13 fevereiro 2008

Logopoioi - os fazedores de discursos

No programa Câmara Clara do passado domingo, a propósito das eleições nos EUA, foram referidos os speechmakers. Lembro-me de os ver em actuação na série West Wing (Os Homens do Presidente), com Richard Schiff a fazer de Toby Ziegler, o escritor dos discursos do presidente.
Não é coisa de agora, inventada por americanos.
Desde há muito que houve quem escrevesse para outros, pois nem sempre o que tem capacidades oratórias tem a capacidade de construir o discurso necessário para as ocasiões e vice-versa.
No final do Eutidemo, de Platão, há uma referência a essa actividade.
Sócrates analisa a actividade dos logógrafos (aqueles que escrevem discursos) que desdenham a filosofia e afirma que eles pensam que, estando entre o filósofo e o estadista, «participam de ambas as actividades na porção necessária» (305d); mas depois sistematiza o que eles de facto são, a saber, inferiores tanto à filosofia como à prática política, apresentando três possibilidades:
[1]- o que participa de duas coisas, uma composta de bem e outra de mal, é inferior a uma e superior a outra;
[2]- o que participa de dois bens com fins diferentes é inferior a ambos;
[3]- o que que participa de dois males com fins diferentes, é superior a cada um desses males.
Depois desta generalização Sócrates passa à aplicação ao caso que analisa:
1- se a filosofia e a prática política são bens com fins diferentes, então os logógrafos são inferiores a ambas (cf.supra [2]);
2- se a filosofia e a prática política são um bem e um mal, então estes homens «são superiores a uma e inferiores a outra» (cf. supra [1]);
3- se a filosofia e a prática política são ambas males, então o logógrafo é superior a ambas.

Como esta terceira possibilidade é logo inviabilizada, Sócrates conclui que os construtores de discursos «são inferiores às duas» naquilo em que cada uma se distingue.
Hoje em dia talvez não seja assim... afinal, nem estamos a falar de filosofia...

11 fevereiro 2008

Os Lusíadas - resumo



Luís de Camões, Os Lusíadas (várias edições), versão de João de Barros.



Resumo: Um poeta com insónias decide chatear o rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa porreiraça), têm o justo prémio numa ilha cheia de gajas boas.

10 fevereiro 2008

Já não me lembrava!


Como referi no 1º post sobre os resumos, estes foram-me enviados (por mail) e, como tal, o texto vai a castanho (penso que já todos perceberam que a castanho escrevo o texto de outros, a verde os textos da antiguidade e a azul os meus próprios textos. E, se cito, coloco aspas ou itálico, mesmo que a azul).

Contudo, a Bomba Inteligente teve a gentileza de me enviar a referência.
Aqui vai:

Os pequenos textos têm como autores Carlos Quevedo e Rui Zink, e foram publicados na Revista Kapa, em inícios da década de 90. Poderá encontrá-los no "Já não me lembrava".

Este livro de Carlos Quevedo pode ser adquirido em qualquer livraria perto de si ou aqui. Se tem textos da Kapa, deve ser muito divertido! Ainda guardo recortes da revista, do meu tempo de Funchal, dos princípios dos anos 90.
Já se está a ver que sou daquelas pessoas que guardam recortes de jornais e revistas, porque nunca se sabem quando podem vir a ser úteis e que um dia, por falta de espaço ou numa mudança, ou porque a gata fez xixi em cima, tem de deitar tudo fora.
O pior é que não aprendo.

08 fevereiro 2008

Novo Testamento - resumo

(versão audio, para quem não tem tempo)

Anónimo colectivo.
Novo Testamento (4 versões).

Resumo: Uma mulher com insónias dá à luz um filho cujo pai é uma pomba. O filho cresce e abandona a carpintaria para formar uma seita de pescadores. Por causa de um bufo, é preso e morre.

07 fevereiro 2008

Hamlet - resumo

William Shakespeare, Hamlet (qualquer edição).
(não resisto a colocar uma dedicatória neste resumo)

Resumo: Um príncipe com insónias passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada que entretanto se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que dorme com a mãe, depois de falar com uma caveira, e morre, assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que se tinha suicidado.

