05 novembro 2008

Outro prémio

O blogue “Paixões e Desejos”, de Paula e Rui Lima, nomeou o “Senhora Sócrates” com o “Brilhante Weblog”. Agradeço-lhes a simpatia. Aceito sempre os prémios que me entregam, pois comove-me o facto de se lembrarem de mim e desta ágora.
Seguindo as regras, nomeio 7 blogues que gosto de ler (aproveito, já que está tão perto do prémio anterior, por indicar alguns que ficaram de fora da última vez):

Floresta do Sul (blogue de um dos escritores portugueses contemporâneos meus preferidos)
Lauro António apresenta...
Ao rodar do tempo
Pisa-papéis
Dona Redonda
André Benjamin
Sem Pénis nem Inveja

02 novembro 2008

Os mortos vão devagar
É-lhes árdua a subida.
Não há pressas p’ra chegar
Foi difícil a partida

Sobem paulatinamente
Descem muito devagar
Fazem tudo lentamente
É dormente o seu andar.

O tempo não acabou
Não há passos de corrida
Em círculos sempre se andou:
A vida não tem saída.

O adeus é um momento
Que temos de partilhar:
Para nós, o sofrimento,
Aos mortos resta o vagar.

Foi difícil a partida
É dormente o seu andar.
A vida não tem saída.
Aos mortos resta o vagar.

01 novembro 2008

Não somos nós


As Janelas

Nestas salas escuras, onde vou passando

dias pesados, para cá e para lá ando
à descoberta das janelas. - Uma janela
quando abrir será uma consolação. -
Mas as janelas não se descobrem, ou não hei-de conseguir
descobri-las. E é melhor talvez não as descobrir.
Talvez a luz seja uma nova subjugação.
Quem sabe que novas coisas nos mostrará ela.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Relógio de Água, Lisboa, 1994. Tradução de Joaquim Manuel de Magalhães e Nikos Pratsinis.

29 outubro 2008

Não ama verdadeiramente quem não amar sempre

Não ama verdadeiramente quem não amar sempre

Gosto dos episódios das tragédias.
Diz Aristóteles, na Poética, que o episódio «é uma parte completa da tragédia entre corais».
Em muitos destes diálogos estão os momentos de maior tensão, já que vamos assistindo ao evoluir das situações e às perguntas e respostas, muitas vezes entendidas apenas por nós, espectadores, que sabemos bem o que as frases querem dizer, ao contrário das personagens em cena. Recordo como Tirésias diz a Édipo que ele é o assassino que procura e como este não entende as palavras do adivinho, mesmo quando ditas com toda a clareza. São destes episódios que me lembro quando oiço/vejo os diálogos dos filmes com Humphrey Bogart, quando a resposta parece quase ser mais rápida que a pergunta.
Outra característica dos episódios são as frases lapidares, daquelas que apetece citar. Algumas tornaram-se mesmo proverbiais. Gosto de abrir uma tragédia qualquer e sublinhar, com o meu lápis-encontrador-de-belezas (roubado ao Gonçalo M. Tavares), uma frase ao acaso, descontextualizada, como hoje, de Eurípides, As Troianas, 1051, na fala de Hécuba (acusa ndo Helena):

Não ama verdadeiramente quem não amar sempre

27 outubro 2008

Comun(itar)ismo???


Cremes
: Vais aonde, se ainda não entregaste o que te pertence?

Homem: Para o jantar.

Cremes: Ah isso é que não vais, se ainda resta a essas mulheres uma migalha de bom senso! Só se tiveres levado primeiro a tua parte.

Homem: Está bem, pronto! Eu levo.

Cremes: Quando?

Homem: Não é por mim que a coisa deixa de se fazer, meu amigo.

Cremes: Ah não?

Homem: Há-de haver outros que ainda vão entregar depois de mim, podes ter a certeza.

Cremes: E vais jantar, mesmo assim?

Homem: O que hei-de eu fazer? É preciso colaborar com o Estado na medida do possível. É o que faz quem tem a cabeça em cima dos ombros.

Cremes: E se elas não permitirem, como é?

Homem: Eu mando-me de cabeça contra elas.

Cremes: E se te dão uma coça, como é?

Homem: Eu processo-as em tribunal.

Cremes: E se se rirem na tua cara, como é?

Homem: Eu ponho-me à porta...

Cremes: E o que fazes, ora diz lá!

Homem: ... e roubo a comida aos criados.

Cremes: Então vai lá, mas eu primeiro. (aos servos) E vocês, Sícon e Parmenão, toca a alombar com esta cangalhada toda.

Homem (prestável): Deixa estar que eu ajudo.

Cremes (que o afasta): Nem pensar! Receio bem que, na frente da chefe, ainda te armes em dono das minhas coisas. (Sai com os escravos carregados)

Homem: Cum raio! Tenho de arranjar uma saída, para conservar o que me pertence, e ao mesmo tempo partilhar com esta gentinha do bolo comum. Tenho uma ideia: basta que eu avance como eles, sem demora. (sai também)

Aristófanes, As Mulheres no Parlamento, JNICT, Coimbra, 1996. Tradução de Maria de Fátima Silva.

24 outubro 2008

Comun(itar)ismo

Praxágora: Bem, que nenhum de vocês me contradiga nem interrompa, antes de conhecer o meu projecto e de ouvir os meus argumentos.
Quero dizer-vos que é preciso que todos entreguem os seus bens para um fundo comum, para onde cada um contribua com a sua parte e de onde retire a subsistência. Não mais há-de haver ricos e pobres; nem uns a cultivarem propriedades enormes, e outros sem terem onde cair mortos; nem uns a terem ao serviço batalhões de escravos, e outros nem sequer um criado. O que eu quero estabelecer é um padrão único de vida em comum, igual para todos.

Bléfiro: Comum a todos... como?

Praxágora: Já a formiga tem catarro!

Bléfiro: Catarro?! Também vamos pô-lo em comum?

