24 dezembro 2007

Sicelides Musae...

Ó musas da Sicília, cantemos algo mais elevado.
Os arvoredos e as pequenas tamargueiras não agradam a todos;
Se cantamos as florestas, que as florestas sejam dignas de um cônsul.Já está a chegar a última era da profecia de Cumas;
a grande ordem dos séculos nasce, de novo.
Já está a regressar a Virgem, regressam os reinos de Saturno,
já uma nova descendência é enviada do alto céu.
Tu, casta Lucina, favorece a criança que está quase a nascer,
Pela qual, primeiro, terminará a geração de ferro,
e surgirá em todo o mundo a era de ouro; o teu Apolo já reina.


Vergílio, Bucólica IV, vv. 1-10

Boas Festas!

Como tenho tido dificuldade em me ligar à internet e aceder ao blogger, antes que «isto» desligue, aqui ficam os meus votos de Boas Festas.
Se «isto» se portar bem hoje, ainda publico um postalinho mais logo.
Feliz Natal!

20 dezembro 2007

multa de respeito


Comprei o Borda d'Água para 2008. Os textos da editora são indescritíveis.
Contudo, tem, no texto inicial, uma referência digna de nota:

Os anos bissextos foram cercados de mitos e tradições. No séc. XIII, na Escócia, em cada ano bissexto, eram as mulheres, e não como de costume os homens, que tinham o direito de escolher quem desejassem para marido; se o escolhido não estivesse de acordo com o casamento, era obrigado a pagar uma multa de respeito.

E mais nada!

19 dezembro 2007

Abaixo a censura!

Agradeço aos meus amigos que se queixaram que os seus comentários não eram publicados e acreditaram que eu não tinha nada a ver com isso.
Aos que não me conhecem, apesar da moderação, este blogue até hoje só não publicou comentários a pedido dos próprios, porque eram particulares, e dois considerados «agressivos».
Portanto, quem tiver tido ou venha a ter dificuldades em comentar, mande-me um mail.
Contudo, penso que o problema estará resolvido.
Obrigada!

16 dezembro 2007

Diana e Minerva

Caio Plínio saúda o seu amigo Cornélio Tácito

1. Vais rir, e é justo que rias. Eu, aquele que conheces, apanhei três javalis e bem bons. «Tu próprio?» - perguntas. Eu próprio; e nem sequer me afastei inteiramente da minha inércia e quietude. Estava sentado ao pé das redes; tinha, junto a mim, não uma lança ou um dardo, mas um estilete e tabuinhas para escrever; meditava em qualquer coisa e tomava notas, para que, se voltasse de mãos vazias, pelo menos levava as tábuas cheias. 2. Não desprezes este modo de trabalhar; é de admirar como o espírito é estimulado pela agitação e movimento do corpo; já a solidão que envolve a floresta e aquele silêncio que é proporcionado pela caça são grandes estímulos do pensamento. 3. Por conseguinte, quando caçares, podes fazer como eu e leva o teu cesto de pão e uma garrafinha com bebida, bem como as tabuinhas para tirares apontamentos: vais dar-te conta de que Diana não vagueia mais pelos montes que Minerva.
Adeus.

12 dezembro 2007

De libera voluntate

Portanto, se entre os bens do corpo encontramos alguns de que o ser humano pode não usar com rectidão, nem por isso dizemos que eles não lhe deviam ter sido dados, pois reconhecemos que são bens (...).
De facto, quando um corpo não tem mãos, vês que lhe falta um bem importante. Contudo, faz um mau uso das mãos quem as emprega em acções violentas ou vergonhosas. (...)
Portanto, assim como aprovas estas coisas em realção ao corpo e, sem reparar naqueles que fazem mau uso delas, louvas Aquele que deu estes bens, também confessarás que a livre vontade, sem a qual ninguém pode viver com rectidão, é necessariamente um bem e um dom divino, e que mais se deve condenar aqueles que usam mal deste bem, do que afirmar que não no-lo deveria ter dado Aquele que no-lo deu.

Santo Agostinho, Diálogo Sobre o Livre Arbítrio, INCM, Lisboa, 2001. Tradução de Paula Oliveira e Silva.

07 dezembro 2007

Kalevala - tradução do original

Um cheirinho da tradução, directamente do finlandês, por Merja Mattos-Parreira e Ana Isabel Soares, roubada com grande descaramento do blogue desta última.

(Ouvi dizer que saíu uma edição de Kavela traduzida de outras línguas que não a original. Obviamente que me recuso a ler uma tradução de uma tradução, havendo esta praticamente no prelo. E não entendo como a embaixada da Finlândia pôde estar presente nesse lançamento.)