04 fevereiro 2008

Guerra e Paz - resumo



Leão Tolstoi, Guerra e Paz, (1800 páginas).
Resumo: Um rapaz não quer ir à guerra e por isso Napoleão invade Moscovo. A rapariga casa-se com outro. Fim.

02 fevereiro 2008

Cataloguices

Gosto de visitar livrarias nos diversos sítios por onde passo: mesmo que pertençam a cadeias, como as FNAC, há uma organização diferente e deve haver escolhas de stock diferentes, pois encontro sempre coisas variadas nas lojas. Pode ser apenas impressão, mas isso leva-me a gostar muito de variar de livraria.

Estive na FNAC do Norte-Shopping. A secção de DVD pareceu-me maior e melhor do que qualquer uma de Lisboa ou Algarve. Quando vi a parte catalogada como cinema de autor entusiasmei-me. Há autores de quem gostava de saber o que já está em DVD. Começo a procurar... e a organização parece-me estranha... Em «N» encontro Tarkovsky, com Nostalgia (que já tenho); em «S» volto a encontrá-lo, com Solaris junto a Bergman (o Silêncio, pois). Perguntei a um funcionário o que se passava e ele confirmou o que eu temia: os filmes estavam organizados por títulos! Em «cinema de autor» esperaria encontrar a catalogação por autor. Mas não. Não faz sentido. Cataloguices!

01 fevereiro 2008

Em busca do tempo perdido - resumo

Mandaram-me o resumo de alguns livros. Para quem tem falta de tempo, aqui ficam as linhas gerais...

Marcel Proust. À Ia recherche du temps perdu. Paris, Gallimard.1922 (I.ere edition)

- À procura do tempo perdido. Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos. 1965 (agora há a tradução do Pedro Tamen, da Relógio d'água).

Resumo: Um rapaz asmático sofre de insónias porque a mãe não lhe dá um beijinho de boas-noites. No dia seguinte (pág. 486. I vol.), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (pág. 1344. VI vol.) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito velhinhos e pronto.

28 janeiro 2008

Auriga (à descoberta - III)

O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:

A ti mesmo te guias como a teus cavalos

26 janeiro 2008

25 janeiro 2008

O Auriga

A nudez dos pés que o escultor modelou com amor e minúcia
Mostra a pura nudez do teu estar na terra.
A longa túnica em seu recto cair diz o austero
Aprumo de prumo da tua juventude
O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:
A ti mesmo te guias como a teus cavalos

Os beiços de seiva inchados como fruto
Dizem o teu amor da vida extasiado e grave
E sob as pestanas de bronze nos olhos de esmalte e de ónix
Fita-nos a tua paixão tranquila
O teu projecto
De em ti mesmo celebrares a ordem natural do divino
O número imanente.


Sophia de Mello Breyner Andresen

17 janeiro 2008

O que os deuses deram aos homens

Primeiro, levantando-nos do chão, fizeram-nos altos e erectos, para que pudéssemos, ao olhar o céu, tomar conhecimento dos deuses.

(www.hellenic-art.com/statues/ephibosantik.jpg)


Os homens não são meros residentes e habitantes da Terra, são sim como que quase os espectadores das regiões de cima e das coisas celestes (...).

(http://www.livius.org/ei-er/emperors/philippus_arabs.jpg)

Os sentidos, interpretes e mensageiros das coisas, foram criados e colocados na cabeça, como se de uma cidadela se tratasse, para assim cumprirem as funções que sejam necessárias.



( http://www.bluffton.edu/~sullivanm/italy/rome/capitolinemuseumone/constantinebronze.html)

Os olhos, na qualidade de observadores, ocupam o lugar mais elevado, para assim poderem ver mais coisas e melhor cumprirem a sua função.


(http://www.bluffton.edu/~sullivanm/italy/rome/capitolinemuseumone/constantinebronze.html)

Os ouvidos, cuja função é captar o som, foram não sem razão colocados na parte mais alta do corpo, pois a natureza leva o som sempre para cima.


O nariz, por seu turno, posto que também o cheiro vem sempre para cima, foi correctamente posto numa parte superior do corpo (...).

(Greek Statue, Metropolitan Museum of Art, New York City)

Já o paladar, cuja função é sentir aquilo que comemos, está naquela parte da boca onde a natureza abriu um caminho para a comida e bebida.

