06 outubro 2009

Falar estrangeiro

No meio das memórias que as arrumações trazem, lembrando os meus professores de Literatura Latina:
«Por que razão o historiador romano Fábio Pictor escrevia em grego?»
Para ser lido pelos gregos, claro.
Fábio Pictor narrava os feitos de Roma, culpava Aníbal pela Segunda Guerra Púnica e tudo isto em grego.
O mundo civilizado era grego.
Horácio bem o disse, mais tarde:

Para quem escreveria um romano em latim, a explicar os porquês das suas invasões e desejos de domínio de tudo quanto era economia florescente e próspera?

Não seria para os outros romanos, que esses não precisavam de ouvir razões (muito menos ler, que era saber de poucos).
A história escrita em grego era uma maneira de dar explicações a quem, apesar de tudo, se respeitava ou, provavelmente, se invejava a grandeza.
Será daí que veio a nossa predisposição para falar «estrangeiro» na nossa terra?

20 setembro 2009

Pelo que diz Sócrates, somos todos sensatos...

Ora o maior dos castigos é ser governado por quem é pior do que nós, se não quisermos governar nós mesmos.
É com receio disto, me parece, que os bons ocupam as magistraturas, quando governam; e então vão para o poder, não como quem vai tomar conta de qualquer benefício, nem para com ele gozar, mas como quem vai para uma necessidade, sem ter pessoas melhores do que eles, nem mesmo iguais, para quem possam relegá-lo.
Efectivamente, arriscar-nos-íamos, se houvesse um Estado de homens de bem, a que houvesse competições para não governar, como agora as há para alcançar o poder, e tornar-se-ia então evidente que o verdadeiro chefe não nasceu para velar pela sua conveniência, mas pela dos seus súbditos. De tal maneira que todo aquele que fosse sensato preferiria receber benefícios de outrem a ter o trabalho de ajudar ele os outros.


Platão, República 347c-d.
Sempre esta tradução.

19 setembro 2009

PIDE/DGS

(imagem daqui)

Há pouco apanhei um susto.
Recebo uma mensagem e vejo DGS. DGS?
PIDE/DGS? Ainda há isso?


Tinha 7 anos no 25 de Abril, mas a parte anti-fascista da minha família encarregou-se de nos (a mim e aos meus irmãos) comprar uns livros (não sei onde isso andará. Talvez pelo sótão da casa dos meus pais) com uns desenhos (não eram bem banda-desenhada, mas andavam lá perto) em que se viam mulheres a ser torturadas com pontas de cigarros que uns homens usavam para lhes queimarem os mamilos.

Era a DGS a tratar-lhes da saúde.

Ora quando hoje a DGS me mandou uma mensagem, quase gelei.

Era sobre a gripe. Para eu redobrar os cuidados de higiene e evitar contagiar outros.
Não vou desobedecer.

Nestas alturas percebemos o quanto certas situações (frases, atitudes) nos marcaram. Nunca mais me tinha lembrado das torturas que vi naqueles desenhos a preto e branco e tão claramente os revejo agora por causa de um sms da Direcção Geral de Saúde.

17 setembro 2009

Democracia, há 2500 anos

Isonomia - igualdade de direitos
Isegoria - igualdade de falar, de dizer a sua opinião - liberdade de expressão.
Isocracia - igualdade no poder

«Os Atenienses gabavam-se de possuir isonomia, isegoria, isocracia - igualdade de que apenas os cidadãos eram detentores.»

Apesar de apenas entre 10% e 15% serem considerados cidadãos atenienses, as três categorias legais da sociedade (cidadãos, metecos e escravos) «não correspondiam a classes sociais nem eram estanques; os elementos podiam passar de uma a outra».
E em relação à democracia, como reagiam? Uniam-se, para a defender, como se pode ver em 404/403, quando lutaram ao lado dos democratas, para tentar impedir a vitória daquele que ficou conhecido como o Governo dos Trinta Tiranos.

(As aspas são citações de José Ribeiro Ferreira, do seu livro Democracia na Grécia Antiga, editado em Coimbra pela Livraria Minerva, decorria o ano de 1990).

15 setembro 2009

Ai... Sow dad

(foto daqui)

Numas (poucas) aulas que dei este verão de cultura portuguesa no curso de PLE que a minha faculdade oferece em Agosto, falámos (tinha de ser) da saudade. Como eram alunos de um nível avançado, foram eles que trouxeram o tópico para a conversa e todos concordámos que a saudade não é um exclusivo dos portugueses (pelo que se pode ler nesta comovente história, nem dos humanos).
Numa das aulas, um aluno do curso, um senhor britânico, com um excelente humor, radicado em Portugal há mais de 25 anos, deu-me uma folha com o seguinte, dizendo algo como «estas foram as palavras de que me lembrei. Nós também temos saudade». É com a sua autorização que as publico aqui no blogue:

SOW DAD
(Father of a female pig)

Yearning
Nostalgia
Longing
Melancholy
Atrabilliousness

13 setembro 2009

Escolaridade obrigatória ao 12º ano: "uma boa dose de candura"

René Magritte
(imagem daqui)


Isto não é um comentário à decisão de aumentar a escolaridade obrigatória até aos 18 anos nem à afirmação de que "todos devem passar pela escola" (diferente de a escola deve passar todos, entenda-se).

Além do propósito de dar a toda a gente tanta educação quanto possível, posto que a educação, em si, é desejável, existem outros motivos que afectam a legislação educativa, os quais podem ser de elogiar, sem falar nos que, muito simplesmente, se limitam a reconhecer o inevitável e só mencionamos como lembrança da complexidade do sistema educativo. Um dos motivos, por exemplo, para elevar o limite de idade da escolaridade obrigatória é o louvável desejo de proteger o adolescente e de o fortalecer contra as mais degradantes influências a que se expõe ao entrar no mundo do trabalho. Esse motivo exige de nós uma boa dose de candura. Na verdade, em vez de afirmar que toda a gente beneficiará com mais anos de ensino, o que é duvidoso, devíamos confessar que as condições de vida na moderna sociedade industrial são tão lamentáveis e as restrições morais tão débeis que devemos prolongar a educação da juventude só por não termos a menor ideia do que fazer para a salvar. Em vez de nos felicitarmos pelo nosso progresso, sempre que a escola assume mais uma responsabilidade que até então pertencera aos pais, faríamos melhor se confessássemos que chegámos a uma fase da civilização na qual a família é irresponsável, ou incompetente, ou indefesa, e em que não podemos esperar que os pais formem os filhos adequadamente (...).

