09 setembro 2009

Ainda Horácio


Como se pode ver, o meu frigorífico é muito intelectual. Deu-lhe para Horácio.
Nesta ode (I, 37), o poeta exorta à comemoração da morte de Cleópatra, que fez frente a Octaviano (e perdeu), em 31 a.C.

Bebamos agora, amigos, é nosso dever:
dancemos agora com pé ligeiro, é tempo
de abastar o luxuoso leito dos deuses
de sálios banquetes.

Até agora, os deuses proibiam-nos de retirar
o Cécubo da velha adega: uma rainha preparava
a louca ruína do Capitólio
e as exéquias do nosso poder,

com a ajuda de uma contaminada súcia de homens
depravados até à doença; descontrolada tudo esperava,
ébria de uma fortuna amiga.
Porém, um só navio

do fogo a custo fugiu, sua demente fúria acalmando:
seu plano, louco e imerso em vinhos mareóticos,
César reduziu a reais temores,
quando ela, como se voasse,

de Itália fugiu, e ele, tal como o falcão caça
as dóceis pombas, ou pelos nivosos campos da Hemónia
o veloz caçador atrás da lebre corre,
para pôr correntes nesse fatal portento

à força dos remos de perto a perseguiu. Ela, procurando morrer
com maior nobreza, nem receou com mulíebre medo
o punhal, nem tentou com sua veloz armada
uma recessa costa alcançar,

antes teve a bravura de ver com sereno gesto
seu palácio desmoronar-se, e corajosa pegar com as mãos
em ferozes serpentes, para assim negro o veneno
penetrasse no seu corpo:

decidindo-se pela morte mais intrépida se tornou,
recusando-se certamente, mulher altiva, a ser levada,
já não mais rainha, pelos cruéis barcos liburnos
a um soberbo triunfo.

(a tradução é de Pedro Braga Falcão, referida aqui)

08 setembro 2009

Cartão vermelho


A Martinha brindou-me com esta corrente:
"Cada um deve fazer uma listinha com 10 escolhidos para dar o cartão vermelho. Pode ser uma pessoa, uma atitude, enfim, tudo aquilo que de alguma forma nos incomoda, se quiser e precisar, dê uma justificativa breve. Após fazer isso, passe a bola para mais cinco blogueiros e vamos ver no que dá...".

Cá estão os 10 cartões vermelhos:

- cartão vermelho à desconsideração
- cartão vermelho ao desrespeito
- cartão vermelho ao egoísmo
- cartão vermelho à estupidez
- cartão vermelho à humilhação
- cartão vermelho à ignorância
- cartão vermelho à intolerância
- cartão vermelho à preguiça
-
cartão vermelho à prepotência
- cartão vermelho à violência

Mesmo sabendo que alguns não gostam de correntes, mas porque acredito que não possuem aquelas características nem se dedicam a nenhuma daquelas actividades, passo a:

- Xiclista
- Once
- Redonda
- Leonor
- Gi

07 setembro 2009

O verdadeiro «carpe diem»

Há uns anos comprei este íman na loja do Museu Britânico, em Londres.
Hoje, directamente da porta do meu frigorífico, passando pela Livraria Pátio de Letras onde comprei as Odes de Horácio, da Cotovia, em tradução de Pedro Braga Falcão (Oh, deuses! Andei com os pais dele na faculdade!), aqui vos deixo a ode 11 do livro 1, o verdadeiro «carpe diem» (se bem que este outro fosse mais antigo...):

Tu não perguntes (é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

05 setembro 2009

A mulher lenta

(foto do meu braço direito ontem de manhã)

O título deste post ainda pode levar a pensar que me cortaram alguma coisa, como à personagem do livro de J. M. Coetzee, onde me inspirei, mas não.
Torci o pulso e talvez tenha uma pequena fractura, mas disseram-me que numa semana fico boa.
Consigo escrever com dois dedos da mão esquerda.
Não, não, a esquerda não tem nada, eu é que só sei escrever com dois dedos (se bem que o meu normal seja usar quatro, com uma bela velocidade).

E tudo o que faço agora é muito mais lento.
Não deixa de ser uma aprendizagem, como me disse ontem uma querida amiga.
Desacelerei.

03 setembro 2009

Ficar de olho...