O tacto, por seu turno, está distribuído uniformemente por todo o corpo.

Cícero, Da Natureza dos Deuses, Vega, 2004. Tradução de Pedro Braga Falcão.

14 janeiro 2008

Hesíodo aconselha:

Não urines de pé, virado de frente para o sol:
desde que se ponha, recorda-o, e até que surja
não deves urinar na via ou ao lado dela, ao caminhar,
nem se estiveres nu. As noites pertencem aos Bem-Aventurados.
Sentado o faz um homem piedoso, que conhece a prudência,
ou enconstado a um muro de um pátio recolhido.
[Foi aqui que eles aprenderam...]
(...)
Nunca urines na foz dos rios que deslizam para o mar,
nem nas fontes deves urinar, mas de todo evitar tal coisa;
nem deves defecar nunca; tal não é vantajoso para ti.
[isto não aprenderam, pelo que se depreende pelas descargas de esgotos...]

Hesíodo, Trabalhos e Dias, INCM, Lisboa, 2005. Tradução de José Ribeiro Ferreira.

10 janeiro 2008

«Floripes ou a morte de um mito»


(imagem daqui)


Fui ao cinema ver o filme de Miguel Gonçalves Mendes, «Floripes ou a morte de um mito».
Que delícia! Misturando o documentário com a ficção, se alguma dúvida houvesse, o filme mostra-nos um Olhão mouro e encantado, em que o entoar dos pescadores (que percebemos mais tarde que é disso que se trata) se confunde com o do muezim (ou almuadem), conclamando-nos para quelas ruelas moçárabes, para orarmos ao Senhor dos Aflitos...
O humor do documentário proporciona umas boas gargalhadas, a ingenuidade da ficção enternurece-nos.
Não percam! No Fórum Algarve, às 18.20 e às 21h. Desconfio que será a última semana em cartaz...

(Veja um pouco do filme aqui)

08 janeiro 2008

Evolução semântica

A evolução semântica de algumas palavras do grego clássico para o moderno é muito interessante.
Vejamos παιδευω, que significava educar, e hoje significa, para além de educar e instruir, atormentar, incomodar, aborrecer.
Porque será?

02 janeiro 2008

O segundo dia do ano

O meu pai tinha coisas tão engraçadas!
Hoje era o dia em que me levava pela mão à estação de comboios para vermos passar o homem que tinha tantos olhos quantos dias tinha o ano...
E eu, de memória curta, lá ia, entusiasmada tentar ver essa proeza.
Mais tarde, acompanhei-o nessa aventura, levando os meu sobrinhos pela mão.
O meu pai tinha coisas tão engraçadas!

(publicado também na Taberna)

31 dezembro 2007

Último postal do ano - a qualidade da alma

Hoje é o dia (a noite, aliás) de fazermos uns desejos ao comer doze passas ao som das badaladas da meia-noite. Eu cá alinho em tudo: como passas, faço desejos, visto não-sei-o-quê azul, dobro uma perna, levanto um cotovelo, dou três pancadinhas na ponta do nariz do vizinho do lado, enfim, todas as maluqueiras que quiserem.
O importante é estar bem com quem se está. E se passasse sozinha também ia estar bem!
Fui passar um pouco da tarde com o meu Séneca e aqui vai mais um bocadinho de uma carta e os meus votos de um excelente 2008 para todos!

Deixemos de desejar aquilo que já algum dia quisemos. Eu, por minha parte, faço o possível por não ter em velho os desejos que tinha em garoto. Os meus dias e as minhas noites, os meus esforços e pensamentos têm como objectivo pôr termo aos meus antigos defeitos. Procedo de modo a que cada dia seja o equivalente de uma vida inteira; mas, Hércules me valha!, não me apresso a gozá-lo como se fosse o último, apenas o encaro como se pudesse ser de facto o meu último dia! (...) Estou preparado para partir, e assim gozo tanto mais a vida quanto menos me preocupa saber quanto tempo o futuro ainda me reserva.
(...)
Para que a vida seja suficiente, o que conta não são os anos nem os dias, mas a qualidade da alma.

Séneca, Cartas a Lucílio, 61 (sempre a mesma edição).

28 dezembro 2007

Quero... não quero...

