02 outubro 2008

Muito riso e muito siso

O colóquio em Coimbra foi muito interessante, principalmente pela interdisciplinaridade. Achei curioso que quase todas as comunicações tivessem sido apresentadas com uma certa dose de humor. Foi agradável ver sorrir ou mesmo rir uma audiência acostumada a abordagens mais sisudas. Ali se provou que o riso e o siso não são necessariamente inversamente proporcionais.
Não vou resumir o que foi dito, pois isso está aqui. Vou apenas destacar a intervenção de João Nuno Corrêa Cardoso, presidente do Conselho Pedagógico (CP) da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, lugar privilegiado para este linguista conseguir alguns dos exemplos que usa na sua investigação, dado que por baixo da janela do gabinete CP reúnem-se muitos alunos, sendo as conversas que ouve um manancial de informações.
De ar sério, apoiado por divertidas folhas soltas ou estrategicamente dispostas na mesa, apresentou, sem ler, a sua investigação sobre tabuísmos.
Muito interessante e arrojado, pelo desafio que apresenta. Fiquei a saber que «vai badamerda» provém de um castigo medieval que mandava «lamber da merda». A nossa tendência para a economia da língua deu depois naquilo.
Acho que o mesmo já está a acontecer com o «'da-se», que daqui a uns tempos se escreverá «dasse» e ninguém saberá o que era originalmente, podendo ser usado em quase todos os contextos, como hoje acontece com «chatice».
Os investigadores de Coimbra não páram de me surpreender.

28 setembro 2008

Em Coimbra

Nos próximos dois dias vou estar aqui.

Açores - notas soltas e Dias de Melo

Nunca fui aos Açores. Já tive um bilhete comprado e não o usei. A vontade dos deuses é assim...

Na semana passada, a minha amiga Teresa Perdigão , uma amiga açoriana e eu conversámos sobre o poeta Dias de Melo, que a T. tinha o privilégio de conhecer. Poucos dias depois soubemos da sua morte.

A primeira vez que ouvi aquele nome foi na voz de Fernando Tordo cantando as nove ilhas dos Açores. Mais tarde soube quem era. Tenho andado a trautear «O dia do mar»:

(...)
O mar não tem marés a medir

O mar começa o seu dia em Santa Maria da Boa Viagem
Alarga para S. Miguel, ajeita o farnel e segue com a aragem

Arrima para a Terceira, arranja maneira de molhar o bico

Na Graciosa dá beijos, acalma os desejos e ala para o Pico

Aí conversa primeiro com um baleeiro do Dias de Melo

Engrossa-se a meio canal, sorri para o Faial que dá gosto vê-lo

São Jorge pára nas velas e faz um coral com nove cagarras

Nas Flores cumprimenta o povo, encosta-se ao Corvo
E estende as amarras
(...)


Letra, música e interpretação de Fernando Tordo, incluído no LP «A Ilha do Canto», de 1986.

26 setembro 2008

23 setembro 2008

Não, não estou a falar dos dilemas das nossas elites e da classe política

Se eu procurar ser alguém, apressando-me a ocupar os bancos da frente da cidade, serei detestado por todos aqueles que nunca poderão chegar ao poder. Pois a superioridade é sempre melindrosa.
Por outro lado, os que têm valor e capacidade e, devido à sensatez que lhes é própria, ficam calados sem se precipitarem para os cargos políticos - será no meio desses que parecerei ridículo e louco, por não preferir a calma de passar despercebido numa cidade carregada de culpa.
Chegado a um cargo honorífico, sentir-me-ei ainda mais posto à distância pelos votos da elite que se apropriou da cidade.
Pois é assim, pai, que as coisas se passam. Os que controlam as cidades e os cargos honoríficos são os mais agressivos em relação aos rivais.

Eurípides, Íon, vv.595-606. Tradução de Frederico Lourenço publicada na Colibri em 1994

20 setembro 2008

tia babada

Ela diz que não tem um blogue, mas que, provavelmente, deveria tê-lo.
Também acho.
Adoro-a e sou, provavelmente, imparcial. Penso que escreve cada vez melhor e ninguém diria que é uma mulher das linguísticas (sem ofensa, pois parte de mim aí se inclui). Na verdade, o seu coração mora na literatura.
Adoro a minha sobrinha Rita.
Roubadíssimo do blogue do seu amigo Lourenço, que aloja os seus escritos, deixo-vos um texto delicioso. Se quiserem ler mais, visitem O Nascer do Sol ou sigam a hiperligação marcada na etiqueta Rita Faria, no fim deste postal.

As saudades que eu já tinha da minha alegre casinha, tão limpinha quanto eu… - por Rita Faria

Tenho uma amiga que diz que não gosta de casas farfalhudas. Com isto, ela quer dizer casas que estão a rebentar de coisas, a começar com o lugar-comum da Última Ceia na parede, passando talvez pelos espelhos com desenhos das quatro estações a imitar Arte Nova, a fruta de plástico inútil na mesa da cozinha, rendas e naperons e tapetes e tapetinhos a puxar ao persa ou ao turco por todo o lado, quadros de hotel a cobrir metros de parede e acabando, eventualmente, com bibelots exibidos com certo orgulho no móvel matacão das louças, com portinhas de vidro, e que tem um nome do qual não me lembro.
O que me surpreende nestas casas farfalhudas é que está sempre tudo impecavelmente limpo. Esta higiene irrepreensível contribui, na minha opinião, para tornar a casa ainda mais feia. Não é que eu goste de casa sujas, sendo que até sinto repulsa pela sujidade, como à partida qualquer ser humano, mas há algo que não me suscita o respeito que deveria suscitar na perfeição da limpeza de uma casa farfalhuda. Ver o lavatório da cozinha a reluzir de Cif, sem qualquer vestígio de utilização, ou os bibelots simetricamente dispostos sem grama de pó, ou o chão de taco a brilhar de encerado, ou a mesa da sala sem sinal de revistas desarrumadas, com um cinzeiro estrategicamente colocado e estrategicamente limpo, ou as garrafas do bar dispostas por tamanhos e em filinha no pequeno balcão a reluzir, tudo isto, não sei, faz-me impressão, acho foleiro, acho que ficava tudo muito melhor com uma camadinha de pó, com uns quantos pratos empilhados no lava-louça, com cinza no cinzeiro, com bibelots partidos e ainda bem porque assim vão para o lixo, com um jornal enxovalhado no sofá, etc.
Até ler o Lobo das Estepes, eu não percebia bem porque é que não gostava da limpeza irritante das casas farfalhudas, quando semelhante limpeza deveria ser um objectivo a atingir e não um defeito. No entanto, no livro que referi, há uma parte em que o Lobo está sentado nas escadas do prédio onde vive, à porta da casa (ou do quarto, não me lembro bem) de uma viúva. Está com um ar satisfeito, e o narrador, que o encontra, não percebe bem a razão de se estar ali sem fazer nada, de modo que é isso que pergunta ao Lobo. Este responde que está ali a apreciar a beleza da limpeza pequeno-burguesa. A viúva que vivia naquela casa cuidava da mesma até mais não poder, limpava tudo todos os dias, enchia o pequeno lance de escadas de higiene e terebentina (e talvez até de umas quantas plantas, mas já não me lembro se este pormenor estava no livro ou se sou eu a inventar, porque encher os lances de escadas de plantas também é farfalhudo) e o Lobo (e eu, acrescento) gostava disso, dessa pertença a alguma coisa, do conforto da higiene burguesa, dessa limpeza pequenina que vem com o desejo de uma vidinha certinha, de uma casinha, de uma tranquilidadezinha que ele não tinha, e que também não era bem o que ele queria, mas se calhar até era (ou, talvez, o que ele queria era conseguir querer a tal limpeza pequeno-burguesa, se é que isto faz sentido).
A limpeza pequeno-burguesa foi uma ideia que me ficou, indelével, depois de ler o Lobo das Estepes. É apenas um pormenor, no livro e nas nossas vidas, mas tão verdadeiro e tão reconhecível que nunca o esqueci, talvez porque já observei esta higiene burguesa, pequenina e confortavelzinha, tantas vezes, em tantas casas.
Não quero com isto dizer que a minha casa seja suja. Pelo contrário, eu até limpo a minha casa com toda a razoabilidade. Não sei é se o cheiro da terebentina farfalhuda lá está. Espero que não, mas, se estiver, também não é assim tão mau.

