14 janeiro 2009

Amor sem idade

As tuas rugas, Filina, valem mais do que a seiva
de toda a juventude. E eu prefiro ter nas mãos
os teus pomos de pontas caídas
que o seio direito duma jovem na força da idade.
O teu fim de Outono é superior à primavera de qualquer outra
e o teu inverno mais quente que o seu estio.

Paulo Silenciário (Antologia Palatina, 258)
em tradução de Albano Martins, Do Mundo Grego Outro Sol, Lisboa, Asa, 2002.
Mais sobre amor em idade madura aqui.

10 janeiro 2009

Confissões de uma «juke-box» ambulante salva por uma correnteza

Hoje ganhei coragem e vim actualizar o blogue.
Isto de se estar muito tempo sem escrever é um problema: tendo deixado passar datas como o Natal e o Ano Novo sem agradecer os votos e as gentilezas que me enviaram, a vergonha de não o ter feito foi crescendo e cada dia que passava a necessidade de dizer algo que realmente merecesse a pena impunha-se com mais premência.
E o tempo a passar-se e eu cada vez com mais problemas em encontrar um assunto que me levasse a sair deste estado de falta de... nem sei bem o quê.
Pronto.
É hoje. Não é tarde nem é cedo.
E começo com uma confissão de um defeito que tenho: sou, praticamente, uma juke-box ambulante. Mas não uma juke-box com aqueles temas de que mais gosto, cantados afinadamente, postos a tocar quando nos encontramos num determinado ambiente (um daqueles em que há uma juke-box, bem entendido).
Não.
O meu defeito é muito incomodativo. Para os outros, porque, pode denotar falta de atenção ao que me dizem (o que não é verdade) e pelo desafinanço; para mim, porque me sinto ridícula. É verdade. Completamente.
O que se passa é o seguinte: uma pessoa está a falar comigo e, de vez em quando (não é sempre, vá lá), há uma palavra que diz e que funciona como a ficha que se introduz na juke-box e faz sair a canção.
Os exemplos são os mais absurdos, pois a canção que sai normalmente não tem nada a ver com o assunto de que se fala, mas acontece apenas porque uma palavra ou expressão também aí se encontra contida.
É absurdo, eu sei. E ridículo.
O que vale é que, na maior parte dos casos não verbalizo (ou seja, poupo o interlocutor ao meu canto) e isto passa despercebido.
Um exemplo:
Alguém: Bem, então adeus. Vou-me embora.
Eu (em pensamento, surge o Sérgio Godinho): «E agora eu vou-me embora, e embora a dor não queira ir já embora, agora eu vou-me embora e parto sem dor. E parto dentro de momentos, apesar de haver momentos em que a dor não parte sem dor.»

Pois é. Eu sei. Não é preciso dizer nada.

Mas então não é que recebo um desafio da Ana para fazer parte de uma corrente que apela, de algum modo, a esta minha mania? Pertence pôr aqui uma foto, mas como não estou em casa, não tenho aqui arquivos (ponho depois). O que interessa é que tenho de responder às perguntas que me fizeram com títulos de canções! Eheheheh! O sonho que realiza a minha mania! Deixou de ser um defeito e passou a ser adequado para esta corrente!
Aqui vão as respostas. Escolhi os Beatles (têm de ser de uma única banda ou cantor). E passo à minha querida sobrinha Rita, à Sara, ao Zé Bandeira e à Gi.
  1. És homem ou mulher? Girl
  2. Descreve-te. Free as a bird
  3. O que as pessoas acham de ti? "She's a Woman" e "To Know Her is to Love Her"
  4. Como descreves o teu último relacionamento? "The End"
  5. Descreve o estado actual da tua relação. "Real Love"
  6. Onde querias estar agora? "Memphis, Tennessee"
  7. O que pensas a respeito do amor? "I Want to Tell You"
  8. Como é a tua vida? "It's Only Love"
  9. O que pedirias se pudesses ter só um desejo? "Every Little Thing"
  10. Escreve uma frase sábia. "Think for Yourself"