A Gi desafiou-me a que dissesse uma coisa que eu quisesse receber este Natal e três que não quisesse. Como acho mal esta desigualdade, vou dizer três de cada:

Queria receber:

- a minha casa prontinha a habitar;
- muitos mimos;
- um computador que nunca desse problemas, que não necessitasse de actualizar nada e que se ligasse automaticamente à internet, da mais veloz que houvesse.

Não queria receber:

- CD's do Zé Cabra, da Ágata, do Emanuel, da Ffllorlibbella (nunca sei que consoantes é que o nome dela dobra) ...
- falsos amigos (já me bastam os linguísticos!)
- um mau livro!
E, leitura sugerida pela Calpúrnia, deixo aqui uma queixa de Catulo, a quem estragaram as Saturnais, época que corresponde a estas nossas das festas de Dezembro, precisamente por causa disso:

Ó grandes deuses, que livreco horroroso e execrável,
que tu próprio, evidentemente,
enviaste ao teu amigo Catulo,
nas Saturnais, no melhor dia,
para que ele morresse logo nesse dia.


Catulo, Carmina XIV, vv. 12-14

26 dezembro 2007

Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem

O caríssimo Broto ofereceu-me um dia uma prenda linda.
O que aqui lhe deixo não se lhe compara, mas é com boa vontade. Uma proposta, em Português, para o seu último postal.

Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem (1).
Este, com o tempestuoso vento do Sul, avança para lá do mar cinzento
e ultrapassa as grossas vagas que rugem à sua volta.
E cansa a infatigável Terra imortal,
a mais poderosa das divindades,
revolvendo-a com a raça dos cavalos,
de um lado para o outro com as charruas, ano após ano.
O homem muito hábil, enlaça a tribo de aves de voo ligeiro,
e leva, em redes bem tecidas a raça de animais selvagens e marinhos;
domina, com invenções engenhosas,
os animais dos campos que andam no mato;
e o cavalo de longas crinas é levado pelo jugo que lhe envolve o pescoço,
tal como o indomável touro montanhês.
Aprendeu a linguagem e o pensamento ágil,
os costumes civilizados,
e, pleno de expedientes,
aprendeu a fugir do gelo
e dos ataques da chuva importuna nos lugares descobertos
e que tornam difícil a permanência ao ar livre.
Não avança no futuro sem recursos.
Apenas ao Hades não poderá fugir;
no entanto, meditou com outros o modo de escapar
a doenças para as quais não havia recurso.
O saber engenhoso da sua habilidade inesperada pende
umas vezes para o mal, outras para o bem;
ocupa um lugar cimeiro na cidade,
confundindo as leis da terra e a justiça dos deuses,
confirmada por um juramento;
é indigno de viver na cidade se o mal se associa a ele,
devido à sua audácia.
Que não se sente no meu lar quem assim for nem seja meu amigo o que pratica tais acções!

Sófocles, Antígona, vv. 332-375

(1) A tradução deste passo é minha, se bem que a versão para Português do primeiro verso pertença a Maria Helena da Rocha Pereira, na sua edição da FCG.

25 dezembro 2007

...paulo maiora canamus.


E, precisamente durante o teu consulado, Polião, chegará
a glória de uma época, e os grandes meses começarão a avançar;
Sob a tua direcção, se permanecem alguns vestígios dos nossos crimes,
anulados, libertarão as terras do terror perpétuo.
Essa criança terá a vida dos deuses e verá
os heróis misturados com as divindades e ele próprio será visto por elas
e irá governar um mundo pacificado com as virtudes do seu pai.


Vergílio, Bucólica IV, vv. 11-15

24 dezembro 2007

Sicelides Musae...

Ó musas da Sicília, cantemos algo mais elevado.
Os arvoredos e as pequenas tamargueiras não agradam a todos;
Se cantamos as florestas, que as florestas sejam dignas de um cônsul.Já está a chegar a última era da profecia de Cumas;
a grande ordem dos séculos nasce, de novo.
Já está a regressar a Virgem, regressam os reinos de Saturno,
já uma nova descendência é enviada do alto céu.
Tu, casta Lucina, favorece a criança que está quase a nascer,
Pela qual, primeiro, terminará a geração de ferro,
e surgirá em todo o mundo a era de ouro; o teu Apolo já reina.


