18 maio 2008

Carta a mim

Lamento saber que sofres frequentemente de gripe, e daquelas febres ligeiras e irritantes que as gripes prolongadas, e já quase ininterruptas, arrastam consigo. (Ele é mais tosse, expectoração, frios e calores, dores nos gânglios...) E lamento-o tanto mais quanto eu próprio também experimentei esse tipo de doença. (É tão bom termos interlocutores compreensivos, que sabem bem aquilo por que passamos e nos mimam!)
(...) O médico há-de indicar-te até que ponto podes andar a pé ou fazer exercícios, ele te dirá que não caias na indolência (ah, pois, andar a pé... o que vale é que o meu médico não lê o meu blogue), que é o que a falta de forças tem tendência a fazer (a falta de força e a preguicite aguda); prescrever-te-á que leias em voz alta (gosto desta. Vou fazê-lo mal acabe isto), como forma de exercício para as tuas vias respiratórias bloqueadas; que andes de barco, para o balanço ginasticar os teus pulmões (esta dispenso); dir-te-á o que podes comer, quando é que deverás beber vinho (dever, é por dever) para ganhar força (é remédio) ou quando o deves evitar para não provocar ou aumentar a tosse (eu sabia que não ia ser medicamento para mim... com esta tosse que tenho, só chá quente).
O remédio que eu, por minha parte te receito é válido não apenas na doença, mas para toda tua vida: despreza a morte. (Não estou assim tão mal, mas obrigada! Faz-me bem conversar com Séneca!)

Esta carta (78) é parte desta .

17 maio 2008

menina levada

Os meu livros da 3ª e 4ª classes, imediatamente após o 25 de Abril, já tinham histórias e poemas diferentes dos da 1ª e 2ª.
Como em casa todos sabiam poemas de cor, eu também ganhei o hábito de decorar alguns. Este foi um deles. Emprestei o livro (nunca devolvido) e nem sabia quem o tinha escrito. Fiquei contente ao reencontrá-lo para poder agradecer à grande Cecília Meireles.

Uma Palmada Bem Dada

É a menina manhosa
Que não gosta da rosa,
Que não quer a borboleta
Porque é amarela e preta,
Que não quer maçã nem pêra
Porque tem gosto de cera,
Que não toma leite
Porque lhe parece azeite,
Que mingau não toma
Porque é mesmo goma,
Que não almoça nem janta
porque cansa a garganta,
Que tem medo do gato
E também do rato,
E também do cão
E também do ladrão,
Que não calça meia
Porque dentro tem areia
Que não toma banho frio
Porque sente arrepio,
Que não toma banho quente
Porque calor sente
Que a unha não corta
Porque fica sempre torta,
Que não escova os dentes
Porque ficam dormentes
Que não quer dormir cedo
Porque sente imenso medo,
Que também tarde não dorme
Porque sente um medo enorme,
Que não quer festa nem beijo,
Nem doce nem queijo.
Ó menina levada,
Quer uma palmada?
Uma palmada bem dada
Para quem não quer nada!

16 maio 2008

14 maio 2008

Chove

Chove...

Mas isso que importa!
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

(José Gomes Ferreira)

13 maio 2008

palavras de enamorado

Envio-te um doce perfume, presente que ofereço ao perfume, não a ti.
Porque tu podes perfumar o próprio perfume.

Anónimo

(da antologia palatina, da edição de Albano Martins citada aqui)

12 maio 2008

vita brevis

Para os afortunados, toda a vida é curta.
Para os infelizes, uma só noite é infindável.
Luciano

Do Mundo Grego Outro Sol. Antologia Palatina e Antologia de Planudes. Trad. de Albano Martins para as Edições ASA em 2002. Mais aqui e aqui.

11 maio 2008

Da minha janela

O céu visto de um dos pátios. Quando ali morar, poderei ver quadros diferentes todos os dias.

10 maio 2008

«Transforma-se o amador na cousa amada»

Se Hefesto, o deus da forja, perguntasse aos amantes:
«Não será a isto que vocês aspiram - a identificarem-se o mais possível um ao outro, de forma a não mais se separarem noite e dia? Se é essa a vossa aspiração, estou disposto a fundir-vos e soldar-vos numa só peça, de tal modo que em vez de dois, passem a ser um só. E assim vos será dado ter uma única vida enquanto viverem, como se fossem uma só pessoa; e como uma só pessoa hão-de continuar lá no Hades, depois de morrerem, levados por uma única morte.»
Este seria o desejo dos amantes, porque
«a nossa primitiva natureza assim era e nós constituíamos então um todo. Ora, é essa aspiração ao todo, essa busca incessante, que tem o nome de amor.»

Platão, Banquete, 192e-193a. Tradução de Teresa Schiappa de Azevedo para as Edições 70. Outros excertos neste blogue em vários sítios, como aqui, aqui , aqui ou aqui.

09 maio 2008

Casa de Octávio César Augusto

Abriu ao público a casa de Augusto, construída no monte Palatino, em 36 a.C., portanto, antes de vir a ser o primeiro imperador de Roma. Ler a notícia completa aqui.

08 maio 2008

aproveita a juventude

Desfruta da juventude; ela escapa-se em passo ligeiro.
(...)
Liberta da amargura a tua juventude. Vamos, escolhe agora o teu rumo.
Afrouxa as rédeas. Não deixes que te escapem os melhores
dias da tua vida. (...)
a alegria fica bem ao jovem, um semblante grave a quem é velho.

(fala da Ama a tentar convencer Hipólito a abandonar a sua opção pela castidade)

Séneca, Fedra, vv.446-453, Ed.70, 2003. Trad. de Ana Alexandra Alves de Sousa

07 maio 2008

louvor da modéstia

És bela, já sabemos, e donzela, é verdade,
e rica, quem é que o pode negar?
Mas, Fabula, quando te louvas demais,
nem és rica, nem bela, nem donzela.

