29 outubro 2008

Não ama verdadeiramente quem não amar sempre

Não ama verdadeiramente quem não amar sempre

Gosto dos episódios das tragédias.
Diz Aristóteles, na Poética, que o episódio «é uma parte completa da tragédia entre corais».
Em muitos destes diálogos estão os momentos de maior tensão, já que vamos assistindo ao evoluir das situações e às perguntas e respostas, muitas vezes entendidas apenas por nós, espectadores, que sabemos bem o que as frases querem dizer, ao contrário das personagens em cena. Recordo como Tirésias diz a Édipo que ele é o assassino que procura e como este não entende as palavras do adivinho, mesmo quando ditas com toda a clareza. São destes episódios que me lembro quando oiço/vejo os diálogos dos filmes com Humphrey Bogart, quando a resposta parece quase ser mais rápida que a pergunta.
Outra característica dos episódios são as frases lapidares, daquelas que apetece citar. Algumas tornaram-se mesmo proverbiais. Gosto de abrir uma tragédia qualquer e sublinhar, com o meu lápis-encontrador-de-belezas (roubado ao Gonçalo M. Tavares), uma frase ao acaso, descontextualizada, como hoje, de Eurípides, As Troianas, 1051, na fala de Hécuba (acusa ndo Helena):

Não ama verdadeiramente quem não amar sempre

8 comentários:

Rita disse...

Concordo.
É verdade.
O amor é como os existencialistas dizem que a vida é: a fazer sentido, só faz no fim, isto é, estamos a morrer e pensamos "realmente, amei e fui amado".
As vantagens de virmos ao blog da tia comentar: num breve comentário, verbalizamos o sentido da vida e do amor. Se os Gregos tivessem blogues, meu Deus, já nem haveria mais nada que valesse a pena discutir.
No entanto, gostaria de trazer à liça uma questão: a frase proverbial refere-se a amar sempre a mesma pessoa, ou ao acto de amar sempre? É que se pode amar sempre, mas pessoas diferentes. Eu vou interpretar como amar sempre a mesma pessoa. Isso é que é!

ana v. disse...

E não é que é verdade mesmo, cara Xantipa? O amor não se compadece com intermitências... tem que ser permanente, ainda que de vez em quando se possa chamar outra coisa qualquer (amizade, preocupação, ódio, raiva...) :-)

Nos clássicos está tudo o que é preciso saber, não há dúvida.

um beijo

Xantipa disse...

Minha querida sobrinha Rita,

Neste contexto, é amar sempre a mesma pessoa. A frase é uma argumentação de Hécuba a Menelau, para que ele não leve Helena no seu barco, pois ela iria conseguir seduzi-lo de novo, depois de todos os males que causou.
Ele responde:
«Depende da disposição de espírito de quem ama. Mas será como queres: ela não embarcará no mesmo navio que eu. Não dizes mal.»
Beijinhos da tia N.

Querida Ana,

É (quase) verdade: nos clássicos está (quase) tudo!
:)
Beijinhos

Rui disse...

Frases assim são faróis no meio do nevoeiro dos sentimentos e das emoções. Até que ele se dissipa e tudo brilha renovado e simples. Bjs

Méon, disse...

Amar sempre a mesma pessoa: chama-se a isso a "constância" no amor.
O contrário das borboletas que andam de flor em flor...

Gosto destas tuas "lições" de clássicos...
Beijinho

José Ricardo Costa disse...

Estas poderiam ser as palvras que Antígona diria a Creonte, ainda com as mãos sujas de terra. Antígona preferiu morrer com a consciência viva do seu amor pelo irmão do que viver com uma consciência morta por não ter provado esse amor com actos. Morrendo amando, amou para sempre.

JR

sem-se-ver disse...

amar sempre, sem interrupções, ou amar para sempre, sem interrpções?

elucida-me.

redonda disse...

Gostei da ideia do lápis-encontrador-de-belezas. A frase parece muito verdadeira.