04 agosto 2007

Blogues em Livro

Entre o Sol e as Brumas colocou-me entre aqueles blogues que gostaria de ler em livro. Na verdade, e não é falsa modéstia, não me parece que a Senhora Sócrates em livro tivesse muita graça (o que não quer dizer que um livro da Senhora Sócrates não a tivesse).
Estes, eu gostava de folhear:


(foto daqui)
O epistolário do
André.
A ficção da
Marta.
As opiniões políticas (de polites - cidadão) do
Miguel Castelo-Branco.
Os devaneios do
Nuno.
As traduções de grego moderno da
Charlotte.
Os
delírios do António.
As conversas e os pensamentos catatónicos do
Ivar.
As fotografias do
JB.
O livro não anunciado do
Américo de Sousa.
A prosa quotidiana do
Zé Bandeira.
A e-scripta do
JS.
Os escritos do Miguel Ceia.

E mais, e mais, e mais, mas passavam os 12 pedidos...

03 agosto 2007

The Last Temptation of Christ - The script

(A pedido de várias famílias, aqui vai o excerto referido ontem)
Screenplay by Paul Schrader, based on a novel by Nikos Kazantzakis

PAUL

I used to be a sinner. The worst sinner. I did everything. Whored, drank, murdered. I killed anyone who violated the Law of Moses. Then, I was struck by a burning light and a voice called to me, 'Saul, why are you persecuting me? Why are you against me?' 'Who are you?' I said. 'Jesus,' the voice said, and he gave me my sight. I opened my eyes and I was baptized and became Paul. I bring the good news to every country.

Jesus comes closer, the Angel by his side.

PAUL

I bring this news. About Jesus of Nazareth. He wasn't the son of Mary, he was the son of God. His mother was a virgin. The angel Gabriel came to earth and put God's seed in her womb. That's how he was born. He took on our sins, he was tortured, crucified - but three days later he rose again and was taken up to heaven. Death was conquered, praise God! Death was conquered, sins were forgiven and the Kingdom of Heaven's now open to everyone.

Jesus can restrain himself no longer. He calls out:

JESUS
Did you ever see this resurrected Jesus of Nazareth? I mean, with your own eyes?

PAUL
No. But I saw a blinding flash of light and I heard his voice.

JESUS
You're a liar!

PAUL
His disciples saw him. They were hiding in an attic with the doors locked when suddenly he appeared. Only one, Thomas, wasn't convinced but he put his fingers in his wounds and gave Jesus some fish, which he ate.

JESUS
Liar!

(to people around him)
He's a liar!

Disgusted, Jesus turns and walks away. His angel follows. In the background, Paul comes after him. Jesus feels Paul's footsteps drawing closer. He's about to explode. Suddenly, he turns on his heel, grabs Paul by the shoulders and shakes him violently.

JESUS (continuing)
You're a liar! I'm Jesus of Nazareth. I was never crucified. I never came back from the dead. I'm a man like everyone else. Why are you spreading these lies?

ANGEL
Quiet.

PAUL
What are you talking about?

JESUS
I'm the son of Mary and Joseph, who preached in Galilee. James and John, the sons of Zebedee, were my disciples. We marched on Jerusalem, they brought me before Pilate, but God saved me.

Jesus' Angel doesn't like this conversation; he tugs violently at his sleeve. Jesus shoves him aside. Paul takes Jesus around a corner where they won't be seen.

PAUL
No he didn't!

JESUS
Now I live like a man. I have a family. I eat, work, have children. Do you understand what I'm saying? Don't go around the world spreading these lies about me. (shouts) Because, I'll tell everyone the truth.

Now it's Paul's turn to explode:
PAUL
Look around you! Look at these people. Do you see the suffering and unhappiness in this world? Their only hope is the Resurrected Jesus. I don't care whether you're Jesus or not. The Resurrected Jesus will save the world - that's what matters.

JESUS
The world can't be saved by lies.

PAUL
I created the truth. I make it out of longing and faith. I don't struggle to find truth -I build it. If it's necessary to crucify you to save the world, then I'll crucify you. And I'll resurrect you too, whether you like it or not.
JESUS
I won't let you. I'll tell everyone the truth.

PAUL
Shout all you want. Who'll believe you? You started all this, now it can't be stopped. The faithful will grab you and call you a blasphemer and throw you in a fire.

JESUS
No, that wouldn't happen.

PAUL
How do you know? You don't know how much people need God. You don't know what a joy it is to hold the cross, to put hope in the hearts of men, to suffer, to be killed - all for the sake of Christ. Jesus Christ. Jesus of Nazareth, Son of God. Messiah.

Jesus is listening intently now.

PAUL (continuing)
Not you. Not for your sake. (pause) I'm glad I met you. Now I can forget you. My Jesus is much more powerful.

Paul returns to the townsquare to preach. Jesus, exhausted, dazed, starts back toward his house. The Guardian Angel faithfully follows.

02 agosto 2007

Felizes os pobres de espírito

Instaste-me a comentar aqui o teu postal, caríssimo Miguel.
Sabes que gosto de te ler e das coisas que escreves e o meu comentário não será grande, até porque a última coisa de que tenho vontade é de discutir a existência de algum tipo de deus. É, de facto, um assunto que não me ocupa minimamente o espírito.
Sempre que se fala nisso lembro-me do filme A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese. Estive a ver se encontrava o guião e, ao lê-lo, fiquei contente por me lembrar bastante bem da parte que aqui queria referir: quando S. Paulo encontra Jesus e lhe diz que a fé que as pessoas têm é superior à própria existência daquele homem que diz ser Jesus, termina afirmando:
«I'm glad I met you. Now I can forget you. My Jesus is much more powerful.»

Quanto aos «pobres de espírito», «feeble minded» não é uma boa tradução. Essa é a tua tradução inglesa do texto português. Pode ter sido escrito originalmente em aramaico, mas o que possuímos são textos gregos. E aí está escrito: μακάροι οι πτωχοι τω πνεύματι (não sei fazer todos os acentos aqui) - felizes os pobres (pobres mesmo, miseráveis, pedintes) de espírito.
A interpretação tradicional segue este raciocínio: um pobre é o que não tem; se não tem, está vazio; se está vazio tem lugar, tem espaço. Espaço onde? No seu espírito. Para quê? Para perceber e receber Deus.
De resto, esta explicação em nada invalida o teu raciocínio. Apenas corrige que o Reino de Deus é para quem tem lugar para ele...
Beijinhos!

