27 maio 2009

Uma virgem concebeu de um deus

Este mitologema*, comum a várias culturas (veja-se o exemplo de Reia Sílvia, virgem vestal, que engravida do deus Marte e dá à luz os gémeos Rómulo e Remo, que vêm a ser os fundadores da cidade de Roma), parece que também servia de desculpa para alguns deslizes.

Na tragédia Íon, de Eurípides, quando o jovem que dá o nome à peça sabe que é filho do deus Apolo, de quem fora sacerdote toda a vida, e da princesa (agora rainha) Creúsa, ousa duvidar do seu nascimento divino:

Olha, mãe, não terás caído devido às fraquezas que acontecem às jovens num amor secreto, atribuindo depois ao deus a culpa - e procurando fugir à vergonha do meu nascimento, afirmas que me deste à luz para Febo, quando não foi de um deus que concebeste?

Trad. de Frederico Lourenço para as Edições Colibri, Lisboa, 1994.

*Kerényi explica (e explana entre as pp.3 e 5 do livro indicado abaixo) que os mitologemas são o material mítico de que são feitos os mitos, isto é, a que os mitos dão forma; são «an immemorial and traditional body of material contained in tales about gods amd god-like beings, heroic battles and journeys to the Underworld (...) - tales already known but not unamenable to further reshaping.»


Jung & C. Kerényi, The Science of Mythology, Routledge.

22 maio 2009

A sétima filha

Desde que me lembro, fui confrontada com a realidade da vida e da morte.
Sempre soube que só nasci, porque a minha irmã mais velha tinha morrido, pois não seria intenção dos meus pais terem sete filhos.
Nunca fiquei contente por os meus pais terem passado pela morte de filhos (já vão em 4), mas neste caso específico... tenho de admitir que estou contente por ter nascido.
Sei que foi muito difícil para os meus pais fazerem festas em vez de ir ao cemitério e eu agradeço-lhes por isso, por não terem tornado este dia cinzento, mas sempre um dia de festa.
Obrigada e muitos beijinhos, Mãe. Quando aí for mostro-lhe este postal.

19 maio 2009

Educação sexual: orgias e bacanais


Acho que os meus pobres Hércules estão condenados! Na página 141 e 142, do primeiro volume, não só falo de orgia, mas também de bacanais.
E até explico (traduzindo um decreto do Senado de Roma, de 186 a.C.) quais a regras de um bacanal, como esta, que indica a quantidade e a proporção de participantes:
«cinco pessoas no total, e nesse grupo de cinco não pode haver mais de dois homens nem mais de três mulheres. O número pode ser excedido por uma autorização do senado»
Se um dia os nossos parlamentares decidirem legislar...

18 maio 2009

quando a arte é a desmedida

(foto daqui, da exposição na galeria dos meus amigos Christoph Maisenbacher e Paula de Lemos-Maisenbacher)

Tenho um anãozinho destes, de Ottmar Hörl.

Tenho uma flor de plástico e pano numa jarra lindíssima de design contemporâneo.
Tenho um casaco espampanante, com bordados coloridos (azul turquesa, laranja, rosa, amarelo, vermelho)...
Sempre gostei de kitsch, dizia eu.

Na sexta e no sábado, a questão do kitsch levantou-se em dois momentos diferentes e eu expliquei, a quem me perguntou, que achava que o kitsch era uma opção estética, uma intencionalidade de um uso de um elemento que, entre iguais, seria piroso ou foleiro, mas que descontextualizado e com essa intencionalidade era kitsch.

No domingo, a arrumar papéis, encontrei, por mero acaso, um artigo da minha colega (de quem não sei há tanto tempo e com quem gostava tanto de conversar) Idalina Sardinha, da Universidade da Madeira, intitulado «"kitsch" e "artesanato" na Madeira» (in Espaço-Arte, Funchal, ISAPM, nº 7, s.d., pp. 30-37)
. Muito interessante. Citando Moles, explica que o kitsch é a medida do homem quando a arte é a desmedida. Gostei. E continua Moles a dizer que o kitsch dilui a originalidade a um nível de mediania para que esta seja aceite por todos (tradução de tradução: minha do francês que está no artigo, sendo que o original é alemão).

