22 outubro 2006

A minha opinião??

Queres saber a minha opinião? Não acho que interesse muito, mas não foste o único a perguntar.
Vou contar-te uma história.
Um dia, ouvi um conversa entre a minha mãe e a minha avó que não era suposto ter ouvido.

Quando eu estava presente, nunca falavam dos seus assuntos nem de outras pessoas. Quando, por acaso, estavam a meio de uma conversa e eu entrava, logo as pessoas passavam a ser chamadas de «criaturas» («aquela criatura do outro dia, sabes?») e eu não percebia nada, cumprido assim o objectivo.
Nesse dia ouvi-as falar de uma «criatura» que eu conhecia. Pensavam que eu não estava ali e deram-lhe um nome... Tinhas duas filhas. Pouca instrução (uma pessoa humilde, dizia-se na altura). Não sei que idade teria... nem 30 anos... não me lembro. Para mim era uma mulher «crescida». O marido, que lhe batia com frequência, tê-la-ia ameaçado de que, se tivesse outro filho, a matava. Ela terá sabido que, se pusesse umas ervas «lá dentro» e depois puxasse com agulhas de crochet, o feto sairia...
O resultado imagina-se.
Morreu, com os intestinos perfurados.
Nunca mais me esqueci disto. Fiquei profundamente chocada.

Quando, pouco depois (teria eu os meus 14 ou 15 anos), me lembro de se ter discutido a despenalização do aborto pela primeira vez, esta história pairava na minha cabeça.
Se esta mulher tivesse ido a um centro de saúde, como era jovem, como o filho não era resultado de uma violação, será que poderia argumentar que a sua vida estava em perigo, caso fosse para a frente? Perigo de vida da mãe também seria quando uma mulher era ameaçada pelo marido??
Nessa época eu era católica apostólica, romana, praticante. Mas nunca cedi. Prisão para esta mulher?? Nunca.
Não acredito que alguém escolha o aborto como método contraceptivo.

Se sou contra o aborto? Sou. Como sou contra muitas práticas legalizadas neste país. Não é por ser permitido que as faço.
Se sou contra a penalização do aborto (ou do eufemisno «interrupção voluntária da gravidez»), completamente? Sou. Completamente.

Aqui tens a minha opinião.

(agradeço às «Claras em Castelo» a chamada de atenção para o meu erro!! Tinha ali um prefixo negativo a mais! Sou a favor da despenalização do aborto, como não poderia deixar de ser...)

5 comentários:

Anónimo disse...

Desculpa Xantipa, mas não percebi. E no meio de tudo o que disseste vais votar contra a despenalização?
Porque mulheres ameaçadas ou não podem continuar a morrer; porque existe mas é bom que continue ilegal;Não, não percebi o que pensas.

Xantipa disse...

Desculpa eu. Já corrigi o post. Sou completamente a favor da despenalização do aborto.
Obrigada!
:)

Anónimo disse...

Xantipa:

Só tu, p me fazeres pela primeira vez, comentar algo num blog! Já tenho lido algumas coisas c interesse, mas continuo a preferir os livros c folhas e etc. e o tempo já tanto escasseia... mas, neste dia chuvouso lembrei-me de vir ver o teu blogue, q ainda n li c a atenção, cuja qualidade seguramente merece e eis senão quando e p meu espanto vou lendo:
"Não acredito que alguém escolha o aborto como método contraceptivo."
Bem, infelizmente n estou tão certa, como tu... mtas simplesmente, n escolhem, n pensam nisso, n consciezalizam os seus actos à priori, abortam levienamente, depois de terem assim engravidado, o q n quer dizer q tal, lhes seja indiferente... engravidar/abortar, mas podem ter problemas mais básicos da sua sobrevivência psíquica e física q lhes dificultam pensar no outro/bebé/filho/vida...
"Se sou contra o aborto? Sou. Como sou contra muitas práticas legalizadas neste país. Não é por ser permitido que as faço."
Nesta parte, estou absolutamente de acordo!
"Se sou contra a despenalização do aborto (ou do eufemisno «interrupção voluntária da gravidez»), completamente? Sou. Completamente."
Ai! Fiquei absolutamente surpreendida e por isso estou a escrever... Gostava de entender melhor a tua posição... Posturas inteligentemente pensadas fazem sp. bem serem ouvidas c a devida atenção, mas poderia dizer q pessoalmente (e n profissionalmente) sou absolutamente a favor da despenalização do aborto, o q não quer dizer q ache q tem riscos, etc, etc... e o q n quer dizer q como tu pp. dizes, q por ser uma prática legalizada/permitido me faça sentido, algum dia o fazer. É mesmo algo, sobre o qual n digo q nunca o farei, pois n tenho como certo quase nada, mas pessoalmente não sequer nenhuma circunstãncia hipótetica que me faça pensar, algo do genero: ah, se for assim, talvez... ou seja, pessoalmente, concordo com a legalização de uma prática, na qual não me revejo de todo, nem a quero p mim, mas em termos de direito, de possibilidade, sou claramente a favor da despenalização do aborto...
Bj,
Parabéns pelo Blogue!

Xantipa disse...

Cara Leitora Anónima,
Obrigada pelas palavras que o meu erro mereceu!
Espero que voltes cá e vejas que foi mesmo um erro!
Não fazia sentido, depois que tudo o que afirmava, ser a contra a despenalização! Não sei como aconteceu, mas a verdade é que escrevi um «des» que não queria!
Mas se te levei a manifestar-te, com tanta clareza, ainda bem que errei! Sinto-me honrada por ter sido a primeira que mereceu um comentário teu.
;)
E terás provavelmente razão quando dizes que há quem use como método contraceptivo... mas não acredito que o faça com esse conhecimento. Isto é, nas situações que referes « n escolhem, n pensam nisso, n consciezalizam os seus actos à priori, abortam levienamente», o aborto não foi o método contraceptivo usado como escolha consciente. Foi... simplesmente foi... Algumas nem sabem bem que há métodos contraceptivos...
E concordo contigo em tudo o resto. Não escolheria para mim, mas não acho que deva penalizar quem o faz.
Mais uma vez obrigada pela atenção que deste às minha palavras e ao meu blogue.
:)

Bom Garfo disse...

A Xantipa levanta aqui uma situação: a cobardia da maior parte dos homens. O homem é, na sua maioria, um cobarde. No caso que a Xantipa contou,

“O marido, que lhe batia com frequência, tê-la-ia ameaçado de que, se tivesse outro filho, a matava.”

ilustra bem o que é o homem, na sua maioria: cobardes. Esta é a minha convicção mais profunda. Às vezes sinto vergonha de ser homem. Os cobardes abusam dos mais fracos, porque com os mais fortes não se metem, ou antes, metem o rabo entre as pernas.

A mulher tem que se libertar dessa cobardia masculina; e não é fazendo exactamente o que o homem cobarde quer que se liberta do seu jugo: pelo contrário, com o aborto, é a mulher que passa pelas depressões, pelas tentativas de suicídio, pela dificuldade de voltar a engravidar, etc. : é ela a vítima e não a beneficiária; ela e quem não nasceu. Ela tenta fugir de um problema e arranja outros, e ele continua a sua vida irresponsável e flauteada. É isto o feminismo? A subjugação implícita à cobardia masculina? Penso que não.
Entramos já num feminismo de terceira vaga (ler Naomi Wolf). Jane Fonda “já era”, passou à História.