18 março 2009

(De)Valoración Docente


Por vezes tenho dificuldade em reagir com tranquilidade perante factos que me impressionam.
O que se está a passar em Portugal em diversas áreas da função pública assusta-me.
Como sou professora, o que se está a passar com o ensino e com os docentes do ensino básico e secundário (quando será que chega a nós?) é realmente assustador.
Ao ler no De Rerum Natura este «postal», lembrei-me de um vídeo que me enviara, divulgado pela Junta da Extremadura, mesmo aqui ao lado do Algarve, na Espanha. A campanha chama-se Valoración Docente e vale a pena ver.

http://www.educarex.es/documentos/anuncio/anuncio.html

16 março 2009

Verdades (6) ou mentiras (3)?

Corre um desafio pelo blogobairro em que temos de escrever 9 coisas sobre nós, das quais 3 terão de ser mentira e 6 verdade. Os visitantes terão de descobrir quais são as 3 mentiras e num futuro post (ou actualização deste) indicarei as respostas certas.
Não vou passar a outros blogues, como era suposto, pois tenho andando arredada destes espaços e arriscava-me a nomear quem já respondeu. Assim, deixo ao critério de cada um.
Ah, e quem me meteu nisto foi o Nandokas .

1) O meu desporto favorito é a natação. Pratico desde pequena e moro no Algarve para poder estar mais tempo por ano perto do mar e poder nadar.
2) Pratiquei basquetebol em jovenzinha e até fui federada. O ser baixinha não foi impedimento.
3) Pratiquei judo na juventude, mas não passei de verde por causa dos combates.
4) Conheci e privei com campeões de judo, incluindo um nosso representante nuns Jogos Olímpicos.
5) Fiz ballet e andei em pontas.
6) Já tive a vida em perigo numa gruta, a fazer espeleologia.
7) Já estive presa num elevador com mais 4 pessoas durante 2 horas.
8) Sofro de claustrofobia.
9) Raramente falto a uma aula de esgrima e, apesar da idade, o meu mestre pensa levar-me aos próximos campeonatos nacionais.

11 março 2009

Um título possível: vergonha na cara. Outro título: obras públicas. Outro título: extenuada. Enfim, não sei o que hei-de chamar a isto.

O título deste post remete para o que sinto e para o texto que vos trago.

Hoje tomei-me de coragem (gosto deste uso do verbo) e voltei ao blogue. Isto da vergonha é terrível: quanto mais o tempo ia passando maior ela ia sendo e eu sem saber como pedir desculpa a todos os amigos pela falta de notícias neste espaço. A única coisa boa é que a razão da ausência é o muito trabalho. O resto está bem (não contando com as mazelas próprias da idade, claro).

Andava eu à procura de qualquer coisa para escrever dia 8 e peguei em Plutarco, n' A Coragem das Mulheres. Encontrei aí, a propósito de uma outra heroína, a referência a uma mulher discreta e sem nome que, com uma frase inteligente, levou os homens da sua terra a terem vergonha na cara e a fazerem frente a um déspota que, tendo começado por lhe agradar, acabou por humilhar o povo que o tinha eleito.

Deixo-vos com Plutarco, que conta melhor a história que eu:

o tirano Aristodemo [governou em Cumas, na Itália, à volta de 502-492], de quem alguns, devido à sua alcunha de «Brando», pensam que de facto o era, mas desconhecem a verdade. (...) Nesta campanha militar [contra os Etruscos], que durou muito tempo, ele cedeu em tudo para agradar aos cidadãos que faziam parte da expedição e, mais como demagogo do que como general, persuadiu-os a juntarem-se para atacar o Senado e expulsar os melhores e mais poderosos. A partir de então tornou-se tirano, e nas injustiças para com as mulheres e jovens livres superou-se a si mesmo em perversidade. Conta-se que impunha que os jovens usassem cabeleira comprida e ornamentos de outro e que obrigava as raparigas a rapar o cabelo e a vestir trajos masculinos e roupa interior curta. (...)
Acontecia que, por aquela altura, Aristodemo abria um fosso à volta do seu território - uma obra que não era útil nem necessária - simplesmente porque desejava esgotar e extenuar os cidadãos com trabalhos e dificuldades. Com efeito, tinha sido ordenado a cada um que retirasse um determinado número de medidas de terra.
Uma certa mulher, ao ver que Aristodemo se aproximava, desviou-se do caminho e cobriu o rosto com a túnica. Quando o tirano se foi embora, os jovens riram-se dela e perguntaram-lhe, no gozo, por que razão o seu pudor a fizera evitar apenas Aristodemo, já que não tinha tal sentimento em relação aos outros homens. Mas ela respondeu com muita seriedade e disse: «Porque Aristodemo é o único homem entre todos os de Cumas».
Esta frase, dita deste modo, tocou-os a todos, e aos nobres de espírito, por vergonha, incitou-os mesmo a lutar pela liberdade.


(tradução de Maria do Céu Fialho, Paula Barata Dias e Cláudia Cravo, todas da Universidade de Coimbra e editada pela Minerva, em 2001)

24 fevereiro 2009

Emo... séc. XIX

O acaso levou-me um destes dias a contactar com o conceito de emo. Na verdade, não sei bem o que é um emo... e, por estas várias definições (e alguns dos comentários), fiquei com a impressão que nem os próprios sabem bem.
Ao reler o Coração, Cabeça e Estômago, do Camilo, lembrei-me disto tudo com Silvestre da Silva:

entendi que a desordem dos cabelos devia ser a imagem da minha alma. Comecei, pois, por dar à cabeça um ar fatal, que chamasse a atenção e aguçasse a curiosidade dum mundo já gasto em admirar cabeças tão vulgares. A anarquia dos meus cabelos custava-me dinheiro e muito trabalho. Ia, todos os os dias, ao cabeleireiro calamistrar os longos anéis, que me ondeavam nas espáduas; depois desfazia as espirais, riçava-as em caprichosas ondulação, dava à fronte o máximo espaço e sacudia a cabeça para desmanchar a torcida deletriadas da madeixa. Como quer, porém, que a testa fosse menos escampada que o preciso para significar «desordem e génio», comecei a barbear a testa, fazendo recuar o domínio do cabelo, a pouco e pouco, até que me criei uma fronte dilatada, e umas bossas frontais, como a natureza não dera a Shakespeare nem a Goethe.

