26 junho 2008

Adiós

Pediram-me que pusesse mais um poema do Antonio Nadal. Aqui vai aquele que dá nome ao livro:

Adiós,
me llevo algo de ti,

un llanto sobre el sol

que caerá también mañana.
Sangre en la frente,

um dios en la cabeza,

hubo muros de silencio

repartido el corazón...

hasta que me vi solo.

Cimbrean las estrellas,

hojas navegadas en la noche,

un viento arrastra pedazos de sueños,

ecos de reproches.

Eres el viaje, un gozo

la espiga verde,

un dolor.

La noche un pergamino ocre

fue crepusculo de fuego,

cuando el lugar quedó solo.


Lo que eras para mí?

No sé, tal vez poco amor
y ahora mucho recuerdo.


Antonio Nadal, Hojas Navegadas en la Noche, CEDMA, Málaga, 1999

25 junho 2008

Confusión

A única vantagem de ter pilhas e pilhas de livros no chão de uma grande sala à espera que as prateleiras cheguem (eram para vir hoje mas parece que só cá estarão para a semana) são os livros que se encontram e que há muito estavam escondidos.
Deixo um poema de Antonio Nadal, malaguenho, com quem tive o prazer de privar:

Confusión

Serías capaz de amar hoy
un día, este o aquel momento?
Yo sería capaz de no amar,
de olvidar a los muertos,
de desterrarme a mí mismo.
Podría aborrecer
a quien me ama.
Solo la soledad me entiende.

Hoy mejor no verte.
Me molestaría tu vestido, tu perfume.
Hoy soy capaz de odiar. Estoy ufano.
Ayer amé.

Qué extraños sentimientos son éstos
que nacen al despertar!

Escribo odiándome
y amando tu recuerdo.
Hago un último esfuerzo.
Tan joven era yo hace tres años?

De las tristes empresas de tua lágrimas,
yo labraría ilusiones en tus ojos.

[De la juventud, dolor y poesia (1967-1970)]

Antonio Nadal, Hojas Navegadas en la Noche, CEDMA, Málaga, 1999

24 junho 2008

Poesia Arcaica???

O que acontece quando nos apaixonamos? Por que razão o amor não correspondido é um tormento? O que vemos exactamente quando olhamos para a pessoa amada? Estas perguntas são de todos os tempos. Mas também tiveram «o seu tempo». E nunca floriram em estação poética mais perfumada do que naquele dealbar de rouxinóis a que os especialistas chamam Lírica Grega Arcaica. A qual - pelas perguntas que lhe servem de temática (como já se viu) - é tudo menos «arcaica».
Na forma, é de uma sofisticação que ainda hoje nos deixa pasmados. Na expressão, é tão incomparavelmente subtil que, ao lado dela, a poesia subsequente arrisca-se a parecer-nos
kitsch e ordinária.
«Arcaica» é, portanto, uma designação meramente periodológica, referindo-se ao período, na Grécia, que compreende os séculos VI e VI antes de Cristo.

Arquíloco, Álcman, Mimnermo, Safo, Alceu, Íbico, Estesícoro, Anacreonte. Poetas absolutamente geniais.

Faço minhas as palavras do Frederico Lourenço (Grécia Revisitada, Livros Cotovia, 2004).
Neste blogue já foram publicados alguns poemas. Pode lê-los aqui, aqui, aqui e noutros lugares.
Deixo um, traduzido por mim, no ano passado:

As minhas fontes já estão grisalhas
e a minha cabeça branca;
A fresca juventude já não está comigo,
Os meus dentes estão velhos
E já não me resta muito

tempo da doce vida ;
Por isso lamento-me com frequência,

receando o Tártaro: pois
as profundezas do Hades
são terríveis, e a descida para lá
é difícil; e também é certo que
quem desce não volta a subir

22 junho 2008

queda dos deuses

Uma acção mais poderosa deitara abaixo os deuses; o brilho das coisas era já o brilho exclusivo das coisas, uma fogueira tinha luz devido à sua matéria concreta, o divino já não era um elemento que ilumina ainda mais, era simplesmente uma outra coisa, fora já da oposição claro/escuro.

Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica, p. 27

21 junho 2008

o que é a internet?