Decidi então procurar mais informações sobre o kitsch e aqui aprendi que afinal não gosto verdadeiramente de kitsch, pois aquilo a que chamo kitsch é resultado de um uso metacomunicativo e elitista da palavra. Ufa!

16 maio 2009

obra de arte


-Eu acredito que há um sopro divino em cada criação.

- Tenho uma ideia diferente. Para mim uma obra de arte é o trabalho árduo que o artista constrói à volta de um momento de maior sensibilidade. Não acredito nessas coisas de inspirações divinas, de sopros ao ouvido.

Luís Costa Pires, Ao Teu Lado, Lisboa, Vega, 2008, p.49

Sentada na minha sala, a ver este céu de Olhão, azul, mais azul ainda por estar em contraste com o branco dos muros, penso que me vai saber bem ir a Faro na hora do chá, pelas 17.30, tomar uma chávena no Pátio@bar, enquanto converso com o escritor na apresentação do livro, no espaço da linda livraria Pátio de Letras.

12 maio 2009

Fim da semana em cheio, no Algarve

Alguns dizem-me que me disperso em actividades que não contam para o currículo académico e que me devia concentrar apenas nos cássicos greco-latinos.
Pois. Se calhar devia.
Mas eu sou assim e sou entusiasta de muitos outros saberes (foi assim que me defini neste blogue).
Sendo a minha área de formação inicial os estudos clássicos e portugueses e gostando eu de escrever, estas actividades não me dispersam e contam, efectivamente, para me darem alegrias, bons momentos, e isso é fundamental para o meu pequeno percurso de vida, que é isso mesmo que signifia curriculum vitae.

Esta semana, vou ter várias actividades: na quinta, na sexta e no sábado.
Quem estiver pela zona, apareça!

Na quinta-feira, no âmbito do clube de leitura de Loulé (que tenho a honra e o prazer de moderar), vou apresentar o livro de Luís Costa Pires, Ao teu Lado (que já aqui referi e ainda aqui voltarei a ele). Será às 21.30, na Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner.

Na sexta-feira, dia 15, vou apresentar em Faro, na Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, o projecto «A minha primeira leitura», que um grupo de alunas da escola secundária João de Deus desenvolveu, no âmbito da disciplina Área de Projecto. Será às 18.30 e far-se-á a apresentação do livro que elas escreveram e produziram.

Na mesma sexta-feira, mas às 21.30 e em Albufeira, na Biblioteca Municipal, irei falar do livro de Inês Pedrosa Fazes-me Falta, no âmbito de um ciclo de leituras sobre a escritora.

E no sábado, dia 16, às 17.30, na Livraria Pátio de Letras, aproveitando a presença do autor, irei apresentar, de novo, o livro de Luís Costa Pires, Ao teu Lado.

09 maio 2009

livros de hetero-ajuda: os antigos dos antigos


Que tendência é esta, Lucílio, que nos desvia do rumo pretendido, que nos empurra para o ponto donde pretendemos sair? Que debate se desenrola na nossa alma e nos impede de manter uma vontade firme? Andamos à deriva entre resoluções contrárias; não conseguimos ser fiéis a uma vontade livre, absoluta, constante. Dirás tu que é prova de insensatez não ter um propósito, um interesse permanente. Mas dessa insensatez como e quando nos conseguimos libertar? Por si só, ninguém conseguirá sair do remoinho; é necessário alguém que estenda a mão e ajude a pisar terra firme.
(...)
Não se deve menosprezar alguém que se salva graça à ajuda dos outros, pois querer ser salvo não é questão de somenos importância.
(...)
Eu considero mais afortunado o homem que não teve problemas com o seu carácter, mas acho mais digno de apreço o que teve de vencer os seus defeitos naturais para alcançar a sabedoria, ou melhor, para se elevar até ela à força de pulso.
(...)

