27 setembro 2007

«Disfarçar os defeitos»

A Arte de Amar, de Ovídio, está dividida em três livros, sendo os dois primeiros «dirigidos aos homens e o terceiro às mulheres. O primeiro visa, genericamente, ensinar o homem a seduzir a mulher; o segundo, a conservar o amor, depois de concluído, com êxito, o processo de sedução; o terceiro engloba o mesmo conjunto de ensinamentos, mas, desta feita, dirigidos à mulher.», diz Carlos André, autor da tradução publicada pela Cotovia.
Segue-se um excerto do livro III:

«Rara é a beleza que está livre de defeito; disfarça os defeitos
e, tanto quanto puderes, esconde as mazelas do teu corpo.
Se és pequena, senta-te, para, de pé, não pareceres sentada,
e estende-te, por pequena que sejas, no teu leito;
mesmo aí, para não poderem tirar-te a medida, quando estendida,
esconde os pés, lançando-lhes por cima o manto;
a que é delgada demais, vista roupa de pano grosso
e faça cair dos ombros um manto largueirão;
a que tem uma cor desmaiada traga no corpo riscados de púrpura;
se és morena em demasia, parte em busca da ajuda de tecidos de Faros;
o pé chato deve ficar sempre resguardado dentro de sapato branco e fino,
e pernas descarnadas não devem andar sem correias;
ficam bem pequenos chumaços em ombros altos;
à volta do peito raso deve sempre passar um corpete.
Deve acompanhar de gestos curtos tudo quanto disser aquela
que possui dedos gordos e unhas sujas;
a que tem mau hálito nunca fale em jejum
e guarde senpre distância do rosto do seu homem;
se tens dentes negros ou grandes ou tortos,
enorme é o teu prejuízo quando te rires.»
(261-280)

26 setembro 2007

Mais e mais!



Como eu confessei que gostava de flores, o meu amigo Oppugnatore enviou-me estas duas.
Obrigada!

25 setembro 2007

Uma flor para mim!

O meu amigo Xiclista tirou esta linda foto e deixou-me publicá-la aqui! Estou a ser tão mimada! Obrigada!

24 setembro 2007

Contra-senso (2)

Ao fugir do inimigo, Fânio matou-se a si próprio.
Isto, pergunto eu, não é uma loucura: para não morrer, morrer?

Marcial, Epigramas, Livro II, 80.
Tradução de José Luís Brandão para as Edições 70, em 2000, com introdução e notas de Cristina de Sousa Pimentel.

22 setembro 2007

Conselhos de Ovídio aos homens

Muitas vezes começa, porém, o fingidor a amar de verdade;

muitas vezes, aquilo que, no começo, simulara ser, veio a sê-lo mesmo.

Mais ainda por isso, ó mulheres, tornai-vos fáceis àqueles que fingem!

Há-de transformar-se em amor autêntico o que era, ainda agora, simulação.

É, então, hora de cativar o coração, sorrateiramente, com palavras meigas,

tal como a água corrente galga a ladeira da margem;

Não hesites em louvar-lhe o rosto, os cabelos

e os dedos esguios do pé delicado;

dá deleite, mesmo às mais castas, o pregão da sua beleza;

as donzelas cuidam da figura e ela dá-lhe prazer.

20 setembro 2007

Viciada? Eu?

Para os injustos e incompreensivos acusadores sem razão...
Vejam! Vejam como, afinal, não sou assim tãaaaao viciada!


51%How Addicted to Blogging Are You?


(Obrigada, André.)

Mais flores!



A querida Sobe e Desce ofereceu-me tão simpaticamente estas flores, com a indicação de que eram das primeiras que tinha tirado. Lá no seu blogue tem muitas fotografias!

Muito obrigada!

19 setembro 2007

Adoro flores!

E o meu amigo Carneiro ofereceu-me esta! Só para mim!
Este Xiclista passou as férias a andar de bicicleta! Vejam só o percurso que fez!

18 setembro 2007

Assim, é fácil aprender Latim!