18 fevereiro 2009

Em profundo silêncio, seguem por vereda íngreme, escarpada,
escura, envolta em espessa neblina. Não estavam longe
do rebordo superior da terra. Cheio de amor, com medo
de que Eurídice desfaleça e ansioso por vê-la, Orfeu volta
o olhar. Logo ela cai de novo. De braços estendidos,
lutando por que a agarrem e por ela se agarrar, a infeliz
apenas agarra a inconsistência do ar.

Ovídio, Metamorfoses, X, 53-59)
Tradução de Domingos Lucas Dias, editado pela Vega.
Prémio de Tradução da União Latina 2008

13 fevereiro 2009

Escreveu mesmo assim...

... ipsis verbis.

«Muitas pessoas não distinguem o que realmente é conhecimento, fechando os olhos à razão e deixando-se levar pela sede de conhecimento.»

07 fevereiro 2009

momento S.J.

«momento em que Jesus foi entregue pelos Jesuítas aos Romanos»

Garanto que é o que está lá escrito... pronto... admito... Jesuítas estava sem acento.

05 fevereiro 2009

Tradução de Édipo: precisa-se...

(imagem daqui)

«é arrepiante também a forma como o casamento com a mãe passou à frente deles sem que ninguém reparasse. Isso torna-se tão espectacular e emotivo para quem lê este tipo de obras, conseguir-se emocional com tanta misticidade de acontecimentos audazes».
Assim mesmo.
Outras dores d'alma edipianas aqui e aqui.

02 fevereiro 2009

Tio de Sócrates?

(Sócrates. O meu, claro. Imagem daqui)

Além de problemas com a fonética, tenho uma grande dificuldade em me habituar ao facto do primeiro-ministro se chamar Sócrates. Para mim ele é José Sócrates.
Sócrates, assim, sem mais nada, é o meu velho companheiro filósofo.
Dele sei que é filho de Sofronisco e Fenarete, a minha sogra parteira, e nós temos 3 filhos: Lâmprocles, Sofronisco e Menexeno.
Com tios e primos a aparecerem (e sobrinhos! Eu sei lá se Pátrocles, o seu meio-irmão - o que é filho de Queredemo - tem filhos!) ainda me vou meter em sarilhos. Valha-m' Héracles!
Qualquer dia ainda vão dizer que o método socrático não se baseia no diálogo e que falar do demónio de Sócrates é um insulto ao governo.
Estou feita!

31 janeiro 2009

Como disse?

(a imagem do Escher fui buscar aqui)
Oiço mal.
Isto é, oiço o que me dizem mas compreendo mal. Deve haver uns circuitos na linha interpretativa que me fazem não perceber o óbvio.
Esta minha incapacidade (aqui não é mania, é mesmo uma incapacidade), quando não detecto a tempo que está a acontecer, leva a alguns diálogos absurdos. Felizmente consigo disfarçar na maioria das vezes.
A razão é sempre a fonética. As regras da nossa língua fazem com que, por exemplo, um 's' em final de palavra quando junto a uma vogal que inicia outra palavra soe como 'z'. O exemplo que se dava na faculdade era o das «janelazamarelas». Como não sei usar aqui o alfabeto fonético, vou ligar as palavras, tal como as ouço, para mostrar como funciona:

Ela - Arranjei-te «umachpinhas» para comeres.
Eu - Umas espinhas?

Ela - Sim, «umachpinhas». Não gostas?

Eu - De espinhas?

Ela - LOL. Não.
Sopinhas!
Eu - Ahhhh!


Ele - Tens aí «umapinha»?

Eu - Uma pinha?

Ele - Sim. «Umapinha».

Eu - E para que queres tu uma pinha?

Ele - Para ver qual o melhor caminho para chegarmos lá.

Eu - Ahhhh! Um
mapinha!
Ele - E não foi o que eu disse?


Isto vem de longe, muito longe.
Nos meus tempos de escuteira, adolescente, fomos a um festival da canção escutista e concorremos com uma letra escrita pelo nosso chefe da altura, um digníssimo bloguista que visita este espaço (não sei se quer que o identifique). Uma das palavras que ele lá pôs intrigou-me: «praicidade». Ele há tantas palavras terminadas assim: a unicidade, a duplicidade, a simplicidade... o que seria praicidade?
Só quando vi escrito percebi. Dizia a frase «para isso idade».

Recuando mais, criança pequena, quando me benzia «pelo sinal da santa cruz...», ficava intrigada, pois bem me esforçava para encontrar nas cruzes que via onde estava o pêlo e o sinal, como aqueles que algumas velhas tinham na cara.

Cataloguei isto como o faz o Bagaço Amarelo no seu blogue: coisas tão estúpidas que até tenho vergonha.

23 janeiro 2009

O meu Padre

Quando eu era criança, raros eram as que não andavam na catequese ou não escolhiam a disciplina de Moral e Religião.

Em relação a esta última, esperávamos ansiosamente chegar ao 8º ano para sermos alunos do Padre Guerra (P.e Fernando Guerra Ferreira, que já referi neste outro post). Ali líamos livros que nos faziam pensar em realidades até então completamente desconhecidas. Lembro-me do Perguntem à Alice ou de Viagem ao Mundo da Droga. Naquelas aulas discutíamos todos os assuntos de que os jovens de 13, 14 e 15 anos gostam, sem preconceitos.

