27 março 2010

O meu contentamento

«porque hoje é sábado» é uma etiqueta que uso para classificar assuntos que, muitas vezes, não se enquadram no perfil do blogue.
O perfil do blogue é um pouco o meu perfil: não gosto de entrar em polémicas (apenas em simpáticas conversas, mais ou menos acaloradas) e muito menos gosto de ofensas. Aliás, quando aparecem (felizmente, raramente) anónimos a deixarem cartas com letras recortadas na minha caixa de correio, não as publico, claro.
Também não sou uma pessoa de ódios. Não há nada a que possa aplicar a palavra «odeio». Há coisas que detesto, mas odiar tem uma carga forte de mais para o meu gosto.

Porém, o meu perfil também é o de alguém que se indigna.
E muitas são as coisas que me indignam. Procuro não falar nelas no blogue (às vezes lá sai...), porque já percebi como é fácil as pessoas ofenderem-se e insultarem-se umas às outras neste meio, ou, pelo contrário, manifestarem uma intimidade que, na realidade, não têm.
Enfim, tudo isto para dizer que me preocupou (preocupou-me, porque é de um intelectual) um post que foi publicado a propósito de uma atitude tomada por Manuel Maria Carrilho.
A 24 de Março, diz-se que Carrilho, embaixador na Unesco, «alertou o MNE para o perfil do diplomata indigitado (alguém responsável por prisões arbitrárias, policiamento de feiras do livro e outros atentados à liberdade), tendo sido autorizado a fazer-se substituir na votação pelo n.º 2 da Missão de Portugal».

A 23 de Março, sobre esta votação que (
mesmo com o voto favorável de Portugal) não elegeu Farouk Hosny como director-geral da Unesco, estava escrito assim:
«O gesto de Manuel Maria Carrilho fica bem ao cidadão, ao intelectual, ao professor, ao militante do PS e ao antigo ministro da Cultura que ele é. Mas um embaixador é um funcionário. O facto de ser um alto-funcionário não o isenta de deveres. Esgotadas as possibilidades de inverter o sentido de voto, o correcto teria sido faltar à votação, demitindo-se acto contínuo. (Como nem sequer é diplomata de carreira, o risco era zero.) E voltava para as suas aulas em Lisboa, de mãos limpas. A diplomacia não tem estados de alma.»

Para mim é não é irrelevante que Carrilho, afinal, tenha cumprido com aos seus deveres e se tenha abstido de votar. Aliás, teria preferido que tivesse estado presente e votado contra.

As leis são feitas pelos homens (como bem sabiam os Gregos), e, como diz Inês Pedrosa num expressivo texto de 22 de Agosto de 2009, «Os procedimentos são o cimento das corporações e o refúgio dos incompetentes, o paraíso terreno dos sabujos, dos cobardes e dos insensíveis (...) Ninguém, nem uma só alma, ousou ir contra os sagrados procedimentos. Foi assim que o nazismo cresceu, durou e matou: por causa do respeitinho à lei e aos senhores que mandam, um respeitinho feito de medo, egoísmo, subserviência, essa coisa puramente animal que se chama instinto de sobrevivência. Os chefes escrevem a lei, a carneirada cumpre - mé, mé, procedimento a procedimento. Quanto mais defendidos por papelinhos e instruções de cima estivermos, melhor. Se no meio dos procedimentos alguém tiver que sofrer, a culpa não é nossa. Nós não temos o poder. Nós só obedecemos, sem questionar. »

Fico contente por os militares do 25 de Abril não se terem demitido (os de carreira), nem desertado (os outros), nem cumprido ordens.
Fico contente porque na Praça do Comércio um alferes miliciano desobedeceu ao seu brigadeiro e não disparou contra Salgueiro Maia.

Fico contente por ter havido quem tenha prestado atenção aos seus estados de alma.

26 março 2010

Na Universidade do Minho, em Braga...

..., fez ontem uma semana, dei uma conferência sobre literatura e arte.
Fui muito bem recebida pelas minha colegas Virgínia Soares Pereira e Ana Lúcia Curado, bem como pelos que assistiram ao evento (na maioria, alunos da licenciatura em Estudos Portugueses e Lusófonos). Espero que tenha sido uma tarde frutuosa para todos.