19 dezembro 2008

Chamava-me Melusina


O meu pai tinha muita graça.
Não parecia, é verdade, pois em casa cumpria o papel que lhe havia sido reservado pelas matriarcas: o de pai. E o que era um pai? Alguém que estava fora o dia todo a trabalhar, vinha a casa às refeições, impunha respeito, fazia cumprir as regras e aplicava os castigos a pedido: «Nogueira, o menino bateu na menina» e o Nogueira lá ia e aplicava a sanção esperada ao menino amedrontado.
Na maior parte dos casos bastava que abrisse os seus grandes olhos para que todos nos encolhêssemos.
Um dia fiz-lhe frente (é assim com os mais novos) e disse-lhe que os olhos dele não me faziam medo (talvez porque os meus eram parecidos, grandes e redondos quando muito abertos). O verde acastanhou e vi tristeza. Mas só me apercebi disso mais tarde, pois na altura cantei a glória de o ver ficar calado com a minha ousadia, que apenas lhe fizera soltar um suspiro.

O meu pai contava-me histórias que me arrepiavam e outras de encantar. Uma delas começava assim:
«As fadas... eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar...

Umas vivem nos rochedos,
Outras pelos arvoredos,
Outras, à beira-mar...


(...)


Eu sei o nome de algumas:

Viviana ama as espumas

Das ondas, nos areais,
Vive junto ao mar, sozinha,
Mas costuma ser madrinha

Nos baptizados reais.


Morgana é muito enganosa;

Às vezes, moça e formosa,

E outras, velha, a rir, a rir...

Ora festiva, ora grave,

E voa como uma ave,

Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?
De Titânia, a pequenina,

Que dorme sobre um jasmim?

De cem outras cuja glória

Enche as páginas da história

Dos reinos de el-rei de Merlin?»


E continuava, continuava...
E às vezes chamava-me Melusina...

Tenho de admitir que só mais tarde (e com alguma desilusão) soube que não tinha sido ele o autor, mas um poeta que eu conhecia de outros versos: Antero de Quental.
O Assírio, da Vega (sim, foi esse quem deu o nome à Assírio & Alvim, sim), teve a bondade de me oferecer uma edição lindíssima (prenda em conta, que nem 10 euros custa), acabada de sair.
Já comprei outros para oferecer, pois sei de quem vai gostar.
Afinal, ele não era só meu pai...

18 dezembro 2008

Quem o viu...

... e quem o vê!


O que vale é que o gato Zé Mimi tem o pelo alto e não se nota muito que perdeu 50% do peso.

A conta do veterinário galopa, galopa, e não se pode pôr nada no IRS.
Descobri que anda na net uma petição para que as despesas com os nossos animais possam ser deduzidas nos impostos. Já assinei e divulgo-a aqui para quem estiver interessado.

Dedução de despesas com saude animal em IRS

17 dezembro 2008

E os mitos gregos...

(Orestes a matar Clitemnestra. Imagem daqui)

«... para que servem?» _ perguntou-me. «A ficção de hoje tornar-se-á mito amanhã
Não penso que isso aconteça, pelo menos enquanto se conhecer a literatura com ela é, com autor identificado.
Os mitos não tinham autoria, tinham origem oral e cumpriam também funções na religiosidade das pessoas. Eram histórias de extensão variável, algumas com versões contraditórias, e aceites por uma comunidade como as suas histórias.

As bases em que os mitos eram construídos repetiam-se em diferentes narrativas:
- os pais que expõem o filho num monte para que venha a morrer, para evitar que um oráculo se cumpra, mas ele é salvo e vem a provocar a desgraça dos progenitores, como previsto pelo destino. Recordo-me de Laio e Jocasta que expõem o filho, Édipo, mas este mata o pai e casa com a mãe, como predito; ou de Príamo e Hécuba que expõem o filho Páris, mas este cumpre o oráculo que dizia que ele viria a ser a ruína de Tróia, ao raptar Helena de Esparta, dando início à Guerra de Tróia narrada na Ilíada.