Vergílio, Bucólica IV, vv. 1-10

Boas Festas!

Como tenho tido dificuldade em me ligar à internet e aceder ao blogger, antes que «isto» desligue, aqui ficam os meus votos de Boas Festas.
Se «isto» se portar bem hoje, ainda publico um postalinho mais logo.
Feliz Natal!

20 dezembro 2007

multa de respeito


Comprei o Borda d'Água para 2008. Os textos da editora são indescritíveis.
Contudo, tem, no texto inicial, uma referência digna de nota:

Os anos bissextos foram cercados de mitos e tradições. No séc. XIII, na Escócia, em cada ano bissexto, eram as mulheres, e não como de costume os homens, que tinham o direito de escolher quem desejassem para marido; se o escolhido não estivesse de acordo com o casamento, era obrigado a pagar uma multa de respeito.

E mais nada!

19 dezembro 2007

Abaixo a censura!

Agradeço aos meus amigos que se queixaram que os seus comentários não eram publicados e acreditaram que eu não tinha nada a ver com isso.
Aos que não me conhecem, apesar da moderação, este blogue até hoje só não publicou comentários a pedido dos próprios, porque eram particulares, e dois considerados «agressivos».
Portanto, quem tiver tido ou venha a ter dificuldades em comentar, mande-me um mail.
Contudo, penso que o problema estará resolvido.
Obrigada!

16 dezembro 2007

Diana e Minerva

Caio Plínio saúda o seu amigo Cornélio Tácito

1. Vais rir, e é justo que rias. Eu, aquele que conheces, apanhei três javalis e bem bons. «Tu próprio?» - perguntas. Eu próprio; e nem sequer me afastei inteiramente da minha inércia e quietude. Estava sentado ao pé das redes; tinha, junto a mim, não uma lança ou um dardo, mas um estilete e tabuinhas para escrever; meditava em qualquer coisa e tomava notas, para que, se voltasse de mãos vazias, pelo menos levava as tábuas cheias. 2. Não desprezes este modo de trabalhar; é de admirar como o espírito é estimulado pela agitação e movimento do corpo; já a solidão que envolve a floresta e aquele silêncio que é proporcionado pela caça são grandes estímulos do pensamento. 3. Por conseguinte, quando caçares, podes fazer como eu e leva o teu cesto de pão e uma garrafinha com bebida, bem como as tabuinhas para tirares apontamentos: vais dar-te conta de que Diana não vagueia mais pelos montes que Minerva.
Adeus.

12 dezembro 2007

De libera voluntate

Portanto, se entre os bens do corpo encontramos alguns de que o ser humano pode não usar com rectidão, nem por isso dizemos que eles não lhe deviam ter sido dados, pois reconhecemos que são bens (...).
De facto, quando um corpo não tem mãos, vês que lhe falta um bem importante. Contudo, faz um mau uso das mãos quem as emprega em acções violentas ou vergonhosas. (...)
Portanto, assim como aprovas estas coisas em realção ao corpo e, sem reparar naqueles que fazem mau uso delas, louvas Aquele que deu estes bens, também confessarás que a livre vontade, sem a qual ninguém pode viver com rectidão, é necessariamente um bem e um dom divino, e que mais se deve condenar aqueles que usam mal deste bem, do que afirmar que não no-lo deveria ter dado Aquele que no-lo deu.

Santo Agostinho, Diálogo Sobre o Livre Arbítrio, INCM, Lisboa, 2001. Tradução de Paula Oliveira e Silva.

07 dezembro 2007

Kalevala - tradução do original

Um cheirinho da tradução, directamente do finlandês, por Merja Mattos-Parreira e Ana Isabel Soares, roubada com grande descaramento do blogue desta última.

(Ouvi dizer que saíu uma edição de Kavela traduzida de outras línguas que não a original. Obviamente que me recuso a ler uma tradução de uma tradução, havendo esta praticamente no prelo. E não entendo como a embaixada da Finlândia pôde estar presente nesse lançamento.)