Praxágora: Nada disso! Levas o tempo a interromper-me. Ora dizia eu que a terra, antes de mais, vou torná-la um bem comum a todos; e também o dinheiro; e tudo que é propriedade privada. É deste fundo comunitário que nós, mulheres, vos vamos sustentar. É a nós que compete administrá-los com economia e bom-senso.

Bléfiro: E quem não for proprietário de terras, mas possuir dinheiro e ouro, bens que se não vêem?

Praxágora: Tem de os pôr no monte.

Bléfiro: E se não puser?

Praxágora: Incorre em perjúrio.

Bléfiro: Ora, ora! Já foi assim que eles os ganharam!

Praxágora: Mas seja como for, também não lhes servem para nada.

Bléfiro: Como assim?

Praxágora: Por necessidade, ninguém mais precisa de se mexer. Toda a gente vai ter tudo: pão peixe, bolos, casacos, vinho, coroas, grão-de-bico. Qual a vantagem de se não entregar os bens? Ora diz lá, se fores capaz!

Bléfiro: O certo é que, hoje em dia, são aqueles a quem não falta nada, os que mais roubam.

Cremes: Isso era dantes, meu amigo, quando vivíamos no tempo da outra senhora! Mas com agora - com a tal história do fundo comum - , que é que se ganha em não entregar?

Aristófanes, As Mulheres no Parlamento, JNICT, Coimbra, 1996. Tradução de Maria de Fátima Silva.

20 outubro 2008

um prémio

Informações sobre o Prémio Dardos

“Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc., que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Os selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.

Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:
1 - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.”

A Teresa C., do Sem Pénis nem Inveja, agraciou-me com este prémio. Como não costumo colocar blogues em destaque, aproveito sempre estas oportunidades para o fazer. Não repito os que sei que já receberam, como o Funes, o A Curva da Estrada, o Claras Manhãs, ou o Bandeira ao Vento.
Assim, segue-se uma lista de blogues dos muitos que gosto de ler pelas razões mais diversas e, até, muitas vezes, opostas.

Ao rodar do tempo
As coisas são como são
Assim Mesmo
Cartas do meu moinho
Chá de letras
Combustões
Corta-fitas
Garden of Philodemus
Livro de Estilo
Não compreendo as mulheres
Onde Mudar
Oxiclista
Paixões e Desejos
Ponteiros Parados
Porta do Vento
Sem-se-ver

18 outubro 2008

Tragédia hip hop

(imagem daqui)

Ontem fiz uma viagem a ouvir hip hop, género que não conheço bem. Como a ignorância tem limites, fui informar-me e percebi que, afinal, conhecia os grupos e as canções, mas não os associava. Pensava que era tudo rap, como a maioria dos desinformados (que foi o eufemismo com que me trataram na wikipédia: «os mais desinformados costumam adotar os dois termos como sinônimos», se bem que a própria wikipédia, em inglês, diz assim: «Hip hop music, also referred to as rap music, is a music gente typically consisting of a rhythmic vocal style called rap which is accompanied with backing beats»).

(imagem daqui)

Foi no meu correio electrónico, numa antiga mensagem de Fevereiro, que encontrei
referência a uma versão hip hop californiana da tragédia Os Sete contra Tebas, de Ésquilo. O site da peça resume: Greek tragedy meets hip-hop in this new telling of a cursed family and society unsure of how to free itself from war. e na notícia do NCTimes, começamos por ler:

In ancient Greek tragedy, the Theban king Oedipus unwittingly fulfills an oracle's prophecy by killing his father and marrying his mother, which "kinda grossed everybody out, y'know"? And when Oedipus' two sons, Eteocles and Polynices, banished their father out of shame, he avenged his honor by "puttin' a curse on their ass."

Se estivesse por cá, iria vê-la.

17 outubro 2008

medos

(imagem daqui)

Assim falou; e eu dei-lhe a seguinte resposta:


"Ó Circe, como podes pedir-me para ser agradável contigo?

Tu que no teu palácio transformaste os meus amigos em porcos,

e a mim aqui reténs, ordenando-me que vá

para o tálamo e que suba para a tua cama,

de modo a tirares-me coragem e virilidade quando estiver nu.

Fica sabendo que não subirei para a tua cama,

a não ser que tu, ó deusa, ouses jurar um grande juramento:

que não prepararás para mim qualquer outro sofrimento."

Assim falei; e ela jurou logo, como lhe ordenara.

E depois que jurou e pôs termo ao juramento,
foi então que subi para a cama lindíssima de Circe.

Odisseia, X, 336-347

16 outubro 2008

sem rodeios

(imagem daqui)

Quem és e donde vens? Que cidade é a tua? Quem são os teus pais?

Estou espantada por teres bebido a poção sem estar enfeitiçado.
Nenhum homem jamais resistiu a esta droga depois que a bebesse
e que ela lhe passasse a barreira dos dentes.
Mas a tua mente não pode ser enfeitiçada.
És na verdade o astuto Ulisses, que sempre me disse
aportar aqui um dia o Matador de Argos, da vara dourada,
regressando de Tróia na sua escura nau veloz.
Mas repõe a tua espada, pois iremos agora
para a nossa cama, para que nos unamos em amor
e possamos confiar um no outro.

Fala de Circe, na Odisseia, X 325-335. Tradução de Frederico Lourenço.

15 outubro 2008

vestir o coração


Vulpes – Commodius fecisses, inquit, si eadem hora me revisisses. Nam si vel quarta postmeridiana hora venies, a tertia beata esse incipiam. Quo magis haec cedet, eo beatior esse mihi videbor. Quarta moveri ac sollicitari jam incipiam; sic quanti sit vita beata reperiam. At si tempore quovis venies, nunquam sciam quota hora me animo tanquam decorum vestitum induere oporteat. Sollemnia quaedam constitui opus est.
Regulus – Quid est sollemne quiddam?
Vulpes – Hoc quoque nimis obsolevit. Propter hoc dies quidam a ceteris diebus differt et hora quaedam a ceteris horis.

