31 dezembro 2007

Último postal do ano - a qualidade da alma

Hoje é o dia (a noite, aliás) de fazermos uns desejos ao comer doze passas ao som das badaladas da meia-noite. Eu cá alinho em tudo: como passas, faço desejos, visto não-sei-o-quê azul, dobro uma perna, levanto um cotovelo, dou três pancadinhas na ponta do nariz do vizinho do lado, enfim, todas as maluqueiras que quiserem.
O importante é estar bem com quem se está. E se passasse sozinha também ia estar bem!
Fui passar um pouco da tarde com o meu Séneca e aqui vai mais um bocadinho de uma carta e os meus votos de um excelente 2008 para todos!

Deixemos de desejar aquilo que já algum dia quisemos. Eu, por minha parte, faço o possível por não ter em velho os desejos que tinha em garoto. Os meus dias e as minhas noites, os meus esforços e pensamentos têm como objectivo pôr termo aos meus antigos defeitos. Procedo de modo a que cada dia seja o equivalente de uma vida inteira; mas, Hércules me valha!, não me apresso a gozá-lo como se fosse o último, apenas o encaro como se pudesse ser de facto o meu último dia! (...) Estou preparado para partir, e assim gozo tanto mais a vida quanto menos me preocupa saber quanto tempo o futuro ainda me reserva.
(...)
Para que a vida seja suficiente, o que conta não são os anos nem os dias, mas a qualidade da alma.

Séneca, Cartas a Lucílio, 61 (sempre a mesma edição).

28 dezembro 2007

Quero... não quero...

A Gi desafiou-me a que dissesse uma coisa que eu quisesse receber este Natal e três que não quisesse. Como acho mal esta desigualdade, vou dizer três de cada:

Queria receber:

- a minha casa prontinha a habitar;
- muitos mimos;
- um computador que nunca desse problemas, que não necessitasse de actualizar nada e que se ligasse automaticamente à internet, da mais veloz que houvesse.

Não queria receber:

- CD's do Zé Cabra, da Ágata, do Emanuel, da Ffllorlibbella (nunca sei que consoantes é que o nome dela dobra) ...
- falsos amigos (já me bastam os linguísticos!)
- um mau livro!
E, leitura sugerida pela Calpúrnia, deixo aqui uma queixa de Catulo, a quem estragaram as Saturnais, época que corresponde a estas nossas das festas de Dezembro, precisamente por causa disso:

Ó grandes deuses, que livreco horroroso e execrável,
que tu próprio, evidentemente,
enviaste ao teu amigo Catulo,
nas Saturnais, no melhor dia,
para que ele morresse logo nesse dia.


Catulo, Carmina XIV, vv. 12-14

26 dezembro 2007

Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem

O caríssimo Broto ofereceu-me um dia uma prenda linda.
O que aqui lhe deixo não se lhe compara, mas é com boa vontade. Uma proposta, em Português, para o seu último postal.

Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem (1).
Este, com o tempestuoso vento do Sul, avança para lá do mar cinzento
e ultrapassa as grossas vagas que rugem à sua volta.
E cansa a infatigável Terra imortal,
a mais poderosa das divindades,
revolvendo-a com a raça dos cavalos,
de um lado para o outro com as charruas, ano após ano.
O homem muito hábil, enlaça a tribo de aves de voo ligeiro,
e leva, em redes bem tecidas a raça de animais selvagens e marinhos;
domina, com invenções engenhosas,
os animais dos campos que andam no mato;
e o cavalo de longas crinas é levado pelo jugo que lhe envolve o pescoço,
tal como o indomável touro montanhês.
Aprendeu a linguagem e o pensamento ágil,
os costumes civilizados,
e, pleno de expedientes,
aprendeu a fugir do gelo
e dos ataques da chuva importuna nos lugares descobertos
e que tornam difícil a permanência ao ar livre.
Não avança no futuro sem recursos.
Apenas ao Hades não poderá fugir;
no entanto, meditou com outros o modo de escapar
a doenças para as quais não havia recurso.
O saber engenhoso da sua habilidade inesperada pende
umas vezes para o mal, outras para o bem;
ocupa um lugar cimeiro na cidade,
confundindo as leis da terra e a justiça dos deuses,
confirmada por um juramento;
é indigno de viver na cidade se o mal se associa a ele,
devido à sua audácia.
Que não se sente no meu lar quem assim for nem seja meu amigo o que pratica tais acções!

Sófocles, Antígona, vv. 332-375

(1) A tradução deste passo é minha, se bem que a versão para Português do primeiro verso pertença a Maria Helena da Rocha Pereira, na sua edição da FCG.

25 dezembro 2007

...paulo maiora canamus.


E, precisamente durante o teu consulado, Polião, chegará
a glória de uma época, e os grandes meses começarão a avançar;
Sob a tua direcção, se permanecem alguns vestígios dos nossos crimes,
anulados, libertarão as terras do terror perpétuo.
Essa criança terá a vida dos deuses e verá
os heróis misturados com as divindades e ele próprio será visto por elas
e irá governar um mundo pacificado com as virtudes do seu pai.


Vergílio, Bucólica IV, vv. 11-15

24 dezembro 2007

Sicelides Musae...

Ó musas da Sicília, cantemos algo mais elevado.
Os arvoredos e as pequenas tamargueiras não agradam a todos;
Se cantamos as florestas, que as florestas sejam dignas de um cônsul.Já está a chegar a última era da profecia de Cumas;
a grande ordem dos séculos nasce, de novo.
Já está a regressar a Virgem, regressam os reinos de Saturno,
já uma nova descendência é enviada do alto céu.
Tu, casta Lucina, favorece a criança que está quase a nascer,
Pela qual, primeiro, terminará a geração de ferro,
e surgirá em todo o mundo a era de ouro; o teu Apolo já reina.


Vergílio, Bucólica IV, vv. 1-10

Boas Festas!