Alguns destes elementos encontram-se também
noutras culturas:
- a virgem que tem um filho (ou mais do que um) de um deus, filho esse cujo desígnio é marcante para a Humanidade. Recordo-me de Reia Sílvia (virgem vestal), na cultura romana, que engravida de um deus (Marte) e o seu filho (Rómulo, depois de matar o irmão) vem a ser o fundador e primeiro rei de Roma; ou, na cultura judaico-cristã, lembro Maria (virgem), que tem um filho (Jesus) do seu deus (Deus/Jeová), vindo este filho a ser o fundador de uma das maiores e mais influentes (se não a maior e a mais influente) religiões do mundo.

Vem-me à memória a
criança abandonada num cesto nas águas de um rio: Moisés, no Egipto, e os gémeos Rómulo e Remo, em Roma, os animais que alimentam crianças, como a ursa que amamenta Páris, a loba que amamenta Rómulo e Remo ou a cabra que amamenta Zeus.

Os mitos gregos não cumprirão hoje nenhuma função, a não ser que nos lembremos deles e percebamos quão importantes podem ser na compreensão de uma das culturas que está nas nossas matrizes. João Canijo dizia ao JL (estou a citar de cor, pois a minha cadela rasgou o jornal - riam-se, riam-se) que usava estes mitos (nomeadamente Electra), porque são arquétipos e poucos mais foram inventados depois destes (refere Shakespeare, penso).

Os deveres chamam-me, mas ainda voltarei a este assunto.

16 dezembro 2008

Ao teu lado

A primeira vez que o li, há uns anos, chamava-se Cartas a Desidéria e ainda não era livro. Adorei!
Agora, o meu amigo Luís Costa Pires publicou-o com este novo nome, Ao teu lado, na Vega (não me habituo ao nome Nova Vega), tendo feito o lançamento na semana passada (quando estas fotos foram tiradas). Uma boa leitura!

15 dezembro 2008

Em Dezembro, com o ano a acabar


Borda d'Água


Em janeiro, conta os dias que faltam
para o fim do inverno. Em fevereiro,
goza o carnaval. Em março, não te
esqueças da quaresma. Em abril, solta

o sol da primavera. Em maio, as noites
são mais quentes. Em junho, atravessa
o solstício. Em julho, apanha os frutos
do verão. Em agosto, ouve as cigarras.

Em setembro não te importes com o
vento. Em outubro apanha as folhas do
chão. Em novembro não saias à noite.

E em dezembro, quando o ano acabar,
lembra-te que não fizeste nada disto,
e se fizeste terás de tudo recomeçar.

Nuno Júdice
in O Breve Sentimento do Eterno, Edições Nelson de Matos, 2008

10 dezembro 2008

... a minha alegre casinha...

Esta é a bela imagem da minha casa vista pelas traseiras, desenhada pela Barbara, a minha amiga italiana que esteve, com o seu Claudio, de visita à pólis.

Alguns amigos mostraram-se preocupados com a minha ausência do blogue e a todos agradeço o facto de terem dado conta disso.

Têm sido muitos os factores, mas nenhum deles agradável. Uma série de acontecimentos ininterruptos levaram a que só hoje eu tivesse tempo de vir aqui deixar este desenho com estas palavras.

Agradeço à minha amiga Reboliço os desejos de melhoras do gato Mimi, que está com uma lipidose hepática.

26 novembro 2008

Diz Aristóteles, na Política

A causa da existência de muitos regimes políticos deve-se ao facto de todas as cidades possuírem uma pluralidade de partes. Assim, começamos por observar que todas as cidades são compostas por habitantes reunidos em famílias; em seguida, nessa massa de cidadãos agrupados, existem necessariamente os que são ricos, outros sem recursos, e outros de condição mediana; os ricos possuem armas, os pobres estão desprovidos delas. Vemos também que, no povo, uns são agricultores, outros comerciantes, e outros trabalhadores braçais.
(...)
É evidente que existem necessariamente muitos regimes e em cada um deles, várias formas distintas entre si, uma vez que cada uma das duas partes difere entre si da forma. Um regime é, pois, uma ordenação de magistraturas repartidas por todos conforme o poderio dos que participam no governo, ou a igualdade comum a todos; refiro-me, no primeiro caso, ao poderio dos ricos e dos pobres e, no segundo caso, à igualdade comum a ambos.