(versão latina de Augusto Haury que saiu na Harvest Book em 1985 , tendo sido editada pela primeira vez por outra editora em 1961)

Este Regulus não me convence muito... prefiro a versão francesa e a portuguesa (a da Alice Gomes) de O Principezinho:

- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, às três já eu começo a ser feliz. À medida que o tempo avançar, mais feliz me sentirei. Às quatro horas já começarei a agitar-me e a inquietar-me; descobrirei o preço da felicidade. Mas se vieres a uma hora qualquer, eu nunca posso saber a que horas hei-de vestir o meu coração... São precisos ritos.

- O que é um rito?

- É também qualquer coisa de que toda a gente se esqueceu, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora diferente das outras horas.

14 outubro 2008

Fernando Cabrita, poeta

Acabei de ouvir na Antena 2 que o meu amigo Fernando Cabrita, advogado aqui de Olhão, venceu o Prémio Nacional de Poesia Actor Mário Viegas.
Muitos parabéns ao poeta, mas não me surpreende.

O sol

Nos quartos que o sol visita

a sombra aos poucos
gentil e pressurosa lhe abre as portas
e se retira;
E vem a manhã com ele, fresca, bonita,
pôr-se à janela
de onde a cidade inteira mira.

Poema retirado deste livro:

13 outubro 2008

pelos seus 85 anos

(devia estar frio, na praia da Areia Branca)

a tua mãe, por exemplo, a idade pode ter-lhe dado sabedoria de muita coisa que nem tu de olhos arregalados vês, insistia ele. a tua mãe, que eu já a vi, acerta na corda da roupa sem olhar. é verdade, agarra nas roupas brancas e atira-as ao ar como se fossem para cair no chão, e elas ficam na corda pendendo meio para cada lado, exactamente o suficiente para não verterem dali e não se perderem de asseio.
(...)
sabe, senhor paulo, as mães são como lugares de onde deus chega. lugares onde deus está e a partir dos quais pode chegar até nós. porque só através delas nos encontramos aqui. e, por isso, não há mãe alguma que não mereça o céu, porque, em verdade, as mães transportam o céu dentro delas, e multiplicam-no a custo, como um ofício.

valter hugo mãe, o remorso de baltazar serapião, QuidNovi, 2006

(exemplos de outros postais sobre a minha mãe aqui e aqui )

12 outubro 2008

Por que tem sempre de doer?


Tal foi o desejo de amor, que me cobriu o coração

e cerrada treva derramou sobre meus olhos,
arrebatando do meu peito as débeis forças.
(Frg. 191)

Miserável, jazo atolado no desejo,
inânime, e penosas dores, por vontade dos deuses,
me percorrem os ossos.
(Frg. 193)

Arquíloco, daqui.

11 outubro 2008

Aceito...

(clique na imagem para aumentar)

... opiniões sobre a proposta de novo aspecto para o A Senhora Sócrates que o
Carlos muito simpaticamente fez. Estou sempre a dizer-lhe que lhe direi como quero e vou adiando, adiando, até que ontem ele surgiu com isto.
Digam-me o que pensam, amigos.

10 outubro 2008

Hoje, em Albufeira ...

... João Pedro Cunha (violino) e António Rosado (piano) tocam num espectáculo intitulado «As melhores sonatas de Beethoven.
Leia mais aqui.

Presente grego


«Receio os Dánaos, mesmo quando trazem presentes»


Com esta frase e por ter atirado uma lança ao cavalo que os Gregos introduziram em Tróia, Lacoonte condenou-se...

http://flickr.com/photos/roseruf/2335182209/

Lacoonte, sacerdote de Neptuno (...), sacrificava um enorme touro diante dos altares rituais. Eis senão quando duas serpentes (arrepio-me ao contá-lo!) (...) se alongam sobre o mar com os seus imensos anéis, dirigindo-se a par para a costa.
Os seus peitos erguem-se por entre as ondas e as suas cristas cor de sangue elevam-se acima das vagas; atrás a parte restante corta o mar e encurva o dorso imenso em circunvoluções.
Ouve-se um marulhar nas águas cheias de espuma.Já tinham alcançado os campos, com os olhos faiscantes raiados de sangue e fogo, e lambiam com as línguas vibrantes as bocas que silvavam. À vista disto fugimos cada um para seu lado sem pinta de sangue.
A primeira das duas serpentes, tendo envolvido os pequenos corpos dos seus filhos, enrosca-se em volta de ambos, devora-lhes os desgraçados membros à dentada, depois apanham-no a ele próprio, que acorria a socorrê-los de armas na mão e enleiam-no com as suas enormes espirais. E tendo-lhe envolvido por duas vezes a garganta com os seus dorsos escamosos, ficam ainda com os pescoços sobranceiros. Ele esforça-se por desfazer os nós com as mãos, com as faixas rituais manchadas pela baba e pelo negro veneno, ergue aos astros horrendos clamores, semelhantes ao mugido que solta o touro ferido (...).


Vergílio, Eneida, II, 201-224. Tradução coordenada por Luís Cerqueira e publicada em 2003 pela Bertrand Editora.


http://www.insecula.com/oeuvre/O0011967.html


http://oureboros.blogspot.com/2008/01/couple-of-maquettes.html


http://www.tigtail.org/TIG/S_View/TVM/X1/c.Mannerism/el-greco/el_greco.html


http://flickr.com/photos/susancarterhall/2051071764/

07 outubro 2008

se a A está com B e B está com C, A está com C

Durante a minha estada de seis meses em Cornell, em 2000, partilhei um apartamento com uma francesa que ainda hoje é minha amiga. Trabalhava em modelação molecular e de vez em quando lá ia ela, pela neve, ao laboratório, mesmo ao fim-de-semana, voir sa molecule bouger. Como agora trabalha no Instituto Pasteur de Paris, sinto-me, através dela, perto dos premiados com o Nobel da medicina.


