15 setembro 2007

Ainda (e finalmente) sobre a Lisístrata

(nós, os que fomos ao teatro)


Iniciei este postal há uns tempos... um mês... mas, como prometi e já me foi pedido, aqui vão algumas reflexões sobre a Lisístrata que vi em Mérida.
A peça que fomos ver era de Manuel Martínez Mediero (autor de Férias Grandes com Salazar, que esteve recentemente em cartaz no D. MariaII) e não de Aristófanes, em versão de daquele autor espanhol, como eu pensava. Mas o erro foi completamente meu, que não me documentei antes de ir (glup!).
Mas, a verdade é que gostei. Gosto, normalmente, destes usos contemporâneos dos temas clássicos. Já Aristóteles dizia, na Poética (apesar de ser sobre a tragédia, aplica-se à comédia):

Pelo exposto se torna óbvio que a função do poeta não é contar o que aconteceu mas aquilo que poderia acontecer, o que é possível, de acordo com o princípio da verosimilhança e da necessidade.
(1451a37)
não é de todo necessário cingirem-se a histórias (mitos, traduz o Eudoro de Sousa) tradicionais sobre que versam, geralmente as tragédias. Preocuparem-se com isso seria ridículo, pois mesmo as histórias conhecidas são conhecidas por poucas pessoas (já na altura...) e, no entanto, agradam igualmente a todos. De tudo isto resulta evidente que o poeta deve ser um construtor de enredos mais do que de versos, uma vez que é poeta devido à imitação e imita acções. (1451b27)

A cena passa-se em Esparta e não em Atenas. A heroína é rainha desta cidade e é ela quem encabeça a luta pelos direitos das mulheres, que pretendem a igualdade entre sexos e não uma superioridade em relação aos homens. No final é estrangulada pelo marido. Bem diferente da versão de Aristófanes.

A discussão entre ultrapassou este aspecto: encenação. Numa das muitas conversas que tivemos (nós, os que fomos ao teatro), havia quem defendesse que a peça não se devia chamar apenas Lisístrata. Que devia ser outra coisa... ter um subtítulo, por exemplo. Ora, sendo dois dos companheiros de viagem actores/encenadores/ professores, foi difícil argumentar com as suas críticas (a da Ana O. pode ser lida aqui).A mim não me incomoda que seja só assim. A Antígona, de Jean Anouille, não tem subtítulo. Nem a Fedra, de Racine. Aliás, acho que o nome é importante e aquilo que o que for escolhido invoca é que que faz a diferença. Aristófanes deixou um legado com esta comédia: de uma qualquer Lisístrata, ateniense ou espartana, espera-se liderança, luta femininae, principalmente, greve de sexo (curiosamente, esta notícia publicada aqui faz hoje um ano) .E é isso que Martínez Mediero nos dá nesta peça.
Quanto à encenação, disse-se que houve pouco aproveitamento do espaço, que o encenar não tirou partido dos recursos que as ruínas do teatro romano lhe davam. Nesse ponto concordo.
Quanto às brejeirices aqui e acolá, aos trajeitos efeminados de determinada personagem, à forma desajeitada com que alguns do muitos (muitos!) figurantes se moviam em cena, confesso que me divertiram. Nas comédias de Aristófanes havia tudo isto! E, tal como não percebi imediatamente por que riam as pessoas de umas coisas ou aplaudiam com entusiasmo outras, tendo vindo a saber que as personagens principais eram interpretadas por actores conhecidos do grande público, por causa da televisão, também imagino que quem assistisse a Os Cavaleiros e não conhecesse a obra de ou não soubesse que se gozava com Eurípides por se dizer que a mãe era hortaliceira, não ia perceber a referência ao cerefólio:
2º escravo: 'Fuarça'?!... Isso não é para mim. Ora... como é que eu hei-de dizer a coisa de uma maneira habilidosa, à Eurípides? Porque não me dizes tu aquilo que eu tenho de dizer? (frase do Hipólito, de Eurípides)
1º escravo: Ah, não! Cerefólios para cima de mim, não!
Aliás, nem iria perceber a piada do nome dos escravos, Cléon, Demóstenes e Nícias, que remetem para políticos bem conhecidos de todos.
Dizem os entendidos que o festival de Mérida já não é o que era. E eu acredito. Mas como nunca lá tinha ido, diverti-me imenso*! É sempre uma emoção estar sentada em locais como aquele... emocionei-me tanto no Epidauro... e não assisti a nenhuma peça. Acho que iria adorar, mesmo que fosse em grego moderno, com péssimos actores!
Voltamos para o ano?
*Pronto. Admito. Deu-me o sono e dormi um bocadinho... mas o texto era em espanhol coloquial... e já me tinha passado a emoção de estar naquele espaço... e quem me conhece sabe que tenho dificuldades em me manter acordada depois de uma certa (que nunca sei qual é) hora...

11 setembro 2007

1 ano de Blogue


(À falta de melhor, fica aqui uma foto do meu aniversário deste ano, com velas e tudo!)
Faz hoje um ano que publiquei o meu 1º post.

....................
Que hei-de dizer mais?
Ahã? Se a blogosfera mudou a minha vida?
Claro! Se não mudasse é que era triste. Tudo o que fazemos muda sempre alguma coisa na nossa vida... «se a alma não é pequena», claro.
E estes novos amigos, estes espaços que visito e onde leio tanta coisa interessante, têm-me feito um bem imenso.
A todos os que aqui vieram durante este ano, muito obrigada pela vossa amizade e pelo vosso estímulo!
Beijinhos!

P.S. Só publico hoje este postal, porque estive sem net uns dias...

05 setembro 2007

A minha avó Stella...

... faria hoje 105 anos, se fosse viva.
Foi, talvez, a pessoa mais marcante na minha formação como mulher.
Quando a minha irmã se casou, pensei que ia ficar com o quarto só para mim, mas a avó mudou-se e, dos meus 10 aos 19 (quando morreu), partilhámos o espaço, os sentimentos, as conversas, as leituras... A ela devo ter começado a ler Eça de Queiroz, Júlio Diniz, Erico Veríssimo, entre outros, nas longas férias de Verão dos meus 10, 11 e 12 anos. Ajudou-me a esconder «O Crime do Padre Amaro» do meu pai. E sabia que nessa altura eu lia Zola e Balzac (sem preceber metade daquelas relações), ajudando-me e explicando-me muitas coisas.
Inteligente, culta, bonita, elegante (qualquer trapinho lhe ficava bem) e muito prendada. E não era só o piano e o francês. A minha avó sabia cozinhar na perfeição e era ela que fazia os meus pijamas (gostava de calção e top de alças, modelo que não havia para crianças).
E estava sempre a cantar pela casa toda, com uma voz linda.
Cantava músicas da sua terra e ensinava-mas.
Eu, pequenina e gorducha, lá ia desafinando, baboleando-me e acompanhando a letra com os gestos que ela me ensinava, fazendo rir as visitas da casa:

«Chiquita bacana lá da Martininica
Se veste com uma casca de banana nanica»

Sempre que não sei o que fazer, sempre que me falta um conselho adulto (sim, porque muitas vezes sinto-me pequenina, deitada na cama, à espera que me venha ajeitar os lençóis e me dê seus beijinhos coloridos, tal como os sonhos: beijinhos cor-de-rosa na cara, azuis na testa, verdes no nariz...), é nela que penso.

