27 setembro 2007

«Disfarçar os defeitos»

A Arte de Amar, de Ovídio, está dividida em três livros, sendo os dois primeiros «dirigidos aos homens e o terceiro às mulheres. O primeiro visa, genericamente, ensinar o homem a seduzir a mulher; o segundo, a conservar o amor, depois de concluído, com êxito, o processo de sedução; o terceiro engloba o mesmo conjunto de ensinamentos, mas, desta feita, dirigidos à mulher.», diz Carlos André, autor da tradução publicada pela Cotovia.
Segue-se um excerto do livro III:

«Rara é a beleza que está livre de defeito; disfarça os defeitos
e, tanto quanto puderes, esconde as mazelas do teu corpo.
Se és pequena, senta-te, para, de pé, não pareceres sentada,
e estende-te, por pequena que sejas, no teu leito;
mesmo aí, para não poderem tirar-te a medida, quando estendida,
esconde os pés, lançando-lhes por cima o manto;
a que é delgada demais, vista roupa de pano grosso
e faça cair dos ombros um manto largueirão;
a que tem uma cor desmaiada traga no corpo riscados de púrpura;
se és morena em demasia, parte em busca da ajuda de tecidos de Faros;
o pé chato deve ficar sempre resguardado dentro de sapato branco e fino,
e pernas descarnadas não devem andar sem correias;
ficam bem pequenos chumaços em ombros altos;
à volta do peito raso deve sempre passar um corpete.
Deve acompanhar de gestos curtos tudo quanto disser aquela
que possui dedos gordos e unhas sujas;
a que tem mau hálito nunca fale em jejum
e guarde senpre distância do rosto do seu homem;
se tens dentes negros ou grandes ou tortos,
enorme é o teu prejuízo quando te rires.»
(261-280)

7 comentários:

Miguel G Reis disse...

Ola Xantipa

Aparências, meras aparências.
Numa era em que as pessoas se separam por da ca aquela palha, e em que a troca de favores sexuais é a coisa mais fácil do mundo, os conselhos do Ovídio são péssimos. No mínimo uma receita para a desilusão. Em vernáculo, a gaja (idem para o gajo, claro)acaba comida e posta de lado, se não há nada de verdadeiro que mantenha a ligação.

Assim se vê que os antigos, por vezes, envelhecem mal. Como o vinho...
LOLLLLLLLL

Beijinhos
Rui

Diogo disse...

Sobre o caso Santana Lopes e SIC Noticias, vejam o novo vídeo disponivel no meu blog
http://Monarquico.blogspot.com/

ou directamente no youtube
http://www.youtube.com/watch?v=e2SFVL2_d_U

Gi disse...

Pelo contrário, eu acho estes conselhos muitíssimo actuais num mundo em que tudo tende a resumir-se às aparências.
Ou seja, ainda que os conselhos possam ser péssimos - não são, apenas demonstram futilidade, mas dento desta fazem todo o sentido - os antigos envelhecem bem ;-)

Xantipa disse...

Queridos Miguel e Gi,

Eu acho estes conselhos bastante interessantes e, se alguns podem parecer fúteis, outros até são razoáveis: não falar em jejum se se tem mau hálito, por exemplo!
:D
Beijinhos

Vodka e Valçium 10 disse...

Por razões diversas há muito que a lia. Comprei essa edição da Cotovia, mas ainda não a abri, por razões diversas.

Mas sempre que leio este blogue lembro-me desse livro. Hoje passou à frente do Elogio da Loucura, de Le Morte Darthur, da Peregrinação e If on a Winter's Night a Traveler.

Ovídio era, sem dúvida, um génio.

Nilson Barcelli disse...

A preocupação em parecer o melhor possível já muito antiga.
Abordaste um assunto interessante.
Beijinhos.

Funes, o memorioso disse...

O único defeito que se pode apontar ao texto de Ovídio é que aquilo que são defeitos para uns, são qualidades para outros.
Há quem goste de mulheres pequenas, de mulheres excessivamente magras ou excessivamente gordas e por aí fora.
Só não conheço ninguém que goste de mulheres com mau hálito e dentes poderes.
Mas, se calhar, também há.