Falar desta palestra fez-me lembrar um prazer que tenho: gosto de encontrar títulos e de estabelecer relações entre eles e os (eventuais, mas muito frequentes) subtítulos.
Umas vezes o subtítulo acontece porque o título foi enviado numa fase incipiente do artigo e houve necessidade, posteriormente, de o explicitar. Outras, porque o subtítulo joga com o título,
enriquecendo-o.

Muitos tradutores de Platão apresentam subtítulos que desvendam o assunto principal do diálogo, como Fedro (ou da Beleza), Fédon (ou Acerca da Alma).
Não sei se influenciada por essa forma comum de referir obras, dei por mim a pensar que tenho esse hábito.

Umas vezes é o título que precisa do subtítulo para dizer exactamente de que estamos a falar:

«"Não tirem a luz nem a vista" - O respeito pelo espaço dos outros» (2008)
ou
«Quem sai aos seus (não) degenera: estructuras sintácticas de la Antigüedad greco-latina en proverbios portugueses» (2007)

Outras vezes é o subtítulo que suaviza título, dando-lhe um toque de humor, não deixando de ser esclarecedor:

«Ambiguidade no Eutidemo de Platão ou As passas do Algarve de um tradutor» (2007)

ou este, que apresentei no Minho, a 18 de Março:

«Gregos Antigos na Literatura e Arte Contemporâneas ou Onde estão as chaves?»

10 março 2010

As modas nas Bibliografias


De há uns tempos para cá, as modas nas indicações bibliográficas dizem-nos para não indicarmos o nome da editora. Não compreendendo o porquê, procurei saber o que diziam as modas internacionais, até porque, muitas vezes, o que aqui chega vem de fora.
Encontrei umas linhas de orientação para fazer bibliografias (ver o fim deste post), usando o estilo MLA (Modern Languages Association), em que se diz que apenas não se indica o editor no caso das enciclopédias, revistas e dos jornais (marquei a vermelho a alínea respectiva).

Penso que a editora continua a ser uma referência importante.

Por exemplo, imaginemos que no mesmo ano se editou em Portugal, em duas editoras diferentes de Lisboa (o local mantém-se nas bibliografias) duas traduções do mesmo texto, como identificar uma e outra?

Já nem vou dar exemplos de textos clássicos, para os quais a editora é uma marca fundamental na sua apreciação (mesmo internacionalmente) qualitativa. Seriam inúmeros. Tomemos um livro cujos direitos estão no domínio público, como O Príncipe, de Maquiavel.
Numa busca não muito demorada, encontrei-o em 4 editoras de Lisboa (a vantagem da Europa-América é que é de Mem-Martins e assim nunca nos enganamos), duas delas de 2008.
Portanto, se eu indicasse: Maquiavel (2008), O Príncipe. Lisboa, a que edição me referia? À da Presença? Ou à da Temas e Debates? Não consigo ver qual a vantagem de não indicar a editora.

Mais facilmente prescindiria do local de edição.

Definitivamente, não gosto desta moda.

(Outras editoras de Lisboa com esta obra: Sílabo, 2007 e Coisas de Ler, 2003)

4. PUBLISHER - for Books Only

a) Be sure you write down the Publisher, NOT the Printer.

b) If a book has more than one publisher, not one publisher with multiple places of publication, list the publishers in the order given each with its corresponding year of publication, e.g.:

Conrad, Joseph. Lord Jim. 1920. New York: Doubleday; New York: Signet, 1981.

c) Shorten the Publisher's name, e.g. use Macmillan, not Macmillan Publishing Co., Inc. Omit articles A, An, and The, skip descriptions such as Press, Publishers, etc. See Section 7.5 in the 6th ed. of the MLA Handbook for more details and examples.

d) No need to indicate Publisher for encyclopedias, magazines, journals, and newspapers.

e) If you cannot find the name of the publisher anywhere in the book, use "n.p." to indicate there is no publisher listed.

22 fevereiro 2010

Madeira - Luto Nacional

(imagem tirada do blogue do meu amigo xiclista)

Vivi na Madeira quatro anos e alguns meses, entre 1991 e 1995.
Não foram anos fáceis, mas foram muito intensos e cheios de emoção, marcantes na minha vida.
Fiz lá amigos que mantenho até hoje.
Sinto profundamente este luto nacional.