Tenho saudades da minha avó!

03 setembro 2007

Afinal, eles também usam este «recurso»...

(foto de Jim Richey, tirada daqui)


Também as lágrimas são úteis; com lágrimas, comoverás diamantes;
faz, se conseguires, que ela veja o teu rosto banhado de pranto;
se as lágrimas não aparecerem, pois nem sempre surgem no tempo certo,
esfrega os olhos com as mãos molhadas.

Ovídio, Arte de Amar, I, 657-660
Tradução de Carlos Ascenso André

01 setembro 2007

receita romana: doce caseiro de tâmaras

(imagem daqui)
Recheie tâmaras descaroçadas (pequenas ou normais) com nozes, pinhões ou pimenta moída. Salpique-as por fora com sal, frite em mel cozido e sirva.
(O Livro de Cozinha de Apício, 7,11, 1; 296)

Inês de Ornellas e Castro, autora desta tradução (ver aqui), actualizou a receita:

24 tâmaras grandes
15 nozes
30 g de pinhões
sal q.b.
mel q.b.
manteiga q.b.
Retire o caroço às tâmaras. Moa as nozes e os pinhões e recheie as tâmaras. Salpique com sal fino. Unte um tabuleiro de barro com manteiga, disponha as tâmaras e regue com mel. Leve a cozer em forno quente durante cerca de 10 minutos.

(Pronto! Lá se vai a dieta!)

28 agosto 2007

João Chora antes das 7 da manhã

Meu caro João,

Ainda há pouco, na Antena 1, antes das notícias das 7, recebeste um belo elogio e passaram um dos teus fados. Deu-me logo um ataque de nostalgia e fui ouvir o teu disco.
Como tens passado? Quando te volto a ouvir ao vivo? Vou dar uma olhadela ao teu site.
Beijinhos!

26 agosto 2007

Livros, livros, livros (5)

Este foi mais um livro que comprei. Sempre me interessei pela vida que os gregos tinham e que transparecia em muitos textos literários e nas descobertas arqueológicas.
Este livro saíu há 10 anos, em 1997, mas só agora o descobri... nem sempre se consegue estar em cima do acontecimento...
Aguço o apetite aos meus amigos com esta nota (por Richard W. Wilk) que encontrei na Amazon:

«Davidson focusses on consumption habits, and the morality of eating, drinking, and sex. It is both very revealing about the lives of the Greeks, and an absolutely key step in understanding the origins of modern styles of consumer culture. This is by far the most theoretically sophisticated thing written about consumption in prehistory - Davidson brings some of the best of modern consumption theory to bear, but never in a pedantic way. The text remains lively, fun, and enlightening. »

15 agosto 2007

Aristófanes versus Mediero

Foto de Pedro Conceição (obrigada!)
Tive o privilégio de ir a Mérida acompanhada, para além de mais 3 amigos, por dois actores e encenadores amadores: Paulo Moreira e Ana Cristina Oliveira.
No fim, todos discutimos o que tínhamos achado sobre tudo o que víramos e ouvíramos. No próximo postal falarei da nossa simpática discussão, mas para que se compreenda melhor e para dar uma ideia da informação disponível sobre o que íamos ver, deixo aqui as palavras do programa (que, confesso, apenas li à entrada do teatro romano e não aqui, de onde tirei o que se segue):
«De Aristófanes a Mediero»
por Antonio Corencia

«Aristófanes, o mais brilhante autor da antiga comédia grega, escreveu a sua obra Lisístrata no ano 411 a.C. Manuel Martínez Mediero, um dos nossos melhores dramaturgos, se não mesmo o melhor, escreveu uma versão livre deste título em 1979 que teve a honra de dirigir no prestigioso Teatro Romano de Mérida, durante o Festival de 1980. O acolhimento por parte de público e a crítica foi realmente memorável, como pode comprovar-se nas hemerotecas e o culto povo emeritense recorda ainda.
Durante o Festival de 2007, vai celebrar-se uma merecida homenagem a Manuel Martínez Mediero e, por tal motivo, encomendaram-lhe uma revisão da sua Lisístrata que, novamente, foi posta nas minhas mãos e que tratarei de servir com a admiração, a entrega e o carinho que em mim suscitam a obra e a pessoa de tão admirado autor extremenho.
É a mesma Lisístrata a de Aristófanes e a de Mediero? Sim e não. Ambos fustigam implacavelmente os vícios dos seus contemporâneos, a conversa política e filosófica e o belicismo. São ambos autores de talento extraordinário, apesar da tremenda crueldade dos seus escárnios. Em ambos existe uma profunda raiz de autêntica poesia. Ambos escrevem enamorados da paz e da justiça e há em ambos uma penetrante sabedoria vital.
A partir daí, como explicava em 1980 o respeitado crítico Teresiano Rodríguez, a diferença já é total: A Lisítrata de Aristófanes é ateniense; a de Mediero espartana; a Lisístrata de Aristófanes conduz as mulheres à tomada da sua própria cidade; a de Mediero embarca-as até Atenas e em seguida promove uma greve de sexo; a Lisístrata de Aristófanes pretende reter os homens, enquanto que a de Mediero pretende que a mulher deixe de ser um objecto. Para esta nova Lisístrata, a guerra é uma forma de opressão que é necessário abolir. A Lisístrata de Mediero não odeia os homens, mas sim pretende estabelecer entre homens e mulheres uma nova relação baseada não no poder do primeiro, mas na liberdade mútua.Do autor grego fica o título, que serve de ponto de partida: acabar com as guerras que sangram os países e deixam as mulheres na solidão e no abandono.»

13 agosto 2007

Ainda não é agora

Estou à espera que me mandem as fotografias que irão ilustrar o postal que tenho escrito sobre a peça.