Depois de dizer muitas vezes "Obrigado, senhor Lönnrot, obrigado!", o Reboliço desabafa: era um grande mal agradecido, esse Lönnrot, é o que era! Quantas vezes os heróis trabalham, labutam, lutam, laboram, conseguem os feitos, só para o romântico médico lhes rematar as falas com um "Louve-se Deus." Nestes versos, o herói maior, Väinämöinen, ferido com um machado no joelho, contorce-se com dores e recebe, finalmente, a ajuda de um velho deitado ao lume:

"O velho expulsou a dor,
o sofrimento empurrou
para o meio de Kipumäki,
para o pico de Kipuvuori,
para dar a dor às pedras,
entregar à rocha a dor."
(Canto IX, vv. 523-528)

Pois não querem lá ver a resposta do herói, depois de o sangue estancar?

"Bendito sejas, ó Deus,
bendito, Criador único,
que a mim tanto ajudaste,
me trouxeste protecção
a mim nestas grandes dores,
do férreo aço a ferir!”
(Canto IX, vv. 571-576)

Assim, não dá!...

(Elias Lönnrot foi o médico que, entre 1833 e 1853, viajou pela Carélia e reuniu cantos, rezas e lengalengas populares, que haveria de publicar como cancioneiros e como a epopeia Kalevala. Nesta, compôs uma história a partir de várias camadas de histórias, passadas oralmente, de geração em geração. Um dos debates literários mais prolixos ainda hoje na Finlândia prende-se com saber em que medida o compilador foi ou não autor dos versos, isto é, terá interferido na construção das narrativas, nomeadamente no que a atitudes religiosas diz respeito. Um dado é certo: há muitos momentos de incongruências narrativas, e os versos acima dão conta de uma apenas.)

05 dezembro 2007

ΜΕΤΑΦΟΡAΣ... ΜΕΤΑΦΟΡΕΣ


A primeira vez que vi um destes camiões de transportes (nesta imagem está um de transportes e mudanças - 'μεταφορές' e 'μετακομισεις') surpeendi-me.
Estava eu sentada numa esplanada, há muitos anos, quando vejo passar um grande camião, pintado com letras garrafais, a dizer «METΑFORAS». Não compreendi de imediato. Acontece, com as metáforas...
Depois fez-se luz.
Que faz uma metáfora? Leva-nos para outra esfera de imagens, de modo a podermos apreender um mesmo sentido. Digo o mesmo, mas transportando as palavras para outro lado.
Fosse eu poetisa e escreveria qualquer coisa sobre as metáforas com que nos podemos cruzar na cidade de Atenas.
Mas não sou. Nem sequer boa fotógrafa. Esta foto foi tirada à noite, com os gregos que me rodeavam a gozar comigo por este meu fascinío por camiões de mudanças...

04 dezembro 2007

Paciente, passos, paixão...

Ontem, numa reportagem do telejornal da TVI sobre o uso de palavras inglesas na nossa língua, a jornalista alargou o tema aos anglicismos. Foi nesse contexto que entrevistaram uma emérita professora da Universiadade Nova de Lisboa, com a qual tenho de discordar (coisa que detesto fazer). Mas... paciência.

A propósito de «paciente», com o sentido de «doente» (afirmando que os médicos não têm pacientes, mas doentes), disse a professora que esta palavra vinha do inglês «pacient» e que seria de evitar.
Não é verdade. Isto é, é de evitar estar doente, claro, mas não há razão para evitar o uso do vocábulo.

Como adjectivo, paciente significa «o que sabe esperar», único sentido que lhe foi atribuído naquela reportagem. Como substantivo, significa, além de «indivíduo que espera calmamente» (v. Houaiss), «aquele que está doente».

Paciente vem directamente do particípio presente do verbo depoente latino patior (que significa «sofrer»): aquele que sofre.
É seu cognato o nome paixão (passio, passionis - a paixão de Cristo, por exemplo, é a expressão do seu sofrimento) ou passos, na expressão Senhor dos Passos. Não se chama assim à imagem de Cristo que passeia ou que dá passos (pois assim seria do nome latino passus, passus), mas sim ao Cristo que sofre, dado que passus, passa, passum é o particípio passado do mesmo verbo patior.

Infelizmente, na maior parte das vezes, temos de ser pacientes quando somos pacientes de alguns médicos...

Petição

O meu sobrinho Nuno, de 18 anos, fez esta petição.
Se estiverem de acordo, assinem.
http://www.petitiononline.com/acor1990/petition.html

25 novembro 2007

Aliki Kagialoglou

Aliki Kagialoglou (neste link vão ter de baixar várias vezes até encontrar as três referências a esta artista) está a preparar um CD com fados portugueses e declamação da Ode Marítima de Álvaro de Campos.
Como cheguei tarde do Peloponeso, já não pude ir conhecê-la. Espero que o nosso encontro para um «cafezinho» se realize em breve.