Como tenho tido dificuldade em me ligar à internet e aceder ao blogger, antes que «isto» desligue, aqui ficam os meus votos de Boas Festas.
Se «isto» se portar bem hoje, ainda publico um postalinho mais logo.
Feliz Natal!

20 dezembro 2007

multa de respeito


Comprei o Borda d'Água para 2008. Os textos da editora são indescritíveis.
Contudo, tem, no texto inicial, uma referência digna de nota:

Os anos bissextos foram cercados de mitos e tradições. No séc. XIII, na Escócia, em cada ano bissexto, eram as mulheres, e não como de costume os homens, que tinham o direito de escolher quem desejassem para marido; se o escolhido não estivesse de acordo com o casamento, era obrigado a pagar uma multa de respeito.

E mais nada!

19 dezembro 2007

Abaixo a censura!

Agradeço aos meus amigos que se queixaram que os seus comentários não eram publicados e acreditaram que eu não tinha nada a ver com isso.
Aos que não me conhecem, apesar da moderação, este blogue até hoje só não publicou comentários a pedido dos próprios, porque eram particulares, e dois considerados «agressivos».
Portanto, quem tiver tido ou venha a ter dificuldades em comentar, mande-me um mail.
Contudo, penso que o problema estará resolvido.
Obrigada!

16 dezembro 2007

Diana e Minerva

Caio Plínio saúda o seu amigo Cornélio Tácito

1. Vais rir, e é justo que rias. Eu, aquele que conheces, apanhei três javalis e bem bons. «Tu próprio?» - perguntas. Eu próprio; e nem sequer me afastei inteiramente da minha inércia e quietude. Estava sentado ao pé das redes; tinha, junto a mim, não uma lança ou um dardo, mas um estilete e tabuinhas para escrever; meditava em qualquer coisa e tomava notas, para que, se voltasse de mãos vazias, pelo menos levava as tábuas cheias. 2. Não desprezes este modo de trabalhar; é de admirar como o espírito é estimulado pela agitação e movimento do corpo; já a solidão que envolve a floresta e aquele silêncio que é proporcionado pela caça são grandes estímulos do pensamento. 3. Por conseguinte, quando caçares, podes fazer como eu e leva o teu cesto de pão e uma garrafinha com bebida, bem como as tabuinhas para tirares apontamentos: vais dar-te conta de que Diana não vagueia mais pelos montes que Minerva.
Adeus.

12 dezembro 2007

De libera voluntate

Portanto, se entre os bens do corpo encontramos alguns de que o ser humano pode não usar com rectidão, nem por isso dizemos que eles não lhe deviam ter sido dados, pois reconhecemos que são bens (...).
De facto, quando um corpo não tem mãos, vês que lhe falta um bem importante. Contudo, faz um mau uso das mãos quem as emprega em acções violentas ou vergonhosas. (...)
Portanto, assim como aprovas estas coisas em realção ao corpo e, sem reparar naqueles que fazem mau uso delas, louvas Aquele que deu estes bens, também confessarás que a livre vontade, sem a qual ninguém pode viver com rectidão, é necessariamente um bem e um dom divino, e que mais se deve condenar aqueles que usam mal deste bem, do que afirmar que não no-lo deveria ter dado Aquele que no-lo deu.

Santo Agostinho, Diálogo Sobre o Livre Arbítrio, INCM, Lisboa, 2001. Tradução de Paula Oliveira e Silva.

07 dezembro 2007

Kalevala - tradução do original

Um cheirinho da tradução, directamente do finlandês, por Merja Mattos-Parreira e Ana Isabel Soares, roubada com grande descaramento do blogue desta última.

(Ouvi dizer que saíu uma edição de Kavela traduzida de outras línguas que não a original. Obviamente que me recuso a ler uma tradução de uma tradução, havendo esta praticamente no prelo. E não entendo como a embaixada da Finlândia pôde estar presente nesse lançamento.)

Depois de dizer muitas vezes "Obrigado, senhor Lönnrot, obrigado!", o Reboliço desabafa: era um grande mal agradecido, esse Lönnrot, é o que era! Quantas vezes os heróis trabalham, labutam, lutam, laboram, conseguem os feitos, só para o romântico médico lhes rematar as falas com um "Louve-se Deus." Nestes versos, o herói maior, Väinämöinen, ferido com um machado no joelho, contorce-se com dores e recebe, finalmente, a ajuda de um velho deitado ao lume:

"O velho expulsou a dor,
o sofrimento empurrou
para o meio de Kipumäki,
para o pico de Kipuvuori,
para dar a dor às pedras,
entregar à rocha a dor."
(Canto IX, vv. 523-528)

Pois não querem lá ver a resposta do herói, depois de o sangue estancar?

"Bendito sejas, ó Deus,
bendito, Criador único,
que a mim tanto ajudaste,
me trouxeste protecção
a mim nestas grandes dores,
do férreo aço a ferir!”
(Canto IX, vv. 571-576)

Assim, não dá!...

(Elias Lönnrot foi o médico que, entre 1833 e 1853, viajou pela Carélia e reuniu cantos, rezas e lengalengas populares, que haveria de publicar como cancioneiros e como a epopeia Kalevala. Nesta, compôs uma história a partir de várias camadas de histórias, passadas oralmente, de geração em geração. Um dos debates literários mais prolixos ainda hoje na Finlândia prende-se com saber em que medida o compilador foi ou não autor dos versos, isto é, terá interferido na construção das narrativas, nomeadamente no que a atitudes religiosas diz respeito. Um dado é certo: há muitos momentos de incongruências narrativas, e os versos acima dão conta de uma apenas.)

