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25 maio 2010

No Ermitage

Na viagem que fiz à Rússia (a São Petersburgo, mais precisamente), aproveitei para ver os clássicos representados na arte (e para ver muita outra arte, claro, que não a dos clássicos, mas essa teria de ficar para outro blogue que eu não tenho).

Começo com uma breve divagação sobre o nome do museu.
No livro oficial lá do sítio, na indicada como «nova» versão em português (de 2008), o nome é assim justificado:


O nome francês do nosso museu "Ermitage" significa "lugar de recolhimento, eremitério". Os tempos quando ele era um museu privado e servia de retiro à Corte já ficaram no longínquo passado.

Portanto, parece-me que Ermitage deverá ser o nome na nossa língua, visto que é, assumidamente, um nome francês e não tem nenhuma letra aspirada no seu início (Эрмитаж).
No entanto, vejo frequentemente escrito Hermitage. O DN refere-o como Ermitage e o Diário Digital, sobre o mesmo assunto, escreve Hermitage.
Tenho de investigar se há alguma opinião oficial sobre o assunto. Até indicação em contrário, escreverei sem «H».

Deixo aqui umas notas e um exercício sobre Antonio Canova e as suas estátuas de Eros (ou Cupido) a beijar Psique.
No Ermitage está esta estátua (foto que tirei com toda a legalidade: paguei 200 rublos para poder usar a máquina no museu):



E no Louvre está esta:

(Infelizmente a foto não é minha. É daqui)

É curioso como nalguns sites vejo uma a ser indicada como a outra. No entanto, as diferenças não são difíceis de detectar.
Deixo-vos esse prazer.

10 maio 2010

Leda e o cisne e os seus gémeos verdadeiros e falsos

(Leda e o Cisne, de Cesare da Sesto, recuperando Da Vinci. Ver aqui)

O meu amigo Zé Bandeira foi desenganado pela sua augusta Mãe, quando lhe perguntou se ela e o tio poderiam ser gémeos verdadeiros.

Meu querido Zé,
A tua ideia não é assim tão destrambelhada, pois já sei de onde te veio: de Leda e o cisne!
Tu, um amante da antiguidade clássica, sabendo que Helena era gémea de Pólux e que Clitmnestra gémea de Castor (na imagem vêem-se bem os bebés a sair dos ovos), e sendo cada par de gémeos verdadeiros (os primeiros, fruto de um óvulo fecundado por Zeus e os segundos de outro fecundado por Tíndaro) gémeos falsos dos outros, extrapolaste para a tua realidade.

É simples!
Beijinhos

P.S. Há versões em que, apesar de Helena e Pólux serem os filhos de Zeus, foram chocados em ovos separados: as meninas num ovo e os meninos noutro, sendo cada um de fecundação dupla, divina e humana. Mas penso que esta versão não interessa para a tua argumentação...

13 janeiro 2010

Pinacoteca antiga 2. Ou melhor: Descalço vai para a fonte...

Continua a viagem pela pinacoteca antiga, que tanto impressionou o narrador do Satyricon.

ali o cândido Hilas repelia uma Nâiade descarada;

(imagem daqui)

Parece que Hilas ficou para sempre entre as Ninfas, pelo que nos conta Apolodoro, na Argonáutica (I, 1207 e seguintes), e não parece ter tido tempo para as repelir... O jovem preferido de Héracles foi à fonte com o seu cântaro e as ninfas raptaram-no para todo o sempre. Foi assim, foi.