Etiquetas:

posted by LB at Quarta-feira, Setembro 10, 2008 links to this post

19 setembro 2008

o que torna o homem livre

Compreendes por que razão se lhes chama «estudos liberais»: porque são dignos de um homem livre. No entanto, o único estudo verdadeiramente liberal é o que torna o homem livre; e esse é o estudo - elevado, enérgico, magnânimo - da sabedoria; os outros são brincadeiras de crianças!
(...)
A divisão das sílabas, a observação dos significados, o conhecimento dos temas mitológicos, as leis e variações de versos - em que é que isto contribui para nos livrar do medo, nos libertar do desejo, nos refrear as paixões? Passemos à geometria e à música: nelas nada encontrarás que nos impeça de sentir receios ou desejos. E quem não adquirir estes conhecimentos essenciais não ganha nada em adquirir outros!

Séneca, Cartas a Lucílio, 88, 3-4. Tradução de J. A. Segurado Campos. mais por este blogue.

17 setembro 2008

Complexo de Electra

É daqui que vem o complexo de Electra, se bem que sempre tenha considerado o mito um bocadinho esticado, até porque nem é ela que mata a mãe (contrariamente a Édipo, que mata o pai). Na verdade, foi um complexo que não vingou.

ORESTES
(depois de se revelar à irmã, que desejava encontrá-lo, depois da mãe, Clitemnestra, ter matado o pai, Agamémnon)
Mas domina-te, não deixes que a alegria perturbe o teu espírito. Sei bem que os que mais nos deviam amar são precisamente os que nos odeiam.

ELECTRA
(...) Ó doce visão, que quadruplicaste o meu amor, a necessidade me impele a saudar-te como a um pai e em ti se concentra o amor que devia dedicar a minha mãe - com toda a justiça por mim odiada! - e a minha irmã, imolada sem piedade. Tu és o irmão fiel, que me restitui o respeito de todos. Que a Força e a Justiça, associadas ao soberano Zeus, me prestem o seu auxílio!

Ésquilo, Coéforas, vv. 232-245. Tradução de Manuel de Oliveira Pulquério, incluído na Oresteia publicado por Edições 70.

15 setembro 2008

fragmentos...


Comprei este livro. Já saíu em Abril, numa edição da INCM e em tradução de Carlos Martins de Jesus, mas só agora veio parar à minha mão. Ao procurar a imagem do livro, encontrei-a aqui, acompanhada de uma grande crítica, o que me dispensa de o fazer.

Enquanto lia Arquíloco, lembrei-me da graça que acho a fragmentos. E admiro quem consegue, de breves linhas, por vezes muito truncadas, retirar algum sentido.

Há muitos anos, ao ler os Poemas e Fragmentos de Safo, por Eugénio de Andrade, encontrei um dístico lindíssimo:

Pudesse esta noite durar
não uma mas duas noites inteiras

Quando procurei o texto grego (fragmento 197, L.-P.) , encontrei o que se segue, escrito por Libânio:

Se ninguém impediu Safo, de Lesbos, de dirigir uma prece à noite para que, para si, durasse duas vezes, também a mim seja possível fazer um pedido semelhante.

Alguém, desavisado, ao ver um livro de fragmentos, pode imaginar que isso é o resultado da tradução de pedacinhos de manuscritos encontrados em qualquer extraordinária escavação. Como este exemplo mostra, Libânio é do séc. IV e o que temos dele é uma citação, de memória, provavelmente, de algo que lera ou que ouvira dizer que Safo, uns 900 anos antes, dissera...

Através de citações que outros nos trouxeram, vamos podendo recompor o que teria sido a obra de este ou de aquele poeta.
Ler fragmentos é, de facto, um trabalho que exige muito conhecimento do que se tem escrito ao longo dos séculos, mas, também, muita imaginação.

14 setembro 2008

Las islas del mediodía/ As ilhas do meio-dia


Aquí hallarás resguardo en la tormenta,

fruto en sus vaguadas y alivio a tu dolor.

Sin embargo échate al mar
apenas la calma lo permita.
Aléjate.
Que la tierra que una vez te cobijó
no vuelva al cabo su brazo contra ti.

___________________________

Aqui acharás abrigo na tormenta,
frutos no fundo dos vales e alívio para a tua dor.

No entanto retorna ao mar
logo que a calma o permita.
Distancia-te.
Que a terra que uma vez te cobiçou
não volte mais tarde o seu braço contra ti.

Manuel Moya

Tradução de Rui Costa
Edição bilingue
Livrododia Editores, Torres Vedras, 2008

13 setembro 2008

Hoje, à noite, em Faro...

... vou à livraria Pátio de letras. Gostei do livro de poesia do Pedro Afonso. Nunca li nada de Manuel Moya, mas conheço o Fernando Cabrita e é sempre um prazer ouvir o que tem para dizer.