Está livre às sextas-feiras, das 9.30 às 12.30?

Pode estar nesse dia e a essas horas na Universidade do Algarve?

Inscreva-se no Curso Livre de Latim Elementar!

E se não quiser certificado nem que a disciplina entre no seu curriculum, nem tem de pagar nada!

Esta disciplina está pensada para ser frequentada por qualquer pessoa interessada em conhecer como funciona a língua latina. Pretende ser uma unidade que não pressupõe necessariamente uma continuação, mas que fornecerá ferramentas para quem o quiser fazer.

Assim, iremos partir precisamente da etimologia de palavras que todos conhecemos para explicar a morfologia e a sintaxe da língua.

Serão focados aspectos culturais associados à vida quotidiana, principalmente a casa e a família, dado que se pretende fazer visitas a sítios arqueológicos que contenham «villae» (ruínas romanas de Milreu e de Cerro da Vila, p. ex.) e a espaços que possam ajudar a compreender o dia-a-dia dos romanos (Lapidário do Museu Municipal de Faro, p. ex.).

O recurso à música será um complemento, facultando o conhecimento de um latim ainda mais próximo de nós (ex.: Composições de Rodrigo Leão, de Carl Orff (Carmina Burana), de Mozart (Requiem), de Vivaldi (Stabat Mater).

Os textos analisados serão originais, recorrendo quer a autores clássicos, como Plínio ou Ovídio, quer a textos decorrentes da vida de todos os dias, como grafitti, quer a textos bíblicos de conhecimento geral, por fazerem parte da cultura judaico-cristã.

Assim, é fácil aprender Latim!

Nota: pode-se organizar um «fim-de-semana clássico», com uma visita a Mérida ou a Conímbriga.

17 setembro 2007

Harrius Potter

Admito, pronto! Admito!
Ando a ler o último livro do Harrius Potter. À falta deste em versão latina, deixo um bocadinho do primeiro volume:

'an videtis?' inquit Hermione cum Harris et Ronaldus id perlegissent. 'non dubitum est quin canis Lapidem Philosophi Flameli custodiat! sponsionem faciam eum Dumbledorem rogavisse ut Lapidem sibi conservaret, quod sunt amici et ille sciebat aliquem eum appetere. ea est causa cur vellet Lapidem ab argentaria Gringotts removeri!'
(Vertido para latim por Peter Needhan)

16 setembro 2007

Diálogo sobre o livre arbítrio

Caro Réprobo,

Apesar de não fazer parte da corrente, não resisti a brincar à bibliomancia. E, para contrariar a minha tendência senequiana, abri este livro de Santo Agostinho e li, na 5ª frase (uma ligeira batota: considerei como primeira a frase que se iniciava na página anterior e terminava nesta) da página 161:

De facto, não é de crer que eles saibam que não é pelos ouvidos que captam a luz, nem pelos olhos que escutam as vozes, porque estas realidades só se discernem por uma atenção racional e pelo pensamento.

(Usei a edição da INCM, em edição bilingue de Paula Oliveira e Silva.)

15 setembro 2007

Ainda (e finalmente) sobre a Lisístrata

(nós, os que fomos ao teatro)


Iniciei este postal há uns tempos... um mês... mas, como prometi e já me foi pedido, aqui vão algumas reflexões sobre a Lisístrata que vi em Mérida.
A peça que fomos ver era de Manuel Martínez Mediero (autor de Férias Grandes com Salazar, que esteve recentemente em cartaz no D. MariaII) e não de Aristófanes, em versão de daquele autor espanhol, como eu pensava. Mas o erro foi completamente meu, que não me documentei antes de ir (glup!).
Mas, a verdade é que gostei. Gosto, normalmente, destes usos contemporâneos dos temas clássicos. Já Aristóteles dizia, na Poética (apesar de ser sobre a tragédia, aplica-se à comédia):

