22 abril 2009

O Pai e a Joana


A menina fofinha, no meio dos primos, chama-se Joana e faz hoje 26 anos. Quando ela nasceu o meu pai (seu avô) fazia 70.

22 de Abril.
O meu pai sempre me disse que nascera no dia da descoberta do Brasil. Talvez por isso eu goste especialmente desta fotografia, tirada na Madeira, em 1995, com o Atlântico como fundo. Tinha 82 anos.

Esta fotografia é de Novembro de 2004, quando fiz a apresentação do meu segundo livro do Hércules no Bombarral. Lá está ele sentado na casa de costura, à janela. Tinha 91 anos e iria ficar connosco só até 11 de Janeiro seguinte.

Aqui era um jovem. Aliás, sempre pareceu jovem e muito mais jovem do que 1913 permitia pensar. Não tinha rugas e os dentes eram todos dele (não dos comprados, mas produto original).
Católico que vivia a Igreja, vicentino e outras coisas mais, um dia soube que foi galã em peças de teatro amador.
Contava-me muitas histórias e era mais divertido do que queria parecer.

21 abril 2009

Menores de 35


Quando eu era oficialmente jovem, esse estado acabava aos 26 anos. Era com essa idade que se deixava de poder fazer o InterRail, que se deixava de poder usufruir do crédito jovem à habitação, que se deixava de poder gozar as vantagens do cartão jovem, etc.
Apesar de ainda haver jovens que pensam (até conheço alguns!), criou-se um prémio para tal actividade e eu recebi-0!

Puro engano do Nuno Faritas Lobo! Pensar, penso, mas já não sou legalmente jovem!

Portanto, sem-se-ver, Gi, José Bandeira, Miguel, Méon, António, Teresa, José Ricardo, Tomás, Mirian, lamento denunciar-vos ... gostava de vos dar este prémio, pois sei que são jovens e que pensam, mas já ultrapassaram a barreira dos 35...

20 abril 2009

O Punicozinho

(clique na imagem para aumentar)

Em Agosto passado referi aqui, a propósito das Bacas, a tradução do Poenulus de Plauto, por José Luís Brandão, professor de clássicas na Universidade de Coimbra.
Pois bem, já vi que a minha sugestão para que escolhesse O Punicozinho como tradução do título não foi aceite...
Mas como não sou de rancores, podem ver O Fulaninho de Cartago (pronto... admito... é melhor solução do que Punicozinho....) no Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico em diversos palcos e em diversas datas. O programa e as sinopses estão em blogue próprio.

19 abril 2009

ΚΑΛΟ ΠΑΣΧΑ

(imagem daqui)

Aos meus amigos gregos (que, por sorte, quase todos sabem português), votos de uma Καλό Πάσχα. Por cá os ovos não são vermelhos (κόκκινα αυγά) nem se come tsoureki, mas sempre vamos tendo uns folares com um ovo cozido, castanhinho, ou sem ele, como se faz aqui em Olhão. A Páscoa ocidental já foi há uma semana e nesse dia o meu menu foi muito pouco tradicional. Ora espreitem:


16 abril 2009

Uma Noite com o Fogo

O António Manuel Venda, cujo livro apresentei na Biblioteca Municipal de Loulé, faz hoje uma semana, foi muito gentil no comentário que fez à sessão. Vamos ver se organizo as notas em forma de texto e consigo mandar-lhe, de forma a que fique memória de algo parecido com que ali foi dito.
O livro é pequenino e aconselho vivamente a sua leitura.
Uma Noite com o Fogo é livro e tem blogue.
Quem perdeu a apresentação de Loulé, pode ir ouvi-lo no Pátio de Letras, no dia 24 de Abril, às 21.30. Não, a apresentação não é minha, é de José C. Vilhena Mesquita. Não vou perder.

15 abril 2009

Dores d'alma...

Ariadne
de Giorgio de Chirico

«A imagem tem o nome de Ariadne pois está uma mulher deitada sobre uma pedra e era assim que Adriadne costumava estar»

O que me vale é que, apesar de tudo, as respostas dos alunos que resultam em postais neste blogue são poucas, o que me descansa um pouco em relação ao meu (in)sucesso como professora.

14 abril 2009

«Tacones lejanos»

(foto desfocada devido à alta perigosidade da situação da fotógrafa, que não queria ser denunciada)

Fui hoje disfarçada de cliente da EDP à Loja do Cidadão de Faro. Para ser mais credível, fiz um contrato e tudo. Entretanto, com a minha máquina fotográfica oculta na mala ,tirei uma fotografia a uns sapatos brancos. De salto alto. Com aquela cor de calçado, suponho que a lingerie fosse condizente, e não preta, ou outra cor escura.

Senti aromas no ar, de perfumes intensos. Quase todas as meninas estavam com lencinhos ao pescoço, decorosas.
No entanto, uma que estava a cumprir as regras todas, era bem desinibida, com uma t-shirt rosa a pedir que lhe telefonasse. «Liga-me», pedia-me descaradamente, em letras gordas sobre o espaço que deveria ser usado para um decote. Claro que não o fiz, mas vim logo para aqui escrever este post.

Ontem, em Faro, no passeio de uma avenida...

... vi dois palhaços. Não resisti, e enquanto esperava que o sinal abrisse, tirei uma fotografia.

13 abril 2009

Que planta é esta?

(pormenor)

(raízes)
(vista de cima)

Há um mês e meio fui convidada a ir à EBI 2-3 Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva, em Boliqueime, pela Drª Carla Lopes, para falar dos meus Hércules e da cultura clássica, na semana da leitura. No final, recebi um belíssimo ramo de rosas e orquídeas envoltos em diversas ramagens. Uma delas era esta, que na altura (no dia 2 de Março) não passava de um tronco. Como o achei muito bonito e, numa semana, nasceram umas raízes vermelhas na jarra onde coloquei o ramo, resolvi mantê-lo dentro de água.

