17 agosto 2008

má rede

A minha rede (TMN) tem estado péssima. Aliás, estou só à espera que o ano de fidelização chegue ao fim para cancelar de vez a ligação a esta empresa. Cobraram-me mais de 200 euros (tinha débito directo - que entretanto cancelei) referentes ao mês de Maio, dizendo que ultrapassei os gigas contratados. Logo eu que tenho sempre uma péssima ligação, que não faço downloads, que quase sempre os débitos de recepção estão a 0,00Kbps e os de transferência idem (como agora, o que me impede de vir aqui num instantinho e postar: ou tenho tudo escrito antes ou não tenho hipótese).
Os que me atendem dizem que outros me irão contactar por causa da minha reclamação, que se baseia no facto de não ter sido avisada que tinha atingido 90% do tecto gratuito e de própria TMN ter confirmado isso mesmo. Se não avisaram é porque não atingi. Ou atingi e tinham de ter avisado (aquilo são alertas automáticos, imagino. Não há-de ser uma pessoa que tem um grande mapa com os milhares de utilizadores da TMN e que diz «Olha! A Adriana atingiu 90%! Vou ter de a avisar!» e que depois se esquece).
Enfim, venho aqui sempre a correr para ver o correio e ler alguns blogues no pouco tempo que tenho até ficar sem rede. Sempre que puder, colocarei qualquer coisinha. Vamos ver quantas horas este postal vai demorar a ser publicado!

12 agosto 2008

outra carta de amor (das muito, muito antigas)


Caio Plínio saúda a sua Calpúrnia


É incrível o desejo que tenho de estar contigo.
Primeiro, porque te amo, depois, porque não estamos acostumados a estar separados. Daí que passe acordado grande parte das noites a pensar em ti; daí que, durante o dia, naquelas horas em que costumava visitar-te, os meus pés - como se costuma, na verdade, dizer - me conduzam para o teu quarto. Por fim, doente e triste, semelhante a um abandonado, afasto-me do quarto vazio.
O único tempo em que estou livre destes tormentos é quando sou absorvido pelos processos e pelos amigos no fórum.
Avalia como é a minha vida, na qual o descanso está no trabalho e a distracção está na infelicidade e nas preocupações.
Adeus

10 agosto 2008

amor e prazer no casamento (há uns 2000 anos)


Caio Plínio saúda a sua mulher (Calpúrnia)


Escreves que sofres muito com a minha ausência e que tens uma única consolação, que é segurar nos meus livros em vez de mim e que, muitas vezes, os colocas no meu lugar.
Gosto que sintas a nossa falta, gosto que encontres essas consolações; eu também leio muitas vezes as tuas cartas e agarro-as nas mãos continuamente como se fossem novas. Mas com isto ainda sou mais inflamado de desejo por ti, pois quanto mais doçura as tuas cartas têm, mais o prazer que tenho nas tuas palavras em presença.
De qualquer maneira, escreve tanto quanto possas, embora isso me dê prazer do mesmo modo que me tortura.
Adeus

08 agosto 2008

Ontem, em Faro

Ontem estive na Feira do Livro de Faro e foi uma tristeza.
Afinal o encontro de autores não foi no pavilhão da Sulscrito, mas no da Câmara Municipal. Os escritores (sete) estavam sentados dentro do pavilhão e os espectadores do lado de fora, em pé. Como seria de esperar, poucos ficaram parados uma hora. Iam circulando pelos pavilhões da feira, foram ao café, e os que paravam (como eu) ficavam com a sensação de estarem a olhar para uma exposição ou para um quadro, juntamente com meia dúzia de pessoas como eles. Nem uma cadeirinha para os interessados em ouvir o que aqueles homens (nenhuma mulher a sul?) tinham para contar. Ainda por cima, três deles eram espanhóis, o que obrigava a maior concentração.
Enfim, salvou-se a noite com a presença de António Manuel Venda, que foi quem me levou lá, e de Pedro Afonso, um antigo aluno meu que estava no grupo como jovem poeta (acabou de sair o seu primeiro livro), que animou bastante quando chegou a sua vez de falar. Levantou-se, explicou que estávamos todos na mesma margem e desenvolveu a velha metáfora do rio como o espaço da escrita de uma forma fresca, como me pareceu ser também a sua poesia.
De António Manuel Venda obtive os autógrafos para os meus/seus livros e dois dedos de conversa, daqueles rápidos de quem tecla, que havia mais quem o quisesse, mas ainda teve tempo para me dizer que deve sair um novo livro em Setembro.
Soube, entretanto, que abriu uma nova livraria em Faro, Pátio de Letras, com bar, horário alargado e happy hour de livros. Hei-de ir lá em breve.

06 agosto 2008

As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira

Dou-te uma aldeia irreal onde tudo é possível: que as árvores falem com as plantas e os animais chorem mostrando aos homens que não é vergonha chorar.
Tudo o resto, deixo-te a liberdade de inventar.
Desejo que vivas sempre nesta aldeia.
(Maio 1982)

(dedicatória que me escreveram no livro)

04 agosto 2008

Novo João!

Sou tia-avó!
Este meu sobrinho foi pai ontem!
Tivesse eu como, oferecia este berço.
Parabéns ao João e à Mafalda!

455

Este blogue, que tem uma média de 100 visitas diárias, teve 455 no dia 1, na sua maioria vindas pelo Corta-fitas. Já antes Pedro Correia me tinha destacado. Desta vez foi Luís Naves que me colocou como blogue semana. Muito obrigada pelas simpáticas palavras com que descreveu este blogue.
Espero que alguns dos que aqui passaram por curiosidade se venham a tornar visitas da casa. São todos bem-vindos.

03 agosto 2008

Queria dar gritos de raiva e só consigo murmurar.
Queria morder e, em lugar disso, a minha boca apenas aflora.
Queria esfacelar e, na realidade, acaricio.
Em contrapartida, gostava muito de andar devagar e sou permanentemente obrigado a correr.