11 setembro 2008

2 anos

(foto tirada pela Teresap)

À nossa!
A Senhora Sócrates faz hoje dois anos.
Passei por diversas fases, como quase todos os que mantêm um blogue: pelo entusiasmo, pelo cansaço, pela assunção.
Gosto de vir a este meu canto e receber os convidados. Às vezes falo pouco (coisa só possível na internet, dirão alguns amigos), mas gosto muito de ler o que dizem aqui e nos seus próprios cantos (que vou ver sempre que posso, apesar de pouco comentar).
Alguns dos meus visitantes já me conheciam pessoalmente, outros vim a encontrar por causa deste blogue. É a vida a acontecer, porque virtual não significa irreal.
Obrigada a todos!

08 setembro 2008

«Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto»

Às voltas com as arrumações, abriu-se esta dedicatória nas primeiras três páginas do livro que a minha sobrinha R., que eu adoro, me ofereceu num dia do meu aniversário, há muitos anos atrás:


Querida Tia (A Tia):

É a primeira prenda que te ofereço em dezanove anos, de modo que a responsabilidade que fulmina os meus frágeis ombros é demasiada!
De qualquer modo, momentos solenes (e felizes) nunca se desperdiçam, por isso vou dar o meu melhor na minha (também) primeira dedicatória que te escrevo.
Este livro é a condensação da desilusão do português suave. Senti o cinzento da melancolia de Lisboa que há tanto tempo esqueceu o que é ser a sede do V Império, a monotonia quer do cidadão comum que sabe que não consegue raiar a mediania, quer do pretenso revolucionário apenas acalentado pelos sonhos da revolta, mas sufocado pela realidade da rotina.
E há ainda a mediocridade arrogante da Elsa Galvão, a personificação de tantos e tantos compatriotas que manipulam subrepticiamente o nosso quotidiano.
Gostei do sarcasmo e da ironia, da auto-crítica despida do barroco que o constatar da decadência acarreta sempre.
Acima de tudo, gostei e espero que gostes.
Despeço-me, finalmente, porque já me alonguei demais. Nem devo ter dito nada do que ensejava, mas pelo menos, se fui eu que escrevi, alguma coisa esta dedicatória há-de ter de mim. Deve ter muito, considerando que a escrevo para ti.

P.S. É sempre bom trocarmos umas ideias sobre todos os assuntos! (Toda a gente se esquece disso!)

P.S.2: Desculpa ter utilizado tantos pontos de exclamação. Cada vez que uso um lembro-me sempre do insuperável Adrian Mole que, ao receber uma carta de amor de uma rapariga que não corresponde aos seus elevados parâmetros intelectuais, afirma peremptoriamente que não seria capaz de casar com alguém que recorresse tão frequentemente e indiscriminadamente às exclamações.
Apesar de tudo, tal afirmação permaneceu na minha memória e, inexplicavelmente, não posso deixar de pensar que ele tem alguma razão! (Ah! Ah!)

06 setembro 2008

Chove

Chove muito, chove excessivamente...
Chove e de vez em quando faz um vento frio...

Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.


N'um dia no meu futuro em que chova assim tambem
E eu, á janella, de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah n'esse tempo eu era mais feliz»

Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!

Ah, meu Deus, eu que pensarei d'este dia n'esse dia

E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste

E ha uma grande duvida de chumbo no meu coração...


Álvaro de Campos

[57A-74r] Manuscrito de 20/11/1914. Edição crítica de Teresa Rita Lopes, editada pela editorial estampa em 1993 ( a minha edição é de 97, mas deveria chamar-se reimpressão...)

(imagem daqui)

05 setembro 2008

blogues bloqueados em bibliotecas

(foto daqui)

Li neste blogue, que muito aprecio e prezo, que na Biblioteca de Faro não se podia consultar blogues à vontade. Não se pode. Nem ali nem noutros locais, como na «minha» Universidade. Quase todos estes sítios públicos que têm jovens (e crianças, no caso da biblioteca) como utilizadores têm instalado um filtro que barra o acesso a sites com conteúdos associados a pornografia. Ora, ao encontrar algumas palavras consideradas obscenas, bloqueia. Isto chega ao caricato: sei de um caso de um colega de Latim que, ao colocar no blogue que criara para a sua disciplina um texto em que entrava o verbo latino puto, putas, putare, putaui, putatum (que significa «julgar, considerar»), foi bloqueado.
O mesmo se passa nesses lugares (onde este blogue, por causa do exemplo acima, ainda vai ser de acesso proibido, eheheh).
Mas, pelo que sei, qualquer utilizador pode pedir que determinado endereço seja desbloqueado, o que geralmente acontece, pois as direcções sabem que aqueles filtros são genéricos e que impedem o acesso a muitos sítios que não têm nada de impróprio. Aliás, na Biblioteca António Ramos Rosa (dita «de Faro») aparece a frase: «Se considerar que, neste caso, os conteúdos são didáctico-informativos, pode fazer um pedido de desbloqueio de página neste formulário».
Fulanizando a situação, a ideia que tenho da directora da Biblioteca de Faro é a de uma pessoa que, se não faz mais pela cultura é porque não pode.

04 setembro 2008

Foi quase como dizer: «Ó Sócrates, desculpa a franqueza, mas és feio»


Muitos homens têm a mania de dizer que não sabem apreciar outros homens. Sabem, pois. Vejam só o que diz Teodoro a Sócrates sobre o jovem Teeteto:


Se fosse bonito, teria bastante receio em afirmá-lo, para que não parecesse que estava apaixonado por ele. Agora, na realidade - e não te aborreças comigo -, não é bonito, pois é parecido contigo pela forma achatada do nariz e pelos olhos salientes; só que tem estes traços mais suaves do que tu. Estou a falar à vontade.

Platão, Teeteto, 143e.

03 setembro 2008

locus memoriae


Gosto de edifícios espelhados. Chamem-me provinciana, mas desde que vi, na então Berlim Leste, um antigo edifício (penso que era uma igreja) reflectido no vidro de uma construção moderna (tenho a foto algures), passei a ser fã.
Gostei do Centro Cultural Gil Vicente, no Sardoal.

(A foto de cima foi tirada no castelo de Abrantes)

02 setembro 2008

¡Mira! ¡Ya estoy navegando!

Pois é! A simpatia e eficácia do Nuno Mira, com o apoio da Liliana, ambos empenhados em ajudar-me a pôr isto a funcionar, conseguiram que a minha internet melhorasse significativamente. Parece que o problema era do cartão SIM e de não-sei-quê da rede... enfim, penso que tudo esteja bem, mas não sei se isso chega para que eu me mantenha cliente da TMN. Estão a ser problemas a mais.
Mas valeu a pena ir à loja. Enquanto o assunto não se resolvia, tive uma conversa excelente com o Nuno e com o Carlos (que ali estava para ser atendido), da United Press Photo, que se ofereceu para lavar a cara a este blogue. Quando acontecer, verão e poderão dar a vossa opinião.
Até lá, continua verdinho.

