31 outubro 2007

Amigo (2)

Se alguém te elogia enquanto estás à vista,
mas quando está longe diz mal de ti,
tal homem não é bom companheiro nem amigo,
ele que diz coisas macias com a língua, mas pensa outras coisas.
Que eu tenha como amigo quem conheça o seu
companheiro e aguente o seu feitio, ainda que difícil,
como um irmão. E tu, ó amigo, põe estas coisas
no coração e um dia no futuro te lembrarás de mim.

(vv.93-100. Ver aqui e aqui.)

28 outubro 2007

Página 161, parágrafo 5º (de novo)

Apesar de já ter respondido a este desafio anteriormente, não me importo nada de repetir. O André pensou em mim e aqui vai. O livro que estava mais à mão era este:

Recordou-se por breves momentos de Baeta, a prostituta, e lembrou-se de como foi feliz sem amar, e por momentos teve saudades desse tempo.

Carlos Campaniço*, Molinos, Pé de Página Editores, Coimbra, 2007, p.161, parágrafo 5º.

*O Carlos foi dos meus primeiros alunos de Latim na UAlg e hoje é Mestre em Culturas Árabe, Islâmica e o Mediterrâneo.

27 outubro 2007

Livrarias em Roma

No tempo da República, os livreiros eram uns desgraçados que tinham de arranjar livros para copiar para os clientes, tendo para isso que recorrer a bibliotecas privadas, o que nem sempre era fácil.
No tempo do Império as coisas mudaram: Roma tornou-se uma cidade cosmopolita também do ponto de vista intelectual, sendo a demanda de livros tal que as livrarias passaram a ter aquilo a que podemos chamar o início da ideia do «fundo de catálogo» (já raro hoje em dia).

Existiam nas lojas livros de escritores como Vergílio ou Tito Lívio e sabe-se que um livreiro até tinha vários volumes da Institutio Oratoria, de Quintiliano. E se lhe pedissem um livro que não tinha (o que seria comum), recorria, como antes, às bibliotecas, e mandava fazer uma cópia!

As autores não ganhavam direitos, mas atingiam, assim, um maior número de leitores (em vez de serem eles a fazer ou mandar fazer as cópias dos seus livros), e esse é o objectivo de todo aquele que publica.
Uma boa livraria em Roma? Marcial diz que há já ali uma:

«procura Secundo, liberto do douto Lucense,
por trás do limiar do templo da Paz e do foro de Palas

(Fonte: Lionel Casson. Ver aqui)

22 outubro 2007

Fado da dúvida (sem dúvida)

(A Marta foi roubada, mas não resisti! Que me perdoe...)

Se já não te lembras como foi
Se já esqueceste o meu amor,
O amor que dei e que tirei,
Não queria lamentar depois.


Mas uma coisa é certa, eu sei.
Não tive nunca amor maior.
E ainda vivo o que te dei,
Ainda sei quanto te amei,
Ainda desejo o teu amor.


Não tenho esperança de te ver,
Não sei amor onde andarás.
Pergunto a todo o que te vê
E nunca sei como estás.


Agora diz-me o que farei
Com a lembrança deste amor.
Diz-me tu, que não sei,
Se voltarei ou não para ti,
Se ainda quero o que sonhei.


(Texto de Pedro Ayres de Magalhães, Madredeus, 2005)

21 outubro 2007

filósofo... ministro?

«a raça humana não cessará os seus males antes que a raça daquele que ama o saber correctamente e com verdade chegue ao poder governativo ou que aqueles que têm o poder nas cidades, através de uma intervenção divina, se dediquem realmente à filosofia.»

( Platão, Carta VII, 326b. Tradução minha)

18 outubro 2007

bebida e comida não chegam...

Muitos são os companheiros para bebida e comida,
mas para empreendimento sério já são poucos.

Teógnis
(Tradução de Frederico Lourenço no volume Poesia Grega, editado pela Cotovia)

13 outubro 2007

Parabéns, Mãe!

A minha mãe faz anos hoje e vamos reunir a família.
Deste núcleo, já não estamos todos, mas os que faltam estão connosco no coração.
As famílias são assim: crescem, multiplicam-se, uns vão, outros vêm.
Muitos beijinhos, Mãe!

11 outubro 2007

kylix...

A Xantipa, agradada, também não lhe vai dizer...


Beber muito vinho é mau. Mas se bebermos
sabiamente, não é mau, mas bom.


(Tradução de Frederico Lourenço no volume Poesia Grega, editado pela Cotovia)

10 outubro 2007

Mais vale descoser que rasgar...

Há também a infelicidade, muitas vezes inevitável, de ter de renunciar a uma amizade.
(...)
Tais amizades devem, pois, ser diluídas pelo afroixamento da convivência, e, como ouvi a Catão dizer, mais devemos descosê-las do que rasgá-las.
(...)
Há que fazer todo o esforço por evitar que haja discórdia entre amigos; mas, se algum incidente desse tipo surgir, há que mostrar que as amizades mais se extinguiram do que foram violentamente esmagadas.

Cícero, A Amizade, 1993, INIC, Lisboa. Tradução de Sebastião Tavares de Pinho.
(à minha amiga, que muito é vista, mostrando-se muito pouco...)

08 outubro 2007

Não ames com palavras...

Não ames com palavras, tendo noutro lado mente e coração,
se me amas e se fiel é a tua intenção.
Ama-me com mente pura, ou então rejeita-me
e odeia-me e opta pelo conflito aberto.

Teógnis, vv. 87-90. Tradução de Frederico Lourenço no volume Poesia Grega, editado pela Cotovia.

06 outubro 2007

Sobre um sonho que hoje tive...