11 agosto 2007

Festival de Teatro Clássico de Mérida

(foto daqui)

Hoje vou ver a Lisístrata, de Aristófanes, apresentado nesta LIII edição do Festival Teatro Clásico Mérida.
Diz no programa (versão portuguesa disponível online):

LISÍSTRATA (teatro)
Teatro Romano. 23 horas
De 9 a 14 de Agosto
Homenagem ao dramaturgo Manuel Martínez Mediero, autor da versão
Director cénico: Antonio Corencia
Intérprete principal: Miriam Díaz-Aroca, Vicente Cuesta e Maria Kosti
Uma produção do Festival de Teatro Clássico de Mérida

Recordo esta notícia...
E depois conto como foi.

08 agosto 2007

Livros, livros, livros (4)



E aqui está mais um que deve ter graça:

Celebrity in Antiquity. From Media Tarts to Tabloid Queens. Um livro de Robert Garland, publicado pela Duckworth em 2006.
O autor refere na introdução que, há uns anos, 2/3 da população de uma Escola Secundária de Brooklyn responderam à pergunta «O que queres vir a ser?» com «Uma celebridade».
Ora, apesar de nem em latim ou grego existir um nome para celebridade («Greek approximations include axioma ('estimation'), charisma ('magnetic appeal', commomly bestowed by a god), doxa, ('repute'), epiphaneia ('renown'), kleos ('glory') [...]. Latin approximations include claritas ('renown'), gloria ('fame', especially that which results from military achievement), laus ('esteem', 'reputation') and popularitas ('popularity').»), o índice tem capítulos como «The Consummate Populist», «The Sports Star», «The Celebrity Guru», «The Showbiz Star», «The Sexually Liberated Female», entre outros.
Fiquei curiosa e vou encontrar um dia destes tempo para o ler.

07 agosto 2007

Sandokan O Tigre da Malásia - Agora é que é

Não sei como se faz para que o vídeo não desapareça quando escrevo a azul...

Sandokan , o Tigre da Malásia

Confesso: adorava ver isto. Era na época da Heidi e da Escrava Isaura... Antes tinha sido a Gabriela e eu tinha querido cortar o cabelo «à Malvina». Tem piada, recordar.

04 agosto 2007

Blogues em Livro

Entre o Sol e as Brumas colocou-me entre aqueles blogues que gostaria de ler em livro. Na verdade, e não é falsa modéstia, não me parece que a Senhora Sócrates em livro tivesse muita graça (o que não quer dizer que um livro da Senhora Sócrates não a tivesse).
Estes, eu gostava de folhear:


(foto daqui)
O epistolário do
André.
A ficção da
Marta.
As opiniões políticas (de polites - cidadão) do
Miguel Castelo-Branco.
Os devaneios do
Nuno.
As traduções de grego moderno da
Charlotte.
Os
delírios do António.
As conversas e os pensamentos catatónicos do
Ivar.
As fotografias do
JB.
O livro não anunciado do
Américo de Sousa.
A prosa quotidiana do
Zé Bandeira.
A e-scripta do
JS.
Os escritos do Miguel Ceia.

E mais, e mais, e mais, mas passavam os 12 pedidos...

03 agosto 2007

The Last Temptation of Christ - The script

(A pedido de várias famílias, aqui vai o excerto referido ontem)
Screenplay by Paul Schrader, based on a novel by Nikos Kazantzakis

PAUL

I used to be a sinner. The worst sinner. I did everything. Whored, drank, murdered. I killed anyone who violated the Law of Moses. Then, I was struck by a burning light and a voice called to me, 'Saul, why are you persecuting me? Why are you against me?' 'Who are you?' I said. 'Jesus,' the voice said, and he gave me my sight. I opened my eyes and I was baptized and became Paul. I bring the good news to every country.

Jesus comes closer, the Angel by his side.

PAUL

I bring this news. About Jesus of Nazareth. He wasn't the son of Mary, he was the son of God. His mother was a virgin. The angel Gabriel came to earth and put God's seed in her womb. That's how he was born. He took on our sins, he was tortured, crucified - but three days later he rose again and was taken up to heaven. Death was conquered, praise God! Death was conquered, sins were forgiven and the Kingdom of Heaven's now open to everyone.

Jesus can restrain himself no longer. He calls out:

JESUS
Did you ever see this resurrected Jesus of Nazareth? I mean, with your own eyes?

PAUL
No. But I saw a blinding flash of light and I heard his voice.

JESUS
You're a liar!

PAUL
His disciples saw him. They were hiding in an attic with the doors locked when suddenly he appeared. Only one, Thomas, wasn't convinced but he put his fingers in his wounds and gave Jesus some fish, which he ate.

JESUS
Liar!

(to people around him)
He's a liar!

Disgusted, Jesus turns and walks away. His angel follows. In the background, Paul comes after him. Jesus feels Paul's footsteps drawing closer. He's about to explode. Suddenly, he turns on his heel, grabs Paul by the shoulders and shakes him violently.

JESUS (continuing)
You're a liar! I'm Jesus of Nazareth. I was never crucified. I never came back from the dead. I'm a man like everyone else. Why are you spreading these lies?

ANGEL
Quiet.

PAUL
What are you talking about?

JESUS
I'm the son of Mary and Joseph, who preached in Galilee. James and John, the sons of Zebedee, were my disciples. We marched on Jerusalem, they brought me before Pilate, but God saved me.

Jesus' Angel doesn't like this conversation; he tugs violently at his sleeve. Jesus shoves him aside. Paul takes Jesus around a corner where they won't be seen.

PAUL
No he didn't!

JESUS
Now I live like a man. I have a family. I eat, work, have children. Do you understand what I'm saying? Don't go around the world spreading these lies about me. (shouts) Because, I'll tell everyone the truth.

Now it's Paul's turn to explode:
PAUL
Look around you! Look at these people. Do you see the suffering and unhappiness in this world? Their only hope is the Resurrected Jesus. I don't care whether you're Jesus or not. The Resurrected Jesus will save the world - that's what matters.

JESUS
The world can't be saved by lies.

PAUL
I created the truth. I make it out of longing and faith. I don't struggle to find truth -I build it. If it's necessary to crucify you to save the world, then I'll crucify you. And I'll resurrect you too, whether you like it or not.
JESUS
I won't let you. I'll tell everyone the truth.

PAUL
Shout all you want. Who'll believe you? You started all this, now it can't be stopped. The faithful will grab you and call you a blasphemer and throw you in a fire.

JESUS
No, that wouldn't happen.

PAUL
How do you know? You don't know how much people need God. You don't know what a joy it is to hold the cross, to put hope in the hearts of men, to suffer, to be killed - all for the sake of Christ. Jesus Christ. Jesus of Nazareth, Son of God. Messiah.

Jesus is listening intently now.