05 dezembro 2007

ΜΕΤΑΦΟΡAΣ... ΜΕΤΑΦΟΡΕΣ


A primeira vez que vi um destes camiões de transportes (nesta imagem está um de transportes e mudanças - 'μεταφορές' e 'μετακομισεις') surpeendi-me.
Estava eu sentada numa esplanada, há muitos anos, quando vejo passar um grande camião, pintado com letras garrafais, a dizer «METΑFORAS». Não compreendi de imediato. Acontece, com as metáforas...
Depois fez-se luz.
Que faz uma metáfora? Leva-nos para outra esfera de imagens, de modo a podermos apreender um mesmo sentido. Digo o mesmo, mas transportando as palavras para outro lado.
Fosse eu poetisa e escreveria qualquer coisa sobre as metáforas com que nos podemos cruzar na cidade de Atenas.
Mas não sou. Nem sequer boa fotógrafa. Esta foto foi tirada à noite, com os gregos que me rodeavam a gozar comigo por este meu fascinío por camiões de mudanças...

04 dezembro 2007

Paciente, passos, paixão...

Ontem, numa reportagem do telejornal da TVI sobre o uso de palavras inglesas na nossa língua, a jornalista alargou o tema aos anglicismos. Foi nesse contexto que entrevistaram uma emérita professora da Universiadade Nova de Lisboa, com a qual tenho de discordar (coisa que detesto fazer). Mas... paciência.

A propósito de «paciente», com o sentido de «doente» (afirmando que os médicos não têm pacientes, mas doentes), disse a professora que esta palavra vinha do inglês «pacient» e que seria de evitar.
Não é verdade. Isto é, é de evitar estar doente, claro, mas não há razão para evitar o uso do vocábulo.

Como adjectivo, paciente significa «o que sabe esperar», único sentido que lhe foi atribuído naquela reportagem. Como substantivo, significa, além de «indivíduo que espera calmamente» (v. Houaiss), «aquele que está doente».

Paciente vem directamente do particípio presente do verbo depoente latino patior (que significa «sofrer»): aquele que sofre.
É seu cognato o nome paixão (passio, passionis - a paixão de Cristo, por exemplo, é a expressão do seu sofrimento) ou passos, na expressão Senhor dos Passos. Não se chama assim à imagem de Cristo que passeia ou que dá passos (pois assim seria do nome latino passus, passus), mas sim ao Cristo que sofre, dado que passus, passa, passum é o particípio passado do mesmo verbo patior.

Infelizmente, na maior parte das vezes, temos de ser pacientes quando somos pacientes de alguns médicos...

Petição

O meu sobrinho Nuno, de 18 anos, fez esta petição.
Se estiverem de acordo, assinem.
http://www.petitiononline.com/acor1990/petition.html

25 novembro 2007

Aliki Kagialoglou

Aliki Kagialoglou (neste link vão ter de baixar várias vezes até encontrar as três referências a esta artista) está a preparar um CD com fados portugueses e declamação da Ode Marítima de Álvaro de Campos.
Como cheguei tarde do Peloponeso, já não pude ir conhecê-la. Espero que o nosso encontro para um «cafezinho» se realize em breve.

Mantineia


Mandinia, Mandinia...

«Tripoli fica perto da cidade antiga de "Mandinia"...», disse-me o Iannis. «Conheces?»
Não estava nada a ver o que seria...
«Mandinia, Mandinia... Como se escreve?», perguntei, para dar tempo e disfarçar a minha ignorância.
E ele mostrou-me.
«Ah! Mantineia! Claro!!»
Vou lá agora!

24 novembro 2007

Mitos, medos, brios...

Dizem que sim, que correu bem.
E cá a Xantipa já está triste por se aproximar o dia da partida. Também gostou muito de rever a sua velha pólis.
Amanhã vai ao Peloponeso, a Tripoli.
(actualização: a Ana Maria diz que esta fotografia não deixa ver como a sala estava cheia e obrigou-me a pôr mais estas. Cá vão!)

21 novembro 2007

Atenas, 9 anos depois

Hoje foi dia de recordações.
Um breve passeio pela avenida Elefteriou Venizelou, uma ida a Eleftheroudakis (grande livraria), um passeio pela praça da Constituição (Sintagma)

e pelas ruazinhas que frenquentei em 1998... A "minha" loja de discos (onde o Costas me fazia 24% de desconto) já lá não estava e, enquantos uns negócios abriram outros fecharam.
Gosto de ler os nomes das ruas e as direcções em grego e transliterado. Se assim não fosse, nunca descobriria que a rua Voulis é a rua da Boulê (a assembleia dos 500), ou que Lavrio é Laurium, o local das famosas minas de prata, ou que Évia é Eubeia, a ilha aqui mesmo em frente.
Regressei ao local onde o táxi me deixara duas horas antes, na «Academias».
Na a rua de Hipócrates, num café, tomei um chá com a minha amiga Ana Maria, a grande culpada da minha presença aqui.

Lembrei-me de Edimburgo e dos sofás do "Espresso Mondo"...
Numa livraria vejo que a Mariza canta no dia em que parto.

E apanho um autocarro. Não me posso enganar: é o 608.

Até amanhã!

20 novembro 2007

Viagem à Grécia

Há nove anos que não vou à Grécia. Vai ser bom rever aquela bela terra.
Quando lá vivi (escassos quatro meses), instalei-me num pequeno hotel nas franjas da Plaka chamado Dióscoros. Lembro-me dos Gémeos e recordo Pausânias:
(Rapto das filhas de Leucipe, de Rubens)

O santuário dos Dióscoros é antigo: aí há uma estátua deles e dos seus filhos sentados em cima de cavalos. Polignoto pintou-os aqui nas núpcias das filhas de Leucipo, enquanto Mícon representou-os a navegar com Jasão para a Cólquida.

19 novembro 2007

Roliça e Vimeiro


Há muitos anos, quando pela primeira vez visitei a catedral de S. Paulo, em Londres, emocionei-me ao ver o nome da pequena aldeia da Roliça, ali tão perto da terra onde nasci, gravada na pedra, num monumento que celebrava a participação inglesa nos combates contra Napoleão, durante as Invasões Francesas.
E agora que se comemoram os 200 anos da batalha com o mesmo nome, Roliça volta a estar em foco no concelho do Bombarral. No Sábado passado decorreu a sessão solene de abertura das iniciativas que se estendem até ao ano que vem, com a comemoração da batalha do Vimeiro.
Gostei muito de participar, principalmente por ter podido ouvir o magnífico apontamento histórico (modesto nome para tão eloquente prelecção) do Coronel Américo Henriques: com uma oratória perfeita, captivou-nos a todos com as histórias daquela história, com uma vivacidade e entusiasmos contagiantes e um saber bem fundamentado.