A ele deu resposta a sensata Penélope:
«Estrangeiro, sabes bem que os sonhos são impossíveis
e confusos; nem sempre tudo se cumpre entre os homens.
São dois os portões dos sonhos destituídos de vigor:
um é feito de chifre; o outro de marfim.
Os sonhos que passam pelos portões de marfim talhado
são nocivos e trazem palavras que nunca se cumprem.
Mas os que saem cá para fora dos portões de chifre polido,
esses trazem coisas verdadeiras, quando um mortal os vê.

Homero, Odisseia XIX, 560-567. Tradução de Frederico Lourenço para a Cotovia.

04 outubro 2007

Dois anos é muito tempo...

Lembro-me muito dele. Quase todos os dias. Falávamos sobre isto, aquilo e aqueloutro. Discutíamos leituras e sentimentos. Tínhamos vidas tão diferentes e tão iguais.
Não é por fazer hoje dois anos que deixo aqui um dos seus poemas. É porque hoje me apetece. Porque hoje ele tem ocupado mais o meu espírito do que ontem. Não sei se também amanhã...

Hinos tardios

A BODY

This is a body disse
Em tom de aviso
E eu pensei que sabia
Da fragilidade da carne
Da força de certos medos
Fiz-me entendedor
De mil injustificados cuidados
Fazendo uso pois
Dos meus mais cuidadosos dedos
E afinal achei-me
perdido
num nunca mais acabar
de casas estreitas
Ah, no bairro do amor...
Tão labiríntico.
Ah, no baile do amor...
Animais mínimos somos sempre
E foi como insectos em nocturno ardor
que em cada botão se viram presos
de perfumes primaveris embriagados
os já ditos dedos. This is a body disse
E eu pensei que sabia
E afinal o aviso era
Só por aquilo que vestia.


Mais poemas aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e mais ligações para outros poemas.

02 outubro 2007

Na adversidade...

(...) ingenium res adversae nudare solent, celare secundae.
(...) as situações adversas costumam desvendar o talento, as propícias costumam escondê-lo.

Horácio, Sátiras, II, 5. 73-74

27 setembro 2007

«Disfarçar os defeitos»

A Arte de Amar, de Ovídio, está dividida em três livros, sendo os dois primeiros «dirigidos aos homens e o terceiro às mulheres. O primeiro visa, genericamente, ensinar o homem a seduzir a mulher; o segundo, a conservar o amor, depois de concluído, com êxito, o processo de sedução; o terceiro engloba o mesmo conjunto de ensinamentos, mas, desta feita, dirigidos à mulher.», diz Carlos André, autor da tradução publicada pela Cotovia.
Segue-se um excerto do livro III:

«Rara é a beleza que está livre de defeito; disfarça os defeitos
e, tanto quanto puderes, esconde as mazelas do teu corpo.
Se és pequena, senta-te, para, de pé, não pareceres sentada,
e estende-te, por pequena que sejas, no teu leito;
mesmo aí, para não poderem tirar-te a medida, quando estendida,
esconde os pés, lançando-lhes por cima o manto;
a que é delgada demais, vista roupa de pano grosso
e faça cair dos ombros um manto largueirão;
a que tem uma cor desmaiada traga no corpo riscados de púrpura;
se és morena em demasia, parte em busca da ajuda de tecidos de Faros;
o pé chato deve ficar sempre resguardado dentro de sapato branco e fino,
e pernas descarnadas não devem andar sem correias;
ficam bem pequenos chumaços em ombros altos;
à volta do peito raso deve sempre passar um corpete.
Deve acompanhar de gestos curtos tudo quanto disser aquela
que possui dedos gordos e unhas sujas;
a que tem mau hálito nunca fale em jejum
e guarde senpre distância do rosto do seu homem;
se tens dentes negros ou grandes ou tortos,
enorme é o teu prejuízo quando te rires.»
(261-280)

26 setembro 2007

Mais e mais!



Como eu confessei que gostava de flores, o meu amigo Oppugnatore enviou-me estas duas.
Obrigada!

25 setembro 2007

24 setembro 2007

Contra-senso (2)

Ao fugir do inimigo, Fânio matou-se a si próprio.
Isto, pergunto eu, não é uma loucura: para não morrer, morrer?

Marcial, Epigramas, Livro II, 80.
Tradução de José Luís Brandão para as Edições 70, em 2000, com introdução e notas de Cristina de Sousa Pimentel.

22 setembro 2007

Conselhos de Ovídio aos homens

Muitas vezes começa, porém, o fingidor a amar de verdade;

muitas vezes, aquilo que, no começo, simulara ser, veio a sê-lo mesmo.

Mais ainda por isso, ó mulheres, tornai-vos fáceis àqueles que fingem!

Há-de transformar-se em amor autêntico o que era, ainda agora, simulação.

É, então, hora de cativar o coração, sorrateiramente, com palavras meigas,

tal como a água corrente galga a ladeira da margem;

Não hesites em louvar-lhe o rosto, os cabelos

e os dedos esguios do pé delicado;

dá deleite, mesmo às mais castas, o pregão da sua beleza;

as donzelas cuidam da figura e ela dá-lhe prazer.

20 setembro 2007

Viciada? Eu?

Para os injustos e incompreensivos acusadores sem razão...
Vejam! Vejam como, afinal, não sou assim tãaaaao viciada!


51%How Addicted to Blogging Are You?


(Obrigada, André.)

Mais flores!



A querida Sobe e Desce ofereceu-me tão simpaticamente estas flores, com a indicação de que eram das primeiras que tinha tirado. Lá no seu blogue tem muitas fotografias!

Muito obrigada!

19 setembro 2007

Adoro flores!

E o meu amigo Carneiro ofereceu-me esta! Só para mim!
Este Xiclista passou as férias a andar de bicicleta! Vejam só o percurso que fez!

18 setembro 2007

Assim, é fácil aprender Latim!

Está livre às sextas-feiras, das 9.30 às 12.30?