(Adenda: ver no blogue da Gi informações úteis para actos de solidariedade.)

20 fevereiro 2010

Sábado cheio! Ele é Tavira, ele é Faro, ele é Olhão, ele é Lagoa...

Este sábado há muita actividade pelo sul. Há sempre, aliás.
De manhã, o módulo II do workshop de Temas de História de Arte do século XX, com Delfim Sardo, desta vez em Tavira.
À tarde, é sair a correr daquela actividade para ir ao Pátio de Letras (uma das cinco melhores livrarias portuguesas de 2009, segundo a revista Os Meus Livros), para assistir às comemorações dos 50 anos da morte de Camus.
Depois, é fugir de Olhão, pois estará a começar o jogo Olhanense-Sporting e não vou poder estacionar o carro onde quero.
Se houvesse energia, seguir-se-ia acompanhar as amigas fãs do Fernando e da Sónia e o destino seria Lagoa, onde os Amália Hoje vão actuar.
Ufa!

12 fevereiro 2010

Bancos e banqueiros na Grécia Antiga

(imagem daqui)
O post sobre políticos profissionais valeu-me a seguinte pergunta, por parte de um amigo: «o autor do texto que citaste fala em banqueiros. Pensei que só existisse essa profissão (depósitos, empréstimos) desde a Idade Média. Havia também na Grécia?»

Dizem Michel Austin e Pierre Vidal-Naquet, no livro Economia e Sociedade na Grécia Antiga (tradução portuguesa nas Edições 70, em 1986, do original francês de 1972), p.67:

A que corresponde então a invenção da moeda? Têm-se feito intervir diversas considerações (além do fenómeno geral de normalização da vida social): desenvolvimento do papel fiscal do Estado (multas, impostos), financiamento de exércitos de mercenários (…). Na história das cidades gregas, a moeda será antes de mais um emblema cívico. Cunhar moedas com as armas da cidade é proclamar orgulhosamente a sua independência.

E os banqueiros? O Oxford Companion to Classical Civilization (do maravilhoso Simon Hornblower e de Antony Spawforth), publicado pela Oxford University Press (a minha edição é de 1998) dá muita informação. Foi lá que colhi estes dados. Na entrada «banks», explica que os templos serviam alguns dos propósitos que hoje os bancos servem: guardavam o dinheiro das pessoas e emprestavam a quem precisava, com a diferença de não tocarem no que estava à sua guarda e o que disponibilizavam provinha do seu próprio tesouro (como o templo de Apolo, em Delos). Havia ainda particulares que emprestavam, sem ou com juros (por vezes, usurariamente, grandes juros sobre pequenas somas). E também eram necessários cambistas, visto que cada cidade tinha a sua moeda e era necessário trocar. Ainda hoje «banco» em grego diz-se τράπεζα e «trápeza» queria (e quer) dizer «mesa».

Para termos uma ideia da actividade, conhecem-se cerca de vinte nomes de banqueiros na Atenas do séc. IV a.C.

Alguns destes homens não eram atenienses, tal como muita da sua clientela, composta principalmente por comerciantes, visitantes, ou cidadãos que poderiam estar a precisar urgentemente de muito dinheiro. Serviam, frequentemente, de testemunhas e de fiadores.

Ah, claro, e não há dúvida de que eram muito, muito ricos…

(imagem daqui)

08 fevereiro 2010

Na Ágora, há 10 anos...


Ágora. Estudos Clássicos em Debate, a revista de Estudos Clássicos da Universidade de Aveiro, está disponível online e aqui pode ser lida uma recensão, de 2000 (já tem 10 anos! Credo!), sobre o meu primeiro Hércules.

07 fevereiro 2010

Uma questão de pronúncia...

(imagem daqui)

Resposta do Aluno X:
«Jesus Menino entre os homens da lei»
Resposta do Aluno Y (colega do lado):
«Jesus a falar com os homens de lá

30 janeiro 2010

Políticos profissionais

Não sei porque me lembrei deste texto.
Talvez porque hoje seja sábado.

(...) dificuldades económicas e (...) conflitos sociais; tanto no campo como na zona urbana, passa a existir uma população miserável mais interessada na procura do sustento quotidiano do que nos destinos da democracia.