12 novembro 2007

Do amor

(Foto minha. Rodin - Eros e Psyche - Ermitage - S. Petersburgo)

O amor não tem uma natureza simples, bela ou feia em si mesma: é belo, se realizado com beleza, e feio, se realizado com vileza.
Vileza é quando se concede uma afeição indigna a um homem indigno; e nobreza, quando se concede uma feição digna a um homem de bem. E por indigno entendemos justamente esse amante popular, que prefere o amor do corpo ao amor da alma, e não guarda constância porque o objecto a que se prende não é também constante [...].
Pelo contrário, aquele que ama alguém pela beleza do seu carácter, esse permanece fiel pela vida fora, porque se funde com o que é constante.

Discurso de Pausânias no Banquete de Platão. Tradução de Maria Teresa Schiappa de Azevedo para as Edições 70.

Para mais discursos do Banquete, ver aqui, aqui, aqui...

08 novembro 2007

Nem tudo o que reluz é ouro...

(...) há uns que são belos graças à sua beleza, enquanto outros parecem sê-lo quando se adornam. E o mesmo se passa com as coisas inanimadas: pois também entre estas há as que são verdadeiramente de prata ou de ouro e as que não são, mas parecem que o são pelo modo como as apercebemos, como, por exemplo, as coisas feitas de monóxido de chumbo ou de estanho, que parecem prata, e as coisas amarelas, que parecem ouro.
(Aristóteles, SE, 164b24)

03 novembro 2007

máscaras...


Édipo: Hoje sei que a vida calça coturnos e vai tirando e pondo as suas duas máscaras. A máscara da comédia e a máscara da tragédia. Às vezes as duas ao mesmo tempo, uma na cara outra na nuca. Mas detrás da máscara só vejo o vazio. Por baixo das vestes, apenas um cabide. A vida é a máscara da morte.
Tirésias: E a morte é a máscara da vida.

Armando Nascimento Rosa (2003). Um Édipo. Casa do Sul. Évora, p.37

31 outubro 2007

Amigo (2)

Se alguém te elogia enquanto estás à vista,
mas quando está longe diz mal de ti,
tal homem não é bom companheiro nem amigo,
ele que diz coisas macias com a língua, mas pensa outras coisas.
Que eu tenha como amigo quem conheça o seu
companheiro e aguente o seu feitio, ainda que difícil,
como um irmão. E tu, ó amigo, põe estas coisas
no coração e um dia no futuro te lembrarás de mim.

(vv.93-100. Ver aqui e aqui.)

28 outubro 2007

Página 161, parágrafo 5º (de novo)

Apesar de já ter respondido a este desafio anteriormente, não me importo nada de repetir. O André pensou em mim e aqui vai. O livro que estava mais à mão era este:

Recordou-se por breves momentos de Baeta, a prostituta, e lembrou-se de como foi feliz sem amar, e por momentos teve saudades desse tempo.

Carlos Campaniço*, Molinos, Pé de Página Editores, Coimbra, 2007, p.161, parágrafo 5º.

*O Carlos foi dos meus primeiros alunos de Latim na UAlg e hoje é Mestre em Culturas Árabe, Islâmica e o Mediterrâneo.

27 outubro 2007

Livrarias em Roma

No tempo da República, os livreiros eram uns desgraçados que tinham de arranjar livros para copiar para os clientes, tendo para isso que recorrer a bibliotecas privadas, o que nem sempre era fácil.
No tempo do Império as coisas mudaram: Roma tornou-se uma cidade cosmopolita também do ponto de vista intelectual, sendo a demanda de livros tal que as livrarias passaram a ter aquilo a que podemos chamar o início da ideia do «fundo de catálogo» (já raro hoje em dia).

Existiam nas lojas livros de escritores como Vergílio ou Tito Lívio e sabe-se que um livreiro até tinha vários volumes da Institutio Oratoria, de Quintiliano. E se lhe pedissem um livro que não tinha (o que seria comum), recorria, como antes, às bibliotecas, e mandava fazer uma cópia!

As autores não ganhavam direitos, mas atingiam, assim, um maior número de leitores (em vez de serem eles a fazer ou mandar fazer as cópias dos seus livros), e esse é o objectivo de todo aquele que publica.
Uma boa livraria em Roma? Marcial diz que há já ali uma:

«procura Secundo, liberto do douto Lucense,
por trás do limiar do templo da Paz e do foro de Palas

(Fonte: Lionel Casson. Ver aqui)

22 outubro 2007

Fado da dúvida (sem dúvida)

(A Marta foi roubada, mas não resisti! Que me perdoe...)

Se já não te lembras como foi
Se já esqueceste o meu amor,
O amor que dei e que tirei,
Não queria lamentar depois.


Mas uma coisa é certa, eu sei.
Não tive nunca amor maior.
E ainda vivo o que te dei,
Ainda sei quanto te amei,
Ainda desejo o teu amor.


Não tenho esperança de te ver,
Não sei amor onde andarás.
Pergunto a todo o que te vê
E nunca sei como estás.


Agora diz-me o que farei
Com a lembrança deste amor.
Diz-me tu, que não sei,
Se voltarei ou não para ti,
Se ainda quero o que sonhei.


(Texto de Pedro Ayres de Magalhães, Madredeus, 2005)

21 outubro 2007

filósofo... ministro?

«a raça humana não cessará os seus males antes que a raça daquele que ama o saber correctamente e com verdade chegue ao poder governativo ou que aqueles que têm o poder nas cidades, através de uma intervenção divina, se dediquem realmente à filosofia.»

( Platão, Carta VII, 326b. Tradução minha)

18 outubro 2007

bebida e comida não chegam...

