21 novembro 2007

Atenas, 9 anos depois

Hoje foi dia de recordações.
Um breve passeio pela avenida Elefteriou Venizelou, uma ida a Eleftheroudakis (grande livraria), um passeio pela praça da Constituição (Sintagma)

e pelas ruazinhas que frenquentei em 1998... A "minha" loja de discos (onde o Costas me fazia 24% de desconto) já lá não estava e, enquantos uns negócios abriram outros fecharam.
Gosto de ler os nomes das ruas e as direcções em grego e transliterado. Se assim não fosse, nunca descobriria que a rua Voulis é a rua da Boulê (a assembleia dos 500), ou que Lavrio é Laurium, o local das famosas minas de prata, ou que Évia é Eubeia, a ilha aqui mesmo em frente.
Regressei ao local onde o táxi me deixara duas horas antes, na «Academias».
Na a rua de Hipócrates, num café, tomei um chá com a minha amiga Ana Maria, a grande culpada da minha presença aqui.

Lembrei-me de Edimburgo e dos sofás do "Espresso Mondo"...
Numa livraria vejo que a Mariza canta no dia em que parto.

E apanho um autocarro. Não me posso enganar: é o 608.

Até amanhã!

20 novembro 2007

Viagem à Grécia

Há nove anos que não vou à Grécia. Vai ser bom rever aquela bela terra.
Quando lá vivi (escassos quatro meses), instalei-me num pequeno hotel nas franjas da Plaka chamado Dióscoros. Lembro-me dos Gémeos e recordo Pausânias:
(Rapto das filhas de Leucipe, de Rubens)

O santuário dos Dióscoros é antigo: aí há uma estátua deles e dos seus filhos sentados em cima de cavalos. Polignoto pintou-os aqui nas núpcias das filhas de Leucipo, enquanto Mícon representou-os a navegar com Jasão para a Cólquida.

19 novembro 2007

Roliça e Vimeiro


Há muitos anos, quando pela primeira vez visitei a catedral de S. Paulo, em Londres, emocionei-me ao ver o nome da pequena aldeia da Roliça, ali tão perto da terra onde nasci, gravada na pedra, num monumento que celebrava a participação inglesa nos combates contra Napoleão, durante as Invasões Francesas.
E agora que se comemoram os 200 anos da batalha com o mesmo nome, Roliça volta a estar em foco no concelho do Bombarral. No Sábado passado decorreu a sessão solene de abertura das iniciativas que se estendem até ao ano que vem, com a comemoração da batalha do Vimeiro.
Gostei muito de participar, principalmente por ter podido ouvir o magnífico apontamento histórico (modesto nome para tão eloquente prelecção) do Coronel Américo Henriques: com uma oratória perfeita, captivou-nos a todos com as histórias daquela história, com uma vivacidade e entusiasmos contagiantes e um saber bem fundamentado.


12 novembro 2007

Do amor

(Foto minha. Rodin - Eros e Psyche - Ermitage - S. Petersburgo)

O amor não tem uma natureza simples, bela ou feia em si mesma: é belo, se realizado com beleza, e feio, se realizado com vileza.
Vileza é quando se concede uma afeição indigna a um homem indigno; e nobreza, quando se concede uma feição digna a um homem de bem. E por indigno entendemos justamente esse amante popular, que prefere o amor do corpo ao amor da alma, e não guarda constância porque o objecto a que se prende não é também constante [...].
Pelo contrário, aquele que ama alguém pela beleza do seu carácter, esse permanece fiel pela vida fora, porque se funde com o que é constante.

Discurso de Pausânias no Banquete de Platão. Tradução de Maria Teresa Schiappa de Azevedo para as Edições 70.

Para mais discursos do Banquete, ver aqui, aqui, aqui...

08 novembro 2007

Nem tudo o que reluz é ouro...

(...) há uns que são belos graças à sua beleza, enquanto outros parecem sê-lo quando se adornam. E o mesmo se passa com as coisas inanimadas: pois também entre estas há as que são verdadeiramente de prata ou de ouro e as que não são, mas parecem que o são pelo modo como as apercebemos, como, por exemplo, as coisas feitas de monóxido de chumbo ou de estanho, que parecem prata, e as coisas amarelas, que parecem ouro.
(Aristóteles, SE, 164b24)

03 novembro 2007

máscaras...


Édipo: Hoje sei que a vida calça coturnos e vai tirando e pondo as suas duas máscaras. A máscara da comédia e a máscara da tragédia. Às vezes as duas ao mesmo tempo, uma na cara outra na nuca. Mas detrás da máscara só vejo o vazio. Por baixo das vestes, apenas um cabide. A vida é a máscara da morte.
Tirésias: E a morte é a máscara da vida.

Armando Nascimento Rosa (2003). Um Édipo. Casa do Sul. Évora, p.37

31 outubro 2007

Amigo (2)

Se alguém te elogia enquanto estás à vista,
mas quando está longe diz mal de ti,
tal homem não é bom companheiro nem amigo,
ele que diz coisas macias com a língua, mas pensa outras coisas.
Que eu tenha como amigo quem conheça o seu
companheiro e aguente o seu feitio, ainda que difícil,
como um irmão. E tu, ó amigo, põe estas coisas
no coração e um dia no futuro te lembrarás de mim.