T.S. Eliot,
Notas para uma Definição de Cultura, Lisboa, Século XXI, 1996
.
Publicado pela primeira vez em 1948, confirmado pelo autor em 1961.

12 setembro 2009

Sim, sou eu

Sim, esclareço a todos os que perguntaram (já vi que há muita gente a ler a revista e os suplementos): sou eu a Adriana Nogueira que é citada no Caderno Especial que a Visão publicou esta semana («Formação em Linha», p. 20-23).

11 setembro 2009

De papoilas, Ó Noite, é que eu precisava!

Night and Sleep, de Evelyn de Morgan.
(Imagem daqui)


Ou que o galo da vizinha cantasse mais tarde.


No 3º aniversário deste blogue, deixo-vos com O Sono.
Uma belíssima tradução de Domingos Lucas Dias, editada pela Vega, das Metamorfoses, de Ovídio (em dois volumes, bilingue).

No país dos Cimérios há uma caverna profunda, oca
montanha, morada e santuário do ocioso Sono, onde Febo
nunca pode chegar com seus raios, nem ao nascer,
nem a meio de seu curso, nem quando se põe.
(...)
Não há ruído de animais selvagens, nem de rebanhos,
nem de ramos agitados pelo vento, nem da altercação da voz
humana. Reina a muda quietude. Da raiz da rocha, contudo,
brota um ribeiro de água do Letes que, correndo murmurante
em leito de seixos rumorejantes, convida ao sono.

Frente à entrada da caverna, crescem incontáveis ervas
e a fecunda papoila de cuja seiva a Noite colhe um narcótico
que, com a sua humidade, espalha sobre a terra escura.

Para não ranger, ao rodar no gonzo, não há porta nenhuma
na casa toda, nenhum guarda à entrada. Mas, a meio
da caverna, ergue-se um leito de ébano, colchão de penas,
cor preta, coberto de negra colcha, onde o mesmo deus
se deita, dissolvido na preguiça. Em volta dele, ao acaso,
imitando formas várias, deitam-se tantos quiméricos
sonhos como espigas tem a messe, folhas tem a floresta
e grãos de areia tem a praia.

(Livro XI, vv. 592-614)

09 setembro 2009

Ainda Horácio


Como se pode ver, o meu frigorífico é muito intelectual. Deu-lhe para Horácio.
Nesta ode (I, 37), o poeta exorta à comemoração da morte de Cleópatra, que fez frente a Octaviano (e perdeu), em 31 a.C.

Bebamos agora, amigos, é nosso dever:
dancemos agora com pé ligeiro, é tempo
de abastar o luxuoso leito dos deuses
de sálios banquetes.

Até agora, os deuses proibiam-nos de retirar
o Cécubo da velha adega: uma rainha preparava
a louca ruína do Capitólio
e as exéquias do nosso poder,

com a ajuda de uma contaminada súcia de homens
depravados até à doença; descontrolada tudo esperava,
ébria de uma fortuna amiga.
Porém, um só navio

do fogo a custo fugiu, sua demente fúria acalmando:
seu plano, louco e imerso em vinhos mareóticos,
César reduziu a reais temores,
quando ela, como se voasse,

de Itália fugiu, e ele, tal como o falcão caça
as dóceis pombas, ou pelos nivosos campos da Hemónia
o veloz caçador atrás da lebre corre,
para pôr correntes nesse fatal portento

à força dos remos de perto a perseguiu. Ela, procurando morrer
com maior nobreza, nem receou com mulíebre medo
o punhal, nem tentou com sua veloz armada
uma recessa costa alcançar,

antes teve a bravura de ver com sereno gesto
seu palácio desmoronar-se, e corajosa pegar com as mãos
em ferozes serpentes, para assim negro o veneno
penetrasse no seu corpo:

decidindo-se pela morte mais intrépida se tornou,
recusando-se certamente, mulher altiva, a ser levada,
já não mais rainha, pelos cruéis barcos liburnos
a um soberbo triunfo.

(a tradução é de Pedro Braga Falcão, referida aqui)

08 setembro 2009

Cartão vermelho


A Martinha brindou-me com esta corrente:
"Cada um deve fazer uma listinha com 10 escolhidos para dar o cartão vermelho. Pode ser uma pessoa, uma atitude, enfim, tudo aquilo que de alguma forma nos incomoda, se quiser e precisar, dê uma justificativa breve. Após fazer isso, passe a bola para mais cinco blogueiros e vamos ver no que dá...".