01 setembro 2008

prémios literários

- Doscientas mil pesetas por ir y venir a Madrid. Allí asistirá a una cena donde se concede un premio literario. Si una vez allí acepta el trabajo habrá pasta gansa.
- Pagada la cena?
- Hosti, jefe. Claro.
- Menú.
Pero no, no valía la pena pedir el menú de una cena donde se concede un premio literario. En esas circunstancias la gastronomía es lo de menos y sería una grosería que la cena fuera más buena que la obra premiada.

Manuel Vásquez Montalbán, El premio, Planeta 2005, p.63

(Nota: continuo sem net em casa...)

31 agosto 2008

ausência forçada...

... da blogosfera nos últimos dias.
Infelizmente, parece que, além de ter má transmissão de dados, estarei com problemas com a placa ou o modem. É o que me dizem da TMN e até já tenho «consulta» marcada numa loja (há lojas assim, só com marcação antecipada). Entretanto, nada de conseguir aceder através do meu computador. Como isso perturba o meu trabalho!
Enfim, quanto a ver resolvido o problema do valor cobrado indevidamente, parece que ainda terei de esperar. Darei notícias aqui de como ficou resolvida a questão.
Até lá, vou tentando ler e escrever de computadores alheios.

26 agosto 2008

De férias aqui...

... longe de casa... longe de livros e computadores... (bem... mais ou menos... eheheh)... longe de gatos... longe de cães...
Às vezes sabe bem afastarmo-nos do que amamos.

24 agosto 2008

certeza

... não é o que gostas, mas ainda assim espero por ti sem hesitar.

(Anacreonte, Fragmentos elegíacos 1. Tradução minha).

23 agosto 2008

Da natureza dos homens (bons)

Os Gregos (e os Romanos também - veja-se César, descendente de Vénus) gostavam de apresentar um deus na origem da sua família. Heródoto conta-nos esta lição dada pelos sacerdotes egípcios, sobre a natureza humana dos... homens:

«trezentas gerações correspondem a dez mil anos, pois três gerações equivalem a um século, e além das trezentas gerações as quarenta e uma restantes correspondem a mil trezentos e quarenta anos.

Então, durante esse período de onze mil e trezentos e quarenta anos, dizem os sacerdotes, não houve rei algum que fosse um deus sob forma humana, nem aconteceu isso antes ou depois desse período entre os restantes reis dos egípcios.

O historiador Hecateu esteve antes de mim em Tebas, onde traçou para si mesmo uma genealogia que vinculava sua linhagem a um deus na décima sexta geração de seus antepassados.

Mas os sacerdotes de Zeus fizeram para ele o mesmo que fizeram para mim, que não lhes havia apresentado a minha genealogia. Eles me levaram ao grande pátio interno do templo e lá me mostraram estátuas colossais de madeira, contando-as até o número que já me haviam dado, pois cada sumo-sacerdote deixa lá enquanto vivo um estátua sua; contando-as e apontando para elas, os sacerdotes mostraram que cada um deles herdou a função sacerdotal de seu pai, e começando pela estátua do último sacerdote morto eles me fizeram passar diante de todas as estátuas.

Então, quando Hecateu traçou sua genealogia e reivindicou para seu décimo sexto antepassado a condição de deus, os sacerdotes também traçaram uma genealogia de acordo com o seu método de computação, pois não se deixariam convencer da possibilidade de um homem descender de um deus; eles traçam a genealogia ao longo da fileira completa de trezentos e quarenta e cinco estátuas colossais, chamando-as Píromis, filho de Píromis, mas sem associá-las com qualquer antepassado, deus ou herói (píromis em língua helênica significa apenas um homem bom).

Assim eles mostraram que todas aquelas pessoas cujas estátuas se alinhavam lá haviam sido homens bons, mas estavam muito longe de ser deuses»

(texto de Herótodo daqui)

22 agosto 2008

Por hoje Nelson Évora ter feito ouvir o hino em Pequim

(imagem daqui)

Há alturas em que para os homens a maior necessidade
são os ventos; outras vezes, são as águas do céu,
chuvosas filhas das nuvens.
Mas se com esforço alguém chega a vencer,
os hinos de som de mel

constituem o início de posteriores discursos
e o fiel garante para êxitos enormes.

Sem inveja alguma este louvor é devido
aos vencedores olímpicos.


Píndaro, Ode Olímpica XI, in Poesia Grega, Cotovia, 2006, em tradução de Frederico Lourenço.

20 agosto 2008

As Bacas

Esta peça de Eurípides que a Charlotte seleccionou como leitura para as férias fez-me lembrar a questão da tradução dos títulos. Fala-se muito dos títulos de filmes e livros modernos e contemporâneos mas poucas vezes dos clássicos. Claro que isto tem razão de ser: séculos de tradição de tradução; poucas edições portuguesas de alguns títulos potencialmente mais polémicos; títulos simples atribuídos a posteriori (nomes de pessoas ou lugares, por exemplo).
Há uns meses conversava com um colega da U. Coimbra sobre a tradução que ele iria fazer do nome de uma comédia de Plauto intitulada Poenulus. Em inglês aparece como The Little Carthaginian, The Young Carthaginian, The Puny Punic. Das várias hipóteses por ele levantadas, a que mais me agradou (e divertiu pela sonoridade conseguida) é O Punicozinho.
Não sei se será esta a eleita aquando da publicação...
Voltando à tragédia de Eurípides, o nome pelo qual é conhecida é As Bacantes. Já foi várias vezes representada (vi-a há 13 anos - confirmei agora - na Gulbenkian, no anfiteatro ao ar livre, pela Escola de Mulheres) e traduzida em muitas línguas. O nome que lhe damos vem, como quase todos, através do latim, e do radical bacchant- chegamos a bacante.
Ora como o nome grego é, de facto, Βακχαι (Bacchai), o tradutor brasileiro, Jaa Torrano, optou pela forma transliterada e chamou-lhe Bacas.
Sei que não devia, mas não consigo deixar de me rir.

19 agosto 2008

As coisas são como são

A minha amiga Teresa Perdigão, antropóloga, criou, finalmente um blogue. Depois de lhe ter xingado a cabeça (como diria a minha avó brasileira) para que o fizesse, decidiu-se a apresentar-nos o As coisas são como são.
Passem por lá e leiam-na!