Mãe (apontando para o meu portátil aberto) - Isso é que é a Internet?
Eu - Isto é um computador com Internet.
Mãe - Vi na televisão que a Internet é perigosa. Há homens que marcam encontros com crianças e é muito perigoso.
Eu - Não é bem assim.
Mãe - Então, o que é a Internet?
Eu - A Internet é como se fosse um mundo paralelo a este: há bibliotecas, jardins, casas de amigos, cafés, supermercados, passeios, avenidas, mas também tem vielas, becos escuros, bares de alterne, jogos clandestinos, enfim, há de tudo, pode-se encontrar de tudo, pode-se comprar quase tudo. Não penso que seja mais perigoso que este mundo aqui, que a Mãe vê.
Mãe - Mas na televisão disseram que um pai descobriu que o patrão tinha marcado encontro com a sua filha de 11 anos.
Eu - Pois, mas a Mãe não sabe que idade a miúda disse que tinha, pois não?
Mãe - Não...
Eu - Pois... na Internet pode mentir-se mais, pela protecção do anonimato que a distância permite, mas nem sempre se mente melhor, porque, ou as relações se ficam pelo virtual e aí não há consequências muito gravosas dessas mentiras (por vezes, as pessoas criam outras realidades), ou as relações passam a barreira da virtualidade e aí as mentiras, mais tarde ou mais cedo, são descobertas.
Mãe - Já não estou a perceber bem o que estás a dizer...
Eu (continuando) - Aliás, a mentira, mesmo nas relações tradicionais, sempre existiu. Sempre houve enganos, aldrabices, burlas, roubos... nem acho que a Internet os tenha potenciado. Apenas os modificou. Agora só precisamos de nos adaptar a esta nova forma de nos relacionarmos, de nos conhecermos, e de aprendermos a ganhar algumas defesas e a ler alguns sinais.
Mãe - Não sei bem o que estás a dizer, mas tem cuidado.
Eu (abraçando-a com um beijinho) - Está bem, Mãe.

20 junho 2008

nobreza

Por nobre entendo aquele cujas virtudes são inerentes a uma estirpe;
por
de nobre carácter entendo aquele que não perde as suas qualidades naturais.
Ora, a maior parte das vezes, não é isso que acontece com os nobres, pelo contrário, muitos deles são de vil carácter.
Nas gerações humanas há uma espécie de colheita, tal como nos produtos da terra e, algumas vezes, se a linhagem é boa, nascem durante algum tempo homens extraordinários, depois vem a decadência.
As famílias de boa estirpe degeneram em caracteres tresloucados (...); as que são dotadas de um carácter firme degeneram em estupidez e indolência.


Aristóteles, Retórica, 1390b (Livro II, 15)

Gonçalo M. Tavares em Albufeira

Hoje, às 21.30, na Biblioteca Municipal de Albufeira, vai realizar-se última sessão do ciclo de leituras dedicado ao escritor Gonçalo M. Tavares, com a presença do próprio.
No mail que a simpática Ana Paula Miguel (Divisão de Assuntos Culturais) me enviou, acrescentou: «Para além disso, está a ser organizada uma pequena animação teatral (surpresa!) relacionado com a obra do escritor a cargo do grupo de teatro “A Gaveta”. Espero que o público goste mesmo…»

Está feito o convite. Vou lá estar também. Até logo!

17 junho 2008

Ausência

Conta os teus dedos, quantos dedos?
Cinco, responde Mylia.
Vês?, diz Witold, tens a mão toda.

Falta a mão, insiste Mylia.

Gonçalo M. Tavares, Jerusalém, p.185

15 junho 2008

Europa

Europa 02
(III)
Podes cumprir as regras com exactidão mas, num determinado momento, eles apresentam um pequeno documento-lei, e então percebes: vais ser morto. O que fazem é aleatório, mas nunca ilegal. Primeiro mostram a lei, o documento que determina a acção. Ninguém resiste. As pessoas aceitam a lei. Se não, seria pior.

Gonçalo M. Tavares, Jerusalém, p.113 (Caminho, 2005)

14 junho 2008

votar no melhor (em itálico)

Como membro do Alto Comissariado para a Selecção do Melhor (reparem neste itálico) Jogador do Euro 2008, convido-vos a visitar o Geração Rasca e a votar.

13 junho 2008

lifelong learning

os velhos são sempre suficientemente jovens para serem ensinados

Ésquilo, Agamémnon, 583-4, em tradução de Manuel de Oliveira Pulquério para as Edições 70

12 junho 2008

O muro de Adriana



Conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que os outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...

(Fernando Pessoa)

10 junho 2008

escuteiros

(Maio de 1979)

Fui escuteira durante 11 anos. Foi uma escola muito importante na minha formação de adolescente e jovem adulta. Tive a sorte de haver um padre no Bombarral, o Padre Fernando Guerra (o meu padre, como gosto de lhe chamar), que decidiu que as raparigas também podiam ser escuteiras. E a sorte de a Capitolina, irmã do Padre Guerra, ter sido a nossa chefe. Com ela aprendi tanta coisa de que me lembro ainda hoje. Tudo bons conselhos que me servem no convívio saudável com os outros. Eram pessoas de espírito aberto e moderno.
Depois de aceites as raparigas no agrupamento, a aprendizagem continuou: aprender a ler mapas, aprender a ler o céu, desenvolver a memória, a capacidade de observação, a tolerância, o trabalho de equipa, a criatividade, o espírito de grupo (não perdendo a individualidade), enfim, uma verdadeira escola. Ainda hoje tenho algumas pessoas no coração, como este grande amigo.
Mais tarde, em Aveiro, onde estive um ano, vivi o mesmo espírito.
Porém, tenho noção que tive sorte em ter estado nestes dois agrupamentos, pois sei que não é assim em todo o lado. Também estive em Lisboa.
Não sei como está o C.N.E. hoje em dia, mas esta história não abona nada a seu favor.
Solidária com este outro grande amigo, deixo a história que conta:

Escuteiros...a que gente entregamos os nossos filhos?