Muitos são os companheiros para bebida e comida,
mas para empreendimento sério já são poucos.

Teógnis
(Tradução de Frederico Lourenço no volume Poesia Grega, editado pela Cotovia)

13 outubro 2007

Parabéns, Mãe!

A minha mãe faz anos hoje e vamos reunir a família.
Deste núcleo, já não estamos todos, mas os que faltam estão connosco no coração.
As famílias são assim: crescem, multiplicam-se, uns vão, outros vêm.
Muitos beijinhos, Mãe!

11 outubro 2007

kylix...

A Xantipa, agradada, também não lhe vai dizer...


Beber muito vinho é mau. Mas se bebermos
sabiamente, não é mau, mas bom.


(Tradução de Frederico Lourenço no volume Poesia Grega, editado pela Cotovia)

10 outubro 2007

Mais vale descoser que rasgar...

Há também a infelicidade, muitas vezes inevitável, de ter de renunciar a uma amizade.
(...)
Tais amizades devem, pois, ser diluídas pelo afroixamento da convivência, e, como ouvi a Catão dizer, mais devemos descosê-las do que rasgá-las.
(...)
Há que fazer todo o esforço por evitar que haja discórdia entre amigos; mas, se algum incidente desse tipo surgir, há que mostrar que as amizades mais se extinguiram do que foram violentamente esmagadas.

Cícero, A Amizade, 1993, INIC, Lisboa. Tradução de Sebastião Tavares de Pinho.
(à minha amiga, que muito é vista, mostrando-se muito pouco...)

08 outubro 2007

Não ames com palavras...

Não ames com palavras, tendo noutro lado mente e coração,
se me amas e se fiel é a tua intenção.
Ama-me com mente pura, ou então rejeita-me
e odeia-me e opta pelo conflito aberto.

Teógnis, vv. 87-90. Tradução de Frederico Lourenço no volume Poesia Grega, editado pela Cotovia.

06 outubro 2007

Sobre um sonho que hoje tive...

A ele deu resposta a sensata Penélope:
«Estrangeiro, sabes bem que os sonhos são impossíveis
e confusos; nem sempre tudo se cumpre entre os homens.
São dois os portões dos sonhos destituídos de vigor:
um é feito de chifre; o outro de marfim.
Os sonhos que passam pelos portões de marfim talhado
são nocivos e trazem palavras que nunca se cumprem.
Mas os que saem cá para fora dos portões de chifre polido,
esses trazem coisas verdadeiras, quando um mortal os vê.

Homero, Odisseia XIX, 560-567. Tradução de Frederico Lourenço para a Cotovia.

04 outubro 2007

Dois anos é muito tempo...

Lembro-me muito dele. Quase todos os dias. Falávamos sobre isto, aquilo e aqueloutro. Discutíamos leituras e sentimentos. Tínhamos vidas tão diferentes e tão iguais.
Não é por fazer hoje dois anos que deixo aqui um dos seus poemas. É porque hoje me apetece. Porque hoje ele tem ocupado mais o meu espírito do que ontem. Não sei se também amanhã...

Hinos tardios

A BODY

This is a body disse
Em tom de aviso
E eu pensei que sabia
Da fragilidade da carne
Da força de certos medos
Fiz-me entendedor
De mil injustificados cuidados
Fazendo uso pois
Dos meus mais cuidadosos dedos
E afinal achei-me
perdido
num nunca mais acabar
de casas estreitas
Ah, no bairro do amor...
Tão labiríntico.
Ah, no baile do amor...
Animais mínimos somos sempre
E foi como insectos em nocturno ardor
que em cada botão se viram presos
de perfumes primaveris embriagados
os já ditos dedos. This is a body disse
E eu pensei que sabia
E afinal o aviso era
Só por aquilo que vestia.


Mais poemas aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e mais ligações para outros poemas.

02 outubro 2007

Na adversidade...

(...) ingenium res adversae nudare solent, celare secundae.
(...) as situações adversas costumam desvendar o talento, as propícias costumam escondê-lo.

Horácio, Sátiras, II, 5. 73-74

27 setembro 2007

«Disfarçar os defeitos»

A Arte de Amar, de Ovídio, está dividida em três livros, sendo os dois primeiros «dirigidos aos homens e o terceiro às mulheres. O primeiro visa, genericamente, ensinar o homem a seduzir a mulher; o segundo, a conservar o amor, depois de concluído, com êxito, o processo de sedução; o terceiro engloba o mesmo conjunto de ensinamentos, mas, desta feita, dirigidos à mulher.», diz Carlos André, autor da tradução publicada pela Cotovia.
Segue-se um excerto do livro III:

«Rara é a beleza que está livre de defeito; disfarça os defeitos
e, tanto quanto puderes, esconde as mazelas do teu corpo.
Se és pequena, senta-te, para, de pé, não pareceres sentada,
e estende-te, por pequena que sejas, no teu leito;
mesmo aí, para não poderem tirar-te a medida, quando estendida,
esconde os pés, lançando-lhes por cima o manto;
a que é delgada demais, vista roupa de pano grosso
e faça cair dos ombros um manto largueirão;
a que tem uma cor desmaiada traga no corpo riscados de púrpura;
se és morena em demasia, parte em busca da ajuda de tecidos de Faros;
o pé chato deve ficar sempre resguardado dentro de sapato branco e fino,
e pernas descarnadas não devem andar sem correias;
ficam bem pequenos chumaços em ombros altos;
à volta do peito raso deve sempre passar um corpete.
Deve acompanhar de gestos curtos tudo quanto disser aquela
que possui dedos gordos e unhas sujas;
a que tem mau hálito nunca fale em jejum
e guarde senpre distância do rosto do seu homem;
se tens dentes negros ou grandes ou tortos,
enorme é o teu prejuízo quando te rires.»
(261-280)

26 setembro 2007

Mais e mais!



Como eu confessei que gostava de flores, o meu amigo Oppugnatore enviou-me estas duas.
Obrigada!