Pode estar nesse dia e a essas horas na Universidade do Algarve?

Inscreva-se no Curso Livre de Latim Elementar!

E se não quiser certificado nem que a disciplina entre no seu curriculum, nem tem de pagar nada!

Esta disciplina está pensada para ser frequentada por qualquer pessoa interessada em conhecer como funciona a língua latina. Pretende ser uma unidade que não pressupõe necessariamente uma continuação, mas que fornecerá ferramentas para quem o quiser fazer.

Assim, iremos partir precisamente da etimologia de palavras que todos conhecemos para explicar a morfologia e a sintaxe da língua.

Serão focados aspectos culturais associados à vida quotidiana, principalmente a casa e a família, dado que se pretende fazer visitas a sítios arqueológicos que contenham «villae» (ruínas romanas de Milreu e de Cerro da Vila, p. ex.) e a espaços que possam ajudar a compreender o dia-a-dia dos romanos (Lapidário do Museu Municipal de Faro, p. ex.).

O recurso à música será um complemento, facultando o conhecimento de um latim ainda mais próximo de nós (ex.: Composições de Rodrigo Leão, de Carl Orff (Carmina Burana), de Mozart (Requiem), de Vivaldi (Stabat Mater).

Os textos analisados serão originais, recorrendo quer a autores clássicos, como Plínio ou Ovídio, quer a textos decorrentes da vida de todos os dias, como grafitti, quer a textos bíblicos de conhecimento geral, por fazerem parte da cultura judaico-cristã.

Assim, é fácil aprender Latim!

Nota: pode-se organizar um «fim-de-semana clássico», com uma visita a Mérida ou a Conímbriga.

17 setembro 2007

Harrius Potter

Admito, pronto! Admito!
Ando a ler o último livro do Harrius Potter. À falta deste em versão latina, deixo um bocadinho do primeiro volume:

'an videtis?' inquit Hermione cum Harris et Ronaldus id perlegissent. 'non dubitum est quin canis Lapidem Philosophi Flameli custodiat! sponsionem faciam eum Dumbledorem rogavisse ut Lapidem sibi conservaret, quod sunt amici et ille sciebat aliquem eum appetere. ea est causa cur vellet Lapidem ab argentaria Gringotts removeri!'
(Vertido para latim por Peter Needhan)

16 setembro 2007

Diálogo sobre o livre arbítrio

Caro Réprobo,

Apesar de não fazer parte da corrente, não resisti a brincar à bibliomancia. E, para contrariar a minha tendência senequiana, abri este livro de Santo Agostinho e li, na 5ª frase (uma ligeira batota: considerei como primeira a frase que se iniciava na página anterior e terminava nesta) da página 161:

De facto, não é de crer que eles saibam que não é pelos ouvidos que captam a luz, nem pelos olhos que escutam as vozes, porque estas realidades só se discernem por uma atenção racional e pelo pensamento.

(Usei a edição da INCM, em edição bilingue de Paula Oliveira e Silva.)

15 setembro 2007

Ainda (e finalmente) sobre a Lisístrata

(nós, os que fomos ao teatro)


Iniciei este postal há uns tempos... um mês... mas, como prometi e já me foi pedido, aqui vão algumas reflexões sobre a Lisístrata que vi em Mérida.
A peça que fomos ver era de Manuel Martínez Mediero (autor de Férias Grandes com Salazar, que esteve recentemente em cartaz no D. MariaII) e não de Aristófanes, em versão de daquele autor espanhol, como eu pensava. Mas o erro foi completamente meu, que não me documentei antes de ir (glup!).
Mas, a verdade é que gostei. Gosto, normalmente, destes usos contemporâneos dos temas clássicos. Já Aristóteles dizia, na Poética (apesar de ser sobre a tragédia, aplica-se à comédia):

Pelo exposto se torna óbvio que a função do poeta não é contar o que aconteceu mas aquilo que poderia acontecer, o que é possível, de acordo com o princípio da verosimilhança e da necessidade.
(1451a37)
não é de todo necessário cingirem-se a histórias (mitos, traduz o Eudoro de Sousa) tradicionais sobre que versam, geralmente as tragédias. Preocuparem-se com isso seria ridículo, pois mesmo as histórias conhecidas são conhecidas por poucas pessoas (já na altura...) e, no entanto, agradam igualmente a todos. De tudo isto resulta evidente que o poeta deve ser um construtor de enredos mais do que de versos, uma vez que é poeta devido à imitação e imita acções. (1451b27)

A cena passa-se em Esparta e não em Atenas. A heroína é rainha desta cidade e é ela quem encabeça a luta pelos direitos das mulheres, que pretendem a igualdade entre sexos e não uma superioridade em relação aos homens. No final é estrangulada pelo marido. Bem diferente da versão de Aristófanes.