18 agosto 2008

Pátio de Letras

Fui, finalmente, à nova livraria de Faro, a Pátio de Letras.
É uma loja bonita, com um pátio confortável que separa o espaço onde se vendem os livros de um espaço - uma casa antiga - onde de podem ver exposições (neste momento está um de Sonia Cabañas e uma, que me pareceu particular, de livros de espionagem e policiais). Enquanto o bar não abre, está disponível uma máquina de bebidas e comidas.
Associado a este projecto está a editora Mundo em Gavetas, que já ali lançou um livro de um dos sócios da livraria, José António Barreiros. Não comprei e não li, mas ao folhear fiquei com pena que o aspecto gráfico estivesse descuidado (mancha gráfica pouco agradável, parágrafos desformatados e desiguais na abertura, margens reduzidas, por exemplo), tratamento que as ilustrações de Abel Baptista e, certamente, o texto não mereciam.
A livraria ainda está a crescer e cada vez tem mais editoras representadas. Ah, e tem um horário maravilhoso: está aberta TODOS os dias, das 10h até às 20h (segundas e terças), 21h (quartas, quintas e domingos) ou 23h (sextas e sábados).
Vamos ver se entre idas e vindas de casa para a Faculdade irei passar por lá mais vezes.

17 agosto 2008

má rede

A minha rede (TMN) tem estado péssima. Aliás, estou só à espera que o ano de fidelização chegue ao fim para cancelar de vez a ligação a esta empresa. Cobraram-me mais de 200 euros (tinha débito directo - que entretanto cancelei) referentes ao mês de Maio, dizendo que ultrapassei os gigas contratados. Logo eu que tenho sempre uma péssima ligação, que não faço downloads, que quase sempre os débitos de recepção estão a 0,00Kbps e os de transferência idem (como agora, o que me impede de vir aqui num instantinho e postar: ou tenho tudo escrito antes ou não tenho hipótese).
Os que me atendem dizem que outros me irão contactar por causa da minha reclamação, que se baseia no facto de não ter sido avisada que tinha atingido 90% do tecto gratuito e de própria TMN ter confirmado isso mesmo. Se não avisaram é porque não atingi. Ou atingi e tinham de ter avisado (aquilo são alertas automáticos, imagino. Não há-de ser uma pessoa que tem um grande mapa com os milhares de utilizadores da TMN e que diz «Olha! A Adriana atingiu 90%! Vou ter de a avisar!» e que depois se esquece).
Enfim, venho aqui sempre a correr para ver o correio e ler alguns blogues no pouco tempo que tenho até ficar sem rede. Sempre que puder, colocarei qualquer coisinha. Vamos ver quantas horas este postal vai demorar a ser publicado!

12 agosto 2008

outra carta de amor (das muito, muito antigas)


Caio Plínio saúda a sua Calpúrnia


É incrível o desejo que tenho de estar contigo.
Primeiro, porque te amo, depois, porque não estamos acostumados a estar separados. Daí que passe acordado grande parte das noites a pensar em ti; daí que, durante o dia, naquelas horas em que costumava visitar-te, os meus pés - como se costuma, na verdade, dizer - me conduzam para o teu quarto. Por fim, doente e triste, semelhante a um abandonado, afasto-me do quarto vazio.
O único tempo em que estou livre destes tormentos é quando sou absorvido pelos processos e pelos amigos no fórum.
Avalia como é a minha vida, na qual o descanso está no trabalho e a distracção está na infelicidade e nas preocupações.
Adeus

10 agosto 2008

amor e prazer no casamento (há uns 2000 anos)


Caio Plínio saúda a sua mulher (Calpúrnia)


Escreves que sofres muito com a minha ausência e que tens uma única consolação, que é segurar nos meus livros em vez de mim e que, muitas vezes, os colocas no meu lugar.
Gosto que sintas a nossa falta, gosto que encontres essas consolações; eu também leio muitas vezes as tuas cartas e agarro-as nas mãos continuamente como se fossem novas. Mas com isto ainda sou mais inflamado de desejo por ti, pois quanto mais doçura as tuas cartas têm, mais o prazer que tenho nas tuas palavras em presença.
De qualquer maneira, escreve tanto quanto possas, embora isso me dê prazer do mesmo modo que me tortura.
Adeus

08 agosto 2008

Ontem, em Faro

Ontem estive na Feira do Livro de Faro e foi uma tristeza.
Afinal o encontro de autores não foi no pavilhão da Sulscrito, mas no da Câmara Municipal. Os escritores (sete) estavam sentados dentro do pavilhão e os espectadores do lado de fora, em pé. Como seria de esperar, poucos ficaram parados uma hora. Iam circulando pelos pavilhões da feira, foram ao café, e os que paravam (como eu) ficavam com a sensação de estarem a olhar para uma exposição ou para um quadro, juntamente com meia dúzia de pessoas como eles. Nem uma cadeirinha para os interessados em ouvir o que aqueles homens (nenhuma mulher a sul?) tinham para contar. Ainda por cima, três deles eram espanhóis, o que obrigava a maior concentração.
Enfim, salvou-se a noite com a presença de António Manuel Venda, que foi quem me levou lá, e de Pedro Afonso, um antigo aluno meu que estava no grupo como jovem poeta (acabou de sair o seu primeiro livro), que animou bastante quando chegou a sua vez de falar. Levantou-se, explicou que estávamos todos na mesma margem e desenvolveu a velha metáfora do rio como o espaço da escrita de uma forma fresca, como me pareceu ser também a sua poesia.
De António Manuel Venda obtive os autógrafos para os meus/seus livros e dois dedos de conversa, daqueles rápidos de quem tecla, que havia mais quem o quisesse, mas ainda teve tempo para me dizer que deve sair um novo livro em Setembro.
Soube, entretanto, que abriu uma nova livraria em Faro, Pátio de Letras, com bar, horário alargado e happy hour de livros. Hei-de ir lá em breve.

06 agosto 2008

As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira

Dou-te uma aldeia irreal onde tudo é possível: que as árvores falem com as plantas e os animais chorem mostrando aos homens que não é vergonha chorar.
Tudo o resto, deixo-te a liberdade de inventar.
Desejo que vivas sempre nesta aldeia.
(Maio 1982)

(dedicatória que me escreveram no livro)

04 agosto 2008

Novo João!

Sou tia-avó!
Este meu sobrinho foi pai ontem!
Tivesse eu como, oferecia este berço.
Parabéns ao João e à Mafalda!

455

Este blogue, que tem uma média de 100 visitas diárias, teve 455 no dia 1, na sua maioria vindas pelo Corta-fitas. Já antes Pedro Correia me tinha destacado. Desta vez foi Luís Naves que me colocou como blogue semana. Muito obrigada pelas simpáticas palavras com que descreveu este blogue.
Espero que alguns dos que aqui passaram por curiosidade se venham a tornar visitas da casa. São todos bem-vindos.

03 agosto 2008

Queria dar gritos de raiva e só consigo murmurar.
Queria morder e, em lugar disso, a minha boca apenas aflora.
Queria esfacelar e, na realidade, acaricio.
Em contrapartida, gostava muito de andar devagar e sou permanentemente obrigado a correr.