Pelo exposto se torna óbvio que a função do poeta não é contar o que aconteceu mas aquilo que poderia acontecer, o que é possível, de acordo com o princípio da verosimilhança e da necessidade.
(1451a37)
não é de todo necessário cingirem-se a histórias (mitos, traduz o Eudoro de Sousa) tradicionais sobre que versam, geralmente as tragédias. Preocuparem-se com isso seria ridículo, pois mesmo as histórias conhecidas são conhecidas por poucas pessoas (já na altura...) e, no entanto, agradam igualmente a todos. De tudo isto resulta evidente que o poeta deve ser um construtor de enredos mais do que de versos, uma vez que é poeta devido à imitação e imita acções. (1451b27)

A cena passa-se em Esparta e não em Atenas. A heroína é rainha desta cidade e é ela quem encabeça a luta pelos direitos das mulheres, que pretendem a igualdade entre sexos e não uma superioridade em relação aos homens. No final é estrangulada pelo marido. Bem diferente da versão de Aristófanes.

A discussão entre ultrapassou este aspecto: encenação. Numa das muitas conversas que tivemos (nós, os que fomos ao teatro), havia quem defendesse que a peça não se devia chamar apenas Lisístrata. Que devia ser outra coisa... ter um subtítulo, por exemplo. Ora, sendo dois dos companheiros de viagem actores/encenadores/ professores, foi difícil argumentar com as suas críticas (a da Ana O. pode ser lida aqui).A mim não me incomoda que seja só assim. A Antígona, de Jean Anouille, não tem subtítulo. Nem a Fedra, de Racine. Aliás, acho que o nome é importante e aquilo que o que for escolhido invoca é que que faz a diferença. Aristófanes deixou um legado com esta comédia: de uma qualquer Lisístrata, ateniense ou espartana, espera-se liderança, luta femininae, principalmente, greve de sexo (curiosamente, esta notícia publicada aqui faz hoje um ano) .E é isso que Martínez Mediero nos dá nesta peça.
Quanto à encenação, disse-se que houve pouco aproveitamento do espaço, que o encenar não tirou partido dos recursos que as ruínas do teatro romano lhe davam. Nesse ponto concordo.
Quanto às brejeirices aqui e acolá, aos trajeitos efeminados de determinada personagem, à forma desajeitada com que alguns do muitos (muitos!) figurantes se moviam em cena, confesso que me divertiram. Nas comédias de Aristófanes havia tudo isto! E, tal como não percebi imediatamente por que riam as pessoas de umas coisas ou aplaudiam com entusiasmo outras, tendo vindo a saber que as personagens principais eram interpretadas por actores conhecidos do grande público, por causa da televisão, também imagino que quem assistisse a Os Cavaleiros e não conhecesse a obra de ou não soubesse que se gozava com Eurípides por se dizer que a mãe era hortaliceira, não ia perceber a referência ao cerefólio:
2º escravo: 'Fuarça'?!... Isso não é para mim. Ora... como é que eu hei-de dizer a coisa de uma maneira habilidosa, à Eurípides? Porque não me dizes tu aquilo que eu tenho de dizer? (frase do Hipólito, de Eurípides)
1º escravo: Ah, não! Cerefólios para cima de mim, não!
Aliás, nem iria perceber a piada do nome dos escravos, Cléon, Demóstenes e Nícias, que remetem para políticos bem conhecidos de todos.
Dizem os entendidos que o festival de Mérida já não é o que era. E eu acredito. Mas como nunca lá tinha ido, diverti-me imenso*! É sempre uma emoção estar sentada em locais como aquele... emocionei-me tanto no Epidauro... e não assisti a nenhuma peça. Acho que iria adorar, mesmo que fosse em grego moderno, com péssimos actores!
Voltamos para o ano?
*Pronto. Admito. Deu-me o sono e dormi um bocadinho... mas o texto era em espanhol coloquial... e já me tinha passado a emoção de estar naquele espaço... e quem me conhece sabe que tenho dificuldades em me manter acordada depois de uma certa (que nunca sei qual é) hora...