Mantineia


Mandinia, Mandinia...

«Tripoli fica perto da cidade antiga de "Mandinia"...», disse-me o Iannis. «Conheces?»
Não estava nada a ver o que seria...
«Mandinia, Mandinia... Como se escreve?», perguntei, para dar tempo e disfarçar a minha ignorância.
E ele mostrou-me.
«Ah! Mantineia! Claro!!»
Vou lá agora!

24 novembro 2007

Mitos, medos, brios...

Dizem que sim, que correu bem.
E cá a Xantipa já está triste por se aproximar o dia da partida. Também gostou muito de rever a sua velha pólis.
Amanhã vai ao Peloponeso, a Tripoli.
(actualização: a Ana Maria diz que esta fotografia não deixa ver como a sala estava cheia e obrigou-me a pôr mais estas. Cá vão!)

21 novembro 2007

Atenas, 9 anos depois

Hoje foi dia de recordações.
Um breve passeio pela avenida Elefteriou Venizelou, uma ida a Eleftheroudakis (grande livraria), um passeio pela praça da Constituição (Sintagma)

e pelas ruazinhas que frenquentei em 1998... A "minha" loja de discos (onde o Costas me fazia 24% de desconto) já lá não estava e, enquantos uns negócios abriram outros fecharam.
Gosto de ler os nomes das ruas e as direcções em grego e transliterado. Se assim não fosse, nunca descobriria que a rua Voulis é a rua da Boulê (a assembleia dos 500), ou que Lavrio é Laurium, o local das famosas minas de prata, ou que Évia é Eubeia, a ilha aqui mesmo em frente.
Regressei ao local onde o táxi me deixara duas horas antes, na «Academias».
Na a rua de Hipócrates, num café, tomei um chá com a minha amiga Ana Maria, a grande culpada da minha presença aqui.

Lembrei-me de Edimburgo e dos sofás do "Espresso Mondo"...
Numa livraria vejo que a Mariza canta no dia em que parto.

E apanho um autocarro. Não me posso enganar: é o 608.

Até amanhã!

20 novembro 2007

Viagem à Grécia

Há nove anos que não vou à Grécia. Vai ser bom rever aquela bela terra.
Quando lá vivi (escassos quatro meses), instalei-me num pequeno hotel nas franjas da Plaka chamado Dióscoros. Lembro-me dos Gémeos e recordo Pausânias:
(Rapto das filhas de Leucipe, de Rubens)

O santuário dos Dióscoros é antigo: aí há uma estátua deles e dos seus filhos sentados em cima de cavalos. Polignoto pintou-os aqui nas núpcias das filhas de Leucipo, enquanto Mícon representou-os a navegar com Jasão para a Cólquida.

19 novembro 2007

Roliça e Vimeiro


Há muitos anos, quando pela primeira vez visitei a catedral de S. Paulo, em Londres, emocionei-me ao ver o nome da pequena aldeia da Roliça, ali tão perto da terra onde nasci, gravada na pedra, num monumento que celebrava a participação inglesa nos combates contra Napoleão, durante as Invasões Francesas.
E agora que se comemoram os 200 anos da batalha com o mesmo nome, Roliça volta a estar em foco no concelho do Bombarral. No Sábado passado decorreu a sessão solene de abertura das iniciativas que se estendem até ao ano que vem, com a comemoração da batalha do Vimeiro.
Gostei muito de participar, principalmente por ter podido ouvir o magnífico apontamento histórico (modesto nome para tão eloquente prelecção) do Coronel Américo Henriques: com uma oratória perfeita, captivou-nos a todos com as histórias daquela história, com uma vivacidade e entusiasmos contagiantes e um saber bem fundamentado.


12 novembro 2007

Do amor

(Foto minha. Rodin - Eros e Psyche - Ermitage - S. Petersburgo)

O amor não tem uma natureza simples, bela ou feia em si mesma: é belo, se realizado com beleza, e feio, se realizado com vileza.
Vileza é quando se concede uma afeição indigna a um homem indigno; e nobreza, quando se concede uma feição digna a um homem de bem. E por indigno entendemos justamente esse amante popular, que prefere o amor do corpo ao amor da alma, e não guarda constância porque o objecto a que se prende não é também constante [...].
Pelo contrário, aquele que ama alguém pela beleza do seu carácter, esse permanece fiel pela vida fora, porque se funde com o que é constante.

Discurso de Pausânias no Banquete de Platão. Tradução de Maria Teresa Schiappa de Azevedo para as Edições 70.

Para mais discursos do Banquete, ver aqui, aqui, aqui...