O gentil Carlos Barbosa de Oliveira, do Crónicas do Rochedo, ofereceu-me um simpático prémio há quase um mês e só agora agradeço. Peço desculpa pelo atraso com que me manifesto, mas o agradecimento há muito que aqui mora. «Vale a pena ficar de olho nesse blog» é o nome do prémio e tenho de o atribuir a 10 convivas deste espaço.
Quem já andou por estas correntes sabe quão injustas se tornam estas escolhas, mas como aceitei o desafio, vale a pena ficar de olho nestes blogues:

Restolhando
fio de prumo
Pátio de Letras
Black Box Syndicate
Ponteiros Parados
As coisas são como são
Floresta do Sul
Meditação na pastelaria
Livro de Estilo
A dignidade da diferença



02 setembro 2009

José Carlos Fernandes

(foto tirada daqui)
Gosto muito de José Carlos Fernandes.
Já o tinha dito aqui.
Gosto muito do que desenha e quase ainda mais do que escreve. Talvez porque muitas das suas referências remetam para autores que aprecio.

01 setembro 2009

«a ver se adiantamos alguma coisa»

(tirei a imagem daqui)

Simbolicamente, recomeço a escrever no blogue no primeiro dia de Setembro. Os professores contam os anos de um modo diferente (de Setembro a Agosto) e esta é uma data sempre importante.
Tenho andado a preparar o ano lectivo que está a começar, à roda com objectivos e competências, descritivos de unidades curriculares e preocupada em como organizar as aulas de tutoria. A adaptação ao modelo de Bolonha, para fazer sentido, tem de dar, efectivamente, mais autonomia aos alunos, mas as tutorias terão de ser algo mais do que outra aula normal ou, o que é pior, uma aula inexistente.
No início de cada ano lectivo faço votos para ter alunos que gostem de aprender e que, como diz o Sócrates de Platão (n' A República 346a), não respondam contra a sua opinião real, «a ver se adiantamos alguma coisa».

15 agosto 2009

Lisboa, em 2002

Ao fazer umas arrumações, num saco cheio de partituras musicais (veja-se por aí há quanto tempo não toco!) encontrei um álbum de fotografias enviado por uns amigos franceses, depois de umas férias por cá.
Dedico estas memórias ao meu amigo Zé Karolus!

05 agosto 2009

Emigrar?

Nunca pensei em emigrar.
Viver uns tempos noutro país, sim, pois é uma experiência enriquecedora, mas sair para sempre não.
Tinha na memória uma prancha do Quino, que finalmente encontrei e que aqui deixo digitalizada.

Quino, Condições Humanas, Publicações Dom Quixote, col. Humor com humor se paga, nº 36
(clicar na imagem para aumentar)

03 agosto 2009

Esses caminhos não são meus

(imagem daqui)

ORESTES:
Sou livre, Electra; a liberdade abateu-se sobre mim como um raio.

(...)
Pratiquei o meu acto, Electra, e este acto era bom. Levá-lo-ei aos ombros; como um barqueiro leva os viandantes, fá-lo-ei passar para a outra margem e prestarei contas dele. E quanto mais difícil for de levar, mais contente ficarei, pois é ele a minha liberdade.
Ainda ontem eu andava ao acaso sobre a terra, com milhares de caminhos a fugirem-me sob os passos por pertencerem a outros. Todos eles palmilhei, tanto o dos sirgadores, ao longo dos rios, como o atalho do almocreve e a estrada calcetada dos condutores de carros; nenhum porém me pertencia.
Mas hoje já não há senão um, que é o meu caminho.

(Jean-Paul Sartre, As Moscas, Ed. Presença, 2ª ed, 1965, p. 134-135).

30 julho 2009

VI Curso Livre de História do Algarve


Hoje, às 17.30, irei fazer uma palestra intitulada «O Algarve como recurso estilístico».
Sendo eu de literatura (sou licenciada em LLC - Estudos Clássicos e Portugueses), profissionalmente nunca explorei muito a literatura portuguesa (as minhas preferências e o meu tempo vão mais a grega e a latina), mas preparar esta apresentação deu-me muito prazer. Foi uma espécie de reencontro.

Espero que os presentes sintam um pouco desta alegria!

28 julho 2009

Ouvir o povo...

