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19 junho 2016

Em Cnossos, com Sophia

Fui a Creta pela primeira vez no passado mês de maio.
Fui à Grécia 6 vezes, vivi em Atenas 4 meses, no já longínquo ano de 1998, para poder acompanhar os seminários de Jeffrey Rusten, professor em Cornell (EUA), na American School of Classical Studies at Athens (ASCSA), mas nunca tinha ido a Creta (como, aliás, não fui a muitos outros sítios naquele maravilhoso país).
Da primeira vez, em 1985, levei o Ulisses, de James Joyce, que só me serviu para pesar na mochila, pois que foi e veio fechadinho (levá-lo foi um romantismo de adolescente).
Desta vez, fui mais sensata e levei a poesia de Sophia, que li por onde passei.
:)

«Ressurgiremos»
Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo 
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta
Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta
Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta
Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta.






















26 junho 2009

Épica Menor...

... é o nome do último livro de poemas de António José Ventura, desta vez editado pela Gente Singular (o site não está actualizado, infelizmente, mas tem lá o mail para onde podem escrever e pedir o envio do livro).
Ainda não tive oportunidade de ir a nenhuma das apresentações, mas comprei o livro no Pátio de Letras. Tem uma ilustração («um pássaro do paraíso») de Costa Pinheiro e um estudo no final, que pode ser lido se seguirem a ligação que está no nome do poeta, acima.

Os poemas estão agrupados em quatro grupos.

Deixo aqui dois, da primeira parte (que se intitula «A casa, o mundo e as estações»).

Um tem título:


«As pétalas de rosa»

A luz é a água da rosa. Branca
numa jarra, desabrocha para a sala
pondo a natureza na casa. E eis
que caem as pétalas uma a uma.
Termina o instante da rosa.


Outro não tem:

Sou um arqueiro de um exército em fuga.
Passei fome e frio nas estantes da biblioteca
ferido pelas palavras refugiei-me no litoral
numa furna onde não me atingem as ondas.
Estou num estado de completo silêncio,
apenas me fazem companhia os mexilhões e as lapas,
alimento-me de moluscos.
Começo a ouvir o movimento da maré
o rumor do mar subindo pela praia.
Em breve terei de abandonar o meu esconderijo
e decerto serei feito prisioneiro pelo exército das vozes.
A natureza não me pode salvar
apenas encontrarei abrigo na cidade
servindo as forças vencedoras.