A quem entregamos os nossos filhos? Aos Escuteiros?

LS, que tinha sido em tempos do século passado escuteiro e dirigente do CNE, achou por bem levar o seu filho SS para os escuteiros.

Foi para o agrupamento 61, Santa Maria dos Olivais, Lisboa, onde era chefe de Agrupamento JC, antigo colega de LS.

Passado cerca de um ano, JC deixa o cargo, tendo sido eleito GF, começando pouco depois as quezílias com o Pe IB, assistente do agrupamento.

Em resultado disso, os chefes que não se reviam nas atitudes do Pe IB abandonaram o agrupamento, ficando assim o mesmo sem dirigentes.

( Abandonaram CP, GF, LG, CA, SP, PN, e SMN)

Para não perderem a posse da sede que estava protocolada com a CML, IB desencantou AN, chefe do núcleo, e antigo chefe no 61, que veio assumir a chefia e tentar manter o agrupamento aberto, com a ajuda dos caminheiros, que poderiam ser mais tarde chefes. ( Boas vontades não colmatam falhas estruturais!)

Ao recomeçar o ano escutista, numa actividade mal enquadrada, mal planeada e mal vigiada, SS com 10 anos, de olhos vendados, é deixado ao abandono, dá uma queda, de cerca de 4 metros tendo fracturado o fémur, sem que ninguém tivesse dado pela sua falta.

Pasmam-se os pais ao imaginar que os vossos filhos de 10 anos são largados na serra de Sintra, de olhos vendados sem que ninguém esteja a velar por eles ou a precaver os riscos… ou seja o tipo de jogo que pode ser feito num court de ténis vedado, ou num ginásio, foi feito numa serra, com acidentes naturais não delimitados ou balizados e sem monitores suficientes para não perderem de vista todos os participantes.

Esta situação foi denunciada pelos pais de SS ao assistente de Núcleo NA, ao chefes Regional JCO e Nacional LL, ao assistente nacional JN, bem como a um tal conselho jurisdicional e fiscal, que nunca se dignaram a dar resposta a questões pertinentes:

Cumprem os escuteiros os seus próprios regulamentos acerca da formação e qualidade dos chefes e do enquadramento dos miúdos nas actividades ou aquilo anda AD-HOC?

Cumpre os regulamentos a hierarquia católica ao agir com espírito Dominicano, a acusar e nunca a querer conciliar, cega nas suas decisões, mesmo que delas venham a resultar vitimas inocentes, não punindo os maus chefes ( leia-se maus tecnicamente) mas que não fazem ondas…

Terá essa organização seguros capazes de cobrir estes riscos bem como a irresponsabilidade dos monitores, caminheiros dirigentes e outros ou os pais como LS estão abandonados pelo movimento ao qual confiaram os seus filhos?

Ou será que tem pelos mínimos…só para dizer que tem?

Passados 3 anos e tal, com 3 operações, sofrimentos e dores imensuráveis, aulas perdidas, noites perdidas, dificuldades de todo o género, LS comenta que só houve encobrimento, desviar de olhos e fugas por parte quer da hierarquia do Corpo Nacional de Escutas, quer por parte dos responsáveis directos… nem sequer um simples “querer saber como vai passando”…

Que dirigentes e assistentes são esses que não se importam com as perdas que sofre o movimento?

Que “Corpo” é esse que assiste impávido ao amputar dos seus "membros"?

Que “Amigos de todos e irmãos de todos os outros” são esses?

Que "honra" poderão inspirar os escuteiros á comunidade escolar e aos amigos da familia do SS e a todas as pessoas que sabem do sucedido?

Pensem bem com quem vão deixar ir os vossos filhos…

09 junho 2008

«pano luz»? Isto não vai lá com tradução automática

(Estava a pensar na melhor forma de limpar umas malas de pele. Decidi buscar no Google por «limpar pele e couro». Apareceu-me esta tradução (???). Procurei o original e aqui se vê o resultado. Divirtam-se!)

Como sobre Minha Leather Jacket?

