27 outubro 2008
Comun(itar)ismo???
Cremes: Vais aonde, se ainda não entregaste o que te pertence?
Homem: Para o jantar.
Cremes: Ah isso é que não vais, se ainda resta a essas mulheres uma migalha de bom senso! Só se tiveres levado primeiro a tua parte.
Homem: Está bem, pronto! Eu levo.
Cremes: Quando?
Homem: Não é por mim que a coisa deixa de se fazer, meu amigo.
Cremes: Ah não?
Homem: Há-de haver outros que ainda vão entregar depois de mim, podes ter a certeza.
Cremes: E vais jantar, mesmo assim?
Homem: O que hei-de eu fazer? É preciso colaborar com o Estado na medida do possível. É o que faz quem tem a cabeça em cima dos ombros.
Cremes: E se elas não permitirem, como é?
Homem: Eu mando-me de cabeça contra elas.
Cremes: E se te dão uma coça, como é?
Homem: Eu processo-as em tribunal.
Cremes: E se se rirem na tua cara, como é?
Homem: Eu ponho-me à porta...
Cremes: E o que fazes, ora diz lá!
Homem: ... e roubo a comida aos criados.
Cremes: Então vai lá, mas eu primeiro. (aos servos) E vocês, Sícon e Parmenão, toca a alombar com esta cangalhada toda.
Homem (prestável): Deixa estar que eu ajudo.
Cremes (que o afasta): Nem pensar! Receio bem que, na frente da chefe, ainda te armes em dono das minhas coisas. (Sai com os escravos carregados)
Homem: Cum raio! Tenho de arranjar uma saída, para conservar o que me pertence, e ao mesmo tempo partilhar com esta gentinha do bolo comum. Tenho uma ideia: basta que eu avance como eles, sem demora. (sai também)
Aristófanes, As Mulheres no Parlamento, JNICT, Coimbra, 1996. Tradução de Maria de Fátima Silva.
24 outubro 2008
Comun(itar)ismo
Bléfiro: Comum a todos... como?
Praxágora: Já a formiga tem catarro!
Bléfiro: Catarro?! Também vamos pô-lo em comum?
Bléfiro: E quem não for proprietário de terras, mas possuir dinheiro e ouro, bens que se não vêem?
Praxágora: Tem de os pôr no monte.
Bléfiro: E se não puser?
Praxágora: Incorre em perjúrio.
Bléfiro: Ora, ora! Já foi assim que eles os ganharam!
Praxágora: Mas seja como for, também não lhes servem para nada.
Bléfiro: Como assim?
Praxágora: Por necessidade, ninguém mais precisa de se mexer. Toda a gente vai ter tudo: pão peixe, bolos, casacos, vinho, coroas, grão-de-bico. Qual a vantagem de se não entregar os bens? Ora diz lá, se fores capaz!
Bléfiro: O certo é que, hoje em dia, são aqueles a quem não falta nada, os que mais roubam.
Cremes: Isso era dantes, meu amigo, quando vivíamos no tempo da outra senhora! Mas com agora - com a tal história do fundo comum - , que é que se ganha em não entregar?
Aristófanes, As Mulheres no Parlamento, JNICT, Coimbra, 1996. Tradução de Maria de Fátima Silva.
22 outubro 2008
que a nossa vida seja um dia
Num paciente trabalho, Silva Bélkior transpôs 35 poemas de Fernando Pessoa para latim, intitulado-o Carmina Pessoana:
Hortorum rosas ego Adonis amo,
volucres istas amo, Lydia, rosas,
quae die in quo nascuntur,
eodem pereunt die.
Lumen est illis aeviternum, nam
orto nascuntur jam eis sole, et finiunt
linquat Apollo antequam
cursum suum visibilem.
Sic unum diem vita faciamus,
inscientes, Lydia, nostra voluntate
noctem esse ante et post
parum quod nos duramus.
(carregue no texto para ler o original em português)
20 outubro 2008
um prémio
Informações sobre o Prémio Dardos
Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:
1 - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.”