Sempé, Alguns Filósofos, Publicações Dom Quixote (na velhinha colecção «Humor com humor se paga»), 1985.

01 agosto 2008

se a tanto me ajudar o engenho e a... dor


(...) és transportado pelas velas do engenho ao mesmo tempo que pela dor; e cada um destes foi a ajuda um do outro. Pois o engenho acrescenta dignidade e magnificência à dor e a dor acrescentou força e amargura ao engenho.


(Carta 20 de Plínio a seu amigo Nóvio Máximo, a propósito de um livro que este escrevera . Tradução minha. Ler outras cartas aqui e aqui.)

31 julho 2008

carpe diem


Mesmo no meio dos males, concedei à vossa alma o prazer possível em cada dia, já que aos mortos de nada serve a riqueza.


Espectro de Dario em Os Persas, v. 840-43, de Ésquilo, em tradução de Manuel de Oliveira Pulquério.

30 julho 2008

Questões de Moral ou Joel Costa

Questões de Moral é o programa mais divertido da Antena 2. Há muitos anos que o oiço e tenho de confessar que até me emocionei quando um dia vi, finalmente, o Joel Costa. Foi na televisão, não ao vivo, mas deu para experimentar aquela sensação especial de ver o rosto de uma voz que nos é tão familiar.
Joel Costa pensa sobre muitos assuntos. Por vezes não concordamos, mas em questões de moral duvido que possa haver sempre consenso. Discuto com ele e, como bom ouvinte que é, deixa-me sempre ficar com a última palavra.
A voz de Joel Costa é... molhada. Enquanto ouvia o último programa, fui tentando encontrar formas de descrever aquela voz: é molhada e irónica. Diverte-me muito.
E como gosto do que me diverte, segunda-feira às 13h, às 23h ou na internet, procuro não deixar de o ouvir.
No ano passado descobri o seu último livro, O Assassino de Salazar. Li-o de uma assentada, mas toda a narração tinha aquela voz, aquela inflexão irónica, aquele baixar de tom em algumas palavras que ele costuma fazer, que até parecia que tinha o autor a ler só para mim. Misteriosamente, li o livro com a voz de Joel Costa.

29 julho 2008

Thíasos

O grupo de teatro clássico Thíasos, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra faz 15 anos e eu sou tão vetusta que até sou do tempo em que não havia Thíasos!
Lembro-me de algumas das primeiras representações dos jovens estudantes Delfim Leão e José Luís Brandão (que me perdoem os outros, mas as actuações destes dois ficaram na memória) que abrilhantaram os serões culturais dos colóquios da antiguidade clássica a que tive a oportunidade de assistir.
Hoje são professores da Universidade de Coimbra e congratulo-me por ver que os espírito galhofeiro e brincalhão que neles se manifestava através das personagens interpretadas em nada ensombrou a seriedade e dignidade com que foram construindo as suas carreiras.
Sinto-me orgulhosa por, de vez em quando, ser iluminada com um pedacinho do brilho que dali vem.
Parabéns a todos!

26 julho 2008

Arte cicládica

(foto daqui)
Olho o meu saco de pano, daqueles que uso para ir ao supermercado para não trazer os de plástico, e leio, em grego e em inglês, «Museum of Cycladic Art - Nicholas P. Goulandris Foundation».
Tenho de ver se encontro, durante as arrumações, a estatueta que comprei na lojinha do museu.
A arte cicládica é uma das formas de arte grega que mais me agrada pela simplicidade, pela austeridade, pela contenção das expressões religiosas, pela singeleza dos votos oferecidos aos deuses.
A ausência de grandes decorações e as formas minimalistas permitiam-me brincar com alguns amigos e perguntar-lhes de que época pensavam que eram aquelas estátuas. Contemporâneas, era a resposta. Que tinham cinco mil anos, esclarecia eu.

(foto daqui)

(foto daqui)

24 julho 2008

Escolha

O que é preferível?

Estar presa, em pouco espaço, mas ter quem esteja connosco

ou
livre, com espaço, mas sozinha?



Não sei o que a minha Natacha preferirá nos próximos 3 dias: que a leve para outro lugar, onde vai estar acorrentada, ou que a deixe aqui no quintal e ter alguém que a venha alimentar, mas que não lhe fará muita companhia.
Aceito conselhos de mais sabedores de como tratar um cão.

23 julho 2008

Curiosidade: herança de Pandora?

(imagem daqui)

Prediction of the time and manner of death was one of the most important activities of the ancient astrologer, though it was illegal.

(Tamsyn BARTON (1994), Ancient Astrology, Routledge)

22 julho 2008

O primeiro jantar...

...deliciosamente improvisado, sob a protecção de um «anjo» da Bairrada, tinto, de 1991...

21 julho 2008

chorar um homem


É na escuridão, Gala, que choras o marido que perdeste:

creio que tens é vergonha , Gala, de chorar um homem.

Marcial, IV, 58. Esta tradução.

19 julho 2008

Beleza madura



Não me agrada casar com uma virgem nem com uma velha.

A uma lastimo-a; à outra respeito-a.
Nem bago verde nem passa de uva. A beleza sazonada
é que está madura para o leito de Cípris.

Onestes, nesta tradução da Antologia Palatina

18 julho 2008

A propósito da minha lombalgia

Tendo prometido a Diodoro que lhe endireitava a corcunda,
Socles colocou três enormes pedras quadradas sobre a saliência da sua espinha dorsal. Diodoro morreu em consequência da pressão, mas ficou mais direito que uma tábua.

Nicarco, nesta tradução da Antologia Palatina.

17 julho 2008

Amizade

a amizade tem de ser mais branda, e mais livre, e mais doce, e mais inclinada a toda a gentileza e afabilidade.

Cícero, A Amizade,18, 66. A mesma referência.

16 julho 2008

Limerick caseiro

Tenho uma amiga em Limerick . Isso fez-me pensar nos limericks que, noutra vida, costuma fazer e de como nos ríamos com as parvoíces que saíam. Não resisti a deixar-me levar e saiu este assim:

There's a house in a place I know
When I first saw it I said wow
I fell in love and bought it
' didn' think much about it
And now to pay it I say wow

15 julho 2008

Que inveja!

O meu dia de hoje pertence-me, ninguém me roubou um bocadinho que fosse: todo ele foi dividido entre o leito e a leitura.

Séneca, Cartas a Lucílio, 83.3. A referência do costume.