Caminhamos através de obstáculos. Lutemos, portanto, sem temer pedir o auxílio alheio. Perguntarás: «Mas a quem, a quem hei-de pedir auxílio?»
Se queres um conselho, dirige-te aos antigos, que estão disponíveis: para nos auxiliar tanto podemos recorrer aos vivos como aos mortos.

Séneca, Cartas a Lucílio, 52. Tradução de J. A. Segurado Campos e profusamente citada neste blogue.

08 maio 2009

Escola trilingue

Se divulgo aqui actividades das pessoas que não conheço, com mais prazer o faço relativamente às que conheço.
A minha amiga Eglantina Monteiro (que também foi minha colega na Universidade do Algarve) está à frente de um projecto a que chamou Escola Internacional de Castro Marim e procura educador(a) de infância e professor(a) do 1º ciclo do ensino básico para leccionar.
O Público e outros jornais noticiaram e o Jornal Regional foi mais longe, fazendo-lhe uma grande entrevista.
Quem estiver interessado (num pdf com a divulgação ou no emprego) pode mandar-lhe um mail para eicastromarim@gmail.com
É bom saber que há pessoas dinâmicas e com qualidade, como ela.

07 maio 2009

A minha amiga Ana desafiou-me a dizer quais foram as séries que deram consistência à minha vida. A consistência que deram, não sei dizer, mas com alguma coisa devem ter contribuído, já que eu ficava sentadinha a vê-las.
A que tenho na memória como mais antiga, ninguém com quem falei se lembra dela. Nem na net encontrei, pois não sei qual o título original. Chamava-se Os meus sobrinhos e só sei que gostava muito de a ver.
Outra de que ninguém se lembra mas que está na net, é o Randall e Hopkirk . O problema era que eu só me lembrava de ser Randal e algo como «Opecaique» e foi um caso sério para a descobrir. Gostava daquele detective fantasma que entrava em todo o lado e que ninguém via e era atropelado no início de casa episódio (eu era pequenina e não sabia que se chamava genérico).
Do Casei com uma Feiticeira só me lembro daquele nariz que me fascinava! Mais tarde vi alguns episódios, mas não foi a mesma coisa.
Depois, mais crescidita, gostava de ver o Espaço 1999 - admirava a Barbara Bain e o Martin Landau, nomes que decorei desde essa altura.
O gosto pela ficção científica foi alimentado por O Caminho das Estrelas. O nome do actor que fixei foi o de Leonard Nimoy, o Mr. Spock. Vi nos EUA, em 2000, um documentário intitulado Trekies e percebi que o fenómeno dos fãs da série era impressionante e que eu não passava de uma mera apreciadora ocasional.
Recordo-me de gostar de O Sinal do Dragão, com David Carradine, da qual me ficou na memória o genérico em que se via o rapaz em criança e, mais tarde, como ficara tatuado no braço o sinal do dragão. Lembro-me ainda do professor cego que lhe dava lições de moral, em forma de adágios.
Uma casa na pradaria - A família boazinha e os detestáveis meninos mimados da loja lá do sítio. Vinha muito a propósito do espírito com que eu voltava da catequese.
Os pequenos vagabundos - ainda hoje me lembro da música, apesar de não me lembrar de mais nada. Bem, agora já não é bem assim, pois quando fui procurar no google e encontrei um episódio, vi que me lembrava de muito mais do que pensara.
Gente do amanhã (desta série sabia o nome em inglês: The Tomorrow People) - lembro-me de que eram jovens e que faziam viagens no tempo (assunto que ainda hoje me fascina).
Sandokan - Gostava muito de ver as aventuras do Tigre da Malásia. No ciclo preparatório, todas adorávamos os olhos do Kabir Bedi...
MacGyver - sempre me fascinou o modo como conseguia usar coisas simples para sair de situações complicadas e fazia-me sempre pensar que devia ter aprendido coisas daquelas nas aulas de físico-química. A personagem era um pouco irritante, porque era sempre muito bonzinho e nunca tinha namoradas.
Balada de Hill Street - Não perdia um episódio. Eram todos fantásticos!
Black Adder - Delirante! Custava-me sempre o episódio em que ele morria e irritava-me ao ver como era uma pessoa horrível... mas era irrestível. Ainda hoje digo uma frase que tantas vezes ouvi do Baldrick: I have a cunning plan... (o actor, Tony Robinson, era amigo de um amigo meu inglês, infelizmente já falecido). E foi lá que conheci o Hugh Laurie. Sim, sou das que gosta do Dr. House.
Colombo - confessar que já comprei todas as séries que saíram em DVD diz qualquer coisa... A personagem era tão forte, que foi estranho ver o Peter Falk no filme de Wim Wenders, As Asas do Desejo.