PAUL (continuing)
Not you. Not for your sake. (pause) I'm glad I met you. Now I can forget you. My Jesus is much more powerful.

Paul returns to the townsquare to preach. Jesus, exhausted, dazed, starts back toward his house. The Guardian Angel faithfully follows.

02 agosto 2007

Felizes os pobres de espírito

Instaste-me a comentar aqui o teu postal, caríssimo Miguel.
Sabes que gosto de te ler e das coisas que escreves e o meu comentário não será grande, até porque a última coisa de que tenho vontade é de discutir a existência de algum tipo de deus. É, de facto, um assunto que não me ocupa minimamente o espírito.
Sempre que se fala nisso lembro-me do filme A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese. Estive a ver se encontrava o guião e, ao lê-lo, fiquei contente por me lembrar bastante bem da parte que aqui queria referir: quando S. Paulo encontra Jesus e lhe diz que a fé que as pessoas têm é superior à própria existência daquele homem que diz ser Jesus, termina afirmando:
«I'm glad I met you. Now I can forget you. My Jesus is much more powerful.»

Quanto aos «pobres de espírito», «feeble minded» não é uma boa tradução. Essa é a tua tradução inglesa do texto português. Pode ter sido escrito originalmente em aramaico, mas o que possuímos são textos gregos. E aí está escrito: μακάροι οι πτωχοι τω πνεύματι (não sei fazer todos os acentos aqui) - felizes os pobres (pobres mesmo, miseráveis, pedintes) de espírito.
A interpretação tradicional segue este raciocínio: um pobre é o que não tem; se não tem, está vazio; se está vazio tem lugar, tem espaço. Espaço onde? No seu espírito. Para quê? Para perceber e receber Deus.
De resto, esta explicação em nada invalida o teu raciocínio. Apenas corrige que o Reino de Deus é para quem tem lugar para ele...
Beijinhos!

01 agosto 2007

Rosslyn Chapel

(imagem daqui)

Estive no Domingo, amiga, no local do qual me falaste, pela primeira vez, naquela tua sala de Chelsea. Era o teu amor pelas pedras que te fazia vibrar ao falares dos pedreiros portugueses que aí teriam trabalhado. Conversas longínquas... já lá vão quase 20 anos... um duende, o homem da caligrafia... conversas estranhas na minha memória.
Sempre quis ir ver a «tua» capela. Tive uma bela companhia, mas faltaram-nos as tuas explicações: fizeste falta para entender todos os pormenores, para usufruirmos do teu conhecimento e forma única de o expressar.
Vamos lá um dia juntas?

30 julho 2007

Livros, livros, livros (2)

Se gostaram daquele, leiam só a descrição deste:
«Tracing the social, political, and cultural influences that informed classical thinking about pity and superstition, nature and divine, Inventing Superstition exposes the manipulation of the label of superstition in arguments between Greek and Roman intellectuals on the one hand and Christians on the other, and the purposeful alteration of the idea by Neoplatonic philosophers and Christian apologists in late antiquity»

- Inventing Superstition - from the Hippocratics to the Christians, de Dale B. Martin, publicado em 2004 pela Harvard University Press.
Já comecei a ler e estou a gostar muito!
Empréstimos? Só é permitida leitura no local...

28 julho 2007

Livros, livros, livros

I'm affraid to say... it's 222,82 pounds...
A empregada da livraria estava surpreendida pelo valor gasto em livros. Eu andei a poupar para isso mesmo e estou muito contente com as minhas compras!

Vamos a um:
- Sanctuaries and the Sacred in Ancient Grek World, de John Pedley, publicado pela Cambridge University Press, em 2005. A descrição (e o cheirinho do que li antes de comprar) convenceu-me:
«This book explores the variety of ancient Greek sanctuaries - their settings, spaces, shapes, and structures - and the rituals associated with them, such as festivals and processions, sacrifice and libation, dining and drinking, prayer and offering, dance, initiation, consultation, and purification. (...)»

Como? Também queres? Está bem, eu depois deixo-te ler... mas não te empresto, senão, só o volto a ver se o for visitar a tua casa...

27 julho 2007

Jogos Florais

Ela: Podíamos chamar «Concurso de poesia»... mas não tem apenas poesia.... gostas de «Jogos Florais»? Não é foleiro?
Eu: Gosto. Acho que é uma forma antiga que transmite exactamente o que as palavras querem dizer no seu sentido mais original.
Ela: Sim?
Eu: Anthos, em grego, quer dizer flor. Encontras em palavras como crisântemo, por exemplo (chrysos - ouro + anthos). O verbo lego, em grego, quer dizer muita coisa. A mais comum é dizer, mas um dos sentidos mais antigos é escolher. Assim, uma Antologia é uma escolha de flores, isto é, das melhores composições de um determinado autor, de um determinado tema, etc.
Ela: Que giro!
Eu: Antologia é equivalente a Florilégio. Enquanto que aquela palavra vem do grego, esta vem do latim: flos, floris quer dizer flor e, de novo, o verbo lego, que em latim significa ler, mas também escolher.
Ela: Convenceste-me (risos). Vamos, então, manter «Jogos Florais»!

24 julho 2007

Problema técnico no blogue

Não sei o que se passa, mas só consigo escrever em html. Fiz um copy-paste do código para a cor azul, pois desapareceu-me a possibilidade de mudar a fonte e a cor da fonte.
Alguém sabe como se resolve isto?
Obrigada!

23 julho 2007

Memórias

Hoje faz anos o meu sobrinho João. Só João. Isto é, João e apelidos. Como eu um dia disse a uma tia: «Chama-se João apelidos.» «João Euclides? Onde foram desencantar esse nome?»
Jones, Jones Faria, João Pequenino, João Médio (esta é minha: João Grande era o meu irmão mais velho. Quando teve um filho, João Filipe, passou a ser o João Pequenino. Como este João já era o Pequenino, passei a referir-me a ele como João Médio. Confusos?)...
O meu João Faria vive para os lados de Aveiro e é músico. Sempre foi muito esperto e muito criativo.
Um dia, estávamos nós nas Caldas da Rainha (onde ele nasceu e viveu), deveria ter uns 4 ou 5 anos (e eu 15 ou 16), quando o Puto João diz: «Ó mãe, quero fazer xixi!»
Mãe? Enganara-se e eu apressei-me a corrigir, incomodada com a ideia que pensassem naquele estabelecimento comercial onde nos encontrávamos que eu já seria mãe de uma criança daquela idade:
«Mãe, não, tia. Sou tua tia.»
Não sei se percebeu o meu desconforto perante a ideia de ser mãe, mas a verdade é que fez um ar malandro e insistiu:
«És minha mãe, és! És minha mãe!»
«Não sou! Sou tia!»
«Mãe! Mãe! Mãe! Quero fazer xixi!»
Perante os olhares acusadores das pessoas, pensando, certamente, que me envergonhava de ter sido mãe adolescente, dando-me mais de 20 anos (essa parte não me incomodava - era giro ser considerada mais velha), lá o levei à casa de banho, onde ele fez o seu xixi, riu e disse-me: «Obrigada, tia Nininha».
Parabéns, Jones! Ainda não é desta que fazes 30!