Não sei porquê, mas nas maiorias absolutas o Poder tem tendência a não ouvir o seu Povo. Essa atitude, mostra o saber dos Antigos, só traz desgraças a todos.

(...)

Hémon – Não é isso que afirma o povo unido de Tebas.

Creonte – E a cidade é que vai prescrever-me o que devo ordenar?

Hémon – Vês, falas como se fosses uma criança.

Creonte – É portanto a outro, e não a mim, que compete governar este país?

Hémon – Não há Estado algum que seja pertença de um só homem.

Creonte – Acaso não se deve entender que o Estado é de quem manda?

Hémon – Mandarias muito bem sozinho numa terra que fosse deserta.

(Sófocles, Antígona, vv. 733-739. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira)

26 julho 2009

De um amigo da Tamino...

(última foto da Tamino, de 25 de Junho)
... amor da sua dona.

IN MEMORIAM DA TAMINO

A Tamino era uma gata amável e terna, não fugindo de ser dura e corajosa quando entendia tal ser necessário. E isso acontecia, por exemplo, sempre que via o seu companheiro Mimi em dificuldades e a precisar de ajuda.

A sua doçura revelava-se, no entanto, quando subia ao colo; momentos esses em que sabia ser extraordinariamente leve e delicada... excepto quando se espreguiçava e as suas unhas se esticavam mais do que seria desejável...

Não se pense que, por ser leve, fosse mole. Nada disso! Na verdade, possuía uma agilidade notável, conseguindo atingir alturas nos seus saltos que deixavam toda a gente admirada. Para ela não havia lugares inatingíveis... nem que tivesse de pular dos ombros de alguém!

Amava a liberdade sem concessões e dificilmente a trocava por qualquer chamamento, mesmo que acompanhado por súplicas. A sua única fraqueza (e não são fraquezas inofensivas como esta que nos tornam mais humanos?) eram as latinhas de comida que a sua dona usava, batendo com um garfo, para a atrair. Mas, mesmo aí, quando suspeitava de ter sido enganada (só suspeita porque, naturalmente, a dona dava-lhe sempre a comida desejada), não perdia nem a sua imensa dignidade, nem a sua compostura plena de nobreza.

É que, para concluir, a Tamino sabia, com supremas inteligência e sensibilidade, ser gata e ser gatinha em toda e qualquer situação.

A sua partida é lamentada.

Não será esquecida.

25 julho 2009

Transmissão directa do Reboliço

(Obrigada, Ana!)

Do céu dos gatos (transmissão directa para a Xantipa)

- Olá. És a Carolina?
- Sou, sim. E tu és quem?
- Sou a Tamino. Cheguei há uns dias e não conheço ninguém. Lá em baixo disseram-me que talvez te encontrasse aqui. Posso ficar contigo?
- Acho que podes. Nunca tenho grande companhia.
- O que é que fazes para passar o tempo? Há ratos para perseguir?
- Não...
- Então este céu não é só para gatos?
- Não, Tamino: aqui é tudo igual a lá em baixo. Gente e bichos tudo misturado. E já assim às vezes é um tédio - imagina se não houvesse alguns seres diferentes de nós!
- Hum... então e o sol para nos estendermos a ele?
- Nada. Nem sol nem lua. É o infinito absoluto. Lembras-te quando lá em baixo ouvias as pessoas dizerem para não se pensar em nada?
- Lembro-me; fazia-me uma confusão...
- Olha, o nada é isto.
- Mas, e as latinhas de comida, quem é que as traz? E as bogas cozidas com as espinhas todas?
- Nada, Tamino. Daqui a algum tempo já nem te lembrarás disso. Agora ouço-te a dizer essas palavras e tenho uma ideia muito vaga de que já houve algum lugar onde faziam sentido.
- É muito estranho. E não dá medo?
- Estás a sentir medo?
- Não. Estou descansada. E desapareceram-me as dores.
- Ora bem; deixa-te estar. Podes ficar aqui ao meu lado. E, se quiseres, depois iremos saltar nuvens. Isso é que é!...

23 julho 2009

Requiescat In Pace





O Mimi vai sentir a falta dela.
E eu também.
Estou contente por não ter mudado a foto do blogue. A minha amiga Ângela disse-me que eu ficava assim muito bem, com a Tamino colo.
Mas meu cabelo já não é aquele, está curto e sem pintura, e a Tamino já não está entre nós.
Este é mesmo um espaço virtual.