Passo a quem quiser!

04 maio 2009

oximorices

Os leitores deste blogue sabem que o meu Pai me contava muitas histórias e historietas e que me recitava poemas. Também sabia muitas adivinhas, ditos engraçados e lengalengas, bem como trava-línguas e outros divertimentos linguísticos.
Aqui vai mais um, cheio de oxímoros:

Era noite e o sol brilhava por entre as trevas de um claro dia.
Um jovem ancião, sentado de pé, num banco de pau de cantaria, calado, assim dizia:
Era não era no tempo da hera, tinha o meu pai morto e minha mãe por nascer. Disseram-me que não podia ser. Pus as pernas às costas e abalei a correr.
Subi por uma escada abaixo e desci por ela acima. Lá em cima estava um pessegueiro carregado de maçãs. Colhi avelãs. Veio o dono dos marmelos e disse: «Ai, ladrão, deixa os meus figos que o meu pai tinha guardado para dar aos meus amigos!»

03 maio 2009

Chorei, pronto!

Palavra puxa palavra, canção puxa canção, começámos a ver vídeos do festival da canção de 70, depois de 69, depois da eurovisão de 72 e, de repente, nas sugestões laterais do youtube aparece o avec le temps, pela Dalida.
A Dalida... há uns tempos largos ouvi um programa do Júlio Isidro na Antena 1 em que ele lhe fazia uma homenagem. Tinha tido uma série de amores infelizes e suicidara-se.
Vamos à wikipédia. Sofreu por um amor não correspondido pelo Luigi Tenco.
Outras memórias. Sicília. Mi sono innamorato di te perché non avevo niente da fare...
Je suis malade cantado por Dalida e Serge Lama.
Não sabia que tinham cantado juntos.
E não tinham.
Já reparaste que faz anos hoje que morreu?

22 anos depois, aqui vos deixo Je suis malade:


02 maio 2009

Não foi desta...

Parece que à quarta não foi de vez e a PT voltou a faltar na segunda-feira passada e a não comparecer aqui em casa, como previamente marcado (sempre unilateralmente. Nunca me perguntam se estou ou não).
Continuo sem uma rede de jeito para ir à internet...
É por estas e por outras que não gosto de monopólios, maiorias absolutas e coisas assim.

30 abril 2009

Efeito Imediato

(imagem daqui)

Fui, na semana passada, com os meus alunos de Teoria do Drama e do Espectáculo, ver a peça Efeito Imediato, que está em cartaz nas datas que indico no fim do postal.
Em inglês chama-se The Boatswain's Mate e é uma ópera que a compositora Ethel Smyth, Dame Ethel Mary Smyth, escreveu em 1916.
É um espectáculo divertido e foi a primeira vez que ouvi ópera naquele teatro tão lindinho que é o Lethes.
Não sei escrever sobre o estes assuntos como a minha amiga Gi, mas sei que gostei muito do que ouvi: um canto limpo, claro, bem interpretado vocal e teatralmente falando.
A peça é acompanhada ao piano e muito bem cantada por Ana Barros, soprano, a heroína, João Cipriano Martins, tenor, o Boatswain que arranja a tramóia toda e dela sai como vítima, e Nuno Dias, barítono, o companheiro do antigo marinheiro e elemento fundamental no embuste. Mário Spencer, baixo, faz um pequeno papel, mas apesar de ter tido formação em música, a sua carreira é de actor e, por isso, a sua voz destoa das outras, bem trabalhadas, dos colegas. Como o papel é pequenino e já estamos todos tão divertidos, não estraga.