Depois de dizer muitas vezes "Obrigado, senhor Lönnrot, obrigado!", o Reboliço desabafa: era um grande mal agradecido, esse Lönnrot, é o que era! Quantas vezes os heróis trabalham, labutam, lutam, laboram, conseguem os feitos, só para o romântico médico lhes rematar as falas com um "Louve-se Deus." Nestes versos, o herói maior, Väinämöinen, ferido com um machado no joelho, contorce-se com dores e recebe, finalmente, a ajuda de um velho deitado ao lume:

"O velho expulsou a dor,
o sofrimento empurrou
para o meio de Kipumäki,
para o pico de Kipuvuori,
para dar a dor às pedras,
entregar à rocha a dor."
(Canto IX, vv. 523-528)

Pois não querem lá ver a resposta do herói, depois de o sangue estancar?

"Bendito sejas, ó Deus,
bendito, Criador único,
que a mim tanto ajudaste,
me trouxeste protecção
a mim nestas grandes dores,
do férreo aço a ferir!”
(Canto IX, vv. 571-576)

Assim, não dá!...

(Elias Lönnrot foi o médico que, entre 1833 e 1853, viajou pela Carélia e reuniu cantos, rezas e lengalengas populares, que haveria de publicar como cancioneiros e como a epopeia Kalevala. Nesta, compôs uma história a partir de várias camadas de histórias, passadas oralmente, de geração em geração. Um dos debates literários mais prolixos ainda hoje na Finlândia prende-se com saber em que medida o compilador foi ou não autor dos versos, isto é, terá interferido na construção das narrativas, nomeadamente no que a atitudes religiosas diz respeito. Um dado é certo: há muitos momentos de incongruências narrativas, e os versos acima dão conta de uma apenas.)

05 dezembro 2007

ΜΕΤΑΦΟΡAΣ... ΜΕΤΑΦΟΡΕΣ


A primeira vez que vi um destes camiões de transportes (nesta imagem está um de transportes e mudanças - 'μεταφορές' e 'μετακομισεις') surpeendi-me.
Estava eu sentada numa esplanada, há muitos anos, quando vejo passar um grande camião, pintado com letras garrafais, a dizer «METΑFORAS». Não compreendi de imediato. Acontece, com as metáforas...
Depois fez-se luz.
Que faz uma metáfora? Leva-nos para outra esfera de imagens, de modo a podermos apreender um mesmo sentido. Digo o mesmo, mas transportando as palavras para outro lado.
Fosse eu poetisa e escreveria qualquer coisa sobre as metáforas com que nos podemos cruzar na cidade de Atenas.
Mas não sou. Nem sequer boa fotógrafa. Esta foto foi tirada à noite, com os gregos que me rodeavam a gozar comigo por este meu fascinío por camiões de mudanças...

04 dezembro 2007

Paciente, passos, paixão...

Ontem, numa reportagem do telejornal da TVI sobre o uso de palavras inglesas na nossa língua, a jornalista alargou o tema aos anglicismos. Foi nesse contexto que entrevistaram uma emérita professora da Universiadade Nova de Lisboa, com a qual tenho de discordar (coisa que detesto fazer). Mas... paciência.

A propósito de «paciente», com o sentido de «doente» (afirmando que os médicos não têm pacientes, mas doentes), disse a professora que esta palavra vinha do inglês «pacient» e que seria de evitar.
Não é verdade. Isto é, é de evitar estar doente, claro, mas não há razão para evitar o uso do vocábulo.

Como adjectivo, paciente significa «o que sabe esperar», único sentido que lhe foi atribuído naquela reportagem. Como substantivo, significa, além de «indivíduo que espera calmamente» (v. Houaiss), «aquele que está doente».

Paciente vem directamente do particípio presente do verbo depoente latino patior (que significa «sofrer»): aquele que sofre.
É seu cognato o nome paixão (passio, passionis - a paixão de Cristo, por exemplo, é a expressão do seu sofrimento) ou passos, na expressão Senhor dos Passos. Não se chama assim à imagem de Cristo que passeia ou que dá passos (pois assim seria do nome latino passus, passus), mas sim ao Cristo que sofre, dado que passus, passa, passum é o particípio passado do mesmo verbo patior.

Infelizmente, na maior parte das vezes, temos de ser pacientes quando somos pacientes de alguns médicos...