O Padre Guerra marcou, definitivamente, a nossa geração. Até teve a ousadia de abrir os escuteiros às raparigas! Até então, no agrupamento da minha terra só havia Akelás, as que tomavam conta dos Lobitos, mas ele fez com que se constituísse uma primeira patrulha feminina (da qual fiz parte).
A mim, marcou também a minha carreira profissional. Quando tinha de escrever algum conceito relativo à antiguidade clássica, usava caracteres gregos, o que me deliciava. Como eu gostava muito de história daquela época, a aprendizagem das línguas antigas foi a consequência natural.

Costumo referir-me a ele como «O meu Padre» (começo a perceber uma atracção pelo possessivo nos meus - outra vez! - escritos), pois foi dos educadores que mais me marcou na adolescência e que me fez sentir parte daquilo que, então, explicou que era a Igreja.

Mas a Igreja não era bem como ele dizia eu segui outro rumo, mas isso são outros quinhentos.

18 janeiro 2009

Afinal não era literatura oral...

O meu pai contava-me histórias de terror, mas eu não tinha medo nenhum!
Devia ser porque ele era muito expressivo e eu ria-me.
Ouvi esta tantas vezes que a aprendi de cor.
Um dia, em conversa com o meu digníssimo colega Dias Marques ( JJ para os amigos), o homem da literatura oral (e agora das lendas urbanas - ops! lendas vivas é que é!), contei-lhe e ele conseguiu identificar o autor (tenho de lhe voltar a pedir a informação, pois não me lembro de quem era, apenas que era do séc. XIX).
Para mim era literatura oral. Cá vai:

Vem cá, meu Paulo, escuta: és amigo de tua mãe?
- Oh, minha mãe, que pergunta!
- Basta, meu Paulo, pois bem. Faz 20 anos – e dizendo, tira do seio um punhal - que teu pai morreu a golpe deste ferro, para meu mal, e eu, para vingá-lo, fiz uma jura fatal...
- Uma jura? Mãe santíssima! Oh, minha mãe, o que jurou?
- Jurei por este sangue, que em ferrugem se tornou, que tu matarias aquele que teu pai matou. Matas?
- Mato.
- Matas, seja quem for?
- Mato.
- Ainda que a vingança te tire ao seio o amor?
– Mato.
- Toma este ferro, é Ricardo o matador.
- Ricardo, o pai de Maria? Oh, minha mãe, perdoai...
- Pela amante o pai esqueces, filho ingrato? Parte, vai! Cumpre a jura ou sê maldito se não vingas teu pai.
Nessa noite, tinto em sangue e com os cabelos no ar, o assassino de Ricardo vai aos pés da mãe lançar o punhal com que jurara a morte do pai vingar.
Ri-se a velha de contente e abraça o vingador, mas eis senão quando aparece na porta uma estátua de dor:
- Paulo, meu Paulo, perdi meu pai, não vês? As lágrimas que aqui derramo assistiram ao seu fim. Quis falar-me e já não pode, com os olhos fixos em mim. Tu vingas-me, meu Paulo, sim?
- Vingo, Maria, sossega, eu sei quem teu pai matou, vai morrer com o mesmo ferro que ainda há pouco o transpassou.
E pegando no punahl no próprio peito o cravou...
Foge a triste espavorida, deixa Albano sem parar, chega a Roma ao outro dia, por toda parte a gritar:
- "Quem me mata por piedade, quem me acaba de matar?"
E assim vagueou três dias e ao quarto enlouqueceu.

Por isso o viajante, quando passa ao Coliseu, ouve a triste às gargalhadas, vingança pedindo ao céu!

14 janeiro 2009

Amor sem idade

As tuas rugas, Filina, valem mais do que a seiva
de toda a juventude. E eu prefiro ter nas mãos
os teus pomos de pontas caídas
que o seio direito duma jovem na força da idade.
O teu fim de Outono é superior à primavera de qualquer outra
e o teu inverno mais quente que o seu estio.

Paulo Silenciário (Antologia Palatina, 258)
em tradução de Albano Martins, Do Mundo Grego Outro Sol, Lisboa, Asa, 2002.
Mais sobre amor em idade madura aqui.

10 janeiro 2009

Confissões de uma «juke-box» ambulante salva por uma correnteza

Hoje ganhei coragem e vim actualizar o blogue.
Isto de se estar muito tempo sem escrever é um problema: tendo deixado passar datas como o Natal e o Ano Novo sem agradecer os votos e as gentilezas que me enviaram, a vergonha de não o ter feito foi crescendo e cada dia que passava a necessidade de dizer algo que realmente merecesse a pena impunha-se com mais premência.
E o tempo a passar-se e eu cada vez com mais problemas em encontrar um assunto que me levasse a sair deste estado de falta de... nem sei bem o quê.
Pronto.
É hoje. Não é tarde nem é cedo.
E começo com uma confissão de um defeito que tenho: sou, praticamente, uma juke-box ambulante. Mas não uma juke-box com aqueles temas de que mais gosto, cantados afinadamente, postos a tocar quando nos encontramos num determinado ambiente (um daqueles em que há uma juke-box, bem entendido).
Não.
O meu defeito é muito incomodativo. Para os outros, porque, pode denotar falta de atenção ao que me dizem (o que não é verdade) e pelo desafinanço; para mim, porque me sinto ridícula. É verdade. Completamente.
O que se passa é o seguinte: uma pessoa está a falar comigo e, de vez em quando (não é sempre, vá lá), há uma palavra que diz e que funciona como a ficha que se introduz na juke-box e faz sair a canção.
Os exemplos são os mais absurdos, pois a canção que sai normalmente não tem nada a ver com o assunto de que se fala, mas acontece apenas porque uma palavra ou expressão também aí se encontra contida.
É absurdo, eu sei. E ridículo.
O que vale é que, na maior parte dos casos não verbalizo (ou seja, poupo o interlocutor ao meu canto) e isto passa despercebido.
Um exemplo:
Alguém: Bem, então adeus. Vou-me embora.
Eu (em pensamento, surge o Sérgio Godinho): «E agora eu vou-me embora, e embora a dor não queira ir já embora, agora eu vou-me embora e parto sem dor. E parto dentro de momentos, apesar de haver momentos em que a dor não parte sem dor.»