Sempé, Alguns Filósofos, Publicações Dom Quixote (na velhinha colecção «Humor com humor se paga»), 1985.

01 agosto 2008

se a tanto me ajudar o engenho e a... dor


(...) és transportado pelas velas do engenho ao mesmo tempo que pela dor; e cada um destes foi a ajuda um do outro. Pois o engenho acrescenta dignidade e magnificência à dor e a dor acrescentou força e amargura ao engenho.


(Carta 20 de Plínio a seu amigo Nóvio Máximo, a propósito de um livro que este escrevera . Tradução minha. Ler outras cartas aqui e aqui.)

31 julho 2008

carpe diem


Mesmo no meio dos males, concedei à vossa alma o prazer possível em cada dia, já que aos mortos de nada serve a riqueza.


Espectro de Dario em Os Persas, v. 840-43, de Ésquilo, em tradução de Manuel de Oliveira Pulquério.

30 julho 2008

Questões de Moral ou Joel Costa

Questões de Moral é o programa mais divertido da Antena 2. Há muitos anos que o oiço e tenho de confessar que até me emocionei quando um dia vi, finalmente, o Joel Costa. Foi na televisão, não ao vivo, mas deu para experimentar aquela sensação especial de ver o rosto de uma voz que nos é tão familiar.
Joel Costa pensa sobre muitos assuntos. Por vezes não concordamos, mas em questões de moral duvido que possa haver sempre consenso. Discuto com ele e, como bom ouvinte que é, deixa-me sempre ficar com a última palavra.
A voz de Joel Costa é... molhada. Enquanto ouvia o último programa, fui tentando encontrar formas de descrever aquela voz: é molhada e irónica. Diverte-me muito.
E como gosto do que me diverte, segunda-feira às 13h, às 23h ou na internet, procuro não deixar de o ouvir.
No ano passado descobri o seu último livro, O Assassino de Salazar. Li-o de uma assentada, mas toda a narração tinha aquela voz, aquela inflexão irónica, aquele baixar de tom em algumas palavras que ele costuma fazer, que até parecia que tinha o autor a ler só para mim. Misteriosamente, li o livro com a voz de Joel Costa.

29 julho 2008

Thíasos

O grupo de teatro clássico Thíasos, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra faz 15 anos e eu sou tão vetusta que até sou do tempo em que não havia Thíasos!
Lembro-me de algumas das primeiras representações dos jovens estudantes Delfim Leão e José Luís Brandão (que me perdoem os outros, mas as actuações destes dois ficaram na memória) que abrilhantaram os serões culturais dos colóquios da antiguidade clássica a que tive a oportunidade de assistir.
Hoje são professores da Universidade de Coimbra e congratulo-me por ver que os espírito galhofeiro e brincalhão que neles se manifestava através das personagens interpretadas em nada ensombrou a seriedade e dignidade com que foram construindo as suas carreiras.
Sinto-me orgulhosa por, de vez em quando, ser iluminada com um pedacinho do brilho que dali vem.
Parabéns a todos!

26 julho 2008

Arte cicládica

(foto daqui)
Olho o meu saco de pano, daqueles que uso para ir ao supermercado para não trazer os de plástico, e leio, em grego e em inglês, «Museum of Cycladic Art - Nicholas P. Goulandris Foundation».
Tenho de ver se encontro, durante as arrumações, a estatueta que comprei na lojinha do museu.
A arte cicládica é uma das formas de arte grega que mais me agrada pela simplicidade, pela austeridade, pela contenção das expressões religiosas, pela singeleza dos votos oferecidos aos deuses.
A ausência de grandes decorações e as formas minimalistas permitiam-me brincar com alguns amigos e perguntar-lhes de que época pensavam que eram aquelas estátuas. Contemporâneas, era a resposta. Que tinham cinco mil anos, esclarecia eu.

(foto daqui)

(foto daqui)

24 julho 2008

Escolha

O que é preferível?

Estar presa, em pouco espaço, mas ter quem esteja connosco

ou
livre, com espaço, mas sozinha?



Não sei o que a minha Natacha preferirá nos próximos 3 dias: que a leve para outro lugar, onde vai estar acorrentada, ou que a deixe aqui no quintal e ter alguém que a venha alimentar, mas que não lhe fará muita companhia.
Aceito conselhos de mais sabedores de como tratar um cão.

23 julho 2008

Curiosidade: herança de Pandora?

(imagem daqui)

Prediction of the time and manner of death was one of the most important activities of the ancient astrologer, though it was illegal.

(Tamsyn BARTON (1994), Ancient Astrology, Routledge)

22 julho 2008

O primeiro jantar...

...deliciosamente improvisado, sob a protecção de um «anjo» da Bairrada, tinto, de 1991...

21 julho 2008

chorar um homem


É na escuridão, Gala, que choras o marido que perdeste:

creio que tens é vergonha , Gala, de chorar um homem.

Marcial, IV, 58. Esta tradução.

19 julho 2008

Beleza madura



Não me agrada casar com uma virgem nem com uma velha.

A uma lastimo-a; à outra respeito-a.
Nem bago verde nem passa de uva. A beleza sazonada
é que está madura para o leito de Cípris.

Onestes, nesta tradução da Antologia Palatina

18 julho 2008

A propósito da minha lombalgia

Tendo prometido a Diodoro que lhe endireitava a corcunda,
Socles colocou três enormes pedras quadradas sobre a saliência da sua espinha dorsal. Diodoro morreu em consequência da pressão, mas ficou mais direito que uma tábua.

Nicarco, nesta tradução da Antologia Palatina.

17 julho 2008

Amizade

a amizade tem de ser mais branda, e mais livre, e mais doce, e mais inclinada a toda a gentileza e afabilidade.

Cícero, A Amizade,18, 66. A mesma referência.