06 outubro 2008

missões

(actualizado)

Tenho uma amiga que para o ano vai dar o seu mês de férias para ir trabalhar numa missão em Nampula, Moçambique, com a Irmã Assunção, da Comunidade das Irmãs de S. João Baptista. Com 70 euros por ano podemos apadrinhar uma criança, pagando com esse dinheiro as despesas escolares e os almoços. Um ano, por 70 euros... Ah, e precisam de alguém da área de informática que vá até lá para ajudar durante um mês. Não consegui pôr aqui o folheto explicativo, mas enviem um mail para
lenanunosorio@yahoo.com, que Nuno Osório dará todas as informações.

Um outro amigo pediu-me que divulgasse o blogue dos Padrinhos de Portugal. Por 85 euros trimestrais, o padrinho colabora na consecução dos objectivos deste projecto:

Objectivos:

Com este projecto o padrinho fica a assegurar as despesas de saúde, uma refeição diária – almoço – e educação: livros, cadernos, lápis, canetas, matricula e farda. Para além destas três vertentes, o projecto também cobre despesas com ateliers de informática, trabalhos manuais, apoio escolar etc... de forma que as crianças aprendam também matérias práticas que lhes possibilitem vir a arranjar mais facilmente um emprego no futuro.

05 outubro 2008

quando alguém nasce, nasce selvagem, não é de ninguém

Nas minhas domingueiras arrumações encontrei um livro de Chadwick (que usei bastante como fonte dos meus Hércules), The Mycenaen World. Percorro o livro em busca de sublinhados, numa espécie de auto-voyeurismo. Encontro (e traduzo):

No sistema grego [de atribuição de nomes], as mulheres usam o nome do pai em genitivo* se são solteiras e o do marido se são casadas; ainda hoje, na Grécia, permanece o hábito das mulheres casadas terem o apelido em genitivo.

*O genitivo é o caso que indica a posse (como o caso possessivo em Inglês).

04 outubro 2008

Teoria e jogo do duende

TEORIA E JOGO DO DUENDE

... Que estou aturdido
De gozos e fezes juntos.
S. Teresa d'Ávila

UMA HOMENAGEM

Estava sempre entre os anjos
Quando o vi
E não vi
A luz faz-nos
Saber quando é assim
Negra a aparecer
E desaparecer, aparecer
E desaparecer
Quando dançar
É ensaiar morrer

_______________
O filme escorre: há um pé enfaixado de menina chinesa,
um vento negro, um carro acidentado repetidamente.
Uma vez. Duas vezes. Três vezes... Depois perde-se a conta.
Há vastos lagos de leite fervilhante e uma atmosfera de perigo iminente.
Que dirias tu de viver ali?


(Pedro Luís Baltazar Vieira, 25/01/67- 4/10/2005

Faz 3 anos e estou furiosa

Durante muitos anos não usei tabuísmos (vulgo asneiras) no meu discurso. Muitos anos passados (lá para os trinta) comecei a perceber a sua força expressiva e a usar alguns.
Hoje só me apetece dizer asneiras, palavrões, chamar nomes.
Estou triste e furiosa.
....................................
Estou furiosa porque o Pedro morreu. Porque ele me faz falta. Porque choro ao ler as suas coisas. Porque acho que fiz tudo e se calhar não fiz nada.
Estou furiosa com ele porque ele morreu.
Mexo nas coisas que escreveu e nas que me escreveu.
Só me apetece dizer asneiras!

Maria
Eu se fosse a ti ia de férias uma semana, apaixonava-me esforçadamente e depois olharia MESMO para dentro do coração e analisaria friamente as amorosas saudades sentidas.
Pedro.

Não lhe dei ouvidos.
Fazes-me tanta falta, Manel!

02 outubro 2008

Muito riso e muito siso

O colóquio em Coimbra foi muito interessante, principalmente pela interdisciplinaridade. Achei curioso que quase todas as comunicações tivessem sido apresentadas com uma certa dose de humor. Foi agradável ver sorrir ou mesmo rir uma audiência acostumada a abordagens mais sisudas. Ali se provou que o riso e o siso não são necessariamente inversamente proporcionais.
Não vou resumir o que foi dito, pois isso está aqui. Vou apenas destacar a intervenção de João Nuno Corrêa Cardoso, presidente do Conselho Pedagógico (CP) da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, lugar privilegiado para este linguista conseguir alguns dos exemplos que usa na sua investigação, dado que por baixo da janela do gabinete CP reúnem-se muitos alunos, sendo as conversas que ouve um manancial de informações.
De ar sério, apoiado por divertidas folhas soltas ou estrategicamente dispostas na mesa, apresentou, sem ler, a sua investigação sobre tabuísmos.
Muito interessante e arrojado, pelo desafio que apresenta. Fiquei a saber que «vai badamerda» provém de um castigo medieval que mandava «lamber da merda». A nossa tendência para a economia da língua deu depois naquilo.
Acho que o mesmo já está a acontecer com o «'da-se», que daqui a uns tempos se escreverá «dasse» e ninguém saberá o que era originalmente, podendo ser usado em quase todos os contextos, como hoje acontece com «chatice».
Os investigadores de Coimbra não páram de me surpreender.

28 setembro 2008

Em Coimbra

Nos próximos dois dias vou estar aqui.

Açores - notas soltas e Dias de Melo

Nunca fui aos Açores. Já tive um bilhete comprado e não o usei. A vontade dos deuses é assim...

Na semana passada, a minha amiga Teresa Perdigão , uma amiga açoriana e eu conversámos sobre o poeta Dias de Melo, que a T. tinha o privilégio de conhecer. Poucos dias depois soubemos da sua morte.

A primeira vez que ouvi aquele nome foi na voz de Fernando Tordo cantando as nove ilhas dos Açores. Mais tarde soube quem era. Tenho andado a trautear «O dia do mar»:

(...)
O mar não tem marés a medir

O mar começa o seu dia em Santa Maria da Boa Viagem
Alarga para S. Miguel, ajeita o farnel e segue com a aragem

Arrima para a Terceira, arranja maneira de molhar o bico

Na Graciosa dá beijos, acalma os desejos e ala para o Pico

Aí conversa primeiro com um baleeiro do Dias de Melo

Engrossa-se a meio canal, sorri para o Faial que dá gosto vê-lo

São Jorge pára nas velas e faz um coral com nove cagarras

Nas Flores cumprimenta o povo, encosta-se ao Corvo
E estende as amarras
(...)