Pois é. Eu sei. Não é preciso dizer nada.

Mas então não é que recebo um desafio da Ana para fazer parte de uma corrente que apela, de algum modo, a esta minha mania? Pertence pôr aqui uma foto, mas como não estou em casa, não tenho aqui arquivos (ponho depois). O que interessa é que tenho de responder às perguntas que me fizeram com títulos de canções! Eheheheh! O sonho que realiza a minha mania! Deixou de ser um defeito e passou a ser adequado para esta corrente!
Aqui vão as respostas. Escolhi os Beatles (têm de ser de uma única banda ou cantor). E passo à minha querida sobrinha Rita, à Sara, ao Zé Bandeira e à Gi.
  1. És homem ou mulher? Girl
  2. Descreve-te. Free as a bird
  3. O que as pessoas acham de ti? "She's a Woman" e "To Know Her is to Love Her"
  4. Como descreves o teu último relacionamento? "The End"
  5. Descreve o estado actual da tua relação. "Real Love"
  6. Onde querias estar agora? "Memphis, Tennessee"
  7. O que pensas a respeito do amor? "I Want to Tell You"
  8. Como é a tua vida? "It's Only Love"
  9. O que pedirias se pudesses ter só um desejo? "Every Little Thing"
  10. Escreve uma frase sábia. "Think for Yourself"

19 dezembro 2008

Chamava-me Melusina


O meu pai tinha muita graça.
Não parecia, é verdade, pois em casa cumpria o papel que lhe havia sido reservado pelas matriarcas: o de pai. E o que era um pai? Alguém que estava fora o dia todo a trabalhar, vinha a casa às refeições, impunha respeito, fazia cumprir as regras e aplicava os castigos a pedido: «Nogueira, o menino bateu na menina» e o Nogueira lá ia e aplicava a sanção esperada ao menino amedrontado.
Na maior parte dos casos bastava que abrisse os seus grandes olhos para que todos nos encolhêssemos.
Um dia fiz-lhe frente (é assim com os mais novos) e disse-lhe que os olhos dele não me faziam medo (talvez porque os meus eram parecidos, grandes e redondos quando muito abertos). O verde acastanhou e vi tristeza. Mas só me apercebi disso mais tarde, pois na altura cantei a glória de o ver ficar calado com a minha ousadia, que apenas lhe fizera soltar um suspiro.

O meu pai contava-me histórias que me arrepiavam e outras de encantar. Uma delas começava assim:
«As fadas... eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar...

Umas vivem nos rochedos,
Outras pelos arvoredos,
Outras, à beira-mar...


(...)


Eu sei o nome de algumas:

Viviana ama as espumas

Das ondas, nos areais,
Vive junto ao mar, sozinha,
Mas costuma ser madrinha

Nos baptizados reais.


Morgana é muito enganosa;

Às vezes, moça e formosa,

E outras, velha, a rir, a rir...

Ora festiva, ora grave,

E voa como uma ave,

Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?
De Titânia, a pequenina,

Que dorme sobre um jasmim?

De cem outras cuja glória

Enche as páginas da história

Dos reinos de el-rei de Merlin?»


E continuava, continuava...
E às vezes chamava-me Melusina...

Tenho de admitir que só mais tarde (e com alguma desilusão) soube que não tinha sido ele o autor, mas um poeta que eu conhecia de outros versos: Antero de Quental.
O Assírio, da Vega (sim, foi esse quem deu o nome à Assírio & Alvim, sim), teve a bondade de me oferecer uma edição lindíssima (prenda em conta, que nem 10 euros custa), acabada de sair.
Já comprei outros para oferecer, pois sei de quem vai gostar.
Afinal, ele não era só meu pai...

18 dezembro 2008

Quem o viu...

... e quem o vê!


O que vale é que o gato Zé Mimi tem o pelo alto e não se nota muito que perdeu 50% do peso.

A conta do veterinário galopa, galopa, e não se pode pôr nada no IRS.
Descobri que anda na net uma petição para que as despesas com os nossos animais possam ser deduzidas nos impostos. Já assinei e divulgo-a aqui para quem estiver interessado.

Dedução de despesas com saude animal em IRS

17 dezembro 2008

E os mitos gregos...

(Orestes a matar Clitemnestra. Imagem daqui)

«... para que servem?» _ perguntou-me. «A ficção de hoje tornar-se-á mito amanhã
Não penso que isso aconteça, pelo menos enquanto se conhecer a literatura com ela é, com autor identificado.
Os mitos não tinham autoria, tinham origem oral e cumpriam também funções na religiosidade das pessoas. Eram histórias de extensão variável, algumas com versões contraditórias, e aceites por uma comunidade como as suas histórias.

As bases em que os mitos eram construídos repetiam-se em diferentes narrativas:
- os pais que expõem o filho num monte para que venha a morrer, para evitar que um oráculo se cumpra, mas ele é salvo e vem a provocar a desgraça dos progenitores, como previsto pelo destino. Recordo-me de Laio e Jocasta que expõem o filho, Édipo, mas este mata o pai e casa com a mãe, como predito; ou de Príamo e Hécuba que expõem o filho Páris, mas este cumpre o oráculo que dizia que ele viria a ser a ruína de Tróia, ao raptar Helena de Esparta, dando início à Guerra de Tróia narrada na Ilíada.