01 agosto 2007

Rosslyn Chapel

(imagem daqui)

Estive no Domingo, amiga, no local do qual me falaste, pela primeira vez, naquela tua sala de Chelsea. Era o teu amor pelas pedras que te fazia vibrar ao falares dos pedreiros portugueses que aí teriam trabalhado. Conversas longínquas... já lá vão quase 20 anos... um duende, o homem da caligrafia... conversas estranhas na minha memória.
Sempre quis ir ver a «tua» capela. Tive uma bela companhia, mas faltaram-nos as tuas explicações: fizeste falta para entender todos os pormenores, para usufruirmos do teu conhecimento e forma única de o expressar.
Vamos lá um dia juntas?

30 julho 2007

Livros, livros, livros (2)

Se gostaram daquele, leiam só a descrição deste:
«Tracing the social, political, and cultural influences that informed classical thinking about pity and superstition, nature and divine, Inventing Superstition exposes the manipulation of the label of superstition in arguments between Greek and Roman intellectuals on the one hand and Christians on the other, and the purposeful alteration of the idea by Neoplatonic philosophers and Christian apologists in late antiquity»

- Inventing Superstition - from the Hippocratics to the Christians, de Dale B. Martin, publicado em 2004 pela Harvard University Press.
Já comecei a ler e estou a gostar muito!
Empréstimos? Só é permitida leitura no local...

28 julho 2007

Livros, livros, livros

I'm affraid to say... it's 222,82 pounds...
A empregada da livraria estava surpreendida pelo valor gasto em livros. Eu andei a poupar para isso mesmo e estou muito contente com as minhas compras!

Vamos a um:
- Sanctuaries and the Sacred in Ancient Grek World, de John Pedley, publicado pela Cambridge University Press, em 2005. A descrição (e o cheirinho do que li antes de comprar) convenceu-me:
«This book explores the variety of ancient Greek sanctuaries - their settings, spaces, shapes, and structures - and the rituals associated with them, such as festivals and processions, sacrifice and libation, dining and drinking, prayer and offering, dance, initiation, consultation, and purification. (...)»

Como? Também queres? Está bem, eu depois deixo-te ler... mas não te empresto, senão, só o volto a ver se o for visitar a tua casa...

27 julho 2007

Jogos Florais

Ela: Podíamos chamar «Concurso de poesia»... mas não tem apenas poesia.... gostas de «Jogos Florais»? Não é foleiro?
Eu: Gosto. Acho que é uma forma antiga que transmite exactamente o que as palavras querem dizer no seu sentido mais original.
Ela: Sim?
Eu: Anthos, em grego, quer dizer flor. Encontras em palavras como crisântemo, por exemplo (chrysos - ouro + anthos). O verbo lego, em grego, quer dizer muita coisa. A mais comum é dizer, mas um dos sentidos mais antigos é escolher. Assim, uma Antologia é uma escolha de flores, isto é, das melhores composições de um determinado autor, de um determinado tema, etc.
Ela: Que giro!
Eu: Antologia é equivalente a Florilégio. Enquanto que aquela palavra vem do grego, esta vem do latim: flos, floris quer dizer flor e, de novo, o verbo lego, que em latim significa ler, mas também escolher.
Ela: Convenceste-me (risos). Vamos, então, manter «Jogos Florais»!

24 julho 2007

Problema técnico no blogue

Não sei o que se passa, mas só consigo escrever em html. Fiz um copy-paste do código para a cor azul, pois desapareceu-me a possibilidade de mudar a fonte e a cor da fonte.
Alguém sabe como se resolve isto?
Obrigada!

23 julho 2007

Memórias

Hoje faz anos o meu sobrinho João. Só João. Isto é, João e apelidos. Como eu um dia disse a uma tia: «Chama-se João apelidos.» «João Euclides? Onde foram desencantar esse nome?»
Jones, Jones Faria, João Pequenino, João Médio (esta é minha: João Grande era o meu irmão mais velho. Quando teve um filho, João Filipe, passou a ser o João Pequenino. Como este João já era o Pequenino, passei a referir-me a ele como João Médio. Confusos?)...
O meu João Faria vive para os lados de Aveiro e é músico. Sempre foi muito esperto e muito criativo.
Um dia, estávamos nós nas Caldas da Rainha (onde ele nasceu e viveu), deveria ter uns 4 ou 5 anos (e eu 15 ou 16), quando o Puto João diz: «Ó mãe, quero fazer xixi!»
Mãe? Enganara-se e eu apressei-me a corrigir, incomodada com a ideia que pensassem naquele estabelecimento comercial onde nos encontrávamos que eu já seria mãe de uma criança daquela idade:
«Mãe, não, tia. Sou tua tia.»
Não sei se percebeu o meu desconforto perante a ideia de ser mãe, mas a verdade é que fez um ar malandro e insistiu:
«És minha mãe, és! És minha mãe!»
«Não sou! Sou tia!»
«Mãe! Mãe! Mãe! Quero fazer xixi!»
Perante os olhares acusadores das pessoas, pensando, certamente, que me envergonhava de ter sido mãe adolescente, dando-me mais de 20 anos (essa parte não me incomodava - era giro ser considerada mais velha), lá o levei à casa de banho, onde ele fez o seu xixi, riu e disse-me: «Obrigada, tia Nininha».
Parabéns, Jones! Ainda não é desta que fazes 30!

A todos...

... os que me desejaram melhoras - a todos os que comentaram aqui; a todos os que telefonaram; a todos os que nem sabem que este blogue existe e foram visitar-me a casa; a todos os que teriam feito qualquer uma destas coisas se tivessem sabido (e vão lamentar-se por não ter vindo ao blogue, nem telefonado, nem visitado - Eheheheh) - agradeço o apoio (que foi tão ou mais importante do que possam ter imaginado), do fundo do coração.
As nódoas negras estão a ficar mais claras. A dor no pescoço limitada a certos movimentos. Só daqui a uns meses se poderá saber se houve consequências mais profundas, mas, por ora, estou bem.
OBRIGADA A TODOS!

16 julho 2007

Estar vivo é o contrário de estar morto

Também contribuíram para eu recuperar a saúde os meus amigos: nos seus conselhos, na sua companhia, na sua conversa encontrei uma grande consolação. (...)
Tu hás-de morrer um dia, não por estares doente, mas sim por estares vivo. E esta lei da natureza é válida mesmo quando estiveres de boa saúde. Quando recuperares, terás escapado apenas a uma doença, não à morte.
Voltemos ao aspecto mais penoso: é certo que a doença implica grandes dores físicas, mas o próprio facto de serem intermitentes torna-as suportáveis. A intensidade de uma dor aguda tem o seu fim. É impossível alguém sentir uma dor enorme durante muito tempo.
Vê como a natureza foi benévola connosco a ponto de fazer com que a dor fosse, ou suportável, ou de curta duração.