16 julho 2008

Limerick caseiro

Tenho uma amiga em Limerick . Isso fez-me pensar nos limericks que, noutra vida, costuma fazer e de como nos ríamos com as parvoíces que saíam. Não resisti a deixar-me levar e saiu este assim:

There's a house in a place I know
When I first saw it I said wow
I fell in love and bought it
' didn' think much about it
And now to pay it I say wow

15 julho 2008

Que inveja!

O meu dia de hoje pertence-me, ninguém me roubou um bocadinho que fosse: todo ele foi dividido entre o leito e a leitura.

Séneca, Cartas a Lucílio, 83.3. A referência do costume.

14 julho 2008

«É preciso ter lata!» ou «Os pais não têm de morrer pelos filhos»

Foi isto que achei de Admeto, o rei de que vos falei aqui. Aliás, esta tragédia de Eurípides tem momentos de muito humor.
E lata porquê? Porque, na tentativa de convencer alguém a morrer em sua vez, usa argumentos que... só mesmo com muita lata! Acha que os pais são velhos e que deviam ir primeiro que ele, além de que, trocarem com o filho, seria prova de amor!
Eurípides é conhecido por ter aprendido bem com os sofistas, mas tal como monta os argumentos de Admeto, desmonta-os na personagem de seu pai.
Vejamos. Admeto aceita que a mulher morra por ele e depois chora a sua morte (é preciso ter lata!). Quando o pai vem prestar as honras fúnebres à nora, Admeto insurge-se:

ADMETO:
Não foste convidado por mim para este funeral nem considero a tua presença como a de um amigo. (...) Devias compadecer-te de mim quando eu estava perdido. Mas mantiveste-te longe e permitiste que outra pessoa, que era jovem, morresse, tu, um homem já velho. E lamentas agora este cadáver? Não eras tu, na verdade, o pai deste meu corpo? E aquela que se diz e é chamada minha mãe não me deu ela à luz? (...) não me considero teu filho. Ou, então, a todos excedes em cobardia, tu, que, sendo de idade avançada, chegado já ao termo da vida, não desejaste nem ousaste morrer pelo teu filho, deixando esse cuidado a uma mulher estrangeira, a única que eu poderei com justiça considerar como minha mãe e meu pai.
E, no entanto, seria uma bela prova que tu disputarias, morrendo pelo teu próprio filho, quando era já tão curto o tempo que te restava para viver. (...)
Foi esta a recompensa que que de vós recebi, de ti e daquela que me deu à luz. (...) Não serei eu que te sepultarei com a minha mãe. Para ti estou morto (...).

FERES
Ó filho, quem julgas tu, na tua insolência, que estás a atacar com as tuas injúrias? Um Lídio ou um Frígio comprados com o teu dinheiro? Não sabes que sou tessálio, filho de pai tessálio e livre por nascimento? (...) Gerei-te e criei-te para seres senhor deste palácio, mas não tenho obrigação de morrer por ti. Não recebi dos antepassados, nem é grega essa lei de que os pais devem morrer pelos filhos. Feliz ou infeliz, é para ti que nasceste. O que devias receber de mim já o possuis. És chefe de muitos homens e deixar-te-ei terras de muitas jeiras que recebi de meu pai. Em quê, pois, te causei dano? De que te privo eu?
Não morras por mim, que eu não morrerei por ti. Regozijas-te de ver a luz? E pensas que o teu pai não tem o mesmo direito? Imagino como será longo o tempo debaixo da terra, e a vida é breve, mas agradável.

Entretanto tu, sem pudor, lutaste para não morrer e estás vivo: escapaste à sorte imposta pelo destino, matando-a a ela. E falas da minha cobardia, ó celerado, quando afinal tu te deixaste vencer por uma mulher que morreu por ti, por um jovem lindo como tu? Descobriste uma boa maneira de nunca morrer, se persuadires sempre a mulher que tiveres na ocasião a morrer por ti.
E agora vens insultar os teus por não quererem fazer isso, quando tu próprio não passas de um cobarde?
Cala-te e pensa que, se tens amor à vida, os outros também têm; e se continuas a dirigir-me palavras desagradáveis, vais ouvir muitas do mesmo género, e merecidas.

E não é que Admeto não admite (desculpem o trocadilho) que está errado e continua a argumentar com o pai? Leiam, leiam e irritem-se, como eu. Há gente cá com uma lata!

13 julho 2008

ser corajoso

É claro, ó Laques, que eu não vou chamar corajoso nem a um animal nem a qualquer outro ser que, por falta de entendimento, não receie aquilo que é perigoso. Chamo-lhe temerário e louco. Ou também julgas que chamo corajoso às crianças em geral, as quais, por falta de entendimento, nada temem? Pois, para mim, temerário e corajoso não são a mesma coisa. Segundo penso, muito poucos possuem a coragem e a previdência. O arrojo, porém, a audácia e a temeridade, a par da imprevidência, são partilhadas por muitíssimos homens, mulheres, crianças e animais. A esses, pois, que tu e a maioria chamam corajosos, eu chamo arrojados, e chamo corajosos aos dotados de senso.

Diz o general Nícias no diálogo Laques (197a-b), em tradução de Francisco de Oliveira. A minha edição é no INIC,1987, mas há uma reedição nas Edições 70, de 2007.

11 julho 2008

Características dos Americanos

Encontrei o material que me foi fornecido quando fui para os EUA: Living in the United States. A Handbook for Visiting Fulbright Scholars. Lembro-me de me ter impressionado com a clareza com que apresentavam as situações para as quais nos alertava. A maior parte destas informações confirmaram-se verdadeiras e, além de me terem ajudado bastante na integração, também foram causa de muitas gargalhadas quando me punha a observar os italianos que queriam ver, na prática, se era verdade que os americanos não gostavam de ser tocados. Era o italiano a dar um passo em frente e o americano um passo atrás!