Alguns destes elementos encontram-se também
noutras culturas:
- a virgem que tem um filho (ou mais do que um) de um deus, filho esse cujo desígnio é marcante para a Humanidade. Recordo-me de Reia Sílvia (virgem vestal), na cultura romana, que engravida de um deus (Marte) e o seu filho (Rómulo, depois de matar o irmão) vem a ser o fundador e primeiro rei de Roma; ou, na cultura judaico-cristã, lembro Maria (virgem), que tem um filho (Jesus) do seu deus (Deus/Jeová), vindo este filho a ser o fundador de uma das maiores e mais influentes (se não a maior e a mais influente) religiões do mundo.

Vem-me à memória a
criança abandonada num cesto nas águas de um rio: Moisés, no Egipto, e os gémeos Rómulo e Remo, em Roma, os animais que alimentam crianças, como a ursa que amamenta Páris, a loba que amamenta Rómulo e Remo ou a cabra que amamenta Zeus.

Os mitos gregos não cumprirão hoje nenhuma função, a não ser que nos lembremos deles e percebamos quão importantes podem ser na compreensão de uma das culturas que está nas nossas matrizes. João Canijo dizia ao JL (estou a citar de cor, pois a minha cadela rasgou o jornal - riam-se, riam-se) que usava estes mitos (nomeadamente Electra), porque são arquétipos e poucos mais foram inventados depois destes (refere Shakespeare, penso).

Os deveres chamam-me, mas ainda voltarei a este assunto.

16 dezembro 2008

Ao teu lado

A primeira vez que o li, há uns anos, chamava-se Cartas a Desidéria e ainda não era livro. Adorei!
Agora, o meu amigo Luís Costa Pires publicou-o com este novo nome, Ao teu lado, na Vega (não me habituo ao nome Nova Vega), tendo feito o lançamento na semana passada (quando estas fotos foram tiradas). Uma boa leitura!

15 dezembro 2008

Em Dezembro, com o ano a acabar


Borda d'Água


Em janeiro, conta os dias que faltam
para o fim do inverno. Em fevereiro,
goza o carnaval. Em março, não te
esqueças da quaresma. Em abril, solta

o sol da primavera. Em maio, as noites
são mais quentes. Em junho, atravessa
o solstício. Em julho, apanha os frutos
do verão. Em agosto, ouve as cigarras.

Em setembro não te importes com o
vento. Em outubro apanha as folhas do
chão. Em novembro não saias à noite.

E em dezembro, quando o ano acabar,
lembra-te que não fizeste nada disto,
e se fizeste terás de tudo recomeçar.

Nuno Júdice
in O Breve Sentimento do Eterno, Edições Nelson de Matos, 2008

10 dezembro 2008

... a minha alegre casinha...

Esta é a bela imagem da minha casa vista pelas traseiras, desenhada pela Barbara, a minha amiga italiana que esteve, com o seu Claudio, de visita à pólis.

Alguns amigos mostraram-se preocupados com a minha ausência do blogue e a todos agradeço o facto de terem dado conta disso.

Têm sido muitos os factores, mas nenhum deles agradável. Uma série de acontecimentos ininterruptos levaram a que só hoje eu tivesse tempo de vir aqui deixar este desenho com estas palavras.

Agradeço à minha amiga Reboliço os desejos de melhoras do gato Mimi, que está com uma lipidose hepática.

26 novembro 2008

Diz Aristóteles, na Política

A causa da existência de muitos regimes políticos deve-se ao facto de todas as cidades possuírem uma pluralidade de partes. Assim, começamos por observar que todas as cidades são compostas por habitantes reunidos em famílias; em seguida, nessa massa de cidadãos agrupados, existem necessariamente os que são ricos, outros sem recursos, e outros de condição mediana; os ricos possuem armas, os pobres estão desprovidos delas. Vemos também que, no povo, uns são agricultores, outros comerciantes, e outros trabalhadores braçais.
(...)
É evidente que existem necessariamente muitos regimes e em cada um deles, várias formas distintas entre si, uma vez que cada uma das duas partes difere entre si da forma. Um regime é, pois, uma ordenação de magistraturas repartidas por todos conforme o poderio dos que participam no governo, ou a igualdade comum a todos; refiro-me, no primeiro caso, ao poderio dos ricos e dos pobres e, no segundo caso, à igualdade comum a ambos.

(já se está mesmo a ver o que se segue, mas continuo amanhã. A referência é sempre a mesma.)

23 novembro 2008

post descaradamente roubado

Não resisto a roubar este post à Gi:

Seis meses sem democracia

Os antigos Romanos acabaram com a monarquia por não suportarem atitudes tirânicas dos seus últimos reis, e criaram uma série de cargos executivos eleitos por um ano para evitar novas tiranias.

No entanto, quando havia uma situação excepcionalmente grave, podia-se nomear um ditador que estaria no cargo por seis meses durante os quais tomaria as decisões que entendesse, não sujeitas a veto, e pelas quais não responderia criminalmente após o fim do mandato, ao contrário do funcionamento normal da república.

Andará Manuela Ferreira Leite a estudar história da antiguidade?

20 novembro 2008

dor

A perda de seu pai não a chora Gélia quando está só;
se alguém está presente jorram lágrimas de encomenda.
Não sente o luto, Gélia, quem procura ser louvado.
Sente dor verdadeira quem, sem audiência, sente dor.

Marcial, Epigramas, vol. I, Tradução de José Luís Brandão para as Edições 70, em 2000, com introdução e notas de Cristina de Sousa Pimentel

18 novembro 2008

nesta semana sem tempo...

... em que só me lembro das palavras de Séneca e de como não me servem na correria em que ando, obrigo-me a parar e a ler um soneto do novo livro de Nuno Júdice, O Breve Sentimento do Eterno, que me foi oferecido, no sábado, dia 8, quando fui à sua apresentação na bonita livraria Pátio de Letras:

Tempo

Se corre devagar o tempo, e o tempo
não corre, em que relógio contarei
os segundos que se demoram quando as
horas se precipitam, ou o amanhã

que nunca mais chega neste hoje
que já passou? Mas o tempo só o é
quando o perdemos; e ao ver que
é tarde, não se volta atrás, nem

as voltas que o tempo dá o voltam
a fazer andar. Por isso é que o tempo
nos dá tempo para o ter, se ainda

houver tempo; e se tivermos de o perder,
nenhum tempo contará o tempo que se
gastou para saber o que se perdeu, ou ganhou.