Séneca, Cartas a Lucílio, 78, 4, 6-7. Tradução de J.A. Segurado Campos, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991.

13 julho 2007

Nota personalíssima

A Senhora Sócrates sofreu ontem um acidente de automóvel. O outro não parou num stop, bateu-lhe na zona do depósito de combustível e o carro da Xantipa foi contra uma casa. O automóvel estará perdido, mas a viúva do filósofo encontra-se bem, na medida do possível. Os deuses protegeram-na e, até ver, só tem nódoas negras causadas pelo cinto, pequenas escoriações causadas pelo aibarg e uma enormíssima dor no corpo, principalmente na coluna.
A Senhora Sócrates volta a agradecer aos amigos que se preocupam com ela e pede desculpa por não actualizar o blogue nem navegar com tanta frequência nos próximos dias.

11 julho 2007

Nota pessoal

O gato Zé Mimi deve sair hoje da clínica onde se encontra internado para curar uma infecção generalizada e ser cosido numa ferida na barriga.

A todos os que se têm preocupado com ele, muito obrigada.

10 julho 2007

Dafne e Apolo

(óleo sobre tela de Rosário Andrade. Aqui e aqui)

Febo está apaixonado. Ao ver Dafne, quer unir-se a ela. (…)
ela afasta-se, mais célere do que a leve brisa,
E não se detém às palavras do deus, que a chama : «Ninfa, rogo-te,
filha de Peneu, espera! Não te sigo como inimigo, espera, ninfa! (…)»
Febo vai falando, enquanto a filha de Peneu, assustada,
prossegue a sua corrida e o deixa a falar sozinho.
E ainda então lhe parecia bela. O vento desnudava-lhe o corpo (…)
Uma leve brisa repuxava-lhe os cabelos para as costas. (…)
O perseguidor, levado pelas asas do amor, é mais rápido, recusa o cansaço,
está já sobre a fugitiva, aspira-lhe o cabelo caído pelas costas.
Consumidas as forças, ela empalidece. Vencida pela canseira
de tão veloz fuga, olhando as águas do Peneu, grita: «Pai! Socorro!
Se é que vós, os rios, tendes algum poder divino, destrói
e transforma esta aparência pela qual agradei tanto.»
Mal havia acabado a prece, invade-lhe os membros pesado torpor,
seu elegante seio é envolvido numa fina casca, cresce-lhe a ramagem
no lugar dos cabelos e ramos no lugar dos braços. (…)
E Febo ainda a ama. Pousando-lhe no tronco a mão,
sente ainda o palpitar do coração sob a nova casca. (…)
Diz-lhe o deus: «Já que não podes ser minha mulher,
serás certamente a minha árvore. Estarás sempre, loureiro,
na minha cabeleira, na minha cítara e na minha aljava.
Acompanharás os generais do Lácio, quando alegres vozes entoarem
cantos de triunfo e o Capitólio vir à sua frente os longos cortejos (…).
Como a minha cabeça, de cabelos intonsos, mantém a juventude,
mantém tu também a glória de uma folhagem permanente.»


Ovídio, Metamorfoses, Livro I, 491-565. Tradução de Domingos Lucas Dias para a Vega, em 2006.

03 julho 2007

Fastidientis stomachi est multa degustare

Demasiada abundância de livros é fonte de dispersão; assim, como não poderás ler tudo quanti possuis, contenta-te em possuir apenas o que possas ler.
Dirás tu: «Mas sinto vontade de folhear ora este livro, ora aquele.»
Provar muita coisa é sintoma de estômago embotado; quando são muitos e variados os pratos, só fazem mal em vez de alimentar.
Lê, portanto, constantemente autores de confiança e quando sentires vontade de passar a outros, regressa aos primeiros.
Séneca, Cartas a Lucílio, 2, 3-4. Sempre a mesma tradução.

Compreendo a sabedoria destas palavras, mas eu sou mais como o Lucílio: gosto de ter livros que posso não vir a ler na totalidade, mas que gosto de folhear. Naquela altura, folhear devia ser desenrolar um papiro e não se devia poder tê-los abertos sobre a mesa ou empilhados, como eu os tenho...
Que ando a ler?
Leio vários ao mesmo tempo.

Séneca não conta, pois não? Nem Ovídio, imagino... nem Platão... nem os policiais (adoro policiais, confesso. Ando sempre com um atrás. Estou na fase egípcia, acompanhando Amelia Peabody Emerson nas suas aventuras).

Fui ali à sala ver o que está na pilha dos «pego neles mais vezes a ver se acabo algum», porque esta época do calendário escolar não é muito dada a coisas recreativas. A pilha dos «quero mesmo ler, devem ser giros, estão aqui há mais de um mês e ainda não os abri» envergonha-me. Principalmente com o raspanete que Séneca me pregou no início deste postal.

Cá vão, então, os «a ver se acabo, porque até estou a gostar, só que não tenho tempo» (em próximos postais falarei de cada um deles, pois acho que merecem uma explicação):
- Alimentação e Sociedade na Antiguidade Clássica: aspectos simbólicos dos alimentos, de Peter Garnsey. Ed. Replicação, Lisboa, 2002;
- Religions de L'Antiquité, org. por Yves Lehmann, PUF, 1999;
- O longo caminho das mulheres, organizado por Lígia Amâncio et al., Publ. Dom Quixote, 2007;
- Everyday Things in Archaic Greece, de Marjorie e C.H.B. Quennell, Ed. B.T.Batsford, 1931;
- A Natural History of Latin, de Tore Janson, Oxford University Press, 2007 (a minha edição em paperback, que a outra é de 2004).

Agradeço ao Legendas & Etcaetera o pedido, que vou completar com comentários, como referi;
E também eu estou curiosa por saber o que lêem algumas pessoas. O Miguel tem uma lista no blogue, portanto, basta passar por lá para ver.

Ficam aqui cinco provocações:

Carneiro, do Oxiclista
José Bandeira, do Bandeira ao Vento
JS e Gregório Salvaterra, do Contador de Gaivotas

Marta, do Claras em Castelo
Tomás Vasques, do Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos

(desculpem, porque imagino que estejam fartos de coisas destas, mas não resisti).