Os meus sublinhados (que vou apresentar a negrito) começaram logo na primeira página (p. 7, porque depois dos índices):

A. Characteristics of Americans
(...)
Americans appear open and friendly at firts meeting, but this means only that they are pleased to make your acquaintance; it may or may not lead to true friendship. (...)
Americans tend to stand at least an arm lenght apart when conversing and are not inclined to touch one another, except to shake hands upon greeting one another. (...)
They view punctuality as a virtue, especially in professional life. In fact, Americans often seem to be in a hurry since «time is money». They are materialistic on the whole, but generous as well.
By and large, differences are indulged, and «doing one's own thing» is held in high regard.

09 julho 2008

ser e tornar-se

E agora, quem poderá tornar-se um mau médico?
É óbvio que, em primeiro lugar, aquele que começa por ser médico, e que, em seguida, é um bom médico - esse, com efeito, poderá tornar-se mau - mas nós, os leigos em matéria de medicina, não nos poderíamos tornar nunca, por agir mal, nem médicos, nem carpinteiros, nem nada do género.
Aquele que não puder, agindo mal, tornar-se médico, é óbvio que também não poderá tornar-se um mau médico. Do mesmo modo, um homem de bem poderá, um dia, por causa da doença ou de qualquer outro azar - porque este agir mal não é mais do que ser desprovido de conhecimento - tornar-se mau, mas o homem mau nunca se tornará mau - é-o sempre!; mais, para poder vir a tornar-se mau, é preciso que antes se torne bom.


Diz Protágoras, no diálogo de Platão com o mesmo nome, traduzido por Ana Pinheiro para a Relógio d'Água, em 1999.

08 julho 2008

Gourmet

Recebi este prémio por um quiz feito pela Gi, sobre curiosidades de hábitos alimentares dos romanos.

05 julho 2008

fast food romana - à falta da ASAE...


O modo habitual dos romanos comuns obterem carne era através da compra de comida pré-cozinhada, de baixa qualidade e a baixo preço, a vendedores de rua ou em tascas e estalagens: artigos tais como morcela, paio ou salsichas.
Aparentemente os imperadores não apreciavam esta indústria de «refeições rápidas». Colocaram as estalagens sob vigilância e por vezes perseguiram-nas. Deram origem a medidas regulando a venda de carne cozinhada, de pastéis e inclusivamente (durante um período de luto público) de água quente.
Com que estavam os imperadores preocupados? O traço de puritanismo que vinha à superfície de tempos a tempos durante o período republicano teimava em persistir. As tascas estavam associadas aos jogos de azar, alguns dos quais eram proibidos, e à permissividade sexual, contra a qual os imperadores também legislaram. As inclinações classistas também podem ter sido um factor em jogo. Notamos igualmente que as estalagens eram o paradeiro ocasional de aristocratas renegados. Não é necessário acreditarmos que os imperadores estivessem preocupados com os riscos sanitários ocasionados pela carne contaminada.

Peter Garnsey, Alimentação e Sociedade na Antiguidade Clássica, Ed. Replicação, Sintra, 2002, pp.123-124

04 julho 2008

A idade do ouro

A primeira idade a surgir foi a de ouro. Sem justiceiro algum,
sem leis e de livre vontade, cultivava a lealdade e a rectidão.
Não havia castigos nem medo, nem palavras de ameaça (...)
e não havia trombeta direita, nem trompa curva de bronze,
nem capacetes, nem espadas. Sem precisão de soldados,
as gentes viviam numa ociosidade doce, livres de cuidados.
A própria terra, isenta de deveres, intocada
pela enxada,
ferida por nenhum arado, tudo dava espontaneamente. (...)
E, então, corriam rios de leite, então, rios de néctar,
e loiro mel
pingava do cimo da verdejante azinheira.

Ovídio, Metamorfoses, 89-112 (salteado). Tradução de Paulo Farmhouse Alberto para Livros Cotovia, Lisboa, 2007.

02 julho 2008

Cá para mim, a Morte é comunista...

Pilhas e mais pilhas. Encontro Eurípides e releio Alceste (tradução de Manuel de Oliveira Pulquério e Maria Alice Malça, Ed. Verbo, 1973). Tem partes mais trágicas e outras mais divertidas, mas sempre com a finura intelectual de Eurípides.
Vou deixando pedaços por aqui.

Chegou a hora de Admeto, rei de Feras, morrer, coisa que não lhe agrada. Cobra, então, do deus Apolo, uma velha dívida e este embriaga as deusas do destino para que estas aceitam que morra outra pessoa em sua vez (se alguém aceitar tal troca). Todos se negam: pai, mãe, amigos. Só a mulher, Alceste, o faz. Apolo, mais uma vez, tenta a sorte para salvar a esposa do rei, junto da Morte.

MORTE
Ah! Ah! Porque estás tu ao pé do palácio? Porque andas aqui à volta, Febo? De novo cometes injustiça, usurpando e abolindo as honras dos deuses infernais? Não te bastou impedir a morte de Admeto, enganando, com ardilosa habilidade, as Parcas? E ainda agora, com a mão armada de arco, proteges esta mulher, que prometeu libertar o marido, morrendo por ele, a filha de Pélias!

APOLO
Está tranquilo: observo a justiça e tenho boas razões.

MORTE
Então que necessidade tens de arcos, se defendes a justiça?

APOLO
Estou habituado a trazê-lo sempre comigo.

MORTE
E a vires injustamente em auxílio desta casa.

APOLO
Aflijo-me com as desgraças de um homem amigo.

MORTE
Vais despojar-me de um segundo cadáver?

APOLO
Mas o outro não to tirei pela força.

MORTE
Então como está ele sobre a terra e não debaixo dela?

APOLO
Em troca dei-te a esposa que tu agora vens buscar.

MORTE
E que vou levar para os Infernos, para debaixo da terra.

APOLO
Toma-a e vai. Não sei se serei capaz de te persuadir.

MORTE
A matar o que me pertence? É a minha função.

APOLO
Não, mas a conceder um adiamento aos que estão para morrer.

MORTE
Compreendo agora o teu pensamento e o teu desejo.

APOLO
Há então maneira de Alceste chegar à velhice?

MORTE
Não; pensa que também eu me regozijo com as honras.

