29 setembro 2006

«Crónica de uma exclusão anunciada»

Texto de Paula Barata Dias (neste artigo faz-se ainda uma análise da situação das humanidades no ensino secundário em Portugal) in Boletim de Estudos Clássicos, nº 39 (Junho 2006), pp.117-129

Há cerca de dois anos, passavam duas telenovelas à mesma hora, nas televisões nacionais de maior audiência, os Morangos com Açúcar, na TVI, série de produção nacional ainda hoje popular entre jovens, e a Malhação, novela brasileira da Globo, na SIC. As duas concorrendo no mesmo segmento de mercado, tinham um enredo semelhante: a vida familiar, afectiva e escolar de jovens de classe média, na maioria em ambiente urbano, bem vestido e saudável. Nas duas, pela mesma altura, um apontamento de conteúdo semelhante ficou-me gravado na memória: em Morangos com Açúcar, surgia uma família a tomar uma refeição à mesa. Era uma família crise, pela diferença de personalidades dos pais. O pai, um tecnocrata com a mania da perfeição e os complexos do status, levemente antiquado, e a mãe, próxima e amistosa com os filhos, atenta à actualidade e flexível, mas infeliz e submetida à tirania do marido. O pai, com um livro na mão, declama um soneto de Camões para as suas duas filhas adolescentes “Um mover dia olhos, brando e piedoso”. As suas filhas, enfadadas mas submissas, são salvas pela intervenção da mãe que acusa o pai de estar a massacrar as meninas com coisas que não interessam nada. O pai afirma a sua autoridade, dizendo que no seu tempo todos conheciam de cor alguns poemas de Camões, e que assim devia ser hoje. A mãe permite às meninas que saiam da mesa, e que vão para os seus colégios aprender o que na verdade interessava.
O poema de Camões prestou-se à caracterização de um vilão. Ora, a popularidade das novelas promove-se pela adesão à cultura e às expectativas do receptor, e este acharia natural colar a imagem meu pai execrável e de comportamento duvidoso a um poema de Camões, também ele serôdio, emergindo de Portugal que não está na moda.
Em Malhação, um jovem morre de acidente de mota ao sair de uma festa, e seus colegas e familiares homenageiam-no com cerimónias fúnebres sentidas. Um deles recita em voz alta e silêncio absoluto dos ouvintes, o poema de Pessoa “No dia em celebravam o dia dos meus anos”. Todos, respeitosamente e comovidamente, compreendem a evocação do poema na sua toada nostálgica de uma juventude inocente que, de uma maneira natural ou abrupta, como era o caso jovem acidentado, morre. A série tinha um grande sucesso entre o público juvenil brasileiro, os milhões que o compõem, mas em Portugal não resistiu à concorrência de Morangos com Açúcar.
(…)
Estes retalhos da vida dos nossos jovens ficaram-nos na memória por mostrarem o modo deplorável como, no geral, os portugueses convivem com a sua história e com a sua cultura. Todos nos comovemos quando um não português e um não lusófono dão mostras de se interessar ou apreciar algo da nossa cultura, mas constantemente desconsideramos e remetemos o nosso património cultural, histórico e literário para um conveniente silêncio.
(…)
Passaram dois anos desde a reforma curricular do ensino secundário. Muitos de nós intuíram que a mesma poderia trazer por decreto a morte de uma área de saber, associada à cumplicidade e ao silêncio de um país que, orgulhoso dos seus centos de história e fronteiras fixas, bule ao primeiro vento, julga que avança quando apenas dá saltos, adere ao superficial e recusa viver em paz com o seu património cultural.

1 comentário:

pataphisico_azul disse...

O maldito, o zarolho, o vilão! E islamófobo, dizem. Vai-se a ver, e até era sionista. As armas e os falcões assinalados/Que da oriental serra galileia/Por desertos só por misseis navegados/Ficaram-se aquém do Nasrallah