01 julho 2007

As Mulheres no Parlamento (2)

CREMES: Bem, depois um rapazola bem parecido, claro de pele, do tipo do Nícias, saltou do lugar para usar da palavra. E pôs-se a dizer que se devia confiar às mulheres o governo da cidade. (...) O tipo armou um berreiro desgraçado, a passar os maiores elogios às mulheres. A ti, deixou-te sem concerto.
BLÉFIRO: Mas, que é que ele disse, afinal?
CREMES: Logo para começar, qu és um cretino.
BLÉFIRO: E tu?
CREMES: Guarda essa pergunta para depois. E um ladrão.
BLÉFIRO: Só eu?
CREMES: Mais ainda, poça! E um bufo.
BLÉFIRO: Só eu?
CREMES: Tu, pois, (aponta para o público) e essa cambada toda que aí está!
BLÉFIRO: E quem diz o contrário?
CREMES: Que a mulher - dizia ele - é um modelo de bom-senso, que só traz fortuna. Que não anda por aí a badalar aos quatro ventos os mistérios das Tesmofórias, enquanto tu e eu, quando estamos no conselho, não fazemos outra coisa.
BLÉFIRO: Quanto a isso, verdade seja dita, não mentiu.
CREMES: Depois pôs-se a dizer que elas emprestam umas às outras roupa, jóias, louças, só lá entre elas, sem testemunhas; que devolvem tudo, ninguém fica defraudado como - eram palavras ele - é costume cá entre nós.
BLÉFIRO: Lá isso é, e com testemunhas e tudo!
CREMES: Nem se metem em denúncias, nem em processos, para derrubarem a democracia. Pelo contrário, foi um nunca acabar de elogios às virtudes femininas.

30 junho 2007

As Mulheres no Parlamento (1)

Esta peça de Aristófanes inicia-se com as mulheres a conspirarem para irem ao Parlamento (que se localizava na Pnix, uma pequena colina de Atenas), vestidas com as roupas dos maridos e levando barbas postiças.
Objectivo? Fazer com que eles decidam entregar o governo da cidade a elas, por serem as mais sensatas.
Este passo é interessante, porque, entre outras coisas, mostra muitas das actividades exercidas na vida caseira e a visão que os homens tinham das mulheres (o que justifica que se descrevam, por vezes, de forma pouco elogiosa. Não nos esqueçamos, porém, que este texto foi escrito por um homem, há cerca de 2500 anos) Neste trecho estão sozinhas, ainda a tentar decidir quem, de entre elas, as vai representar como oradora. Por isso divertem-se com algumas das graças mais comuns sobre si próprias. A escolhida foi Praxágora, com este discurso:

Que os hábitos delas são melhores que os nossos é o que passo agora a demonstrar. Para começar, mergulham a lã em água quente, à moda antiga, todas elas, e não se vê que estejam dispostas a mudar. Ao passo que a cidade de Atenas, mesmo se uma coisa dá resultado, não se julga a salvo se não engendrar qualquer inovação.
Fazem os seus grelhados sentadas, como dantes; trazem fardos à cabeça, como dantes; celebram as Tesmofórias, como dantes; cozem bolos, como dantes; estafam os maridos, como dantes, metem amantes em casa, como dantes; compram gulodices, como dantes; gostam de uma boa pinga, como dantes.
Por isso é a elas, meus senhores, que temos de confiar a cidade, sem mais discussão, sem sequer nos preocuparmos com o que pensam fazer. Dêmos-lhes carta branca para governarem. Consideremos apenas estes pontos: primeiro, que, se são mães, vão dar tudo pot tudo para salvarem os soldados; segundo, no que respeita à comida, quem mais solícito que uma mãe para reforçar uma ração?
Ninguém mais furão que uma mulher para arranjar umas massas; no poder, não há quem lhe faça o ninho atrás da orelha, porque a fazer o ninho atrás da orelha quem é que lhes leva a palma?!
Bom, adiante! Vão pelo que vos digo, que hão-de levar uma vidinha regalada.

Na verdade, o que efectivamente dizem na assembleia excluiu as partes que as podiam denegrir, ficando só as virtudes. E isso fica para o próximo postal.

28 junho 2007

«Igualdade e desigualdade da participação dos cidadãos nas magistraturas»

O problema de retirar citações do contexto é sabido: perde-se o seu verdadeiro significado.
Andando às voltas com a leitura da Política (como se percebe), encontro tanta coisa que gostaria de aqui apresentar, mas ficava com postais enormes de, apenas, citações de Aristóteles.
As suas análises dos diferentes regimes políticos, as suas subdivisões, as vantagens e desvantagens de cada um... enfim, interessante, muito interessante. Fica um cheirinho:

O maior bem é o fim visado pela ciência suprema entre todas, e a mais suprema de todas as ciências é o saber político. E o bem, em política, é a justiça que consiste no interesse comum. A opinião geral é de que a justiça consiste numa certa igualdade (...). Mas uma questão que não pode ser ignorada é saber em que consiste a igualdade e a desigualdade. Isto levanta uma dificuldade e implica uma filosofia política.
(...)
entre tocadores de flauta igualmente hábeis na sua arte, não seriam, de preferência os bem nascidos a ser dotados de flautas, pois não é o mais bem nascido que toca melhor; a quem desempenhar melhor o seu trabalho, deve ser dado o melhor instrumento.
(...)
a superioridade de riqueza e o bom nascimento deveriam contribuir para o desempenho dessa função, mas o facto é que não contribuem.
(...)
Sendo esta comensurabilidade impossível [comparar bens, como estatura e virtude, por exemplo], é evidente que, em questões políticas, torna-se razoável que a aspiração às magistraturas não se funde numa desigualdade qualquer. (...) a pretensão de magistraturas deve fundar-se nos elementos que compõem a cidade. É com razão que os bem nascidos, os livres e os ricos disputam as honras. Os que ocupam uma magistratura devem ser necessariamente livres e pagar impostos (uma cidade, com efeito, nunca poderia ser composta apenas por pobres e escravos). Mas se a riqueza e nascimento livre são elementos necessários, é evidente que também o são a justiça e o valor guerreiro sem os quais não é possível o governo da cidade.
Sem os dois primeiros elementos é impossível a existência da cidade, e sem os dois últimos é impossível a boa administração.
1282b15-1283a20

27 junho 2007

Tabernices III - Provocações: regimes políticos e sociedade

(esqueci-me ontem de relembrar que foi dia de Taberna. Este é o postal ali publicado)

Gosto muito de ler os Antigos.
Porém, quando transcrevo passos dos clássicos, não está em causa a concordância com o que dizem, mas a minha constante admiração pelas questões que já então colocavam. Gosto das provocações que nos fazem, mas não os podemos encarar como regra nem lei!


Aqui vai uma provocação extraída da Política, de Aristóteles, em edição bilingue, traduzido por António Capelo Amaral e Carlos de Carvalho Gomes , editado pela Vega em 1998, com prefácio e revisão literária de R.M. Rosado Fernandes.