Petição

O meu sobrinho Nuno, de 18 anos, fez esta petição.
Se estiverem de acordo, assinem.
http://www.petitiononline.com/acor1990/petition.html

25 novembro 2007

Aliki Kagialoglou

Aliki Kagialoglou (neste link vão ter de baixar várias vezes até encontrar as três referências a esta artista) está a preparar um CD com fados portugueses e declamação da Ode Marítima de Álvaro de Campos.
Como cheguei tarde do Peloponeso, já não pude ir conhecê-la. Espero que o nosso encontro para um «cafezinho» se realize em breve.

Mantineia


Mandinia, Mandinia...

«Tripoli fica perto da cidade antiga de "Mandinia"...», disse-me o Iannis. «Conheces?»
Não estava nada a ver o que seria...
«Mandinia, Mandinia... Como se escreve?», perguntei, para dar tempo e disfarçar a minha ignorância.
E ele mostrou-me.
«Ah! Mantineia! Claro!!»
Vou lá agora!

24 novembro 2007

Mitos, medos, brios...

Dizem que sim, que correu bem.
E cá a Xantipa já está triste por se aproximar o dia da partida. Também gostou muito de rever a sua velha pólis.
Amanhã vai ao Peloponeso, a Tripoli.
(actualização: a Ana Maria diz que esta fotografia não deixa ver como a sala estava cheia e obrigou-me a pôr mais estas. Cá vão!)

21 novembro 2007

Atenas, 9 anos depois

Hoje foi dia de recordações.
Um breve passeio pela avenida Elefteriou Venizelou, uma ida a Eleftheroudakis (grande livraria), um passeio pela praça da Constituição (Sintagma)

e pelas ruazinhas que frenquentei em 1998... A "minha" loja de discos (onde o Costas me fazia 24% de desconto) já lá não estava e, enquantos uns negócios abriram outros fecharam.
Gosto de ler os nomes das ruas e as direcções em grego e transliterado. Se assim não fosse, nunca descobriria que a rua Voulis é a rua da Boulê (a assembleia dos 500), ou que Lavrio é Laurium, o local das famosas minas de prata, ou que Évia é Eubeia, a ilha aqui mesmo em frente.
Regressei ao local onde o táxi me deixara duas horas antes, na «Academias».
Na a rua de Hipócrates, num café, tomei um chá com a minha amiga Ana Maria, a grande culpada da minha presença aqui.

Lembrei-me de Edimburgo e dos sofás do "Espresso Mondo"...
Numa livraria vejo que a Mariza canta no dia em que parto.

E apanho um autocarro. Não me posso enganar: é o 608.

Até amanhã!

20 novembro 2007

Viagem à Grécia

Há nove anos que não vou à Grécia. Vai ser bom rever aquela bela terra.
Quando lá vivi (escassos quatro meses), instalei-me num pequeno hotel nas franjas da Plaka chamado Dióscoros. Lembro-me dos Gémeos e recordo Pausânias:
(Rapto das filhas de Leucipe, de Rubens)

O santuário dos Dióscoros é antigo: aí há uma estátua deles e dos seus filhos sentados em cima de cavalos. Polignoto pintou-os aqui nas núpcias das filhas de Leucipo, enquanto Mícon representou-os a navegar com Jasão para a Cólquida.

19 novembro 2007

Roliça e Vimeiro


Há muitos anos, quando pela primeira vez visitei a catedral de S. Paulo, em Londres, emocionei-me ao ver o nome da pequena aldeia da Roliça, ali tão perto da terra onde nasci, gravada na pedra, num monumento que celebrava a participação inglesa nos combates contra Napoleão, durante as Invasões Francesas.
E agora que se comemoram os 200 anos da batalha com o mesmo nome, Roliça volta a estar em foco no concelho do Bombarral. No Sábado passado decorreu a sessão solene de abertura das iniciativas que se estendem até ao ano que vem, com a comemoração da batalha do Vimeiro.
Gostei muito de participar, principalmente por ter podido ouvir o magnífico apontamento histórico (modesto nome para tão eloquente prelecção) do Coronel Américo Henriques: com uma oratória perfeita, captivou-nos a todos com as histórias daquela história, com uma vivacidade e entusiasmos contagiantes e um saber bem fundamentado.