Acontece que não percebo absolutamente nada de flores e não sei o que fazer agora.
Planto na terra?
Mantenho na água?
Que planta é esta?
Sei que a Gi (uma boa razão para vires cá a casa, para além do Saylor), o Paulo e o JB (regressado da pérfida Albion) percebem de flores.
Será que eles (ou alguém mais) me podem ajudar?
Fico-vos muito agradecida. E a plantinha também.

12 abril 2009

Bicentenário das Invasões Francesas

O meu amigo do Ao Rodar do Tempo está empenhado na divulgação de actividades no nosso Oeste. Deixo aqui o link para o blogue onde tem escrito sobre as Invasões Francesas na zona.

11 abril 2009

10 abril 2009

Ícaro

(imagem daqui)

Efectivamente, ele representava o castigo da vaidade de Ícaro transposta dos mitos antiquíssimos para as realidades do nosso tempo, sim, representava a expiação da vertigem de luxos, prazeres e devassidões em que vivia uma certa sociedade.

José Cardoso Pires, Alexandra Alpha, p.11 da 3ª edição (Publicações Dom Quixote) de 1992.

(Por motivos de ordem técnica, este blogue tem sido pouco actualizado. Vamos lá ver se melhora.)

31 março 2009

Que fazer na quinta-feira?

Se estiver em Lisboa no dia 2, vá à Buchholz do Chiado, pelas 18.30, e oiça o Nuno Simões Rodrigues apresentar o livro da Ana Lúcia Curado.
A Ana Lúcia Curado é uma distinta colega da Universidade do Minho que publicou um exaustivo trabalho (tem mais de 500 páginas) sobre a mulher em Atenas nos séculos V e IV a.C., intitulado-o singelamente Mulheres em Atenas, na Sá da Costa. Lamentavelmente ainda não o tenho, mas depois de o ler aqui falarei mais sobre ele.
Um dos aspectos que me parece mais interessante é o facto da reconstrução da imagem da mulher ter sido conseguida pelo discurso forense, tendo a autora baseado o seu estudo em mais de 100 textos de oradores áticos (li isto no Correio do Minho, de 22 de Março).
O livro vai ser presentado pelo Nuno Simões Rodrigues, também meu colega no Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, professor na Universidad de Lisboa, que também escreve bastante sobe o tema da mulher na antiguidade.

Se estiver mais cá por baixo, por estes reinos dos Algarves, vá até Loulé, à Biblioteca Municipal, às 21.30, nesse mesmo dia 2, para participar na apresentação que vou fazer do último livro do António Manuel Venda (de quem sou fã confessa desde 1996), Uma Noite com o Fogo (que até tem blogue e tudo).
Não tem o livro? Passe pelo Pátio de Letras antes de ir para Loulé.

27 março 2009

... do Teatro

As Edições 70 mandaram-me um mail a relembrar que hoje é o Dia Mundial do Teatro, destacando algumas obras sobre o assunto publicadas por elas, tanto livros sobre o teatro, como


e


bem como peças de teatro, exemplificando o género com uma tragédia grega

As Bacantes, de Eurípides (de que já aqui falei)

uma comédia grega

As Rãs, de Aristófanes

e uma tragédia latina:
Fedra, de Séneca.

Elas não disseram, mas eu faço-lhes a publicidade de graça, deixando aqui a referência a um autor latino de comédias, Plauto, cujo Anfitrião foi tão glosado no teatro português. Veja-se, por exemplo, Camões e o seu Auto dos Anfitriões, António José da Silva (conhecido como O Judeu) e Anfitrião ou Júpiter e Alcmena ou o Anfitrião Outra Vez de Augusto Abelaira.

24 março 2009

Na quarta-feira, em Albufeira...

... vou fazer uma palestra na Escola Secundária, integrada numa actividade chamada «Os Dias da Cultura», para a qual foi feito um blogue, com o tema Tradição, Modernidade, Evolução.
Indo à biblioteca mais pormenores.

23 março 2009

Verdades repostas

Faz uma semana que escrevi o Verdades (6) e Mentiras (3).
A Teresa acertou em todas, claro. Ou não fôssemos amigas há quase 25 anos...
O Dário achou que era inverosímil que a sua professora fizesse uma daquelas coisas, quanto mais 6.
Excepto o Carlos, todos os outros acharam que eu não sabia nadar.
A Sara nunca erraria a 3 e a 4, pois esses campeões eram amigos comuns, mas distraiu-se na 5 (não deu atenção à decoração) e acreditou nas minhas boas intenções, no Verão passado, em não faltar à esgrima... eheheh...
A Redonda, o Nandokas e todos os outros não acreditaram na mentira da 9.

Seguem-se as respostas:

1) O meu desporto favorito é a natação. Pratico desde pequena e moro no Algarve para poder estar mais tempo por ano perto do mar e poder nadar.
Mentira. Sei nadar, mas não consigo, o que é diferente de não saber nadar. Acontece que tenho alguma dificuldade em conciliar movimento e respiração...
2) Pratiquei basquetebol em jovenzinha e até fui federada. O ser baixinha não foi impedimento. Verdade, verdadinha.
3) Pratiquei judo na juventude, mas não passei de verde por causa dos combates. Verdade. O meu mestre fazia os exames disfarçadamente, para eu não faltar. Como esses combates eu fazia, cheguei a verde. Depois, de azul em diante, era necessário ir a competições a sério e eu não quis.
4) Conheci e privei com campeões de judo, incluindo um nosso representante nuns Jogos Olímpicos. Verdade. Na fauldade fui colega da Odete, que foi campeã Europeia, e que naquela altura ainda só namorava (depois casou) com o Hugo d'Assunção, nosso judoca em Seul.
5) Fiz ballet e andei em pontas. Verdade. Sei que é difícil acreditar, mas até tenho as minhas sapatilhas de pontas a fazerem de objecto decorativo num quarto de visitas.
6) Já tive a vida em perigo numa gruta, a fazer espeleologia. Verdade. Foi das poucas vezes em que senti mesmo medo e percebi que poderia não sair dali.
7) Já estive presa num elevador com mais 4 pessoas durante 2 horas. Verdade. Foi há muitos, muitos anos, num apartamento de praia, de Inverno, num prédio praticamente sem moradores, num fim-de-semana...
8) Sofro de claustrofobia. Mentira. Se sofresse, a experiência da gruta e do elevador teriam sido mortais!
9) Raramente falto a uma aula de esgrima e, apesar da idade, o meu mestre pensa levar-me aos próximos campeonatos nacionais. Mentira. Era bom, era. Mas este ano tive (e ainda tenho) uma desculpa enorme: uma epicondilite que demorei a resolver tratar e só agora está a começar a deixar-me em paz.

22 março 2009

Página 161, 5ª frase


A Bomba Inteligente passou-me uma corrente que já tinha passado por aqui há mais de um ano. Neste momento, em que ando a ler as Medeias que encontro (e dado que a de Mário Cláudio não tem tantas páginas), aqui vai a Medeia, Vozes, de Christa Wolf:

Agora tudo está certo.

20 março 2009

Pôr as correntes em dia

Aqui vai mais uma corrente/desafio que me enviou o António Manuel Venda, não do seu Floresta ao Sul, mas do Delito de Opinião.
É suposto indicar seis características minhas... manias, talvez?

- não gosto de café;
- gosto de fazer planos (mesmo que não os cumpra...);
- estou sempre a fazer muitas (mesmo muitas) coisas ao mesmo tempo;
- sou optimista: dão-me a bosta e fico toda contente a pensar que só me falta receber o cavalo;
- gosto de acordar cedo e de me deitar tarde;
- tenho cada vez menos paciência para certas coisas para as quais nem paciência para falar delas tenho.

Mais uma vez, nao me atrevo a passar, mas continue quem quiser.

18 março 2009

(De)Valoración Docente


Por vezes tenho dificuldade em reagir com tranquilidade perante factos que me impressionam.
O que se está a passar em Portugal em diversas áreas da função pública assusta-me.
Como sou professora, o que se está a passar com o ensino e com os docentes do ensino básico e secundário (quando será que chega a nós?) é realmente assustador.
Ao ler no De Rerum Natura este «postal», lembrei-me de um vídeo que me enviara, divulgado pela Junta da Extremadura, mesmo aqui ao lado do Algarve, na Espanha. A campanha chama-se Valoración Docente e vale a pena ver.

http://www.educarex.es/documentos/anuncio/anuncio.html

16 março 2009

Verdades (6) ou mentiras (3)?

Corre um desafio pelo blogobairro em que temos de escrever 9 coisas sobre nós, das quais 3 terão de ser mentira e 6 verdade. Os visitantes terão de descobrir quais são as 3 mentiras e num futuro post (ou actualização deste) indicarei as respostas certas.
Não vou passar a outros blogues, como era suposto, pois tenho andando arredada destes espaços e arriscava-me a nomear quem já respondeu. Assim, deixo ao critério de cada um.
Ah, e quem me meteu nisto foi o Nandokas .

1) O meu desporto favorito é a natação. Pratico desde pequena e moro no Algarve para poder estar mais tempo por ano perto do mar e poder nadar.
2) Pratiquei basquetebol em jovenzinha e até fui federada. O ser baixinha não foi impedimento.
3) Pratiquei judo na juventude, mas não passei de verde por causa dos combates.
4) Conheci e privei com campeões de judo, incluindo um nosso representante nuns Jogos Olímpicos.
5) Fiz ballet e andei em pontas.
6) Já tive a vida em perigo numa gruta, a fazer espeleologia.
7) Já estive presa num elevador com mais 4 pessoas durante 2 horas.
8) Sofro de claustrofobia.
9) Raramente falto a uma aula de esgrima e, apesar da idade, o meu mestre pensa levar-me aos próximos campeonatos nacionais.

11 março 2009

Um título possível: vergonha na cara. Outro título: obras públicas. Outro título: extenuada. Enfim, não sei o que hei-de chamar a isto.

O título deste post remete para o que sinto e para o texto que vos trago.

Hoje tomei-me de coragem (gosto deste uso do verbo) e voltei ao blogue. Isto da vergonha é terrível: quanto mais o tempo ia passando maior ela ia sendo e eu sem saber como pedir desculpa a todos os amigos pela falta de notícias neste espaço. A única coisa boa é que a razão da ausência é o muito trabalho. O resto está bem (não contando com as mazelas próprias da idade, claro).

Andava eu à procura de qualquer coisa para escrever dia 8 e peguei em Plutarco, n' A Coragem das Mulheres. Encontrei aí, a propósito de uma outra heroína, a referência a uma mulher discreta e sem nome que, com uma frase inteligente, levou os homens da sua terra a terem vergonha na cara e a fazerem frente a um déspota que, tendo começado por lhe agradar, acabou por humilhar o povo que o tinha eleito.