A discussão entre ultrapassou este aspecto: encenação. Numa das muitas conversas que tivemos (nós, os que fomos ao teatro), havia quem defendesse que a peça não se devia chamar apenas Lisístrata. Que devia ser outra coisa... ter um subtítulo, por exemplo. Ora, sendo dois dos companheiros de viagem actores/encenadores/ professores, foi difícil argumentar com as suas críticas (a da Ana O. pode ser lida aqui).A mim não me incomoda que seja só assim. A Antígona, de Jean Anouille, não tem subtítulo. Nem a Fedra, de Racine. Aliás, acho que o nome é importante e aquilo que o que for escolhido invoca é que que faz a diferença. Aristófanes deixou um legado com esta comédia: de uma qualquer Lisístrata, ateniense ou espartana, espera-se liderança, luta femininae, principalmente, greve de sexo (curiosamente, esta notícia publicada aqui faz hoje um ano) .E é isso que Martínez Mediero nos dá nesta peça.
Quanto à encenação, disse-se que houve pouco aproveitamento do espaço, que o encenar não tirou partido dos recursos que as ruínas do teatro romano lhe davam. Nesse ponto concordo.
Quanto às brejeirices aqui e acolá, aos trajeitos efeminados de determinada personagem, à forma desajeitada com que alguns do muitos (muitos!) figurantes se moviam em cena, confesso que me divertiram. Nas comédias de Aristófanes havia tudo isto! E, tal como não percebi imediatamente por que riam as pessoas de umas coisas ou aplaudiam com entusiasmo outras, tendo vindo a saber que as personagens principais eram interpretadas por actores conhecidos do grande público, por causa da televisão, também imagino que quem assistisse a Os Cavaleiros e não conhecesse a obra de ou não soubesse que se gozava com Eurípides por se dizer que a mãe era hortaliceira, não ia perceber a referência ao cerefólio:
2º escravo: 'Fuarça'?!... Isso não é para mim. Ora... como é que eu hei-de dizer a coisa de uma maneira habilidosa, à Eurípides? Porque não me dizes tu aquilo que eu tenho de dizer? (frase do Hipólito, de Eurípides)
1º escravo: Ah, não! Cerefólios para cima de mim, não!
Aliás, nem iria perceber a piada do nome dos escravos, Cléon, Demóstenes e Nícias, que remetem para políticos bem conhecidos de todos.
Dizem os entendidos que o festival de Mérida já não é o que era. E eu acredito. Mas como nunca lá tinha ido, diverti-me imenso*! É sempre uma emoção estar sentada em locais como aquele... emocionei-me tanto no Epidauro... e não assisti a nenhuma peça. Acho que iria adorar, mesmo que fosse em grego moderno, com péssimos actores!
Voltamos para o ano?
*Pronto. Admito. Deu-me o sono e dormi um bocadinho... mas o texto era em espanhol coloquial... e já me tinha passado a emoção de estar naquele espaço... e quem me conhece sabe que tenho dificuldades em me manter acordada depois de uma certa (que nunca sei qual é) hora...

11 setembro 2007

1 ano de Blogue


(À falta de melhor, fica aqui uma foto do meu aniversário deste ano, com velas e tudo!)
Faz hoje um ano que publiquei o meu 1º post.

....................
Que hei-de dizer mais?
Ahã? Se a blogosfera mudou a minha vida?
Claro! Se não mudasse é que era triste. Tudo o que fazemos muda sempre alguma coisa na nossa vida... «se a alma não é pequena», claro.
E estes novos amigos, estes espaços que visito e onde leio tanta coisa interessante, têm-me feito um bem imenso.
A todos os que aqui vieram durante este ano, muito obrigada pela vossa amizade e pelo vosso estímulo!
Beijinhos!

P.S. Só publico hoje este postal, porque estive sem net uns dias...

05 setembro 2007

A minha avó Stella...

... faria hoje 105 anos, se fosse viva.
Foi, talvez, a pessoa mais marcante na minha formação como mulher.
Quando a minha irmã se casou, pensei que ia ficar com o quarto só para mim, mas a avó mudou-se e, dos meus 10 aos 19 (quando morreu), partilhámos o espaço, os sentimentos, as conversas, as leituras... A ela devo ter começado a ler Eça de Queiroz, Júlio Diniz, Erico Veríssimo, entre outros, nas longas férias de Verão dos meus 10, 11 e 12 anos. Ajudou-me a esconder «O Crime do Padre Amaro» do meu pai. E sabia que nessa altura eu lia Zola e Balzac (sem preceber metade daquelas relações), ajudando-me e explicando-me muitas coisas.
Inteligente, culta, bonita, elegante (qualquer trapinho lhe ficava bem) e muito prendada. E não era só o piano e o francês. A minha avó sabia cozinhar na perfeição e era ela que fazia os meus pijamas (gostava de calção e top de alças, modelo que não havia para crianças).
E estava sempre a cantar pela casa toda, com uma voz linda.
Cantava músicas da sua terra e ensinava-mas.
Eu, pequenina e gorducha, lá ia desafinando, baboleando-me e acompanhando a letra com os gestos que ela me ensinava, fazendo rir as visitas da casa:

«Chiquita bacana lá da Martininica
Se veste com uma casca de banana nanica»

Sempre que não sei o que fazer, sempre que me falta um conselho adulto (sim, porque muitas vezes sinto-me pequenina, deitada na cama, à espera que me venha ajeitar os lençóis e me dê seus beijinhos coloridos, tal como os sonhos: beijinhos cor-de-rosa na cara, azuis na testa, verdes no nariz...), é nela que penso.

Tenho saudades da minha avó!

03 setembro 2007

Afinal, eles também usam este «recurso»...

(foto de Jim Richey, tirada daqui)


Também as lágrimas são úteis; com lágrimas, comoverás diamantes;
faz, se conseguires, que ela veja o teu rosto banhado de pranto;
se as lágrimas não aparecerem, pois nem sempre surgem no tempo certo,
esfrega os olhos com as mãos molhadas.

Ovídio, Arte de Amar, I, 657-660
Tradução de Carlos Ascenso André

01 setembro 2007

receita romana: doce caseiro de tâmaras

(imagem daqui)
Recheie tâmaras descaroçadas (pequenas ou normais) com nozes, pinhões ou pimenta moída. Salpique-as por fora com sal, frite em mel cozido e sirva.
(O Livro de Cozinha de Apício, 7,11, 1; 296)

Inês de Ornellas e Castro, autora desta tradução (ver aqui), actualizou a receita:

24 tâmaras grandes
15 nozes
30 g de pinhões
sal q.b.
mel q.b.
manteiga q.b.
Retire o caroço às tâmaras. Moa as nozes e os pinhões e recheie as tâmaras. Salpique com sal fino. Unte um tabuleiro de barro com manteiga, disponha as tâmaras e regue com mel. Leve a cozer em forno quente durante cerca de 10 minutos.