APOLO
De qualquer modo não vais levar mais do que uma vida.

MORTE
Quando os homens são jovens é maior a honra que eu granjeio.

APOLO
Mas, se morrer velha, será sepultada ricamente.

MORTE
A lei que estás a promulgar, ó Febo, é a favor dos ricos.

APOLO
Como dizes? Serás acaso sofista sem que se saiba?

MORTE
Comprariam a morte na velhice, aqueles que podem.

APOLO
Não estás então decidida a conceder-me este benefício?

MORTE
Certamente que não; já conheces o meu carácter.

APOLO
Sim: odioso aos mortais e detestado pelos deuses.

MORTE
Não poderás ter tudo aquilo que não deves.

Atenção: quem não quiser saber o fim não leia daqui para a frente.
Quase no final, Hércules (Héracles, em Grego) diz-nos o que vai fazer para recuperar Alceste e devolvê-la ao marido:

HÉRACLES
(...) Irei espiar a Morte, a senhora dos mortos de negro manto, e hei-de encontrá-la, penso eu, junto do túmulo a beber o sangue das vítimas. E se eu me precipitar do meu lugar de emboscada e a apanhar, envolvê-la-ei com os meus braços e não haverá ninguém capaz de libertar os seus flancos doridos antes que me seja entregue a mulher. Mas se falhar esta presa, se ela não se aproximar da oferenda sangrenta, descerei aos Infernos, às sombrias moradas de Core e do Senhor, e farei a minha súplica. (...)

Quando a leva, finalmente, à presença de Admeto, não lhe diz que aquela mulher velada é a sua esposa e, indirectamente, conta-nos que foi a primeira hipótese que sucedeu, isto é, que foi mesmo andando à pancada com a Morte que recuperou Alceste:

HÉRACLES
(...) Chegou às minhas mãos à custa de muita fadiga. Encontrei uns homens que organizavam uns jogos públicos, digno objecto do esforço dos atletas, e destes jogos a trouxe, como prémio da vitória. Os vencedores das provas ligeiras ganhavam cavalos e os vencedores das provas mais pesadas, pugilato e luta, rebanhos de bois; para estes últimos havia o prémio suplementar de uma mulher. Ora, como eu me encontrava ali, seria desonra abandonar esta presa gloriosa. Portanto, como te disse, é a ti que confio esta mulher, que não roubei. Trago-ta, depois de a ter ganho com o meu esforço.


01 julho 2008

«o amor vive na ponta dos cabelos»


PLUMAS


Através da terra o amor
torna-nos estranhos à terra
liga-nos a uma divina linhagem
com seu tormento inapagável
suas velocidades enormes

O amor vive na ponta dos cabelos

O amor, ditam os frios de coração, é ruinoso
qualquer momento em chamas denunciará a imprecisa inquietação que nos toma

Os inocentes que se amam dizem
teu corpo está a nevar
tua alma é uma flor
um prado tranquilo sua noite

Os inocentes que se amam
por seu tormento elevam-se
como plumas
num chapéu de passeio

José Tolentino de Mendonça, A Estrada Branca, Assírio & Alvim, 2005

No alto de uma pilha, reconheço algumas capas da Assírio. Pego num dos livros, lombada fina.
José Tolentino de Mendonça.
Não sei se é ser preconceituosa (glup), mas não deixo de me surpreender sempre que penso que este homem, que tão bem canta o amor, é padre!
Eu sei, eu sei. O amor de um sacerdote, sim... o amor de Cristo, pois... que até a Bíblia, claro... sim, e o Cântico dos Cânticos (que ele tão bem traduziu para esta mesma editora)...
Mas, que querem? Surpreende-me sempre.

30 junho 2008

SVBEEV - Vá lá! Manda uma carta!

Há muitos anos, quando vivia no Funchal (entre 1991 e 1995), comprei muitos caderninhos numa papelaria que ia fechar e os vendia a vinte e cinco tostões cada um. Uso esses cadernos (dizem «caderno escolar») para coisas variadas. Encontrei um que diz «Plínio, o Jovem», com algumas cartas traduzidas. Deixo-vos esta (I.11):


Caio Plínio saúda Fábio Justo

Há muito tempo que não me mandas uma carta. «Não tenho nada para escrever», dizes. Pelo menos, escreve isso mesmo, que nada há para escrever, ou, simplesmente, aquilo com que os antigos costumam iniciar as suas: «Se estás bem, ainda bem; eu estou bem».
Isto é suficiente para mim; de facto, é tudo. Julgas que estou a brincar? Peço a sério. Faz com que saiba o que fazes, porque não consigo não saber sem ficar na maior preocupação.
Adeus

29 junho 2008

Vidas passadas

Curiosa, fui aonde me levou a sem-se-ver...

Diagnóstico de su vida pasada:
No sé si le parecerá bien o no, pero usted era hombre en su última encarnación terrena (na verdade, se tivesse sido mulher no século XIV, pouco haveria a contar, a não ser que tivesse sido uma heroína ou personagem histórica). usted nació en algún lugar del territorio que hoy es Hungría en torno al año 1375 (Hungria? Gosto. Nem sequer têm uma língua indo-europeia. Ao dizer «territorio que hoy es Hungria», até parece que não o era naquela altura. Mas era, sim, pois o reino húngaro foi fundado no ano 1000). Su profesión era predicador, editor o escritor de antiguas inscripciones.(Gosto da profissão. Mas... espera aí... ahhhh... o que eu fazia era falsificações! Escrevia coisas antigas...)

Un breve perfil psicológico de su vida pasada: :
Persona tímida, reprimida, tranquila. Tiene talento creativo, que ha esperado hasta esta vida para ser liberado. A veces su entorno le considera una persona extraña (está tudo explicado, então!)

La lección que su vida pasada le ha dado para la encarnación actual :
Su principal lección es desarrollar magnanimidad y un sentimiento de fraternidad. Trate de desarrollar un mayor despego por las propiedades materiales y aprenda a tomar sólo lo que pueda devolverr. (Também gosto. Procuro libertar-me das amarras da matéria... até lá, enquanto não consigo, lá tenho de acabar a casa e de arrumar os livros.)