25 setembro 2007

24 setembro 2007

Contra-senso (2)

Ao fugir do inimigo, Fânio matou-se a si próprio.
Isto, pergunto eu, não é uma loucura: para não morrer, morrer?

Marcial, Epigramas, Livro II, 80.
Tradução de José Luís Brandão para as Edições 70, em 2000, com introdução e notas de Cristina de Sousa Pimentel.

22 setembro 2007

Conselhos de Ovídio aos homens

Muitas vezes começa, porém, o fingidor a amar de verdade;

muitas vezes, aquilo que, no começo, simulara ser, veio a sê-lo mesmo.

Mais ainda por isso, ó mulheres, tornai-vos fáceis àqueles que fingem!

Há-de transformar-se em amor autêntico o que era, ainda agora, simulação.

É, então, hora de cativar o coração, sorrateiramente, com palavras meigas,

tal como a água corrente galga a ladeira da margem;

Não hesites em louvar-lhe o rosto, os cabelos

e os dedos esguios do pé delicado;

dá deleite, mesmo às mais castas, o pregão da sua beleza;

as donzelas cuidam da figura e ela dá-lhe prazer.

20 setembro 2007

Viciada? Eu?

Para os injustos e incompreensivos acusadores sem razão...
Vejam! Vejam como, afinal, não sou assim tãaaaao viciada!


51%How Addicted to Blogging Are You?


(Obrigada, André.)

Mais flores!



A querida Sobe e Desce ofereceu-me tão simpaticamente estas flores, com a indicação de que eram das primeiras que tinha tirado. Lá no seu blogue tem muitas fotografias!

Muito obrigada!

19 setembro 2007

Adoro flores!

E o meu amigo Carneiro ofereceu-me esta! Só para mim!
Este Xiclista passou as férias a andar de bicicleta! Vejam só o percurso que fez!

18 setembro 2007

Assim, é fácil aprender Latim!

Está livre às sextas-feiras, das 9.30 às 12.30?

Pode estar nesse dia e a essas horas na Universidade do Algarve?

Inscreva-se no Curso Livre de Latim Elementar!

E se não quiser certificado nem que a disciplina entre no seu curriculum, nem tem de pagar nada!

Esta disciplina está pensada para ser frequentada por qualquer pessoa interessada em conhecer como funciona a língua latina. Pretende ser uma unidade que não pressupõe necessariamente uma continuação, mas que fornecerá ferramentas para quem o quiser fazer.

Assim, iremos partir precisamente da etimologia de palavras que todos conhecemos para explicar a morfologia e a sintaxe da língua.

Serão focados aspectos culturais associados à vida quotidiana, principalmente a casa e a família, dado que se pretende fazer visitas a sítios arqueológicos que contenham «villae» (ruínas romanas de Milreu e de Cerro da Vila, p. ex.) e a espaços que possam ajudar a compreender o dia-a-dia dos romanos (Lapidário do Museu Municipal de Faro, p. ex.).

O recurso à música será um complemento, facultando o conhecimento de um latim ainda mais próximo de nós (ex.: Composições de Rodrigo Leão, de Carl Orff (Carmina Burana), de Mozart (Requiem), de Vivaldi (Stabat Mater).

Os textos analisados serão originais, recorrendo quer a autores clássicos, como Plínio ou Ovídio, quer a textos decorrentes da vida de todos os dias, como grafitti, quer a textos bíblicos de conhecimento geral, por fazerem parte da cultura judaico-cristã.

Assim, é fácil aprender Latim!

Nota: pode-se organizar um «fim-de-semana clássico», com uma visita a Mérida ou a Conímbriga.

17 setembro 2007

Harrius Potter

Admito, pronto! Admito!
Ando a ler o último livro do Harrius Potter. À falta deste em versão latina, deixo um bocadinho do primeiro volume:

'an videtis?' inquit Hermione cum Harris et Ronaldus id perlegissent. 'non dubitum est quin canis Lapidem Philosophi Flameli custodiat! sponsionem faciam eum Dumbledorem rogavisse ut Lapidem sibi conservaret, quod sunt amici et ille sciebat aliquem eum appetere. ea est causa cur vellet Lapidem ab argentaria Gringotts removeri!'
(Vertido para latim por Peter Needhan)

16 setembro 2007

Diálogo sobre o livre arbítrio

Caro Réprobo,

Apesar de não fazer parte da corrente, não resisti a brincar à bibliomancia. E, para contrariar a minha tendência senequiana, abri este livro de Santo Agostinho e li, na 5ª frase (uma ligeira batota: considerei como primeira a frase que se iniciava na página anterior e terminava nesta) da página 161:

De facto, não é de crer que eles saibam que não é pelos ouvidos que captam a luz, nem pelos olhos que escutam as vozes, porque estas realidades só se discernem por uma atenção racional e pelo pensamento.

(Usei a edição da INCM, em edição bilingue de Paula Oliveira e Silva.)

15 setembro 2007

Ainda (e finalmente) sobre a Lisístrata

(nós, os que fomos ao teatro)


Iniciei este postal há uns tempos... um mês... mas, como prometi e já me foi pedido, aqui vão algumas reflexões sobre a Lisístrata que vi em Mérida.
A peça que fomos ver era de Manuel Martínez Mediero (autor de Férias Grandes com Salazar, que esteve recentemente em cartaz no D. MariaII) e não de Aristófanes, em versão de daquele autor espanhol, como eu pensava. Mas o erro foi completamente meu, que não me documentei antes de ir (glup!).
Mas, a verdade é que gostei. Gosto, normalmente, destes usos contemporâneos dos temas clássicos. Já Aristóteles dizia, na Poética (apesar de ser sobre a tragédia, aplica-se à comédia):

Pelo exposto se torna óbvio que a função do poeta não é contar o que aconteceu mas aquilo que poderia acontecer, o que é possível, de acordo com o princípio da verosimilhança e da necessidade.
(1451a37)
não é de todo necessário cingirem-se a histórias (mitos, traduz o Eudoro de Sousa) tradicionais sobre que versam, geralmente as tragédias. Preocuparem-se com isso seria ridículo, pois mesmo as histórias conhecidas são conhecidas por poucas pessoas (já na altura...) e, no entanto, agradam igualmente a todos. De tudo isto resulta evidente que o poeta deve ser um construtor de enredos mais do que de versos, uma vez que é poeta devido à imitação e imita acções. (1451b27)

A cena passa-se em Esparta e não em Atenas. A heroína é rainha desta cidade e é ela quem encabeça a luta pelos direitos das mulheres, que pretendem a igualdade entre sexos e não uma superioridade em relação aos homens. No final é estrangulada pelo marido. Bem diferente da versão de Aristófanes.