11 setembro 2007

1 ano de Blogue


(À falta de melhor, fica aqui uma foto do meu aniversário deste ano, com velas e tudo!)
Faz hoje um ano que publiquei o meu 1º post.

....................
Que hei-de dizer mais?
Ahã? Se a blogosfera mudou a minha vida?
Claro! Se não mudasse é que era triste. Tudo o que fazemos muda sempre alguma coisa na nossa vida... «se a alma não é pequena», claro.
E estes novos amigos, estes espaços que visito e onde leio tanta coisa interessante, têm-me feito um bem imenso.
A todos os que aqui vieram durante este ano, muito obrigada pela vossa amizade e pelo vosso estímulo!
Beijinhos!

P.S. Só publico hoje este postal, porque estive sem net uns dias...

05 setembro 2007

A minha avó Stella...

... faria hoje 105 anos, se fosse viva.
Foi, talvez, a pessoa mais marcante na minha formação como mulher.
Quando a minha irmã se casou, pensei que ia ficar com o quarto só para mim, mas a avó mudou-se e, dos meus 10 aos 19 (quando morreu), partilhámos o espaço, os sentimentos, as conversas, as leituras... A ela devo ter começado a ler Eça de Queiroz, Júlio Diniz, Erico Veríssimo, entre outros, nas longas férias de Verão dos meus 10, 11 e 12 anos. Ajudou-me a esconder «O Crime do Padre Amaro» do meu pai. E sabia que nessa altura eu lia Zola e Balzac (sem preceber metade daquelas relações), ajudando-me e explicando-me muitas coisas.
Inteligente, culta, bonita, elegante (qualquer trapinho lhe ficava bem) e muito prendada. E não era só o piano e o francês. A minha avó sabia cozinhar na perfeição e era ela que fazia os meus pijamas (gostava de calção e top de alças, modelo que não havia para crianças).
E estava sempre a cantar pela casa toda, com uma voz linda.
Cantava músicas da sua terra e ensinava-mas.
Eu, pequenina e gorducha, lá ia desafinando, baboleando-me e acompanhando a letra com os gestos que ela me ensinava, fazendo rir as visitas da casa:

«Chiquita bacana lá da Martininica
Se veste com uma casca de banana nanica»

Sempre que não sei o que fazer, sempre que me falta um conselho adulto (sim, porque muitas vezes sinto-me pequenina, deitada na cama, à espera que me venha ajeitar os lençóis e me dê seus beijinhos coloridos, tal como os sonhos: beijinhos cor-de-rosa na cara, azuis na testa, verdes no nariz...), é nela que penso.

Tenho saudades da minha avó!

03 setembro 2007

Afinal, eles também usam este «recurso»...

(foto de Jim Richey, tirada daqui)


Também as lágrimas são úteis; com lágrimas, comoverás diamantes;
faz, se conseguires, que ela veja o teu rosto banhado de pranto;
se as lágrimas não aparecerem, pois nem sempre surgem no tempo certo,
esfrega os olhos com as mãos molhadas.

Ovídio, Arte de Amar, I, 657-660
Tradução de Carlos Ascenso André

01 setembro 2007

receita romana: doce caseiro de tâmaras

(imagem daqui)
Recheie tâmaras descaroçadas (pequenas ou normais) com nozes, pinhões ou pimenta moída. Salpique-as por fora com sal, frite em mel cozido e sirva.
(O Livro de Cozinha de Apício, 7,11, 1; 296)

Inês de Ornellas e Castro, autora desta tradução (ver aqui), actualizou a receita:

24 tâmaras grandes
15 nozes
30 g de pinhões
sal q.b.
mel q.b.
manteiga q.b.
Retire o caroço às tâmaras. Moa as nozes e os pinhões e recheie as tâmaras. Salpique com sal fino. Unte um tabuleiro de barro com manteiga, disponha as tâmaras e regue com mel. Leve a cozer em forno quente durante cerca de 10 minutos.

(Pronto! Lá se vai a dieta!)