Letra, música e interpretação de Fernando Tordo, incluído no LP «A Ilha do Canto», de 1986.

26 setembro 2008

23 setembro 2008

Não, não estou a falar dos dilemas das nossas elites e da classe política

Se eu procurar ser alguém, apressando-me a ocupar os bancos da frente da cidade, serei detestado por todos aqueles que nunca poderão chegar ao poder. Pois a superioridade é sempre melindrosa.
Por outro lado, os que têm valor e capacidade e, devido à sensatez que lhes é própria, ficam calados sem se precipitarem para os cargos políticos - será no meio desses que parecerei ridículo e louco, por não preferir a calma de passar despercebido numa cidade carregada de culpa.
Chegado a um cargo honorífico, sentir-me-ei ainda mais posto à distância pelos votos da elite que se apropriou da cidade.
Pois é assim, pai, que as coisas se passam. Os que controlam as cidades e os cargos honoríficos são os mais agressivos em relação aos rivais.

Eurípides, Íon, vv.595-606. Tradução de Frederico Lourenço publicada na Colibri em 1994

20 setembro 2008

tia babada

Ela diz que não tem um blogue, mas que, provavelmente, deveria tê-lo.
Também acho.
Adoro-a e sou, provavelmente, imparcial. Penso que escreve cada vez melhor e ninguém diria que é uma mulher das linguísticas (sem ofensa, pois parte de mim aí se inclui). Na verdade, o seu coração mora na literatura.
Adoro a minha sobrinha Rita.
Roubadíssimo do blogue do seu amigo Lourenço, que aloja os seus escritos, deixo-vos um texto delicioso. Se quiserem ler mais, visitem O Nascer do Sol ou sigam a hiperligação marcada na etiqueta Rita Faria, no fim deste postal.

As saudades que eu já tinha da minha alegre casinha, tão limpinha quanto eu… - por Rita Faria

Tenho uma amiga que diz que não gosta de casas farfalhudas. Com isto, ela quer dizer casas que estão a rebentar de coisas, a começar com o lugar-comum da Última Ceia na parede, passando talvez pelos espelhos com desenhos das quatro estações a imitar Arte Nova, a fruta de plástico inútil na mesa da cozinha, rendas e naperons e tapetes e tapetinhos a puxar ao persa ou ao turco por todo o lado, quadros de hotel a cobrir metros de parede e acabando, eventualmente, com bibelots exibidos com certo orgulho no móvel matacão das louças, com portinhas de vidro, e que tem um nome do qual não me lembro.
O que me surpreende nestas casas farfalhudas é que está sempre tudo impecavelmente limpo. Esta higiene irrepreensível contribui, na minha opinião, para tornar a casa ainda mais feia. Não é que eu goste de casa sujas, sendo que até sinto repulsa pela sujidade, como à partida qualquer ser humano, mas há algo que não me suscita o respeito que deveria suscitar na perfeição da limpeza de uma casa farfalhuda. Ver o lavatório da cozinha a reluzir de Cif, sem qualquer vestígio de utilização, ou os bibelots simetricamente dispostos sem grama de pó, ou o chão de taco a brilhar de encerado, ou a mesa da sala sem sinal de revistas desarrumadas, com um cinzeiro estrategicamente colocado e estrategicamente limpo, ou as garrafas do bar dispostas por tamanhos e em filinha no pequeno balcão a reluzir, tudo isto, não sei, faz-me impressão, acho foleiro, acho que ficava tudo muito melhor com uma camadinha de pó, com uns quantos pratos empilhados no lava-louça, com cinza no cinzeiro, com bibelots partidos e ainda bem porque assim vão para o lixo, com um jornal enxovalhado no sofá, etc.
Até ler o Lobo das Estepes, eu não percebia bem porque é que não gostava da limpeza irritante das casas farfalhudas, quando semelhante limpeza deveria ser um objectivo a atingir e não um defeito. No entanto, no livro que referi, há uma parte em que o Lobo está sentado nas escadas do prédio onde vive, à porta da casa (ou do quarto, não me lembro bem) de uma viúva. Está com um ar satisfeito, e o narrador, que o encontra, não percebe bem a razão de se estar ali sem fazer nada, de modo que é isso que pergunta ao Lobo. Este responde que está ali a apreciar a beleza da limpeza pequeno-burguesa. A viúva que vivia naquela casa cuidava da mesma até mais não poder, limpava tudo todos os dias, enchia o pequeno lance de escadas de higiene e terebentina (e talvez até de umas quantas plantas, mas já não me lembro se este pormenor estava no livro ou se sou eu a inventar, porque encher os lances de escadas de plantas também é farfalhudo) e o Lobo (e eu, acrescento) gostava disso, dessa pertença a alguma coisa, do conforto da higiene burguesa, dessa limpeza pequenina que vem com o desejo de uma vidinha certinha, de uma casinha, de uma tranquilidadezinha que ele não tinha, e que também não era bem o que ele queria, mas se calhar até era (ou, talvez, o que ele queria era conseguir querer a tal limpeza pequeno-burguesa, se é que isto faz sentido).
A limpeza pequeno-burguesa foi uma ideia que me ficou, indelével, depois de ler o Lobo das Estepes. É apenas um pormenor, no livro e nas nossas vidas, mas tão verdadeiro e tão reconhecível que nunca o esqueci, talvez porque já observei esta higiene burguesa, pequenina e confortavelzinha, tantas vezes, em tantas casas.
Não quero com isto dizer que a minha casa seja suja. Pelo contrário, eu até limpo a minha casa com toda a razoabilidade. Não sei é se o cheiro da terebentina farfalhuda lá está. Espero que não, mas, se estiver, também não é assim tão mau.