While soap and water works fine on some upholstery leathers, it can damage other types beyond repair. Enquanto água e sabão funciona bem em alguns estofos couro, que pode danificar além de outros tipos de reparação. For simple touchups, you can use a light cloth and a light spray cleaner to get the dust off the shell of the jacket. Para touchups simples, você pode utilizar um pano luz e uma luz spray limpa para obter a poeira ao largo da casca da jaqueta. Most of the spray cleaners that are advertised as being fine for leather do not contain a water base, so you will be safe. A maioria dos spray limpadores que são anunciados como sendo multa de couro não conter uma base água, de modo que você será segura. If your leather jacket needs a more robust cleaning, your best bet is to take it to a dry cleaner for a professional cleaning. Se a sua pele precisa de um casaco mais robusto limpeza, a sua melhor aposta é a de levá-la a uma seca mais limpas para uma limpeza profissional.

How about My Leather Jacket?

08 junho 2008

just a girl

Ontem, no Notting Hill (filme de 1999), nesta cena vemos Anna Scott (Julia Roberts), uma famosa actriz, pedindo a William Thacker (Hugh Grant), um simples livreiro, para lhe dar uma hipótese de recomeço, dado que a fama é uma ilusão e o que aspira é a uma vida simples:
«Sou só uma mulher, em frente a um homem, pedindo que a ame»
(I' m just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her).

[O dia aqui está lindo. Só para fazer inveja: acabei de vir da praia, onde dei um belo passeio, estiquei-me um pouco e entrei na água amena]

07 junho 2008

ser feliz: ambiguidade vocabular

De resto, se estiveres interessado em analisar ambiguidades vocabulares, verifica antes que «homem feliz» não é aquele que o vulgo entende como tal, ou seja, um homem de grandes recursos monetários;
é sim, aquele para quem todo o bem reside na própria alma, é o homem sereno, magnânimo, que pisa aos pés os interesses vulgares, que só admira no homem aquilo que faz a sua qualidade de homem, que segue as lições da natureza, se conforma com as suas leis, e vive segundo o que ela prescreve;

é o homem (...) seguro do seu pensamento, inabalável, intrépido;
é o homem a quem a força pode abalar, mas nunca desviar da sua rota; a quem a fortuna, apontando contra ele as mais duras armas com a maior violência, pode arranhar, mas nunca ferir, e mesmo assim raramente.

Séneca, Cartas a Lucílio, 45. Tradução de J.A. Segurado Campos para a Gulbenkian.

06 junho 2008

Duo VioliNOcordeão

Vi um espectáculo de João Pedro Cunha (violino), meu antigo e paciente professor de formação musical, e Gonçalo Pescada (acordeão), há dois anos, e gostei muito, muito, muito. O som destes dois instrumentos liga-se maravilhosamente. Aconselho vivamente a que os vão ouvir, amanhã, dia 7, às 16.30, no Museu de S. Brás de Alportel.


Na nota de divulgação lê-se:
O Duo ‘violiNOacordeão’ (...) propõe um espectáculo que, mantendo a formalidade dos concertos de música erudita, prima por um ambiente descontraído, criado pela proximidade entre o público e os artistas. Com um repertório ecléctico e variado e uma duração aproximada de 80 minutos a fusão exótica destes dois instrumentos, resulta num espectáculo fascinante tanto para o ouvinte menos preparado como para o mais erudito.
(...) Desde obras originais para esta constituição até arranjos feitos pelos próprios, o seu tipo de programa abarca obras de compositores consagrados incluindo peças de carácter mais acessível ao chamado “Grande Público”. Em projecto está a encomenda de obras originais a vários compositores o que, aliás, já aconteceu: “Adeus”, dedicado por Adriano St. Aubyn ao VioliNOacordeão.
Clique aqui para ler mais informação sobre: João Pedro Cunha | Gonçalo Pescada

Bilhetes para o concerto de dia 7: mediante reserva -14 € (Amigos 10 €); na bilheteira -15 € (Amigos 12 €). Info: 966 329 073 Email: admin@amigos-museu-sbras.org Bar e refrescos disponíveis

Para espectáculos, contactar Inês Morais: inezmorais@mail.telepac.pt

05 junho 2008

A afinidade não cessa pela dissolução do casamento

(Brjullov - Retrato da Condessa Samoilova e da enteada Amazilia. Daqui.)

(...) assumir que não sou perfeita, mas que inda assim não há tanta coisa má.
Tem a ver com uma confiança que só aprendi com a Adriana, uma confiança que vem de dentro e que o interior pode brilhar.

Ouvir (ler, neste caso) estas palavras emocionou-me. Não têm preço. Já valeu a pena ser madrasta.

04 junho 2008

Ter tempo

Acordei com pressa, a pensar nas muitas coisas que tenho para fazer, na falta de tempo para deixar um postal no blogue. Mas logo me lembrei destas palavras de Séneca, já aqui publicadas há ano e meio:

Eu tenho todo o vagar que quero, e, aliás, só não tem vagar quem não quer. Os afazeres não andam atrás de alguém: os homens é que se agarram aos afazeres, entendendo as suas ocupações como sinónimo de felicidade.


