31 dezembro 2009

Alegria na entrada em 2010

Horácio, o poeta da moderação, da aurea mediocritas, também canta a alegre loucura (dentro dos limites permitidos pelas Graças, claro) que o vinho provocava.
É tempo de beber, dizia num outro poema.
Deixo aqui os meus votos de um 2010 repleto de tudo o que for vosso desejo, acompanhados por excertos de uma ode deste poeta (Ode III, 19) e de uma imagem do copeiro dos deuses, o jovem Ganimedes:

(imagem daqui)
(...)
Serve-nos vinho, rapaz, depressa!
Serve-nos, pela lua nova! Serve-nos, pela meia-noite!
Serve-nos, pelo áugure Murena! Preparem-se
os copos com três ou nove cíatos, ao gosto de cada um.

Quanto ao vosso atordoado poeta,
que as ímpares musas ama, três cíatos vezes três há-de pedir:
de tocar em mais de três
a Graça com suas desnudas irmãs nos proíbe,

por recear as rixas.
Agrada-me ensandecer. Porque cessa o sopro
da tíbia de Berecinto?
Porque penduradas na parede se calam a siringe e a lira?

Odeio mãos avaras!
Espalha as rosas!
(...)

(Tradução de Pedro Braga Falcão, na Cotovia)

23 dezembro 2009

Porque hoje é 23 de Dezembro

Este blogue tem andado parado na proporção inversa da minha actividade.
Não é falta de respeito pelos meus amigos e convidados desta ágora, mas simplesmente incapacidade de parar para escrever.
Deixo aqui uma foto (do ano passado, que este ainda nem tempo tive para as manifestações de paganismos e religiosidades), com votos de boas festas para todos e promessa (sim, esta é a altura das promessas, pois então) de publicações mais periódicas.
FESTAS FELIZES

08 dezembro 2009

Que dia é hoje? Dia de aniversário de Quintus Horatius Flaccus

Diz-nos Suetónio, na Vida dos Poetas, sobre Horácio:

Natus est VI Idus Decembris L. Cotta et L. Torquato consulibus.

Nasceu a 8 de Dezembro de 65 a.C., diríamos nós.

O aniversário de Horácio é um bom pretexto para falar do calendário dos Romanos.

Costumamos dizer que o latim é uma língua sintética, que usa menos palavras que nós para dizer a mesma coisa.
Isso não se passa com a datação.

Os Romanos indexavam os anos a acontecimentos consultáveis em listas (tabelas) onde constavam os dois cônsules que tinham governado nesse ano (os fasti consulares).

Tal como digo, quando me tento lembrar de alguma coisa: «Ora isso aconteceu-me no ano em que entrei na Faculdade», querendo dizer 1984, ou «Lembro-me perfeitamente! Foi quando Cavaco Silva foi primeiro-ministro», querendo dizer 1985, também eles diziam, como neste exemplo, que Horácio nasceu no ano em que eram cônsules Lúcio Cotta e Lúcio Torquato, isto é, o ano 65 a.C.


Os Romanos tinham três datas fixas: as Calendas, as Nonas e os Idos.
As calendas eram o 1º dia do mês, as nonas eram o dia 5 (ou 7, em Março, Maio, Julho e Outubro) e os Idos eram o dia 13 (ou 15, em Março, Maio, Julho e Outubro) de cada mês. Os dias contavam-se em função da data fixa seguinte, incluindo na contagem o dia em que se estava.

Assim, tendo Horácio nascido 6 dias antes dos Idos de Dezembro (e não estando Dezembro na lista dos meses em que calhava a 15, os Idos eram dia 13), contamos 6 números, incluindo o primeiro: 13, 12, 11, 10, 9, 8.

Portanto, à maneira de Roma, estamos hoje:
VI Idibus Decembris Josepho Sousa primo ministro, primo anno, secundo mandato.

06 dezembro 2009

Fama, boatos, rumores...

(imagem daqui)

No centro do Universo, entre a terra, o mar e as regiões
celestes, há um lugar, limite de três mundos, de onde
se vê o que esteja em qualquer parte, ainda que distante
dessas regiões. Toda a voz chega aí a ouvidos ávidos.
Aí mora a Fama, que escolheu para si lugar no ponto
mais alto da cidadela. Dotou a sua morada de inúmeros
acessos, de mil aberturas, e não pôs portas à entrada. Fica
aberta noite e dia. É toda de sonante bronze, toda retumba,
repercute as vozes e repete o que ouve. Não há sossego
em seu interior. Não há silêncio em parte nenhuma.

(imagem daqui)

Também não há gritos, mas murmúrios em sumida voz,
como costuma ser os das ondas do mar, se alguém
as ouvir ao longe, ou como o som que longínquos trovões
produzem, quando Júpiter faz ressoar negras nuvens.
Ocupa os átrios a multidão, populaça instável, vai e vem.
De mistura com a verdade, erram por toda a parte milhares
de invenções e boatos. Fazem-se ouvir confusas palavras.
Uns enchem com rumores ouvidos ávidos; outros contam
a terceiros o que lhes foi referido. Cresce a dimensão do falso.
Ao que ouviu, faz novo autor acrescer qualquer coisa.
De um lado está a Credulidade, do outro está o Erro
impudente, a falsa Alegria, o consternado Temor, a Sedição
repentina, os Sussurros de autoria duvidosa. A Fama
em pessoa vê o que sucede no céu, no mar e na terra,
e procura no Universo inteiro.

Ovídio, Metamorfoses, XII, 39-63. (Tradução de Domingos Lucas Dias, Vega, 2008, com a qual ganhou o prémio de tradução da União Latina daquele ano).