¿Recuerda ahora? (Bem... recordar, recordar... às vezes vêm-me à cabeça umas inscrições antigas... pode ser que seja daí...)

28 junho 2008

eufemismo

Cheguei a casa e tinha os pedreiros no quintal, a acabarem o muro. Não me ouviram entrar e conversavam com a sua linguagem praguejadora. Mais tarde, na minha presença, um falando para outro, dizia:
«Ele gritava tanto que parecia uma senhora a pôr um filho cá neste mundo».
Não sei porquê, achei que era eu a causa daquele eufemismo...

27 junho 2008

«o artista é como um pato numa barraca de tiro»

(imagem daqui. Carregue para aumentar)

Reencontro os livros do José Carlos Fernandes, um dos autores que mais gosto. Reparem que não disse um dos autores de Banda Desenhada. JCF é um pensador. Como alguém um dia disse (num jornal espanhol, creio), os seus textos ainda são melhor que os seus desenhos.

Não tenho como digitalizar a página que aqui reproduzo apenas em palavras, mas assim poderão ver o nível do texto. A ambiência é semelhante à acima apresentada. Deixo-vos com uma prancha do volume III - As Ruínas de Babel - de A Pior Banda do Mundo.

8. O Desporto Nacional

Kaspar Grosz, secretário-geral do Partido Impopular Idiossincrático, considera que os inquéritos têm efeitos pernicionos.
- O cidadão comum é tão frequentemente solicitado a responder a inquéritos, sondagens, eleições e referendos, que se convenceu de que a sua opinião tem algum préstimo.
Sobretudo no domínio artístico, pois uma vez que neste existe uma forte componente subjectiva, logo assumem que qualquer opinião é tão boa como qualquer outra.
Assim, tornou-se comum que criaturas que ignoram o que seja um hemistíquio ou uma hipálage discorram com à vontade sobre literatura, ou que, desconhecendo o que seja um pizzicato, uma semi-fusa ou até mesmo um contrabaixo, emitam juízos definitivos sobre música!
Todos parecem ter uma necessidade imperiosa de espalhar a 4 ventos a amálgama de ignorância e preconceito que faz a vez do gosto educado e da cultura.
Frederico Bayer, designer de pastelaria [cumprimentando um músico]
-Ouvi a sua «sonata sub-sónica» para mega-harpa e contra-ocarina... não está má, mas julgo que o acorde final deveria ser maior e não menor.
(...)
[continua Kaspar Grosz]
- Nos tempos que correm, o artista é como um pato numa barraca de tiro: qualquer burgesso que pague bilhete se julga com direito a disparar sobre ele!

26 junho 2008

Adiós

Pediram-me que pusesse mais um poema do Antonio Nadal. Aqui vai aquele que dá nome ao livro:

Adiós,
me llevo algo de ti,

un llanto sobre el sol

que caerá también mañana.
Sangre en la frente,

um dios en la cabeza,

hubo muros de silencio

repartido el corazón...

hasta que me vi solo.

Cimbrean las estrellas,

hojas navegadas en la noche,

un viento arrastra pedazos de sueños,

ecos de reproches.

Eres el viaje, un gozo

la espiga verde,

un dolor.

La noche un pergamino ocre

fue crepusculo de fuego,

cuando el lugar quedó solo.


Lo que eras para mí?

No sé, tal vez poco amor
y ahora mucho recuerdo.


Antonio Nadal, Hojas Navegadas en la Noche, CEDMA, Málaga, 1999

25 junho 2008

Confusión

A única vantagem de ter pilhas e pilhas de livros no chão de uma grande sala à espera que as prateleiras cheguem (eram para vir hoje mas parece que só cá estarão para a semana) são os livros que se encontram e que há muito estavam escondidos.
Deixo um poema de Antonio Nadal, malaguenho, com quem tive o prazer de privar:

Confusión

Serías capaz de amar hoy
un día, este o aquel momento?
Yo sería capaz de no amar,
de olvidar a los muertos,
de desterrarme a mí mismo.
Podría aborrecer
a quien me ama.
Solo la soledad me entiende.

Hoy mejor no verte.
Me molestaría tu vestido, tu perfume.
Hoy soy capaz de odiar. Estoy ufano.
Ayer amé.

Qué extraños sentimientos son éstos
que nacen al despertar!

Escribo odiándome
y amando tu recuerdo.
Hago un último esfuerzo.
Tan joven era yo hace tres años?

De las tristes empresas de tua lágrimas,
yo labraría ilusiones en tus ojos.

[De la juventud, dolor y poesia (1967-1970)]

Antonio Nadal, Hojas Navegadas en la Noche, CEDMA, Málaga, 1999

24 junho 2008

Poesia Arcaica???

O que acontece quando nos apaixonamos? Por que razão o amor não correspondido é um tormento? O que vemos exactamente quando olhamos para a pessoa amada? Estas perguntas são de todos os tempos. Mas também tiveram «o seu tempo». E nunca floriram em estação poética mais perfumada do que naquele dealbar de rouxinóis a que os especialistas chamam Lírica Grega Arcaica. A qual - pelas perguntas que lhe servem de temática (como já se viu) - é tudo menos «arcaica».
Na forma, é de uma sofisticação que ainda hoje nos deixa pasmados. Na expressão, é tão incomparavelmente subtil que, ao lado dela, a poesia subsequente arrisca-se a parecer-nos
kitsch e ordinária.
«Arcaica» é, portanto, uma designação meramente periodológica, referindo-se ao período, na Grécia, que compreende os séculos VI e VI antes de Cristo.

Arquíloco, Álcman, Mimnermo, Safo, Alceu, Íbico, Estesícoro, Anacreonte. Poetas absolutamente geniais.