A todos...

... os que me desejaram melhoras - a todos os que comentaram aqui; a todos os que telefonaram; a todos os que nem sabem que este blogue existe e foram visitar-me a casa; a todos os que teriam feito qualquer uma destas coisas se tivessem sabido (e vão lamentar-se por não ter vindo ao blogue, nem telefonado, nem visitado - Eheheheh) - agradeço o apoio (que foi tão ou mais importante do que possam ter imaginado), do fundo do coração.
As nódoas negras estão a ficar mais claras. A dor no pescoço limitada a certos movimentos. Só daqui a uns meses se poderá saber se houve consequências mais profundas, mas, por ora, estou bem.
OBRIGADA A TODOS!

16 julho 2007

Estar vivo é o contrário de estar morto

Também contribuíram para eu recuperar a saúde os meus amigos: nos seus conselhos, na sua companhia, na sua conversa encontrei uma grande consolação. (...)
Tu hás-de morrer um dia, não por estares doente, mas sim por estares vivo. E esta lei da natureza é válida mesmo quando estiveres de boa saúde. Quando recuperares, terás escapado apenas a uma doença, não à morte.
Voltemos ao aspecto mais penoso: é certo que a doença implica grandes dores físicas, mas o próprio facto de serem intermitentes torna-as suportáveis. A intensidade de uma dor aguda tem o seu fim. É impossível alguém sentir uma dor enorme durante muito tempo.
Vê como a natureza foi benévola connosco a ponto de fazer com que a dor fosse, ou suportável, ou de curta duração.

Séneca, Cartas a Lucílio, 78, 4, 6-7. Tradução de J.A. Segurado Campos, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991.

13 julho 2007

Nota personalíssima

A Senhora Sócrates sofreu ontem um acidente de automóvel. O outro não parou num stop, bateu-lhe na zona do depósito de combustível e o carro da Xantipa foi contra uma casa. O automóvel estará perdido, mas a viúva do filósofo encontra-se bem, na medida do possível. Os deuses protegeram-na e, até ver, só tem nódoas negras causadas pelo cinto, pequenas escoriações causadas pelo aibarg e uma enormíssima dor no corpo, principalmente na coluna.
A Senhora Sócrates volta a agradecer aos amigos que se preocupam com ela e pede desculpa por não actualizar o blogue nem navegar com tanta frequência nos próximos dias.

11 julho 2007

Nota pessoal

O gato Zé Mimi deve sair hoje da clínica onde se encontra internado para curar uma infecção generalizada e ser cosido numa ferida na barriga.

A todos os que se têm preocupado com ele, muito obrigada.

10 julho 2007

Dafne e Apolo

(óleo sobre tela de Rosário Andrade. Aqui e aqui)

Febo está apaixonado. Ao ver Dafne, quer unir-se a ela. (…)
ela afasta-se, mais célere do que a leve brisa,
E não se detém às palavras do deus, que a chama : «Ninfa, rogo-te,
filha de Peneu, espera! Não te sigo como inimigo, espera, ninfa! (…)»
Febo vai falando, enquanto a filha de Peneu, assustada,
prossegue a sua corrida e o deixa a falar sozinho.
E ainda então lhe parecia bela. O vento desnudava-lhe o corpo (…)
Uma leve brisa repuxava-lhe os cabelos para as costas. (…)
O perseguidor, levado pelas asas do amor, é mais rápido, recusa o cansaço,
está já sobre a fugitiva, aspira-lhe o cabelo caído pelas costas.
Consumidas as forças, ela empalidece. Vencida pela canseira
de tão veloz fuga, olhando as águas do Peneu, grita: «Pai! Socorro!
Se é que vós, os rios, tendes algum poder divino, destrói
e transforma esta aparência pela qual agradei tanto.»
Mal havia acabado a prece, invade-lhe os membros pesado torpor,
seu elegante seio é envolvido numa fina casca, cresce-lhe a ramagem
no lugar dos cabelos e ramos no lugar dos braços. (…)
E Febo ainda a ama. Pousando-lhe no tronco a mão,
sente ainda o palpitar do coração sob a nova casca. (…)
Diz-lhe o deus: «Já que não podes ser minha mulher,
serás certamente a minha árvore. Estarás sempre, loureiro,
na minha cabeleira, na minha cítara e na minha aljava.
Acompanharás os generais do Lácio, quando alegres vozes entoarem
cantos de triunfo e o Capitólio vir à sua frente os longos cortejos (…).
Como a minha cabeça, de cabelos intonsos, mantém a juventude,
mantém tu também a glória de uma folhagem permanente.»


Ovídio, Metamorfoses, Livro I, 491-565. Tradução de Domingos Lucas Dias para a Vega, em 2006.

03 julho 2007

Fastidientis stomachi est multa degustare

Demasiada abundância de livros é fonte de dispersão; assim, como não poderás ler tudo quanti possuis, contenta-te em possuir apenas o que possas ler.
Dirás tu: «Mas sinto vontade de folhear ora este livro, ora aquele.»
Provar muita coisa é sintoma de estômago embotado; quando são muitos e variados os pratos, só fazem mal em vez de alimentar.
Lê, portanto, constantemente autores de confiança e quando sentires vontade de passar a outros, regressa aos primeiros.
Séneca, Cartas a Lucílio, 2, 3-4. Sempre a mesma tradução.

Compreendo a sabedoria destas palavras, mas eu sou mais como o Lucílio: gosto de ter livros que posso não vir a ler na totalidade, mas que gosto de folhear. Naquela altura, folhear devia ser desenrolar um papiro e não se devia poder tê-los abertos sobre a mesa ou empilhados, como eu os tenho...
Que ando a ler?
Leio vários ao mesmo tempo.

Séneca não conta, pois não? Nem Ovídio, imagino... nem Platão... nem os policiais (adoro policiais, confesso. Ando sempre com um atrás. Estou na fase egípcia, acompanhando Amelia Peabody Emerson nas suas aventuras).

Fui ali à sala ver o que está na pilha dos «pego neles mais vezes a ver se acabo algum», porque esta época do calendário escolar não é muito dada a coisas recreativas. A pilha dos «quero mesmo ler, devem ser giros, estão aqui há mais de um mês e ainda não os abri» envergonha-me. Principalmente com o raspanete que Séneca me pregou no início deste postal.