Cá estão os 10 cartões vermelhos:

- cartão vermelho à desconsideração
- cartão vermelho ao desrespeito
- cartão vermelho ao egoísmo
- cartão vermelho à estupidez
- cartão vermelho à humilhação
- cartão vermelho à ignorância
- cartão vermelho à intolerância
- cartão vermelho à preguiça
-
cartão vermelho à prepotência
- cartão vermelho à violência

Mesmo sabendo que alguns não gostam de correntes, mas porque acredito que não possuem aquelas características nem se dedicam a nenhuma daquelas actividades, passo a:

- Xiclista
- Once
- Redonda
- Leonor
- Gi

07 setembro 2009

O verdadeiro «carpe diem»

Há uns anos comprei este íman na loja do Museu Britânico, em Londres.
Hoje, directamente da porta do meu frigorífico, passando pela Livraria Pátio de Letras onde comprei as Odes de Horácio, da Cotovia, em tradução de Pedro Braga Falcão (Oh, deuses! Andei com os pais dele na faculdade!), aqui vos deixo a ode 11 do livro 1, o verdadeiro «carpe diem» (se bem que este outro fosse mais antigo...):

Tu não perguntes (é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

05 setembro 2009

A mulher lenta

(foto do meu braço direito ontem de manhã)

O título deste post ainda pode levar a pensar que me cortaram alguma coisa, como à personagem do livro de J. M. Coetzee, onde me inspirei, mas não.
Torci o pulso e talvez tenha uma pequena fractura, mas disseram-me que numa semana fico boa.
Consigo escrever com dois dedos da mão esquerda.
Não, não, a esquerda não tem nada, eu é que só sei escrever com dois dedos (se bem que o meu normal seja usar quatro, com uma bela velocidade).

E tudo o que faço agora é muito mais lento.
Não deixa de ser uma aprendizagem, como me disse ontem uma querida amiga.
Desacelerei.

03 setembro 2009

Ficar de olho...

O gentil Carlos Barbosa de Oliveira, do Crónicas do Rochedo, ofereceu-me um simpático prémio há quase um mês e só agora agradeço. Peço desculpa pelo atraso com que me manifesto, mas o agradecimento há muito que aqui mora. «Vale a pena ficar de olho nesse blog» é o nome do prémio e tenho de o atribuir a 10 convivas deste espaço.
Quem já andou por estas correntes sabe quão injustas se tornam estas escolhas, mas como aceitei o desafio, vale a pena ficar de olho nestes blogues:

Restolhando
fio de prumo
Pátio de Letras
Black Box Syndicate
Ponteiros Parados
As coisas são como são
Floresta do Sul
Meditação na pastelaria
Livro de Estilo
A dignidade da diferença



02 setembro 2009

José Carlos Fernandes

(foto tirada daqui)
Gosto muito de José Carlos Fernandes.
Já o tinha dito aqui.
Gosto muito do que desenha e quase ainda mais do que escreve. Talvez porque muitas das suas referências remetam para autores que aprecio.

01 setembro 2009

«a ver se adiantamos alguma coisa»

(tirei a imagem daqui)

Simbolicamente, recomeço a escrever no blogue no primeiro dia de Setembro. Os professores contam os anos de um modo diferente (de Setembro a Agosto) e esta é uma data sempre importante.
Tenho andado a preparar o ano lectivo que está a começar, à roda com objectivos e competências, descritivos de unidades curriculares e preocupada em como organizar as aulas de tutoria. A adaptação ao modelo de Bolonha, para fazer sentido, tem de dar, efectivamente, mais autonomia aos alunos, mas as tutorias terão de ser algo mais do que outra aula normal ou, o que é pior, uma aula inexistente.
No início de cada ano lectivo faço votos para ter alunos que gostem de aprender e que, como diz o Sócrates de Platão (n' A República 346a), não respondam contra a sua opinião real, «a ver se adiantamos alguma coisa».

15 agosto 2009

Lisboa, em 2002

Ao fazer umas arrumações, num saco cheio de partituras musicais (veja-se por aí há quanto tempo não toco!) encontrei um álbum de fotografias enviado por uns amigos franceses, depois de umas férias por cá.
Dedico estas memórias ao meu amigo Zé Karolus!

05 agosto 2009

Emigrar?

Nunca pensei em emigrar.
Viver uns tempos noutro país, sim, pois é uma experiência enriquecedora, mas sair para sempre não.
Tinha na memória uma prancha do Quino, que finalmente encontrei e que aqui deixo digitalizada.

Quino, Condições Humanas, Publicações Dom Quixote, col. Humor com humor se paga, nº 36
(clicar na imagem para aumentar)

03 agosto 2009

Esses caminhos não são meus

(imagem daqui)

ORESTES:
Sou livre, Electra; a liberdade abateu-se sobre mim como um raio.

(...)
Pratiquei o meu acto, Electra, e este acto era bom. Levá-lo-ei aos ombros; como um barqueiro leva os viandantes, fá-lo-ei passar para a outra margem e prestarei contas dele. E quanto mais difícil for de levar, mais contente ficarei, pois é ele a minha liberdade.
Ainda ontem eu andava ao acaso sobre a terra, com milhares de caminhos a fugirem-me sob os passos por pertencerem a outros. Todos eles palmilhei, tanto o dos sirgadores, ao longo dos rios, como o atalho do almocreve e a estrada calcetada dos condutores de carros; nenhum porém me pertencia.
Mas hoje já não há senão um, que é o meu caminho.

(Jean-Paul Sartre, As Moscas, Ed. Presença, 2ª ed, 1965, p. 134-135).

30 julho 2009

VI Curso Livre de História do Algarve


Hoje, às 17.30, irei fazer uma palestra intitulada «O Algarve como recurso estilístico».
Sendo eu de literatura (sou licenciada em LLC - Estudos Clássicos e Portugueses), profissionalmente nunca explorei muito a literatura portuguesa (as minhas preferências e o meu tempo vão mais a grega e a latina), mas preparar esta apresentação deu-me muito prazer. Foi uma espécie de reencontro.

Espero que os presentes sintam um pouco desta alegria!

28 julho 2009

Ouvir o povo...

Não sei porquê, mas nas maiorias absolutas o Poder tem tendência a não ouvir o seu Povo. Essa atitude, mostra o saber dos Antigos, só traz desgraças a todos.

(...)

Hémon – Não é isso que afirma o povo unido de Tebas.

Creonte – E a cidade é que vai prescrever-me o que devo ordenar?

Hémon – Vês, falas como se fosses uma criança.

Creonte – É portanto a outro, e não a mim, que compete governar este país?

Hémon – Não há Estado algum que seja pertença de um só homem.

Creonte – Acaso não se deve entender que o Estado é de quem manda?