17 novembro 2008

Bloqueio da TMN

Uma curta mensagem: estive sem internet quinta e sexta, bloqueada pela TMN por alegada falta de pagamento. Como a rede é tão má aqui em casa e sou tantas vezes impedida de ir à net, pensei que fossem apenas maus momentos. Na sexta lá fui à loja saber o que se passava e afinal era ainda o problema que tenho com eles desde Junho: cobraram-me um valor imenso (nesse mês foram 210 euros!!!), a mim que, mesmo que quisesse, não tinha estabilidade de rede para downloads pesados. Enfim, lá me restabeleceram a ligação. Continuo à espera da resolução deles para este problema.
Já voltarei a escrever e obrigada pela paciência.

12 novembro 2008

Abbey Road

Já falei aqui dela, mas agora que tem um blogue, espero que também a acompanhem. Não sei se vai continuar a escrever em O nascer do Sol, onde tem uma etiqueta só dela, mas serei leitora de tudo o que faz na sua Rua da Abadia.
Não estou a ser nada tendenciosa nem parcial, influenciada pelo amor que lhe tenho, mas a minha sobrinha é excepcional.

09 novembro 2008

II Festival de Órgão - Faro 2008

Fui ontem assistir ao segundo concerto do II Festival de Órgão, na sé de Faro, com Antoine Sibertin-Blanc, numa organização da Associação Cultural Música XXI. Foram cerca de 50 minutos muito bonitos (passaram tão depressa!) de música muito vívida e tocada com muita perícia. Há muitos anos ouvi ali João Vaz (que espero poder voltar a ouvir para a semana).
Para que pudéssemos acompanhar o intérprete, um écran gigante ia transmitindo em directo as imagens de Sibertin-Blanc, a leveza dos seus dedos e a agilidade com que ia mudando os registos. O único problema foram as variações que o realizador (não sei se se chamará assim) resolveu fazer. Em vez de nos deixar acompanhar a música com a visão do intérprete, em momentos-chave, como quando os puxadores mudavam os registos dos tubos, fazia «efeitos especiais», abrindo e fechando a imagem em bolas, em cortina, e outras coisas do género, mostrando os anjos que encimam o órgão, ou os tubos, elementos interessantes, mas cujas imagens serviram apenas para distrair, perturbando o tranquilo acompanhar da interpretação.
Veremos se no próximo sábado (sempre às 21.30) João Vaz terá mais sorte.

05 novembro 2008

Outro prémio

O blogue “Paixões e Desejos”, de Paula e Rui Lima, nomeou o “Senhora Sócrates” com o “Brilhante Weblog”. Agradeço-lhes a simpatia. Aceito sempre os prémios que me entregam, pois comove-me o facto de se lembrarem de mim e desta ágora.
Seguindo as regras, nomeio 7 blogues que gosto de ler (aproveito, já que está tão perto do prémio anterior, por indicar alguns que ficaram de fora da última vez):

Floresta do Sul (blogue de um dos escritores portugueses contemporâneos meus preferidos)
Lauro António apresenta...
Ao rodar do tempo
Pisa-papéis
Dona Redonda
André Benjamin
Sem Pénis nem Inveja

02 novembro 2008

Os mortos vão devagar
É-lhes árdua a subida.
Não há pressas p’ra chegar
Foi difícil a partida

Sobem paulatinamente
Descem muito devagar
Fazem tudo lentamente
É dormente o seu andar.

O tempo não acabou
Não há passos de corrida
Em círculos sempre se andou:
A vida não tem saída.

O adeus é um momento
Que temos de partilhar:
Para nós, o sofrimento,
Aos mortos resta o vagar.

Foi difícil a partida
É dormente o seu andar.
A vida não tem saída.
Aos mortos resta o vagar.

01 novembro 2008

Não somos nós


As Janelas

Nestas salas escuras, onde vou passando

dias pesados, para cá e para lá ando
à descoberta das janelas. - Uma janela
quando abrir será uma consolação. -
Mas as janelas não se descobrem, ou não hei-de conseguir
descobri-las. E é melhor talvez não as descobrir.
Talvez a luz seja uma nova subjugação.
Quem sabe que novas coisas nos mostrará ela.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Relógio de Água, Lisboa, 1994. Tradução de Joaquim Manuel de Magalhães e Nikos Pratsinis.

29 outubro 2008

Não ama verdadeiramente quem não amar sempre

Não ama verdadeiramente quem não amar sempre

Gosto dos episódios das tragédias.
Diz Aristóteles, na Poética, que o episódio «é uma parte completa da tragédia entre corais».
Em muitos destes diálogos estão os momentos de maior tensão, já que vamos assistindo ao evoluir das situações e às perguntas e respostas, muitas vezes entendidas apenas por nós, espectadores, que sabemos bem o que as frases querem dizer, ao contrário das personagens em cena. Recordo como Tirésias diz a Édipo que ele é o assassino que procura e como este não entende as palavras do adivinho, mesmo quando ditas com toda a clareza. São destes episódios que me lembro quando oiço/vejo os diálogos dos filmes com Humphrey Bogart, quando a resposta parece quase ser mais rápida que a pergunta.
Outra característica dos episódios são as frases lapidares, daquelas que apetece citar. Algumas tornaram-se mesmo proverbiais. Gosto de abrir uma tragédia qualquer e sublinhar, com o meu lápis-encontrador-de-belezas (roubado ao Gonçalo M. Tavares), uma frase ao acaso, descontextualizada, como hoje, de Eurípides, As Troianas, 1051, na fala de Hécuba (acusa ndo Helena):

Não ama verdadeiramente quem não amar sempre

27 outubro 2008

Comun(itar)ismo???