Cá vão, então, os «a ver se acabo, porque até estou a gostar, só que não tenho tempo» (em próximos postais falarei de cada um deles, pois acho que merecem uma explicação):
- Alimentação e Sociedade na Antiguidade Clássica: aspectos simbólicos dos alimentos, de Peter Garnsey. Ed. Replicação, Lisboa, 2002;
- Religions de L'Antiquité, org. por Yves Lehmann, PUF, 1999;
- O longo caminho das mulheres, organizado por Lígia Amâncio et al., Publ. Dom Quixote, 2007;
- Everyday Things in Archaic Greece, de Marjorie e C.H.B. Quennell, Ed. B.T.Batsford, 1931;
- A Natural History of Latin, de Tore Janson, Oxford University Press, 2007 (a minha edição em paperback, que a outra é de 2004).

Agradeço ao Legendas & Etcaetera o pedido, que vou completar com comentários, como referi;
E também eu estou curiosa por saber o que lêem algumas pessoas. O Miguel tem uma lista no blogue, portanto, basta passar por lá para ver.

Ficam aqui cinco provocações:

Carneiro, do Oxiclista
José Bandeira, do Bandeira ao Vento
JS e Gregório Salvaterra, do Contador de Gaivotas

Marta, do Claras em Castelo
Tomás Vasques, do Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos

(desculpem, porque imagino que estejam fartos de coisas destas, mas não resisti).

01 julho 2007

As Mulheres no Parlamento (2)

CREMES: Bem, depois um rapazola bem parecido, claro de pele, do tipo do Nícias, saltou do lugar para usar da palavra. E pôs-se a dizer que se devia confiar às mulheres o governo da cidade. (...) O tipo armou um berreiro desgraçado, a passar os maiores elogios às mulheres. A ti, deixou-te sem concerto.
BLÉFIRO: Mas, que é que ele disse, afinal?
CREMES: Logo para começar, qu és um cretino.
BLÉFIRO: E tu?
CREMES: Guarda essa pergunta para depois. E um ladrão.
BLÉFIRO: Só eu?
CREMES: Mais ainda, poça! E um bufo.
BLÉFIRO: Só eu?
CREMES: Tu, pois, (aponta para o público) e essa cambada toda que aí está!
BLÉFIRO: E quem diz o contrário?
CREMES: Que a mulher - dizia ele - é um modelo de bom-senso, que só traz fortuna. Que não anda por aí a badalar aos quatro ventos os mistérios das Tesmofórias, enquanto tu e eu, quando estamos no conselho, não fazemos outra coisa.
BLÉFIRO: Quanto a isso, verdade seja dita, não mentiu.
CREMES: Depois pôs-se a dizer que elas emprestam umas às outras roupa, jóias, louças, só lá entre elas, sem testemunhas; que devolvem tudo, ninguém fica defraudado como - eram palavras ele - é costume cá entre nós.
BLÉFIRO: Lá isso é, e com testemunhas e tudo!
CREMES: Nem se metem em denúncias, nem em processos, para derrubarem a democracia. Pelo contrário, foi um nunca acabar de elogios às virtudes femininas.

30 junho 2007

As Mulheres no Parlamento (1)

Esta peça de Aristófanes inicia-se com as mulheres a conspirarem para irem ao Parlamento (que se localizava na Pnix, uma pequena colina de Atenas), vestidas com as roupas dos maridos e levando barbas postiças.
Objectivo? Fazer com que eles decidam entregar o governo da cidade a elas, por serem as mais sensatas.
Este passo é interessante, porque, entre outras coisas, mostra muitas das actividades exercidas na vida caseira e a visão que os homens tinham das mulheres (o que justifica que se descrevam, por vezes, de forma pouco elogiosa. Não nos esqueçamos, porém, que este texto foi escrito por um homem, há cerca de 2500 anos) Neste trecho estão sozinhas, ainda a tentar decidir quem, de entre elas, as vai representar como oradora. Por isso divertem-se com algumas das graças mais comuns sobre si próprias. A escolhida foi Praxágora, com este discurso:

Que os hábitos delas são melhores que os nossos é o que passo agora a demonstrar. Para começar, mergulham a lã em água quente, à moda antiga, todas elas, e não se vê que estejam dispostas a mudar. Ao passo que a cidade de Atenas, mesmo se uma coisa dá resultado, não se julga a salvo se não engendrar qualquer inovação.
Fazem os seus grelhados sentadas, como dantes; trazem fardos à cabeça, como dantes; celebram as Tesmofórias, como dantes; cozem bolos, como dantes; estafam os maridos, como dantes, metem amantes em casa, como dantes; compram gulodices, como dantes; gostam de uma boa pinga, como dantes.
Por isso é a elas, meus senhores, que temos de confiar a cidade, sem mais discussão, sem sequer nos preocuparmos com o que pensam fazer. Dêmos-lhes carta branca para governarem. Consideremos apenas estes pontos: primeiro, que, se são mães, vão dar tudo pot tudo para salvarem os soldados; segundo, no que respeita à comida, quem mais solícito que uma mãe para reforçar uma ração?
Ninguém mais furão que uma mulher para arranjar umas massas; no poder, não há quem lhe faça o ninho atrás da orelha, porque a fazer o ninho atrás da orelha quem é que lhes leva a palma?!
Bom, adiante! Vão pelo que vos digo, que hão-de levar uma vidinha regalada.

Na verdade, o que efectivamente dizem na assembleia excluiu as partes que as podiam denegrir, ficando só as virtudes. E isso fica para o próximo postal.

