23 setembro 2008

Não, não estou a falar dos dilemas das nossas elites e da classe política

Se eu procurar ser alguém, apressando-me a ocupar os bancos da frente da cidade, serei detestado por todos aqueles que nunca poderão chegar ao poder. Pois a superioridade é sempre melindrosa.
Por outro lado, os que têm valor e capacidade e, devido à sensatez que lhes é própria, ficam calados sem se precipitarem para os cargos políticos - será no meio desses que parecerei ridículo e louco, por não preferir a calma de passar despercebido numa cidade carregada de culpa.
Chegado a um cargo honorífico, sentir-me-ei ainda mais posto à distância pelos votos da elite que se apropriou da cidade.
Pois é assim, pai, que as coisas se passam. Os que controlam as cidades e os cargos honoríficos são os mais agressivos em relação aos rivais.

Eurípides, Íon, vv.595-606. Tradução de Frederico Lourenço publicada na Colibri em 1994

3 comentários:

Horácio Salgado disse...

Sou despercebido e quase sempre sinto-me ridículo ou sou chamado de louco. Não me interesso por política; é a minha natureza. Bem... desculpe-me...

Funes, o memorioso disse...

"...os que têm valor e capacidade e, devido à sensatez que lhes é própria, ficam calados..."

Fico calado. Não comento.

Lúcio Ferro disse...

Er... Julgo que Eurípedes terá tido dificuldade ao sentar-se.