Séneca, Cartas a Lucílio, 106

02 junho 2008

para as almas à deriva

Quero ter a alegria de ver, só por si, o teu aperfeiçoamento.
Progride, sempre com este máximo objectivo: obteres uma perfeita constância. Quando quiseres verificar se fizeste algum progresso, indaga se a tua vontade de hoje é idêntica à de ontem: uma mudança de vontade é indício de que a alma anda à deriva, aparecendo aqui ou ali conforme a levar o vento!

Séneca, Cartas a Lucílio, 35. A referência de sempre.

01 junho 2008

São escolhas

Roubei isto à Marta , que lhe chamou «Solidão». Eu não. São escolhas.

Dois bancos vazios à nossa espera, estando tão longe um do outro, como nós estamos.
Parece perto, bastaria estender a mão e aquietarmo-nos debaixo da sombra acolhedora.
Mas não, cada um de nós se sentou na beira mais longe, nem nos olhamos, por não querermos saber um do outro. Estamos até perto demais…mas continuamos juntos, que 40 anos é tempo imenso, todo das nossas vidas feito.
Há tanto tempo que te devia ter deixado, mas nunca saberei por que não o fiz…talvez ter-te sempre ali à mão, talvez o ter quem me fizesse a cama, me preparasse o jantar, ter companhia, no fundo, nem que fosse a tua, irritante, que não sabes aproveitar a vida, que de tudo dizes mal, que nunca nem por um momento te sentiste feliz.
Talvez o que te menos perdoe é dizeres que gostas das tuas filhas, mas que se não as tivesses tido passavas bem sem elas. Sonhas com uma carreira, com uns estudos que te recusaste a fazer quando amigas tuas recomeçaram a estudar, mas tu não, se calhar para poderes dizer mal de tudo e de todos, como é teu hábito.

Mudo-me para o teu banco, que isto não faz sentido, mas és sempre desagradável…criticas, criticas e voltas a criticar.
Todos os amigos desapareceram por não te conseguirem aturar…rio-me, amigos? Tiveste alguém de quem fosses amiga? Não há nada por mais simples que seja, que não faças dramas.
Ando cansado, mas muito cansado de ti.
É tão triste chegar ao fim da vida e olhar e só ver quem nunca soube amar, minha companheira, que à frente de todos de mim diz mal…cansaço enorme, mas contigo continuo sem saber o porquê.
Agora também já não vale a pena, basta-me estar calado. Qualquer compra que faça tenho de mentir no preço, para não haver discussão, aliás, já nem te conto nada de nada e nem dás por isso, por não conseguires estar calada, mas sempre, sempre a dizer mal e a criticar sem conseguires perceber que passo os dias calado

Deveria estar aqui a gozar esta sombra, esta árvore, este campo, em vez de estar tão amargurado, que nem os vejo.
Estes dois bancos que estavam vazios, são bem o nosso símbolo: Juntos, mas separados, vazios de afectos, vazios de tudo, vazios de nada.
Cansado, tão cansado de esta vida de solidão.
Então penso, que teria sido melhor… deveria ter sido sim, melhor, ter tido coragem para ficar sozinho, talvez não sentisse esta solidão, este vazio.

31 maio 2008

E - terna saudade

Lembras-te desta foto, amiga?
Era o tempo dos pastéis de nata londrinos.

Era o tempo dos brincos com morangos.

Era o tempo em que o Trevor e o Pedro ainda estavam entre nós.

Ai que saudade!

29 maio 2008

Preço da gasolina, hoje

Algures, perto de Tavira: 1,501 euros.
Ayamonte: 1.086 euros.
Onde fui, onde fui?