Cremes
: Vais aonde, se ainda não entregaste o que te pertence?

Homem: Para o jantar.

Cremes: Ah isso é que não vais, se ainda resta a essas mulheres uma migalha de bom senso! Só se tiveres levado primeiro a tua parte.

Homem: Está bem, pronto! Eu levo.

Cremes: Quando?

Homem: Não é por mim que a coisa deixa de se fazer, meu amigo.

Cremes: Ah não?

Homem: Há-de haver outros que ainda vão entregar depois de mim, podes ter a certeza.

Cremes: E vais jantar, mesmo assim?

Homem: O que hei-de eu fazer? É preciso colaborar com o Estado na medida do possível. É o que faz quem tem a cabeça em cima dos ombros.

Cremes: E se elas não permitirem, como é?

Homem: Eu mando-me de cabeça contra elas.

Cremes: E se te dão uma coça, como é?

Homem: Eu processo-as em tribunal.

Cremes: E se se rirem na tua cara, como é?

Homem: Eu ponho-me à porta...

Cremes: E o que fazes, ora diz lá!

Homem: ... e roubo a comida aos criados.

Cremes: Então vai lá, mas eu primeiro. (aos servos) E vocês, Sícon e Parmenão, toca a alombar com esta cangalhada toda.

Homem (prestável): Deixa estar que eu ajudo.

Cremes (que o afasta): Nem pensar! Receio bem que, na frente da chefe, ainda te armes em dono das minhas coisas. (Sai com os escravos carregados)

Homem: Cum raio! Tenho de arranjar uma saída, para conservar o que me pertence, e ao mesmo tempo partilhar com esta gentinha do bolo comum. Tenho uma ideia: basta que eu avance como eles, sem demora. (sai também)

Aristófanes, As Mulheres no Parlamento, JNICT, Coimbra, 1996. Tradução de Maria de Fátima Silva.

24 outubro 2008

Comun(itar)ismo

Praxágora: Bem, que nenhum de vocês me contradiga nem interrompa, antes de conhecer o meu projecto e de ouvir os meus argumentos.
Quero dizer-vos que é preciso que todos entreguem os seus bens para um fundo comum, para onde cada um contribua com a sua parte e de onde retire a subsistência. Não mais há-de haver ricos e pobres; nem uns a cultivarem propriedades enormes, e outros sem terem onde cair mortos; nem uns a terem ao serviço batalhões de escravos, e outros nem sequer um criado. O que eu quero estabelecer é um padrão único de vida em comum, igual para todos.

Bléfiro: Comum a todos... como?

Praxágora: Já a formiga tem catarro!

Bléfiro: Catarro?! Também vamos pô-lo em comum?

Praxágora: Nada disso! Levas o tempo a interromper-me. Ora dizia eu que a terra, antes de mais, vou torná-la um bem comum a todos; e também o dinheiro; e tudo que é propriedade privada. É deste fundo comunitário que nós, mulheres, vos vamos sustentar. É a nós que compete administrá-los com economia e bom-senso.

Bléfiro: E quem não for proprietário de terras, mas possuir dinheiro e ouro, bens que se não vêem?

Praxágora: Tem de os pôr no monte.

Bléfiro: E se não puser?

Praxágora: Incorre em perjúrio.

Bléfiro: Ora, ora! Já foi assim que eles os ganharam!

Praxágora: Mas seja como for, também não lhes servem para nada.

Bléfiro: Como assim?

Praxágora: Por necessidade, ninguém mais precisa de se mexer. Toda a gente vai ter tudo: pão peixe, bolos, casacos, vinho, coroas, grão-de-bico. Qual a vantagem de se não entregar os bens? Ora diz lá, se fores capaz!

Bléfiro: O certo é que, hoje em dia, são aqueles a quem não falta nada, os que mais roubam.

Cremes: Isso era dantes, meu amigo, quando vivíamos no tempo da outra senhora! Mas com agora - com a tal história do fundo comum - , que é que se ganha em não entregar?

Aristófanes, As Mulheres no Parlamento, JNICT, Coimbra, 1996. Tradução de Maria de Fátima Silva.

20 outubro 2008

um prémio

Informações sobre o Prémio Dardos

“Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc., que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Os selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.

Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:
1 - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.”

A Teresa C., do Sem Pénis nem Inveja, agraciou-me com este prémio. Como não costumo colocar blogues em destaque, aproveito sempre estas oportunidades para o fazer. Não repito os que sei que já receberam, como o Funes, o A Curva da Estrada, o Claras Manhãs, ou o Bandeira ao Vento.
Assim, segue-se uma lista de blogues dos muitos que gosto de ler pelas razões mais diversas e, até, muitas vezes, opostas.

Ao rodar do tempo
As coisas são como são
Assim Mesmo
Cartas do meu moinho
Chá de letras
Combustões
Corta-fitas
Garden of Philodemus
Livro de Estilo
Não compreendo as mulheres
Onde Mudar
Oxiclista
Paixões e Desejos
Ponteiros Parados
Porta do Vento
Sem-se-ver

18 outubro 2008

Tragédia hip hop

(imagem daqui)

Ontem fiz uma viagem a ouvir hip hop, género que não conheço bem. Como a ignorância tem limites, fui informar-me e percebi que, afinal, conhecia os grupos e as canções, mas não os associava. Pensava que era tudo rap, como a maioria dos desinformados (que foi o eufemismo com que me trataram na wikipédia: «os mais desinformados costumam adotar os dois termos como sinônimos», se bem que a própria wikipédia, em inglês, diz assim: «Hip hop music, also referred to as rap music, is a music gente typically consisting of a rhythmic vocal style called rap which is accompanied with backing beats»).