A discussão entre ultrapassou este aspecto: encenação. Numa das muitas conversas que tivemos (nós, os que fomos ao teatro), havia quem defendesse que a peça não se devia chamar apenas Lisístrata. Que devia ser outra coisa... ter um subtítulo, por exemplo. Ora, sendo dois dos companheiros de viagem actores/encenadores/ professores, foi difícil argumentar com as suas críticas (a da Ana O. pode ser lida aqui).A mim não me incomoda que seja só assim. A Antígona, de Jean Anouille, não tem subtítulo. Nem a Fedra, de Racine. Aliás, acho que o nome é importante e aquilo que o que for escolhido invoca é que que faz a diferença. Aristófanes deixou um legado com esta comédia: de uma qualquer Lisístrata, ateniense ou espartana, espera-se liderança, luta femininae, principalmente, greve de sexo (curiosamente, esta notícia publicada aqui faz hoje um ano) .E é isso que Martínez Mediero nos dá nesta peça.
Quanto à encenação, disse-se que houve pouco aproveitamento do espaço, que o encenar não tirou partido dos recursos que as ruínas do teatro romano lhe davam. Nesse ponto concordo.
Quanto às brejeirices aqui e acolá, aos trajeitos efeminados de determinada personagem, à forma desajeitada com que alguns do muitos (muitos!) figurantes se moviam em cena, confesso que me divertiram. Nas comédias de Aristófanes havia tudo isto! E, tal como não percebi imediatamente por que riam as pessoas de umas coisas ou aplaudiam com entusiasmo outras, tendo vindo a saber que as personagens principais eram interpretadas por actores conhecidos do grande público, por causa da televisão, também imagino que quem assistisse a Os Cavaleiros e não conhecesse a obra de ou não soubesse que se gozava com Eurípides por se dizer que a mãe era hortaliceira, não ia perceber a referência ao cerefólio:
2º escravo: 'Fuarça'?!... Isso não é para mim. Ora... como é que eu hei-de dizer a coisa de uma maneira habilidosa, à Eurípides? Porque não me dizes tu aquilo que eu tenho de dizer? (frase do Hipólito, de Eurípides)
1º escravo: Ah, não! Cerefólios para cima de mim, não!
Aliás, nem iria perceber a piada do nome dos escravos, Cléon, Demóstenes e Nícias, que remetem para políticos bem conhecidos de todos.
Dizem os entendidos que o festival de Mérida já não é o que era. E eu acredito. Mas como nunca lá tinha ido, diverti-me imenso*! É sempre uma emoção estar sentada em locais como aquele... emocionei-me tanto no Epidauro... e não assisti a nenhuma peça. Acho que iria adorar, mesmo que fosse em grego moderno, com péssimos actores!
Voltamos para o ano?
*Pronto. Admito. Deu-me o sono e dormi um bocadinho... mas o texto era em espanhol coloquial... e já me tinha passado a emoção de estar naquele espaço... e quem me conhece sabe que tenho dificuldades em me manter acordada depois de uma certa (que nunca sei qual é) hora...

11 setembro 2007

1 ano de Blogue


(À falta de melhor, fica aqui uma foto do meu aniversário deste ano, com velas e tudo!)
Faz hoje um ano que publiquei o meu 1º post.

....................
Que hei-de dizer mais?
Ahã? Se a blogosfera mudou a minha vida?
Claro! Se não mudasse é que era triste. Tudo o que fazemos muda sempre alguma coisa na nossa vida... «se a alma não é pequena», claro.
E estes novos amigos, estes espaços que visito e onde leio tanta coisa interessante, têm-me feito um bem imenso.
A todos os que aqui vieram durante este ano, muito obrigada pela vossa amizade e pelo vosso estímulo!
Beijinhos!

P.S. Só publico hoje este postal, porque estive sem net uns dias...

05 setembro 2007

A minha avó Stella...

... faria hoje 105 anos, se fosse viva.
Foi, talvez, a pessoa mais marcante na minha formação como mulher.
Quando a minha irmã se casou, pensei que ia ficar com o quarto só para mim, mas a avó mudou-se e, dos meus 10 aos 19 (quando morreu), partilhámos o espaço, os sentimentos, as conversas, as leituras... A ela devo ter começado a ler Eça de Queiroz, Júlio Diniz, Erico Veríssimo, entre outros, nas longas férias de Verão dos meus 10, 11 e 12 anos. Ajudou-me a esconder «O Crime do Padre Amaro» do meu pai. E sabia que nessa altura eu lia Zola e Balzac (sem preceber metade daquelas relações), ajudando-me e explicando-me muitas coisas.
Inteligente, culta, bonita, elegante (qualquer trapinho lhe ficava bem) e muito prendada. E não era só o piano e o francês. A minha avó sabia cozinhar na perfeição e era ela que fazia os meus pijamas (gostava de calção e top de alças, modelo que não havia para crianças).
E estava sempre a cantar pela casa toda, com uma voz linda.
Cantava músicas da sua terra e ensinava-mas.
Eu, pequenina e gorducha, lá ia desafinando, baboleando-me e acompanhando a letra com os gestos que ela me ensinava, fazendo rir as visitas da casa:

«Chiquita bacana lá da Martininica
Se veste com uma casca de banana nanica»

Sempre que não sei o que fazer, sempre que me falta um conselho adulto (sim, porque muitas vezes sinto-me pequenina, deitada na cama, à espera que me venha ajeitar os lençóis e me dê seus beijinhos coloridos, tal como os sonhos: beijinhos cor-de-rosa na cara, azuis na testa, verdes no nariz...), é nela que penso.