No livrinho que a ACTA distribuiu (e em todo o lado onde se fala desta peça), Nuno Dias é apresentado como baixo. Se bem que essa possa ser a sua voz (a biografia apresentada diz que tem interpretado papéis como o de Sarastro, Leporello), aqui canta com uma excelente voz de barítono. Deve ser um baixo-barítono (já fez um Fígaro ou um Escamillo, exemplos típicos de baixos-barítonos).
A peça é cantada em português, alemão e inglês, não sendo as partes nestas duas línguas impeditivas da compreensão da acção.
Tive pena de ver a sala tão vazia. Estes cantores mereciam os aplausos de uma sala cheia.
Deixo aqui as datas das próximas apresentações. Se estiveram por aqui, não se vão arrepender.


Sexta, dia 01 de Maio - 21:30

OLHÃO - Auditório Municipal

Quinta, dia 04 de Junho - 21:30
FARO - Teatro Lethes

Sexta, dia 05 de Junho - 21:30
FARO - Teatro Lethes

Sábado, dia 06 de Junho - 21:30
FARO - Teatro Lethes

Domingo, dia 07 de Junho - 16:00
FARO - Teatro Lethes

29 abril 2009

Que delícia!

Saboreiem estas receitas, elaboradas por alunos do 9º ano, da Escola Secundária Emídio Navarro, em Almada:

Receituário à portuguesa

Como nascem as línguas? Há umas que sejam mais difíceis que outras, línguas mais caras e línguas mais em conta? Quanto tempo demora a saborear o português ou o castelhano ou o finlandês ou... Há línguas para todos os sabores ou há línguas com sabores especiais? A nossa, certamente, que os tem, pelo menos para nós, esses especiais gostos com que nos identificamos desde o nascimento. Mas voltemos à questão inicial, há ou não receitas para as línguas faladas? Há, há, respondem-nos os alunos do 9.ºA e do 9.ºC. E para o provar aqui ficam dois exemplos de trabalhos efectuados na aula de Língua Portuguesa.

Língua à Portuguesa

Dificuldade: alguma
Tempo: muito
Custo: baixo

Ingredientes:

1 concha de substracto Celta
20 kg de língua de latim vulgar
1 kg de língua de latim literário congelado
1 chávena de superstracto Germânico
1 chávena de superstracto Árabe
1 colher de sopa de palavras provenientes da expansão
1 pitada (q.b.) de estrangeirismos acabados de colher

Modo de preparação:

Revista harmoniosamente o fundo da panela com a porção de substrato Celta e coloque-a no fogão em lume brando. Algumas centenas de anos depois, sobreponha repentinamente o latim vulgar e aumente o lume. Ao longo dos próximos 8 séculos, vá mexendo e trabalhando a língua e após esse intervalo de tempo recheie-a levemente com superstrato Germânico. Passados mais 300 anos acrescente o recheio árabe. Verta, então, o conteúdo da panela para outro recipiente e leve-o a forno médio. O recipiente deverá ser bastante fundo e largo, pois passados 700 anos a língua vai expandir-se. Devido a essa expansão você ver-se-á obrigado a adicionar palavras de outras origens ao seu cozinhado. Retire o recipiente do forno e deixe-o arrefecer um pouco. Descongele então o latim literário e unte a preparação com este ingrediente. A partir desta altura, condimente gradualmente o prato, com uma pitada de estrangeirismos. Coloque novamente o recipiente no fogão em lume médio. No entanto prepare-se, pois esta será a parte mais delicada da preparação. Ao longo desta cozedura você reparará que se formarão na superfície da língua pequenas manchas escuras e já sem gosto, denominados Arcaísmos. Retire-os do cozinhado, pois não fazem falta alguma. Para compensar esta perda, formar-se-ão deliciosos temperos que completarão a sua deliciosa língua (Neologismos). Não obstante, esta receita encontrar-se-á sempre incompleta. Nunca irá desfrutar desta eternamente.