Deixo-vos com Plutarco, que conta melhor a história que eu:

o tirano Aristodemo [governou em Cumas, na Itália, à volta de 502-492], de quem alguns, devido à sua alcunha de «Brando», pensam que de facto o era, mas desconhecem a verdade. (...) Nesta campanha militar [contra os Etruscos], que durou muito tempo, ele cedeu em tudo para agradar aos cidadãos que faziam parte da expedição e, mais como demagogo do que como general, persuadiu-os a juntarem-se para atacar o Senado e expulsar os melhores e mais poderosos. A partir de então tornou-se tirano, e nas injustiças para com as mulheres e jovens livres superou-se a si mesmo em perversidade. Conta-se que impunha que os jovens usassem cabeleira comprida e ornamentos de outro e que obrigava as raparigas a rapar o cabelo e a vestir trajos masculinos e roupa interior curta. (...)
Acontecia que, por aquela altura, Aristodemo abria um fosso à volta do seu território - uma obra que não era útil nem necessária - simplesmente porque desejava esgotar e extenuar os cidadãos com trabalhos e dificuldades. Com efeito, tinha sido ordenado a cada um que retirasse um determinado número de medidas de terra.
Uma certa mulher, ao ver que Aristodemo se aproximava, desviou-se do caminho e cobriu o rosto com a túnica. Quando o tirano se foi embora, os jovens riram-se dela e perguntaram-lhe, no gozo, por que razão o seu pudor a fizera evitar apenas Aristodemo, já que não tinha tal sentimento em relação aos outros homens. Mas ela respondeu com muita seriedade e disse: «Porque Aristodemo é o único homem entre todos os de Cumas».
Esta frase, dita deste modo, tocou-os a todos, e aos nobres de espírito, por vergonha, incitou-os mesmo a lutar pela liberdade.


(tradução de Maria do Céu Fialho, Paula Barata Dias e Cláudia Cravo, todas da Universidade de Coimbra e editada pela Minerva, em 2001)

24 fevereiro 2009

Emo... séc. XIX

O acaso levou-me um destes dias a contactar com o conceito de emo. Na verdade, não sei bem o que é um emo... e, por estas várias definições (e alguns dos comentários), fiquei com a impressão que nem os próprios sabem bem.
Ao reler o Coração, Cabeça e Estômago, do Camilo, lembrei-me disto tudo com Silvestre da Silva:

entendi que a desordem dos cabelos devia ser a imagem da minha alma. Comecei, pois, por dar à cabeça um ar fatal, que chamasse a atenção e aguçasse a curiosidade dum mundo já gasto em admirar cabeças tão vulgares. A anarquia dos meus cabelos custava-me dinheiro e muito trabalho. Ia, todos os os dias, ao cabeleireiro calamistrar os longos anéis, que me ondeavam nas espáduas; depois desfazia as espirais, riçava-as em caprichosas ondulação, dava à fronte o máximo espaço e sacudia a cabeça para desmanchar a torcida deletriadas da madeixa. Como quer, porém, que a testa fosse menos escampada que o preciso para significar «desordem e génio», comecei a barbear a testa, fazendo recuar o domínio do cabelo, a pouco e pouco, até que me criei uma fronte dilatada, e umas bossas frontais, como a natureza não dera a Shakespeare nem a Goethe.

18 fevereiro 2009

Em profundo silêncio, seguem por vereda íngreme, escarpada,
escura, envolta em espessa neblina. Não estavam longe
do rebordo superior da terra. Cheio de amor, com medo
de que Eurídice desfaleça e ansioso por vê-la, Orfeu volta
o olhar. Logo ela cai de novo. De braços estendidos,
lutando por que a agarrem e por ela se agarrar, a infeliz
apenas agarra a inconsistência do ar.

Ovídio, Metamorfoses, X, 53-59)
Tradução de Domingos Lucas Dias, editado pela Vega.
Prémio de Tradução da União Latina 2008

13 fevereiro 2009

Escreveu mesmo assim...

... ipsis verbis.

«Muitas pessoas não distinguem o que realmente é conhecimento, fechando os olhos à razão e deixando-se levar pela sede de conhecimento.»

07 fevereiro 2009

momento S.J.

«momento em que Jesus foi entregue pelos Jesuítas aos Romanos»

Garanto que é o que está lá escrito... pronto... admito... Jesuítas estava sem acento.

05 fevereiro 2009

Tradução de Édipo: precisa-se...

(imagem daqui)

«é arrepiante também a forma como o casamento com a mãe passou à frente deles sem que ninguém reparasse. Isso torna-se tão espectacular e emotivo para quem lê este tipo de obras, conseguir-se emocional com tanta misticidade de acontecimentos audazes».
Assim mesmo.
Outras dores d'alma edipianas aqui e aqui.

02 fevereiro 2009

Tio de Sócrates?

(Sócrates. O meu, claro. Imagem daqui)

Além de problemas com a fonética, tenho uma grande dificuldade em me habituar ao facto do primeiro-ministro se chamar Sócrates. Para mim ele é José Sócrates.
Sócrates, assim, sem mais nada, é o meu velho companheiro filósofo.
Dele sei que é filho de Sofronisco e Fenarete, a minha sogra parteira, e nós temos 3 filhos: Lâmprocles, Sofronisco e Menexeno.
Com tios e primos a aparecerem (e sobrinhos! Eu sei lá se Pátrocles, o seu meio-irmão - o que é filho de Queredemo - tem filhos!) ainda me vou meter em sarilhos. Valha-m' Héracles!
Qualquer dia ainda vão dizer que o método socrático não se baseia no diálogo e que falar do demónio de Sócrates é um insulto ao governo.
Estou feita!

31 janeiro 2009

Como disse?