(Pronto! Lá se vai a dieta!)

28 agosto 2007

João Chora antes das 7 da manhã

Meu caro João,

Ainda há pouco, na Antena 1, antes das notícias das 7, recebeste um belo elogio e passaram um dos teus fados. Deu-me logo um ataque de nostalgia e fui ouvir o teu disco.
Como tens passado? Quando te volto a ouvir ao vivo? Vou dar uma olhadela ao teu site.
Beijinhos!

26 agosto 2007

Livros, livros, livros (5)

Este foi mais um livro que comprei. Sempre me interessei pela vida que os gregos tinham e que transparecia em muitos textos literários e nas descobertas arqueológicas.
Este livro saíu há 10 anos, em 1997, mas só agora o descobri... nem sempre se consegue estar em cima do acontecimento...
Aguço o apetite aos meus amigos com esta nota (por Richard W. Wilk) que encontrei na Amazon:

«Davidson focusses on consumption habits, and the morality of eating, drinking, and sex. It is both very revealing about the lives of the Greeks, and an absolutely key step in understanding the origins of modern styles of consumer culture. This is by far the most theoretically sophisticated thing written about consumption in prehistory - Davidson brings some of the best of modern consumption theory to bear, but never in a pedantic way. The text remains lively, fun, and enlightening. »

15 agosto 2007

Aristófanes versus Mediero

Foto de Pedro Conceição (obrigada!)
Tive o privilégio de ir a Mérida acompanhada, para além de mais 3 amigos, por dois actores e encenadores amadores: Paulo Moreira e Ana Cristina Oliveira.
No fim, todos discutimos o que tínhamos achado sobre tudo o que víramos e ouvíramos. No próximo postal falarei da nossa simpática discussão, mas para que se compreenda melhor e para dar uma ideia da informação disponível sobre o que íamos ver, deixo aqui as palavras do programa (que, confesso, apenas li à entrada do teatro romano e não aqui, de onde tirei o que se segue):
«De Aristófanes a Mediero»
por Antonio Corencia

«Aristófanes, o mais brilhante autor da antiga comédia grega, escreveu a sua obra Lisístrata no ano 411 a.C. Manuel Martínez Mediero, um dos nossos melhores dramaturgos, se não mesmo o melhor, escreveu uma versão livre deste título em 1979 que teve a honra de dirigir no prestigioso Teatro Romano de Mérida, durante o Festival de 1980. O acolhimento por parte de público e a crítica foi realmente memorável, como pode comprovar-se nas hemerotecas e o culto povo emeritense recorda ainda.
Durante o Festival de 2007, vai celebrar-se uma merecida homenagem a Manuel Martínez Mediero e, por tal motivo, encomendaram-lhe uma revisão da sua Lisístrata que, novamente, foi posta nas minhas mãos e que tratarei de servir com a admiração, a entrega e o carinho que em mim suscitam a obra e a pessoa de tão admirado autor extremenho.
É a mesma Lisístrata a de Aristófanes e a de Mediero? Sim e não. Ambos fustigam implacavelmente os vícios dos seus contemporâneos, a conversa política e filosófica e o belicismo. São ambos autores de talento extraordinário, apesar da tremenda crueldade dos seus escárnios. Em ambos existe uma profunda raiz de autêntica poesia. Ambos escrevem enamorados da paz e da justiça e há em ambos uma penetrante sabedoria vital.
A partir daí, como explicava em 1980 o respeitado crítico Teresiano Rodríguez, a diferença já é total: A Lisítrata de Aristófanes é ateniense; a de Mediero espartana; a Lisístrata de Aristófanes conduz as mulheres à tomada da sua própria cidade; a de Mediero embarca-as até Atenas e em seguida promove uma greve de sexo; a Lisístrata de Aristófanes pretende reter os homens, enquanto que a de Mediero pretende que a mulher deixe de ser um objecto. Para esta nova Lisístrata, a guerra é uma forma de opressão que é necessário abolir. A Lisístrata de Mediero não odeia os homens, mas sim pretende estabelecer entre homens e mulheres uma nova relação baseada não no poder do primeiro, mas na liberdade mútua.Do autor grego fica o título, que serve de ponto de partida: acabar com as guerras que sangram os países e deixam as mulheres na solidão e no abandono.»

13 agosto 2007

Ainda não é agora

Estou à espera que me mandem as fotografias que irão ilustrar o postal que tenho escrito sobre a peça.

11 agosto 2007

Festival de Teatro Clássico de Mérida

(foto daqui)

Hoje vou ver a Lisístrata, de Aristófanes, apresentado nesta LIII edição do Festival Teatro Clásico Mérida.
Diz no programa (versão portuguesa disponível online):

LISÍSTRATA (teatro)
Teatro Romano. 23 horas
De 9 a 14 de Agosto
Homenagem ao dramaturgo Manuel Martínez Mediero, autor da versão
Director cénico: Antonio Corencia
Intérprete principal: Miriam Díaz-Aroca, Vicente Cuesta e Maria Kosti
Uma produção do Festival de Teatro Clássico de Mérida

Recordo esta notícia...
E depois conto como foi.

08 agosto 2007

Livros, livros, livros (4)



E aqui está mais um que deve ter graça:

Celebrity in Antiquity. From Media Tarts to Tabloid Queens. Um livro de Robert Garland, publicado pela Duckworth em 2006.
O autor refere na introdução que, há uns anos, 2/3 da população de uma Escola Secundária de Brooklyn responderam à pergunta «O que queres vir a ser?» com «Uma celebridade».
Ora, apesar de nem em latim ou grego existir um nome para celebridade («Greek approximations include axioma ('estimation'), charisma ('magnetic appeal', commomly bestowed by a god), doxa, ('repute'), epiphaneia ('renown'), kleos ('glory') [...]. Latin approximations include claritas ('renown'), gloria ('fame', especially that which results from military achievement), laus ('esteem', 'reputation') and popularitas ('popularity').»), o índice tem capítulos como «The Consummate Populist», «The Sports Star», «The Celebrity Guru», «The Showbiz Star», «The Sexually Liberated Female», entre outros.
Fiquei curiosa e vou encontrar um dia destes tempo para o ler.