9.ºC

Cataplana de Língua à Portuguesa

Ingredientes: (170 milhões de pessoas).
-800000 postas de substrato Celta, demolhado;
-18 toneladas de latim vulgar;
-70000 ramos de superstrato Germânico;
-17 toneladas de Galaico-Português;
-40000 neologismos a murro;
-Fios de estrangeirismo;
-Superstrato Árabe.

Modo de preparação:

Esfregue o superstrato Germânico com o superstrato Árabe.
Junte o substrato Celta com o Latim vulgar, previamente misturado com o Latim literário.
Regue com as medidas e acrescente com as toneladas de Galaico-Português.
Coloca-se em banho Maria-Manuel, para manter o preparado quente.
Leve ao forno durante 3 séculos, numa temperatura de 150º.
Acompanhe com neologismos a murro.
Se quiser, sirva com fios de estrangeirismo.
E puf !!! Fez-se o Português.....

Tempo de preparação: ???????

Nota: Esta receita está em constante confecção.

9.ºA

27 abril 2009

PT comunicações - à quarta é de vez?

Já me tinham avisado que isto poderia acontecer. Tinham-me dito que, quando contratamos um serviço de internet + telefone fixo, sem ser da PT, que esta atrasa e não cumpre.
É o caso.
Por três vezes tive de ficar em casa à espera que viessem para que a Vodafone pudesse posteriormente fazer a parte dela, mas nada. Até sei que, de uma das vezes (não sei se das três), alegaram ausência da proprietária.
Pode ser que hoje, à quarta, seja de vez...

24 abril 2009

Confraria do Príapo

(Príapo em Zamora. Foto de stavlokratz, daqui.)

Hoje, no Público, disseram-me que na pág.20 do Local (Lisboa) vem uma notícia sobre a criação da Confraria do Príapo, na qual sou referida. Não vi ainda o jornal, mas estou à espera de o arranjar para pôr aqui a nota.
A notícia foi escrita por Carlos Cipriano, que também fez uma peça para a Gazeta das Caldas para a qual me pediu uma pequena informação sobre Príapo. Escrevi assim (tenho a notícia em pdf, mas não sei pôr aqui no blogue):

Jove é senhor do raio, Neptuno do tridente;

Marte é dono da espada, a lança é tua, Minerva;

Líber trava combate com tirso e tiras de erva;

a mão de Apolo setas envia bravamente;

de Hércules a direita segura o cruel bastão,

e a mim me faz terrível a piça com tesão.

Estes versos, traduzidos do Corpus Priapeorum pelo Professor Carlos Mora, da Universidade de Aveiro, descrevem as características de muitos deuses conhecidos, como Júpiter, Neptuno ou Marte, pondo, no final, na boca do próprio Príapo as palavras que melhor o descrevem.

Dono de um pénis em erecção descomunal, Príapo é normalmente apresentado como filho de Afrodite, deusa do amor, e de Dioniso, deus do vinho.

Vergílio (70-19 a.C.), nas suas Geórgicas (IV, 111), invoca-o como deus protector das plantas. De facto, os jardins e as hortas eram o seu local de eleição e de culto por parte dos lavradores. Talvez por isso a palavra hortus em latim tenha também o sentido de ânus, quando num contexto sexual.

Príapo, a personificação do phallus (falo), tem também uma função apotropaica, isto é, a de afastar o mau olhado, principalmente dos invejosos que poderiam prejudicar as colheitas. Os romanos usavam o falo como amuleto, algumas vezes representado como um pénis alado, do qual pendiam sininhos que tilintavam com a aragem, de forma a afastar os maus espíritos, produzindo o efeito semelhante aos ainda hoje conhecidos «espanta-espíritos».

Tal como o dedo em figa que balança nos espelhos dos carros, ou o manguito que o Zé Povinho nos faz, ou um «das Caldas», o falo estava representado tanto em casa como nos espaços públicos.

A figura do velho com um pénis desmesurado e em erecção pode ter surgido para dar forma a um culto que inicialmente se centrava em apenas uma parte do corpo.