(a imagem do Escher fui buscar aqui)
Oiço mal.
Isto é, oiço o que me dizem mas compreendo mal. Deve haver uns circuitos na linha interpretativa que me fazem não perceber o óbvio.
Esta minha incapacidade (aqui não é mania, é mesmo uma incapacidade), quando não detecto a tempo que está a acontecer, leva a alguns diálogos absurdos. Felizmente consigo disfarçar na maioria das vezes.
A razão é sempre a fonética. As regras da nossa língua fazem com que, por exemplo, um 's' em final de palavra quando junto a uma vogal que inicia outra palavra soe como 'z'. O exemplo que se dava na faculdade era o das «janelazamarelas». Como não sei usar aqui o alfabeto fonético, vou ligar as palavras, tal como as ouço, para mostrar como funciona:

Ela - Arranjei-te «umachpinhas» para comeres.
Eu - Umas espinhas?

Ela - Sim, «umachpinhas». Não gostas?

Eu - De espinhas?

Ela - LOL. Não.
Sopinhas!
Eu - Ahhhh!


Ele - Tens aí «umapinha»?

Eu - Uma pinha?

Ele - Sim. «Umapinha».

Eu - E para que queres tu uma pinha?

Ele - Para ver qual o melhor caminho para chegarmos lá.

Eu - Ahhhh! Um
mapinha!
Ele - E não foi o que eu disse?


Isto vem de longe, muito longe.
Nos meus tempos de escuteira, adolescente, fomos a um festival da canção escutista e concorremos com uma letra escrita pelo nosso chefe da altura, um digníssimo bloguista que visita este espaço (não sei se quer que o identifique). Uma das palavras que ele lá pôs intrigou-me: «praicidade». Ele há tantas palavras terminadas assim: a unicidade, a duplicidade, a simplicidade... o que seria praicidade?
Só quando vi escrito percebi. Dizia a frase «para isso idade».

Recuando mais, criança pequena, quando me benzia «pelo sinal da santa cruz...», ficava intrigada, pois bem me esforçava para encontrar nas cruzes que via onde estava o pêlo e o sinal, como aqueles que algumas velhas tinham na cara.

Cataloguei isto como o faz o Bagaço Amarelo no seu blogue: coisas tão estúpidas que até tenho vergonha.

23 janeiro 2009

O meu Padre

Quando eu era criança, raros eram as que não andavam na catequese ou não escolhiam a disciplina de Moral e Religião.

Em relação a esta última, esperávamos ansiosamente chegar ao 8º ano para sermos alunos do Padre Guerra (P.e Fernando Guerra Ferreira, que já referi neste outro post). Ali líamos livros que nos faziam pensar em realidades até então completamente desconhecidas. Lembro-me do Perguntem à Alice ou de Viagem ao Mundo da Droga. Naquelas aulas discutíamos todos os assuntos de que os jovens de 13, 14 e 15 anos gostam, sem preconceitos.

O Padre Guerra marcou, definitivamente, a nossa geração. Até teve a ousadia de abrir os escuteiros às raparigas! Até então, no agrupamento da minha terra só havia Akelás, as que tomavam conta dos Lobitos, mas ele fez com que se constituísse uma primeira patrulha feminina (da qual fiz parte).
A mim, marcou também a minha carreira profissional. Quando tinha de escrever algum conceito relativo à antiguidade clássica, usava caracteres gregos, o que me deliciava. Como eu gostava muito de história daquela época, a aprendizagem das línguas antigas foi a consequência natural.

Costumo referir-me a ele como «O meu Padre» (começo a perceber uma atracção pelo possessivo nos meus - outra vez! - escritos), pois foi dos educadores que mais me marcou na adolescência e que me fez sentir parte daquilo que, então, explicou que era a Igreja.

Mas a Igreja não era bem como ele dizia eu segui outro rumo, mas isso são outros quinhentos.

18 janeiro 2009

Afinal não era literatura oral...

O meu pai contava-me histórias de terror, mas eu não tinha medo nenhum!
Devia ser porque ele era muito expressivo e eu ria-me.
Ouvi esta tantas vezes que a aprendi de cor.
Um dia, em conversa com o meu digníssimo colega Dias Marques ( JJ para os amigos), o homem da literatura oral (e agora das lendas urbanas - ops! lendas vivas é que é!), contei-lhe e ele conseguiu identificar o autor (tenho de lhe voltar a pedir a informação, pois não me lembro de quem era, apenas que era do séc. XIX).
Para mim era literatura oral. Cá vai:

Vem cá, meu Paulo, escuta: és amigo de tua mãe?
- Oh, minha mãe, que pergunta!
- Basta, meu Paulo, pois bem. Faz 20 anos – e dizendo, tira do seio um punhal - que teu pai morreu a golpe deste ferro, para meu mal, e eu, para vingá-lo, fiz uma jura fatal...
- Uma jura? Mãe santíssima! Oh, minha mãe, o que jurou?
- Jurei por este sangue, que em ferrugem se tornou, que tu matarias aquele que teu pai matou. Matas?
- Mato.
- Matas, seja quem for?
- Mato.
- Ainda que a vingança te tire ao seio o amor?
– Mato.
- Toma este ferro, é Ricardo o matador.
- Ricardo, o pai de Maria? Oh, minha mãe, perdoai...
- Pela amante o pai esqueces, filho ingrato? Parte, vai! Cumpre a jura ou sê maldito se não vingas teu pai.
Nessa noite, tinto em sangue e com os cabelos no ar, o assassino de Ricardo vai aos pés da mãe lançar o punhal com que jurara a morte do pai vingar.
Ri-se a velha de contente e abraça o vingador, mas eis senão quando aparece na porta uma estátua de dor:
- Paulo, meu Paulo, perdi meu pai, não vês? As lágrimas que aqui derramo assistiram ao seu fim. Quis falar-me e já não pode, com os olhos fixos em mim. Tu vingas-me, meu Paulo, sim?
- Vingo, Maria, sossega, eu sei quem teu pai matou, vai morrer com o mesmo ferro que ainda há pouco o transpassou.
E pegando no punahl no próprio peito o cravou...
Foge a triste espavorida, deixa Albano sem parar, chega a Roma ao outro dia, por toda parte a gritar:
- "Quem me mata por piedade, quem me acaba de matar?"
E assim vagueou três dias e ao quarto enlouqueceu.