Ao rodar do tempo
As coisas são como são
Assim Mesmo
Cartas do meu moinho
Chá de letras
Combustões
Corta-fitas
Garden of Philodemus
Livro de Estilo
Não compreendo as mulheres
Onde Mudar
Oxiclista
Paixões e Desejos
Ponteiros Parados
Porta do Vento
Sem-se-ver
18 outubro 2008
Tragédia hip hop
(imagem daqui) Foi no meu correio electrónico, numa antiga mensagem de Fevereiro, que encontrei referência a uma versão hip hop californiana da tragédia Os Sete contra Tebas, de Ésquilo. O site da peça resume: Greek tragedy meets hip-hop in this new telling of a cursed family and society unsure of how to free itself from war. e na notícia do NCTimes, começamos por ler:
In ancient Greek tragedy, the Theban king Oedipus unwittingly fulfills an oracle's prophecy by killing his father and marrying his mother, which "kinda grossed everybody out, y'know"? And when Oedipus' two sons, Eteocles and Polynices, banished their father out of shame, he avenged his honor by "puttin' a curse on their ass."
Se estivesse por cá, iria vê-la.
17 outubro 2008
medos
Assim falou; e eu dei-lhe a seguinte resposta:
"Ó Circe, como podes pedir-me para ser agradável contigo?
Tu que no teu palácio transformaste os meus amigos em porcos,
e a mim aqui reténs, ordenando-me que vá
para o tálamo e que suba para a tua cama,
de modo a tirares-me coragem e virilidade quando estiver nu.
Fica sabendo que não subirei para a tua cama,
a não ser que tu, ó deusa, ouses jurar um grande juramento:
que não prepararás para mim qualquer outro sofrimento."
Assim falei; e ela jurou logo, como lhe ordenara.
E depois que jurou e pôs termo ao juramento,
foi então que subi para a cama lindíssima de Circe.
Odisseia, X, 336-347
16 outubro 2008
sem rodeios
Quem és e donde vens? Que cidade é a tua? Quem são os teus pais?
Estou espantada por teres bebido a poção sem estar enfeitiçado.
Nenhum homem jamais resistiu a esta droga depois que a bebesse
e que ela lhe passasse a barreira dos dentes.
Mas a tua mente não pode ser enfeitiçada.
És na verdade o astuto Ulisses, que sempre me disse
aportar aqui um dia o Matador de Argos, da vara dourada,
regressando de Tróia na sua escura nau veloz.
Mas repõe a tua espada, pois iremos agora
para a nossa cama, para que nos unamos em amor
e possamos confiar um no outro.
Fala de Circe, na Odisseia, X 325-335. Tradução de Frederico Lourenço.
15 outubro 2008
vestir o coração

- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, às três já eu começo a ser feliz. À medida que o tempo avançar, mais feliz me sentirei. Às quatro horas já começarei a agitar-me e a inquietar-me; descobrirei o preço da felicidade. Mas se vieres a uma hora qualquer, eu nunca posso saber a que horas hei-de vestir o meu coração... São precisos ritos.
- O que é um rito?
- É também qualquer coisa de que toda a gente se esqueceu, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora diferente das outras horas.
14 outubro 2008
Fernando Cabrita, poeta
O sol
Nos quartos que o sol visita
a sombra aos poucos
gentil e pressurosa lhe abre as portas
e se retira;
E vem a manhã com ele, fresca, bonita,
pôr-se à janela
de onde a cidade inteira mira.
Poema retirado deste livro:
13 outubro 2008
pelos seus 85 anos
valter hugo mãe, o remorso de baltazar serapião, QuidNovi, 2006
(exemplos de outros postais sobre a minha mãe aqui e aqui )
12 outubro 2008
Por que tem sempre de doer?
Tal foi o desejo de amor, que me cobriu o coração
e cerrada treva derramou sobre meus olhos,
arrebatando do meu peito as débeis forças.
(Frg. 191)
Miserável, jazo atolado no desejo,
inânime, e penosas dores, por vontade dos deuses,
me percorrem os ossos.
(Frg. 193)
Arquíloco, daqui.
11 outubro 2008
10 outubro 2008
Hoje, em Albufeira ...
... João Pedro Cunha (violino) e António Rosado (piano) tocam num espectáculo intitulado «As melhores sonatas de Beethoven.Presente grego
«Receio os Dánaos, mesmo quando trazem presentes»
Os seus peitos erguem-se por entre as ondas e as suas cristas cor de sangue elevam-se acima das vagas; atrás a parte restante corta o mar e encurva o dorso imenso em circunvoluções.