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19 setembro 2008

o que torna o homem livre

Compreendes por que razão se lhes chama «estudos liberais»: porque são dignos de um homem livre. No entanto, o único estudo verdadeiramente liberal é o que torna o homem livre; e esse é o estudo - elevado, enérgico, magnânimo - da sabedoria; os outros são brincadeiras de crianças!
(...)
A divisão das sílabas, a observação dos significados, o conhecimento dos temas mitológicos, as leis e variações de versos - em que é que isto contribui para nos livrar do medo, nos libertar do desejo, nos refrear as paixões? Passemos à geometria e à música: nelas nada encontrarás que nos impeça de sentir receios ou desejos. E quem não adquirir estes conhecimentos essenciais não ganha nada em adquirir outros!

Séneca, Cartas a Lucílio, 88, 3-4. Tradução de J. A. Segurado Campos. mais por este blogue.

17 setembro 2008

Complexo de Electra

É daqui que vem o complexo de Electra, se bem que sempre tenha considerado o mito um bocadinho esticado, até porque nem é ela que mata a mãe (contrariamente a Édipo, que mata o pai). Na verdade, foi um complexo que não vingou.

ORESTES
(depois de se revelar à irmã, que desejava encontrá-lo, depois da mãe, Clitemnestra, ter matado o pai, Agamémnon)
Mas domina-te, não deixes que a alegria perturbe o teu espírito. Sei bem que os que mais nos deviam amar são precisamente os que nos odeiam.

ELECTRA
(...) Ó doce visão, que quadruplicaste o meu amor, a necessidade me impele a saudar-te como a um pai e em ti se concentra o amor que devia dedicar a minha mãe - com toda a justiça por mim odiada! - e a minha irmã, imolada sem piedade. Tu és o irmão fiel, que me restitui o respeito de todos. Que a Força e a Justiça, associadas ao soberano Zeus, me prestem o seu auxílio!

Ésquilo, Coéforas, vv. 232-245. Tradução de Manuel de Oliveira Pulquério, incluído na Oresteia publicado por Edições 70.

15 setembro 2008

fragmentos...


Comprei este livro. Já saíu em Abril, numa edição da INCM e em tradução de Carlos Martins de Jesus, mas só agora veio parar à minha mão. Ao procurar a imagem do livro, encontrei-a aqui, acompanhada de uma grande crítica, o que me dispensa de o fazer.

Enquanto lia Arquíloco, lembrei-me da graça que acho a fragmentos. E admiro quem consegue, de breves linhas, por vezes muito truncadas, retirar algum sentido.

Há muitos anos, ao ler os Poemas e Fragmentos de Safo, por Eugénio de Andrade, encontrei um dístico lindíssimo:

Pudesse esta noite durar
não uma mas duas noites inteiras

Quando procurei o texto grego (fragmento 197, L.-P.) , encontrei o que se segue, escrito por Libânio:

Se ninguém impediu Safo, de Lesbos, de dirigir uma prece à noite para que, para si, durasse duas vezes, também a mim seja possível fazer um pedido semelhante.

Alguém, desavisado, ao ver um livro de fragmentos, pode imaginar que isso é o resultado da tradução de pedacinhos de manuscritos encontrados em qualquer extraordinária escavação. Como este exemplo mostra, Libânio é do séc. IV e o que temos dele é uma citação, de memória, provavelmente, de algo que lera ou que ouvira dizer que Safo, uns 900 anos antes, dissera...

Através de citações que outros nos trouxeram, vamos podendo recompor o que teria sido a obra de este ou de aquele poeta.
Ler fragmentos é, de facto, um trabalho que exige muito conhecimento do que se tem escrito ao longo dos séculos, mas, também, muita imaginação.

14 setembro 2008

Las islas del mediodía/ As ilhas do meio-dia


Aquí hallarás resguardo en la tormenta,

fruto en sus vaguadas y alivio a tu dolor.

Sin embargo échate al mar
apenas la calma lo permita.
Aléjate.
Que la tierra que una vez te cobijó
no vuelva al cabo su brazo contra ti.

___________________________

Aqui acharás abrigo na tormenta,
frutos no fundo dos vales e alívio para a tua dor.

No entanto retorna ao mar
logo que a calma o permita.
Distancia-te.
Que a terra que uma vez te cobiçou
não volte mais tarde o seu braço contra ti.

Manuel Moya

Tradução de Rui Costa
Edição bilingue
Livrododia Editores, Torres Vedras, 2008

13 setembro 2008

Hoje, à noite, em Faro...

... vou à livraria Pátio de letras. Gostei do livro de poesia do Pedro Afonso. Nunca li nada de Manuel Moya, mas conheço o Fernando Cabrita e é sempre um prazer ouvir o que tem para dizer.

11 setembro 2008

2 anos

(foto tirada pela Teresap)

À nossa!
A Senhora Sócrates faz hoje dois anos.
Passei por diversas fases, como quase todos os que mantêm um blogue: pelo entusiasmo, pelo cansaço, pela assunção.
Gosto de vir a este meu canto e receber os convidados. Às vezes falo pouco (coisa só possível na internet, dirão alguns amigos), mas gosto muito de ler o que dizem aqui e nos seus próprios cantos (que vou ver sempre que posso, apesar de pouco comentar).
Alguns dos meus visitantes já me conheciam pessoalmente, outros vim a encontrar por causa deste blogue. É a vida a acontecer, porque virtual não significa irreal.
Obrigada a todos!