Desalento: o preço da paz de espírito

A paz de espírito normalmente sai cara e, quando não temos dinheiro para a pagar, preocupamo-nos a resolver problemas que outros poderiam resolver por nós. Se lhes pagássemos, claro.
Amanhã, a minha paz de espírito vai-me custar 250 euros. A favor da Divani e Divani.
Eu conto o mais sucintamente que puder:
- Quando vim para o Algarve, comprei uma casa e pus lá dois sofás da Divani. Os gatos arranharam aquilo tudo.
- No dia em que vendi essa casa, a Divani foi buscar os sofás. Porquê? Porque lhes pedi um orçamento, escolhi o tecido e só faltavam os ditos para que o trabalho se fizesse.
- Dois anos depois, a casa nova continuava atrasada. Ligo para a Divani e dizem-me, muito simpaticamente, que não havia problema nenhum. Quando eu quisesse, era só dizer que me trariam os sofás.
- Finalmente a casa está a acabar. Passaram-se 5 anos. Estava preparada para pagar mais do que os 80 contos (400 euros) iniciais (ainda comprei os sofás em escudos, em 1998, por 250 contos). A inflação, pois claro.
- Contacto a Divani. Que iam ver como estavam as coisas.
- Telefonema: que o tecido que escolhi tinha descontinuado; que forrar aqueles sofás ia custar mais que comprar uns novos; que, se queria os sofás como estavam, tinha de pagar 250 euros pelo transportes e armazenamento.
Fiquei parva.
1º Não fizeram o trabalho contratado (o terem ido buscar os sofás foi sinal de aceitação do serviço);
2º Não me devolvem os meus sofás, se não lhes pagar o transporte (que anunciam sempre gratuito);
3º Entregam-me os sofás apenas se lhes pagar por um armazenamento que não contratei;
4º Dizem que os 250 euros são quase todos para o transporte, mas depois disseram-me que os trazem amanhã, porque é quando têm um carro que vem para o Algarve. Portanto, não é por minha causa que vêm até cá.

E pronto. A DECO diz que posso reclamar. Tentei que na Divani me dessem uma morada e o nome da dona (parece que é uma dona). Mas remetem-me sempre para o mesmo indivíduo da loja onde os comprei, que diz que a dona da Divani não cede. Chegou mesmo a cancelar a entrega.
Ou pago ou não me devolvem os meus sofás.
Estou adoentada. Estou triste. Estou cansada.
Os meus amigos advogados que me perdoem. Eu sei que as Divani deste mundo jogam com este cansaço que nos provocam.
Numa situação normal, eu iria até ao fim.
Hoje não.
São 250 euros por alguma paz de espírito.

28 maio 2008

«Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses»

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

José Gomes Ferreira

26 maio 2008

Existencialista...

Copiei do Combustões e deu nisto:






What philosophy do you follow? (v1.03)
created with QuizFarm.com
You scored as Existentialism

Your life is guided by the concept of Existentialism: You choose the meaning and purpose of your life.
“Man is condemned to be free; because once thrown into the world, he is responsible for everything he does.”
“It is up to you to give [life] a meaning.”

--Jean-Paul Sartre

“It is man's natural sickness to believe that he possesses the Truth.”
--Blaise Pascal

More info at Arocoun's Wikipedia User Page...


Existentialism



90%

Utilitarianism



80%

Hedonism



40%

Kantianism



35%

Justice (Fairness)



35%

Apathy



25%

Strong Egoism



5%

Nihilism



0%

Divine Command



0%


25 maio 2008

A alma boa de Sichuan


Ultimamente, sempre que as notícias falam dos sismos sucessivos em Sichuan, só me vem à lembrança a peça de Brecht, A Alma Boa de Sechuão.
Esta peça coloca, entre outras, a questão da sobrevivência da bondade num mundo hostil, isto é, se pode uma pessoa ser boa num mundo mau.
Ao ouvir dizer que um casal de velhinhos (com mais de 80 anos) sobreviveu 11 dias, ele paralítico, ela a alimentá-lo como podia, pergunto-me: terão os deuses finalmente encontrado a alma boa de Sichuan?

(O teatro completo de Brecht anda a ser editado pela Livros Cotovia, em oito volumes, mas vai apenas no 4º, não estando esta peça ainda disponível nesta colecção. Tenho uma edição antiga, mas não sei de que editora será, pois está - por pouco tempo - encaixotada.)

22 maio 2008

Mais um!

Hoje sinto-me assim!
E gosto do número: 42.

Obrigada a todos os matinais que, a esta hora, já me deram os parabéns.
E beijinhos especiais à minha mãe!

21 maio 2008

A ideia do livro

Conheci na Biblioteca de Albufeira, nestas minhas idas ao ciclo de conferências sobre Gonçalo M. Tavares, Luís Nunes Alberto, que me mostrou um livro especial que ali estava em exposição: um livro de vidro.
-É meu - disse-me com simplicidade. - É lindo - disse eu. Em 2005 expôs mais livros, numa exposição intitulada «A ideia do livro». entre eles uma bíblia de pedra. Veja aqui. Pedi-lhe umas fotos. Aqui estão.