Veja como o barulho da Fama contrasta com o silêncio do Sono.

28 novembro 2009

Cinco revelações


A Helena, da Oficina do Bosque, desafiou-me a fazer 5 revelações sobre mim.
Agradeço-lhe a lembrança e aqui vão elas:


Eu já tive a oportunidade de falar e calei, de calar e falei. Arrependo-me da primeira.
Eu nunca fui tão feliz como agora.
Eu sei, infelizmente, o que é perder amigos.
Eu quero continuar a fazer a minha parte quando me dizem que não vale a pena, pois «não vais conseguir mudar o mundo».
Eu sonho aprender a cantar (não é novidade, pois já o revelei muitas vezes...)

25 novembro 2009

Muita actividade na Universidade do Algarve nos próximos dias:

- Amanhã, às 15h, seminário Provedores dos Media como factores de literacia dos Media.
Depois do que tenho ouvido do provedor da RDP, não posso faltar. Vou e aproveito para representar também o Helder G.:

Paquete de Oliveira, Provedor do Telespectador na RTP, Adelino Gomes, Provedor do Ouvinte na RDP e Joaquim Vieira, Provedor dos Leitores no jornal Público, vão estar na UAlg, no próximo dia 26 de Novembro, para participarem num seminário subordinado ao tema Os Provedores dos Media como factores de literacia dos Media.

O seminário, promovido no âmbito da disciplina Literacia dos Media, do 3.º Ano do Curso de Ciências da Comunicação, tem início marcado para as 15h00, no Anfiteatro 1.5 do Complexo Pedagógico, no Campus da Penha, e é aberto a toda a comunidade.

- Na sexta, de manhã, dia 27, em Gambelas, na sala 2.35 do Ed.1, exibe-se o documentário de Sofia Trincão (com a presença da própria): Praia da Lota & Praia de Montegordo. Levarei os meus alunos.

- Na mesma sexta-feira, na mesma sala da actividade anterior, mas às 14.30, teremos uma palestra (esta fui eu que organizei) sobre Direitos de Autor, com Margarida Almeida Rocha, do Gabinete para os Meios de Comunicação Social.
Vai ser excelente, tenho a certeza.
(Amanhã volto a relembrar e publico aqui os temas que irão ser abordados.)

Assim é bom ensinar e aprender.

Limpar Portugal - grupo de Olhão


Somos só 24.

Até parece que Olhão não precisa de ser limpa.
É verdade que a Câmara tem muitas pessoas a varrer a cidade, mas esta tem grandes problemas com os caixotes do lixo que não se podem tapar e com o cheiro nauseabundo que se espalha por algumas zonas.
Muitos dos problemas têm a ver com a educação das pessoas:
- não se devia deitar os sacos de lixo nos contentores aos sábados, pois apenas domingo à noite passa o carro para os recolher. No verão podem imaginar o odor...
- nas ruas por onde passa o carro do lixo para recolher os sacos, estes só deveriam ser colocados na rua depois das 21.30. Há quem os deixe à porta de casa logo de manhã. A consequência é clara: quando os cães não destroem o plástico à procura de restos, é o cheiro que se liberta , às vezes, por dois dias...
- os donos dos cães que não apanham os dejectos dos animais que levam a passear são responsáveis por muita porcaria...
- e há mais, e há mais.

23 novembro 2009

Em Altura, Hércules e os pequeninos


Fui sexta-feira à escola EB1 de Altura falar dos meus Hércules. Nunca tinha estado com meninos tão pequeninos (1º ciclo) e foi uma grande surpresa ver como já sabem tanto!
Fizeram-me muitas perguntas e parece que gostaram das respostas.
Eu gostei muito da sua curiosidade, da sua alegria, da sua participação.
Sei que a sessão foi preparada pelos professores antecipadamente e isso fez a diferença.

Muito obrigada a todos e até um dia destes!

22 novembro 2009

remédios mágicos e curas milagrosas

Excerto de O Mentiroso (ou O Incrédulo), de Luciano (séc. II d. C.), em tradução de Custódio Magueijo, Colibri, 1995.

(6.) Êucrates parecia estar melhor, e a doença agora era a do costume. De facto, o fluxo dos humores havia descido para os pés. (...)

(7.) As visitas já antes tinham falado sobre a doença, e ainda estavam a dissertar, cada um a sugerir o seu tratamento.
Diz Cleodemo: Portanto, se apanharmos do chão, com a mão esquerda, um dente de doninha morta conforme antes disse, se depois o envolvermos numa pele de leão acabado de esfolar e atarmos à volta das pernas do doente, a dor cessa imediatamente.

Diz Dinómaco:

Numa pele de leão, não, segundo ouvi dizer, mas sim numa pele de corça virgem e que ainda não teve cio. Desta maneira a coisa é mais verosímil. De facto, a corça é um animal muito veloz, que tem a sua força principal nas patas. O leão é forte, sim senhor, e a sua gordura, bem como a pata direita e os pelos eriçados da crina, poderão prestar grandes serviços, desde que saibamos utilizar cada uma dessas partes acompanhada da fórmula mágica apropriada. No entanto, serve de muito pouco na cura dos pés (...)
(8.) Aí eu disse: E vós acreditais que esses males cessam por meio de fórmulas mágicas ou aplicações externas à doença que se desenvolve no interior?