14 julho 2008

«É preciso ter lata!» ou «Os pais não têm de morrer pelos filhos»

Foi isto que achei de Admeto, o rei de que vos falei aqui. Aliás, esta tragédia de Eurípides tem momentos de muito humor.
E lata porquê? Porque, na tentativa de convencer alguém a morrer em sua vez, usa argumentos que... só mesmo com muita lata! Acha que os pais são velhos e que deviam ir primeiro que ele, além de que, trocarem com o filho, seria prova de amor!
Eurípides é conhecido por ter aprendido bem com os sofistas, mas tal como monta os argumentos de Admeto, desmonta-os na personagem de seu pai.
Vejamos. Admeto aceita que a mulher morra por ele e depois chora a sua morte (é preciso ter lata!). Quando o pai vem prestar as honras fúnebres à nora, Admeto insurge-se:

ADMETO:
Não foste convidado por mim para este funeral nem considero a tua presença como a de um amigo. (...) Devias compadecer-te de mim quando eu estava perdido. Mas mantiveste-te longe e permitiste que outra pessoa, que era jovem, morresse, tu, um homem já velho. E lamentas agora este cadáver? Não eras tu, na verdade, o pai deste meu corpo? E aquela que se diz e é chamada minha mãe não me deu ela à luz? (...) não me considero teu filho. Ou, então, a todos excedes em cobardia, tu, que, sendo de idade avançada, chegado já ao termo da vida, não desejaste nem ousaste morrer pelo teu filho, deixando esse cuidado a uma mulher estrangeira, a única que eu poderei com justiça considerar como minha mãe e meu pai.
E, no entanto, seria uma bela prova que tu disputarias, morrendo pelo teu próprio filho, quando era já tão curto o tempo que te restava para viver. (...)
Foi esta a recompensa que que de vós recebi, de ti e daquela que me deu à luz. (...) Não serei eu que te sepultarei com a minha mãe. Para ti estou morto (...).

FERES
Ó filho, quem julgas tu, na tua insolência, que estás a atacar com as tuas injúrias? Um Lídio ou um Frígio comprados com o teu dinheiro? Não sabes que sou tessálio, filho de pai tessálio e livre por nascimento? (...) Gerei-te e criei-te para seres senhor deste palácio, mas não tenho obrigação de morrer por ti. Não recebi dos antepassados, nem é grega essa lei de que os pais devem morrer pelos filhos. Feliz ou infeliz, é para ti que nasceste. O que devias receber de mim já o possuis. És chefe de muitos homens e deixar-te-ei terras de muitas jeiras que recebi de meu pai. Em quê, pois, te causei dano? De que te privo eu?
Não morras por mim, que eu não morrerei por ti. Regozijas-te de ver a luz? E pensas que o teu pai não tem o mesmo direito? Imagino como será longo o tempo debaixo da terra, e a vida é breve, mas agradável.

Entretanto tu, sem pudor, lutaste para não morrer e estás vivo: escapaste à sorte imposta pelo destino, matando-a a ela. E falas da minha cobardia, ó celerado, quando afinal tu te deixaste vencer por uma mulher que morreu por ti, por um jovem lindo como tu? Descobriste uma boa maneira de nunca morrer, se persuadires sempre a mulher que tiveres na ocasião a morrer por ti.
E agora vens insultar os teus por não quererem fazer isso, quando tu próprio não passas de um cobarde?
Cala-te e pensa que, se tens amor à vida, os outros também têm; e se continuas a dirigir-me palavras desagradáveis, vais ouvir muitas do mesmo género, e merecidas.

E não é que Admeto não admite (desculpem o trocadilho) que está errado e continua a argumentar com o pai? Leiam, leiam e irritem-se, como eu. Há gente cá com uma lata!

13 julho 2008

ser corajoso

É claro, ó Laques, que eu não vou chamar corajoso nem a um animal nem a qualquer outro ser que, por falta de entendimento, não receie aquilo que é perigoso. Chamo-lhe temerário e louco. Ou também julgas que chamo corajoso às crianças em geral, as quais, por falta de entendimento, nada temem? Pois, para mim, temerário e corajoso não são a mesma coisa. Segundo penso, muito poucos possuem a coragem e a previdência. O arrojo, porém, a audácia e a temeridade, a par da imprevidência, são partilhadas por muitíssimos homens, mulheres, crianças e animais. A esses, pois, que tu e a maioria chamam corajosos, eu chamo arrojados, e chamo corajosos aos dotados de senso.

Diz o general Nícias no diálogo Laques (197a-b), em tradução de Francisco de Oliveira. A minha edição é no INIC,1987, mas há uma reedição nas Edições 70, de 2007.

11 julho 2008

Características dos Americanos

Encontrei o material que me foi fornecido quando fui para os EUA: Living in the United States. A Handbook for Visiting Fulbright Scholars. Lembro-me de me ter impressionado com a clareza com que apresentavam as situações para as quais nos alertava. A maior parte destas informações confirmaram-se verdadeiras e, além de me terem ajudado bastante na integração, também foram causa de muitas gargalhadas quando me punha a observar os italianos que queriam ver, na prática, se era verdade que os americanos não gostavam de ser tocados. Era o italiano a dar um passo em frente e o americano um passo atrás!

Os meus sublinhados (que vou apresentar a negrito) começaram logo na primeira página (p. 7, porque depois dos índices):

A. Characteristics of Americans
(...)
Americans appear open and friendly at firts meeting, but this means only that they are pleased to make your acquaintance; it may or may not lead to true friendship. (...)
Americans tend to stand at least an arm lenght apart when conversing and are not inclined to touch one another, except to shake hands upon greeting one another. (...)
They view punctuality as a virtue, especially in professional life. In fact, Americans often seem to be in a hurry since «time is money». They are materialistic on the whole, but generous as well.
By and large, differences are indulged, and «doing one's own thing» is held in high regard.

09 julho 2008

ser e tornar-se

E agora, quem poderá tornar-se um mau médico?
É óbvio que, em primeiro lugar, aquele que começa por ser médico, e que, em seguida, é um bom médico - esse, com efeito, poderá tornar-se mau - mas nós, os leigos em matéria de medicina, não nos poderíamos tornar nunca, por agir mal, nem médicos, nem carpinteiros, nem nada do género.
Aquele que não puder, agindo mal, tornar-se médico, é óbvio que também não poderá tornar-se um mau médico. Do mesmo modo, um homem de bem poderá, um dia, por causa da doença ou de qualquer outro azar - porque este agir mal não é mais do que ser desprovido de conhecimento - tornar-se mau, mas o homem mau nunca se tornará mau - é-o sempre!; mais, para poder vir a tornar-se mau, é preciso que antes se torne bom.


Diz Protágoras, no diálogo de Platão com o mesmo nome, traduzido por Ana Pinheiro para a Relógio d'Água, em 1999.

08 julho 2008

Gourmet

Recebi este prémio por um quiz feito pela Gi, sobre curiosidades de hábitos alimentares dos romanos.

05 julho 2008

fast food romana - à falta da ASAE...


