06 fevereiro 2007

Amália / Jocasta

AMÁLIA, ao aperceber-se que o amante, ANTÓNIO, é seu filho, exclama:
Ai, cosam-me a boca! Ceguem-me os olhos! Quebrem-me os braços e pernas!... Cubram-me de cinza! Escondam-me de toda a gente! Enterrem-me viva!... (A bater com ambos os punhos na parede.) Matem-me!... Ai, matem-me! matem-me!...
Mas, mais tarde, reaje.
AMÁLIA (torturada): Não sei... não sei?!... (Outra vez dura, de pedra negra) Não tenho culpa. Hei-de viver!...
(...)
HOMENS E MULHERES (no auge do ódio, avançando para Amália): Morra! Morra! Morra!...
AMÁLIA (fúria negra, medonha; subindo, em defesa, para cima da mesa): Quero viver!... Hei-de viver!... Hei-de viver!...
(...)
(estas quatro personagens param por momentos e, logo a seguir, voltam-se odientas para Amália.)

3ª MULHER: Que Deus me beba os olhos, antes que eu te veja viva! Mata-te!...
1º HOMEM: Que Deus me cosa ouvidos e boca, que Deus me quebre mãos e braços... antes que eu te oiça, que eu te fale, que eu te sinta viva! Mata-te!...
1º e 2º HOMENS, 1º e 3ª MULHERES: Mata-te! Mata-te! Mata-te!...
(...)
AMÁLIA: Quero viver!... quero... quero!...(...) Hei-de viver! Hei-de ser feliz!... Quero viver!...

Bernardo Santareno,«António Marinheiro (o Édipo de Alfama)», in Obras Completas - 2º Volume, Editorial Caminho, 1985.

2 comentários:

marta disse...

Ah! Sim! hás-de ser feliz.
e viver e viver e viver feliz.
Bjs

Fallen Angel disse...

Tapita, vive. E sê feliz!