem do bule do chá...

Eu tinha-te dito que o bule não se lavava... aliás, eu nem a minha chávena lavo. Explico melhor: claro que lavo, mas sem detergente. Explico ainda melhor: tenho um bule e uma caneca aos quais dou este tratamento. Isto porque tomo sempre o mesmo tipo de chá por lá.
Quando vario, uso outro bule e outras chávenas...
Boa técnica, não é?
No outro dia não acreditaste em mim e, como não tinha argumento de autoridade para te convencer, andei à procura num livro...
Olha, vai ver a Taberna dos Inconformados!

15 abril 2007

Só?? Eles lá me conhecem...



You Are 52% Impulsive



You're quite impulsive, but you never are reckless.

You qualify as a very spontaneous person, but you still know how to honor your commitments.

And while responsibility doesn't come easy to you, having fun does!

13 abril 2007

Ai de quem estragar algum livro meu!

Estou a ler um livro interessante do Lionel Casson (que já conhecia do velho Ships and Seamanship in the Ancient World), de 2001, editado pela Yale University Press, intitulado Libraries in the Ancient World.
Na primeira parte, sobre a Mesopotâmia, Casson explica como estava organizada a biblioteca de Assurbanípal. E deu-me mais umas ideias para pragas a rogar a quem não devolve ou estraga livros emprestados!

Entre várias mais curtinhas e menos amedrontadoras, como
Aquele que receia Anu e Antu cuidará e respeitará estas tabuinhas
encontrei esta grande maldição (que, à falta de conhecimento de assírio, vai em inglês), na qual se percebe algumas técnicas dos ladrões de bibliotecas da época e a vantagem do politeísmo:


He who breaks this tablet or puts it in water or rubs it until you cannot recognize it [and] cannot make it be understood, may Ashur, Sin, Shamash, Adad and Ishtar, Bel, Nergal, Ishtar of Nineveh, Ishtar of Arbela, Ishtar of Bit Kidmurri, the gods of heaven and earth and the gods of Assyria, may all these curse him with a curse which cannot be relieved, terrible and merciless, as long as he lives, may they let his name, his seed, be carried off from the land, may they put his flesh in a dog's mouth!

E, mesmo assim, eles lá roubavam...

12 abril 2007

Tu dizes: voltarei...

Comprei em Nova Iorque um livro de postais intitulado «Poetry in Motion», editados por uma cooperação entre o New York City Transit e a Poetry Society of America, em 1996, numa iniciativa que decorou os autocarros daquela cidade com as palavras dos poetas.
Como cada poema não podia ser enviado para ser lido ao acaso por qualquer pessoa, uns ainda aqui estão, à espera do destinatário, outros já seguiram o seu caminho...

Komo to yu mo
Konu toki aru wo
Koji to yu wo
Komu to wa mataji
Koji to yu mono wo

You Say, "I Will Come"
And you do not come.
Now you say, "I will not come."
So I shall expect you.
Have I learned to understand you?


Lady Otomo No Sakanoe (séc. VIII).
Traduzido do Japonês por Kenneth Rexroth.

11 abril 2007

Finalmente! Um teste que não mente!

Destes testes é que eu gosto! Eh!Eh!Eh! Estou a ficar viciada! Principalmente quando (e porque) os resultados me agradam...



Your Dominant Intelligence is Linguistic Intelligence



You are excellent with words and language. You explain yourself well.
An elegant speaker, you can converse well with anyone on the fly.
You are also good at remembering information and convicing someone of your point of view.
A master of creative phrasing and unique words, you enjoy expanding your vocabulary.

You would make a fantastic poet, journalist, writer, teacher, lawyer, politician, or translator.

07 abril 2007

Eu bem sabia!




You Are a Realist



You don't see the glass as half empty or half full. You see what's exactly in the glass.
You never try to make a bad situation seem better than it is...
But you also never sabotage any good things you have going on.
You are brutally honest in your assessments of situations - and this always seems to help you cope.

04 abril 2007

Amizade...

(...) sem amizade não há vida, pelo menos se quiserem uma vida de algum modo digna de homens livres.
Cícero, A Amizade, XXIII.86

03 abril 2007

01 abril 2007

Perfeccionista?? Eu?

Com a falta de tempo e ausência do espaço normal... deixo aqui mais um teste porque é fácil de publicar... Eh! Eh!



You Are 41% Perfectionist



No one would call you a perfectionist, but you definitely have a side of you that strives to be perfect.

Try to see your mistakes as learning experiences, and don't be so hard on yourself when you screw up!

29 março 2007

Não sou...

... mas ainda posso vir a ser!
É bom vermos que temos perfil para muitas coisas!

Your Career Personality: Brainy, Logical, and Efficient

Your Ideal Careers:

Archeologist
Astronomer
Book editor
Business manager
Civil engineer
Designer
Economist
Inventor
Judge
Scientist

28 março 2007

Liberdade de expressão


Fiquei profundamente chocada com o post do Miguel Castel-Branco, do Combustões. Quatro ameaças de morte! Inadmissível!
Se algo conquistámos com a democracia foi a liberdade de expressão e o não sermos presos, torturados ou mortos pelas ideias que defendemos.
O Miguel é autor de um dos blogues mais interessantes. Apesar de não concordar com muito do que defende, aprecio a sua prosa clara, a coerência das suas ideias, o apuro da sua cultura e, acima de tudo, a sua liberdade, como afirma no blogue.
Sei que sabe defender-se, mas quero, ainda assim, manifestar aqui a minha solidariedade para com ele.

Intuitiva, eu?

You Are 44% Intuitive

Your intuition is often right, and you use it more than you may realize.
Your gut feelings are usually a good guide, but you need more to go on when making a decision.
You'll often check to see if the facts back up your feelings.
And when your intuition is wrong, you work to improve it for the future.

27 março 2007

Não tenham medo do particípio passado!

O postal com este nome está publicado na Taberna dos Inconformados, o blogue onde sirvo à mesa à terça-feira. Vão até lá e bebam um copo!

26 março 2007

Felizes os que acreditam...

Your Personality is Somewhat Rare (ISFP)

Your personality type is caring, peaceful, artistic, and calm.

Only about 7% of all people have your personality, including 8% of all women and 6% of all men
You are Introverted, Sensing, Feeling, and Perceiving.
(Fui buscar ao Miguel, que tem uma personalidade rara... ai que inveja!)

25 março 2007

A brevidade da vida...

A existência humana é um ponto, é menos de um ponto.
(...)
Por isso mesmo me causa indignação ver como as pessoas gastam em futilidades a maior parte de uma vida que, mesmo dispendida com a maior parcimónia, não seria bastante para as coisas essenciais.

24 março 2007

Diz Séneca... sobre o tempo

O tempo ilude quem se aplica ao momento presente, de tal modo é insensível a passagem do seu curso vertiginoso. Queres saber porquê? Porque todo o tempo passado se acumula num mesmo lugar; todo o passado é contemplado em bloco, forma uma totalidade; todo ele se precipita no mesmo abismo.

Cartas a Lucílio, 49.2-3.