Hémon – Mandarias muito bem sozinho numa terra que fosse deserta.

(Sófocles, Antígona, vv. 733-739. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira)

26 julho 2009

De um amigo da Tamino...

(última foto da Tamino, de 25 de Junho)
... amor da sua dona.

IN MEMORIAM DA TAMINO

A Tamino era uma gata amável e terna, não fugindo de ser dura e corajosa quando entendia tal ser necessário. E isso acontecia, por exemplo, sempre que via o seu companheiro Mimi em dificuldades e a precisar de ajuda.

A sua doçura revelava-se, no entanto, quando subia ao colo; momentos esses em que sabia ser extraordinariamente leve e delicada... excepto quando se espreguiçava e as suas unhas se esticavam mais do que seria desejável...

Não se pense que, por ser leve, fosse mole. Nada disso! Na verdade, possuía uma agilidade notável, conseguindo atingir alturas nos seus saltos que deixavam toda a gente admirada. Para ela não havia lugares inatingíveis... nem que tivesse de pular dos ombros de alguém!

Amava a liberdade sem concessões e dificilmente a trocava por qualquer chamamento, mesmo que acompanhado por súplicas. A sua única fraqueza (e não são fraquezas inofensivas como esta que nos tornam mais humanos?) eram as latinhas de comida que a sua dona usava, batendo com um garfo, para a atrair. Mas, mesmo aí, quando suspeitava de ter sido enganada (só suspeita porque, naturalmente, a dona dava-lhe sempre a comida desejada), não perdia nem a sua imensa dignidade, nem a sua compostura plena de nobreza.

É que, para concluir, a Tamino sabia, com supremas inteligência e sensibilidade, ser gata e ser gatinha em toda e qualquer situação.

A sua partida é lamentada.

Não será esquecida.

25 julho 2009

Transmissão directa do Reboliço

(Obrigada, Ana!)

Do céu dos gatos (transmissão directa para a Xantipa)

- Olá. És a Carolina?
- Sou, sim. E tu és quem?
- Sou a Tamino. Cheguei há uns dias e não conheço ninguém. Lá em baixo disseram-me que talvez te encontrasse aqui. Posso ficar contigo?
- Acho que podes. Nunca tenho grande companhia.
- O que é que fazes para passar o tempo? Há ratos para perseguir?
- Não...
- Então este céu não é só para gatos?
- Não, Tamino: aqui é tudo igual a lá em baixo. Gente e bichos tudo misturado. E já assim às vezes é um tédio - imagina se não houvesse alguns seres diferentes de nós!
- Hum... então e o sol para nos estendermos a ele?
- Nada. Nem sol nem lua. É o infinito absoluto. Lembras-te quando lá em baixo ouvias as pessoas dizerem para não se pensar em nada?
- Lembro-me; fazia-me uma confusão...
- Olha, o nada é isto.
- Mas, e as latinhas de comida, quem é que as traz? E as bogas cozidas com as espinhas todas?
- Nada, Tamino. Daqui a algum tempo já nem te lembrarás disso. Agora ouço-te a dizer essas palavras e tenho uma ideia muito vaga de que já houve algum lugar onde faziam sentido.
- É muito estranho. E não dá medo?
- Estás a sentir medo?
- Não. Estou descansada. E desapareceram-me as dores.
- Ora bem; deixa-te estar. Podes ficar aqui ao meu lado. E, se quiseres, depois iremos saltar nuvens. Isso é que é!...

23 julho 2009

Requiescat In Pace





O Mimi vai sentir a falta dela.
E eu também.
Estou contente por não ter mudado a foto do blogue. A minha amiga Ângela disse-me que eu ficava assim muito bem, com a Tamino colo.
Mas meu cabelo já não é aquele, está curto e sem pintura, e a Tamino já não está entre nós.
Este é mesmo um espaço virtual.

22 julho 2009

A gata Tamino...


... tem este nome porque eu pensava que era um gato. Como a Flauta Mágica era a minha ópera preferida, escolhi o nome do príncipe para o meu primeiro animal de estimação. Nunca tinha tido um gato, e, naquele Novembro de 1998, fiquei muito atrapalhada quando vi a Tamino sem movimento durante horas. A minha amiga Susana sossegou-me, dizendo que ela estava apenas a... dormir!
A Tamino está muito doente. Contrariamente ao Mimi, que teve uma lipidose hepática grave, algo curável, ela tem uma insuficiência renal crónica. Os níveis de ureia que, para a idade dela, deveriam estar entre 16 e 36, estão acima de 130, que a máquina não lia mais... A creatinina, que devia estar entre 0,8 e 2,4 está a 5,7...
Estou muito, muito triste.

Só vim aqui dizer isto.

17 julho 2009

«Os tiranos não são loucos: enlouquecem»


Alçada Baptista em Tia Suzana, Meu Amor, sobre Kleist:


«Mas a tia Suzana achava que o poeta era louco:

- A gente tem de viver dentro de certas regras não só para poder estar com os outros mas, sobretudo, para manter o nosso tino. Quando cada um se julga capaz de fazer as suas próprias leis, enlouquece. Por isso é que é muito mau dar a um homem o poder de ditar todas as leis. Os tiranos não são loucos: enlouquecem.»

16 julho 2009

Sangue- Estudos de Antígona

(foto enviada pelo meu amigo Rui Viola)

Talvez por ter tido o privilégio de conhecer o grupo e o projecto ainda em embrião, achei que tinham chegado a um excelente resultado.

A verdade é que gosto muito de ver os textos antigos, ou melhor, as ideias dos textos antigos a reviverem através de novas palavras, actualizadas nas novas realidades. A peça tem diversos registos que coexistem, nem sempre pacificamente: um vídeo projecta, constantemente, imagens que nos desafiam a procurar a ligação que têm ao texto que ouvimos na representação dos actores, esse mesmo texto que está legendado a um canto do ecrã. Por vezes, é nesse pano de fundo que surgem as palavras que não são pronunciadas, mas representadas pelos actores. Um espectáculo que se poderia dizer multimédia sem qualquer depreciação.