(imagem daqui)

Foi no meu correio electrónico, numa antiga mensagem de Fevereiro, que encontrei
referência a uma versão hip hop californiana da tragédia Os Sete contra Tebas, de Ésquilo. O site da peça resume: Greek tragedy meets hip-hop in this new telling of a cursed family and society unsure of how to free itself from war. e na notícia do NCTimes, começamos por ler:

In ancient Greek tragedy, the Theban king Oedipus unwittingly fulfills an oracle's prophecy by killing his father and marrying his mother, which "kinda grossed everybody out, y'know"? And when Oedipus' two sons, Eteocles and Polynices, banished their father out of shame, he avenged his honor by "puttin' a curse on their ass."

Se estivesse por cá, iria vê-la.

17 outubro 2008

medos

(imagem daqui)

Assim falou; e eu dei-lhe a seguinte resposta:


"Ó Circe, como podes pedir-me para ser agradável contigo?

Tu que no teu palácio transformaste os meus amigos em porcos,

e a mim aqui reténs, ordenando-me que vá

para o tálamo e que suba para a tua cama,

de modo a tirares-me coragem e virilidade quando estiver nu.

Fica sabendo que não subirei para a tua cama,

a não ser que tu, ó deusa, ouses jurar um grande juramento:

que não prepararás para mim qualquer outro sofrimento."

Assim falei; e ela jurou logo, como lhe ordenara.

E depois que jurou e pôs termo ao juramento,
foi então que subi para a cama lindíssima de Circe.

Odisseia, X, 336-347

16 outubro 2008

sem rodeios

(imagem daqui)

Quem és e donde vens? Que cidade é a tua? Quem são os teus pais?

Estou espantada por teres bebido a poção sem estar enfeitiçado.
Nenhum homem jamais resistiu a esta droga depois que a bebesse
e que ela lhe passasse a barreira dos dentes.
Mas a tua mente não pode ser enfeitiçada.
És na verdade o astuto Ulisses, que sempre me disse
aportar aqui um dia o Matador de Argos, da vara dourada,
regressando de Tróia na sua escura nau veloz.
Mas repõe a tua espada, pois iremos agora
para a nossa cama, para que nos unamos em amor
e possamos confiar um no outro.

Fala de Circe, na Odisseia, X 325-335. Tradução de Frederico Lourenço.

15 outubro 2008

vestir o coração


Vulpes – Commodius fecisses, inquit, si eadem hora me revisisses. Nam si vel quarta postmeridiana hora venies, a tertia beata esse incipiam. Quo magis haec cedet, eo beatior esse mihi videbor. Quarta moveri ac sollicitari jam incipiam; sic quanti sit vita beata reperiam. At si tempore quovis venies, nunquam sciam quota hora me animo tanquam decorum vestitum induere oporteat. Sollemnia quaedam constitui opus est.
Regulus – Quid est sollemne quiddam?
Vulpes – Hoc quoque nimis obsolevit. Propter hoc dies quidam a ceteris diebus differt et hora quaedam a ceteris horis.

(versão latina de Augusto Haury que saiu na Harvest Book em 1985 , tendo sido editada pela primeira vez por outra editora em 1961)

Este Regulus não me convence muito... prefiro a versão francesa e a portuguesa (a da Alice Gomes) de O Principezinho:

- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, às três já eu começo a ser feliz. À medida que o tempo avançar, mais feliz me sentirei. Às quatro horas já começarei a agitar-me e a inquietar-me; descobrirei o preço da felicidade. Mas se vieres a uma hora qualquer, eu nunca posso saber a que horas hei-de vestir o meu coração... São precisos ritos.

- O que é um rito?

- É também qualquer coisa de que toda a gente se esqueceu, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora diferente das outras horas.

14 outubro 2008

Fernando Cabrita, poeta

Acabei de ouvir na Antena 2 que o meu amigo Fernando Cabrita, advogado aqui de Olhão, venceu o Prémio Nacional de Poesia Actor Mário Viegas.
Muitos parabéns ao poeta, mas não me surpreende.

O sol

Nos quartos que o sol visita

a sombra aos poucos
gentil e pressurosa lhe abre as portas
e se retira;
E vem a manhã com ele, fresca, bonita,
pôr-se à janela
de onde a cidade inteira mira.

Poema retirado deste livro:

13 outubro 2008

pelos seus 85 anos

(devia estar frio, na praia da Areia Branca)

a tua mãe, por exemplo, a idade pode ter-lhe dado sabedoria de muita coisa que nem tu de olhos arregalados vês, insistia ele. a tua mãe, que eu já a vi, acerta na corda da roupa sem olhar. é verdade, agarra nas roupas brancas e atira-as ao ar como se fossem para cair no chão, e elas ficam na corda pendendo meio para cada lado, exactamente o suficiente para não verterem dali e não se perderem de asseio.
(...)
sabe, senhor paulo, as mães são como lugares de onde deus chega. lugares onde deus está e a partir dos quais pode chegar até nós. porque só através delas nos encontramos aqui. e, por isso, não há mãe alguma que não mereça o céu, porque, em verdade, as mães transportam o céu dentro delas, e multiplicam-no a custo, como um ofício.

valter hugo mãe, o remorso de baltazar serapião, QuidNovi, 2006

(exemplos de outros postais sobre a minha mãe aqui e aqui )

12 outubro 2008

Por que tem sempre de doer?


Tal foi o desejo de amor, que me cobriu o coração

e cerrada treva derramou sobre meus olhos,
arrebatando do meu peito as débeis forças.
(Frg. 191)

Miserável, jazo atolado no desejo,
inânime, e penosas dores, por vontade dos deuses,
me percorrem os ossos.
(Frg. 193)

Arquíloco, daqui.

11 outubro 2008

Aceito...

(clique na imagem para aumentar)

... opiniões sobre a proposta de novo aspecto para o A Senhora Sócrates que o
Carlos muito simpaticamente fez. Estou sempre a dizer-lhe que lhe direi como quero e vou adiando, adiando, até que ontem ele surgiu com isto.
Digam-me o que pensam, amigos.

10 outubro 2008