25 março 2008

«tudo o que alguma vez quiseste saber sobre as (mal) chamadas lendas "urbanas", mas nunca ousaste perguntar» - Parte 2 e última

Continua a entrevista, completa, de Bruno Pires (que também também é o autor das fotos) a JJ:

Outras das lendas a circular recentemente, dá conta que há raptos de pessoas nas lojas chinesas para lhes tirarem os órgãos...
Sim, aqui há coisa de uns dois anos, correu imenso a lenda de que havia o rapto de pessoas nas lojas chinesas para tráfico de órgãos. Isso é uma lenda viva, são coisas que as pessoas contam muito. Há uma colega aqui da faculdade, uma professora, que ouviu contar a lenda à mãe (que é enfermeira), para ter cuidado com essas lojas de Loulé porque houve uma pessoa que foi raptada aí. Às vezes, há a ideia de que estas lendas são contadas por pessoas novas e muito crédulas, ou então, velhas e de pouco discernimento. Não é verdade. As lendas são contadas por gente de todas as idades e níveis de instrução e são coisas que estão verdadeiramente vivas na nossa sociedade.

Esta lenda é nova?
Parece uma coisa recente, mas não é. Esta ideia de que há um grupo de pessoas, normalmente estrangeiros, que rapta gente para lhes tirar os órgãos em seu
benefício está registada pelo menos desde o século XVIII. Em Lyon, França, houve uma revolta das pessoas mais pobres da cidade que invadiram a faculdade de medicina, porque se dizia que os cirurgiões raptavam crianças para as dissecarem. E, segundo outra versão, dizia-se que lá dentro vivia um príncipe a quem faltava um braço. Então, todas as noites raptavam uma criança na esperança de arranjarem um braço que servisse. Claro, que em ambas, os maus são pessoas de uma classe superior, gente tão estranha que é quase estrangeira, e da qual se pode esperar tudo, exactamente como agora no caso das versões sobre as lojas chinesas. O que é de facto impressionante é que no século XVIII era impossível fazer transplantes, mas as pessoas acreditavam. Esta lenda conta-se, por exemplo, relativamente à América do Sul. Contou-se há anos relativamente a Moçambique.


A Internet também é campo fértil para este mitos...
A transmissão da literatura oral por via escrita não é uma coisa
recente, nem pouco mais ou menos. Os impressores que publicavam as primeiras edições de livros no século XV já publicavam folhetos com textos de origem oral. Portanto, isso é velho como a imprensa.Claro que no passado, antes de uma lenda como esta do roubo de órgãos humanos chegar a outro continente, teria que passar muito tempo. Hoje basta carregar num botão. E há realmente muitas lendas a circular na Internet, enviadas por e-mail, que são apresentadas como um facto.

Porque é que estas lendas surgem?

Porque interessam às pessoas, têm a ver com as suas ideias, os seus medos. Já no império Romano se contava que os Cristãos raptavam crianças para lhes tirarem o sangue para os seus ritos. Mais tarde, na Idade Média, os Cristãos diziam o mesmo em relação ao Judeus. E isto tem claramente a ver com a lenda do roubo de órgãos. Acho que estas lendas nunca morrem. Estão cá sempre. Nalguns casos é difícil perceber porque é que estas lendas voltam a ser contadas. Noutros casos, como o roubo dos órgãos nas lojas dos chineses, tem a ver com o medo do outro, que é universal - é a reacção ao aparecimento duma vaga de lojas de que as pessoas desconfiam, por serem coisa nova, de estrangeiros, e se dizer que são más para as lojas dos portugueses.