18 maio 2008

Carta a mim

Lamento saber que sofres frequentemente de gripe, e daquelas febres ligeiras e irritantes que as gripes prolongadas, e já quase ininterruptas, arrastam consigo. (Ele é mais tosse, expectoração, frios e calores, dores nos gânglios...) E lamento-o tanto mais quanto eu próprio também experimentei esse tipo de doença. (É tão bom termos interlocutores compreensivos, que sabem bem aquilo por que passamos e nos mimam!)
(...) O médico há-de indicar-te até que ponto podes andar a pé ou fazer exercícios, ele te dirá que não caias na indolência (ah, pois, andar a pé... o que vale é que o meu médico não lê o meu blogue), que é o que a falta de forças tem tendência a fazer (a falta de força e a preguicite aguda); prescrever-te-á que leias em voz alta (gosto desta. Vou fazê-lo mal acabe isto), como forma de exercício para as tuas vias respiratórias bloqueadas; que andes de barco, para o balanço ginasticar os teus pulmões (esta dispenso); dir-te-á o que podes comer, quando é que deverás beber vinho (dever, é por dever) para ganhar força (é remédio) ou quando o deves evitar para não provocar ou aumentar a tosse (eu sabia que não ia ser medicamento para mim... com esta tosse que tenho, só chá quente).
O remédio que eu, por minha parte te receito é válido não apenas na doença, mas para toda tua vida: despreza a morte. (Não estou assim tão mal, mas obrigada! Faz-me bem conversar com Séneca!)

Esta carta (78) é parte desta .

17 maio 2008

menina levada

Os meu livros da 3ª e 4ª classes, imediatamente após o 25 de Abril, já tinham histórias e poemas diferentes dos da 1ª e 2ª.
Como em casa todos sabiam poemas de cor, eu também ganhei o hábito de decorar alguns. Este foi um deles. Emprestei o livro (nunca devolvido) e nem sabia quem o tinha escrito. Fiquei contente ao reencontrá-lo para poder agradecer à grande Cecília Meireles.

Uma Palmada Bem Dada

É a menina manhosa
Que não gosta da rosa,
Que não quer a borboleta
Porque é amarela e preta,
Que não quer maçã nem pêra
Porque tem gosto de cera,
Que não toma leite
Porque lhe parece azeite,
Que mingau não toma
Porque é mesmo goma,
Que não almoça nem janta
porque cansa a garganta,
Que tem medo do gato
E também do rato,
E também do cão
E também do ladrão,
Que não calça meia
Porque dentro tem areia
Que não toma banho frio
Porque sente arrepio,
Que não toma banho quente
Porque calor sente
Que a unha não corta
Porque fica sempre torta,
Que não escova os dentes
Porque ficam dormentes
Que não quer dormir cedo
Porque sente imenso medo,
Que também tarde não dorme
Porque sente um medo enorme,
Que não quer festa nem beijo,
Nem doce nem queijo.
Ó menina levada,
Quer uma palmada?
Uma palmada bem dada
Para quem não quer nada!

16 maio 2008

14 maio 2008

Chove

Chove...

Mas isso que importa!
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

(José Gomes Ferreira)

13 maio 2008

palavras de enamorado

Envio-te um doce perfume, presente que ofereço ao perfume, não a ti.
Porque tu podes perfumar o próprio perfume.

Anónimo

(da antologia palatina, da edição de Albano Martins citada aqui)

12 maio 2008

vita brevis

Para os afortunados, toda a vida é curta.
Para os infelizes, uma só noite é infindável.
Luciano

Do Mundo Grego Outro Sol. Antologia Palatina e Antologia de Planudes. Trad. de Albano Martins para as Edições ASA em 2002. Mais aqui e aqui.

11 maio 2008

Da minha janela

O céu visto de um dos pátios. Quando ali morar, poderei ver quadros diferentes todos os dias.

10 maio 2008

«Transforma-se o amador na cousa amada»

Se Hefesto, o deus da forja, perguntasse aos amantes:
«Não será a isto que vocês aspiram - a identificarem-se o mais possível um ao outro, de forma a não mais se separarem noite e dia? Se é essa a vossa aspiração, estou disposto a fundir-vos e soldar-vos numa só peça, de tal modo que em vez de dois, passem a ser um só. E assim vos será dado ter uma única vida enquanto viverem, como se fossem uma só pessoa; e como uma só pessoa hão-de continuar lá no Hades, depois de morrerem, levados por uma única morte.»
Este seria o desejo dos amantes, porque
«a nossa primitiva natureza assim era e nós constituíamos então um todo. Ora, é essa aspiração ao todo, essa busca incessante, que tem o nome de amor.»

Platão, Banquete, 192e-193a. Tradução de Teresa Schiappa de Azevedo para as Edições 70. Outros excertos neste blogue em vários sítios, como aqui, aqui , aqui ou aqui.

09 maio 2008

Casa de Octávio César Augusto

Abriu ao público a casa de Augusto, construída no monte Palatino, em 36 a.C., portanto, antes de vir a ser o primeiro imperador de Roma. Ler a notícia completa aqui.

08 maio 2008

aproveita a juventude

Desfruta da juventude; ela escapa-se em passo ligeiro.
(...)
Liberta da amargura a tua juventude. Vamos, escolhe agora o teu rumo.
Afrouxa as rédeas. Não deixes que te escapem os melhores
dias da tua vida. (...)
a alegria fica bem ao jovem, um semblante grave a quem é velho.