(já se está mesmo a ver o que se segue, mas continuo amanhã. A referência é sempre a mesma.)

23 novembro 2008

post descaradamente roubado

Não resisto a roubar este post à Gi:

Seis meses sem democracia

Os antigos Romanos acabaram com a monarquia por não suportarem atitudes tirânicas dos seus últimos reis, e criaram uma série de cargos executivos eleitos por um ano para evitar novas tiranias.

No entanto, quando havia uma situação excepcionalmente grave, podia-se nomear um ditador que estaria no cargo por seis meses durante os quais tomaria as decisões que entendesse, não sujeitas a veto, e pelas quais não responderia criminalmente após o fim do mandato, ao contrário do funcionamento normal da república.

Andará Manuela Ferreira Leite a estudar história da antiguidade?

20 novembro 2008

dor

A perda de seu pai não a chora Gélia quando está só;
se alguém está presente jorram lágrimas de encomenda.
Não sente o luto, Gélia, quem procura ser louvado.
Sente dor verdadeira quem, sem audiência, sente dor.

Marcial, Epigramas, vol. I, Tradução de José Luís Brandão para as Edições 70, em 2000, com introdução e notas de Cristina de Sousa Pimentel

18 novembro 2008

nesta semana sem tempo...

... em que só me lembro das palavras de Séneca e de como não me servem na correria em que ando, obrigo-me a parar e a ler um soneto do novo livro de Nuno Júdice, O Breve Sentimento do Eterno, que me foi oferecido, no sábado, dia 8, quando fui à sua apresentação na bonita livraria Pátio de Letras:

Tempo

Se corre devagar o tempo, e o tempo
não corre, em que relógio contarei
os segundos que se demoram quando as
horas se precipitam, ou o amanhã

que nunca mais chega neste hoje
que já passou? Mas o tempo só o é
quando o perdemos; e ao ver que
é tarde, não se volta atrás, nem

as voltas que o tempo dá o voltam
a fazer andar. Por isso é que o tempo
nos dá tempo para o ter, se ainda

houver tempo; e se tivermos de o perder,
nenhum tempo contará o tempo que se
gastou para saber o que se perdeu, ou ganhou.

17 novembro 2008

Bloqueio da TMN

Uma curta mensagem: estive sem internet quinta e sexta, bloqueada pela TMN por alegada falta de pagamento. Como a rede é tão má aqui em casa e sou tantas vezes impedida de ir à net, pensei que fossem apenas maus momentos. Na sexta lá fui à loja saber o que se passava e afinal era ainda o problema que tenho com eles desde Junho: cobraram-me um valor imenso (nesse mês foram 210 euros!!!), a mim que, mesmo que quisesse, não tinha estabilidade de rede para downloads pesados. Enfim, lá me restabeleceram a ligação. Continuo à espera da resolução deles para este problema.
Já voltarei a escrever e obrigada pela paciência.

12 novembro 2008

Abbey Road

Já falei aqui dela, mas agora que tem um blogue, espero que também a acompanhem. Não sei se vai continuar a escrever em O nascer do Sol, onde tem uma etiqueta só dela, mas serei leitora de tudo o que faz na sua Rua da Abadia.
Não estou a ser nada tendenciosa nem parcial, influenciada pelo amor que lhe tenho, mas a minha sobrinha é excepcional.