Puseram-se todos a rir das minhas palavras, sendo manifesto que me acusavam de grande ignorância, por não saber coisas tão óbvias e que ninguém de bom senso ousaria contradizer, dizendo que não é assim. (...) Vai daí, diz Cleodemo, sorrindo:

Que dizes a isto, Tiquíades? Parece-te inacreditável que se tire benefício deste tipo de remédios para as doenças?

Parece, pois - respondi - ... a menos que eu esteja tão apanhado por uma gripe ruim, que acredite que estes remédios externos, sem comunicação alguma com as causas das doenças, actuem quando acompanhados de palavras ou, como vós dizeis, de certas fórmulas encantatórias, e que esses remédios, quando em contacto com a zona doente, induzem a cura. Tal não seria possível, mesmo que atásseis dezasseis doninhas inteiras à pele do leão de Nemeia. Eu mesmo já vi muitas vezes o próprio leão coxear com dores, mesmo completamente envolvido na sua própria pele.

(9.) És muito ignorante - comentou Dinómaco -(...). Também não me parece que admitas estes factos evidentíssimos, como a expulsão das febres periódicas, o encantamento de serpentes, a cura de tumores inguinais e todas as demais maravilhas que as velhas ainda hoje operam.

Ó Dinomaco - retorqui - (...) Realmente, não está provado que essas curas que tu referes aconteçam por obra de tais poderes. Portanto, se antes, por um processo de indução racional, não me convenceres de que esses factos ocorrem segundo a ordem natural (isto é, que a febre e o edema têm medo quer dum nome divino, quer duma palavra bárbara, e que é devido a isso que o tumor inguinal abandona o corpo), considero as vossas palavras como fábulas de velhas.

(10.) Tenho a impressão - disse Dinómaco - de que, ao falares desse modo, não crês na existência dos deuses, já que não acreditas em curas operadas por palavras santas.

Não digas isso - respondi eu. Realmente, nada impede que os deuses existam, mas que esses milagres sejam falsos. Por mim, respeito os deuses e reconheço as curas que eles operam, tal como o bem que eles fazem aos doentes, restabelecendo-os por acção de medicamentos e da medicina. De facto, o próprio Esculápio e os seus filhos curavam doentes aplicando-lhes remédios suaves, e não ligando-lhes à volta do corpo coisas de leões ou doninhas.

20 novembro 2009

Sempre a aprender!

A Josefa Paias, do Restolhando, presenteou-me com este selo, há quase um mês.
O prémio diz que este blogue é VIP e perfeito para aprender qualquer coisa todos dos dias. No entanto, como ando a publicar tão pouco, não me pareceu bem colocar selos de prémios, tão imerecidos.
Ontem o Carlos também me disse que aprendia com este blogue.
Deixei, então, a modéstia de parte e aqui agradeço a todos a simpatia com que sempre me presenteiam.


(Peço desculpa, mas sou incapaz de destacar os blogues com que aprendo: são todos os que visito - por isso lá vou!)

19 novembro 2009

PROSPECÇÃO DE MERCADO - Linguística Portuguesa e Ensino de Português-Língua Estrangeira

A minha Faculdade está a fazer uma prospecção de mercado na área indicada no título deste post. O texto, que pode ser lido aqui, diz o seguinte:

AVISO – Prospecção de Mercado
(M/F)

Aceitam-se candidaturas, para uma eventual vaga em docência, de Mestres/Doutores em Linguística Portuguesa e Ensino de Português-Língua Estrangeira (PLE) Os interessados deverão enviar, até ao dia 31 de Dezembro de 2009, Curriculum Vitae e Cópia de Certificado de Habilitações para:
Secretariado de Departamentos (ao cuidado de D. Ana Paula Santos) da
Faculdade de Ciências Humanas e Sociais
Universidade do Algarve
Campus de Gambelas
8005-139 Faro

Informações adicionais: dlcafchs@ualg.pt ou apsantos@ualg.pt
Telefone – 289800015 – Fax – 289800067


Ainda vamos ser colegas!

18 novembro 2009

O homem do disco


O discóbolo de Míron... é este?


(imagem daqui)

Ou este?

(imagem daqui)

Depois de descobrir as diferenças, leia Luciano, que responde. No seu livro O Mentiroso (ou O Incrédulo), 18 (tradução de Custódio Magueijo, nas edições Colibri, em 1995), há o seguinte diálogo:

Não tens visto - disse Êucrates - , ao entrares no pátio, uma estátua magnífica dum homem de pé, obra do estatuário Demétrio?

Referes-te porventura - perguntei - ao homem do disco, curvado na atitude de quem vai executar o lançamento, com a cara virada para o lado da mão que tem o disco, e que, flectindo levemente os joelhos para o lado contrário, parece mesmo erguer-se após o lançamento?

Não - respondeu Êucrates - , não é essa. Essa, o discóbolo a que te referes, é uma das obras de Míron.

08 novembro 2009

Discurso (pouco) secreto na montanha...

... de Hermes Trimegisto ao seu filho Tat , onde enuncia os 12 tormentos que existem em nós e nos castigam:

Tat - Também tenho esses tormentos em mim, pai?
Hermes - E não são poucos, meu filho, mas muitos e temíveis.
Tat - Não os conheço, meu pai.
Hermes - Esse é um, meu filho, o desconhecimento é um tormento. O segundo é o sofrimento, o terceiro a imoderação, o quarto a luxúria, o quinto a injustiça, o sexto é a ganância, o sétimo o engano, o oitavo a inveja, o nono a fraude, o décimo a ira, o décimo primeiro a impetuosidade e o décimo segundo a maldade. São doze, pois, os tormentos. Mas por baixo destes, meu filho, há muitos outros (...)
Corpus Hermeticum, XIII, 7 (tradução minha)

02 novembro 2009

Dicas para boa vizinhança...