Daí que o século IV se caracterize por demissão política do demos que perde interesse em participar na condução dos negócios da pólis - desinteresse que já começa a aparecer no decorrer da Guerra do Peloponeso. As sessões da Assembleia têm cada vez menos elementos e há dificuldade em perfazer o quórum. Ainda se tenta incentivar, como vimos, a participação com a distribuição de um salário aos presentes na Ecclesia - o misthos ecclesiasticos -, mas em grande resultado.

Se na primeira metade do século IV o demos ainda manifesta empenho, quando se tratava de decidir sobre uma guerra que a seus olhos possa ser frutuosa, na segunda metade já nem isso desperta o seu interesse. Essa apatia está bem visível na luta contra Filipe da Macedónia e nos apelos angustiados de Demóstenes.

A pólis grega caminhava para o fim.

Como resultado da demissão do demos, aparece com uma insistência cada vez maior a profissionalização e a especialização de funções.

Homens saídos da classe endinheirada - banqueiros, industriais, comerciantes - que não precisam dedicar-se a uma actividade manual e recebem consideráveis rendimentos dos seus negócios, tornam-se verdadeiros profissionais da «política». Com meios de fortuna, adquirem junto de «professores» de retórica a arte de falar e de convencer que lhes permite atrair a multidão e manobrar a Assembleia.

José Ribeiro Ferreira, A Democracia na Grécia Antiga, publicado pela Minerva, em Coimbra, em 1990. Pp. 161-162.

28 janeiro 2010

Ecce Homo

Os resultados dos testes da disciplina de Matrizes Culturais Europeias costumam ser menos maus do que os dos exames (que serão para a semana), o que me dá alguma satisfação, pois faz-me pensar que o facto de irem às aulas ainda lhes traz benefícios e faz alguma diferença. Mas a sensação de falhar aparece quando encontro algumas...
... imprecisões...
... na identificação das imagens das culturas greco-latina e judaico-cristã, por exemplo...

(imagem daqui)

Uma imagem representando um Ecce Homo foi identificada assim:


«Paixão de Cristo. Jesus com a coroa de louros e cheio de sangue (ferimentos)»

20 janeiro 2010

Pouco clássico, mas muito divertido

Enviaram-me isto por mail e eu achei muito divertido e muito bem dobrado!
Para os fãs do Dr. House, aqui fica a versão açoriana:


18 janeiro 2010

Hospital Beatriz Ângelo

Carolina Beatriz Ângelo, em 1911, ano em que viria a falecer, votou. Foi a 1ºmulher a fazê-lo no nosso país, antes que os homens (com letra muito pequenina) decidissem mudar a lei, para que mais nenhuma outra se atrevesse a tanto.
Hoje muitas de nós não vão votar. Porque não adianta. Porque não vale a pena. Porque deixaram de acreditar (como não estamos em época de eleições, falar disto pode parecer extemporâneo, mas eu não acho). Votar já não parece importante, porque depois «eles» fazem acordos e «são todos iguais».
Percebo.
Há dias em que também estou cansada de tanta hipocrisia política, em que já não aguento as vozes dos que gritam e não assumem as suas responsabilidades.
Lembro-me de ter aprendido que, no fim da democracia, a cidade era gerida pelos profissionais da política, porque os demoi estavam cansados de não ter cratos.
Mas noutros dias (na maioria deles) estou cheia de energia para mudar o mundo e tento não envergonhar as minhas egrégias avós.
Achei que a minha querida avó haveria de gostar de saber que uma mulher, uma médica, do início do século XX, foi homenageada com a atribuição do seu nome a um hospital.
E isto vai valer a pena, por cada uma e cada um que se interrogar do porquê deste nome: Carolina Beatriz Ângelo.

15 janeiro 2010

«Temas de História da Arte do Século XX»

Este fim de semana, no CAPa, em Faro, o 1ºmódulo de um curso livre (ou talvez seja uma oficina, pois chama-lhe workshop) dirigido por Delfim Sardo, intitulado «Temas de História da Arte do Século XX».
Este é programa:

I Módulo
Da ideia de obra de arte total às vanguardas russas
16 e 17 de Janeiro
Conteúdos:
Dos panoramas do século XIX ; a invenção da fotografia; o pictórico e o fotográfico.
A importância do cinema.
Abstração, cubismo e o surgimento de uma pintura sem tema; Matisse e Picasso.
Dada. Kurt Schwitters e a Merzbau.
Marcel Duchamp – o sindroma da arte do século XX: tudo pode ser arte?
O surrealismo ou uma vanguarda sem esperança.
A grande experiência Russa: Lissitzky, Tatlin, Malevitch e Rodshenko.
Nota: Será visionado e comentado o filme
O Homem da Máquina de Filmar, de Dziga Vertov
(1929), para alem de filmes de Man Ray.