Marcial, Epigramas, I, 64. Tradução de José Luís Brandão para as Edições 70.

05 maio 2008

Adoptados

Os canitos da Natacha já têm adoptantes. Ficarão juntos mais uns tempinhos, mas depois irão para casas e jardins de pessoas de bem. A cadela já tem data de operação marcada no veterinário.
Agradeço a todos os que me deram indicações e conselhos.

04 maio 2008

Jazz café

Hoje, às 16h, no Jazz Café da A-dos-Ruivos, Carvalhal (Bombarral), vai ser apresentado (por mim) o livro Carvalhal e Peras.
Segue-se um concerto com Lena d'Água e John Bigfoot acompanhado à guitarra por Tahina.

30 abril 2008

Carvalhal... e peras!

(a capa do livro)



Teresa Perdigão no uso da palavra.
(à mesa: presidente da Câmara do Bombarral, apresentador do livro, presidente do Núcleo, Agneta Bjorkman e presidente da Junta)

28 abril 2008

«E se, um dia, alguém se lembrar de o premiar?»


Com este título, o Filipe Tourais de O País do Burro, passou-me esta distinção. Gostei do argumento que apresentou para dar continuidade: «pode tornar menos fria a blogosfera e é uma forma de expressar o nosso reconhecimento pelo valor de outros que por aqui andam.»
Blogues de que gosto muito, não desfazendo todos os outros e retribuindo a O País do Burro: garden of philodemus bandeira ao vento memento funes, el memorioso não compreendo as mulheres Cartas do meu moinho Oxiclista Pisa-papéis Combustões

24 abril 2008

Onde vai estar no 25 de Abril?


Sugiro que vá à apresentação deste livro tão lindo, com imagens da Agneta Bjorkman e texto da Teresa Perdigão.

CARVALHAL … e peras! - Viagens por memórias e paisagens é um livro que nasceu da ideia da fotógrafa e artista plástica Agneta Bjorkman, que durante 12 anos residiu na freguesia do Carvalhal (Bombarral). A sua intenção foi deixar como herança à freguesia que a acolheu, uma obra que prevaleça no tempo. Convidou a antropóloga Teresa Perdigão para a acompanhar nas suas muitas viagens pelo sítio e para os imensos contactos com as pessoas, e para escrever os textos. Estas viagens decorreram ao longo das quatro estações do ano de 2007 que ilustram os quatro capítulos do livro.
(da informação à imprensa)

Este livro permite muitas leituras:

«Quem quiser usá-lo como roteiro turístico da freguesia, dele fará bom proveito: não faltam referências a restaurantes, cafés, locais de lazer domingueiros ou sazonais, actividades agrícolas, paisagens, gentes, músicas.
Quem quiser usá-lo para consulta histórica lerá com prazer a súmula dos proprietários da Torre, a história da banda ou a evolução dos moinhos.

Quem quiser conhecer as festas poderá saber quando são os círios, pedir pelo pão-por-Deus, dançar nas associações ou no Musicoeste.
Quem gostar do sabor da linguagem pode enriquecer aqui o seu vocabulário, ouvindo «deitar as loas» no altar, acompanhando o «arrelvamento» dos trevos, ou a «surriba», que revolve a terra.
Quem quiser encontrar valores humanos, muitos são os nomes que ali se destacam, desde os animadores das colectividades, aos cheios de espírito de iniciativa, que levaram à realização de sonhos, como a compra de um novo sino para uma Igreja.

(…)
E, entre tantas outras possibilidades, quem apenas pretender um momento de literatura, aqui o tem.

A escrita da Teresa está recheada de imagens, de figuras de estilo, dirão alguns. Consegue levar-nos a perceber o empenho de quem caiou a parede, quando nos leva a querer ver o «branco esmerado» da igreja; consegue descrever o orgulho dos quem têm as suas casas «mimadas»; consegue fazer-nos sentir o calor de um Verão que não acaba, numa «paisagem de Outono envergonhado»; consegue transmitir o brio da aldeia que se dá a ver «com vaidade e dignidade».
As imagens da Agneta mostram que tudo o que as palavras nos dizem sobre as cores da terra, das vinhas, das frutas, das casas, das pessoas, não é um exagero poético. E a concepção gráfica da Sandra, ao realçar as palavras e as imagens, tornou físicas estas sensações.
O Carvalhal é, de facto, uma terra… e peras!»
(do prefácio)

22 abril 2008

(Grand) Father Clock


Apercebi-me disto na última vez que estive em casa dos meus pais: associo o meu pai às badaladas deste relógio que está na casa de jantar.
Quando entrei estavam a dar as nove no relógio da igreja. Reconheci, no arrastar que precede cada toque, que o nosso se preparava para dar também as suas horas.
E logo pensei no meu pai.
Não sei com que regularidade, mas lembro-me bem de o ver a dar-lhe corda, com uma chavinha, que ainda hoje está ao lado do relógio, que encaixava naquelas rodelinhas que se vêem no mostrador, junto ao 4 e ao 8.
Depois, levantava-o ligeiramente de uns dos lados até se ouvir «clic», e o tic-tac, interrompido durante a tarefa, recomeçava.
Tic-tac, tic-tac.
Faria hoje 95 anos.
Há três que não dá corda ao relógio. Mas não há por que o lamentar (a não ser por uma egoísta saudade), pois viveu bem e longos anos.
Apetecia-me ligar-lhe a dar os parabéns.
O que vou fazer é ligar à minha linda sobrinha Joana, que faz hoje 25. Se eu for como o avô dela, ainda há-de receber chamadas minhas por mais 50 anos!