O modo habitual dos romanos comuns obterem carne era através da compra de comida pré-cozinhada, de baixa qualidade e a baixo preço, a vendedores de rua ou em tascas e estalagens: artigos tais como morcela, paio ou salsichas.
Aparentemente os imperadores não apreciavam esta indústria de «refeições rápidas». Colocaram as estalagens sob vigilância e por vezes perseguiram-nas. Deram origem a medidas regulando a venda de carne cozinhada, de pastéis e inclusivamente (durante um período de luto público) de água quente.
Com que estavam os imperadores preocupados? O traço de puritanismo que vinha à superfície de tempos a tempos durante o período republicano teimava em persistir. As tascas estavam associadas aos jogos de azar, alguns dos quais eram proibidos, e à permissividade sexual, contra a qual os imperadores também legislaram. As inclinações classistas também podem ter sido um factor em jogo. Notamos igualmente que as estalagens eram o paradeiro ocasional de aristocratas renegados. Não é necessário acreditarmos que os imperadores estivessem preocupados com os riscos sanitários ocasionados pela carne contaminada.

Peter Garnsey, Alimentação e Sociedade na Antiguidade Clássica, Ed. Replicação, Sintra, 2002, pp.123-124

04 julho 2008

A idade do ouro

A primeira idade a surgir foi a de ouro. Sem justiceiro algum,
sem leis e de livre vontade, cultivava a lealdade e a rectidão.
Não havia castigos nem medo, nem palavras de ameaça (...)
e não havia trombeta direita, nem trompa curva de bronze,
nem capacetes, nem espadas. Sem precisão de soldados,
as gentes viviam numa ociosidade doce, livres de cuidados.
A própria terra, isenta de deveres, intocada
pela enxada,
ferida por nenhum arado, tudo dava espontaneamente. (...)
E, então, corriam rios de leite, então, rios de néctar,
e loiro mel
pingava do cimo da verdejante azinheira.

Ovídio, Metamorfoses, 89-112 (salteado). Tradução de Paulo Farmhouse Alberto para Livros Cotovia, Lisboa, 2007.

02 julho 2008

Cá para mim, a Morte é comunista...

Pilhas e mais pilhas. Encontro Eurípides e releio Alceste (tradução de Manuel de Oliveira Pulquério e Maria Alice Malça, Ed. Verbo, 1973). Tem partes mais trágicas e outras mais divertidas, mas sempre com a finura intelectual de Eurípides.
Vou deixando pedaços por aqui.

Chegou a hora de Admeto, rei de Feras, morrer, coisa que não lhe agrada. Cobra, então, do deus Apolo, uma velha dívida e este embriaga as deusas do destino para que estas aceitam que morra outra pessoa em sua vez (se alguém aceitar tal troca). Todos se negam: pai, mãe, amigos. Só a mulher, Alceste, o faz. Apolo, mais uma vez, tenta a sorte para salvar a esposa do rei, junto da Morte.

MORTE
Ah! Ah! Porque estás tu ao pé do palácio? Porque andas aqui à volta, Febo? De novo cometes injustiça, usurpando e abolindo as honras dos deuses infernais? Não te bastou impedir a morte de Admeto, enganando, com ardilosa habilidade, as Parcas? E ainda agora, com a mão armada de arco, proteges esta mulher, que prometeu libertar o marido, morrendo por ele, a filha de Pélias!

APOLO
Está tranquilo: observo a justiça e tenho boas razões.

MORTE
Então que necessidade tens de arcos, se defendes a justiça?

APOLO
Estou habituado a trazê-lo sempre comigo.

MORTE
E a vires injustamente em auxílio desta casa.

APOLO
Aflijo-me com as desgraças de um homem amigo.

MORTE
Vais despojar-me de um segundo cadáver?

APOLO
Mas o outro não to tirei pela força.

MORTE
Então como está ele sobre a terra e não debaixo dela?

APOLO
Em troca dei-te a esposa que tu agora vens buscar.

MORTE
E que vou levar para os Infernos, para debaixo da terra.

APOLO
Toma-a e vai. Não sei se serei capaz de te persuadir.

MORTE
A matar o que me pertence? É a minha função.

APOLO
Não, mas a conceder um adiamento aos que estão para morrer.

MORTE
Compreendo agora o teu pensamento e o teu desejo.

APOLO
Há então maneira de Alceste chegar à velhice?

MORTE
Não; pensa que também eu me regozijo com as honras.

APOLO
De qualquer modo não vais levar mais do que uma vida.

MORTE
Quando os homens são jovens é maior a honra que eu granjeio.

APOLO
Mas, se morrer velha, será sepultada ricamente.

MORTE
A lei que estás a promulgar, ó Febo, é a favor dos ricos.

APOLO
Como dizes? Serás acaso sofista sem que se saiba?

MORTE
Comprariam a morte na velhice, aqueles que podem.

APOLO
Não estás então decidida a conceder-me este benefício?

MORTE
Certamente que não; já conheces o meu carácter.

APOLO
Sim: odioso aos mortais e detestado pelos deuses.

MORTE
Não poderás ter tudo aquilo que não deves.

Atenção: quem não quiser saber o fim não leia daqui para a frente.
Quase no final, Hércules (Héracles, em Grego) diz-nos o que vai fazer para recuperar Alceste e devolvê-la ao marido:

HÉRACLES
(...) Irei espiar a Morte, a senhora dos mortos de negro manto, e hei-de encontrá-la, penso eu, junto do túmulo a beber o sangue das vítimas. E se eu me precipitar do meu lugar de emboscada e a apanhar, envolvê-la-ei com os meus braços e não haverá ninguém capaz de libertar os seus flancos doridos antes que me seja entregue a mulher. Mas se falhar esta presa, se ela não se aproximar da oferenda sangrenta, descerei aos Infernos, às sombrias moradas de Core e do Senhor, e farei a minha súplica. (...)

Quando a leva, finalmente, à presença de Admeto, não lhe diz que aquela mulher velada é a sua esposa e, indirectamente, conta-nos que foi a primeira hipótese que sucedeu, isto é, que foi mesmo andando à pancada com a Morte que recuperou Alceste:

HÉRACLES
(...) Chegou às minhas mãos à custa de muita fadiga. Encontrei uns homens que organizavam uns jogos públicos, digno objecto do esforço dos atletas, e destes jogos a trouxe, como prémio da vitória. Os vencedores das provas ligeiras ganhavam cavalos e os vencedores das provas mais pesadas, pugilato e luta, rebanhos de bois; para estes últimos havia o prémio suplementar de uma mulher. Ora, como eu me encontrava ali, seria desonra abandonar esta presa gloriosa. Portanto, como te disse, é a ti que confio esta mulher, que não roubei. Trago-ta, depois de a ter ganho com o meu esforço.