20 novembro 2008

dor

A perda de seu pai não a chora Gélia quando está só;
se alguém está presente jorram lágrimas de encomenda.
Não sente o luto, Gélia, quem procura ser louvado.
Sente dor verdadeira quem, sem audiência, sente dor.

Marcial, Epigramas, vol. I, Tradução de José Luís Brandão para as Edições 70, em 2000, com introdução e notas de Cristina de Sousa Pimentel

7 comentários:

S.M. disse...

Olá! Triste mas verdadeira, esta última frase de Marcial. Fizeste-me lembrar a minha infância, quando eu fazia exactamente o contrário de Gélia. Não chorava a morte diante dos outros, mas apenas na solidão da noite. Mas porque escolheste este excerto? Pura reflexão ou alguma afinidade? Beijinhos e aquele abraço

Rita F. disse...

Tem graça. Parece-me que se aplica também ao amor.
Beijinho.

claras manhãs disse...

Tenho a mesma opinião
Mas lembro-me de ter abordado este assunto no outro blog, e ter havido quem achasse que a dor só é dor quando se mostra publicamente.
Pontos de vista.

Nuno Firmino disse...

Dói é dor.

Lúcio Ferro disse...

Sim.

A perda de quem nos é querido.

Um adeus inesperado, uma dor da ausência súbita, uma vontade de beijar quem passa por esta sozinha na rua.

Um ser e um não querer ser em directo da ria e um sonho via postal extraviado.


Beijinho para ti, Xantipa, como é cruel o mundo, mas não deixes que te deite abaixo consigo!

Funes, o memorioso disse...

O pensamento é verdadeiro, mas bastante banal. E mistura alhos com bugalhos. Um coisa é eu sentir dolorosamente a perda de alguém. Outra, completamente diferente, é, não sentindo dor nenhuma, eu ter necessidade de fingir que a sinto, para obter um desiderato qualquer, designadamente, para evitar o juízo de censura social que sobre mim pudesse recair, por não chorar a morte de um ente próximo que a prática social postula que se chore. Não vejo mal nenhum nisso.
Naturalmente, a dor ou se sente ou não se sente. E, se se sente, tanto se sente em público como em privado. A disucssão em causa no texto de Marcial (e nos comentários ao post)é outra, é a de saber se há dores que devem ser sentidas. Convenhamos que é uma discussão um bocado estúpida.

Luís Namora disse...

Nem mais.