Ouve-se um marulhar nas águas cheias de espuma.Já tinham alcançado os campos, com os olhos faiscantes raiados de sangue e fogo, e lambiam com as línguas vibrantes as bocas que silvavam. À vista disto fugimos cada um para seu lado sem pinta de sangue.
A primeira das duas serpentes, tendo envolvido os pequenos corpos dos seus filhos, enrosca-se em volta de ambos, devora-lhes os desgraçados membros à dentada, depois apanham-no a ele próprio, que acorria a socorrê-los de armas na mão e enleiam-no com as suas enormes espirais. E tendo-lhe envolvido por duas vezes a garganta com os seus dorsos escamosos, ficam ainda com os pescoços sobranceiros. Ele esforça-se por desfazer os nós com as mãos, com as faixas rituais manchadas pela baba e pelo negro veneno, ergue aos astros horrendos clamores, semelhantes ao mugido que solta o touro ferido (...).
Vergílio, Eneida, II, 201-224. Tradução coordenada por Luís Cerqueira e publicada em 2003 pela Bertrand Editora.
07 outubro 2008
se a A está com B e B está com C, A está com C
06 outubro 2008
missões
Tenho uma amiga que para o ano vai dar o seu mês de férias para ir trabalhar numa missão em Nampula, Moçambique, com a Irmã Assunção, da Comunidade das Irmãs de S. João Baptista. Com 70 euros por ano podemos apadrinhar uma criança, pagando com esse dinheiro as despesas escolares e os almoços. Um ano, por 70 euros... Ah, e precisam de alguém da área de informática que vá até lá para ajudar durante um mês. Não consegui pôr aqui o folheto explicativo, mas enviem um mail para lenanunosorio@yahoo.com, que Nuno Osório dará todas as informações.
Um outro amigo pediu-me que divulgasse o blogue dos Padrinhos de Portugal. Por 85 euros trimestrais, o padrinho colabora na consecução dos objectivos deste projecto:
Objectivos:
05 outubro 2008
quando alguém nasce, nasce selvagem, não é de ninguém
*O genitivo é o caso que indica a posse (como o caso possessivo em Inglês).
04 outubro 2008
Teoria e jogo do duende
De gozos e fezes juntos.
S. Teresa d'Ávila
UMA HOMENAGEM
Estava sempre entre os anjos
Quando o vi
E não vi
A luz faz-nos
Saber quando é assim
Negra a aparecer
E desaparecer, aparecer
E desaparecer
Quando dançar
É ensaiar morrer
_______________
O filme escorre: há um pé enfaixado de menina chinesa,
um vento negro, um carro acidentado repetidamente.
Uma vez. Duas vezes. Três vezes... Depois perde-se a conta.
Há vastos lagos de leite fervilhante e uma atmosfera de perigo iminente.
Que dirias tu de viver ali?
(Pedro Luís Baltazar Vieira, 25/01/67- 4/10/2005
Faz 3 anos e estou furiosa
Hoje só me apetece dizer asneiras, palavrões, chamar nomes.
Estou triste e furiosa.
....................................
Estou furiosa porque o Pedro morreu. Porque ele me faz falta. Porque choro ao ler as suas coisas. Porque acho que fiz tudo e se calhar não fiz nada.
Estou furiosa com ele porque ele morreu.
Mexo nas coisas que escreveu e nas que me escreveu.
Só me apetece dizer asneiras!
Maria
Não lhe dei ouvidos.
Fazes-me tanta falta, Manel!
02 outubro 2008
Muito riso e muito siso
De ar sério, apoiado por divertidas folhas soltas ou estrategicamente dispostas na mesa, apresentou, sem ler, a sua investigação sobre tabuísmos.
Muito interessante e arrojado, pelo desafio que apresenta. Fiquei a saber que «vai badamerda» provém de um castigo medieval que mandava «lamber da merda». A nossa tendência para a economia da língua deu depois naquilo.
Acho que o mesmo já está a acontecer com o «'da-se», que daqui a uns tempos se escreverá «dasse» e ninguém saberá o que era originalmente, podendo ser usado em quase todos os contextos, como hoje acontece com «chatice».
Os investigadores de Coimbra não páram de me surpreender.