... é o título de uma rubrica da revista Dinheiro e Direitos (nº de Novembro/Dezembro 2009, p.37) que explica o que fazer
(...) «quando a árvore do terreno vizinho estende os braços para o seu lado. Primeiro, peça ao proprietário para cortá-los. Se recusar, envie uma carta registada com aviso de recepção. Passados três dias sem nada feito, pode eliminar as raízes ou ramos invasores. Devolva-os ao proprietário, junto com a despesa.»

Antes de haver cartas registadas e avisos de recepção, foi assim que Sólon determinou,

«com grande esperiência, os intervalos a deixar entre as plantações, ditando que quem plantasse alguma árvore no campo teria de guardar a distância de cinco pés em relação ao terreno do vizinho; sendo uma figueira ou oliveira, deixaria nove pés. Na verdade, estas árvores estendem mais longe as raízes e a sua vizinhança não é inócua a todas as plantas, pois roubam-lhes o alimento e lançam emanações que são prejudiciais a algumas delas.»
(Plutarco, Vida de Sólon, em tradução de Delfim Leão, para a Relógio d'Água, há 10 anos.)

Os antigos sabiam (quase) tudo.

25 outubro 2009

O órgão de governo da Coisa Pública


Portanto, res publica 'Coisa Pública' é a res populi 'Coisa do Povo'.
O povo não é um qualquer ajuntamento de homens congregado de qualquer maneira, mas o ajuntamento de uma multidão associada por um consenso jurídico e por uma comunidade de interesses.
E a primeira razão para se juntarem não é tanto a fraqueza quanto uma como que tendência natural dos homens para se congregarem. É que esta espécie não vive isolada e solitária (...).

Portanto, todo o povo, que é o tal ajuntamento de uma multidão, conforme referi, toda a cidade, que é a organização de um povo, toda a Coisa Pública, que, como disse, é a Coisa do Povo, devem ser regidos por um órgão de governo para serem duradouros.
Mas esse órgão de governo deve sempre reportar-se primeiramente àquela causa que originou a cidade
.
De seguida, esse órgão de governo deve ser confiado a um só, ou a um de alguns escolhidos, ou deve ser assumido pela multidão e por todos.
(...)
E qualquer destes tipos, desde que mantenha aquele vínculo que primeiro ligou os homens entre si, na sociedade de um Estado, não é perfeito em si nem, em meu entender, o melhor, mas é tolerável, e qualquer deles pode ser superior a outro.

Cícero, Tratado da República, 1.41-42.

(Tradução de Francisco de Oliveira, publicado pela Temas e Debates/Círculo de Leitores, em 2008.)

20 outubro 2009

O Maravilhosos Mundo de Mark Weinstein

(imagem daqui)

Quando «descubro» um livro ou um autor que não conhecia, encontro sempre alguém que me diz que «há séculos» os lêem e eu... fico feliz por isso.
Fico feliz por saber que aquelas páginas dão prazer a outras pessoas.
Não sei se será o caso de Mark Weinstein, mas ficarei muito contente se o puder apresentar a alguns leitores.
Esta tira pertence a uma série intitulada The Miserable World of Prometheus e está a ser publicada, além de no blogue, no jornal Athens Plus, na Grécia, onde vive o autor.
Numa entrevista, diz que ainda não existe em livro, portanto, muito menos existe tradução, deduzo...
Que pena!
Quanto a mim, fiquei fã!

15 outubro 2009

Parabéns à Universidade de Coimbra

A Universidade de Coimbra (UC) foi considerada, pelo quarto ano consecutivo, a melhor instituição de ensino superior portuguesa no "ranking" do jornal britânico "The Times".
Segundo uma nota divulgada hoje pela UC, a instituição subiu no "ranking" relativo a 2009 e, à semelhança do que se verificou no ano passado, “continua a ser a única portuguesa entre as 400 melhores universidades mundiais”
(...)

“A melhor classificação parcial obtida pela Universidade de Coimbra é, porém, na área de Artes e Humanidades, em que surge no 143.º lugar, bastante acima da única outra instituição nacional referida, a Universidade Nova de Lisboa (268.º lugar)”, adianta.

Os critérios para a elaboração do ranking publicado pelo "The Times Higher Education Supplement", bem como a tipologia das análises recolhidas, são bastante abrangentes, permitindo traçar uma perspectiva global da realidade das instituições de ensino superior no mundo. São tidos em conta a qualidade da investigação, a empregabilidade dos graduados, a internacionalização das instituições e a qualidade pedagógica dos cursos.

A classificação é obtida através da ponderação de cinco critérios: avaliação pelos pares, avaliação por empregadores, artigos científicos citados, rácio docentes/estudantes e internacionalização, adianta a nota da UC.

Ler a notícia toda aqui.

13 outubro 2009

É no que dá a busca da perfeição

(imagem daqui)

Porque desejando um certo pintor representar a beleza suprema, mandou reunir as mulheres bonitas que havia na região e, imitando de cada uma as partes mais belas, de uma os olhos, de outra o nariz, de outra as sobrancelhas e de cada uma um aspecto (pois não era possível que todas fossem bonitas em tudo), conseguiu realizar uma figura perfeita.

Dionísio de Halicarnasso, Tratado da Imitação, Livro Segundo,VIa
Edição e tradução de R.M. Rosado Fernandes.

09 outubro 2009

Vote CBS!

Isto é um apelo ao voto.

Vote em David Mares!


Vote no CBS: Cork Block Shelter!

