06 setembro 2008

Chove

Chove muito, chove excessivamente...
Chove e de vez em quando faz um vento frio...

Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.


N'um dia no meu futuro em que chova assim tambem
E eu, á janella, de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah n'esse tempo eu era mais feliz»

Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!

Ah, meu Deus, eu que pensarei d'este dia n'esse dia

E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste

E ha uma grande duvida de chumbo no meu coração...


Álvaro de Campos

[57A-74r] Manuscrito de 20/11/1914. Edição crítica de Teresa Rita Lopes, editada pela editorial estampa em 1993 ( a minha edição é de 97, mas deveria chamar-se reimpressão...)

(imagem daqui)

4 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Venho agradecer a visita e o comentário que deixou no CR.
Passo por aqui com alguma frequência,mas nunca comentei.
Chegou a altura de lhe dar os parabéns e dizer que continuarei a ser visitante deste espaço. Ah! E fico a aguardar as nvidades...

Nilson Barcelli disse...

Ler Fernando Pessoa, em qualquer dos heterónimos, é sempre um prazer.
Boa semana, beijinhos.

A. disse...

...

"(...)É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva(...)"



http://meinem-lied.blogspot.com/2007/12/eating-all-crumbs-from-your-table.html


...e assim seja!





abraço.meu.
*

Rui Luis Lima disse...

Olá Xantipa!
No dia do seu aniversário o poeta encontrou a tabacaria do Esteves fechada e atravessou o Terreiro do Paço, dirigindo-se para o Martinho da Arcada debaixo de uma chuva oblíqua. Entrou e sentou-se perto da mesa onde o Alves lia o jornal da tarde. Pediu então o seu café e o habitual absinto e enquanto esperava pela chegada da sua querida Ofélia decidiu escrever uma Ode Marítima.
Beijinhos
Paula e Rui Lima