Faço minhas as palavras do Frederico Lourenço (Grécia Revisitada, Livros Cotovia, 2004).
Neste blogue já foram publicados alguns poemas. Pode lê-los aqui, aqui, aqui e noutros lugares.
Deixo um, traduzido por mim, no ano passado:

As minhas fontes já estão grisalhas
e a minha cabeça branca;
A fresca juventude já não está comigo,
Os meus dentes estão velhos
E já não me resta muito

tempo da doce vida ;
Por isso lamento-me com frequência,

receando o Tártaro: pois
as profundezas do Hades
são terríveis, e a descida para lá
é difícil; e também é certo que
quem desce não volta a subir

22 junho 2008

queda dos deuses

Uma acção mais poderosa deitara abaixo os deuses; o brilho das coisas era já o brilho exclusivo das coisas, uma fogueira tinha luz devido à sua matéria concreta, o divino já não era um elemento que ilumina ainda mais, era simplesmente uma outra coisa, fora já da oposição claro/escuro.

Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica, p. 27

21 junho 2008

o que é a internet?

Mãe (apontando para o meu portátil aberto) - Isso é que é a Internet?
Eu - Isto é um computador com Internet.
Mãe - Vi na televisão que a Internet é perigosa. Há homens que marcam encontros com crianças e é muito perigoso.
Eu - Não é bem assim.
Mãe - Então, o que é a Internet?
Eu - A Internet é como se fosse um mundo paralelo a este: há bibliotecas, jardins, casas de amigos, cafés, supermercados, passeios, avenidas, mas também tem vielas, becos escuros, bares de alterne, jogos clandestinos, enfim, há de tudo, pode-se encontrar de tudo, pode-se comprar quase tudo. Não penso que seja mais perigoso que este mundo aqui, que a Mãe vê.
Mãe - Mas na televisão disseram que um pai descobriu que o patrão tinha marcado encontro com a sua filha de 11 anos.
Eu - Pois, mas a Mãe não sabe que idade a miúda disse que tinha, pois não?
Mãe - Não...
Eu - Pois... na Internet pode mentir-se mais, pela protecção do anonimato que a distância permite, mas nem sempre se mente melhor, porque, ou as relações se ficam pelo virtual e aí não há consequências muito gravosas dessas mentiras (por vezes, as pessoas criam outras realidades), ou as relações passam a barreira da virtualidade e aí as mentiras, mais tarde ou mais cedo, são descobertas.
Mãe - Já não estou a perceber bem o que estás a dizer...
Eu (continuando) - Aliás, a mentira, mesmo nas relações tradicionais, sempre existiu. Sempre houve enganos, aldrabices, burlas, roubos... nem acho que a Internet os tenha potenciado. Apenas os modificou. Agora só precisamos de nos adaptar a esta nova forma de nos relacionarmos, de nos conhecermos, e de aprendermos a ganhar algumas defesas e a ler alguns sinais.
Mãe - Não sei bem o que estás a dizer, mas tem cuidado.
Eu (abraçando-a com um beijinho) - Está bem, Mãe.

20 junho 2008

nobreza

Por nobre entendo aquele cujas virtudes são inerentes a uma estirpe;
por
de nobre carácter entendo aquele que não perde as suas qualidades naturais.
Ora, a maior parte das vezes, não é isso que acontece com os nobres, pelo contrário, muitos deles são de vil carácter.
Nas gerações humanas há uma espécie de colheita, tal como nos produtos da terra e, algumas vezes, se a linhagem é boa, nascem durante algum tempo homens extraordinários, depois vem a decadência.
As famílias de boa estirpe degeneram em caracteres tresloucados (...); as que são dotadas de um carácter firme degeneram em estupidez e indolência.


Aristóteles, Retórica, 1390b (Livro II, 15)

Gonçalo M. Tavares em Albufeira

Hoje, às 21.30, na Biblioteca Municipal de Albufeira, vai realizar-se última sessão do ciclo de leituras dedicado ao escritor Gonçalo M. Tavares, com a presença do próprio.
No mail que a simpática Ana Paula Miguel (Divisão de Assuntos Culturais) me enviou, acrescentou: «Para além disso, está a ser organizada uma pequena animação teatral (surpresa!) relacionado com a obra do escritor a cargo do grupo de teatro “A Gaveta”. Espero que o público goste mesmo…»

Está feito o convite. Vou lá estar também. Até logo!

17 junho 2008

Ausência

Conta os teus dedos, quantos dedos?
Cinco, responde Mylia.
Vês?, diz Witold, tens a mão toda.

Falta a mão, insiste Mylia.

Gonçalo M. Tavares, Jerusalém, p.185

15 junho 2008

Europa

Europa 02
(III)
Podes cumprir as regras com exactidão mas, num determinado momento, eles apresentam um pequeno documento-lei, e então percebes: vais ser morto. O que fazem é aleatório, mas nunca ilegal. Primeiro mostram a lei, o documento que determina a acção. Ninguém resiste. As pessoas aceitam a lei. Se não, seria pior.

Gonçalo M. Tavares, Jerusalém, p.113 (Caminho, 2005)

14 junho 2008

votar no melhor (em itálico)

Como membro do Alto Comissariado para a Selecção do Melhor (reparem neste itálico) Jogador do Euro 2008, convido-vos a visitar o Geração Rasca e a votar.

13 junho 2008

lifelong learning

os velhos são sempre suficientemente jovens para serem ensinados

Ésquilo, Agamémnon, 583-4, em tradução de Manuel de Oliveira Pulquério para as Edições 70

12 junho 2008

O muro de Adriana



Conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que os outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...