Veja o abrigo construído em cortiça com o qual o português (de Setúbal) David Mares conseguiu ser seleccionado como um dos 10 finalistas (em 600) do Shelter Competition, concurso internacional de Design promovido pelo Museu Guggenheim de Nova Iorque.

Gosta?
Vote!

08 outubro 2009

Mimese - Era bom que fosse assim...

Conta-se que um camponês, feio de aspecto, tinha receio de se tornar pai de filhos semelhantes a ele. O mesmo medo, porém, ensinou-lhe a arte de ter filhos bonitos. Juntou imagens belas e habituou a mulher a contemplá-las. Depois, quando a ela se uniu, conseguiu gerar a beleza das imagens.
Da mesma forma, com as imitações dos discursos se gera a similitude, sempre que alguém procura rivalizar com o que parece haver de melhor em cada um dos antigos e, como que reunindo de várias nascentes um só caudal, o canaliza para a sua mente.

Dionísio de Halicarnasso, Tratado da Imitação, Livro Segundo, VI.1.
Edição e tradução de R.M. Rosado Fernandes para o INIC, decorria o ano de 1986.

06 outubro 2009

Falar estrangeiro

No meio das memórias que as arrumações trazem, lembrando os meus professores de Literatura Latina:
«Por que razão o historiador romano Fábio Pictor escrevia em grego?»
Para ser lido pelos gregos, claro.
Fábio Pictor narrava os feitos de Roma, culpava Aníbal pela Segunda Guerra Púnica e tudo isto em grego.
O mundo civilizado era grego.
Horácio bem o disse, mais tarde:

Para quem escreveria um romano em latim, a explicar os porquês das suas invasões e desejos de domínio de tudo quanto era economia florescente e próspera?

Não seria para os outros romanos, que esses não precisavam de ouvir razões (muito menos ler, que era saber de poucos).
A história escrita em grego era uma maneira de dar explicações a quem, apesar de tudo, se respeitava ou, provavelmente, se invejava a grandeza.
Será daí que veio a nossa predisposição para falar «estrangeiro» na nossa terra?

20 setembro 2009

Pelo que diz Sócrates, somos todos sensatos...

Ora o maior dos castigos é ser governado por quem é pior do que nós, se não quisermos governar nós mesmos.
É com receio disto, me parece, que os bons ocupam as magistraturas, quando governam; e então vão para o poder, não como quem vai tomar conta de qualquer benefício, nem para com ele gozar, mas como quem vai para uma necessidade, sem ter pessoas melhores do que eles, nem mesmo iguais, para quem possam relegá-lo.
Efectivamente, arriscar-nos-íamos, se houvesse um Estado de homens de bem, a que houvesse competições para não governar, como agora as há para alcançar o poder, e tornar-se-ia então evidente que o verdadeiro chefe não nasceu para velar pela sua conveniência, mas pela dos seus súbditos. De tal maneira que todo aquele que fosse sensato preferiria receber benefícios de outrem a ter o trabalho de ajudar ele os outros.


Platão, República 347c-d.
Sempre esta tradução.

19 setembro 2009

PIDE/DGS

(imagem daqui)

Há pouco apanhei um susto.
Recebo uma mensagem e vejo DGS. DGS?
PIDE/DGS? Ainda há isso?


Tinha 7 anos no 25 de Abril, mas a parte anti-fascista da minha família encarregou-se de nos (a mim e aos meus irmãos) comprar uns livros (não sei onde isso andará. Talvez pelo sótão da casa dos meus pais) com uns desenhos (não eram bem banda-desenhada, mas andavam lá perto) em que se viam mulheres a ser torturadas com pontas de cigarros que uns homens usavam para lhes queimarem os mamilos.

Era a DGS a tratar-lhes da saúde.

Ora quando hoje a DGS me mandou uma mensagem, quase gelei.

Era sobre a gripe. Para eu redobrar os cuidados de higiene e evitar contagiar outros.
Não vou desobedecer.

Nestas alturas percebemos o quanto certas situações (frases, atitudes) nos marcaram. Nunca mais me tinha lembrado das torturas que vi naqueles desenhos a preto e branco e tão claramente os revejo agora por causa de um sms da Direcção Geral de Saúde.

17 setembro 2009

Democracia, há 2500 anos

Isonomia - igualdade de direitos
Isegoria - igualdade de falar, de dizer a sua opinião - liberdade de expressão.
Isocracia - igualdade no poder

«Os Atenienses gabavam-se de possuir isonomia, isegoria, isocracia - igualdade de que apenas os cidadãos eram detentores.»

Apesar de apenas entre 10% e 15% serem considerados cidadãos atenienses, as três categorias legais da sociedade (cidadãos, metecos e escravos) «não correspondiam a classes sociais nem eram estanques; os elementos podiam passar de uma a outra».
E em relação à democracia, como reagiam? Uniam-se, para a defender, como se pode ver em 404/403, quando lutaram ao lado dos democratas, para tentar impedir a vitória daquele que ficou conhecido como o Governo dos Trinta Tiranos.

(As aspas são citações de José Ribeiro Ferreira, do seu livro Democracia na Grécia Antiga, editado em Coimbra pela Livraria Minerva, decorria o ano de 1990).