Deve-se primeiro definir o que constitui a disposição para a realeza, para a aristocracia, e para o regime constitucional.
Assim, destina-se a ser governado por um rei o povo que, por natureza, produz uma família que, graças à sua virtude, dirige os assuntos políticos.
Destina-se ao regime aristocrático o povo que produz naturalmente um corpo de cidadãos capazes de serem governados como homens livres por chefes aptos, graças à sua virtude, para dirigir os negócios da cidade.
O povo destinado ao regime constitucional é aquele em que existe um corpo de indivíduos com capacidade militar, e que podem governar e serem governados conforme a lei que reparte as magistraturas entre cidadãos abastados e segundo as suas virtudes.
1288a6-15
E a democracia? interroguei-me. Respondeu-me:

Aquando da primeira investigação sobre os regimes, sublinhámos que existiam três regimes rectos, a saber: realeza, aristocracia e regime constitucional, e que eram igualmente três os desvios em que podiam incorrer, a saber: a tirania como desvio da realeza, a oligarquia como perversão da aristocracia, e a democracia como perversão do regime constitucional.
1289a25-30
Bem, isto não se fica por aqui. Para a semana conto o que entendia Aristóteles por democracia. E, para desanuviar, aqui fica uma salada grega, a horiatiki:

26 junho 2007

Amigo

(foto daqui)

E posto que a amizade encerre muitos e muito grandes proveitos, aquele que mais sobressai acima de todos é o facto de ela fazer nascer a luz de uma boa esperança no futuro e não consentir que os ânimos caiam em desalento e prostração.

Com efeito, quem olha para um amigo verdadeiro vê nele, por assim dizer, uma imagem de si mesmo. É por isso que os amigos, ainda que ausentes, estão presentes; ainda que pobres, têm abundância; ainda que fracos, são fortes.

Cícero, A Amizade, INIC/CECUC, Coimbra, 1993. Tradução de Sebastião Tavares de Pinho.
Parabéns, Amigo!

25 junho 2007

Blogue com Grelos


«O Prémio "Blogue com grelos" premeia mulheres que, na sua escrita, para além de mostrarem uma preocupação pelo mundo à sua volta, ainda conseguem dar um pouco de si, dos seus sentires e com isso tornar mais leve a vida dos outros. Mulheres, mães, profissionais que espalham a palavra de uma forma emotiva e cativante. Que nos falam da guerra mas também do amor. A escrita no feminino, em toda a net lusófona tem que ser distinguida»

E com esta descrição enviada pela Marta do Claras em Castelo fui nomeada. Tenho de agradecer-lhe o lembrar-se sempre de mim! Por isso não quebro a cadeia.

Agora tenho de nomear 5 mulheres, de blogues não colectivos, e enviar para o Blogue com Grelos, que reúne as nomeações.

Maria do Rosário, do Divas e Contrabaixos
Miriam, do A Mulher do Lado

23 junho 2007

Educação (Platão)

- Que queres dizer?
- Que quem é livre não deve aprender ciência alguma como uma escravatura. E que os esforços físicos, praticados à força, não causam mal algum ao corpo, ao passo que na alma não permanece nada que tenha entrado pela violência.


República, 536e

22 junho 2007

«Elas sou eu»

(imagem daqui)
Ontem fui ver uma comédia que me deixou muito bem disposta! Fui com uma amiga que estava com um espírito mais trágico e a quem não apetecia rir. Dizia ela. Mas rimos, rimos, rimos!
Eduardo Gaspar fez vários papéis divertidos, interagindo com o público e demonstrando uma extraordinária capacidade de improvisação!
One show man!
Como só está em cena à quinta-feira e termina a 5 de Julho, têm mais três oportunidade para o ver no Teatro-Estúdio Mário Viegas, ali coladinho ao S. Luís, na rua de baixo.
Vão ao site da Companhia Teatral do Chiado, registem-se como espectadores (gratuito) e pagarão 10 euros em vez de 15, podendo comprar os bilhetes que quiserem!
Aliás, não se compram logo: reservam-se e pagam-se à entrada.
Rir aliviou-me o espírito!

21 junho 2007

ginástica e alma - Séneca

Cultiva, portanto, em primeiro lugar a saúde da alma, e só em segundo lugar a do corpo; esta última, aliás, não te dará grande trabalho se o teu objectivo apenas for gozar de boa saúde.

(...) Pensa também que quanto mais volumoso for o corpo mais entravada e menos ágil se torna a alma. Por isso mesmo, limita quanto puderes o volume do teu corpo e dá o máximo espaço à tua alma!


Cartas a Lucílio, 15, 2.

19 junho 2007

ginástica e alma - Platão

- Então, que educação há-de ser? Será difícil achar uma que seja melhor do que a encontrada ao longo de anos - a ginástica para o corpo e a música para a alma?
- Será, efectivamente.

(República*, 376e. E depois de umas refutações, em 527b)

(...) a geometria é o conhecimento do que existe sempre.
-Portanto, meu caro, serviria para atrair a alma para a verdade e produzir o pensamento filosófico, que leva a começar a voltar o espírito para as alturas e não cá para baixo, como fazemos agora, sem dever.

*tradução de M.H. Rocha Pereira, para a Gulbenkian.

18 junho 2007

Prazer da velhice

(continuação)


Se a soubermos usar, a velhice é uma fonte de prazer.
Os frutos tornam-se mais agradáveis quando estão a ficar passados; é no seu termo que mais brilha a graça da infância; aos bebedores, o último copo é que dá mais prazer, aquele que culmina e dá o último impulso à embriaguez; aquilo que cada prazer tem de mais saboroso é guardado para o fim.


Séneca, Cartas a Lucílio, 12, 4-5.

Porto

Caros amigos,
Estou de visita rápida, rápida ao Porto. Vim matar saudades. Mas saio sempre daqui ainda mais saudosa...

15 junho 2007

Língua amarga...

A rectidão e a bondade, eis o que, em especial, cativa os corações;
A aspereza suscita o ódio e guerras cruéis.
Odiamos o falcão, pois vive sempre metido em guerras,
E os lobos, acostumados a atacar rebanhos amedrontados;
Mas vive livre das armadilhas dos homens, por ser mansa, a andorinha,
E a ave da Caónia* habita livremente as terras onde mora.
Longe daqui as contendas e os combates de uma língua amarga!

É de doces palavras que tem de sustentar-se a brandura do amor

* A pomba.

(Ovídio, Arte de Amar, II, 145-152)

14 junho 2007

Ovídio: exílio e poesia

Não sabe como ocupar a sua próxima quinta-feira?
Vá até à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e assista a este colóquio!
Inscrições gratuitas em centro.classicos@fl.ul.pt.