(vv.93-100. Ver aqui e aqui.)

28 outubro 2007

Página 161, parágrafo 5º (de novo)

Apesar de já ter respondido a este desafio anteriormente, não me importo nada de repetir. O André pensou em mim e aqui vai. O livro que estava mais à mão era este:

Recordou-se por breves momentos de Baeta, a prostituta, e lembrou-se de como foi feliz sem amar, e por momentos teve saudades desse tempo.

Carlos Campaniço*, Molinos, Pé de Página Editores, Coimbra, 2007, p.161, parágrafo 5º.

*O Carlos foi dos meus primeiros alunos de Latim na UAlg e hoje é Mestre em Culturas Árabe, Islâmica e o Mediterrâneo.

27 outubro 2007

Livrarias em Roma

No tempo da República, os livreiros eram uns desgraçados que tinham de arranjar livros para copiar para os clientes, tendo para isso que recorrer a bibliotecas privadas, o que nem sempre era fácil.
No tempo do Império as coisas mudaram: Roma tornou-se uma cidade cosmopolita também do ponto de vista intelectual, sendo a demanda de livros tal que as livrarias passaram a ter aquilo a que podemos chamar o início da ideia do «fundo de catálogo» (já raro hoje em dia).

Existiam nas lojas livros de escritores como Vergílio ou Tito Lívio e sabe-se que um livreiro até tinha vários volumes da Institutio Oratoria, de Quintiliano. E se lhe pedissem um livro que não tinha (o que seria comum), recorria, como antes, às bibliotecas, e mandava fazer uma cópia!

As autores não ganhavam direitos, mas atingiam, assim, um maior número de leitores (em vez de serem eles a fazer ou mandar fazer as cópias dos seus livros), e esse é o objectivo de todo aquele que publica.
Uma boa livraria em Roma? Marcial diz que há já ali uma:

«procura Secundo, liberto do douto Lucense,
por trás do limiar do templo da Paz e do foro de Palas

(Fonte: Lionel Casson. Ver aqui)

22 outubro 2007

Fado da dúvida (sem dúvida)

(A Marta foi roubada, mas não resisti! Que me perdoe...)

Se já não te lembras como foi
Se já esqueceste o meu amor,
O amor que dei e que tirei,
Não queria lamentar depois.


Mas uma coisa é certa, eu sei.
Não tive nunca amor maior.
E ainda vivo o que te dei,
Ainda sei quanto te amei,
Ainda desejo o teu amor.


Não tenho esperança de te ver,
Não sei amor onde andarás.
Pergunto a todo o que te vê
E nunca sei como estás.


Agora diz-me o que farei
Com a lembrança deste amor.
Diz-me tu, que não sei,
Se voltarei ou não para ti,
Se ainda quero o que sonhei.


(Texto de Pedro Ayres de Magalhães, Madredeus, 2005)

21 outubro 2007

filósofo... ministro?

«a raça humana não cessará os seus males antes que a raça daquele que ama o saber correctamente e com verdade chegue ao poder governativo ou que aqueles que têm o poder nas cidades, através de uma intervenção divina, se dediquem realmente à filosofia.»

( Platão, Carta VII, 326b. Tradução minha)

18 outubro 2007

bebida e comida não chegam...

Muitos são os companheiros para bebida e comida,
mas para empreendimento sério já são poucos.

Teógnis
(Tradução de Frederico Lourenço no volume Poesia Grega, editado pela Cotovia)

13 outubro 2007

Parabéns, Mãe!

A minha mãe faz anos hoje e vamos reunir a família.
Deste núcleo, já não estamos todos, mas os que faltam estão connosco no coração.
As famílias são assim: crescem, multiplicam-se, uns vão, outros vêm.
Muitos beijinhos, Mãe!

11 outubro 2007

kylix...

A Xantipa, agradada, também não lhe vai dizer...


Beber muito vinho é mau. Mas se bebermos
sabiamente, não é mau, mas bom.


(Tradução de Frederico Lourenço no volume Poesia Grega, editado pela Cotovia)

10 outubro 2007

Mais vale descoser que rasgar...

Há também a infelicidade, muitas vezes inevitável, de ter de renunciar a uma amizade.
(...)
Tais amizades devem, pois, ser diluídas pelo afroixamento da convivência, e, como ouvi a Catão dizer, mais devemos descosê-las do que rasgá-las.
(...)
Há que fazer todo o esforço por evitar que haja discórdia entre amigos; mas, se algum incidente desse tipo surgir, há que mostrar que as amizades mais se extinguiram do que foram violentamente esmagadas.

Cícero, A Amizade, 1993, INIC, Lisboa. Tradução de Sebastião Tavares de Pinho.
(à minha amiga, que muito é vista, mostrando-se muito pouco...)

08 outubro 2007

Não ames com palavras...

Não ames com palavras, tendo noutro lado mente e coração,
se me amas e se fiel é a tua intenção.
Ama-me com mente pura, ou então rejeita-me
e odeia-me e opta pelo conflito aberto.

Teógnis, vv. 87-90. Tradução de Frederico Lourenço no volume Poesia Grega, editado pela Cotovia.