08 novembro 2009

Discurso (pouco) secreto na montanha...

... de Hermes Trimegisto ao seu filho Tat , onde enuncia os 12 tormentos que existem em nós e nos castigam:

Tat - Também tenho esses tormentos em mim, pai?
Hermes - E não são poucos, meu filho, mas muitos e temíveis.
Tat - Não os conheço, meu pai.
Hermes - Esse é um, meu filho, o desconhecimento é um tormento. O segundo é o sofrimento, o terceiro a imoderação, o quarto a luxúria, o quinto a injustiça, o sexto é a ganância, o sétimo o engano, o oitavo a inveja, o nono a fraude, o décimo a ira, o décimo primeiro a impetuosidade e o décimo segundo a maldade. São doze, pois, os tormentos. Mas por baixo destes, meu filho, há muitos outros (...)
Corpus Hermeticum, XIII, 7 (tradução minha)

02 novembro 2009

Dicas para boa vizinhança...

... é o título de uma rubrica da revista Dinheiro e Direitos (nº de Novembro/Dezembro 2009, p.37) que explica o que fazer
(...) «quando a árvore do terreno vizinho estende os braços para o seu lado. Primeiro, peça ao proprietário para cortá-los. Se recusar, envie uma carta registada com aviso de recepção. Passados três dias sem nada feito, pode eliminar as raízes ou ramos invasores. Devolva-os ao proprietário, junto com a despesa.»

Antes de haver cartas registadas e avisos de recepção, foi assim que Sólon determinou,

«com grande esperiência, os intervalos a deixar entre as plantações, ditando que quem plantasse alguma árvore no campo teria de guardar a distância de cinco pés em relação ao terreno do vizinho; sendo uma figueira ou oliveira, deixaria nove pés. Na verdade, estas árvores estendem mais longe as raízes e a sua vizinhança não é inócua a todas as plantas, pois roubam-lhes o alimento e lançam emanações que são prejudiciais a algumas delas.»
(Plutarco, Vida de Sólon, em tradução de Delfim Leão, para a Relógio d'Água, há 10 anos.)

Os antigos sabiam (quase) tudo.

25 outubro 2009

O órgão de governo da Coisa Pública


Portanto, res publica 'Coisa Pública' é a res populi 'Coisa do Povo'.
O povo não é um qualquer ajuntamento de homens congregado de qualquer maneira, mas o ajuntamento de uma multidão associada por um consenso jurídico e por uma comunidade de interesses.
E a primeira razão para se juntarem não é tanto a fraqueza quanto uma como que tendência natural dos homens para se congregarem. É que esta espécie não vive isolada e solitária (...).

Portanto, todo o povo, que é o tal ajuntamento de uma multidão, conforme referi, toda a cidade, que é a organização de um povo, toda a Coisa Pública, que, como disse, é a Coisa do Povo, devem ser regidos por um órgão de governo para serem duradouros.
Mas esse órgão de governo deve sempre reportar-se primeiramente àquela causa que originou a cidade
.
De seguida, esse órgão de governo deve ser confiado a um só, ou a um de alguns escolhidos, ou deve ser assumido pela multidão e por todos.
(...)
E qualquer destes tipos, desde que mantenha aquele vínculo que primeiro ligou os homens entre si, na sociedade de um Estado, não é perfeito em si nem, em meu entender, o melhor, mas é tolerável, e qualquer deles pode ser superior a outro.

Cícero, Tratado da República, 1.41-42.

(Tradução de Francisco de Oliveira, publicado pela Temas e Debates/Círculo de Leitores, em 2008.)

20 outubro 2009

O Maravilhosos Mundo de Mark Weinstein

(imagem daqui)

Quando «descubro» um livro ou um autor que não conhecia, encontro sempre alguém que me diz que «há séculos» os lêem e eu... fico feliz por isso.
Fico feliz por saber que aquelas páginas dão prazer a outras pessoas.
Não sei se será o caso de Mark Weinstein, mas ficarei muito contente se o puder apresentar a alguns leitores.
Esta tira pertence a uma série intitulada The Miserable World of Prometheus e está a ser publicada, além de no blogue, no jornal Athens Plus, na Grécia, onde vive o autor.
Numa entrevista, diz que ainda não existe em livro, portanto, muito menos existe tradução, deduzo...
Que pena!
Quanto a mim, fiquei fã!

15 outubro 2009

Parabéns à Universidade de Coimbra

A Universidade de Coimbra (UC) foi considerada, pelo quarto ano consecutivo, a melhor instituição de ensino superior portuguesa no "ranking" do jornal britânico "The Times".
Segundo uma nota divulgada hoje pela UC, a instituição subiu no "ranking" relativo a 2009 e, à semelhança do que se verificou no ano passado, “continua a ser a única portuguesa entre as 400 melhores universidades mundiais”
(...)