Ovídio: exílio e poesia no bimilenário da “relegatio”
2007. JUNHO. 21
Sala de sessões: Anfiteatro III / Fac. Letras / Lisboa

Programa:
09.30 - Abertura / Director do CEC - Ovídio: exílio, soledade e criação poética
10.00 - Aldo Luisi - La culpa silenda di Ovidio nel bimillenario dell’esilio.
10.45 - Nuno Júdice - Ovídio em português: exílios sem culpa
11.15 - Pausa / Café
11.45 - Carlos A. André - Ovídio no exílio: o poeta à defesa e a defesa do poeta
12.15 - Eduardo Vera Cruz - A pena de exílio no Direito Romano: a “relegatio”
12.45 - Discussão
13.00 - Almoço
15.30 - Paolo Fedeli - Ovídio leitor de Propércio: Amores
16.15 - Inês de Ornelas e Castro / Vanda Anastácio - Leitura de Ovídio na clausura: a Marquesa de Alorna
16.45 - Pausa / Café
17.15 - Ana Paula Correia - Episódios das Metamorfoses de Ovídio na azulejaria
18.00 - Cristina Santos Pinheiro - O paradigma da “orba mater” nas Metamorfoses
18.30 - Raul Rosado Fernandes - Ovídio, o poder imperial e as suas consequências
19.00 - Discussão
19.15 - Cristina Pimentel - Ovídio, em bimilenário: Síntese da Jornada Ovidiana

13 junho 2007

Da beleza

Como as folhas descoloridas dos lírios secam
e as pétalas das rosas com que se entretecem grinaldas murcham,
assim também o brilho que irradia da frescura do rosto
é arrebatado num momento e nenhum dia há que não
leve consigo um despojo do esbelto corpo.
A beleza é vantagem fugaz. Que sábio confia
num bem perecível? Enquanto podes, desfruta-o.

Séneca, Fedra, trad. de Ana Alexandra Alves de Sousa, para as Ed. 70.

11 junho 2007

Ir à terra... «indícios da minha velhice»

Esta era a expressão que usávamos, lá em casa, quando íamos a Talhadas, a terra do meu pai, ali para os lados de Sever do Vouga.
Como a minha mãe é de Lisboa, não dava muito jeito falar assim, até porque se via ( e vê) pouca terra por lá (mesmo indo de comboio, já este anunciava: pouca-terra, pouco-chão, pouca-terra, pouco-chão).
Fui à terra estes dias e lembrei-me de Séneca (que coisa! Sempre Séneca!):

Para onde quer que me vire, vejo indícios da minha velhice. Tinha ido à minha quinta nos arredores e queixava-me das despesas a fazer com uma casa em ruínas. O feitor diz-me que o mal não está em falta de cuidados seus, simplesmente a casa é velha.
Ora esta casa cresceu entre as minhas mãos: como não estarei eu, se tão podres estão estas pedras da minha idade? Irritado, a proveito a primeira ocasião para me zangar com o homem. «Parece» - digo-lhe eu - «que estes plátanos não estão cuidados. Não têm folhas nenhumas! Olha como os ramos estão nodosos e ressequidos, como os troncos estão macilentos e sujos! Isso não aconteceria se as árvores fossem escavadas e regadas!».
O homem jura pelo meu Génio que faz tudo o que é preciso, que toma todos os cuidados necessários: elas é que já são velhotas! Aqui entre nós, fora eu que as plantara, eu que vira brotar as suas primeiras folhas.

Virei-me para a porta. «Quem é este?» - perguntei. «Este velho decrépito que, com toda a razão, puseram junto da porta? Onde foste desencantar este indivíduo? Que ideia foi essa de ir buscar um morto que não é nosso?»
Diz-me o velho: «Então não me conheces? Eu sou Felicião, a quem tu costumavas oferecer bonecos, sou o filho do teu feitor Filosito, o teu companheiro preferido».
«Belo» - digo eu - «este está doido; catraio, e ainda por cima armado em meu companheiro preferido! Até está correcto: já lhe estão caindo todos os dentes!...»
Fico em dívida com a minha quinta: para onde quer que me virava fazia-me dar conta da minha velhice.
Pois abracemo-la, apreciemo-la: se a soubermos usar, a velhice é uma fonte de prazer.

(a continuar)


Séneca, Cartas a Lucílio, 12, 1-4. Tradução de J.A. Segurado Campos, em edição da Fundação Calouste Gulbenkian.

06 junho 2007

Eros

Eros, o mais belo entre os deuses imortais,
que amolece os membros, e a todos os deuses e a todos os homens
sujeita no peito o entendimento e a vontade consciente.

Hesíodo, Teogonia, tradução de Ana Elias Pinheiro, na INCM.

04 junho 2007

Filosofia Antiga

António Pedro Mesquita, coordenador do Projecto da Tradução Anotada das Obras de Aristóteles, publicou em Dezembro de 2006 um livro de que só agora tive conhecimento, por gentil oferta do seu autor (obrigada).
Pela estrutura, poderia ser usado em provas académicas para Professor Associado, pois segue os trâmites aí exigidos.
Mas, independente de qualquer uso que possa fazer deste excelente trabalho, ele não se fecha no seu autor. Antes pelo contrário.
Introdução ao Estudo da Filosofia Antiga (das Edições Colibri) é um livro muito prático para todos aqueles que pretendam ficar com os conteúdos da disciplina de Filosofia Antiga bem organizados: para quem a fez há muitos anos é bom; quem nunca a fez, pode partir dali para orientar o seu estudo individual, pois além dos conteúdos (não muito desenvolvidos, como é evidente, mas bem sistematizados), tem mapas, glossário de autores, quadros, algumas traduções de fragmentos, indicações úteis de ordem formal e uma excelente bibliografia.

01 junho 2007

de António Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.

29 maio 2007

Taberna

Hoje é dia de postal na Taberna. E está tão chique, tão chique, que a receita até está em francês!

28 maio 2007

Quanto custa um acento agudo numa palavra grave?

Mais de 5300 euros!
É verdade!
E merece, pois então!
Foi neste semana, penso que na quinta-feira, no «Um contra todos», um programa no canal 1 da RTP, em que se pedia para identificar, quanto à acentuação, a palavras «automóvel».

Não me lembro quantos erraram, mas lembro-me que o jogador principal comprou a resposta, pois sentia-se inseguro. Se não o tivesse feito, escolheria «agudo». Como comprou, reduziu em cinquenta por cento o valor que já tinha, que ultrapassava os 10600 euros.
Estes valores são virtuais, portanto não o incomodaram. Nem os incomodou (a ele e ao apresentador) o facto de não saberem o nome dos acentos. Ainda comentaram que era difícil.
Difícil?
Se pedissem para acentuar, ainda vá: há muitas dúvidas sobre onde colocar o acento.
Mas identificar uma palavra já acentuada?
Bem, como não quero parecer presunçosa e como os acentos estão bem cotados no mercado (5300 euros é bom dinheiro por um tracinho), segue-se uma pequena explicação.