Os três actores representam todas as personagens. Isto poderá não parecer nada de especial, visto que já Aristóteles nos disse que «Ésquilo foi o primeiro que elevou de um a dois o número de actores (...). Sófocles introduziu três actores»(Poética 1449a18). Se repararmos bem, para além do Coro e do seu Corifeu, em cena nunca temos mais de três actores. Na Antígona, temos cenas com dois actores (Antígona e Ismena ou Creonte e Hémon) e outras com três (Antígona, Ismena e Creonte ou Creonte, Antígona e Guarda).
Então, qual a diferença?
Aqui, Sara Ribeiro faz, ao mesmo tempo, de Antígona e Ismena e João Pedro Santos faz de Creonte e Hémon. A princípio podia-se pensar que as legendas serviriam para ajudar a perceber quem era quem, mas a encenação e a representação estão de tal modo bem feitas que se vê lindamente a mudança de personagem.
A Isa Araújo é uma presença constante: guarda, corifeu, guia de Tirésias... com uma voz bem modulada e articulada, muda de registo nos diferentes papéis, bastante expressiva na sua (e de João Garcia Miguel)
interpretação da ode ao homem.

Faz parte da própria natureza deste tipo de espectáculo, em que um texto antigo é recriado e lido de outra forma, em diferentes suportes, não ser fiel ao texto. Mas nem é disso que se trata.
Alunos de teatro, mas já actores extraordinários!
Gostei muito deste Sangue-Estudos de Antígona, que gostaria de voltar a ver.
Dêem-me a vossa opinião!

15 julho 2009

Férias?

«A senhora sócrates» não está de férias e pede desculpa aos leitores pela ausência.
O trabalho e o cansaço são grandes, deixando-me pouco tempo para vir até aqui.
Agradeço as palavras simpáticas dos amigos que me estimularam a voltar a postar.

04 julho 2009

Maria Helena da Rocha Pereira - Medalha de Ouro da cidade de Coimbra

Fui chamada à atenção para este evento por um gentil leitor deste blogue.
A Professora Doutora Maria Helena da Rocha Pereira personificou, durante muito tempo, as letras clássicas portuguesas, sendo acidental o ser de Coimbra. Poucos vultos serão tão conhecidos fora do «nosso mundo dos clássicos» como ela. Antes de ir para a faculdade, ainda no ensino secundário, só ainda tinha ouvido falar de dois nomes: Rebelo Gonçalves (autor do Vocabulário de Língua Portuguesa que ainda hoje consulto) e M.H. Rocha Pereira, de quem li os Estudos de História da Cultura Clássica (de capa castanha e não rosa, como as últimas edições), livros fundamentais para a compreensão do mundo antigo. Estão muito sublinhadinhos (a lápis, a lápis) e anotados, naquele papel que a Gulbenkian usa, grosso e brilhante.
Não fui sua aluna, mas todos os que o foram dizem ter sido uma experiência inesquecível.
Cruzei-me com ela algumas vezes e, quando organizei um colóquio e a convidei, recebi uma carta sua a lamentar não poder estar presente e a desejar que corresse bem (gesto delicado e simpático que não tiveram outros catedráticos que também convidara).
Desbravou caminhos, abriu um espaço para os estudos clássicos, publicou nas mais exigentes e prestigiadas editoras estrangeiras (como a alemã Teubner).
Merecedora, sem dúvida, de muitas medalhas de ouro.

02 julho 2009

Sabedoria de Jaime Bunda... agente secreto

A personagem Jaime Bunda, criada por Pepetela, com uma lógica muito própria, mistura saberes (ou falta deles) e citações. Reparem nesta delícia (p. 25, da 8ª edição, nas Publicações Dom Quixote):

Mas nunca ouviu dizer que dura lex sede lex, quer dizer, a lei dura muito e tem sede de lei? Frase de Aristóteles.

26 junho 2009

Épica Menor...

... é o nome do último livro de poemas de António José Ventura, desta vez editado pela Gente Singular (o site não está actualizado, infelizmente, mas tem lá o mail para onde podem escrever e pedir o envio do livro).
Ainda não tive oportunidade de ir a nenhuma das apresentações, mas comprei o livro no Pátio de Letras. Tem uma ilustração («um pássaro do paraíso») de Costa Pinheiro e um estudo no final, que pode ser lido se seguirem a ligação que está no nome do poeta, acima.

Os poemas estão agrupados em quatro grupos.

Deixo aqui dois, da primeira parte (que se intitula «A casa, o mundo e as estações»).

Um tem título:


«As pétalas de rosa»

A luz é a água da rosa. Branca
numa jarra, desabrocha para a sala
pondo a natureza na casa. E eis
que caem as pétalas uma a uma.
Termina o instante da rosa.


Outro não tem:

Sou um arqueiro de um exército em fuga.
Passei fome e frio nas estantes da biblioteca
ferido pelas palavras refugiei-me no litoral
numa furna onde não me atingem as ondas.
Estou num estado de completo silêncio,
apenas me fazem companhia os mexilhões e as lapas,
alimento-me de moluscos.
Começo a ouvir o movimento da maré
o rumor do mar subindo pela praia.
Em breve terei de abandonar o meu esconderijo
e decerto serei feito prisioneiro pelo exército das vozes.
A natureza não me pode salvar
apenas encontrarei abrigo na cidade
servindo as forças vencedoras.

25 junho 2009

no círculo

Vou estar ali, mesmo no centro do círculo de sophia, no dia 4, às 21. A falar de mitos, pois então.

Diz a newsletter:

Caro amigo(a).

Vamos ter Mitologia no Círculo de Sophia!

A Professora Adriana Nogueira, classicista entusiasta de muitos outros saberes irá apresentar-nos uma agradável Palestra acerca de alguns Mitos que têm acompanhado a Humanidade.