Por isso o viajante, quando passa ao Coliseu, ouve a triste às gargalhadas, vingança pedindo ao céu!

14 janeiro 2009

Amor sem idade

As tuas rugas, Filina, valem mais do que a seiva
de toda a juventude. E eu prefiro ter nas mãos
os teus pomos de pontas caídas
que o seio direito duma jovem na força da idade.
O teu fim de Outono é superior à primavera de qualquer outra
e o teu inverno mais quente que o seu estio.

Paulo Silenciário (Antologia Palatina, 258)
em tradução de Albano Martins, Do Mundo Grego Outro Sol, Lisboa, Asa, 2002.
Mais sobre amor em idade madura aqui.

10 janeiro 2009

Confissões de uma «juke-box» ambulante salva por uma correnteza

Hoje ganhei coragem e vim actualizar o blogue.
Isto de se estar muito tempo sem escrever é um problema: tendo deixado passar datas como o Natal e o Ano Novo sem agradecer os votos e as gentilezas que me enviaram, a vergonha de não o ter feito foi crescendo e cada dia que passava a necessidade de dizer algo que realmente merecesse a pena impunha-se com mais premência.
E o tempo a passar-se e eu cada vez com mais problemas em encontrar um assunto que me levasse a sair deste estado de falta de... nem sei bem o quê.
Pronto.
É hoje. Não é tarde nem é cedo.
E começo com uma confissão de um defeito que tenho: sou, praticamente, uma juke-box ambulante. Mas não uma juke-box com aqueles temas de que mais gosto, cantados afinadamente, postos a tocar quando nos encontramos num determinado ambiente (um daqueles em que há uma juke-box, bem entendido).
Não.
O meu defeito é muito incomodativo. Para os outros, porque, pode denotar falta de atenção ao que me dizem (o que não é verdade) e pelo desafinanço; para mim, porque me sinto ridícula. É verdade. Completamente.
O que se passa é o seguinte: uma pessoa está a falar comigo e, de vez em quando (não é sempre, vá lá), há uma palavra que diz e que funciona como a ficha que se introduz na juke-box e faz sair a canção.
Os exemplos são os mais absurdos, pois a canção que sai normalmente não tem nada a ver com o assunto de que se fala, mas acontece apenas porque uma palavra ou expressão também aí se encontra contida.
É absurdo, eu sei. E ridículo.
O que vale é que, na maior parte dos casos não verbalizo (ou seja, poupo o interlocutor ao meu canto) e isto passa despercebido.
Um exemplo:
Alguém: Bem, então adeus. Vou-me embora.
Eu (em pensamento, surge o Sérgio Godinho): «E agora eu vou-me embora, e embora a dor não queira ir já embora, agora eu vou-me embora e parto sem dor. E parto dentro de momentos, apesar de haver momentos em que a dor não parte sem dor.»

Pois é. Eu sei. Não é preciso dizer nada.

Mas então não é que recebo um desafio da Ana para fazer parte de uma corrente que apela, de algum modo, a esta minha mania? Pertence pôr aqui uma foto, mas como não estou em casa, não tenho aqui arquivos (ponho depois). O que interessa é que tenho de responder às perguntas que me fizeram com títulos de canções! Eheheheh! O sonho que realiza a minha mania! Deixou de ser um defeito e passou a ser adequado para esta corrente!
Aqui vão as respostas. Escolhi os Beatles (têm de ser de uma única banda ou cantor). E passo à minha querida sobrinha Rita, à Sara, ao Zé Bandeira e à Gi.
  1. És homem ou mulher? Girl
  2. Descreve-te. Free as a bird
  3. O que as pessoas acham de ti? "She's a Woman" e "To Know Her is to Love Her"
  4. Como descreves o teu último relacionamento? "The End"
  5. Descreve o estado actual da tua relação. "Real Love"
  6. Onde querias estar agora? "Memphis, Tennessee"
  7. O que pensas a respeito do amor? "I Want to Tell You"
  8. Como é a tua vida? "It's Only Love"
  9. O que pedirias se pudesses ter só um desejo? "Every Little Thing"
  10. Escreve uma frase sábia. "Think for Yourself"

19 dezembro 2008

Chamava-me Melusina


O meu pai tinha muita graça.
Não parecia, é verdade, pois em casa cumpria o papel que lhe havia sido reservado pelas matriarcas: o de pai. E o que era um pai? Alguém que estava fora o dia todo a trabalhar, vinha a casa às refeições, impunha respeito, fazia cumprir as regras e aplicava os castigos a pedido: «Nogueira, o menino bateu na menina» e o Nogueira lá ia e aplicava a sanção esperada ao menino amedrontado.
Na maior parte dos casos bastava que abrisse os seus grandes olhos para que todos nos encolhêssemos.
Um dia fiz-lhe frente (é assim com os mais novos) e disse-lhe que os olhos dele não me faziam medo (talvez porque os meus eram parecidos, grandes e redondos quando muito abertos). O verde acastanhou e vi tristeza. Mas só me apercebi disso mais tarde, pois na altura cantei a glória de o ver ficar calado com a minha ousadia, que apenas lhe fizera soltar um suspiro.

O meu pai contava-me histórias que me arrepiavam e outras de encantar. Uma delas começava assim:
«As fadas... eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar...

Umas vivem nos rochedos,
Outras pelos arvoredos,
Outras, à beira-mar...


(...)


Eu sei o nome de algumas:

Viviana ama as espumas

Das ondas, nos areais,
Vive junto ao mar, sozinha,
Mas costuma ser madrinha

Nos baptizados reais.