Vamos?

13 janeiro 2010

Pinacoteca antiga 2. Ou melhor: Descalço vai para a fonte...

Continua a viagem pela pinacoteca antiga, que tanto impressionou o narrador do Satyricon.

ali o cândido Hilas repelia uma Nâiade descarada;

(imagem daqui)

Parece que Hilas ficou para sempre entre as Ninfas, pelo que nos conta Apolodoro, na Argonáutica (I, 1207 e seguintes), e não parece ter tido tempo para as repelir... O jovem preferido de Héracles foi à fonte com o seu cântaro e as ninfas raptaram-no para todo o sempre. Foi assim, foi.

(imagem daqui)

11 janeiro 2010

Pinacoteca antiga

Lendo o Satyricon, de Petrónio (em tradução de Delfim Leão, para a Cotovia, editada já no longínquo 2005), sou levada pelo narrador:

Cheguei a uma pinacoteca impressionante, repleta de todo o tipo de quadros (...). Aqui, uma águia arrebatava para as alturas do céu o pastor do Ida;


(Correggio - Imagem daqui)

Ainda há pouco tempo referi Ganimedes. Pois é ele o pastor do monte Ida de quem aqui se fala. Diz-nos Ovídio (Metamorfoses X, 155-161, na edição do costume):

Um dia, o rei dos deuses inflamou-se de amores pelo frígio
Ganimedes, e foi encontrado aquilo que Júpiter preferiu ser
a ser aquilo que era. Não se dignou, contudo, a tornar-se uma
ave qualquer, senão aquela que pudesse transportar seu raio.
De imediato, batendo o ar com enganadoras asas, arrebata

o neto de Ilo, que agora é também copeiro e serve o néctar
a Júpiter contra a vontade de Juno.


(Imagem daqui)

04 janeiro 2010

Llasa de Sela

Acabo de ler o mail que me escreveu a minha amiga Teresa, dizendo: «Morreu uma das cantoras de quem gostas muito». Referia-se a Lhasa de Sela, de quem já aqui falei e que está na minha selecção, na barra da direita.
Fico sempre triste quando alguém parte, principalmente quando a idade é pouca (37 anos), mas, como dizia Séneca, «ter a morte diante dos olhos é coisa que tanto deve fazer um velho como um jovem, já que ela nos não chama por ordem de idades» (Cartas a Lucílio, 12, 6).
Fraco consolo para a sua família e amigos e para todos os que gostavam de a ouvir...


31 dezembro 2009

Alegria na entrada em 2010

Horácio, o poeta da moderação, da aurea mediocritas, também canta a alegre loucura (dentro dos limites permitidos pelas Graças, claro) que o vinho provocava.
É tempo de beber, dizia num outro poema.
Deixo aqui os meus votos de um 2010 repleto de tudo o que for vosso desejo, acompanhados por excertos de uma ode deste poeta (Ode III, 19) e de uma imagem do copeiro dos deuses, o jovem Ganimedes:

(imagem daqui)
(...)
Serve-nos vinho, rapaz, depressa!
Serve-nos, pela lua nova! Serve-nos, pela meia-noite!
Serve-nos, pelo áugure Murena! Preparem-se
os copos com três ou nove cíatos, ao gosto de cada um.

Quanto ao vosso atordoado poeta,
que as ímpares musas ama, três cíatos vezes três há-de pedir:
de tocar em mais de três
a Graça com suas desnudas irmãs nos proíbe,

por recear as rixas.
Agrada-me ensandecer. Porque cessa o sopro
da tíbia de Berecinto?
Porque penduradas na parede se calam a siringe e a lira?

Odeio mãos avaras!
Espalha as rosas!
(...)

(Tradução de Pedro Braga Falcão, na Cotovia)