27 junho 2008

«o artista é como um pato numa barraca de tiro»

(imagem daqui. Carregue para aumentar)

Reencontro os livros do José Carlos Fernandes, um dos autores que mais gosto. Reparem que não disse um dos autores de Banda Desenhada. JCF é um pensador. Como alguém um dia disse (num jornal espanhol, creio), os seus textos ainda são melhor que os seus desenhos.

Não tenho como digitalizar a página que aqui reproduzo apenas em palavras, mas assim poderão ver o nível do texto. A ambiência é semelhante à acima apresentada. Deixo-vos com uma prancha do volume III - As Ruínas de Babel - de A Pior Banda do Mundo.

8. O Desporto Nacional

Kaspar Grosz, secretário-geral do Partido Impopular Idiossincrático, considera que os inquéritos têm efeitos pernicionos.
- O cidadão comum é tão frequentemente solicitado a responder a inquéritos, sondagens, eleições e referendos, que se convenceu de que a sua opinião tem algum préstimo.
Sobretudo no domínio artístico, pois uma vez que neste existe uma forte componente subjectiva, logo assumem que qualquer opinião é tão boa como qualquer outra.
Assim, tornou-se comum que criaturas que ignoram o que seja um hemistíquio ou uma hipálage discorram com à vontade sobre literatura, ou que, desconhecendo o que seja um pizzicato, uma semi-fusa ou até mesmo um contrabaixo, emitam juízos definitivos sobre música!
Todos parecem ter uma necessidade imperiosa de espalhar a 4 ventos a amálgama de ignorância e preconceito que faz a vez do gosto educado e da cultura.
Frederico Bayer, designer de pastelaria [cumprimentando um músico]
-Ouvi a sua «sonata sub-sónica» para mega-harpa e contra-ocarina... não está má, mas julgo que o acorde final deveria ser maior e não menor.
(...)
[continua Kaspar Grosz]
- Nos tempos que correm, o artista é como um pato numa barraca de tiro: qualquer burgesso que pague bilhete se julga com direito a disparar sobre ele!

10 comentários:

Gi disse...

Isso deixa-me um pouco envergonhada...

Xantipa disse...

LOLLLLLLLLLLL
Nã...
Isto não se aplica a ti...
;)
Beijinhos

Anónimo disse...

Profundo pensamento, com muito humor, claro. Não sou mt conhecedora dos trabalhos de JCF, mas achei este mt interessante.
Não gosto mt de BD, mas acho k vou começar a estar mais atenta.
Já agora k estamos numa de BD, gostaria de aconselhar um site k gosto mt porque acho simplesmente amoroso: http://muttscomics.com/index.asp
tb costumo ler os livros do criador (Patrick MacDonnell) e são super, super giros. Fica uma ideia pr uma leitura de praia muito descontraida e divertida. ;)
Bjs
Ana Paula

Tony disse...

Excelente texto!
Contudo, permita que lhe diga que alguns "artistas", aqueles da "arte pela arte" (que não consigo compreender, nem gostar), estão mesmo a jeito para serem alvejados...
(não, não sou adepto de qualquer tipo de violência, apenas falo de crítica).
Um abraço e um bom fim de semana.

Anónimo disse...

Lamento, não gosto dessa BD e sim, não falo de cor.

Para além do eletismo que exuda e das roupagens pseudo-kafkianas que a ornamentam, tem ainda uma grande desvantagem ineludível: é secante, chata, aborrecida.

Sugiro Corto Maltese, por exemplo «A balada do mar salgado», muito menos elitista ou pseudo-kafkiana mas muito mais profunda também - ou não fosse esta uma BD salgada com as lonjuras do Pacífico. Boas (melhores)leituras.

Xantipa disse...

Obrigada pelo comentário e pelos votos.
:)
Leio (lia) muita BD, incluindo o Corto Maltese, que relerei, claro, quando o encontrar (já o vi numa caixa por aí, mas perdi-o de vista).
:)
Mas gosto muito do José Carlos Fernandes. Acho muita graça ao reconhecimento de autores, mesmo nos desenhos, como Kafka, precisamente, ou Borges.
Provavelmente é elitista, mas não acho que o seja com o intuito de escrever apenas para alguns. Todos compreendem, mas uns atingirão mais que outros. Aliás, como em qualquer leitura.
Bom sábado!
:)

Méon disse...

O que eu aprendo neste espaço!
Obrigado, Xantipa!

carneiro disse...

"que faz a vez do gosto educado e da cultura."

O "gosto educado" e a "cultura" dominante regra geral é uma apropriação convencional, egoísta, de um padrão (mesmo quando o padrão é um não-padrão e que poderia ser qualquer outro), motivado por razões de classe social, de casta académica ou de concentração de saberes específicos que não interessa partilhar ou disseminar sob pena de perderem a exclusividade que lhe confere o chic.

Por outro lado, os artista da "arte pela arte", enfim....

Como é que eu consegui sobreviver neste mundo civilizado um ano inteiro sem ter visto a colecção Berardo ? a bilhas de oxigénio, seguramente...Por condescendência caridosa do culturalmente correcto. Só pode ser.

Xantipa disse...

Eu ainda não vi a colecção Berardo, ó Carneiro. Deve ser do oxigénio que sobrou das tuas bilhas.
:)
Já agora, e os budas do Berardo lá na nossa terra. Viste? Eu ainda não... excepto aqueles que despontam no alto das árvores...

carneiro disse...

Falta saber o que está dentro dos budas...eheheh