05 março 2022

«em prol da liberdade de todos»

Acabei de reler, em Diógenes Laércio, 2.5 (tradução minha), uma carta que Anaxímenes (de Mileto) terá escrito a Pitágoras, no séc. VI a.C., e que me encheu de tristeza, por ver a história a repetir-se: os anseios e receios de quem vê a guerra à porta.

Bem fez Pitágoras em ir para longe.

Mas, hoje, já nada está suficientemente longe.

:(

«Anaxímenes a Pitágoras

            Foste o mais prudente de todos nós, quando te mudaste de Samos [1] para Crotona [2], onde estás em paz. Os filhos de Éace [3] praticam males imperdoáveis e tiranos não faltam aos Milésios [4]. O rei dos Medos [5] também é terrível para nós, se não quisermos pagar tributo; mas, em verdade, os Jónios estão a ponto de empreender uma guerra contra os Medos, em prol da liberdade de todos: e quando estivermos em guerra, deixaremos de ter esperança de salvação. Como poderá Anaxímenes ainda ter ânimo para estudar os fenómenos celestes, estando com medo de ser entregue à morte ou à escravatura? (...)»


(Foto: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nuremberg_chronicles_f_68v_2.png)

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[1] Ilha grega, do mar Egeu.

[2] Cidade da atual Calábria, em Itália.

[3] Éace de Samos tinha 3 filhos: Polícrates, Pantagnoto e Silosonte. Segundo Heródoto, 3.39, Polícrates, que se tornou tirano, “matou um deles, exilou o mais novo, Silosonte, e chamou a si, por inteiro, a soberania de Samos”.

[4] Habitantes de Mileto, colónia grega da Jónia (Ásia Menor, perto da atual Balat, na Turquia).

[5] Deverá referir-se a Astíages. Os Medos, parentes dos Persas, viram o seu poderia derrotado por estes, liderados por Ciro II, (neto de Astíages), também conhecido como Ciro, o Grande, em 550 a.C., na batalha de Pasárgadas.