“A melhor classificação parcial obtida pela Universidade de Coimbra é, porém, na área de Artes e Humanidades, em que surge no 143.º lugar, bastante acima da única outra instituição nacional referida, a Universidade Nova de Lisboa (268.º lugar)”, adianta.

Os critérios para a elaboração do ranking publicado pelo "The Times Higher Education Supplement", bem como a tipologia das análises recolhidas, são bastante abrangentes, permitindo traçar uma perspectiva global da realidade das instituições de ensino superior no mundo. São tidos em conta a qualidade da investigação, a empregabilidade dos graduados, a internacionalização das instituições e a qualidade pedagógica dos cursos.

A classificação é obtida através da ponderação de cinco critérios: avaliação pelos pares, avaliação por empregadores, artigos científicos citados, rácio docentes/estudantes e internacionalização, adianta a nota da UC.

Ler a notícia toda aqui.

13 outubro 2009

É no que dá a busca da perfeição

(imagem daqui)

Porque desejando um certo pintor representar a beleza suprema, mandou reunir as mulheres bonitas que havia na região e, imitando de cada uma as partes mais belas, de uma os olhos, de outra o nariz, de outra as sobrancelhas e de cada uma um aspecto (pois não era possível que todas fossem bonitas em tudo), conseguiu realizar uma figura perfeita.

Dionísio de Halicarnasso, Tratado da Imitação, Livro Segundo,VIa
Edição e tradução de R.M. Rosado Fernandes.

09 outubro 2009

Vote CBS!

Isto é um apelo ao voto.

Vote em David Mares!


Vote no CBS: Cork Block Shelter!

Veja o abrigo construído em cortiça com o qual o português (de Setúbal) David Mares conseguiu ser seleccionado como um dos 10 finalistas (em 600) do Shelter Competition, concurso internacional de Design promovido pelo Museu Guggenheim de Nova Iorque.

Gosta?
Vote!

08 outubro 2009

Mimese - Era bom que fosse assim...

Conta-se que um camponês, feio de aspecto, tinha receio de se tornar pai de filhos semelhantes a ele. O mesmo medo, porém, ensinou-lhe a arte de ter filhos bonitos. Juntou imagens belas e habituou a mulher a contemplá-las. Depois, quando a ela se uniu, conseguiu gerar a beleza das imagens.
Da mesma forma, com as imitações dos discursos se gera a similitude, sempre que alguém procura rivalizar com o que parece haver de melhor em cada um dos antigos e, como que reunindo de várias nascentes um só caudal, o canaliza para a sua mente.

Dionísio de Halicarnasso, Tratado da Imitação, Livro Segundo, VI.1.
Edição e tradução de R.M. Rosado Fernandes para o INIC, decorria o ano de 1986.

06 outubro 2009

Falar estrangeiro

No meio das memórias que as arrumações trazem, lembrando os meus professores de Literatura Latina:
«Por que razão o historiador romano Fábio Pictor escrevia em grego?»
Para ser lido pelos gregos, claro.
Fábio Pictor narrava os feitos de Roma, culpava Aníbal pela Segunda Guerra Púnica e tudo isto em grego.
O mundo civilizado era grego.
Horácio bem o disse, mais tarde:

Para quem escreveria um romano em latim, a explicar os porquês das suas invasões e desejos de domínio de tudo quanto era economia florescente e próspera?

Não seria para os outros romanos, que esses não precisavam de ouvir razões (muito menos ler, que era saber de poucos).
A história escrita em grego era uma maneira de dar explicações a quem, apesar de tudo, se respeitava ou, provavelmente, se invejava a grandeza.
Será daí que veio a nossa predisposição para falar «estrangeiro» na nossa terra?

20 setembro 2009

Pelo que diz Sócrates, somos todos sensatos...

Ora o maior dos castigos é ser governado por quem é pior do que nós, se não quisermos governar nós mesmos.
É com receio disto, me parece, que os bons ocupam as magistraturas, quando governam; e então vão para o poder, não como quem vai tomar conta de qualquer benefício, nem para com ele gozar, mas como quem vai para uma necessidade, sem ter pessoas melhores do que eles, nem mesmo iguais, para quem possam relegá-lo.
Efectivamente, arriscar-nos-íamos, se houvesse um Estado de homens de bem, a que houvesse competições para não governar, como agora as há para alcançar o poder, e tornar-se-ia então evidente que o verdadeiro chefe não nasceu para velar pela sua conveniência, mas pela dos seus súbditos. De tal maneira que todo aquele que fosse sensato preferiria receber benefícios de outrem a ter o trabalho de ajudar ele os outros.


Platão, República 347c-d.
Sempre esta tradução.

19 setembro 2009

PIDE/DGS

(imagem daqui)

Há pouco apanhei um susto.
Recebo uma mensagem e vejo DGS. DGS?
PIDE/DGS? Ainda há isso?