Morgana é muito enganosa;

Às vezes, moça e formosa,

E outras, velha, a rir, a rir...

Ora festiva, ora grave,

E voa como uma ave,

Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?
De Titânia, a pequenina,

Que dorme sobre um jasmim?

De cem outras cuja glória

Enche as páginas da história

Dos reinos de el-rei de Merlin?»


E continuava, continuava...
E às vezes chamava-me Melusina...

Tenho de admitir que só mais tarde (e com alguma desilusão) soube que não tinha sido ele o autor, mas um poeta que eu conhecia de outros versos: Antero de Quental.
O Assírio, da Vega (sim, foi esse quem deu o nome à Assírio & Alvim, sim), teve a bondade de me oferecer uma edição lindíssima (prenda em conta, que nem 10 euros custa), acabada de sair.
Já comprei outros para oferecer, pois sei de quem vai gostar.
Afinal, ele não era só meu pai...

18 dezembro 2008

Quem o viu...

... e quem o vê!


O que vale é que o gato Zé Mimi tem o pelo alto e não se nota muito que perdeu 50% do peso.

A conta do veterinário galopa, galopa, e não se pode pôr nada no IRS.
Descobri que anda na net uma petição para que as despesas com os nossos animais possam ser deduzidas nos impostos. Já assinei e divulgo-a aqui para quem estiver interessado.

Dedução de despesas com saude animal em IRS

17 dezembro 2008

E os mitos gregos...

(Orestes a matar Clitemnestra. Imagem daqui)

«... para que servem?» _ perguntou-me. «A ficção de hoje tornar-se-á mito amanhã
Não penso que isso aconteça, pelo menos enquanto se conhecer a literatura com ela é, com autor identificado.
Os mitos não tinham autoria, tinham origem oral e cumpriam também funções na religiosidade das pessoas. Eram histórias de extensão variável, algumas com versões contraditórias, e aceites por uma comunidade como as suas histórias.

As bases em que os mitos eram construídos repetiam-se em diferentes narrativas:
- os pais que expõem o filho num monte para que venha a morrer, para evitar que um oráculo se cumpra, mas ele é salvo e vem a provocar a desgraça dos progenitores, como previsto pelo destino. Recordo-me de Laio e Jocasta que expõem o filho, Édipo, mas este mata o pai e casa com a mãe, como predito; ou de Príamo e Hécuba que expõem o filho Páris, mas este cumpre o oráculo que dizia que ele viria a ser a ruína de Tróia, ao raptar Helena de Esparta, dando início à Guerra de Tróia narrada na Ilíada.

Alguns destes elementos encontram-se também
noutras culturas:
- a virgem que tem um filho (ou mais do que um) de um deus, filho esse cujo desígnio é marcante para a Humanidade. Recordo-me de Reia Sílvia (virgem vestal), na cultura romana, que engravida de um deus (Marte) e o seu filho (Rómulo, depois de matar o irmão) vem a ser o fundador e primeiro rei de Roma; ou, na cultura judaico-cristã, lembro Maria (virgem), que tem um filho (Jesus) do seu deus (Deus/Jeová), vindo este filho a ser o fundador de uma das maiores e mais influentes (se não a maior e a mais influente) religiões do mundo.

Vem-me à memória a
criança abandonada num cesto nas águas de um rio: Moisés, no Egipto, e os gémeos Rómulo e Remo, em Roma, os animais que alimentam crianças, como a ursa que amamenta Páris, a loba que amamenta Rómulo e Remo ou a cabra que amamenta Zeus.

Os mitos gregos não cumprirão hoje nenhuma função, a não ser que nos lembremos deles e percebamos quão importantes podem ser na compreensão de uma das culturas que está nas nossas matrizes. João Canijo dizia ao JL (estou a citar de cor, pois a minha cadela rasgou o jornal - riam-se, riam-se) que usava estes mitos (nomeadamente Electra), porque são arquétipos e poucos mais foram inventados depois destes (refere Shakespeare, penso).

Os deveres chamam-me, mas ainda voltarei a este assunto.

16 dezembro 2008

Ao teu lado

A primeira vez que o li, há uns anos, chamava-se Cartas a Desidéria e ainda não era livro. Adorei!
Agora, o meu amigo Luís Costa Pires publicou-o com este novo nome, Ao teu lado, na Vega (não me habituo ao nome Nova Vega), tendo feito o lançamento na semana passada (quando estas fotos foram tiradas). Uma boa leitura!

15 dezembro 2008

Em Dezembro, com o ano a acabar


Borda d'Água


Em janeiro, conta os dias que faltam
para o fim do inverno. Em fevereiro,
goza o carnaval. Em março, não te
esqueças da quaresma. Em abril, solta

o sol da primavera. Em maio, as noites
são mais quentes. Em junho, atravessa
o solstício. Em julho, apanha os frutos
do verão. Em agosto, ouve as cigarras.

Em setembro não te importes com o
vento. Em outubro apanha as folhas do
chão. Em novembro não saias à noite.

E em dezembro, quando o ano acabar,
lembra-te que não fizeste nada disto,
e se fizeste terás de tudo recomeçar.

Nuno Júdice
in O Breve Sentimento do Eterno, Edições Nelson de Matos, 2008

10 dezembro 2008

... a minha alegre casinha...

Esta é a bela imagem da minha casa vista pelas traseiras, desenhada pela Barbara, a minha amiga italiana que esteve, com o seu Claudio, de visita à pólis.

Alguns amigos mostraram-se preocupados com a minha ausência do blogue e a todos agradeço o facto de terem dado conta disso.

Têm sido muitos os factores, mas nenhum deles agradável. Uma série de acontecimentos ininterruptos levaram a que só hoje eu tivesse tempo de vir aqui deixar este desenho com estas palavras.