Mas no mundo moderno, informado e globalizado de hoje é difícil acreditar que se dê credibilidade a estas coisas, ou não?
Acho que muitas das coisas que se dizem sobre a globalização são
ditas sem reflexão histórica. Hoje diz-se que as crianças só querem pizzas e hambúrgueres e videojogos americanos, e que ninguém liga às nossas tradições. Bom, já pensou que o cristianismo, algo tão ligado à tradição europeia, é uma religião oriental? Nasceu no Oriente, difundiu-se na Europa através dos Romanos e veio abafar todos os deuses que existiam nos países europeus. Essa substituição foi de tal maneira forte que nós hoje, pouco ou nada sabemos sobre a religião dos nossos antepassados Lusitanos. Sabemos o nome de um ou dois deuses, mais nada. Mais nada. Portanto esta ideia de que a globalização é uma coisa digital, dos dias de hoje, não é verdade.


Mas como é possível que as pessoas acreditem neste tipo de coisas?
Bem, essa questão que me coloca é fruto de teorias filosóficas que,
penso, não são anteriores ao século XVIII e ao Iluminismo. Era a ideia de que a instrução muda as pessoas. Ensinando as ciências, factos, as coisas positivas (que se podem experimentar), as pessoas iriam recusar tudo o que é sobrenatural. No século XVIII, acreditava-se que a Humanidade vivia um estádio intermédio em que os pouco instruídos ainda estavam muito ligados ao sobrenatural, mas que as elites instruídas, sobretudo republicanos e anticlericais, já tinham ultrapassado essa fase. E acreditavam que, no futuro, a religião desapareceria porque não faz sentido e todas as coisas se explicam pela ciência. A verdade é que isto não é assim. Aquilo que os factos provam, é que a esmagadora maioria da população ocidental não chegou a esse estado previsto pelos positivistas. Repare, hoje em dia está na moda o New Age, e tudo aquilo que tem a ver com as antigas filosofias orientais está vivíssimo. E não apenas entre o povo, mas pelo contrário nas classes médias e altas. Repare, na Rússia, ao fim de anos e anos de anti-religião, quando o regime caiu, as igrejas encheram-se de novo.


Então, acha que o sobrenatural há-de acompanhar sempre a espécie humana?
Chamemos-lhe o irracional. Acho que sim. Acho que faz parte de nós. Repare, mesmo uma pessoa que não acredita em nada, se um dia for confrontada por um cancro, e depois de ir a todo o tipo de médicos sem sucesso, é capaz, em desespero de causa de ir a um curandeiro que lhe promete uma cura. A pessoa pode não acreditar positivamente naquilo, mas põe essa possibilidade. Acho que a grande maioria de nós, quando se vê numa situação de grande perigo, ou recorrerá à oração, ou recorrerá, enfim, a este tipo de coisas que o raciocínio e a razão não provam. É quase inevitável pensar na possibilidade de tentar. Em última análise, acho que é o mesmo que se passa com as lendas urbanas. Acho que as pessoas acreditam nelas porque falam daquilo que temem, dos seus medos e anseios.

5 comentários:

Maria, Simplesmente disse...

É por estas e por outras que eu não vou às lojas chinesas. Livra!!!...
Maria

Anónimo disse...

Lendas urbanas são:
1-O Simplex
2-A redução do nº de desempregados
3-O aumento da qualidade de vida
4-A redução da corrupção e criminalidade...
5 Acesso rápido, universal e gratuito á justiça...
Querem mais lendas e mitos?

redonda disse...

Há cerca de um ano, aqui no Porto, um taxista contou-me essa história, indicando-me a loja e contando-me que a senhora tinha sido salva no último momento pelo marido, quando já lhe iam cortar qualquer coisa!
Achei muito interessantes as lendas urbanas do anónimo em cima :)

Xantipa disse...

Cara Redonda,

Pois é, as lendas apresentadas pelo anónimo são interessantes...
Quanto à versão do taxista, é interessante como se pode ver que estas lendas estão por todo o lado e vêm de muito, muito longe.
Beijinho

Rafeiro Perfumado disse...

Fiquei a saber que no século XVIII já havia lojas dos chineses. Será que nessa altura também já teriam incentivos fiscais para se implementarem? ;)

Beijoca!