07 agosto 2007

Sandokan O Tigre da Malásia - Agora é que é

Não sei como se faz para que o vídeo não desapareça quando escrevo a azul...

Sandokan , o Tigre da Malásia

Confesso: adorava ver isto. Era na época da Heidi e da Escrava Isaura... Antes tinha sido a Gabriela e eu tinha querido cortar o cabelo «à Malvina». Tem piada, recordar.

04 agosto 2007

Blogues em Livro

Entre o Sol e as Brumas colocou-me entre aqueles blogues que gostaria de ler em livro. Na verdade, e não é falsa modéstia, não me parece que a Senhora Sócrates em livro tivesse muita graça (o que não quer dizer que um livro da Senhora Sócrates não a tivesse).
Estes, eu gostava de folhear:


(foto daqui)
O epistolário do
André.
A ficção da
Marta.
As opiniões políticas (de polites - cidadão) do
Miguel Castelo-Branco.
Os devaneios do
Nuno.
As traduções de grego moderno da
Charlotte.
Os
delírios do António.
As conversas e os pensamentos catatónicos do
Ivar.
As fotografias do
JB.
O livro não anunciado do
Américo de Sousa.
A prosa quotidiana do
Zé Bandeira.
A e-scripta do
JS.
Os escritos do Miguel Ceia.

E mais, e mais, e mais, mas passavam os 12 pedidos...

03 agosto 2007

The Last Temptation of Christ - The script

(A pedido de várias famílias, aqui vai o excerto referido ontem)
Screenplay by Paul Schrader, based on a novel by Nikos Kazantzakis

PAUL

I used to be a sinner. The worst sinner. I did everything. Whored, drank, murdered. I killed anyone who violated the Law of Moses. Then, I was struck by a burning light and a voice called to me, 'Saul, why are you persecuting me? Why are you against me?' 'Who are you?' I said. 'Jesus,' the voice said, and he gave me my sight. I opened my eyes and I was baptized and became Paul. I bring the good news to every country.

Jesus comes closer, the Angel by his side.

PAUL

I bring this news. About Jesus of Nazareth. He wasn't the son of Mary, he was the son of God. His mother was a virgin. The angel Gabriel came to earth and put God's seed in her womb. That's how he was born. He took on our sins, he was tortured, crucified - but three days later he rose again and was taken up to heaven. Death was conquered, praise God! Death was conquered, sins were forgiven and the Kingdom of Heaven's now open to everyone.

Jesus can restrain himself no longer. He calls out:

JESUS
Did you ever see this resurrected Jesus of Nazareth? I mean, with your own eyes?

PAUL
No. But I saw a blinding flash of light and I heard his voice.

JESUS
You're a liar!

PAUL
His disciples saw him. They were hiding in an attic with the doors locked when suddenly he appeared. Only one, Thomas, wasn't convinced but he put his fingers in his wounds and gave Jesus some fish, which he ate.

JESUS
Liar!

(to people around him)
He's a liar!

Disgusted, Jesus turns and walks away. His angel follows. In the background, Paul comes after him. Jesus feels Paul's footsteps drawing closer. He's about to explode. Suddenly, he turns on his heel, grabs Paul by the shoulders and shakes him violently.

JESUS (continuing)
You're a liar! I'm Jesus of Nazareth. I was never crucified. I never came back from the dead. I'm a man like everyone else. Why are you spreading these lies?

ANGEL
Quiet.

PAUL
What are you talking about?

JESUS
I'm the son of Mary and Joseph, who preached in Galilee. James and John, the sons of Zebedee, were my disciples. We marched on Jerusalem, they brought me before Pilate, but God saved me.

Jesus' Angel doesn't like this conversation; he tugs violently at his sleeve. Jesus shoves him aside. Paul takes Jesus around a corner where they won't be seen.

PAUL
No he didn't!

JESUS
Now I live like a man. I have a family. I eat, work, have children. Do you understand what I'm saying? Don't go around the world spreading these lies about me. (shouts) Because, I'll tell everyone the truth.

Now it's Paul's turn to explode:
PAUL
Look around you! Look at these people. Do you see the suffering and unhappiness in this world? Their only hope is the Resurrected Jesus. I don't care whether you're Jesus or not. The Resurrected Jesus will save the world - that's what matters.

JESUS
The world can't be saved by lies.

PAUL
I created the truth. I make it out of longing and faith. I don't struggle to find truth -I build it. If it's necessary to crucify you to save the world, then I'll crucify you. And I'll resurrect you too, whether you like it or not.
JESUS
I won't let you. I'll tell everyone the truth.

PAUL
Shout all you want. Who'll believe you? You started all this, now it can't be stopped. The faithful will grab you and call you a blasphemer and throw you in a fire.

JESUS
No, that wouldn't happen.

PAUL
How do you know? You don't know how much people need God. You don't know what a joy it is to hold the cross, to put hope in the hearts of men, to suffer, to be killed - all for the sake of Christ. Jesus Christ. Jesus of Nazareth, Son of God. Messiah.

Jesus is listening intently now.

PAUL (continuing)
Not you. Not for your sake. (pause) I'm glad I met you. Now I can forget you. My Jesus is much more powerful.

Paul returns to the townsquare to preach. Jesus, exhausted, dazed, starts back toward his house. The Guardian Angel faithfully follows.