(Fernando Pessoa)

10 junho 2008

escuteiros

(Maio de 1979)

Fui escuteira durante 11 anos. Foi uma escola muito importante na minha formação de adolescente e jovem adulta. Tive a sorte de haver um padre no Bombarral, o Padre Fernando Guerra (o meu padre, como gosto de lhe chamar), que decidiu que as raparigas também podiam ser escuteiras. E a sorte de a Capitolina, irmã do Padre Guerra, ter sido a nossa chefe. Com ela aprendi tanta coisa de que me lembro ainda hoje. Tudo bons conselhos que me servem no convívio saudável com os outros. Eram pessoas de espírito aberto e moderno.
Depois de aceites as raparigas no agrupamento, a aprendizagem continuou: aprender a ler mapas, aprender a ler o céu, desenvolver a memória, a capacidade de observação, a tolerância, o trabalho de equipa, a criatividade, o espírito de grupo (não perdendo a individualidade), enfim, uma verdadeira escola. Ainda hoje tenho algumas pessoas no coração, como este grande amigo.
Mais tarde, em Aveiro, onde estive um ano, vivi o mesmo espírito.
Porém, tenho noção que tive sorte em ter estado nestes dois agrupamentos, pois sei que não é assim em todo o lado. Também estive em Lisboa.
Não sei como está o C.N.E. hoje em dia, mas esta história não abona nada a seu favor.
Solidária com este outro grande amigo, deixo a história que conta:

Escuteiros...a que gente entregamos os nossos filhos?

A quem entregamos os nossos filhos? Aos Escuteiros?

LS, que tinha sido em tempos do século passado escuteiro e dirigente do CNE, achou por bem levar o seu filho SS para os escuteiros.

Foi para o agrupamento 61, Santa Maria dos Olivais, Lisboa, onde era chefe de Agrupamento JC, antigo colega de LS.

Passado cerca de um ano, JC deixa o cargo, tendo sido eleito GF, começando pouco depois as quezílias com o Pe IB, assistente do agrupamento.

Em resultado disso, os chefes que não se reviam nas atitudes do Pe IB abandonaram o agrupamento, ficando assim o mesmo sem dirigentes.

( Abandonaram CP, GF, LG, CA, SP, PN, e SMN)

Para não perderem a posse da sede que estava protocolada com a CML, IB desencantou AN, chefe do núcleo, e antigo chefe no 61, que veio assumir a chefia e tentar manter o agrupamento aberto, com a ajuda dos caminheiros, que poderiam ser mais tarde chefes. ( Boas vontades não colmatam falhas estruturais!)

Ao recomeçar o ano escutista, numa actividade mal enquadrada, mal planeada e mal vigiada, SS com 10 anos, de olhos vendados, é deixado ao abandono, dá uma queda, de cerca de 4 metros tendo fracturado o fémur, sem que ninguém tivesse dado pela sua falta.

Pasmam-se os pais ao imaginar que os vossos filhos de 10 anos são largados na serra de Sintra, de olhos vendados sem que ninguém esteja a velar por eles ou a precaver os riscos… ou seja o tipo de jogo que pode ser feito num court de ténis vedado, ou num ginásio, foi feito numa serra, com acidentes naturais não delimitados ou balizados e sem monitores suficientes para não perderem de vista todos os participantes.

Esta situação foi denunciada pelos pais de SS ao assistente de Núcleo NA, ao chefes Regional JCO e Nacional LL, ao assistente nacional JN, bem como a um tal conselho jurisdicional e fiscal, que nunca se dignaram a dar resposta a questões pertinentes:

Cumprem os escuteiros os seus próprios regulamentos acerca da formação e qualidade dos chefes e do enquadramento dos miúdos nas actividades ou aquilo anda AD-HOC?

Cumpre os regulamentos a hierarquia católica ao agir com espírito Dominicano, a acusar e nunca a querer conciliar, cega nas suas decisões, mesmo que delas venham a resultar vitimas inocentes, não punindo os maus chefes ( leia-se maus tecnicamente) mas que não fazem ondas…

Terá essa organização seguros capazes de cobrir estes riscos bem como a irresponsabilidade dos monitores, caminheiros dirigentes e outros ou os pais como LS estão abandonados pelo movimento ao qual confiaram os seus filhos?

Ou será que tem pelos mínimos…só para dizer que tem?

Passados 3 anos e tal, com 3 operações, sofrimentos e dores imensuráveis, aulas perdidas, noites perdidas, dificuldades de todo o género, LS comenta que só houve encobrimento, desviar de olhos e fugas por parte quer da hierarquia do Corpo Nacional de Escutas, quer por parte dos responsáveis directos… nem sequer um simples “querer saber como vai passando”…

Que dirigentes e assistentes são esses que não se importam com as perdas que sofre o movimento?

Que “Corpo” é esse que assiste impávido ao amputar dos seus "membros"?

Que “Amigos de todos e irmãos de todos os outros” são esses?

Que "honra" poderão inspirar os escuteiros á comunidade escolar e aos amigos da familia do SS e a todas as pessoas que sabem do sucedido?

Pensem bem com quem vão deixar ir os vossos filhos…

09 junho 2008

«pano luz»? Isto não vai lá com tradução automática

(Estava a pensar na melhor forma de limpar umas malas de pele. Decidi buscar no Google por «limpar pele e couro». Apareceu-me esta tradução (???). Procurei o original e aqui se vê o resultado. Divirtam-se!)

Como sobre Minha Leather Jacket?

While soap and water works fine on some upholstery leathers, it can damage other types beyond repair. Enquanto água e sabão funciona bem em alguns estofos couro, que pode danificar além de outros tipos de reparação. For simple touchups, you can use a light cloth and a light spray cleaner to get the dust off the shell of the jacket. Para touchups simples, você pode utilizar um pano luz e uma luz spray limpa para obter a poeira ao largo da casca da jaqueta. Most of the spray cleaners that are advertised as being fine for leather do not contain a water base, so you will be safe. A maioria dos spray limpadores que são anunciados como sendo multa de couro não conter uma base água, de modo que você será segura. If your leather jacket needs a more robust cleaning, your best bet is to take it to a dry cleaner for a professional cleaning. Se a sua pele precisa de um casaco mais robusto limpeza, a sua melhor aposta é a de levá-la a uma seca mais limpas para uma limpeza profissional.

How about My Leather Jacket?