(imagem daqui)

11 janeiro 2010

Pinacoteca antiga

Lendo o Satyricon, de Petrónio (em tradução de Delfim Leão, para a Cotovia, editada já no longínquo 2005), sou levada pelo narrador:

Cheguei a uma pinacoteca impressionante, repleta de todo o tipo de quadros (...). Aqui, uma águia arrebatava para as alturas do céu o pastor do Ida;


(Correggio - Imagem daqui)

Ainda há pouco tempo referi Ganimedes. Pois é ele o pastor do monte Ida de quem aqui se fala. Diz-nos Ovídio (Metamorfoses X, 155-161, na edição do costume):

Um dia, o rei dos deuses inflamou-se de amores pelo frígio
Ganimedes, e foi encontrado aquilo que Júpiter preferiu ser
a ser aquilo que era. Não se dignou, contudo, a tornar-se uma
ave qualquer, senão aquela que pudesse transportar seu raio.
De imediato, batendo o ar com enganadoras asas, arrebata

o neto de Ilo, que agora é também copeiro e serve o néctar
a Júpiter contra a vontade de Juno.


(Imagem daqui)

24 abril 2009

Confraria do Príapo

(Príapo em Zamora. Foto de stavlokratz, daqui.)

Hoje, no Público, disseram-me que na pág.20 do Local (Lisboa) vem uma notícia sobre a criação da Confraria do Príapo, na qual sou referida. Não vi ainda o jornal, mas estou à espera de o arranjar para pôr aqui a nota.
A notícia foi escrita por Carlos Cipriano, que também fez uma peça para a Gazeta das Caldas para a qual me pediu uma pequena informação sobre Príapo. Escrevi assim (tenho a notícia em pdf, mas não sei pôr aqui no blogue):

Jove é senhor do raio, Neptuno do tridente;

Marte é dono da espada, a lança é tua, Minerva;

Líber trava combate com tirso e tiras de erva;

a mão de Apolo setas envia bravamente;

de Hércules a direita segura o cruel bastão,

e a mim me faz terrível a piça com tesão.

Estes versos, traduzidos do Corpus Priapeorum pelo Professor Carlos Mora, da Universidade de Aveiro, descrevem as características de muitos deuses conhecidos, como Júpiter, Neptuno ou Marte, pondo, no final, na boca do próprio Príapo as palavras que melhor o descrevem.

Dono de um pénis em erecção descomunal, Príapo é normalmente apresentado como filho de Afrodite, deusa do amor, e de Dioniso, deus do vinho.

Vergílio (70-19 a.C.), nas suas Geórgicas (IV, 111), invoca-o como deus protector das plantas. De facto, os jardins e as hortas eram o seu local de eleição e de culto por parte dos lavradores. Talvez por isso a palavra hortus em latim tenha também o sentido de ânus, quando num contexto sexual.

Príapo, a personificação do phallus (falo), tem também uma função apotropaica, isto é, a de afastar o mau olhado, principalmente dos invejosos que poderiam prejudicar as colheitas. Os romanos usavam o falo como amuleto, algumas vezes representado como um pénis alado, do qual pendiam sininhos que tilintavam com a aragem, de forma a afastar os maus espíritos, produzindo o efeito semelhante aos ainda hoje conhecidos «espanta-espíritos».

Tal como o dedo em figa que balança nos espelhos dos carros, ou o manguito que o Zé Povinho nos faz, ou um «das Caldas», o falo estava representado tanto em casa como nos espaços públicos.

A figura do velho com um pénis desmesurado e em erecção pode ter surgido para dar forma a um culto que inicialmente se centrava em apenas uma parte do corpo.

A medicina apropriou-se desta característica física da personagem (apresentada no mito como deformidade vergonhosa, tendo o deus sido escondido para não embaraçar os pais) para descrever uma doença em que o falo erecto não volta ao estado normal, podendo provocar impotência sexual.


10 abril 2009

Ícaro

(imagem daqui)

Efectivamente, ele representava o castigo da vaidade de Ícaro transposta dos mitos antiquíssimos para as realidades do nosso tempo, sim, representava a expiação da vertigem de luxos, prazeres e devassidões em que vivia uma certa sociedade.

José Cardoso Pires, Alexandra Alpha, p.11 da 3ª edição (Publicações Dom Quixote) de 1992.

(Por motivos de ordem técnica, este blogue tem sido pouco actualizado. Vamos lá ver se melhora.)