02 agosto 2007

Felizes os pobres de espírito

Instaste-me a comentar aqui o teu postal, caríssimo Miguel.
Sabes que gosto de te ler e das coisas que escreves e o meu comentário não será grande, até porque a última coisa de que tenho vontade é de discutir a existência de algum tipo de deus. É, de facto, um assunto que não me ocupa minimamente o espírito.
Sempre que se fala nisso lembro-me do filme A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese. Estive a ver se encontrava o guião e, ao lê-lo, fiquei contente por me lembrar bastante bem da parte que aqui queria referir: quando S. Paulo encontra Jesus e lhe diz que a fé que as pessoas têm é superior à própria existência daquele homem que diz ser Jesus, termina afirmando:
«I'm glad I met you. Now I can forget you. My Jesus is much more powerful.»

Quanto aos «pobres de espírito», «feeble minded» não é uma boa tradução. Essa é a tua tradução inglesa do texto português. Pode ter sido escrito originalmente em aramaico, mas o que possuímos são textos gregos. E aí está escrito: μακάροι οι πτωχοι τω πνεύματι (não sei fazer todos os acentos aqui) - felizes os pobres (pobres mesmo, miseráveis, pedintes) de espírito.
A interpretação tradicional segue este raciocínio: um pobre é o que não tem; se não tem, está vazio; se está vazio tem lugar, tem espaço. Espaço onde? No seu espírito. Para quê? Para perceber e receber Deus.
De resto, esta explicação em nada invalida o teu raciocínio. Apenas corrige que o Reino de Deus é para quem tem lugar para ele...
Beijinhos!

01 agosto 2007

Rosslyn Chapel

(imagem daqui)

Estive no Domingo, amiga, no local do qual me falaste, pela primeira vez, naquela tua sala de Chelsea. Era o teu amor pelas pedras que te fazia vibrar ao falares dos pedreiros portugueses que aí teriam trabalhado. Conversas longínquas... já lá vão quase 20 anos... um duende, o homem da caligrafia... conversas estranhas na minha memória.
Sempre quis ir ver a «tua» capela. Tive uma bela companhia, mas faltaram-nos as tuas explicações: fizeste falta para entender todos os pormenores, para usufruirmos do teu conhecimento e forma única de o expressar.
Vamos lá um dia juntas?

30 julho 2007

Livros, livros, livros (2)

Se gostaram daquele, leiam só a descrição deste:
«Tracing the social, political, and cultural influences that informed classical thinking about pity and superstition, nature and divine, Inventing Superstition exposes the manipulation of the label of superstition in arguments between Greek and Roman intellectuals on the one hand and Christians on the other, and the purposeful alteration of the idea by Neoplatonic philosophers and Christian apologists in late antiquity»

- Inventing Superstition - from the Hippocratics to the Christians, de Dale B. Martin, publicado em 2004 pela Harvard University Press.
Já comecei a ler e estou a gostar muito!
Empréstimos? Só é permitida leitura no local...

28 julho 2007

Livros, livros, livros

I'm affraid to say... it's 222,82 pounds...
A empregada da livraria estava surpreendida pelo valor gasto em livros. Eu andei a poupar para isso mesmo e estou muito contente com as minhas compras!

Vamos a um:
- Sanctuaries and the Sacred in Ancient Grek World, de John Pedley, publicado pela Cambridge University Press, em 2005. A descrição (e o cheirinho do que li antes de comprar) convenceu-me:
«This book explores the variety of ancient Greek sanctuaries - their settings, spaces, shapes, and structures - and the rituals associated with them, such as festivals and processions, sacrifice and libation, dining and drinking, prayer and offering, dance, initiation, consultation, and purification. (...)»

Como? Também queres? Está bem, eu depois deixo-te ler... mas não te empresto, senão, só o volto a ver se o for visitar a tua casa...

27 julho 2007

Jogos Florais

Ela: Podíamos chamar «Concurso de poesia»... mas não tem apenas poesia.... gostas de «Jogos Florais»? Não é foleiro?
Eu: Gosto. Acho que é uma forma antiga que transmite exactamente o que as palavras querem dizer no seu sentido mais original.
Ela: Sim?
Eu: Anthos, em grego, quer dizer flor. Encontras em palavras como crisântemo, por exemplo (chrysos - ouro + anthos). O verbo lego, em grego, quer dizer muita coisa. A mais comum é dizer, mas um dos sentidos mais antigos é escolher. Assim, uma Antologia é uma escolha de flores, isto é, das melhores composições de um determinado autor, de um determinado tema, etc.
Ela: Que giro!
Eu: Antologia é equivalente a Florilégio. Enquanto que aquela palavra vem do grego, esta vem do latim: flos, floris quer dizer flor e, de novo, o verbo lego, que em latim significa ler, mas também escolher.
Ela: Convenceste-me (risos). Vamos, então, manter «Jogos Florais»!

24 julho 2007

Problema técnico no blogue

Não sei o que se passa, mas só consigo escrever em html. Fiz um copy-paste do código para a cor azul, pois desapareceu-me a possibilidade de mudar a fonte e a cor da fonte.
Alguém sabe como se resolve isto?
Obrigada!