15 setembro 2009

Ai... Sow dad

(foto daqui)

Numas (poucas) aulas que dei este verão de cultura portuguesa no curso de PLE que a minha faculdade oferece em Agosto, falámos (tinha de ser) da saudade. Como eram alunos de um nível avançado, foram eles que trouxeram o tópico para a conversa e todos concordámos que a saudade não é um exclusivo dos portugueses (pelo que se pode ler nesta comovente história, nem dos humanos).
Numa das aulas, um aluno do curso, um senhor britânico, com um excelente humor, radicado em Portugal há mais de 25 anos, deu-me uma folha com o seguinte, dizendo algo como «estas foram as palavras de que me lembrei. Nós também temos saudade». É com a sua autorização que as publico aqui no blogue:

SOW DAD
(Father of a female pig)

Yearning
Nostalgia
Longing
Melancholy
Atrabilliousness

13 setembro 2009

Escolaridade obrigatória ao 12º ano: "uma boa dose de candura"

René Magritte
(imagem daqui)


Isto não é um comentário à decisão de aumentar a escolaridade obrigatória até aos 18 anos nem à afirmação de que "todos devem passar pela escola" (diferente de a escola deve passar todos, entenda-se).

Além do propósito de dar a toda a gente tanta educação quanto possível, posto que a educação, em si, é desejável, existem outros motivos que afectam a legislação educativa, os quais podem ser de elogiar, sem falar nos que, muito simplesmente, se limitam a reconhecer o inevitável e só mencionamos como lembrança da complexidade do sistema educativo. Um dos motivos, por exemplo, para elevar o limite de idade da escolaridade obrigatória é o louvável desejo de proteger o adolescente e de o fortalecer contra as mais degradantes influências a que se expõe ao entrar no mundo do trabalho. Esse motivo exige de nós uma boa dose de candura. Na verdade, em vez de afirmar que toda a gente beneficiará com mais anos de ensino, o que é duvidoso, devíamos confessar que as condições de vida na moderna sociedade industrial são tão lamentáveis e as restrições morais tão débeis que devemos prolongar a educação da juventude só por não termos a menor ideia do que fazer para a salvar. Em vez de nos felicitarmos pelo nosso progresso, sempre que a escola assume mais uma responsabilidade que até então pertencera aos pais, faríamos melhor se confessássemos que chegámos a uma fase da civilização na qual a família é irresponsável, ou incompetente, ou indefesa, e em que não podemos esperar que os pais formem os filhos adequadamente (...).

T.S. Eliot,
Notas para uma Definição de Cultura, Lisboa, Século XXI, 1996
.
Publicado pela primeira vez em 1948, confirmado pelo autor em 1961.

12 setembro 2009

Sim, sou eu

Sim, esclareço a todos os que perguntaram (já vi que há muita gente a ler a revista e os suplementos): sou eu a Adriana Nogueira que é citada no Caderno Especial que a Visão publicou esta semana («Formação em Linha», p. 20-23).

11 setembro 2009

De papoilas, Ó Noite, é que eu precisava!

Night and Sleep, de Evelyn de Morgan.
(Imagem daqui)


Ou que o galo da vizinha cantasse mais tarde.


No 3º aniversário deste blogue, deixo-vos com O Sono.
Uma belíssima tradução de Domingos Lucas Dias, editada pela Vega, das Metamorfoses, de Ovídio (em dois volumes, bilingue).

No país dos Cimérios há uma caverna profunda, oca
montanha, morada e santuário do ocioso Sono, onde Febo
nunca pode chegar com seus raios, nem ao nascer,
nem a meio de seu curso, nem quando se põe.
(...)
Não há ruído de animais selvagens, nem de rebanhos,
nem de ramos agitados pelo vento, nem da altercação da voz
humana. Reina a muda quietude. Da raiz da rocha, contudo,
brota um ribeiro de água do Letes que, correndo murmurante
em leito de seixos rumorejantes, convida ao sono.

Frente à entrada da caverna, crescem incontáveis ervas
e a fecunda papoila de cuja seiva a Noite colhe um narcótico
que, com a sua humidade, espalha sobre a terra escura.

Para não ranger, ao rodar no gonzo, não há porta nenhuma
na casa toda, nenhum guarda à entrada. Mas, a meio
da caverna, ergue-se um leito de ébano, colchão de penas,
cor preta, coberto de negra colcha, onde o mesmo deus
se deita, dissolvido na preguiça. Em volta dele, ao acaso,
imitando formas várias, deitam-se tantos quiméricos
sonhos como espigas tem a messe, folhas tem a floresta
e grãos de areia tem a praia.

(Livro XI, vv. 592-614)

09 setembro 2009

Ainda Horácio


Como se pode ver, o meu frigorífico é muito intelectual. Deu-lhe para Horácio.
Nesta ode (I, 37), o poeta exorta à comemoração da morte de Cleópatra, que fez frente a Octaviano (e perdeu), em 31 a.C.

Bebamos agora, amigos, é nosso dever:
dancemos agora com pé ligeiro, é tempo
de abastar o luxuoso leito dos deuses
de sálios banquetes.

Até agora, os deuses proibiam-nos de retirar
o Cécubo da velha adega: uma rainha preparava
a louca ruína do Capitólio
e as exéquias do nosso poder,

com a ajuda de uma contaminada súcia de homens
depravados até à doença; descontrolada tudo esperava,
ébria de uma fortuna amiga.
Porém, um só navio

do fogo a custo fugiu, sua demente fúria acalmando:
seu plano, louco e imerso em vinhos mareóticos,
César reduziu a reais temores,
quando ela, como se voasse,

de Itália fugiu, e ele, tal como o falcão caça
as dóceis pombas, ou pelos nivosos campos da Hemónia
o veloz caçador atrás da lebre corre,
para pôr correntes nesse fatal portento

à força dos remos de perto a perseguiu. Ela, procurando morrer
com maior nobreza, nem receou com mulíebre medo
o punhal, nem tentou com sua veloz armada
uma recessa costa alcançar,

antes teve a bravura de ver com sereno gesto
seu palácio desmoronar-se, e corajosa pegar com as mãos
em ferozes serpentes, para assim negro o veneno
penetrasse no seu corpo:

decidindo-se pela morte mais intrépida se tornou,
recusando-se certamente, mulher altiva, a ser levada,
já não mais rainha, pelos cruéis barcos liburnos
a um soberbo triunfo.