A medicina apropriou-se desta característica física da personagem (apresentada no mito como deformidade vergonhosa, tendo o deus sido escondido para não embaraçar os pais) para descrever uma doença em que o falo erecto não volta ao estado normal, podendo provocar impotência sexual.


23 abril 2009

Susan Boyle

Já não me lembro como se publicam filmes do YouTube no blogue...
Mas não faz mal: sigam o link e terão uma surpresa, como eu tive (e muitos outros tiveram).
Que espanto! Aquela voz não parece sair daquele corpo!
Vi Les Miserables em Londres, há muitos anos, mas não era a Elaine Paige que cantava. Pena tenho que não tivesse sido já a Susan Boyle!
(Agradeço ao BlogOperatório a descoberta)

Depois de escrever este post, fui ouvir mais umas duas ou três vezes o vídeo.
Será que esta mulher não tem noção da voz que tem?
Em 1999 já tinha gravado cry me a river num CD de caridade...

Depois de escrever estas 3 linhas e de a ouvir mais uma vez a cantar, fui ler na wikipedia o que se dizia sobre ela.
A «Susan Simple» é, de facto, uma pessoa espectacular.
Se conseguiu resistir 47 anos a um tratamento de quase desprezo, tenho esperança de que não mude a sua simplicidade devido à fama.
Haverá oportunistas a rondá-la, é claro, mas pode ser que seja precisamente a sua simplicidade que a venha a proteger.
Assim queiram os deuses e as musas!

22 abril 2009

O Pai e a Joana


A menina fofinha, no meio dos primos, chama-se Joana e faz hoje 26 anos. Quando ela nasceu o meu pai (seu avô) fazia 70.

22 de Abril.
O meu pai sempre me disse que nascera no dia da descoberta do Brasil. Talvez por isso eu goste especialmente desta fotografia, tirada na Madeira, em 1995, com o Atlântico como fundo. Tinha 82 anos.

Esta fotografia é de Novembro de 2004, quando fiz a apresentação do meu segundo livro do Hércules no Bombarral. Lá está ele sentado na casa de costura, à janela. Tinha 91 anos e iria ficar connosco só até 11 de Janeiro seguinte.

Aqui era um jovem. Aliás, sempre pareceu jovem e muito mais jovem do que 1913 permitia pensar. Não tinha rugas e os dentes eram todos dele (não dos comprados, mas produto original).
Católico que vivia a Igreja, vicentino e outras coisas mais, um dia soube que foi galã em peças de teatro amador.
Contava-me muitas histórias e era mais divertido do que queria parecer.

21 abril 2009

Menores de 35


Quando eu era oficialmente jovem, esse estado acabava aos 26 anos. Era com essa idade que se deixava de poder fazer o InterRail, que se deixava de poder usufruir do crédito jovem à habitação, que se deixava de poder gozar as vantagens do cartão jovem, etc.
Apesar de ainda haver jovens que pensam (até conheço alguns!), criou-se um prémio para tal actividade e eu recebi-0!

Puro engano do Nuno Faritas Lobo! Pensar, penso, mas já não sou legalmente jovem!

Portanto, sem-se-ver, Gi, José Bandeira, Miguel, Méon, António, Teresa, José Ricardo, Tomás, Mirian, lamento denunciar-vos ... gostava de vos dar este prémio, pois sei que são jovens e que pensam, mas já ultrapassaram a barreira dos 35...

20 abril 2009

O Punicozinho

(clique na imagem para aumentar)

Em Agosto passado referi aqui, a propósito das Bacas, a tradução do Poenulus de Plauto, por José Luís Brandão, professor de clássicas na Universidade de Coimbra.
Pois bem, já vi que a minha sugestão para que escolhesse O Punicozinho como tradução do título não foi aceite...
Mas como não sou de rancores, podem ver O Fulaninho de Cartago (pronto... admito... é melhor solução do que Punicozinho....) no Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico em diversos palcos e em diversas datas. O programa e as sinopses estão em blogue próprio.