23 julho 2007

Memórias

Hoje faz anos o meu sobrinho João. Só João. Isto é, João e apelidos. Como eu um dia disse a uma tia: «Chama-se João apelidos.» «João Euclides? Onde foram desencantar esse nome?»
Jones, Jones Faria, João Pequenino, João Médio (esta é minha: João Grande era o meu irmão mais velho. Quando teve um filho, João Filipe, passou a ser o João Pequenino. Como este João já era o Pequenino, passei a referir-me a ele como João Médio. Confusos?)...
O meu João Faria vive para os lados de Aveiro e é músico. Sempre foi muito esperto e muito criativo.
Um dia, estávamos nós nas Caldas da Rainha (onde ele nasceu e viveu), deveria ter uns 4 ou 5 anos (e eu 15 ou 16), quando o Puto João diz: «Ó mãe, quero fazer xixi!»
Mãe? Enganara-se e eu apressei-me a corrigir, incomodada com a ideia que pensassem naquele estabelecimento comercial onde nos encontrávamos que eu já seria mãe de uma criança daquela idade:
«Mãe, não, tia. Sou tua tia.»
Não sei se percebeu o meu desconforto perante a ideia de ser mãe, mas a verdade é que fez um ar malandro e insistiu:
«És minha mãe, és! És minha mãe!»
«Não sou! Sou tia!»
«Mãe! Mãe! Mãe! Quero fazer xixi!»
Perante os olhares acusadores das pessoas, pensando, certamente, que me envergonhava de ter sido mãe adolescente, dando-me mais de 20 anos (essa parte não me incomodava - era giro ser considerada mais velha), lá o levei à casa de banho, onde ele fez o seu xixi, riu e disse-me: «Obrigada, tia Nininha».
Parabéns, Jones! Ainda não é desta que fazes 30!

A todos...

... os que me desejaram melhoras - a todos os que comentaram aqui; a todos os que telefonaram; a todos os que nem sabem que este blogue existe e foram visitar-me a casa; a todos os que teriam feito qualquer uma destas coisas se tivessem sabido (e vão lamentar-se por não ter vindo ao blogue, nem telefonado, nem visitado - Eheheheh) - agradeço o apoio (que foi tão ou mais importante do que possam ter imaginado), do fundo do coração.
As nódoas negras estão a ficar mais claras. A dor no pescoço limitada a certos movimentos. Só daqui a uns meses se poderá saber se houve consequências mais profundas, mas, por ora, estou bem.
OBRIGADA A TODOS!

16 julho 2007

Estar vivo é o contrário de estar morto

Também contribuíram para eu recuperar a saúde os meus amigos: nos seus conselhos, na sua companhia, na sua conversa encontrei uma grande consolação. (...)
Tu hás-de morrer um dia, não por estares doente, mas sim por estares vivo. E esta lei da natureza é válida mesmo quando estiveres de boa saúde. Quando recuperares, terás escapado apenas a uma doença, não à morte.
Voltemos ao aspecto mais penoso: é certo que a doença implica grandes dores físicas, mas o próprio facto de serem intermitentes torna-as suportáveis. A intensidade de uma dor aguda tem o seu fim. É impossível alguém sentir uma dor enorme durante muito tempo.
Vê como a natureza foi benévola connosco a ponto de fazer com que a dor fosse, ou suportável, ou de curta duração.

Séneca, Cartas a Lucílio, 78, 4, 6-7. Tradução de J.A. Segurado Campos, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991.

13 julho 2007

Nota personalíssima

A Senhora Sócrates sofreu ontem um acidente de automóvel. O outro não parou num stop, bateu-lhe na zona do depósito de combustível e o carro da Xantipa foi contra uma casa. O automóvel estará perdido, mas a viúva do filósofo encontra-se bem, na medida do possível. Os deuses protegeram-na e, até ver, só tem nódoas negras causadas pelo cinto, pequenas escoriações causadas pelo aibarg e uma enormíssima dor no corpo, principalmente na coluna.
A Senhora Sócrates volta a agradecer aos amigos que se preocupam com ela e pede desculpa por não actualizar o blogue nem navegar com tanta frequência nos próximos dias.

11 julho 2007

Nota pessoal

O gato Zé Mimi deve sair hoje da clínica onde se encontra internado para curar uma infecção generalizada e ser cosido numa ferida na barriga.

A todos os que se têm preocupado com ele, muito obrigada.

10 julho 2007

Dafne e Apolo

(óleo sobre tela de Rosário Andrade. Aqui e aqui)

Febo está apaixonado. Ao ver Dafne, quer unir-se a ela. (…)
ela afasta-se, mais célere do que a leve brisa,
E não se detém às palavras do deus, que a chama : «Ninfa, rogo-te,
filha de Peneu, espera! Não te sigo como inimigo, espera, ninfa! (…)»
Febo vai falando, enquanto a filha de Peneu, assustada,
prossegue a sua corrida e o deixa a falar sozinho.
E ainda então lhe parecia bela. O vento desnudava-lhe o corpo (…)
Uma leve brisa repuxava-lhe os cabelos para as costas. (…)
O perseguidor, levado pelas asas do amor, é mais rápido, recusa o cansaço,
está já sobre a fugitiva, aspira-lhe o cabelo caído pelas costas.
Consumidas as forças, ela empalidece. Vencida pela canseira
de tão veloz fuga, olhando as águas do Peneu, grita: «Pai! Socorro!
Se é que vós, os rios, tendes algum poder divino, destrói
e transforma esta aparência pela qual agradei tanto.»
Mal havia acabado a prece, invade-lhe os membros pesado torpor,
seu elegante seio é envolvido numa fina casca, cresce-lhe a ramagem
no lugar dos cabelos e ramos no lugar dos braços. (…)
E Febo ainda a ama. Pousando-lhe no tronco a mão,
sente ainda o palpitar do coração sob a nova casca. (…)
Diz-lhe o deus: «Já que não podes ser minha mulher,
serás certamente a minha árvore. Estarás sempre, loureiro,
na minha cabeleira, na minha cítara e na minha aljava.
Acompanharás os generais do Lácio, quando alegres vozes entoarem
cantos de triunfo e o Capitólio vir à sua frente os longos cortejos (…).
Como a minha cabeça, de cabelos intonsos, mantém a juventude,
mantém tu também a glória de uma folhagem permanente.»


Ovídio, Metamorfoses, Livro I, 491-565. Tradução de Domingos Lucas Dias para a Vega, em 2006.