Tenho saudades da minha avó!

03 setembro 2007

Afinal, eles também usam este «recurso»...

(foto de Jim Richey, tirada daqui)


Também as lágrimas são úteis; com lágrimas, comoverás diamantes;
faz, se conseguires, que ela veja o teu rosto banhado de pranto;
se as lágrimas não aparecerem, pois nem sempre surgem no tempo certo,
esfrega os olhos com as mãos molhadas.

Ovídio, Arte de Amar, I, 657-660
Tradução de Carlos Ascenso André

01 setembro 2007

receita romana: doce caseiro de tâmaras

(imagem daqui)
Recheie tâmaras descaroçadas (pequenas ou normais) com nozes, pinhões ou pimenta moída. Salpique-as por fora com sal, frite em mel cozido e sirva.
(O Livro de Cozinha de Apício, 7,11, 1; 296)

Inês de Ornellas e Castro, autora desta tradução (ver aqui), actualizou a receita:

24 tâmaras grandes
15 nozes
30 g de pinhões
sal q.b.
mel q.b.
manteiga q.b.
Retire o caroço às tâmaras. Moa as nozes e os pinhões e recheie as tâmaras. Salpique com sal fino. Unte um tabuleiro de barro com manteiga, disponha as tâmaras e regue com mel. Leve a cozer em forno quente durante cerca de 10 minutos.

(Pronto! Lá se vai a dieta!)

28 agosto 2007

João Chora antes das 7 da manhã

Meu caro João,

Ainda há pouco, na Antena 1, antes das notícias das 7, recebeste um belo elogio e passaram um dos teus fados. Deu-me logo um ataque de nostalgia e fui ouvir o teu disco.
Como tens passado? Quando te volto a ouvir ao vivo? Vou dar uma olhadela ao teu site.
Beijinhos!

26 agosto 2007

Livros, livros, livros (5)

Este foi mais um livro que comprei. Sempre me interessei pela vida que os gregos tinham e que transparecia em muitos textos literários e nas descobertas arqueológicas.
Este livro saíu há 10 anos, em 1997, mas só agora o descobri... nem sempre se consegue estar em cima do acontecimento...
Aguço o apetite aos meus amigos com esta nota (por Richard W. Wilk) que encontrei na Amazon:

«Davidson focusses on consumption habits, and the morality of eating, drinking, and sex. It is both very revealing about the lives of the Greeks, and an absolutely key step in understanding the origins of modern styles of consumer culture. This is by far the most theoretically sophisticated thing written about consumption in prehistory - Davidson brings some of the best of modern consumption theory to bear, but never in a pedantic way. The text remains lively, fun, and enlightening. »

15 agosto 2007

Aristófanes versus Mediero

Foto de Pedro Conceição (obrigada!)
Tive o privilégio de ir a Mérida acompanhada, para além de mais 3 amigos, por dois actores e encenadores amadores: Paulo Moreira e Ana Cristina Oliveira.
No fim, todos discutimos o que tínhamos achado sobre tudo o que víramos e ouvíramos. No próximo postal falarei da nossa simpática discussão, mas para que se compreenda melhor e para dar uma ideia da informação disponível sobre o que íamos ver, deixo aqui as palavras do programa (que, confesso, apenas li à entrada do teatro romano e não aqui, de onde tirei o que se segue):
«De Aristófanes a Mediero»
por Antonio Corencia

«Aristófanes, o mais brilhante autor da antiga comédia grega, escreveu a sua obra Lisístrata no ano 411 a.C. Manuel Martínez Mediero, um dos nossos melhores dramaturgos, se não mesmo o melhor, escreveu uma versão livre deste título em 1979 que teve a honra de dirigir no prestigioso Teatro Romano de Mérida, durante o Festival de 1980. O acolhimento por parte de público e a crítica foi realmente memorável, como pode comprovar-se nas hemerotecas e o culto povo emeritense recorda ainda.
Durante o Festival de 2007, vai celebrar-se uma merecida homenagem a Manuel Martínez Mediero e, por tal motivo, encomendaram-lhe uma revisão da sua Lisístrata que, novamente, foi posta nas minhas mãos e que tratarei de servir com a admiração, a entrega e o carinho que em mim suscitam a obra e a pessoa de tão admirado autor extremenho.
É a mesma Lisístrata a de Aristófanes e a de Mediero? Sim e não. Ambos fustigam implacavelmente os vícios dos seus contemporâneos, a conversa política e filosófica e o belicismo. São ambos autores de talento extraordinário, apesar da tremenda crueldade dos seus escárnios. Em ambos existe uma profunda raiz de autêntica poesia. Ambos escrevem enamorados da paz e da justiça e há em ambos uma penetrante sabedoria vital.
A partir daí, como explicava em 1980 o respeitado crítico Teresiano Rodríguez, a diferença já é total: A Lisítrata de Aristófanes é ateniense; a de Mediero espartana; a Lisístrata de Aristófanes conduz as mulheres à tomada da sua própria cidade; a de Mediero embarca-as até Atenas e em seguida promove uma greve de sexo; a Lisístrata de Aristófanes pretende reter os homens, enquanto que a de Mediero pretende que a mulher deixe de ser um objecto. Para esta nova Lisístrata, a guerra é uma forma de opressão que é necessário abolir. A Lisístrata de Mediero não odeia os homens, mas sim pretende estabelecer entre homens e mulheres uma nova relação baseada não no poder do primeiro, mas na liberdade mútua.Do autor grego fica o título, que serve de ponto de partida: acabar com as guerras que sangram os países e deixam as mulheres na solidão e no abandono.»