(fala da Ama a tentar convencer Hipólito a abandonar a sua opção pela castidade)

Séneca, Fedra, vv.446-453, Ed.70, 2003. Trad. de Ana Alexandra Alves de Sousa

07 maio 2008

louvor da modéstia

És bela, já sabemos, e donzela, é verdade,
e rica, quem é que o pode negar?
Mas, Fabula, quando te louvas demais,
nem és rica, nem bela, nem donzela.

Marcial, Epigramas, I, 64. Tradução de José Luís Brandão para as Edições 70.

05 maio 2008

Adoptados

Os canitos da Natacha já têm adoptantes. Ficarão juntos mais uns tempinhos, mas depois irão para casas e jardins de pessoas de bem. A cadela já tem data de operação marcada no veterinário.
Agradeço a todos os que me deram indicações e conselhos.

04 maio 2008

Jazz café

Hoje, às 16h, no Jazz Café da A-dos-Ruivos, Carvalhal (Bombarral), vai ser apresentado (por mim) o livro Carvalhal e Peras.
Segue-se um concerto com Lena d'Água e John Bigfoot acompanhado à guitarra por Tahina.

30 abril 2008

Carvalhal... e peras!

(a capa do livro)



Teresa Perdigão no uso da palavra.
(à mesa: presidente da Câmara do Bombarral, apresentador do livro, presidente do Núcleo, Agneta Bjorkman e presidente da Junta)

28 abril 2008

«E se, um dia, alguém se lembrar de o premiar?»


Com este título, o Filipe Tourais de O País do Burro, passou-me esta distinção. Gostei do argumento que apresentou para dar continuidade: «pode tornar menos fria a blogosfera e é uma forma de expressar o nosso reconhecimento pelo valor de outros que por aqui andam.»
Blogues de que gosto muito, não desfazendo todos os outros e retribuindo a O País do Burro: garden of philodemus bandeira ao vento memento funes, el memorioso não compreendo as mulheres Cartas do meu moinho Oxiclista Pisa-papéis Combustões

24 abril 2008

Onde vai estar no 25 de Abril?


Sugiro que vá à apresentação deste livro tão lindo, com imagens da Agneta Bjorkman e texto da Teresa Perdigão.

CARVALHAL … e peras! - Viagens por memórias e paisagens é um livro que nasceu da ideia da fotógrafa e artista plástica Agneta Bjorkman, que durante 12 anos residiu na freguesia do Carvalhal (Bombarral). A sua intenção foi deixar como herança à freguesia que a acolheu, uma obra que prevaleça no tempo. Convidou a antropóloga Teresa Perdigão para a acompanhar nas suas muitas viagens pelo sítio e para os imensos contactos com as pessoas, e para escrever os textos. Estas viagens decorreram ao longo das quatro estações do ano de 2007 que ilustram os quatro capítulos do livro.
(da informação à imprensa)

Este livro permite muitas leituras:

«Quem quiser usá-lo como roteiro turístico da freguesia, dele fará bom proveito: não faltam referências a restaurantes, cafés, locais de lazer domingueiros ou sazonais, actividades agrícolas, paisagens, gentes, músicas.
Quem quiser usá-lo para consulta histórica lerá com prazer a súmula dos proprietários da Torre, a história da banda ou a evolução dos moinhos.

Quem quiser conhecer as festas poderá saber quando são os círios, pedir pelo pão-por-Deus, dançar nas associações ou no Musicoeste.
Quem gostar do sabor da linguagem pode enriquecer aqui o seu vocabulário, ouvindo «deitar as loas» no altar, acompanhando o «arrelvamento» dos trevos, ou a «surriba», que revolve a terra.
Quem quiser encontrar valores humanos, muitos são os nomes que ali se destacam, desde os animadores das colectividades, aos cheios de espírito de iniciativa, que levaram à realização de sonhos, como a compra de um novo sino para uma Igreja.

(…)
E, entre tantas outras possibilidades, quem apenas pretender um momento de literatura, aqui o tem.

A escrita da Teresa está recheada de imagens, de figuras de estilo, dirão alguns. Consegue levar-nos a perceber o empenho de quem caiou a parede, quando nos leva a querer ver o «branco esmerado» da igreja; consegue descrever o orgulho dos quem têm as suas casas «mimadas»; consegue fazer-nos sentir o calor de um Verão que não acaba, numa «paisagem de Outono envergonhado»; consegue transmitir o brio da aldeia que se dá a ver «com vaidade e dignidade».
As imagens da Agneta mostram que tudo o que as palavras nos dizem sobre as cores da terra, das vinhas, das frutas, das casas, das pessoas, não é um exagero poético. E a concepção gráfica da Sandra, ao realçar as palavras e as imagens, tornou físicas estas sensações.
O Carvalhal é, de facto, uma terra… e peras!»
(do prefácio)