08 setembro 2008

«Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto»

Às voltas com as arrumações, abriu-se esta dedicatória nas primeiras três páginas do livro que a minha sobrinha R., que eu adoro, me ofereceu num dia do meu aniversário, há muitos anos atrás:


Querida Tia (A Tia):

É a primeira prenda que te ofereço em dezanove anos, de modo que a responsabilidade que fulmina os meus frágeis ombros é demasiada!
De qualquer modo, momentos solenes (e felizes) nunca se desperdiçam, por isso vou dar o meu melhor na minha (também) primeira dedicatória que te escrevo.
Este livro é a condensação da desilusão do português suave. Senti o cinzento da melancolia de Lisboa que há tanto tempo esqueceu o que é ser a sede do V Império, a monotonia quer do cidadão comum que sabe que não consegue raiar a mediania, quer do pretenso revolucionário apenas acalentado pelos sonhos da revolta, mas sufocado pela realidade da rotina.
E há ainda a mediocridade arrogante da Elsa Galvão, a personificação de tantos e tantos compatriotas que manipulam subrepticiamente o nosso quotidiano.
Gostei do sarcasmo e da ironia, da auto-crítica despida do barroco que o constatar da decadência acarreta sempre.
Acima de tudo, gostei e espero que gostes.
Despeço-me, finalmente, porque já me alonguei demais. Nem devo ter dito nada do que ensejava, mas pelo menos, se fui eu que escrevi, alguma coisa esta dedicatória há-de ter de mim. Deve ter muito, considerando que a escrevo para ti.

P.S. É sempre bom trocarmos umas ideias sobre todos os assuntos! (Toda a gente se esquece disso!)

P.S.2: Desculpa ter utilizado tantos pontos de exclamação. Cada vez que uso um lembro-me sempre do insuperável Adrian Mole que, ao receber uma carta de amor de uma rapariga que não corresponde aos seus elevados parâmetros intelectuais, afirma peremptoriamente que não seria capaz de casar com alguém que recorresse tão frequentemente e indiscriminadamente às exclamações.
Apesar de tudo, tal afirmação permaneceu na minha memória e, inexplicavelmente, não posso deixar de pensar que ele tem alguma razão! (Ah! Ah!)

06 setembro 2008

Chove

Chove muito, chove excessivamente...
Chove e de vez em quando faz um vento frio...

Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.


N'um dia no meu futuro em que chova assim tambem
E eu, á janella, de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah n'esse tempo eu era mais feliz»

Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!

Ah, meu Deus, eu que pensarei d'este dia n'esse dia

E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste

E ha uma grande duvida de chumbo no meu coração...


Álvaro de Campos

[57A-74r] Manuscrito de 20/11/1914. Edição crítica de Teresa Rita Lopes, editada pela editorial estampa em 1993 ( a minha edição é de 97, mas deveria chamar-se reimpressão...)

(imagem daqui)

05 setembro 2008

blogues bloqueados em bibliotecas

(foto daqui)

Li neste blogue, que muito aprecio e prezo, que na Biblioteca de Faro não se podia consultar blogues à vontade. Não se pode. Nem ali nem noutros locais, como na «minha» Universidade. Quase todos estes sítios públicos que têm jovens (e crianças, no caso da biblioteca) como utilizadores têm instalado um filtro que barra o acesso a sites com conteúdos associados a pornografia. Ora, ao encontrar algumas palavras consideradas obscenas, bloqueia. Isto chega ao caricato: sei de um caso de um colega de Latim que, ao colocar no blogue que criara para a sua disciplina um texto em que entrava o verbo latino puto, putas, putare, putaui, putatum (que significa «julgar, considerar»), foi bloqueado.
O mesmo se passa nesses lugares (onde este blogue, por causa do exemplo acima, ainda vai ser de acesso proibido, eheheh).
Mas, pelo que sei, qualquer utilizador pode pedir que determinado endereço seja desbloqueado, o que geralmente acontece, pois as direcções sabem que aqueles filtros são genéricos e que impedem o acesso a muitos sítios que não têm nada de impróprio. Aliás, na Biblioteca António Ramos Rosa (dita «de Faro») aparece a frase: «Se considerar que, neste caso, os conteúdos são didáctico-informativos, pode fazer um pedido de desbloqueio de página neste formulário».
Fulanizando a situação, a ideia que tenho da directora da Biblioteca de Faro é a de uma pessoa que, se não faz mais pela cultura é porque não pode.

04 setembro 2008

Foi quase como dizer: «Ó Sócrates, desculpa a franqueza, mas és feio»


Muitos homens têm a mania de dizer que não sabem apreciar outros homens. Sabem, pois. Vejam só o que diz Teodoro a Sócrates sobre o jovem Teeteto:


Se fosse bonito, teria bastante receio em afirmá-lo, para que não parecesse que estava apaixonado por ele. Agora, na realidade - e não te aborreças comigo -, não é bonito, pois é parecido contigo pela forma achatada do nariz e pelos olhos salientes; só que tem estes traços mais suaves do que tu. Estou a falar à vontade.

Platão, Teeteto, 143e.

03 setembro 2008

locus memoriae


Gosto de edifícios espelhados. Chamem-me provinciana, mas desde que vi, na então Berlim Leste, um antigo edifício (penso que era uma igreja) reflectido no vidro de uma construção moderna (tenho a foto algures), passei a ser fã.
Gostei do Centro Cultural Gil Vicente, no Sardoal.

(A foto de cima foi tirada no castelo de Abrantes)

02 setembro 2008

¡Mira! ¡Ya estoy navegando!

Pois é! A simpatia e eficácia do Nuno Mira, com o apoio da Liliana, ambos empenhados em ajudar-me a pôr isto a funcionar, conseguiram que a minha internet melhorasse significativamente. Parece que o problema era do cartão SIM e de não-sei-quê da rede... enfim, penso que tudo esteja bem, mas não sei se isso chega para que eu me mantenha cliente da TMN. Estão a ser problemas a mais.
Mas valeu a pena ir à loja. Enquanto o assunto não se resolvia, tive uma conversa excelente com o Nuno e com o Carlos (que ali estava para ser atendido), da United Press Photo, que se ofereceu para lavar a cara a este blogue. Quando acontecer, verão e poderão dar a vossa opinião.
Até lá, continua verdinho.

01 setembro 2008

prémios literários

- Doscientas mil pesetas por ir y venir a Madrid. Allí asistirá a una cena donde se concede un premio literario. Si una vez allí acepta el trabajo habrá pasta gansa.
- Pagada la cena?
- Hosti, jefe. Claro.
- Menú.
Pero no, no valía la pena pedir el menú de una cena donde se concede un premio literario. En esas circunstancias la gastronomía es lo de menos y sería una grosería que la cena fuera más buena que la obra premiada.