“Os mitos são, geralmente, histórias baseadas em tradições e lendas feitas para explicar o universo, a criação do mundo, fenómenos naturais e qualquer outra coisa a que explicações simples não são atribuíveis. Mas nem todos os mitos têm esse propósito explicativo. Em comum, a maioria dos mitos envolvem uma força sobrenatural ou uma divindade, mas alguns são apenas lendas passadas oralmente de geração em geração.”

Certos, do interesse que este tema suscita, contamos com a vossa presença e participação na tertúlia que terá lugar após a palestra.

Cumprimentos e até sábado

Os amigos do Círculo de Sophia

Isilda e José Carlos

Temática: Mitologia/Filosofia

Programa Mensal

Mês de Julho 2009

04/07/2009
pelas 21:00 horas

Género: Palestra/Tertúlia


Morada:
Largo de S.Francisco
nº49, 2º - 8000 Faro


Tel: 937533031

E-mail: circulosophia@gmail.com

Web: circulosophia.blogspot.com

22 junho 2009

curva algébrica

x = a \cos t \sqrt{2 \cos (2t)}; \qquad y = a \sin t \sqrt{2 \cos (2t)}

(daqui)

Esta é a fórmula que corresponde ao prémio que o Miguel gentilmente me atribuiu e que muito agradeço. Estou sempre a aprender!


(Aproveito para agradecer ao Tomás Vasques a tão simpática referência que me fez)

Fui procurar o blogue criador do selo abaixo apresentado e encontrei a razão da sua existência:
«O selinho foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos leitores»
As sete escolhas seguiram um critério tão inválido e injusto como outro qualquer: conhecer pessoalmente o autor.

Ponteiros Parados (bem... é amigo de amigo... conta, não conta?)
Rua da Abadia (o nepotismo em todo o seu esplendor)
Bandeira ao Vento
(então, pá, e os nossos projectos?)
Chá de Letras (amizades cinéfilas, literárias, profissionais e chazeiras)
A dignidade da diferença (é mais falador no blogue)
Delito de Opinião (lamentavelmente, só conheço um... mas conta, não conta?)
Dário Guerreiro - a prosa (aprendemos muito sobre os alunos com os seus blogues)

21 junho 2009

inconsistência

Como os leitores deste blogue se terão apercebido, normalmente não uso este espaço para dizer mal. Para que queixar, sim (do mau serviço da Divani ou da TMN, por exemplo), mas má-língua, não.
Mas, por vezes, há coisas que me incomodam de tal modo, que penso: «Vou pôr no blogue», como se o blogue fosse o amigo a quem temos que telefonar sempre que nos acontece qualquer coisa. De bom, normalmente. De menos bom, por vezes.

Hesitei em escrever este desabafo, mas cá vai: incomoda-me muito a inconsistência. Pessoas inconsistentes. Ideias inconsistentes. Livros inconsistentes. Personagens inconsistentes.
Por razões que apenas a mim se devem, estou a ler um livro de um jornalista que escreve romances. Aquilo lê-se depressa, mas não sei se consigo continuar. Talvez o faça, para respeitar o meu «princípio da não-desistência», mas está difícil. Tive de parar.

Às vezes penso que gostava de ser daquelas editoras à americana que lêem os manuscritos e fazem os seus comentários, dialogando e discutindo com o autor, de modo a que este possa corrigir, reformular ou manter a sua decisão (que será forçosamente mais consistente, depois de ter tido de a defender). Uma editora que pudesse dizer ao autor:

«Já reparou que a sua personagem não é credível? Desde quando um professor universitário de História, consultor de entidades prestigiadas e selectas como a CIA, não sabe o que é a tundra? Ou, perante a informação de que a uma igreja que vê na praça Vermelha, em Moscovo, não é o Kremlin (ele não é um turista. É doutorado em História.), parece amuar, recusa-se a ver o complexo, recusando também a realidade, dizendo que, para si, aquela igreja seria sempre o Kremlin, «dissessem o que dissessem»? «Dissessem», quem? Os historiadores como ele. A realidade.
Uma atitude tão pouco sensata (para não dizer tão incongruente) não se adequa a um investigador.

Mais: um conhecedor profundo de línguas antigas, que sabe hebraico e grego, que conhece a cabala, que decifra enigmas, perante a necessidade de ler um único nome em russo (o nome de da cidade para a qual se dirige e que se encontra escrito no autocarro que necessita tomar) diz que não sabe cirílico? Impossível. Qualquer pessoa que saiba grego sabe ler a maioria dos caracteres cirílicos. É básico. Pode não reconhecer todas, mas muitas letras são semelhantes. Nunca se sentiria completamente a zero.»

Isto diria eu como editora à americana. Mas nem à portuguesa sou.
Parei aqui e ainda não consegui retomar.
Já não podia mais com as conversas que a personagem mantinha com outras personagens. Como pode alguém, contratado pela Interpol por ser o mais destacado na sua área, comportar-se como um imbecil, a quem é necessário explicar muitas vezes as mesmas coisas?
É bem-feita. Ninguém me mandou meter-me nestas leituras, até porque o livro nem faz parte da minha biblioteca.
Para me redimir, comecei agora mesmo a ler O Homem Lento, do Coetzee, e já me sinto recompensada.

19 junho 2009

Lendas da fundação de Roma - Curso Livre

Querida Gi,

Lembrei-me de ti quando vi o anúncio deste curso que a Ana Alexandra vai dar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Pelo que conheço dela como colega, posso garantir que vai ser muito interessante e muito bem explicado.
Quem morar em Lisboa vai ter mais facilidade do que tu, pois são duas vezes por semana, 2h cada.
Pensa nisso. Se fosse sobre Júlio César em vez de Tito Lívio, irias sem hesitar, não era?
Tenho de perguntar ao se não quer ir. Ele é todo virado para estas coisas das antiguidades e tem um conhecimento de latim (e grego) que não é de desprezar.

Fica bem e até um dia destes!