28 junho 2007

«Igualdade e desigualdade da participação dos cidadãos nas magistraturas»

O problema de retirar citações do contexto é sabido: perde-se o seu verdadeiro significado.
Andando às voltas com a leitura da Política (como se percebe), encontro tanta coisa que gostaria de aqui apresentar, mas ficava com postais enormes de, apenas, citações de Aristóteles.
As suas análises dos diferentes regimes políticos, as suas subdivisões, as vantagens e desvantagens de cada um... enfim, interessante, muito interessante. Fica um cheirinho:

O maior bem é o fim visado pela ciência suprema entre todas, e a mais suprema de todas as ciências é o saber político. E o bem, em política, é a justiça que consiste no interesse comum. A opinião geral é de que a justiça consiste numa certa igualdade (...). Mas uma questão que não pode ser ignorada é saber em que consiste a igualdade e a desigualdade. Isto levanta uma dificuldade e implica uma filosofia política.
(...)
entre tocadores de flauta igualmente hábeis na sua arte, não seriam, de preferência os bem nascidos a ser dotados de flautas, pois não é o mais bem nascido que toca melhor; a quem desempenhar melhor o seu trabalho, deve ser dado o melhor instrumento.
(...)
a superioridade de riqueza e o bom nascimento deveriam contribuir para o desempenho dessa função, mas o facto é que não contribuem.
(...)
Sendo esta comensurabilidade impossível [comparar bens, como estatura e virtude, por exemplo], é evidente que, em questões políticas, torna-se razoável que a aspiração às magistraturas não se funde numa desigualdade qualquer. (...) a pretensão de magistraturas deve fundar-se nos elementos que compõem a cidade. É com razão que os bem nascidos, os livres e os ricos disputam as honras. Os que ocupam uma magistratura devem ser necessariamente livres e pagar impostos (uma cidade, com efeito, nunca poderia ser composta apenas por pobres e escravos). Mas se a riqueza e nascimento livre são elementos necessários, é evidente que também o são a justiça e o valor guerreiro sem os quais não é possível o governo da cidade.
Sem os dois primeiros elementos é impossível a existência da cidade, e sem os dois últimos é impossível a boa administração.
1282b15-1283a20

27 junho 2007

Tabernices III - Provocações: regimes políticos e sociedade

(esqueci-me ontem de relembrar que foi dia de Taberna. Este é o postal ali publicado)

Gosto muito de ler os Antigos.
Porém, quando transcrevo passos dos clássicos, não está em causa a concordância com o que dizem, mas a minha constante admiração pelas questões que já então colocavam. Gosto das provocações que nos fazem, mas não os podemos encarar como regra nem lei!


Aqui vai uma provocação extraída da Política, de Aristóteles, em edição bilingue, traduzido por António Capelo Amaral e Carlos de Carvalho Gomes , editado pela Vega em 1998, com prefácio e revisão literária de R.M. Rosado Fernandes.

Deve-se primeiro definir o que constitui a disposição para a realeza, para a aristocracia, e para o regime constitucional.
Assim, destina-se a ser governado por um rei o povo que, por natureza, produz uma família que, graças à sua virtude, dirige os assuntos políticos.
Destina-se ao regime aristocrático o povo que produz naturalmente um corpo de cidadãos capazes de serem governados como homens livres por chefes aptos, graças à sua virtude, para dirigir os negócios da cidade.
O povo destinado ao regime constitucional é aquele em que existe um corpo de indivíduos com capacidade militar, e que podem governar e serem governados conforme a lei que reparte as magistraturas entre cidadãos abastados e segundo as suas virtudes.
1288a6-15
E a democracia? interroguei-me. Respondeu-me:

Aquando da primeira investigação sobre os regimes, sublinhámos que existiam três regimes rectos, a saber: realeza, aristocracia e regime constitucional, e que eram igualmente três os desvios em que podiam incorrer, a saber: a tirania como desvio da realeza, a oligarquia como perversão da aristocracia, e a democracia como perversão do regime constitucional.
1289a25-30
Bem, isto não se fica por aqui. Para a semana conto o que entendia Aristóteles por democracia. E, para desanuviar, aqui fica uma salada grega, a horiatiki:

26 junho 2007

Amigo

(foto daqui)

E posto que a amizade encerre muitos e muito grandes proveitos, aquele que mais sobressai acima de todos é o facto de ela fazer nascer a luz de uma boa esperança no futuro e não consentir que os ânimos caiam em desalento e prostração.

Com efeito, quem olha para um amigo verdadeiro vê nele, por assim dizer, uma imagem de si mesmo. É por isso que os amigos, ainda que ausentes, estão presentes; ainda que pobres, têm abundância; ainda que fracos, são fortes.

Cícero, A Amizade, INIC/CECUC, Coimbra, 1993. Tradução de Sebastião Tavares de Pinho.
Parabéns, Amigo!

25 junho 2007

Blogue com Grelos


«O Prémio "Blogue com grelos" premeia mulheres que, na sua escrita, para além de mostrarem uma preocupação pelo mundo à sua volta, ainda conseguem dar um pouco de si, dos seus sentires e com isso tornar mais leve a vida dos outros. Mulheres, mães, profissionais que espalham a palavra de uma forma emotiva e cativante. Que nos falam da guerra mas também do amor. A escrita no feminino, em toda a net lusófona tem que ser distinguida»

E com esta descrição enviada pela Marta do Claras em Castelo fui nomeada. Tenho de agradecer-lhe o lembrar-se sempre de mim! Por isso não quebro a cadeia.

Agora tenho de nomear 5 mulheres, de blogues não colectivos, e enviar para o Blogue com Grelos, que reúne as nomeações.

Maria do Rosário, do Divas e Contrabaixos
Miriam, do A Mulher do Lado

23 junho 2007

Educação (Platão)

- Que queres dizer?
- Que quem é livre não deve aprender ciência alguma como uma escravatura. E que os esforços físicos, praticados à força, não causam mal algum ao corpo, ao passo que na alma não permanece nada que tenha entrado pela violência.


República, 536e

22 junho 2007

«Elas sou eu»

(imagem daqui)
Ontem fui ver uma comédia que me deixou muito bem disposta! Fui com uma amiga que estava com um espírito mais trágico e a quem não apetecia rir. Dizia ela. Mas rimos, rimos, rimos!
Eduardo Gaspar fez vários papéis divertidos, interagindo com o público e demonstrando uma extraordinária capacidade de improvisação!
One show man!
Como só está em cena à quinta-feira e termina a 5 de Julho, têm mais três oportunidade para o ver no Teatro-Estúdio Mário Viegas, ali coladinho ao S. Luís, na rua de baixo.
Vão ao site da Companhia Teatral do Chiado, registem-se como espectadores (gratuito) e pagarão 10 euros em vez de 15, podendo comprar os bilhetes que quiserem!
Aliás, não se compram logo: reservam-se e pagam-se à entrada.
Rir aliviou-me o espírito!

21 junho 2007

ginástica e alma - Séneca

Cultiva, portanto, em primeiro lugar a saúde da alma, e só em segundo lugar a do corpo; esta última, aliás, não te dará grande trabalho se o teu objectivo apenas for gozar de boa saúde.

(...) Pensa também que quanto mais volumoso for o corpo mais entravada e menos ágil se torna a alma. Por isso mesmo, limita quanto puderes o volume do teu corpo e dá o máximo espaço à tua alma!


Cartas a Lucílio, 15, 2.

19 junho 2007

ginástica e alma - Platão

- Então, que educação há-de ser? Será difícil achar uma que seja melhor do que a encontrada ao longo de anos - a ginástica para o corpo e a música para a alma?
- Será, efectivamente.