Manuel Vásquez Montalbán, El premio, Planeta 2005, p.63

(Nota: continuo sem net em casa...)

31 agosto 2008

ausência forçada...

... da blogosfera nos últimos dias.
Infelizmente, parece que, além de ter má transmissão de dados, estarei com problemas com a placa ou o modem. É o que me dizem da TMN e até já tenho «consulta» marcada numa loja (há lojas assim, só com marcação antecipada). Entretanto, nada de conseguir aceder através do meu computador. Como isso perturba o meu trabalho!
Enfim, quanto a ver resolvido o problema do valor cobrado indevidamente, parece que ainda terei de esperar. Darei notícias aqui de como ficou resolvida a questão.
Até lá, vou tentando ler e escrever de computadores alheios.

26 agosto 2008

De férias aqui...

... longe de casa... longe de livros e computadores... (bem... mais ou menos... eheheh)... longe de gatos... longe de cães...
Às vezes sabe bem afastarmo-nos do que amamos.

24 agosto 2008

certeza

... não é o que gostas, mas ainda assim espero por ti sem hesitar.

(Anacreonte, Fragmentos elegíacos 1. Tradução minha).

23 agosto 2008

Da natureza dos homens (bons)

Os Gregos (e os Romanos também - veja-se César, descendente de Vénus) gostavam de apresentar um deus na origem da sua família. Heródoto conta-nos esta lição dada pelos sacerdotes egípcios, sobre a natureza humana dos... homens:

«trezentas gerações correspondem a dez mil anos, pois três gerações equivalem a um século, e além das trezentas gerações as quarenta e uma restantes correspondem a mil trezentos e quarenta anos.

Então, durante esse período de onze mil e trezentos e quarenta anos, dizem os sacerdotes, não houve rei algum que fosse um deus sob forma humana, nem aconteceu isso antes ou depois desse período entre os restantes reis dos egípcios.

O historiador Hecateu esteve antes de mim em Tebas, onde traçou para si mesmo uma genealogia que vinculava sua linhagem a um deus na décima sexta geração de seus antepassados.

Mas os sacerdotes de Zeus fizeram para ele o mesmo que fizeram para mim, que não lhes havia apresentado a minha genealogia. Eles me levaram ao grande pátio interno do templo e lá me mostraram estátuas colossais de madeira, contando-as até o número que já me haviam dado, pois cada sumo-sacerdote deixa lá enquanto vivo um estátua sua; contando-as e apontando para elas, os sacerdotes mostraram que cada um deles herdou a função sacerdotal de seu pai, e começando pela estátua do último sacerdote morto eles me fizeram passar diante de todas as estátuas.

Então, quando Hecateu traçou sua genealogia e reivindicou para seu décimo sexto antepassado a condição de deus, os sacerdotes também traçaram uma genealogia de acordo com o seu método de computação, pois não se deixariam convencer da possibilidade de um homem descender de um deus; eles traçam a genealogia ao longo da fileira completa de trezentos e quarenta e cinco estátuas colossais, chamando-as Píromis, filho de Píromis, mas sem associá-las com qualquer antepassado, deus ou herói (píromis em língua helênica significa apenas um homem bom).

Assim eles mostraram que todas aquelas pessoas cujas estátuas se alinhavam lá haviam sido homens bons, mas estavam muito longe de ser deuses»

(texto de Herótodo daqui)

22 agosto 2008

Por hoje Nelson Évora ter feito ouvir o hino em Pequim

(imagem daqui)

Há alturas em que para os homens a maior necessidade
são os ventos; outras vezes, são as águas do céu,
chuvosas filhas das nuvens.
Mas se com esforço alguém chega a vencer,
os hinos de som de mel

constituem o início de posteriores discursos
e o fiel garante para êxitos enormes.

Sem inveja alguma este louvor é devido
aos vencedores olímpicos.


Píndaro, Ode Olímpica XI, in Poesia Grega, Cotovia, 2006, em tradução de Frederico Lourenço.

20 agosto 2008

As Bacas

Esta peça de Eurípides que a Charlotte seleccionou como leitura para as férias fez-me lembrar a questão da tradução dos títulos. Fala-se muito dos títulos de filmes e livros modernos e contemporâneos mas poucas vezes dos clássicos. Claro que isto tem razão de ser: séculos de tradição de tradução; poucas edições portuguesas de alguns títulos potencialmente mais polémicos; títulos simples atribuídos a posteriori (nomes de pessoas ou lugares, por exemplo).
Há uns meses conversava com um colega da U. Coimbra sobre a tradução que ele iria fazer do nome de uma comédia de Plauto intitulada Poenulus. Em inglês aparece como The Little Carthaginian, The Young Carthaginian, The Puny Punic. Das várias hipóteses por ele levantadas, a que mais me agradou (e divertiu pela sonoridade conseguida) é O Punicozinho.
Não sei se será esta a eleita aquando da publicação...
Voltando à tragédia de Eurípides, o nome pelo qual é conhecida é As Bacantes. Já foi várias vezes representada (vi-a há 13 anos - confirmei agora - na Gulbenkian, no anfiteatro ao ar livre, pela Escola de Mulheres) e traduzida em muitas línguas. O nome que lhe damos vem, como quase todos, através do latim, e do radical bacchant- chegamos a bacante.
Ora como o nome grego é, de facto, Βακχαι (Bacchai), o tradutor brasileiro, Jaa Torrano, optou pela forma transliterada e chamou-lhe Bacas.
Sei que não devia, mas não consigo deixar de me rir.

19 agosto 2008

As coisas são como são

A minha amiga Teresa Perdigão, antropóloga, criou, finalmente um blogue. Depois de lhe ter xingado a cabeça (como diria a minha avó brasileira) para que o fizesse, decidiu-se a apresentar-nos o As coisas são como são.
Passem por lá e leiam-na!