(a tradução é de Pedro Braga Falcão, referida aqui)

08 setembro 2009

Cartão vermelho


A Martinha brindou-me com esta corrente:
"Cada um deve fazer uma listinha com 10 escolhidos para dar o cartão vermelho. Pode ser uma pessoa, uma atitude, enfim, tudo aquilo que de alguma forma nos incomoda, se quiser e precisar, dê uma justificativa breve. Após fazer isso, passe a bola para mais cinco blogueiros e vamos ver no que dá...".

Cá estão os 10 cartões vermelhos:

- cartão vermelho à desconsideração
- cartão vermelho ao desrespeito
- cartão vermelho ao egoísmo
- cartão vermelho à estupidez
- cartão vermelho à humilhação
- cartão vermelho à ignorância
- cartão vermelho à intolerância
- cartão vermelho à preguiça
-
cartão vermelho à prepotência
- cartão vermelho à violência

Mesmo sabendo que alguns não gostam de correntes, mas porque acredito que não possuem aquelas características nem se dedicam a nenhuma daquelas actividades, passo a:

- Xiclista
- Once
- Redonda
- Leonor
- Gi

07 setembro 2009

O verdadeiro «carpe diem»

Há uns anos comprei este íman na loja do Museu Britânico, em Londres.
Hoje, directamente da porta do meu frigorífico, passando pela Livraria Pátio de Letras onde comprei as Odes de Horácio, da Cotovia, em tradução de Pedro Braga Falcão (Oh, deuses! Andei com os pais dele na faculdade!), aqui vos deixo a ode 11 do livro 1, o verdadeiro «carpe diem» (se bem que este outro fosse mais antigo...):

Tu não perguntes (é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

05 setembro 2009

A mulher lenta

(foto do meu braço direito ontem de manhã)

O título deste post ainda pode levar a pensar que me cortaram alguma coisa, como à personagem do livro de J. M. Coetzee, onde me inspirei, mas não.
Torci o pulso e talvez tenha uma pequena fractura, mas disseram-me que numa semana fico boa.
Consigo escrever com dois dedos da mão esquerda.
Não, não, a esquerda não tem nada, eu é que só sei escrever com dois dedos (se bem que o meu normal seja usar quatro, com uma bela velocidade).

E tudo o que faço agora é muito mais lento.
Não deixa de ser uma aprendizagem, como me disse ontem uma querida amiga.
Desacelerei.

03 setembro 2009

Ficar de olho...

O gentil Carlos Barbosa de Oliveira, do Crónicas do Rochedo, ofereceu-me um simpático prémio há quase um mês e só agora agradeço. Peço desculpa pelo atraso com que me manifesto, mas o agradecimento há muito que aqui mora. «Vale a pena ficar de olho nesse blog» é o nome do prémio e tenho de o atribuir a 10 convivas deste espaço.
Quem já andou por estas correntes sabe quão injustas se tornam estas escolhas, mas como aceitei o desafio, vale a pena ficar de olho nestes blogues:

Restolhando
fio de prumo
Pátio de Letras
Black Box Syndicate
Ponteiros Parados
As coisas são como são
Floresta do Sul
Meditação na pastelaria
Livro de Estilo
A dignidade da diferença



02 setembro 2009

José Carlos Fernandes

(foto tirada daqui)
Gosto muito de José Carlos Fernandes.
Já o tinha dito aqui.
Gosto muito do que desenha e quase ainda mais do que escreve. Talvez porque muitas das suas referências remetam para autores que aprecio.

01 setembro 2009

«a ver se adiantamos alguma coisa»

(tirei a imagem daqui)

Simbolicamente, recomeço a escrever no blogue no primeiro dia de Setembro. Os professores contam os anos de um modo diferente (de Setembro a Agosto) e esta é uma data sempre importante.
Tenho andado a preparar o ano lectivo que está a começar, à roda com objectivos e competências, descritivos de unidades curriculares e preocupada em como organizar as aulas de tutoria. A adaptação ao modelo de Bolonha, para fazer sentido, tem de dar, efectivamente, mais autonomia aos alunos, mas as tutorias terão de ser algo mais do que outra aula normal ou, o que é pior, uma aula inexistente.
No início de cada ano lectivo faço votos para ter alunos que gostem de aprender e que, como diz o Sócrates de Platão (n' A República 346a), não respondam contra a sua opinião real, «a ver se adiantamos alguma coisa».

15 agosto 2009

Lisboa, em 2002

Ao fazer umas arrumações, num saco cheio de partituras musicais (veja-se por aí há quanto tempo não toco!) encontrei um álbum de fotografias enviado por uns amigos franceses, depois de umas férias por cá.
Dedico estas memórias ao meu amigo Zé Karolus!

05 agosto 2009

Emigrar?

Nunca pensei em emigrar.
Viver uns tempos noutro país, sim, pois é uma experiência enriquecedora, mas sair para sempre não.
Tinha na memória uma prancha do Quino, que finalmente encontrei e que aqui deixo digitalizada.