(República*, 376e. E depois de umas refutações, em 527b)

(...) a geometria é o conhecimento do que existe sempre.
-Portanto, meu caro, serviria para atrair a alma para a verdade e produzir o pensamento filosófico, que leva a começar a voltar o espírito para as alturas e não cá para baixo, como fazemos agora, sem dever.

*tradução de M.H. Rocha Pereira, para a Gulbenkian.

18 junho 2007

Prazer da velhice

(continuação)


Se a soubermos usar, a velhice é uma fonte de prazer.
Os frutos tornam-se mais agradáveis quando estão a ficar passados; é no seu termo que mais brilha a graça da infância; aos bebedores, o último copo é que dá mais prazer, aquele que culmina e dá o último impulso à embriaguez; aquilo que cada prazer tem de mais saboroso é guardado para o fim.


Séneca, Cartas a Lucílio, 12, 4-5.

Porto

Caros amigos,
Estou de visita rápida, rápida ao Porto. Vim matar saudades. Mas saio sempre daqui ainda mais saudosa...

15 junho 2007

Língua amarga...

A rectidão e a bondade, eis o que, em especial, cativa os corações;
A aspereza suscita o ódio e guerras cruéis.
Odiamos o falcão, pois vive sempre metido em guerras,
E os lobos, acostumados a atacar rebanhos amedrontados;
Mas vive livre das armadilhas dos homens, por ser mansa, a andorinha,
E a ave da Caónia* habita livremente as terras onde mora.
Longe daqui as contendas e os combates de uma língua amarga!

É de doces palavras que tem de sustentar-se a brandura do amor

* A pomba.

(Ovídio, Arte de Amar, II, 145-152)

14 junho 2007

Ovídio: exílio e poesia

Não sabe como ocupar a sua próxima quinta-feira?
Vá até à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e assista a este colóquio!
Inscrições gratuitas em centro.classicos@fl.ul.pt.

Ovídio: exílio e poesia no bimilenário da “relegatio”
2007. JUNHO. 21
Sala de sessões: Anfiteatro III / Fac. Letras / Lisboa

Programa:
09.30 - Abertura / Director do CEC - Ovídio: exílio, soledade e criação poética
10.00 - Aldo Luisi - La culpa silenda di Ovidio nel bimillenario dell’esilio.
10.45 - Nuno Júdice - Ovídio em português: exílios sem culpa
11.15 - Pausa / Café
11.45 - Carlos A. André - Ovídio no exílio: o poeta à defesa e a defesa do poeta
12.15 - Eduardo Vera Cruz - A pena de exílio no Direito Romano: a “relegatio”
12.45 - Discussão
13.00 - Almoço
15.30 - Paolo Fedeli - Ovídio leitor de Propércio: Amores
16.15 - Inês de Ornelas e Castro / Vanda Anastácio - Leitura de Ovídio na clausura: a Marquesa de Alorna
16.45 - Pausa / Café
17.15 - Ana Paula Correia - Episódios das Metamorfoses de Ovídio na azulejaria
18.00 - Cristina Santos Pinheiro - O paradigma da “orba mater” nas Metamorfoses
18.30 - Raul Rosado Fernandes - Ovídio, o poder imperial e as suas consequências
19.00 - Discussão
19.15 - Cristina Pimentel - Ovídio, em bimilenário: Síntese da Jornada Ovidiana

13 junho 2007

Da beleza

Como as folhas descoloridas dos lírios secam
e as pétalas das rosas com que se entretecem grinaldas murcham,
assim também o brilho que irradia da frescura do rosto
é arrebatado num momento e nenhum dia há que não
leve consigo um despojo do esbelto corpo.
A beleza é vantagem fugaz. Que sábio confia
num bem perecível? Enquanto podes, desfruta-o.

Séneca, Fedra, trad. de Ana Alexandra Alves de Sousa, para as Ed. 70.

11 junho 2007

Ir à terra... «indícios da minha velhice»

Esta era a expressão que usávamos, lá em casa, quando íamos a Talhadas, a terra do meu pai, ali para os lados de Sever do Vouga.
Como a minha mãe é de Lisboa, não dava muito jeito falar assim, até porque se via ( e vê) pouca terra por lá (mesmo indo de comboio, já este anunciava: pouca-terra, pouco-chão, pouca-terra, pouco-chão).
Fui à terra estes dias e lembrei-me de Séneca (que coisa! Sempre Séneca!):

Para onde quer que me vire, vejo indícios da minha velhice. Tinha ido à minha quinta nos arredores e queixava-me das despesas a fazer com uma casa em ruínas. O feitor diz-me que o mal não está em falta de cuidados seus, simplesmente a casa é velha.
Ora esta casa cresceu entre as minhas mãos: como não estarei eu, se tão podres estão estas pedras da minha idade? Irritado, a proveito a primeira ocasião para me zangar com o homem. «Parece» - digo-lhe eu - «que estes plátanos não estão cuidados. Não têm folhas nenhumas! Olha como os ramos estão nodosos e ressequidos, como os troncos estão macilentos e sujos! Isso não aconteceria se as árvores fossem escavadas e regadas!».
O homem jura pelo meu Génio que faz tudo o que é preciso, que toma todos os cuidados necessários: elas é que já são velhotas! Aqui entre nós, fora eu que as plantara, eu que vira brotar as suas primeiras folhas.

Virei-me para a porta. «Quem é este?» - perguntei. «Este velho decrépito que, com toda a razão, puseram junto da porta? Onde foste desencantar este indivíduo? Que ideia foi essa de ir buscar um morto que não é nosso?»
Diz-me o velho: «Então não me conheces? Eu sou Felicião, a quem tu costumavas oferecer bonecos, sou o filho do teu feitor Filosito, o teu companheiro preferido».
«Belo» - digo eu - «este está doido; catraio, e ainda por cima armado em meu companheiro preferido! Até está correcto: já lhe estão caindo todos os dentes!...»
Fico em dívida com a minha quinta: para onde quer que me virava fazia-me dar conta da minha velhice.
Pois abracemo-la, apreciemo-la: se a soubermos usar, a velhice é uma fonte de prazer.

(a continuar)


Séneca, Cartas a Lucílio, 12, 1-4. Tradução de J.A. Segurado Campos, em edição da Fundação Calouste Gulbenkian.

06 junho 2007

Eros

Eros, o mais belo entre os deuses imortais,
que amolece os membros, e a todos os deuses e a todos os homens
sujeita no peito o entendimento e a vontade consciente.

Hesíodo, Teogonia, tradução de Ana Elias Pinheiro, na INCM.