O acento de uma palavra não tem de ser gráfico. Todas as palavras têm uma sílaba tónica (aquela sobre a qual recai o tom, aprendíamos nós), mas muitas não precisam de a grafar.
E qual é a sílaba tónica? Costumo ensinar que é aquela que prolongamos quando temos de a chamar. Imaginamos que temos de chamar a palavra... palavra: palaaaaaaaaaaavra.
Pronto. Esta é a tónica! E é grave (ou paroxítona), porque é a penúltima (ou a segunda a contar do fim): pa-la-vra.
Não leva acento gráfico, porque os vocábulos portugueses são tendencialmente graves.
Já a palavra que estava em causa no jogo televisivo, «automóvel», sendo também grave , precisa de um acento (agudo - aquele que inclinamos para a direita), pois termina em -l.
Isto porque as palavras que terminam em l, n, r, x, bem como em a, e, o (abertos), i, u (com ou sem s), são naturalmente agudas.
Assim, não precisam de acento palavras como caril, cantar, funil, porque são agudas, mas já é necessário em fácil, éden ou carácter, que são graves.

Fico por aqui. 5300 euros já me dão um jeitão!

26 maio 2007

Meme

As últimas atribulações não me têm dado muito tempo para navergar nos blogues que gosto e, por isso, só hoje vi o convite da Teresa C. para deixar aqui um meme.

Na verdade, acho que costumo deixar aqui muitos, e por isso, é com todo o prazer que acrescento mais um:

Aquele qua nada conhece, nada ama.
Aquele que não é capaz de nada, nada compreende.
Aquele que nada compreende é inútil.
Mas aquele que compreende também ama, repara e vê. (...)
Quanto mais conhecimento existe de uma coisa, maior é o amor...
Quem imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo que os morangos não percebe nada de uvas.

Paracelso
(em epígrafe ao livro de Eric Fromm, de 1956, A Arte de Amar, publicado pela Pergaminho em 2002)

Como é suposto pedir «memes» a mais seis bloguistas, aqui vão uns amigos que sei que têm memes bons para nos dar:

Marta, do
Claras em Castelo
Miguel, do
Heart of Saturday Night
Sara, do Apenas Eu
Mirian, do
A Mulher do Lado
Teresa, do Pedra sobre Pedra
Damularussa (Desculpa, mas não sei o teu nome, amiga!)

«Um "meme" é um "gene ou gene cultural" que envolve um conhecimento que é passado a outros contemporâneos ou aos descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma. Simplificando: é um comentário, uma frase, uma ideia que rapidamente é propagada pela Web, usualmente por meio de blogues. O neologismo "memes" foi criado por Richard Dawkins pela semelhança fonética com o termo "genes”. »

25 maio 2007

Herança Mediterrânica

Eu devia estar aqui...... mas uma indisposição impediu-me.
Se está perto de Cacela, vá até lá e diga que fica com a minha vaga, dado que as inscrições eram limitadas.

24 maio 2007

A virtude

A virtude não virá, nem por dom da natureza, nem será matéria passível de ser ensinada. Chegará, antes, por fado dos deuses, àqueles em que ela existe, sem saberem.

Platão, Ménon, 99e
(Tradução de Ernesto Rodrigues Gomes, para GEC Publicações, em 1986)

22 maio 2007

E ela celebrava o dia dos meus anos

(nós as duas, no dia dos seus anos, em Outubro de 2006)

A 22 de Maio de 1952 morria a Adrianinha, minha irmã mais velha, a primeira filha que a minha mãe teve, em Outubro de 1946, um ano após o casamento (pós-guerra, Setembro de 1945).
Durante anos ela ia ao cemitério por flores.
Mais dois filhos. Mais dois mortos, à nascença.
Depois, chegámos «nós, os quatro macacos», como ela dizia a rir (os naturais do Bombarral são macacos, assim como os de Lisboa alfacinhas). O meu irmão João já partiu, vai fazer 5 anos. Restamos três.
Já tinha ela três filhos (seis partos), quando aos 42 anos engravida de novo. Foi o resultado das saudades de uma viagem a Itália com uma tia, opinava eu (para implicar com ela), durante a qual o meu pai e minha avó ficaram a tomar conta das crianças.
O fim do tempo era em Junho.
Maio aproxima-se.
Ela enerva-se: «E se nasce antes do tempo? E se nasce a 22 de Maio?»
22 de Maio era o dia da ida ao cemitério, de limpar e de pôr flores na campa da Adrianinha.
Nervos acumulados, preces «que ela não nasça a 22 de Maio, que ela não nasça a 22 de Maio», mas de nada serviu.
A 22 de Maio, mal o sol despontava, eu nascia!
Igual à outra.
Quanto ao nome, muitas indecisões. Está bem, que fique com o mesmo nome.
A grande diferença foram as idas ao cemitério que nunca mais se fizeram a 22 de Maio.
Nesse dia havia festa, prendinhas, amigos pela casa, muita alegria.
Conseguiu sempre esconder qualquer tristeza que lhe pudesse toldar os olhos, ocupada como estava a fazer os bolos e a assegurar-se de que a festa era sempre um sucesso.
Nesse dia ela celebrava o dia dos meus anos.
Parabéns à minha mãe!

(sim, é verdade, o título é inspirado em A. Campos)

Taberna

Hoje há bolo na Taberna!

21 maio 2007

Como citar a Bíblia

Nunca pensei um dia ter de ensinar como consultar e citar a Bíblia.
Contudo, nas aulas de Matrizes Culturais Europeias, onde a Bíblia não pode deixar de ser um dos livros a ler (ou, pelo menos, a ir lendo) e a saber consultar, verifiquei que alguns alunos nunca tinham sequer aberto uma bíblia (não vou falar das implicações que isto tem no entendimento do mundo actual) nem, naturalmente, a sabiam consultar.
Ora bem, aqui já se disse
como citar Platão, como citar poesia grega e latina (numa próxima segue-se «como citar Aristóteles») e agora temos «como citar a Bíblia».
A Bíblia é composta por vários livros que, por sua vez, estão divididos em capítulos e estes em versículos.
A numeração da página que cada edição tem não serve de referência, mas sim a indicação do nome do livro e o número do capítulo e do(s) versículo(s).
O nome dos livros tem uma forma abreviada por que é conhecido e que se encontra numa lista no início da Bíblia. Podem ter numeração romana, quando se dividem em mais do que um.
Os capítulos têm nomes que ajudam a reconhecer o assunto.
Os versículos são marcados por numeração árabe que surge antes de cada um deles. Cada versículo conter uma ou mais frases, ou apenas frases e períodos parciais, dado que foram divisões introduzidas com alguma arbitrariedade.
A edição que uso é a dos Missionários Capuchinhos, da Difusora Bíblica. Algumas destas indicações que se seguem são comuns à maioria das bíblias:

No cabeçalho de cada página surge o nome do livro, bem como o número do capítulo, ajudando assim a situar o que se procura.
No corpo do texto, o capítulo (tanto o número como o nome) aparece em negrito e os versículos em tamanho muito mais reduzido (como tentei reproduzir aqui, sem muito sucesso).