Agradeço à minha amiga Reboliço os desejos de melhoras do gato Mimi, que está com uma lipidose hepática.

26 novembro 2008

Diz Aristóteles, na Política

A causa da existência de muitos regimes políticos deve-se ao facto de todas as cidades possuírem uma pluralidade de partes. Assim, começamos por observar que todas as cidades são compostas por habitantes reunidos em famílias; em seguida, nessa massa de cidadãos agrupados, existem necessariamente os que são ricos, outros sem recursos, e outros de condição mediana; os ricos possuem armas, os pobres estão desprovidos delas. Vemos também que, no povo, uns são agricultores, outros comerciantes, e outros trabalhadores braçais.
(...)
É evidente que existem necessariamente muitos regimes e em cada um deles, várias formas distintas entre si, uma vez que cada uma das duas partes difere entre si da forma. Um regime é, pois, uma ordenação de magistraturas repartidas por todos conforme o poderio dos que participam no governo, ou a igualdade comum a todos; refiro-me, no primeiro caso, ao poderio dos ricos e dos pobres e, no segundo caso, à igualdade comum a ambos.

(já se está mesmo a ver o que se segue, mas continuo amanhã. A referência é sempre a mesma.)

23 novembro 2008

post descaradamente roubado

Não resisto a roubar este post à Gi:

Seis meses sem democracia

Os antigos Romanos acabaram com a monarquia por não suportarem atitudes tirânicas dos seus últimos reis, e criaram uma série de cargos executivos eleitos por um ano para evitar novas tiranias.

No entanto, quando havia uma situação excepcionalmente grave, podia-se nomear um ditador que estaria no cargo por seis meses durante os quais tomaria as decisões que entendesse, não sujeitas a veto, e pelas quais não responderia criminalmente após o fim do mandato, ao contrário do funcionamento normal da república.

Andará Manuela Ferreira Leite a estudar história da antiguidade?

20 novembro 2008

dor

A perda de seu pai não a chora Gélia quando está só;
se alguém está presente jorram lágrimas de encomenda.
Não sente o luto, Gélia, quem procura ser louvado.
Sente dor verdadeira quem, sem audiência, sente dor.

Marcial, Epigramas, vol. I, Tradução de José Luís Brandão para as Edições 70, em 2000, com introdução e notas de Cristina de Sousa Pimentel

18 novembro 2008

nesta semana sem tempo...

... em que só me lembro das palavras de Séneca e de como não me servem na correria em que ando, obrigo-me a parar e a ler um soneto do novo livro de Nuno Júdice, O Breve Sentimento do Eterno, que me foi oferecido, no sábado, dia 8, quando fui à sua apresentação na bonita livraria Pátio de Letras:

Tempo

Se corre devagar o tempo, e o tempo
não corre, em que relógio contarei
os segundos que se demoram quando as
horas se precipitam, ou o amanhã

que nunca mais chega neste hoje
que já passou? Mas o tempo só o é
quando o perdemos; e ao ver que
é tarde, não se volta atrás, nem

as voltas que o tempo dá o voltam
a fazer andar. Por isso é que o tempo
nos dá tempo para o ter, se ainda

houver tempo; e se tivermos de o perder,
nenhum tempo contará o tempo que se
gastou para saber o que se perdeu, ou ganhou.

17 novembro 2008

Bloqueio da TMN

Uma curta mensagem: estive sem internet quinta e sexta, bloqueada pela TMN por alegada falta de pagamento. Como a rede é tão má aqui em casa e sou tantas vezes impedida de ir à net, pensei que fossem apenas maus momentos. Na sexta lá fui à loja saber o que se passava e afinal era ainda o problema que tenho com eles desde Junho: cobraram-me um valor imenso (nesse mês foram 210 euros!!!), a mim que, mesmo que quisesse, não tinha estabilidade de rede para downloads pesados. Enfim, lá me restabeleceram a ligação. Continuo à espera da resolução deles para este problema.
Já voltarei a escrever e obrigada pela paciência.

12 novembro 2008

Abbey Road

Já falei aqui dela, mas agora que tem um blogue, espero que também a acompanhem. Não sei se vai continuar a escrever em O nascer do Sol, onde tem uma etiqueta só dela, mas serei leitora de tudo o que faz na sua Rua da Abadia.
Não estou a ser nada tendenciosa nem parcial, influenciada pelo amor que lhe tenho, mas a minha sobrinha é excepcional.

09 novembro 2008

II Festival de Órgão - Faro 2008

Fui ontem assistir ao segundo concerto do II Festival de Órgão, na sé de Faro, com Antoine Sibertin-Blanc, numa organização da Associação Cultural Música XXI. Foram cerca de 50 minutos muito bonitos (passaram tão depressa!) de música muito vívida e tocada com muita perícia. Há muitos anos ouvi ali João Vaz (que espero poder voltar a ouvir para a semana).
Para que pudéssemos acompanhar o intérprete, um écran gigante ia transmitindo em directo as imagens de Sibertin-Blanc, a leveza dos seus dedos e a agilidade com que ia mudando os registos. O único problema foram as variações que o realizador (não sei se se chamará assim) resolveu fazer. Em vez de nos deixar acompanhar a música com a visão do intérprete, em momentos-chave, como quando os puxadores mudavam os registos dos tubos, fazia «efeitos especiais», abrindo e fechando a imagem em bolas, em cortina, e outras coisas do género, mostrando os anjos que encimam o órgão, ou os tubos, elementos interessantes, mas cujas imagens serviram apenas para distrair, perturbando o tranquilo acompanhar da interpretação.
Veremos se no próximo sábado (sempre às 21.30) João Vaz terá mais sorte.