Tinha 7 anos no 25 de Abril, mas a parte anti-fascista da minha família encarregou-se de nos (a mim e aos meus irmãos) comprar uns livros (não sei onde isso andará. Talvez pelo sótão da casa dos meus pais) com uns desenhos (não eram bem banda-desenhada, mas andavam lá perto) em que se viam mulheres a ser torturadas com pontas de cigarros que uns homens usavam para lhes queimarem os mamilos.

Era a DGS a tratar-lhes da saúde.

Ora quando hoje a DGS me mandou uma mensagem, quase gelei.

Era sobre a gripe. Para eu redobrar os cuidados de higiene e evitar contagiar outros.
Não vou desobedecer.

Nestas alturas percebemos o quanto certas situações (frases, atitudes) nos marcaram. Nunca mais me tinha lembrado das torturas que vi naqueles desenhos a preto e branco e tão claramente os revejo agora por causa de um sms da Direcção Geral de Saúde.

17 setembro 2009

Democracia, há 2500 anos

Isonomia - igualdade de direitos
Isegoria - igualdade de falar, de dizer a sua opinião - liberdade de expressão.
Isocracia - igualdade no poder

«Os Atenienses gabavam-se de possuir isonomia, isegoria, isocracia - igualdade de que apenas os cidadãos eram detentores.»

Apesar de apenas entre 10% e 15% serem considerados cidadãos atenienses, as três categorias legais da sociedade (cidadãos, metecos e escravos) «não correspondiam a classes sociais nem eram estanques; os elementos podiam passar de uma a outra».
E em relação à democracia, como reagiam? Uniam-se, para a defender, como se pode ver em 404/403, quando lutaram ao lado dos democratas, para tentar impedir a vitória daquele que ficou conhecido como o Governo dos Trinta Tiranos.

(As aspas são citações de José Ribeiro Ferreira, do seu livro Democracia na Grécia Antiga, editado em Coimbra pela Livraria Minerva, decorria o ano de 1990).

15 setembro 2009

Ai... Sow dad

(foto daqui)

Numas (poucas) aulas que dei este verão de cultura portuguesa no curso de PLE que a minha faculdade oferece em Agosto, falámos (tinha de ser) da saudade. Como eram alunos de um nível avançado, foram eles que trouxeram o tópico para a conversa e todos concordámos que a saudade não é um exclusivo dos portugueses (pelo que se pode ler nesta comovente história, nem dos humanos).
Numa das aulas, um aluno do curso, um senhor britânico, com um excelente humor, radicado em Portugal há mais de 25 anos, deu-me uma folha com o seguinte, dizendo algo como «estas foram as palavras de que me lembrei. Nós também temos saudade». É com a sua autorização que as publico aqui no blogue:

SOW DAD
(Father of a female pig)

Yearning
Nostalgia
Longing
Melancholy
Atrabilliousness

13 setembro 2009

Escolaridade obrigatória ao 12º ano: "uma boa dose de candura"

René Magritte
(imagem daqui)


Isto não é um comentário à decisão de aumentar a escolaridade obrigatória até aos 18 anos nem à afirmação de que "todos devem passar pela escola" (diferente de a escola deve passar todos, entenda-se).

Além do propósito de dar a toda a gente tanta educação quanto possível, posto que a educação, em si, é desejável, existem outros motivos que afectam a legislação educativa, os quais podem ser de elogiar, sem falar nos que, muito simplesmente, se limitam a reconhecer o inevitável e só mencionamos como lembrança da complexidade do sistema educativo. Um dos motivos, por exemplo, para elevar o limite de idade da escolaridade obrigatória é o louvável desejo de proteger o adolescente e de o fortalecer contra as mais degradantes influências a que se expõe ao entrar no mundo do trabalho. Esse motivo exige de nós uma boa dose de candura. Na verdade, em vez de afirmar que toda a gente beneficiará com mais anos de ensino, o que é duvidoso, devíamos confessar que as condições de vida na moderna sociedade industrial são tão lamentáveis e as restrições morais tão débeis que devemos prolongar a educação da juventude só por não termos a menor ideia do que fazer para a salvar. Em vez de nos felicitarmos pelo nosso progresso, sempre que a escola assume mais uma responsabilidade que até então pertencera aos pais, faríamos melhor se confessássemos que chegámos a uma fase da civilização na qual a família é irresponsável, ou incompetente, ou indefesa, e em que não podemos esperar que os pais formem os filhos adequadamente (...).

T.S. Eliot,
Notas para uma Definição de Cultura, Lisboa, Século XXI, 1996
.
Publicado pela primeira vez em 1948, confirmado pelo autor em 1961.