Assim, se eu escrever Cant.I. 1, 2-3, é suposto que se leia «Primeiro Cântico dos Cânticos, capítulo 1, versículos 2 e 3» e que, em qualquer parte do mundo e em qualquer língua, se reconheçam estas palavras:

2 Ah! Beija-me com ósculos da tua boca!
Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho,
3 e suave é a fragância dos teus perfumes;
o teu nome é como perfume derramado:
Por isso te amam as donzelas.

Boas leituras!

20 maio 2007

Blogue do Cineclube de Faro


Não costumo escrever postais sobre blogues (se bem que o deveria fazer. Qualquer dia comento alguns de que gosto especialmente), mas este merece destaque.
Falo do novo blogue do Cineclube de Faro, apresentado na passada sexta-feira, no Teatro das Figuras, em Faro.
Este cineclube é mesmo especial!
Fez no ano passado 50 anos de existência ininterrupta e, pelo menos desde que me fiz sócia, com uma programação excelente e actividades cativantes.

Na sexta-feira encerrou o ciclo das comemorações do aniversário com a exibição do filme Dom Roberto, de Ernesto de Sousa, produzido pela Companhia do Espectador, isto é, um grupo formado por sócios de cineclubes.
Na mesma linha, o cineclube de Faro conduziu uma subscrição junto dos seus sócios para que custeassem a obra.
E assim foi. Devido à contribuição de de 41 sócios a encomenda foi feita e pudemos ver e ouvir a belíssima Suite para Dom Roberto de Bernardo Sassetti Trio. Um magnífico espectáculo!

O filme é lindo! A preto e branco, de uma ternura infinita!
Cheio de nomes conhecidos hoje por todos, bem jovenzinhos naquela altura, dei por mim a fazer uma coisa a que acho graça: tentar reconhecê-los ali e ver nestes as mudanças que a idade trouxe.
Raul Solnado estava igual, bem como Adelaide João e Nicolau Breyner. Glicínia Quartim era linda em jovem e aquele que eu mais procurava, Rui Mendes, cujo nome vira nos créditos, nada de aparecer. Até que um grande plano me satisfez a curiosidade: fazia o papel de um rufia de bairro, cabelo à Elvis, gola da camisa levantada e mangas arregaçadas! Irreconhecível! Só mesmo um plano do rosto me fez ver como era! Lindo!

O filme foi às 18, o concerto às 21.30 (bem... às 22, pois a nossa querida Anabela Moutinho fez uma emocionada e emocionante introdução) e, no fim, tivemos um «rebuçado»: uma pequena rábula de teatro de fantoches, por um bonecreiro à antiga, que não quer deixar morrer Dom Roberto!

Lindo, lindo!

19 maio 2007

A beleza é um bem frágil...

Apesar de Ovídio achar que todas as mulheres podem ser apanhadas nas redes dos homens (e que estão cheias de vontade que tal aconteça - ideia que me repugna aceitar), também diz coisas como estas:

A beleza é um bem frágil; à medida que vão avançando os anos,
Vai diminuindo e, por força da idade, vai murchando;
Não ficam todo o tempo em flor as violetas nem os lírios de pétalas abertas,
E a roseira, depois de cair a flor, enrijece os espinhos, que é o que lhe resta.
Também a ti, ó jovem esbelto, te hão-de chegar os cabelos brancos,
E logo virão as rugas sulcar-te o corpo.


Ovídio, Arte de Amar, II, 113-118 - espero que os meus alunos de Latim estejam a reconhecer o teste da passada quinta-feira)

17 maio 2007

Amizade bretã

Acabei de receber este poema, enviado por uma amiga «bretonne».
Pour toi aussi, Gwen!

«Paul Eluard pour toi ce soir ... »

La Courbe de tes yeux

La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
Et si je ne sais plus tout ce que j'ai vécu
C'est que tes yeux ne m'ont pas toujours vu.
Feuilles de jour et mousse de rosée,

Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs,
Parfums éclos d'une couvée d'aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards.

15 maio 2007

Convencido, este Ovídio!

Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas
podem ser conquistadas; e vais conquistá-las; basta que estendas as redes.
(Ovídio, Arte de Amar, I, 269-270)

Só está perdoado porque também escreveu isto...

14 maio 2007

Ícaro

(The lament for Icarus - H.J. Draper - 1989)


Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segregado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.

(Sebastião Alba, A Noite Dividida, Lisboa, Assírio & Alvim, 1996)

10 maio 2007

Regras gramaticais...


Na terça-feira, dia 8, ouvi Ivo de Castro no canal 2, num programa da Universidade Aberta. A propósito das regras gramaticais, este Professor Catedrático de Linguística referiu o largo espectro que medeia entre o erro e a forma mais elevada de expressão na Língua Portuguesa, referindo que essa forma é a usada pelos escritores. Mas logo, matreiro, contou uma anedota que nos põe a pensar...

Encontrando um dia o já clássico Augusto Abelaira, este confessou-lhe ter produzido um texto que, depois, ao ser relido, lhe levantou dúvidas quanto a uma determinada construção. Para sanar a questão, Abelaira fora consultar a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Sintra. Procurara e encontrara: a construção que estava a usar e da qual duvidara estava atestada na gramática, tendo como base o uso literário de um autor consagrado. Era esse autor... Augusto Abelaira!
Ivo de Castro relatou esta conversa a Celso Cunha que terá dito: «Se eu soubesse, não o tinha usado para aquele exemplo».
Quem faz as normas? As regras? As excepções?
Vou ter muito em que pensar nos próximos tempos...

09 maio 2007

Valor próprio

Se quiseres saber quanto vales não atendas aos teus rendimentos, à tua casa ou à tua posição social, olha sim para dentro de ti, em vez de, como agora, acreditares no valor que os outros te atribuem!

Séneca, Cartas a Lucílio, 80, 10.

08 maio 2007

(foi hoje)

Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certezade que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.


(Eugénio de Andrade)

Na Taberna...

Hoje é dia de fazer um postal na Taberna dos Inconformados.
Convido-vos para um leite-creme!