Quino, Condições Humanas, Publicações Dom Quixote, col. Humor com humor se paga, nº 36
(clicar na imagem para aumentar)

03 agosto 2009

Esses caminhos não são meus

(imagem daqui)

ORESTES:
Sou livre, Electra; a liberdade abateu-se sobre mim como um raio.

(...)
Pratiquei o meu acto, Electra, e este acto era bom. Levá-lo-ei aos ombros; como um barqueiro leva os viandantes, fá-lo-ei passar para a outra margem e prestarei contas dele. E quanto mais difícil for de levar, mais contente ficarei, pois é ele a minha liberdade.
Ainda ontem eu andava ao acaso sobre a terra, com milhares de caminhos a fugirem-me sob os passos por pertencerem a outros. Todos eles palmilhei, tanto o dos sirgadores, ao longo dos rios, como o atalho do almocreve e a estrada calcetada dos condutores de carros; nenhum porém me pertencia.
Mas hoje já não há senão um, que é o meu caminho.

(Jean-Paul Sartre, As Moscas, Ed. Presença, 2ª ed, 1965, p. 134-135).

30 julho 2009

VI Curso Livre de História do Algarve


Hoje, às 17.30, irei fazer uma palestra intitulada «O Algarve como recurso estilístico».
Sendo eu de literatura (sou licenciada em LLC - Estudos Clássicos e Portugueses), profissionalmente nunca explorei muito a literatura portuguesa (as minhas preferências e o meu tempo vão mais a grega e a latina), mas preparar esta apresentação deu-me muito prazer. Foi uma espécie de reencontro.

Espero que os presentes sintam um pouco desta alegria!

28 julho 2009

Ouvir o povo...

Não sei porquê, mas nas maiorias absolutas o Poder tem tendência a não ouvir o seu Povo. Essa atitude, mostra o saber dos Antigos, só traz desgraças a todos.

(...)

Hémon – Não é isso que afirma o povo unido de Tebas.

Creonte – E a cidade é que vai prescrever-me o que devo ordenar?

Hémon – Vês, falas como se fosses uma criança.

Creonte – É portanto a outro, e não a mim, que compete governar este país?

Hémon – Não há Estado algum que seja pertença de um só homem.

Creonte – Acaso não se deve entender que o Estado é de quem manda?

Hémon – Mandarias muito bem sozinho numa terra que fosse deserta.

(Sófocles, Antígona, vv. 733-739. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira)

26 julho 2009

De um amigo da Tamino...

(última foto da Tamino, de 25 de Junho)
... amor da sua dona.

IN MEMORIAM DA TAMINO

A Tamino era uma gata amável e terna, não fugindo de ser dura e corajosa quando entendia tal ser necessário. E isso acontecia, por exemplo, sempre que via o seu companheiro Mimi em dificuldades e a precisar de ajuda.

A sua doçura revelava-se, no entanto, quando subia ao colo; momentos esses em que sabia ser extraordinariamente leve e delicada... excepto quando se espreguiçava e as suas unhas se esticavam mais do que seria desejável...

Não se pense que, por ser leve, fosse mole. Nada disso! Na verdade, possuía uma agilidade notável, conseguindo atingir alturas nos seus saltos que deixavam toda a gente admirada. Para ela não havia lugares inatingíveis... nem que tivesse de pular dos ombros de alguém!

Amava a liberdade sem concessões e dificilmente a trocava por qualquer chamamento, mesmo que acompanhado por súplicas. A sua única fraqueza (e não são fraquezas inofensivas como esta que nos tornam mais humanos?) eram as latinhas de comida que a sua dona usava, batendo com um garfo, para a atrair. Mas, mesmo aí, quando suspeitava de ter sido enganada (só suspeita porque, naturalmente, a dona dava-lhe sempre a comida desejada), não perdia nem a sua imensa dignidade, nem a sua compostura plena de nobreza.

É que, para concluir, a Tamino sabia, com supremas inteligência e sensibilidade, ser gata e ser gatinha em toda e qualquer situação.

A sua partida é lamentada.

Não será esquecida.

25 julho 2009

Transmissão directa do Reboliço

(Obrigada, Ana!)

Do céu dos gatos (transmissão directa para a Xantipa)

- Olá. És a Carolina?
- Sou, sim. E tu és quem?
- Sou a Tamino. Cheguei há uns dias e não conheço ninguém. Lá em baixo disseram-me que talvez te encontrasse aqui. Posso ficar contigo?
- Acho que podes. Nunca tenho grande companhia.
- O que é que fazes para passar o tempo? Há ratos para perseguir?
- Não...
- Então este céu não é só para gatos?
- Não, Tamino: aqui é tudo igual a lá em baixo. Gente e bichos tudo misturado. E já assim às vezes é um tédio - imagina se não houvesse alguns seres diferentes de nós!
- Hum... então e o sol para nos estendermos a ele?
- Nada. Nem sol nem lua. É o infinito absoluto. Lembras-te quando lá em baixo ouvias as pessoas dizerem para não se pensar em nada?
- Lembro-me; fazia-me uma confusão...
- Olha, o nada é isto.
- Mas, e as latinhas de comida, quem é que as traz? E as bogas cozidas com as espinhas todas?
- Nada, Tamino. Daqui a algum tempo já nem te lembrarás disso. Agora ouço-te a dizer essas palavras e tenho uma ideia muito vaga de que já houve algum lugar onde faziam sentido.
- É muito estranho. E não dá medo?
- Estás a sentir medo?
- Não. Estou descansada. E desapareceram-me as dores.
- Ora bem; deixa-te estar. Podes ficar aqui ao meu lado. E, se quiseres, depois iremos saltar nuvens. Isso é que é!...