12 setembro 2009

Sim, sou eu

Sim, esclareço a todos os que perguntaram (já vi que há muita gente a ler a revista e os suplementos): sou eu a Adriana Nogueira que é citada no Caderno Especial que a Visão publicou esta semana («Formação em Linha», p. 20-23).

11 setembro 2009

De papoilas, Ó Noite, é que eu precisava!

Night and Sleep, de Evelyn de Morgan.
(Imagem daqui)


Ou que o galo da vizinha cantasse mais tarde.


No 3º aniversário deste blogue, deixo-vos com O Sono.
Uma belíssima tradução de Domingos Lucas Dias, editada pela Vega, das Metamorfoses, de Ovídio (em dois volumes, bilingue).

No país dos Cimérios há uma caverna profunda, oca
montanha, morada e santuário do ocioso Sono, onde Febo
nunca pode chegar com seus raios, nem ao nascer,
nem a meio de seu curso, nem quando se põe.
(...)
Não há ruído de animais selvagens, nem de rebanhos,
nem de ramos agitados pelo vento, nem da altercação da voz
humana. Reina a muda quietude. Da raiz da rocha, contudo,
brota um ribeiro de água do Letes que, correndo murmurante
em leito de seixos rumorejantes, convida ao sono.

Frente à entrada da caverna, crescem incontáveis ervas
e a fecunda papoila de cuja seiva a Noite colhe um narcótico
que, com a sua humidade, espalha sobre a terra escura.

Para não ranger, ao rodar no gonzo, não há porta nenhuma
na casa toda, nenhum guarda à entrada. Mas, a meio
da caverna, ergue-se um leito de ébano, colchão de penas,
cor preta, coberto de negra colcha, onde o mesmo deus
se deita, dissolvido na preguiça. Em volta dele, ao acaso,
imitando formas várias, deitam-se tantos quiméricos
sonhos como espigas tem a messe, folhas tem a floresta
e grãos de areia tem a praia.

(Livro XI, vv. 592-614)

09 setembro 2009

Ainda Horácio


Como se pode ver, o meu frigorífico é muito intelectual. Deu-lhe para Horácio.
Nesta ode (I, 37), o poeta exorta à comemoração da morte de Cleópatra, que fez frente a Octaviano (e perdeu), em 31 a.C.

Bebamos agora, amigos, é nosso dever:
dancemos agora com pé ligeiro, é tempo
de abastar o luxuoso leito dos deuses
de sálios banquetes.

Até agora, os deuses proibiam-nos de retirar
o Cécubo da velha adega: uma rainha preparava
a louca ruína do Capitólio
e as exéquias do nosso poder,

com a ajuda de uma contaminada súcia de homens
depravados até à doença; descontrolada tudo esperava,
ébria de uma fortuna amiga.
Porém, um só navio

do fogo a custo fugiu, sua demente fúria acalmando:
seu plano, louco e imerso em vinhos mareóticos,
César reduziu a reais temores,
quando ela, como se voasse,

de Itália fugiu, e ele, tal como o falcão caça
as dóceis pombas, ou pelos nivosos campos da Hemónia
o veloz caçador atrás da lebre corre,
para pôr correntes nesse fatal portento

à força dos remos de perto a perseguiu. Ela, procurando morrer
com maior nobreza, nem receou com mulíebre medo
o punhal, nem tentou com sua veloz armada
uma recessa costa alcançar,

antes teve a bravura de ver com sereno gesto
seu palácio desmoronar-se, e corajosa pegar com as mãos
em ferozes serpentes, para assim negro o veneno
penetrasse no seu corpo:

decidindo-se pela morte mais intrépida se tornou,
recusando-se certamente, mulher altiva, a ser levada,
já não mais rainha, pelos cruéis barcos liburnos
a um soberbo triunfo.

(a tradução é de Pedro Braga Falcão, referida aqui)

08 setembro 2009

Cartão vermelho


A Martinha brindou-me com esta corrente:
"Cada um deve fazer uma listinha com 10 escolhidos para dar o cartão vermelho. Pode ser uma pessoa, uma atitude, enfim, tudo aquilo que de alguma forma nos incomoda, se quiser e precisar, dê uma justificativa breve. Após fazer isso, passe a bola para mais cinco blogueiros e vamos ver no que dá...".

Cá estão os 10 cartões vermelhos:

- cartão vermelho à desconsideração
- cartão vermelho ao desrespeito
- cartão vermelho ao egoísmo
- cartão vermelho à estupidez
- cartão vermelho à humilhação
- cartão vermelho à ignorância
- cartão vermelho à intolerância
- cartão vermelho à preguiça
-
cartão vermelho à prepotência
- cartão vermelho à violência

Mesmo sabendo que alguns não gostam de correntes, mas porque acredito que não possuem aquelas características nem se dedicam a nenhuma daquelas actividades, passo a:

- Xiclista
- Once
- Redonda
- Leonor
- Gi