09 novembro 2008

II Festival de Órgão - Faro 2008

Fui ontem assistir ao segundo concerto do II Festival de Órgão, na sé de Faro, com Antoine Sibertin-Blanc, numa organização da Associação Cultural Música XXI. Foram cerca de 50 minutos muito bonitos (passaram tão depressa!) de música muito vívida e tocada com muita perícia. Há muitos anos ouvi ali João Vaz (que espero poder voltar a ouvir para a semana).
Para que pudéssemos acompanhar o intérprete, um écran gigante ia transmitindo em directo as imagens de Sibertin-Blanc, a leveza dos seus dedos e a agilidade com que ia mudando os registos. O único problema foram as variações que o realizador (não sei se se chamará assim) resolveu fazer. Em vez de nos deixar acompanhar a música com a visão do intérprete, em momentos-chave, como quando os puxadores mudavam os registos dos tubos, fazia «efeitos especiais», abrindo e fechando a imagem em bolas, em cortina, e outras coisas do género, mostrando os anjos que encimam o órgão, ou os tubos, elementos interessantes, mas cujas imagens serviram apenas para distrair, perturbando o tranquilo acompanhar da interpretação.
Veremos se no próximo sábado (sempre às 21.30) João Vaz terá mais sorte.

05 novembro 2008

Outro prémio

O blogue “Paixões e Desejos”, de Paula e Rui Lima, nomeou o “Senhora Sócrates” com o “Brilhante Weblog”. Agradeço-lhes a simpatia. Aceito sempre os prémios que me entregam, pois comove-me o facto de se lembrarem de mim e desta ágora.
Seguindo as regras, nomeio 7 blogues que gosto de ler (aproveito, já que está tão perto do prémio anterior, por indicar alguns que ficaram de fora da última vez):

Floresta do Sul (blogue de um dos escritores portugueses contemporâneos meus preferidos)
Lauro António apresenta...
Ao rodar do tempo
Pisa-papéis
Dona Redonda
André Benjamin
Sem Pénis nem Inveja

02 novembro 2008

Os mortos vão devagar
É-lhes árdua a subida.
Não há pressas p’ra chegar
Foi difícil a partida

Sobem paulatinamente
Descem muito devagar
Fazem tudo lentamente
É dormente o seu andar.

O tempo não acabou
Não há passos de corrida
Em círculos sempre se andou:
A vida não tem saída.

O adeus é um momento
Que temos de partilhar:
Para nós, o sofrimento,
Aos mortos resta o vagar.

Foi difícil a partida
É dormente o seu andar.
A vida não tem saída.
Aos mortos resta o vagar.

01 novembro 2008

Não somos nós


As Janelas

Nestas salas escuras, onde vou passando

dias pesados, para cá e para lá ando
à descoberta das janelas. - Uma janela
quando abrir será uma consolação. -
Mas as janelas não se descobrem, ou não hei-de conseguir
descobri-las. E é melhor talvez não as descobrir.
Talvez a luz seja uma nova subjugação.
Quem sabe que novas coisas nos mostrará ela.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Relógio de Água, Lisboa, 1994. Tradução de Joaquim Manuel de Magalhães e Nikos Pratsinis.

29 outubro 2008

Não ama verdadeiramente quem não amar sempre

Não ama verdadeiramente quem não amar sempre

Gosto dos episódios das tragédias.
Diz Aristóteles, na Poética, que o episódio «é uma parte completa da tragédia entre corais».
Em muitos destes diálogos estão os momentos de maior tensão, já que vamos assistindo ao evoluir das situações e às perguntas e respostas, muitas vezes entendidas apenas por nós, espectadores, que sabemos bem o que as frases querem dizer, ao contrário das personagens em cena. Recordo como Tirésias diz a Édipo que ele é o assassino que procura e como este não entende as palavras do adivinho, mesmo quando ditas com toda a clareza. São destes episódios que me lembro quando oiço/vejo os diálogos dos filmes com Humphrey Bogart, quando a resposta parece quase ser mais rápida que a pergunta.
Outra característica dos episódios são as frases lapidares, daquelas que apetece citar. Algumas tornaram-se mesmo proverbiais. Gosto de abrir uma tragédia qualquer e sublinhar, com o meu lápis-encontrador-de-belezas (roubado ao Gonçalo M. Tavares), uma frase ao acaso, descontextualizada, como hoje, de Eurípides, As Troianas, 1051, na fala de Hécuba (acusa ndo Helena):

Não ama verdadeiramente quem não amar sempre