12 novembro 2007

Do amor

(Foto minha. Rodin - Eros e Psyche - Ermitage - S. Petersburgo)

O amor não tem uma natureza simples, bela ou feia em si mesma: é belo, se realizado com beleza, e feio, se realizado com vileza.
Vileza é quando se concede uma afeição indigna a um homem indigno; e nobreza, quando se concede uma feição digna a um homem de bem. E por indigno entendemos justamente esse amante popular, que prefere o amor do corpo ao amor da alma, e não guarda constância porque o objecto a que se prende não é também constante [...].
Pelo contrário, aquele que ama alguém pela beleza do seu carácter, esse permanece fiel pela vida fora, porque se funde com o que é constante.

Discurso de Pausânias no Banquete de Platão. Tradução de Maria Teresa Schiappa de Azevedo para as Edições 70.

Para mais discursos do Banquete, ver aqui, aqui, aqui...

08 novembro 2007

Nem tudo o que reluz é ouro...

(...) há uns que são belos graças à sua beleza, enquanto outros parecem sê-lo quando se adornam. E o mesmo se passa com as coisas inanimadas: pois também entre estas há as que são verdadeiramente de prata ou de ouro e as que não são, mas parecem que o são pelo modo como as apercebemos, como, por exemplo, as coisas feitas de monóxido de chumbo ou de estanho, que parecem prata, e as coisas amarelas, que parecem ouro.
(Aristóteles, SE, 164b24)

03 novembro 2007

máscaras...


Édipo: Hoje sei que a vida calça coturnos e vai tirando e pondo as suas duas máscaras. A máscara da comédia e a máscara da tragédia. Às vezes as duas ao mesmo tempo, uma na cara outra na nuca. Mas detrás da máscara só vejo o vazio. Por baixo das vestes, apenas um cabide. A vida é a máscara da morte.
Tirésias: E a morte é a máscara da vida.

Armando Nascimento Rosa (2003). Um Édipo. Casa do Sul. Évora, p.37

31 outubro 2007

Amigo (2)

Se alguém te elogia enquanto estás à vista,
mas quando está longe diz mal de ti,
tal homem não é bom companheiro nem amigo,
ele que diz coisas macias com a língua, mas pensa outras coisas.
Que eu tenha como amigo quem conheça o seu
companheiro e aguente o seu feitio, ainda que difícil,
como um irmão. E tu, ó amigo, põe estas coisas
no coração e um dia no futuro te lembrarás de mim.

(vv.93-100. Ver aqui e aqui.)

28 outubro 2007

Página 161, parágrafo 5º (de novo)

Apesar de já ter respondido a este desafio anteriormente, não me importo nada de repetir. O André pensou em mim e aqui vai. O livro que estava mais à mão era este:

Recordou-se por breves momentos de Baeta, a prostituta, e lembrou-se de como foi feliz sem amar, e por momentos teve saudades desse tempo.

Carlos Campaniço*, Molinos, Pé de Página Editores, Coimbra, 2007, p.161, parágrafo 5º.

*O Carlos foi dos meus primeiros alunos de Latim na UAlg e hoje é Mestre em Culturas Árabe, Islâmica e o Mediterrâneo.

27 outubro 2007

Livrarias em Roma

No tempo da República, os livreiros eram uns desgraçados que tinham de arranjar livros para copiar para os clientes, tendo para isso que recorrer a bibliotecas privadas, o que nem sempre era fácil.
No tempo do Império as coisas mudaram: Roma tornou-se uma cidade cosmopolita também do ponto de vista intelectual, sendo a demanda de livros tal que as livrarias passaram a ter aquilo a que podemos chamar o início da ideia do «fundo de catálogo» (já raro hoje em dia).

Existiam nas lojas livros de escritores como Vergílio ou Tito Lívio e sabe-se que um livreiro até tinha vários volumes da Institutio Oratoria, de Quintiliano. E se lhe pedissem um livro que não tinha (o que seria comum), recorria, como antes, às bibliotecas, e mandava fazer uma cópia!

As autores não ganhavam direitos, mas atingiam, assim, um maior número de leitores (em vez de serem eles a fazer ou mandar fazer as cópias dos seus livros), e esse é o objectivo de todo aquele que publica.
Uma boa livraria em Roma? Marcial diz que há já ali uma:

«procura Secundo, liberto do douto Lucense,
por trás do limiar do templo da Paz e do foro de Palas

(Fonte: Lionel Casson. Ver aqui)