17 junho 2009

Auto-avaliação

Vou observar-me com toda a atenção, vou fazer uma coisa da maior utilidade: avaliar com cuidado cada um dos meus dias.
Habitualmente, ninguém auto-analisa a própria vida, o que só contribui para acrescer os vícios.
Todos pensamos no que estamos a fazer, e mesmo isso raramente, mas não atentamos no que já fizemos, quando afinal as decisões quanto ao futuro estão dependentes do passado.

Séneca, Cartas a Lucílio, 83,2. Tradução de Segurado Campos para a FCG.

12 junho 2009

armas de arremesso

(imagem daqui)

Este blogue tem andado paradinho há mais de uma semana.

Em casa, estive uns dias sem net. Na faculdade, não me davam acesso a ele por conteúdo suspeito (julgo que devido ao post das orgias e bacanais). Enfim, o muito trabalho, a correcção dos exames dos maiores de 23 (antigos ad-hoc), uma greve, e a falta de disposição deram nisto: ausência prolongada.
Esclarecida a situação (obrigada a todos os que me pediram para voltar), publico um post que tinha inicado há cerca de um mês e que versava a concordância do adjectivo com o nome. Como, infelizmente, iremos ouvir mais deste género, este poste não está ainda desactualizado.
(Acabei de fazer um busca no google e lá está, citado ainda este mês de Junho).

Na boca (ou na pena) de políticos ou de jornalistas, tenho ouvido com regularidade na rádio (oiço diariamente de manhã, as notícias na Antena1) que isto ou aquilo não deviam ser «armas de arremesso político».
Arremesso político?
O que será um arremesso político?
aqui vos falei da minha incapacidade para entender bem o que me dizem.
Infelizmente, a frase foi muito repetida e percebi que se referiam a armas de arremesso na política. Portanto, se haveria de haver uma concordância era com armas e não com arremesso. Arremesso é o determinativo de armas e são elas que indicam o género e o número do eventual adjectivo ou o número do verbo:
Não se diz «O meu banco de dados pifaram»
nem
«Tenho dois fatos de banho amarelo».
Agora, se eu disser «Quero duas fatias de bolo redondo», significa que quero duas fatias de um bolo que é redondo.
Se disser «Quero duas fatias de bolo redondas», significa que quero duas fatias que sejam redondas (não sei qual a forma do bolo, mas sei a das fatias) .
Esperaríamos, então, que os políticos e os jornalistas dissessem (e escrevessem) «armas de arremesso políticas», pois políticas são as armas e não os arremessos. Até porque aqui (diferente do exemplo do bolo, mas semelhante ao fato de banho) arma de arremesso é um tipo específico de arma, funcionando como uma locução substantiva .

02 junho 2009

ignorantia legis neminem excusat

Rimando:
O desconhecimento da lei não desculpa ninguém

Infelizmente, não entendo de leis.
Como sabem, não sou de Direito, mas sempre ouvi dizer que o desconhecimento da lei não pode ser usado para que esta não seja cumprida (agradeço ao meu velho amigo
Xiclista a frase latina no título deste post).
Se isto é assim, por que não aprendemos leis desde pequeninos, na escola? Não é que ache mal as novas matérias que se pretendem impor, como a Educação Sexual, mas acredito que os jovens não só sabem mais desse assunto (através dos pais e amigos) como sabem onde procurar informação fidedigna e gratuita (nos centros de saúde, por exemplo).
E de leis?
Onde pode um jovem aprender a ler uma lei? Qual a diferença entre uma lei e um decreto-lei? Que significa todo aquele arrazoado que, por vezes, parece estar a ser pronunciado noutra língua? Até onde vai o poder dos juízes? Que apoio podemos ter do Ministério Público?
Se a leitura da Lei fosse fácil, não seriam necessários tantos pareceres para a interpretar. E, como muitos sabemos, nem todos os juízes a interpretam da mesma forma.
É importante conhecer os nossos direitos e deveres directamente da fonte. Conhecer a Constituição da República Portuguesa. Lidar, desde cedo, com nomes como Código Penal, Código Civil, matéria cível e outras coisas de que não me lembro agora.
Perceber o alcance da União Europeia e dos seus órgãos, para os quais terá de votar depois dos 18 anos.
Suponho que ninguém do Ministério da Educação leia o meu blogue, mas acho mesmo uma boa ideia que se introduza a disciplina de Direito nas escolas ou algo como Português Jurídico, para que sejamos menos enganados.

30 maio 2009

A FIMFA

Imperdível!
Passem pelo D. Maria II, em Lisboa, entre as 20.00 e as 21.30 (este espectáculo é servido antes de outro) e depois das 23h, e vejam, durante 5 minutos (sim, apenas 5 minutos) um lindíssimo espectáculo de sombras (o das 20.30 é diferente do das 23).
O animador é o meu amigo Paulo Ferreira, de quem já vos falei neste blogue, que vos receberá com todas as honras no seu Cyclo Théâtre.
Para mais informação, vejam aqui.

28 maio 2009

Antes de morrer...

Tenho dificuldade em responder a desafios como este...
Vivo cada dia como se fosse imortal, sabendo que posso morrer a qualquer momento. Por isso gosto de fazer planos. Por isso sei que não adianta fazer planos.

Séneca dizia que «a verdade é que por vezes continuar vivo é dar mostras de coragem!» e exortava o amigo Lucílio: «despreza a morte. Nenhum motivo de tristeza pode haver quando nos libertamos do medo de morrer
Há uns tempos atrás estava mais em sintonia com esta filosofia. Agora, não a desdenho, mas... não me apetecia morrer em breve.

Como não consigo pensar na minha morte, não sou capaz de enumerar oito coisas para fazer antes de morrer. Apenas posso dizer que me apetecia viver em plenitude com a pessoa que amo e ter tempo para a fazer tão feliz como ela me faz a mim.
E acho que isto pressupõe muito mais do que oito coisas...