22 julho 2009

A gata Tamino...


... tem este nome porque eu pensava que era um gato. Como a Flauta Mágica era a minha ópera preferida, escolhi o nome do príncipe para o meu primeiro animal de estimação. Nunca tinha tido um gato, e, naquele Novembro de 1998, fiquei muito atrapalhada quando vi a Tamino sem movimento durante horas. A minha amiga Susana sossegou-me, dizendo que ela estava apenas a... dormir!
A Tamino está muito doente. Contrariamente ao Mimi, que teve uma lipidose hepática grave, algo curável, ela tem uma insuficiência renal crónica. Os níveis de ureia que, para a idade dela, deveriam estar entre 16 e 36, estão acima de 130, que a máquina não lia mais... A creatinina, que devia estar entre 0,8 e 2,4 está a 5,7...
Estou muito, muito triste.

Só vim aqui dizer isto.

17 julho 2009

«Os tiranos não são loucos: enlouquecem»


Alçada Baptista em Tia Suzana, Meu Amor, sobre Kleist:


«Mas a tia Suzana achava que o poeta era louco:

- A gente tem de viver dentro de certas regras não só para poder estar com os outros mas, sobretudo, para manter o nosso tino. Quando cada um se julga capaz de fazer as suas próprias leis, enlouquece. Por isso é que é muito mau dar a um homem o poder de ditar todas as leis. Os tiranos não são loucos: enlouquecem.»

16 julho 2009

Sangue- Estudos de Antígona

(foto enviada pelo meu amigo Rui Viola)

Talvez por ter tido o privilégio de conhecer o grupo e o projecto ainda em embrião, achei que tinham chegado a um excelente resultado.

A verdade é que gosto muito de ver os textos antigos, ou melhor, as ideias dos textos antigos a reviverem através de novas palavras, actualizadas nas novas realidades. A peça tem diversos registos que coexistem, nem sempre pacificamente: um vídeo projecta, constantemente, imagens que nos desafiam a procurar a ligação que têm ao texto que ouvimos na representação dos actores, esse mesmo texto que está legendado a um canto do ecrã. Por vezes, é nesse pano de fundo que surgem as palavras que não são pronunciadas, mas representadas pelos actores. Um espectáculo que se poderia dizer multimédia sem qualquer depreciação.

Os três actores representam todas as personagens. Isto poderá não parecer nada de especial, visto que já Aristóteles nos disse que «Ésquilo foi o primeiro que elevou de um a dois o número de actores (...). Sófocles introduziu três actores»(Poética 1449a18). Se repararmos bem, para além do Coro e do seu Corifeu, em cena nunca temos mais de três actores. Na Antígona, temos cenas com dois actores (Antígona e Ismena ou Creonte e Hémon) e outras com três (Antígona, Ismena e Creonte ou Creonte, Antígona e Guarda).
Então, qual a diferença?
Aqui, Sara Ribeiro faz, ao mesmo tempo, de Antígona e Ismena e João Pedro Santos faz de Creonte e Hémon. A princípio podia-se pensar que as legendas serviriam para ajudar a perceber quem era quem, mas a encenação e a representação estão de tal modo bem feitas que se vê lindamente a mudança de personagem.
A Isa Araújo é uma presença constante: guarda, corifeu, guia de Tirésias... com uma voz bem modulada e articulada, muda de registo nos diferentes papéis, bastante expressiva na sua (e de João Garcia Miguel)
interpretação da ode ao homem.

Faz parte da própria natureza deste tipo de espectáculo, em que um texto antigo é recriado e lido de outra forma, em diferentes suportes, não ser fiel ao texto. Mas nem é disso que se trata.
Alunos de teatro, mas já actores extraordinários!
Gostei muito deste Sangue-Estudos de Antígona, que gostaria de voltar a ver.
Dêem-me a vossa opinião!

15 julho 2009

Férias?

«A senhora sócrates» não está de férias e pede desculpa aos leitores pela ausência.
O trabalho e o cansaço são grandes, deixando-me pouco tempo para vir até aqui.
Agradeço as palavras simpáticas dos amigos que me estimularam a voltar a postar.