(Como vês, Gi, deu-me agora para o sentimento)

Mas como imagino que se esperava uma resposta mais prosaica, acho que devo ainda acrescentar (ao 1 - viver em plenitude com a pessoa que amo; e ao 2 - ter tempo para a fazer feliz como ela a mim) um 3 - poder ter a minha mãe a viver comigo e proporcionar-lhe uma vida descansada; 4 - ler todos os livros da minha biblioteca; 5 - ensinar a quem quer aprender (gosto muito de ser professora); 6 - aprender a nadar (até porque tenho esta ideia de que poderei morrer afogada e assim excluía esta hipótese); 7 - ser avó (eu sei que não tenho filhos, mas que querem?); 8 - aprender a cantar.

Só não vou cumprir com a parte de reenviar...

27 maio 2009

Uma virgem concebeu de um deus

Este mitologema*, comum a várias culturas (veja-se o exemplo de Reia Sílvia, virgem vestal, que engravida do deus Marte e dá à luz os gémeos Rómulo e Remo, que vêm a ser os fundadores da cidade de Roma), parece que também servia de desculpa para alguns deslizes.

Na tragédia Íon, de Eurípides, quando o jovem que dá o nome à peça sabe que é filho do deus Apolo, de quem fora sacerdote toda a vida, e da princesa (agora rainha) Creúsa, ousa duvidar do seu nascimento divino:

Olha, mãe, não terás caído devido às fraquezas que acontecem às jovens num amor secreto, atribuindo depois ao deus a culpa - e procurando fugir à vergonha do meu nascimento, afirmas que me deste à luz para Febo, quando não foi de um deus que concebeste?

Trad. de Frederico Lourenço para as Edições Colibri, Lisboa, 1994.

*Kerényi explica (e explana entre as pp.3 e 5 do livro indicado abaixo) que os mitologemas são o material mítico de que são feitos os mitos, isto é, a que os mitos dão forma; são «an immemorial and traditional body of material contained in tales about gods amd god-like beings, heroic battles and journeys to the Underworld (...) - tales already known but not unamenable to further reshaping.»


Jung & C. Kerényi, The Science of Mythology, Routledge.

22 maio 2009

A sétima filha

Desde que me lembro, fui confrontada com a realidade da vida e da morte.
Sempre soube que só nasci, porque a minha irmã mais velha tinha morrido, pois não seria intenção dos meus pais terem sete filhos.
Nunca fiquei contente por os meus pais terem passado pela morte de filhos (já vão em 4), mas neste caso específico... tenho de admitir que estou contente por ter nascido.
Sei que foi muito difícil para os meus pais fazerem festas em vez de ir ao cemitério e eu agradeço-lhes por isso, por não terem tornado este dia cinzento, mas sempre um dia de festa.
Obrigada e muitos beijinhos, Mãe. Quando aí for mostro-lhe este postal.

19 maio 2009

Educação sexual: orgias e bacanais


Acho que os meus pobres Hércules estão condenados! Na página 141 e 142, do primeiro volume, não só falo de orgia, mas também de bacanais.
E até explico (traduzindo um decreto do Senado de Roma, de 186 a.C.) quais a regras de um bacanal, como esta, que indica a quantidade e a proporção de participantes:
«cinco pessoas no total, e nesse grupo de cinco não pode haver mais de dois homens nem mais de três mulheres. O número pode ser excedido por uma autorização do senado»
Se um dia os nossos parlamentares decidirem legislar...

18 maio 2009

quando a arte é a desmedida

(foto daqui, da exposição na galeria dos meus amigos Christoph Maisenbacher e Paula de Lemos-Maisenbacher)

Tenho um anãozinho destes, de Ottmar Hörl.

Tenho uma flor de plástico e pano numa jarra lindíssima de design contemporâneo.
Tenho um casaco espampanante, com bordados coloridos (azul turquesa, laranja, rosa, amarelo, vermelho)...
Sempre gostei de kitsch, dizia eu.

Na sexta e no sábado, a questão do kitsch levantou-se em dois momentos diferentes e eu expliquei, a quem me perguntou, que achava que o kitsch era uma opção estética, uma intencionalidade de um uso de um elemento que, entre iguais, seria piroso ou foleiro, mas que descontextualizado e com essa intencionalidade era kitsch.

No domingo, a arrumar papéis, encontrei, por mero acaso, um artigo da minha colega (de quem não sei há tanto tempo e com quem gostava tanto de conversar) Idalina Sardinha, da Universidade da Madeira, intitulado «"kitsch" e "artesanato" na Madeira» (in Espaço-Arte, Funchal, ISAPM, nº 7, s.d., pp. 30-37)
. Muito interessante. Citando Moles, explica que o kitsch é a medida do homem quando a arte é a desmedida. Gostei. E continua Moles a dizer que o kitsch dilui a originalidade a um nível de mediania para que esta seja aceite por todos (tradução de tradução: minha do francês que está no artigo, sendo que o original é alemão).

Decidi então procurar mais informações sobre o kitsch e aqui aprendi que afinal não gosto verdadeiramente de kitsch, pois aquilo a que chamo kitsch é resultado de um uso metacomunicativo e elitista da palavra. Ufa!

16 maio 2009

obra de arte


-Eu acredito que há um sopro divino em cada criação.

- Tenho uma ideia diferente. Para mim uma obra de arte é o trabalho árduo que o artista constrói à volta de um momento de maior sensibilidade. Não acredito nessas coisas de inspirações divinas, de sopros ao ouvido.

Luís Costa Pires, Ao Teu Lado, Lisboa, Vega, 2008, p.49

Sentada na minha sala, a ver este céu de Olhão, azul, mais azul ainda por estar em contraste com o branco dos muros, penso que me vai saber bem ir a Faro na hora do chá, pelas 17.30, tomar uma chávena no Pátio@bar, enquanto converso com o escritor na apresentação do livro, no espaço da linda livraria Pátio de Letras.